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Política Eclesiástica V - Tramas e Dramas

¹Professora Ana Paula Barros


“O amor seja sem fingimento. Aborrecei o mal e apegai-vos ao bem.”- Romanos 12, 9





Nos quatro primeiros textos da série Política Eclesiástica, percorremos a tradição católica que fundamenta a relação entre política e moral, refletimos sobre a estrutura monárquica da Igreja e analisamos a responsabilidade do clero diante dos leigos e da comunidade. Mostramos como a autoridade, orientada pelo bem comum e pela lei divina, deve evitar a tirania e permanecer fiel à tradição. Também nos detivemos na reflexão sobre o comportamento do clero e dos seminários, discutindo como a formação molda atitudes e práticas clericais.

Agora, neste quinto artigo, damos continuidade a essa trajetória, voltando nosso olhar para algumas tramas históricas que ainda hoje determinam atuações eclesiásticas e que, devido à falta de bagagem histórica e ao clima conturbado no Brasil, são compreendidas de forma muito limitada, impedindo que tais conhecimentos sejam utilizados como balizadores de reflexão e ponderamento.

Diante dos recentes acontecimentos ligados à excomunhão dos bispos da Fraternidade São Pio X, é compreensível que surjam inquietações entre aqueles que acompanham em silêncio as movimentações do clero. Desde o ano passado, tenho recebido um número crescente de mensagens que repetem a mesma indagação: “Professora, o que está acontecendo na Igreja?”.

Responder a essa questão não é simples. Para compreender o presente, é indispensável conhecer o passado. Por isso, movida apenas pela minha vocação docente, sem vínculos com grupos específicos, sem interesses político-partidários, sem benefícios ligados a cargos ou congruos, e sem reconhecimento por citações — considerando a forma desrespeitosa como as referências bibliográficas são tratadas no Brasil, sobretudo no meio católico — decidi oferecer algo que possa auxiliar nessa busca. Uma busca que que se depara com a crueza dos fatos e confirma que quem conduz a Igreja é, de fato, o Espírito Santo. Este artigo pretende ser um relato histórico e, ao mesmo tempo, uma contribuição distinta, talvez desconfortável, diante dos prismas já amplamente explorados no Brasil e no exterior.


Portanto, prepare seu café ou seu chá calmante (ou, quem sabe, um chá digestivo seja mais apropriado) e acompanhe a narrativa histórica e os balizadores de ponderamento que selecionei para esta explicação.









Primeiro, é necessário compreender o cenário que deu origem à Fraternidade. Para quem já estudou um pouco, a resposta que costuma surgir é imediata: o último concílio. Contudo, essa explicação é apenas parcialmente correta. O concílio foi, na verdade, a culminância de um movimento que buscava mudanças na Igreja e que pode ser rastreado em publicações literárias de pelo menos uma década antes de sua realização.


Para seguir esse rastreio, é preciso recuar ainda mais algumas décadas e encontrar um grupo chamado Ação Católica Italiana. Voltada para a formação intelectual de leigos, a Ação Católica Italiana tinha como objetivo fortalecer a presença católica no meio secular. Fundada em 1867 por Mario Fani e Giovanni Acquaderni, a associação nasceu como a Sociedade da Juventude Católica Italiana, voltada para a formação espiritual e intelectual dos leigos. Seu lema — oração, ação e sacrifício — expressava a fidelidade ao Papa, o compromisso com a educação religiosa e a dedicação à caridade.

A iniciativa, aprovada oficialmente pelo Papa Pio IX em 1868, cresceu rapidamente e se espalhou pelas paróquias italianas, tornando-se um dos principais instrumentos de engajamento dos leigos na vida da Igreja. No século XX, alcançou milhões de membros e inspirou movimentos semelhantes em outros países. Assim, a Ação Católica Italiana, interessantemente, representa um dos pilares do processo que, décadas mais tarde, desembocaria nas discussões sobre a atuação dos leigos no Concílio Vaticano II. Processo que, em algum momento, tomou uma direção (oposta a da Ação Católica) e geradora de embates. 

