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Salus in Caritate

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Iluminura de manuscrito românico, século XII, produzida em contexto monástico europeu, representando o Agnus Dei em mandorla estrelada, rodeado por coros angelicais e figuras humanas em adoração.





No mundo angélico, também chamado de mundo dos espíritos, dado que os anjos são espíritos e Deus é espírito, há uma atuação das criaturas umas sobre as outras, assim como no mundo corpóreo. A esse influxo São Tomás dá o nome de iluminação: é o ato pelo qual um puro espírito influi sobre outro, transmitindo-lhe a luz recebida de Deus, relacionada ao governo do universo.

Essa comunicação das iluminações divinas ocorre de modo gradual e ordenado. Deus comunica diretamente suas ordens aos que estão mais próximos d’Ele; estes, por sua vez, as transmitem aos demais, numa ordem tão rigorosa que a iluminação dos primeiros só alcança os últimos por meio dos intermediários.

Assim se estabelece a ordem angélica: há anjos superiores, intermediários e últimos. O mundo angélico se divide em hierarquias e ordens. O termo hierarquia, vindo do grego, significa principado sagrado. Seu sentido pleno é: o conjunto de criaturas, homens e anjos, chamados a participar das coisas santas sob o governo de Deus, Rei dos reis e Príncipe soberano.

Os homens, enquanto vivem neste mundo, não pertencem à mesma hierarquia dos anjos; mas, no Céu, serão admitidos nas hierarquias angélicas. Existem três hierarquias, cada qual composta de três ordens, que se distinguem pelo conhecimento que possuem da razão das coisas no que toca ao governo divino.

Os da primeira hierarquia recebem diretamente as ordens de Deus, e seus nomes refletem essa proximidade. Os da segunda recebem a iluminação da primeira, e seus nomes se relacionam ao conjunto das coisas criadas. Os da terceira recebem as ordens divinas da segunda, de forma concreta e particular, para comunicá-las às inteligências humanas. É nesta hierarquia que se encontram os anjos da guarda e os principados.

Cada anjo é único e irrepetível. Nenhum se iguala ao outro, pois, assim como nos homens, Deus manifesta sua multiplicidade de dons em cada criatura. Essa multidão executa as ordens divinas em perfeita harmonia, refletindo a glória de Deus. Por isso chamamos suas ordens de coros angélicos.

As ordens, em ordem descendente, são: Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, Potestades, Virtudes, Principados, Arcanjos e Anjos. Tais nomes exprimem a natureza própria de cada coro.

Essas ordens subsistem também entre os demônios, pois a natureza angélica permaneceu neles. Contudo, sua superioridade jamais se exerce para o bem, já que não possuem iluminação — esta vem de Deus, de quem se apartaram. Por isso o reino dos demônios é chamado império das trevas.

Baseado: Suma Teológica de São Tomás de Aquino em forma de Catecismo






Oração


Santos Anjos, inundai minha alma com boas disposições e inspirai as minhas ações.

Santos Serafins, rogai por mim e inspirai-me uma ardente caridade. Santos Querubins, rogai por mim e inspirai-me obras de purificação. Santos Tronos, rogai por mim e inspirai-me o santo temor de Deus.

Santas Dominações, rogai por mim e inspirai-me a viver na Santa Ordem Divina. Santas Potestades, rogai por mim e inspirai-me a amar e adorar a Santa Vontade Divina. Santas Virtudes, rogai por mim e inspirai-me a trilhar o caminho da saúde espiritual e corporal; afastai de mim os inimigos visíveis e invisíveis, fortalecei-me nas lutas.

Santos Principados, rogai por mim e protegei esta diocese, o país e a Igreja. Inspirai o Papa, todo o clero e os governantes de todo o mundo. Santos Arcanjos, rogai por mim e inspirai-me a seguir o Santo Evangelho e a ser dócil às Ordens de Deus. Santos Anjos, rogai por mim e inspirai-me a viver uma vida santa, para que, no fim da vida, eu tenha uma morte santa.

Nossa Senhora, Rainha dos Anjos, e meu Santo Anjo da Guarda, fazei-me cumprir a Vontade de Deus.

Todos os anjos do Céu, vinde depressa, socorrei-me e guiai-me.


PS: Esta oração é uma sugestão pessoal, breve e inspirada nas funções próprias de cada coro angélico.


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estudo da carta aos corintios pela doutrina catolica



Introdução

Este é um material de apoio do Projeto de Leitura Bíblica: Lendo a Bíblia, para baixar o calendário de leitura bíblica e os outros textos de apoio dos Doutores da Igreja , online e pdf, sobre cada livro da Bíblia, clique aqui. 

Este projeto é um dos ramos de uma árvore de conteúdos planejados especificamente para o seu enriquecimento. Os projetos que compõem esta árvore são: Projeto de Leitura Bíblica com textos de apoio dos Doutores da Igreja (baixar gratuitamente aqui), Plano de Vida Espiritual (baixar gratuitamente aqui), o Clube Aberto de Leitura Conjunta Salus in Caritate, com resenha e materiais de apoio (para ver a lista de livros, materiais e os cupons de desconto  2020 clique aqui) e o Salus in Caritate Podcast (ouça em sua plataforma preferida aqui). 



