A edição da Salutaris sobre A Arte Moderna, o trabalho mais recente, está realmente muito interessante; foi extremamente cansativo produzir esta edição. A arte moderna é caracterizada pelo caos e pela enorme variedade de movimentos artísticos. Na edição Pausa, sobre o Fim da Arte, os ensaios abordaram toda essa diversidade, e na edição da Salutaris sobre arte moderna isso fica visível. Ainda assim, achei necessário incluir dois outros ensaios para comentar, aprofundar e articular os pontos vistos nas obras dos 14 artistas apresentados.
O processo de curadoria foi realmente difícil, principalmente na escolha das obras que melhor representam cada artista e seu movimento artístico. Muitas vezes me vi revisitando a curadoria e acrescentando uma ou outra obra. O processo foi concluído e fiquei realmente feliz em produzir este volume, que é o sexto. A revista nasceu de um desejo pessoal e de um interesse cultivado ao longo de anos em jornalismo cultural e estudos culturais.
Na arte existe um tipo de obra chamado “pintura de gabinete”: são obras pequenas para decorar espaços menores, já que, antigamente, algumas pessoas viviam em casas enormes, mas não utilizavam diariamente todos os cômodos. Normalmente, escolhiam alguns poucos e concentravam a vida cotidiana neles, decorando-os com um pouco mais de atenção.
As revistas de arte e os ensaios filosóficos são iniciativas que buscam oferecer ao leitor um conteúdo de gabinete, algo mais palatável, para ser visto, usado e revisitado no dia a dia. Isso sempre foi do meu interesse: essa possibilidade, assim como as diversas revistas e cadernos filosóficos, literários e artísticos publicados no Brasil e fora dele com essa intenção.
Recentemente escrevi uma newsletter para os Mecenas da revista Salutaris, com indicações de coisas muito interessantes e inusitadas, ressaltando a importância de ter interesses e, principalmente, de dedicar tempo para cultivá-los. Tenho a impressão de que as pessoas, independentemente da idade, têm se tornado desinteressadas. Talvez pela vida moderna, agitada e voltada à produtividade rentável.
É estranho uma pessoa que não se interessa genuinamente por nada.
Tenho pensado que esse é o motivo de as amizades serem raras. De modo geral, elas surgem a partir de interesses e gostos; não acredito que precisem ser os mesmos, mas é necessário que exista algum interesse. É um pouco assombrosa essa ausência de interesses: parecem pessoas vazias.
É tão maravilhoso ser interessado. Eu rezo a Deus para que eu não perca essa graça: divertir-me por ser interessada, sem ter curiosidade vã.
Uma vez, em aula, uma pessoa comentou que a curiosidade era boa por conta de um livro traduzido como “educação pela curiosidade”. No entanto, a tradução mais exata seria “educação pelo maravilhamento”: uma curiosidade positiva, que leva a algum lugar e preenche a alma. Penso que o maravilhamento ainda não foi bem compreendido.
No livro Graça e Beleza busquei revisitar essa temática tão vasta, interessante e profunda, bem mais profunda do que simplesmente ver coisas bonitas na internet. Esse movimento da alma, de nutrir-se, preencher-se e transformar-se após a nutrição, só acontece quando a alma tem interesses, escolhe um deles, dedica tempo ao cultivo e depois comemora o percurso que realizou. É uma vivência muito pessoal, uma construção de um currículo pessoal, formado pelos interesses que receberam dedicação formativa. Muitos desses interesses não serão compartilhados e muito menos rentabilizados. Eu mesma tenho muitos interesses que somente quem é aluno assíduo reparou que eu os tenho, já que não faço nada exclusivamente dedicado a eles. Acredito ser importante citar esse ponto porque tenho a sensação de que quem consome muitas coisas pela internet acredita piamente que está consumindo tudo, absolutamente tudo o que quem produz conteúdo sabe... Ora, isso não acontece, ao menos não nas minhas produções. Eu compartilho aquilo que acredito que vale a pena e conforme o que percebo do processo dos alunos e leitores, eu penso no seu processo.
Mas voltemos...
Como são diferentes as pessoas interessadas, com um currículo pessoal de interesses trabalhado e verdadeiro. É realmente raro, mas eu gostaria muito que você fosse uma dessas pessoas luminosas que habitam o mundo.
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professora Ana Paula Barros
Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).