Em meio ao regime de Mussolini, o Papa Pio XI viu na Ação Católica Italiana um verdadeiro instrumento da Providência. Incentivou pessoalmente os leigos, defendendo sua liberdade contra as investidas do fascismo. Em 1931, quando Mussolini dissolveu associações juvenis católicas, Pio XI reagiu com firmeza na encíclica Non abbiamo bisogno, denunciando o totalitarismo e reafirmando a missão da Igreja.

Com Pio XII, a Ação Católica ganhou novo impulso. Em plena Segunda Guerra Mundial e no período de reconstrução que se seguiu, o papa reforçou a importância da formação intelectual e cultural dos leigos. Sob sua liderança, o movimento atingiu seu auge, reunindo milhões de membros e exercendo grande influência na sociedade italiana.

Instigada pelo exemplo italiano, a Ação Católica foi incentivada também no Brasil em 1935, adotando como método de formação o “Ver, Julgar, Agir”, inspirado pelo padre belga Joseph Cardijn, fundador da Juventude Operária Católica. Cardijn defendia que os jovens trabalhadores fossem protagonistas na transformação da sociedade e, para isso, propôs um caminho pedagógico que partia da observação da realidade, passava pelo discernimento à luz da fé e culminava na ação concreta. Sem necessidade de salientar que o lema já está devidamente entranhado no manto cultural católico brasileiro.

No entanto, a atuação no Brasil revelou-se, em certa medida, deficiente. O clero brasileiro raramente demonstrou intenção de promover uma sólida formação intelectual dos leigos, preferindo concentrar esforços na criação de mão de obra pastoral, algo esperado dado o método de ensino aplicado. Apesar dessas limitações, algumas catedrais e paróquias mantiveram iniciativas relevantes, como o Círculo Tomista, um grupo de estudos inspirado diretamente na formação da Ação Católica Italiana.

Do Círculo Tomista, composto por homens e mulheres, surgiam grupos femininos dedicados à confecção de toalhas, alfaias e paramentos sacerdotais, todos bordados à mão, grupo conhecido como Ofício dos Tabernáculos. Essas mulheres recebiam formação constante em arte, estética e temas ligados à sagrada liturgia e à arte litúrgica. Por volta de 1950, ocorreu um dos últimos encontros voltados à formação desse grupo; dele nasceu um livro sobre vestes litúrgicas e paramentos, redigido pela irmã Maria Vasconcelos.

Esse material, tantas vezes desprezado na coleta de dados, fornece um panorama interessante do pensamento da época, um pensamento que já buscava certa mudança. O livro, de alta qualidade, mostra como o Brasil tinha bons leigos, instruídos e atuantes, mas também evidencia como ideias que podem parecer boas, na verdade, podem gerar maus frutos.

O relato no livro destaca a necessidade de formação e de afastar-se da falsidade no uso dos objetos sacros: a vela deve ser vela, a luz deve ser luz, o ouro deve ser ouro. Há uma forte insistência — uma boa insistência — de que é melhor ser simples do que ostentar algo que apenas parece ser mais do que é. Parece seda, mas não é; parece vela, mas não é; parece ouro, mas não é. Um ponto muito justo, mas que, inevitavelmente, traria seus reveses.

Seguindo o relato, o livro inicia uma surpreendente avaliação estética das casulas romana, gótica e, chocante para a época, a casula ampla. Talvez seja novidade para você, mas a casula ampla, hoje usada pelos padres, foi de difícil aceitação, pois era a mesma utilizada pelos ministros luteranos. O livro participa desse processo de formação de opinião em favor da casula ampla e, para isso, argumenta que a casula romana seria antiestética (!). Lembro: o livro é do início dos anos 50. Ao final, relata a dificuldade de abraçar algo tão característico de outra religião, mas ressalta que o significado de “abraçar a todos” deveria ser considerado e aceito como o melhor caminho.