Nota do VS: O presente texto que apresentamos aos nossos leitores é parte de um belíssimo e extraordinário comentário da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios feito pelo mais Doutor dos Santos e o mais Santo dos Doutores da Igreja, isto é, de Santo Tomás de Aquino.
A tradução para a língua portuguesa foi feita por Rodrigo Santanta e revisada por Alessandro Lima de um texto editado em castelhano pela Editorial Tradicón (S. A. Av. Sur 22 No. 14 – entre Oriente 259 y Canal de San Juan – , Col Agricola Oriental. Codigo Postal 08500) de 1983. A edição em castelhano (disponível no site da Congração para o Clero: http://www.clerus.org) se deu através de um exemplar em latim intitulado Sancti Thomae Aquinatis Doctoris Angelici super Primam Epistoiam Sancti Pauli Apostoli ad Corinthios expositio editado por Petri Marietti em 1896.
O texto bíblico citado por Santo Tomás é o da Vulgata de São Jerônimo, infelizmente as atuais traduções em português não são tão fiéis aos termos empregados nesta referência católica das Escrituras, desta forma optamos por traduzir da Vulgata os textos utilizados neste comentário, dando assim maior uniformidade e fidelidade ao texto latino de Santo Tomás.
O que nos motiva a publicar o presente trecho do comentário de Santo Tomás (sobre o capítulo 14 de 1 Cor) é que ele trata de um tema  ainda muito incompreendido entre nós católicos deste século: o dom de línguas. Neste trecho de seu comentário o Doutor Angélico apresenta-nos a doutrina tradicional da Santa Igreja Católica a respeito deste tema que é de especial interesse em nosso tempo. É mister lembrar ainda que os Pontífices Romanos não só recomendaram-nos à doutrina do Aquinate (Santo Tomás), mas também em diversas oportunidades confirmaram a autoridade de seus ensinamentos para toda a Igreja Católia (alguns exemplos: Aeterni Patris de Leão XIII, Doctoris Angelici de S. Pio X , Lúmen Ecclesiae de Paulo VI, Sapientia Christiana, Laborem exercens, Inter Munera Academiaraum de João Paulo II).




Comentário de Santo Tomás de Aquino à Primeira Carta aos Coríntios


Capítulo 14
Texto sobre o dom de línguas.
Lição 1: 1Co 14,1-4

Primazia do dom da Profecia sobre o dom de línguas.

1.    Buscai a caridade; mas também desejai com emulação os dons espirituais, especialmente a profecia.2. Pois o que fala em línguas não fala aos homens senão à Deus. Em efeito, nada ele entende: diz verbalmente coisas misteriosas.3. Pelo contrário, o que profetiza fala aos homens para sua edificação, exortação e consolação.4. O que fala em línguas, edifica-se a si mesmo; o que profetiza, edifica toda a assembléia.

Uma vez afirmada a excelência da caridade à respeito dos demais dons, logicamente compara agora o Apóstolo os demais dons entre si, e mostra a excelência da profecia sobre o dom das línguas. E para isto faz duas coisas. Primeiro mostra a excelência da profecia sobre o dom das línguas, e logo como se deve usar tanto do dom das línguas como o da profecia.

Primeiramente, faz duas coisas. Faz ver que o dom da profecia é mais excelente que o dom das línguas, em primeiro lugar por razões relativas aos infiéis, e em segundo por razões da parte dos fiéis.

A primeira parte se divide por sua vez em duas. Primeiro mostra como o dom da profecia é mais excelente que o dom das línguas pelo uso daquele nas exortações ou ensinamentos; em segundo termo, pelo que vê do uso das línguas, que é para orar. Com efeito, para estas duas coisas é o uso das línguas: Por isso aquele que fala em línguas peça para poder interpretar (14,13). Enquanto ao primeiro, ainda duas coisas. Desde logo antepõe uma, pela qual se assegura o que segue; e ela é isto: Dito está que a caridade excede a todos os dons. Logo se isto é assim, buscai, isto é, esforçadamente, a caridade, que é o doce e proveitoso vínculo dos espíritos. Ante todas as coisas a caridade, etc. (1P 4,7). Sobre todas as coisas tenham caridade (Cl. 3,14).
...

Mas como nas coisas espirituais existem certos graus, porque a profecia excede o dom de línguas, se disse: especialmente a profecia, como se dissera: entre os dons espirituais desejai com maior emulação o dom da profecia. Não extingais o Espirito; não desprezeis a profecia (1Filem 5,19-20).

Mas para a explicação de todo o capítulo devem-se ter desde agora em conta três coisas, a saber: o que é profecia, de quantos modos se designa a profecia na Sagrada Escritura, e o que é falar em línguas.

Acerca do primeiro se deve saber que profeta é algo assim como o que vê ao longe, e em segundo lugar alguns o entendem como falar prognósticos, mas todavia melhor se toma por guia, farol, que é o mesmo que ver.

...
É, pois, a profecia a visão ou manifestação de futuros incertos ou do que excede a inteligência humana. Mas para tal visão se requerem quatro coisas.
Com efeito, como nosso conhecimento é mediante as coisas corporais e por espectros ou imagens tomadas das coisas sensíveis, primeiramente se necessita que na imaginação se formem semelhanças corporais das coisas que se mostram, como ensina Dionísio, pelo qual é impossível que nos ilumine a luz divina se não seja mediante a diversidade das coisas sagradas envoltas em véus.
O que em segundo lugar se necessita é uma luz intelectual que ilumine o entendimento sobre coisas que se devem conhecer acima de nossa natural cognição.

Com efeito, como a luz intelectual não se dá senão sobre as semelhanças sensíveis formadas na imaginação para serem entendidas, aquele a quem tais semelhanças se mostram não pode ser chamado profeta, mas senão um sonhador, como o Faraó, que embora viu espigas e vacas, as quais indicavam certos fatos futuros, como não entendeu o que viu, não se chama profeta, senão que o é, aquele José, que fez a interpretação. E o mesmo há que dizer de Nabucodonosor, que viu a estátua, mas não entendeu. Pelo qual tampouco ele foi chamado profeta, senão a Daniel. Pelo qual se disse em Daniel 10,1: Lhe foi dada na visão sua inteligência.

O que em terceiro lugar se necessita é ousadia para anunciar o revelado. Pois para isto fez Deus suas revelações: para que sejam manifestadas aos demais. Eis, eu ponho minhas palavras na tua boca (Jr. 1.9).