O Ofício dos Tabernáculos deixou de existir assim que a casula foi trocada. Ou seja, aquele grupo não sabia, mas estava dando um tiro no próprio pé ao defender a casula ampla. Isso se explica facilmente: a casula ampla, como você já deve conhecer, é uma peça única com pouquíssima firmeza (e qualidade de tecido) para trabalhos de bordado manual, enquanto a casula romana e a gótica, embora menores, eram confeccionadas em tecidos apropriados para receber bordados. Pois bem, anos depois, o que temos é uma casula com impressões de máquina, e as mulheres e moças, bem formadas e dedicadas ao Ofício dos Tabernáculos, já não existem mais.

O que nos importa, nesta digressão, é coletar os sinais (visando o aprendizado) de que as sementes da mudança já se lançavam muitos anos antes e, o mais inquietante, em ciclos moldados pela influência de grupos ilustres que, conforme sugerem os textos, acabaram por se extraviar em algum ponto do percurso.






Assim, quando o Concílio aconteceu, já existiam várias frentes prontas para tomar novos rumos. Durante o Concílio, ocorreram discussões intensas e a votação foi extremamente acirrada. Participaram cerca de 2.000 padres conciliares: bispos, arcebispos, patriarcas e superiores religiosos da Igreja Romana (Latina) e das diversas Igrejas Orientais Católicas sui iuris (isto é, Igrejas particulares autônomas em plena comunhão com Roma, cada uma com sua própria tradição litúrgica e disciplina). Além deles, estiveram presentes observadores convidados como líderes protestantes, representantes de Igrejas ortodoxas, judeus e até figuras ligadas a grupos seculares, incluindo maçons. Esses convidados não tinham direito a voto, mas acompanharam os debates e contribuíram com opiniões. Dentro desse universo, o Colégio Cardinalício contava com aproximadamente 90 cardeais (não estavam todos presentes ao mesmo tempo). 

Diante da decisão de mudanças pastorais, mudanças litúrgicas, mudanças de linguagem e de diversas outras coisas ao mesmo tempo, alguns cardeais se opuseram. Entre eles, se destacaram como opositores às reformas: Alfredo Ottaviani, Giuseppe Siri e Ernesto Ruffini. Outros se tornaram defensores das mudanças, como Léon-Joseph Suenens, Julius Döpfner e Giacomo Lercaro. 

Para que você tenha uma ideia, caso não tenha consultado o acervo de publicações, livros e mídias da época, muitos relatam que o rito mudou de forma abrupta, quase da noite para o dia: em um dia seguia-se um rito, no seguinte já era outro, e todos tiveram que simplesmente se adaptar. Oficialmente, as reformas foram implementadas de forma gradual, mas na prática, em diversas comunidades, a transição foi sentida como brusca. Imagine o impacto na cabeça dos leigos e dos padres diante dessa transformação repentina, somada ao caos social que se vivia naquele período (como a construção do Muro de Berlim em 1961, a Crise dos Mísseis em Cuba em 1962, o assassinato de John F. Kennedy em 1963, o Regime militar no Brasil em 1964, a intensificação da Guerra do Vietnã a partir de 1964 e o  movimento em prol dos direitos civis nos EUA entre 1963–1965). 







Além disso, ocorreu uma espécie de “rádio corredor”. Como em todo lugar onde pessoas influentes decidem os rumos da vida de milhares de pessoas, existe uma rádio corredor e no Vaticano não é diferente. Enquanto as falas oficiais aconteciam, um cardeal conversava com outro... a rádio corredor funcionava a todo vapor. O resultado foi que muitas decisões acabaram sendo tomadas com base nesse ambiente paralelo, de onde surgiu a expressão “espírito do concílio”. É por isso que tantas coisas não aparecem nos documentos oficiais, mas são justificadas facilmente com a frase “espírito do concílio”. Essa dinâmica de movimentos paralelos que emergem durante e após um concílio já se verificara anteriormente, no Concílio de Constança, de onde brotou a teoria conciliar. Portanto, nada de novo debaixo do sol.

Dessa rádio corredor, elevada à condição de espírito, vieram várias diretrizes, algumas registradas de forma breve nos documentos oficiais. A mais curiosa está relacionada às imagens nas igrejas. Certamente você sabe que as igrejas mais antigas possuem altares dedicados a santos, altares laterais, muitos deles doados por fiéis. Pois a orientação era de que não deveria haver tantos altares e imagens, o que colocou padres do interior de diversos países diante de uma situação difícil: o que fazer com as imagens doadas pelos fiéis, muitas vezes presentes há décadas na igreja? A solução encontrada foi colocá-las dentro dos altares ou escondê-las em alguns espaços da própria igreja.

Isso mostra a dificuldade e o estado interior de muitos padres: precisavam obedecer à orientação (ou ao menos acreditavam que sim) e, ao mesmo tempo, carregavam em seus corações o peso de agir contra algo que não causava qualquer mal aos fiéis. Afinal, muitas dessas imagens eram sinais da devoção (de famílias inteiras) e fruto das doações voluntárias feitas por eles ao longo dos anos.

Entre os casos mais conhecidos esta o da Igreja de Nossa Senhora do Ó e Conceição, em Valença (Piauí), onde em 2019 foram encontradas imagens de Santa Teresa d’Ávila e Santo Antônio de Pádua escondidas dentro do altar durante uma reforma. Além desse caso documentado, existem relatos em comunidades do interior de Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul, bem como menções em países como Itália e Alemanha, de que imagens foram retiradas ou guardadas em sacristias e depósitos paroquiais devido as orientações conciliares.

Também começaram a ser impressos novos catecismos, não autorizados, com ensinamentos duvidosos, fato que pode ser rastreado em diversas iniciativas do próprio clero para tentar conter essa prática. 

No Brasil, o cenário era ainda mais conturbado: além das mudanças religiosas súbitas que atingiam os fiéis, o país vivia intensas agitações políticas. Neste ponto, cabe destacar um aspecto de importância radical: no Brasil, as tramas religiosas e políticas sempre estiveram fortemente entrelaçadas, de modo que reveses religiosos se vinculam, e sempre se vincularam, a reveses políticos. Isso se torna evidente na atuação da mídia, que frequentemente une, ainda hoje, de forma taxativa, questões de grupos religiosos a partidos e apoios políticos. Tal dinâmica está enraizada na própria trama cultural do Brasil.

Nesse contexto, os movimentos leigos ligados à tentativa de uma Ação Católica no Brasil acabaram se desfazendo, dando origem a pequenos grupos tradicionais, firmes e resolutos. O que permaneceu se transformou na atuação dos leigos por meio das pastorais (que será abordado em outro momento). 








Nos Estados Unidos, por sua vez, entre 1965 e 1985 cerca de 10 a 12 mil padres deixaram o ministério. Esse número, distribuído ao longo de duas décadas, representou um golpe significativo para um país que, à época, era majoritariamente protestante. Para se ter uma ideia da dimensão, considerando que os Estados Unidos possuem cerca de 190 dioceses, cada uma com em média de 100 a 150 padres, muitas delas ficaram seriamente desfalcadas, perdendo dezenas de sacerdotes em pouco tempo, numa crise vocacional que atingiu seu auge por volta de 1970.

Passados quase vinte anos do Concílio, depois de todos esses acontecimentos no mundo, ou seja, em 1988, Dom Lefebvre desejou sagrar bispos. Estando já próximo da morte, deixou também um livro chamado Orientações Espirituais, que é um testamento sacerdotal, visando mostrar a forma como o padre deve conduzir as almas. Do ponto de vista histórico, talvez seja o último material escrito na linguagem da Igreja anterior ao Concílio, quanto à catequese e ao ensino dos padres, tratando de tópicos de importância radical no ensino católico — o que, em si, já traz um valor histórico relevante. Confesso que, como professora, é um texto muito tocante. Ele traz também muitas falas que, para a época, devem ter soado exageradas, mas que, lidas no futuro, é fácil constatar que realmente aconteceram, e essa constatação é profundamente desconcertante.