O quarto são os milagres, que são para a certeza da profecia. Pois se não fizerem alguns, que excedam as forças naturais, não crerão naquilo que está por cima da cognição natural.

Pelo que aponta ao segundo, os modos da profecia, sabemos que existem diversos modos de ser profeta. 
Com efeito, às vezes se diz que alguém é profeta porque tem estas quatro coisas, a saber: que vê visões imaginárias, e têm a compreensão delas, e ousadamente as manifiesta aos demais e também faz milagres, e de um como está dito em Numeros 12,6: Se existe entre vós um profeta, etc.

Chama-se também às vezes profeta o que só tem as visões imaginárias, mas impropriamente e muito de longe.

Também se diz às vezes profeta ao que tem a luz intelectual para explicar também as visões imaginárias, ou feitas a ele mesmo, ou a outros; ou para expor os ditos dos profetas ou as Escrituras dos Apóstolos.
...

Mas o que aqui diz o Apóstolo em todo o capítulo sobre os profetas deve-se entender do segundo modo, isto é, do que se diz que profetiza aquele que explica em virtude da luz divina intelectual as visões recebidas por ele mesmo ou por outros. É claro que aqui se trata desta classe de profetas.

Quanto ao dom de línguas devemos saber que como na Igreja primitiva eram poucos os consagrados para pregar pelo mundo a fé de Cristo, a fim de que mais facilmente e a muitos anunciassem a palavra de Deus, o Senhor deu-lhes o dom de línguas, para que a todos ensinassem, não de modo que falando uma só língua fossem entendidos por todos, como alguns dizem, mas sim, bem literalmente, de maneira que nas línguas dos diversos povos falassem as de todos. Pelo qual disse o Apóstolo: Dou graças a Deus porque falo as línguas de todos vós (1Cor 14,18). E em Atos 2,4, se disse: Falavam em várias línguas, etc. E na Igreja primitiva muitos alcançaram de Deus este dom.

Mas os corintios, que eram de indiscreta curiosidade, preferiam esse dom que o da profecia. E aqui por falar em língua, o Apóstolo entende que em língua desconhecida e não explicada: como se alguém falasse em língua teutônica a um galês, sem explicá-la, esse tal fala em língua. E também é falar em língua o falar de visões somente, sem explicá-las...

Visto estas coisas, dediquemo-nos à exposição da carta, que é clara. E para isto faz o Apóstolo duas coisas. Primeramente prova que o dom de profecia é mais excelente que o dom de línguas; e em segundo lugar rechaça qualquer objeção: Volo autem vos…: Desejo que faleis todos em línguas; prefiro, contudo, que profezeis (1Cor 14,5). Que o dom de profecia exceda o dom de línguas o prova com duas razões, das quais toma a primeira da comparação de Deus com a Igreja; e a segunda razão se toma da comparação dos homens com a Igreja.

A primeira razão é a seguinte: Aquilo pelo qual faz o homem as coisas que não são unicamente em honra de Deus, mas também para utilidade dos próximos é melhor que aquilo que se faz tão unicamente em honra de Deus. É assim que a profecia é não unicamente em honra de Deus, mas também para a utilidade do próximo, e pelo dom de línguas se faz unicamente o que é em honra de Deus. Logo etc.

Averigua esta razão, e primeiramente enquanto a sua primeira parte, para o qual disse: O que fala em línguas edifica-se a si mesmo (1Cor 14,4). (Dentro de mim meu coração me ardia, Sl. 38,4). Em segundo lugar enquanto a sua segunda parte, para o qual disse: Mas o que profetiza edifica, instruindo, a Igreja, isto é, aos fiéis. Edificados sobre o fundamento dos Apóstolos e dos Profetas (Ef. 2,20).

Como se dissera: não menosprezo o dom de línguas como se dele caressese, pois eu também o tenho, pelo qual disse: graças dou a Deus. E para que não se creia que todos falavam uma só língua, disse: porque falo todas as línguas de vós (Falavam os Apóstolos em várias línguas, Atos 2,6). 
...

Assim é que está escrito que em línguas estranhas, isto é, em diversos gêneros de línguas, e por lábios estrangeiros, ou seja, em diversos idiomas e modos de pronunciar, falarão a este povo, ao dizer, aos judeus, porque este sinal se deu especialmente para a conversão do povo judeu: Nem assim escutaram, porque com sinais manifestos não creram. Endureceu o coração deste povo, etc. (Is 6,10).

... não obstante que o dom de línguas se ordena para a conversão dos infiéis...

Disse, pois, primeiramente que o modo de usar do dom de línguas deve ser de tal maneira entre vós, que se fala em línguas, ou seja, sobre visões, ou sonhos, tal discurso não se faça por muitos, de modo que o emprego do tempo nas línguas não deixe lugar aos profetas, e se gere a confusão. Senão que falem dois, e se for necessário três, de modo que seja suficiente com três. Por declaração de dois ou três (Dt 17,6). E é de notar-se que este costume é conservado até agora na Igreja. Porque lições, e epístolas e evangelhos temos no lugar das línguas, e por isso na Missa falam dois, pois só por dois se dizem as coisas que pertencem ao dom de línguas, isto é, epístola e evangelho. (nota: São Tomás fala dos mistérios da Palavra de Deus interpretado corretamente pela Igreja)

...ensina quando não se deve usar das línguas dizendo que se deve falar por partes e que haja um que interprete. Porque se não há quem interprete, que quem tiver o dom de línguas guarde silêncio na assembléia, isto é, que não fale nem anuncie as pessoas na língua desconhecida (nota: sendo língua desconhecida sonhos, visões ou qualquer outra coisa sem entendimento) ... 