À época, aqui no Brasil, os padres estavam seriamente tomados por um espírito de despojamento que, em muitos casos, ganhou proporções desmedidas. Em Piracicaba, por exemplo, o prédio da residência episcopal e da cúria diocesana, inaugurado em 1954, foi vendido em 1985. Com isso, toda a administração e os arquivos sacramentais tiveram de ser transferidos provisoriamente para anexos da Igreja São Benedito (uma capela, também com pouco cuidado), e só em 1997 foram reinstalados em outro espaço. Em São Paulo também houve alienações de imóveis ligados à cúria nesse período, dentro da mesma mentalidade de super desapego.

Esse movimento, "inspirado" (inventado aqui no Brasil, pelo clero brasileiro) pelo Concílio Vaticano II (1962–1965), buscava, na teoria, dar exemplo de simplicidade e proximidade com os fiéis. No entanto, trouxe consequências práticas sérias: os prédios da cúria são o centro administrativo da Igreja local, onde ficam arquivados livros de batismo e casamento desde a fundação das dioceses, documentos usados para a feitura de árvores genealógicas, dupla cidadania e outros trâmites eclesiásticos, históricos e sociais. Com a venda desses imóveis, esse material ficou sem a proteção adequada e fora de um espaço próprio para sua preservação. Foi também baseado nessa mentalidade que os templos católicos foram despojados, a ponto de tomarem ares hospitalares.

Após esse momento da sagração de 1988, muitas coisas aconteceram, incluindo outras separações que duram até hoje, todas movidas pelo mesmo tema: a autoridade dos padres e do Papa. Foi nesse contexto que nasceram grupos como a Fraternidade Sacerdotal São Pedro (1988), o Instituto Cristo Rei Sumo Sacerdote (1990), a Administração Apostólica São João Maria Vianney (2002) e o Instituto do Bom Pastor (2006). Todos eles se organizaram em torno da liturgia tradicional, mas buscaram manter comunhão com Roma, diferenciando-se da postura da FSSPX. 

O que nos importa, neste ponto da digressão, é perscrutar o estado dos ânimos e a variedade de acontecimentos pós-conciliares que foram solenemente relegados ao silêncio, numa atuação destinada a moldar a leitura histórica futura (isto é, a nossa leitura dos acontecimentos) como inteiramente benéfica, porém deficiente de uma visão geral.





Entramos, então, no segundo ponto. Muitos dizem que a atuação é similar à dos luteranos; no entanto, avaliando com a mente desprovida de inclinações por um ou outro grupo, não é isso que os levantamentos históricos apontam. Os grupos tradicionais pós‑1988 não se multiplicaram em movimentos independentes e descontrolados como os que surgiram após rebelião de 1517; ao contrário, eles buscaram manter conciliação com Roma, preservando a unidade eclesial mesmo com fortes e justas críticas aos caminhos eclesiásticos pós conciliares.

Lutero escreveu as 95 teses em 1517, que foram rapidamente utilizadas por nobres e burgueses como justificativa para deixar de pagar o dízimo à Igreja. A partir desse movimento, surgiram grupos em vários lugares independentes de Lutero, guiados pelo que se poderia chamar de “espírito das 95 teses”. Lutero tentou contê-los, inclusive de forma violenta.

A Igreja, por seu lado, leu as teses e constatou que mudanças deveriam ser feitas. Para aplicar e alinhar essas mudanças foi realizado o Concílio de Trento (1545–1563). Lutero foi convidado, mas não quis participar. Ou seja, a Igreja resolveu as demandas que ele apontou e, mesmo assim, ele não voltou.


No caso atual, além das divisões a favor do Papa e não contra o Papa, mesmo com aproximações esporádicas, houve momentos em que a Santa Sé chegou muito perto de oficializar a proposta de prelazia pessoal para a Fraternidade São Pio X. O Papa Bento XVI ofereceu essa possibilidade, e o Papa Francisco quase aceitou, deixando em suspenso a exigência imediata de adesão ao Concílio Vaticano II e à missa de Paulo VI. O que levou Francisco a cogitar esse “congelamento” foi sua simpatia pela ideia do caminho sinodal, fortemente influenciado pela visão administrativa alemã (e não, necessariamente visão moral, portanto, "meio alemã") de sinodalidade.