Assim é que não vale o pretexto de que te impulsiona o Espírito sem que possa calar.

Contudo, como, todavia poderia objetar-se que aquilo não ocorreria porque somente aos Coríntios mandava o Apóstolo estas coisas e não às demais Igrejas, pelo que até como algo molesto poderia ser considerado, agrega que isto ensina não somente a eles senão também em todas as Igrejas; e com efeito disse: Como ensino em todas as Igrejas dos Santos sobre o uso das línguas e da profecia. Já disse acima: Que tenhais todos um mesmo sentir (1Cor 1,10).



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Iluminura de manuscrito medieval, provavelmente século XIII, produzida em contexto monástico europeu, representando a força divina em forma de círculo radiante, com quatro figuras humanas ou angelicas em gesto de devoção, sobre fundo azul ornamentado.





Ponto I



Deus é Soberano e Senhor de todas as coisas, pois todos os seres do mundo estão sujeitos ao governo e domínio supremo, único e absoluto de Deus. Assim, coisa alguma existe no mundo espiritual, material e humano, independente da ação divina, a qual conserva a existência de todos os seres e os conduz ao fim para o qual foram criados, que é Deus mesmo e a sua própria glória.


Deus rege e conserva o universo para que, na ordem e concerto do mundo, se possa refletir e manifestar o pensamento Daquele que o criou, o conserva e o governa. Assim, o concerto e a ordem admiráveis do universo expressam a glória de Deus.

No plano atual da Providência, não existe nada mais perfeito e grandioso que a obra da Criação, a conservação e o governo do universo. Isso considerando um fato ainda mais sublime: dizemos plano atual da Providência, pois Deus é onipotente, assim nem o conjunto das obras mais perfeitas pode exaurir o seu poder infinito.





Ponto II


Deus governa o universo conservando-o no ser e conduzindo-o ao fim para o qual foi criado. É o próprio Deus que conserva a existência dos seres. Assim, a conservação do universo, assim como a Criação, são obras próprias e exclusivas de Deus.

Deus poderia aniquilar o mundo, se assim quisesse; bastaria que suspendesse por um instante a ação que dá, a cada momento, a virtude do ser. Logo, a existência das coisas se mantém debaixo da ação direta, absoluta e constante de Deus.

O fim da Criação é a glória de Deus, e a glória exige não a destruição, mas a conservação do criado.

As criaturas, por sua vez, apresentam transformações, mais ou menos profundas, conforme a espécie, e dentro da mesma espécie, conforme os diversos estados. Algumas transformações ocorrem por ação direta de Deus. Tais ações, quando fogem da explicação humana, são chamadas de milagres. Deus fez e faz milagres por sua bondade, para que os homens vejam a sua grandeza, para fazê-los ver que intervém no mundo e para a sua glória e bem dos homens.



comentários de são tomas, estudo da biblia pela doutrina catolico

Introdução

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SÃO TIAGO



São Tiago, o Justo, morto em 62 d.C., também conhecido como Tiago de Jerusalém, Tiago Adelfo (de Tiago Adelphoteos) ou ainda Tiago, irmão do Senhor, foi uma importante figura nos primeiros anos do Cristianismo. A Enciclopédia Católica conclui que, baseado no relato de Hegésipo, Tiago, o Justo, é o mesmo que o apóstolo conhecido por Tiago Menor (irmão do apostolo Judas, não o Iscariotes), e, em linha com a maior parte dos interpretes católicos, é também Tiago, filho de Alfeu e o Tiago, filho de Maria de Cleofas (irmã de Maria, a Mãe do Senhor; segundo boa parte dos exegetas). Ele não deve ser confundido, porém, com o também apóstolo conhecido por Tiago Maior (irmão de São João Evangelista).

Após a Paixão, São Jerônimo (Confessor e Doutor da Igreja, 347-420 d.C, século III e inicio do IV) escreveu, que os apóstolos selecionaram Tiago como bispo de Jerusalém. Ao descrever seu modo de vida ascético em seu De Viris Illustribus (Homens Ilustres) cita o relato de Hegésipo (cronista católico do século I) sobre Tiago a partir do quinto livro da obra "Comentários" , hoje perdida: “Após os apóstolos, Tiago, irmão do Senhor, chamado o Justo, foi feito líder da igreja de Jerusalém. Muitos de fato são chamados de Tiago. Este era sagrado desde o útero de sua mãe. Ele não bebia vinho ou bebida alcoólica, não comia carne e nunca se barbeava ou se ungia com cremes ou se banhava. Ele apenas teve o privilégio de entrar no Santo dos Santos, pois ele de fato não vestia roupas de algodão, apenas de linho, e entrou sozinho no templo e orou tanto por seu povo que seus joelhos têm a fama de terem adquirido a aspereza dos de um camelo.” — De Viris Illustribus, Jerónimo, citando Hegésipo 

Como era ilegal para qualquer um exceto o sumo-sacerdote do templo adentrar o Santo dos Santos e, mesmo assim, uma vez por ano durante o Yom Kippur (Dia do Perdão, uma das datas mais importantes do judaísmo), a citação de Hegésipo por Jerônimo indica que Tiago era considerado um sumo-sacerdote. A obra "Reconhecimentos", de Pseudo- Clemente (Papa Clemente, século I), também sugere assim.

Sobre o martírio:
De acordo com Hegésipo, os escribas e os fariseus foram até Tiago em busca de ajuda para liminar as crenças cristãs. O relato diz:

“Eles vieram, portanto, em grupo até Tiago e disseram: "Nós te suplicamos, contenha o povo: pois eles se desviaram em suas opiniões sobre Jesus, como se ele fosse o Cristo. Nós te suplicamos, convença todos que vieram aqui para o dia da Páscoa, sobre Jesus. Pois nós todos ouvimos sua persuasão; pois nós também, assim como todo o povo, somos testemunhas que tu és justo e não mostras preferência por ninguém. Convence portanto o povo a não entreter opiniões errôneas sobre Jesus: pois todo o povo, e nós também, ouvimos a sua persuasão. Tome uma posição firme, então, no alto do templo, de modo que possas ser visto claramente por todos, e tuas palavras possam ser claramente ouvidas por todos. Pois, para comemorar a Páscoa, todas as tribos vieram para cá e também alguns gentios.

Para desgosto dos escribas e os fariseus, Tiago corajosamente testemunhou que Cristo "sentava-se no céu do lado direito Grande Poder e retornará nas nuvens celestiais".

Então eles confabularam entre si "Erramos ao procurar seu testemunho sobre Jesus. Vamos então subir e jogá-lo de lá, para que eles tenham medo e não acreditem nele.”

...lançaram abaixo o homem justo... [e] começaram a apedrejá-lo, uma vez que ele não morrera na queda; mas ele virou e se ajoelhou e disse: "Eu imploro-te, Senhor Deus nosso Pai, perdoa-os pois eles não sabem o que fazem." E, enquanto eles estavam apedrejando-o até a morte, um dos sacerdotes, dos filhos de Recab, o filho de Rechabim, de quem testemunhou Jeremias, o profeta, começou a gritar, dizendo: "Parem, o que estão fazendo?

O homem justo está rezando por nós.". Mas um dentre eles, um dos tintureiros, tomou seu cajado com o qual ele estava acostumado a manipular as vestes que tingia, e atirou na cabeça do homem justo.E assim ele sofreu o martírio; e eles o enterraram ali mesmo, e o pilar que foi erguido em sua memória ainda está lá, perto do templo. Este homem foi uma testemunha verdadeira tanto para os judeus quanto gregos de que Jesus é Cristo."

— Fragmentos dos "Atos da Igreja" sobre o Martírio de Tiago, o irmão do Senhor.


O QUE É UM CONFESSOR?


Confessor ou Confessor da Fé é um título masculino concedido pela Igreja Católica e Igreja Ortodoxa a santos e beatos que não foram martirizados.

Historicamente, o título de confessor foi concedido a todos aqueles que sofreram perseguição e tortura pela fé, mas não ao ponto do martírio. Muitas vezes é usado para definir qualquer santo, bem como aqueles que tenham sido declarados abençoados, que não podem ser categorizadas como mártir, apóstolo, evangelista, ou virgem.

Como o cristianismo emergiu como a religião dominante na Europa após o quinto século, as perseguições tornaram-se raras, e o título foi dado a homens santos que viveram uma vida sagrada, mas sofreram algum tipo de atentado, não propriamente por serem cristãos, como São Luís de Montfort, que sobreviveu a um envenenamento por outros sacerdotes por inveja de suas pregações.

Talvez o exemplo mais conhecido seja o do rei inglês São Eduardo, o Confessor (foi o penúltimo Rei saxão de Inglaterra, entre 1042 e 1066. Era filho de Etelredo II e de Ema da Normandia. Foi canonizado pelo papa Alexandre III, em 1161.).

É possível que confessores tenham outros títulos, como, por exemplo, Papa e confessor, confessor e doutor da Igreja, entre outros.


O QUE É UM DOUTOR DA IGREJA?


Os Doutores da Igreja são homens e mulheres ilustres que, pela sua santidade, pela ortodoxia de sua fé, e principalmente pelo eminente saber teológico, atestado por escritos vários, foram honrados com tal título por desígnio da Igreja.

Os Doutores se assemelham aos Padres da Igreja, dos quais também diferem. Padres da Igreja são aqueles cristãos (Bispos, presbíteros, diáconos ou leigos) que contribuíram eficazmente para a reta formulação das verdades da fé (SS. Trindade, Encarnação do Verbo, Igreja, Sacramentos. ..) nos tempos dos grandes debates e heresias. O seu período se encerra em 604 (com a morte de S. Gregório
Magno) no Ocidente e em 749 (com a morte de S. João Damasceno) no Oriente. 

Para que alguém seja considerado Padre da Igreja, requer-se antiguidade (até os séculos VII/VIII), ao passo que isto não ocorre com um Doutor.Para os Padres da Igreja, basta o reconhecimento concreto, não explicitado, da Igreja, ao passo que para os Doutores se requer uma proclamação explicita feita por um Papa ou por um Concílio. Para os Padres, não se requer um saber extraordinário, ao passo que
para um Doutor se exige um saber de grande vulto.

EM SUMA

Doutor da Igreja é aquele cristão ou aquela cristã que se distinguiu por notório saber teológico em qualquer época da história. O conceito de Doutor da Igreja difere do de Padre da Igreja, pois Padre da Igreja é somente aquele que contribuiu para a reta formulação dos artigos da fé até o século VII no Ocidente e até o século VIII no Oriente. Há Padres da Igreja que são Doutores. Assim os quatro maiores Padres latinos (S. Ambrósio, S. Agostinho, S. Jerônimo e S. Gregório Magno) e os quatro maiores Padres gregos (S. Atanásio, S. Basílio, S. Gregório de Nazianzeno e S. João Crisóstomo).

Portanto, o parecer de um Doutor da Igreja é maior do que achismos, independente do assunto em estudo ou discussão.


SÃO TOMÁS DE AQUINO


Conta-se que, quando criança, com cinco anos, Tomás, ao ouvir os monges cantando louvores a Deus, cheio de admiração perguntou: “Quem é Deus?”.A vida de santidade de Santo Tomás foi caracterizada pelo esforço em responder, inspiradamente para si, para os gentios e a todos sobre os Mistérios de Deus. 