Peço que se atente as explicações que darei a seguir.





Esse modelo de sinodalidade permitiria, na prática, uma gestão eclesiástica regionalizada, em que cada diocese ou conjunto de dioceses poderia, por meio de sínodos locais com bispos, clero e leigos, definir diretrizes próprias. A unidade da Igreja, nesse esquema hipotético, seria espiritual, mas a disciplina e a prática pastoral poderiam variar conforme a localidade. É aqui que o exemplo dos Estados Unidos ajuda a compreender: assim como cada estado possui leis civis diferentes — e ninguém muito progressista se arrisca a propor algo no Texas, onde as normas são conservadoras —, dentro da Igreja seria possível haver dioceses com orientações distintas. Algumas poderiam manter práticas tradicionais, como a Fraternidade que rejeita o Concílio Vaticano II e a missa de Paulo VI; outras poderiam adotar diretrizes progressistas; e outras ainda conservar elementos de ambas.

Esse caminho sinodal "meio alemão" permitiria uma coisa positiva e outra negativa. A negativa seria que a unidade da Igreja se tornaria apenas aparente, pois, na prática, cada região seria dirigida por diretrizes e espíritos distintos. A positiva é que esse modelo de gestão possibilitaria que um padre com perfil conservador fosse transferido para uma diocese reconhecidamente conservadora, enquanto um padre com perfil progressista poderia ser encaminhado para uma diocese de mesma linha. Da mesma forma, os leigos teriam clareza sobre quais regiões possuem dioceses com diretrizes conservadoras ou progressistas, podendo escolher onde se inserir de acordo com suas convicções.

No entanto, o Papa Leão XIV retomou (quando realinhou a definição de sinodalidade) a exigência de aceitação integral do Concílio Vaticano II e da missa de Paulo VI como condição para qualquer reconhecimento da Fraternidade São Pio X. Com isso, a proposta de prelazia foi novamente bloqueada. Não se trata, portanto, do mesmo cenário vivido por Lutero, e é intrigante que tantas pessoas não percebam essa diferença. 

Ainda mais curioso é o fato de que as negociações avançaram durante o pontificado do Papa Francisco, guiadas justamente pela mentalidade sinodal "meio alemã", fruto do Concílio que a Fraternidade rejeita. Nesse contexto, pode-se considerar que, diante de articulações políticas, a Fraternidade tenha vislumbrado a oportunidade de se inserir mais fortemente na dinâmica da política eclesiástica, mantendo suas convicções e, ao mesmo tempo, ampliando sua influência. Tal possibilidade, evidentemente, não agradaria a muitos. Também vale observar que, pela leitura dos fatos, o Papa Francisco (apesar da simpatia a sinodalidade "meio alemã") centralizava a unidade na ligação com o Papa e somente isso. É fato que a Fraternidade deixou de se autodenominar sedevacantista, ou melhor dizendo, passou a corrigir mais fortemente quem assim a denominava quando começou a estabelecer uma troca de cartas com Roma. Já o Papa Leão (seguindo João Paulo II ou Bento XVI) acrescentou à unidade com o Papa a adesão ao Concílio e à Missa de Paulo VI, ampliando o leque de aceitação para manter a unidade.

O que nos interessa nessa articulação é a unidade (ou que achamos que é a unidade). Voltamos nossos olhos em busca de uma definição de unidade. Esta estaria fortemente embasada na adesão conciliar não dogmática, a qual, em algum momento futuro, poderia passar pelo crivo de um novo concílio? Afinal, é preciso distinguir: um Concílio Dogmático define verdades de fé e de moral que permanecem imutáveis, como Niceia ou Trento; já um Concílio Disciplinar trata de normas pastorais e litúrgicas, que podem ser revistas conforme as necessidades compreendidas pela Igreja, como é o caso do último concílio. 