Nasceu em 1225 numa nobre família, a qual lhe proporcionou ótima formação, porém, visando a honra e a riqueza do inteligente jovem, e não a Ordem Dominicana, que pobre e mendicante atraia o coração de Aquino.Diante da oposição familiar, principalmente da mãe condessa, Tomás chegou a viajar às escondidas para Roma com dezenove anos, para um mosteiro dominicano. No entanto, ao ser enviado a Paris, foi preso pelos irmãos servidores do Império. Levado ao lar paterno, ficou, ordenado pela mãe, um tempo detido. Tudo isto com a finalidade de fazê-lo desistir da vocação, mas
nada adiantou.

Pregador oficial, professor e consultor da Ordem, Santo Tomás escreveu, dentre tantas obras, a Suma Teológica e a Suma contra os gentios. Chamado “Doutor Angélico”, Tomás faleceu em 1274, deixando para a Igreja o testemunho e, praticamente, a síntese do pensamento católico.

Santo Tomás de Aquino, rogai por nós!


COMENTÁRIOS


Como foi dito, o Verbo de Deus é o Filho de Deus, como o verbo (mental) do homem é concebido pela inteligência. Mas algumas vezes o verbo (mental) do homem fica como morto, quando alguém pensa em realizar alguma coisa, mas a vontade de executa-la não se manifesta.

Assim também quando alguém crê e não faz as obras, a sua fé pode ser chamada de morta, conforme se lê na carta de São Tiago: “Como o corpo sem alma é morto, a fé sem as obras é morta” (Tiag. 2, 26). A carta aos Hebreus afirma que o Verbo de Deus é vivo, lendo-se nela: “é viva a palavra de Deus” (Heb. 4, 12).

Por essa razão é necessário que haja em Deus vontade e amor. Escreve Santo Agostinho no seu livro De Trinitate: “O verbo sobre o qual pretendemos dar uma noção é um conhecimento com amor”. Como o Verbo de Deus é o Filho de Deus, assim também o amor de Deus é o Espírito Santo.

Por isso, quando o homem ama a Deus, possui o Espírito Santo. São Paulo escreve: “A caridade de Deus foi difundida em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado” (Rm 5, 5).

Muitos frutos provêm para nós do Espírito Santo.

Primeiro, porque Ele nos purifica do pecado. Ora, compete a quem criou uma coisa, refaze- la. A nossa alma foi criada pelo Espírito Santo, porque Deus fez todas as coisas por meio d’Ele, pois é amando a sua própria bondade que Deus faz tudo.

Lê-se: “Amais todas as coisas que existem e nada odiastes do que fizestes” (Sb 11, 25). Lê-se também no livro “Sobre os homens Divinos”, do Pseudo Dionísio: “O divino amor não se

podia permitir ficar sem geração” (Cap. IV). Convém pois que os corações dos homens destruídos pelo pecado fossem refeitos pelo Espírito Santo.

Lê-se: “Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra” (Sl. 103, 30). Nem é motivo de admiração que o Espírito Santo purifique, porque todos os pecados são perdoados pelo amor, conforme se lê nas Escrituras: “Foram-lhe perdoados muitos pecados, porque muito amou” (Is. 7, 47); “A caridade cobre todos os delitos” (Pr 10, 12); “A caridade cobre uma multidão de pecados” (1 Pd 4, 8).


Segundo, porque ilumina a inteligência, já que tudo que sabemos, o sabemos pelo Espírito Santo. Confirmaram-no os seguintes textos da Escritura: “O Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas sugerir-vos-á tudo o que vos disse” (Jo 24 ,26); “A sua unção ensinar-vos-á tudo” (1 Jo 2, 27).

Terceiro, porque o Espírito Santo nos ensina a observar os mandamentos, e, até de certo modo, no-lo obriga.

Ninguém pode seguir os mandamentos de Deus, se não amar a Deus, pois: “Se alguém me amar, observará os meus mandamentos” (Jo 24, 23). Ora, o Espírito Santo nos faz amar a Deus, e nos auxilia nesse sentido. Lê-se no Profeta Ezequiel: “Dar-vos-ei um novo coração, e colocarei no meio de vós um novo espírito; tirarei o coração de pedra da vossa carne; dar-vos-ei um coração de carne, e colocarei o meu espírito no meio de vós; e farei que guardeis os meus mandamentos e os pratiqueis” (Ez 36, 26).

Quarto, por que Ele confirmará em nós a sua esperança da Vida Eterna, já que o Espírito Santo é o penhor da sua herança, conforme estas palavras do Apóstolo aos Efésios: “Fostes assinalados com o Espírito da promessa, que é o penhor da nossa herança” (Ef 1, 14). Ele é, com efeito, a garantia da Vida Eterna.

A razão disto está em que a Vida Eterna é devida ao homem, enquanto este é filho de Deus, e o é feito, enquanto se assemelha a Cristo. Assemelha-se alguém a Cristo pelo fato de possuir o Espírito de Cristo, que é o Espírito Santo. Lê-se na carta aos Romanos: “Não recebestes o espírito de servidão para recairdes no temor, mas recebestes o Espírito de adoção dos filhos, no qual chamamos Abba, Pai. O próprio Espírito certifica ao nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8, 15-16). Lê-se também em outra carta do Apóstolo: “Porque sois filhos de Deus, enviou Deus o espírito do seu Filho nos nossos corações, chamando — Abba, Pai”. (Gl 4, 46).

Quinto, porque o Espírito Santo nos aconselha em nossas dúvidas e nos ensina qual seja a vontade de Deus. Lê-se: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz às Igrejas” (Ap 2, 7); “Escutá-lo-ei como um Mestre” (Is 50, 4).

Trechos dos "Comentários" retirados da Suma Teológica 
Creio no Espírito Santo




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doutrina catolica sobre os frutos


Introdução

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Após ter falado dos dons, santo Tomás acrescenta ainda duas outras questões, verdadeiramente surpreendentes para quem esperaria apenas uma simples descrição de estruturas mentais, mas que não são feitas para nos surpreender, uma vez que sabemos que ele é um leitor assíduo da Escritura. Plenamente consciente do fato de que “o Sermão da Montanha contém o programa completo da vida cristã” (ST I-II q.108 a.3), ele se interroga sobre o que são as bem-aventuranças das quais o Senhor fala nos evangelhos (Mt 5, 3-12; Lc 6, 20-26), e sobre o que São Paulo denomina “os frutos do Espírito” (Gl 5, 22-23; ST I-II q.69-70). A aproximação não é arbitrária, porque há mais de um ponto comum entre frutos e bem-aventuranças, e a união com o Espírito Santo é evidente a partir do momento em que se percebe que tudo isso tem suas raízes nele como em sua fonte. Muito pouco lidas, porque se tende a considerá-las secundárias num movimento de conjunto da Suma, as duas questões são, ao contrário, apreciadas pelos melhores teólogos moralistas de hoje. Eles vêem aí de bom grado “um programa de vida e de progresso espiritual” e se inspiram para “traçar um retrato do homem espiritual”.

A lista das bem-aventuranças não tem necessidade de ser aqui lembrada, mas talvez seja útil recordar os doze frutos do Espírito tais como Tomás os encontrava no latim da Vulgata: caridade, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, longanimidade, mansidão, fé, modéstia, continência, castidade (não se encontrará no grego do Novo Testamento a integralidade desta lista, da qual se conhecem apenas nove elementos). Para compreender de que se trata, deve-se saber que, em relação às virtudes e aos dons, as bem-aventuranças e os frutos não representam novas categorias de habitus, mas simplesmente os atos que deles provêm:

A palavra fruto foi transferida das coisas materiais para as espirituais. Na ordem material, chama-se fruto o que a planta produz ao atingir seu pleno desenvolvimento e traz em si certa suavidade. Nesse sentido, o fruto tem dupla relação com a árvore que o produz e com o homem que dela colhe. Assim, pois, podemos entender a palavra fruto nas coisas espirituais de dois modos: primeiro, diz-se fruto do homem, como da árvore, o que é produzido por ele; segundo, diz-se fruto do homem o que o homem colhe.
(ST I-II q.70 a.1)

Esta simples apresentação do vocabulário permite um primeiro esclarecimento. Se se pensa naquilo que é produzido pelo homem, é claro que são os atos humanos que levam o nome de frutos. Se eles estão de acordo com a capacidade da razão, são frutos da razão; mas se são produzidos por uma faculdade mais alta, a do Espírito Santo que age nas virtudes e nos dons, “então se diz que a ação do homem é fruto do Espírito Santo, como proveniente de uma semente divina” (ST I-II q.70).

Mas se pensamos no fruto como aquele que é colhido pelo homem, então se abre ao olhar uma perspectiva de amplidão insuspeitada. O fruto do homem, como o de uma terra, não é somente este ou aquele produzido isolado, mas a renda total que a plantação aporta. Transposto para o campo do agir humano, o fruto colhido será o fim último do qual o homem terá gozo. “Segue-se que nossas obras, em sua qualidade de efeito do Espírito Santo que opera em nós, se apresentam como frutos, mas na medida em que elas estão ordenadas a seu fim que é a vida eterna elas se apresentam antes como flores” (ST I-II q.70 a.1 ad 1). Tomás, de quem se vangloria o rigor da linguagem, não recua ocasionalmente diante da metáfora, mas esta é particularmente bem elaborada: da semente que o Espírito Santo deposita na alma ao fruto da bem-aventurança, passando pelas flores de nossas boas obras, temos efetivamente todo um programa.

Mas se, seguindo São Paulo, ele fala mais dos frutos do que das flores é que os atos virtuosos levam em si mesmos seu próprio prazer e até mesmo sua recompensa (In ad Galatas 5, 22, lect. 6, n. 322). É aqui que encontramos as bem-aventuranças. Como os frutos, as bem-aventuranças são também atos que têm por origem as virtudes e os dons, mas elas se distinguem dos frutos no sentido de que são atos ainda melhores: “Exige-se mais para a noção de bem-aventurança do que para a dos frutos … chamam-se bem-aventuranças unicamente as obras perfeitas; é por isso, aliás, que são atribuídos aos dons mais do que às virtudes” (ST I-II q.70 a.2). Sobretudo pelo fato de que elas levam o mesmo nome que o fruto ultimamente colhido, as bem-aventuranças dizem melhor que a imagem do fruto de que elas são apenas o começo de uma realização em devir.

Entre Santo Ambrósio, que reservava as bem-aventuranças para a vida futura, e Santo Agostinho, que as entendia da vida presente, ou ainda São João Crisóstomo, que as repartia em duas categorias, Tomás teve de escolher sua via pessoal; sua resposta é de muito interesse:

Para esclarecer esse assunto, cumpre considerar que a esperança da bem-aventurança futura pode existir em nós por duas razões: primeiro, por uma preparação ou disposição para a bem-aventurança futura, e isso se dá pelo merecimento; depois, como um início imperfeito dessa bem-aventurança nos santos, já na vida presente, pois a esperança de ver a árvore frutificando é diferente quando ela frondeja verdejante e quando começam a aparecer os primeiros frutos.

Assim, tudo o que nas bem-aventuranças se indica como mérito prepara ou dispõe para a bem-aventurança, seja ela completa ou apenas iniciada. Mas o que se afirma como prêmio pode ser ou a própria bem-aventurança perfeita, e nesse sentido pertence à vida futura, ou a alguma bem-aventurança iniciada, como ocorre entre os santos, e nesse sentido os prêmios pertencem à vida presente. Com efeito, quando alguém começa a progredir no exercício das virtudes e dos dons, pode-se esperar dele que chegará à perfeição de sua caminhada aqui e na pátria (ST I-II q.69 a.2).

Essas reflexões transmitem, sem nenhuma dúvida, o eco de uma experiência espiritual, se não forçosamente a do autor – o que, no entanto, se pode imaginar – ao menos a de tantos santos que ilustraram as bem-aventuranças à sua maneira. É bem verdade, como diz Tomás a propósito da bem-aventurança das lágrimas, que os santos são consolados nesta vida, uma vez que têm parte no Espírito consolador; do mesmo modo, famintos de justiça, são eles também saciados, uma vez que seu alimento, como o de Jesus, é fazer a vontade do Pai. 

Quanto aos puros de coração, é também verdade que eles Vêem Deus de certa maneira pelo dom da inteligência (ST I-II q.69 a.2 ad3). Mas o eco dessa experiência espiritual se percebe talvez melhor quando Tomás se interroga sobre a maneira pela qual os frutos são ao mesmo tempo distintos e ligados entre si:

Como se considera fruto o que vem de algum princípio como de uma semente ou raiz, será preciso atentar para a distinção desses frutos, conforme os diferentes modos (processus) pelos quais o Espírito Santo procede conosco. Ora, esse procedimento implica, primeiro, que a mente humana (mens hominis) seja ordenada em si mesma; segundo, que se ordene em relação ao que está ao seu lado e, em terceiro lugar, em relação ao que lhe é inferior.

Fica a mente do homem bem disposta em si mesma quando se comporta bem tanto em relação ao bem quanto em relação ao mal. Ora, a primeira disposição da mente humana para o bem é o amor, sentimento primordial e raiz de todos os sentimentos [cf. I-II q.27 a.40]. E, por isso, entre os frutos do Espírito Santo o primeiro citado é a caridade, na qual o Espírito Santo se dá de modo especial, como em sua própria semelhança, porque ele mesmo também é amor. Daí a palavra da carta aos Romanos (5, 5):

 “A caridade de Deus foi derramada em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”. Mas o amor da caridade gera necessariamente a alegria, pois quem ama se alegra de estar unido ao amado. Ora, a caridade tem Deus a quem ama sempre presente, segundo a primeira carta de João (4, 16): “Quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele”. Portanto, a alegria é conseqüência da caridade.

Mas a perfeição da alegria é a paz, sob dois aspectos. Primeiro, quanto ao repouso das perturbações exteriores, pois não pode desfrutar perfeitamente do bem amado quem é perturbado por outras coisas nessa fruição. Ao contrário, quem tem o coração perfeitamente pacificado por um único objeto, por nenhum ato pode ser molestado, pois considera tudo o mais como nada. Por isso se diz no Salmo (118, 165): “Grande é a paz dos que amam a sua lei: para eles não há mais obstáculos”, isto é, as coisas exteriores não os impedem de fruir de Deus. Segundo, a paz é também a perfeição da alegria, no sentido de que ela acalma a instabilidade dos desejos, pois não goza da alegria perfeita quem não se satisfaz com o objeto que o alegra. Ora, a paz exige duas coisas: que não sejamos perturbados pelas coisas externas e que os nossos desejos descansem num só objeto. Essa é a razão por que depois da caridade e da alegria, coloca-se em terceiro lugar a paz. (ST I-II q.70 a.3)


Tomás prossegue juntando a “paciência” e a “longanimidade” a essa boa ordenação interna de si mesmo, mas na adversidade. No que concerne à retidão das relações com respeito ao outro, ele situará de maneira semelhante a “bondade”, a “benignidade”, a “mansidão” (ou igualdade de alma), a “fé” (que tomará a forma da fidelidade com respeito ao homem e de entrega de si na submissão do espírito com respeito a Deus). A lista termina com a reta ordenação das coisas menos sobressalentes, e então aparecem a “modéstia”, a “continência” e a “castidade”. Sem que seja necessário seguir detalhadamente o processo, a longa citação que fizemos basta para mostrar o lugar dos frutos do Espírito Santo e das bem-aventuranças na construção do organismo espiritual. De fato, tudo se tem, aqui como alhures, e, mesmo se São Paulo provavelmente não pensou numa descrição sistemática, o esforço do teólogo, que procura compreender como as coisas se encadeiam umas às outras, não somente nada deslocou de lugar, mas é profundamente esclarecedor tanto da fineza das análises de Tomás como dos elementos de uma doutrina espiritual para qualquer um que deseje percebê-los lendo-as.

No entanto, mais ainda que tudo isso, deve-se observar que Tomás situa de fato toda a vida espiritual sob o signo da esperança da realização escatológica. O jogo do “já e ainda não”, do qual o século XX refez a descoberta com a leitura da Bíblia, comanda o conjunto das opções do Mestre de Aquino. Já o vimos a propósito de sua concepção da teologia e da maneira pela qual fala do sacramento da Eucaristia. Encontraremos em outro texto, e com significativa insistência, toda a vida espiritual situada sob o signo do caminho e de suas etapas entre o “começo inacabado”, que é o da graça em ação numa vida, e a realização futura, que será o termo desse esforço:

A graça do Espírito Santo, tal como a possuímos no presente, mesmo se não é igual à glória em ato (in actu), está em germe (in virtute), como a semente das árvores contém em si a árvore inteira. Do mesmo modo, pela graça habita em nós o Espírito Santo que é a causa suficiente da vida eterna; por isso, ele é chamado na segunda carta aos Coríntios (1, 22) “O penhor de nossa herança”.
(ST I-II q.114 a.3 ad 3)
Fonte: Jean-Pierre Torrel, Santo Tomás de Aquino, Mestre Espiritual, Ed. Loyola, 2ª ed.



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Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

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