Ainda é preciso refletir, com coração calmo e sensato, se o que temos hoje na Igreja, principalmente na atuação dos padres e dos bispos, pode ser chamado de unidade efetiva.


O que me leva ao terceiro ponto.







Nesse momento, vale visitar a situação na Alemanha. Em política eclesiástica, o quadro é sempre visto de forma ampla: uma peça tem sempre ligação com outra, mesmo que à primeira vista não pareça. Na Alemanha, existem bispos que estão realizando celebrações de casamento entre pessoas do mesmo sexo, utilizando a bênção concedida pelo Papa Francisco para transformar, na prática, esses momentos em cerimônias oficiais. É importante lembrar que tais atos já eram realizados antes de Francisco instituir essa bênção específica, considerada por muitos desnecessária, já que todas as pessoas podem receber a bênção comum que se dá a quem a solicita.

Muito bem, trata-se de uma desobediência que já conta com pelo menos quatro anos de cartas de correção, advertências, pedidos e outras tentativas de ajuste. No entanto, até agora não houve nenhuma excomunhão. Isso gera a pergunta justa de vocês: por que tanta distinção no tratamento? Ainda mais se considerarmos que se trata de um grupo abertamente escandaloso.

Bem, caso seu chá tenha acabado, sugiro que o reponha, pois a resposta é indigesta.


Apesar da explicação comum ser que, normalmente, eles não realizam um ato solene, abertamente desobediente, existe outra resposta que, em termos políticos, está mais próxima da realidade. A Alemanha é composta por dioceses ricas, e o Papa não exerce pleno poder na Alemanha.

Explico.



Quando o Papa escolhe um bispo para governar uma diocese na Alemanha, esse bispo passa a estar vinculado à diocese também na esfera civil. Ou seja, ele se liga juridicamente à catedral, às contas bancárias, aos imóveis e às ações (eles tem ações, você leu certo) como representante legal na esfera civil. Na prática, se o Papa quiser retirar um bispo alemão de sua diocese e o bispo se recusar, a Santa Sé precisará abrir um processo civil para efetivar a remoção, pois o Estado alemão entende a atuação do Papa como uma intervenção externa na esfera de poderes e cargos dentro da Alemanha. Dessa forma, o poder do Papa é limitado, e os bispos alemães têm plena consciência disso.

Isso se deve à própria estrutura política herdada do Sacro Império Romano-Germânico, onde muitos bispos eram também príncipes (Fürstbischöfe), governando territórios com poder civil e religioso. Esses bispos administravam bens, impostos e exerciam autoridade política, o que lhes conferia relativa independência em relação a Roma. Embora nem todos estivessem diretamente ligados à família imperial, sua posição como autoridades territoriais os tornava figuras de peso tanto na esfera espiritual quanto na civil. Essa tradição de autonomia eclesiástica, consolidada ao longo de séculos, deixou marcas profundas na Alemanha e ainda hoje pode ser rastreada como uma das bases históricas que motivam o caminho sinodal alemão, que defende maior autonomia das dioceses frente ao poder central da Santa Sé.

A autonomia foi abraçada pelo Papa Francisco, que deu impulso a essa dinâmica ao promover a sinodalidade fora dos moldes da Alemanha (com alguns ajustes “para não ultrapassar as fronteiras do evangelho”, mas mantendo as possibilidades de gestão local, portanto, uma sinodalidade "meio alemã"). Em seu pontificado, os bispos passaram a ter mais espaço para decisões locais e também mais possibilidades de simplificar processos antes fortemente centralizados em Roma. O ponto negativo, contudo, é que o caminho eclesiástico, antes supervisionado de forma mais direta pelo Vaticano, passou a depender mais da figura do bispo. Houve, portanto, uma descentralização em relação a Roma, mas também uma concentração maior de responsabilidades na esfera episcopal, o que alterou significativamente o equilíbrio de poder dentro da Igreja. O bispo é, de certa forma, o papa mais próximo.





Outro ponto importante é o da riqueza. Na Alemanha, a coleta do dízimo é feita pelo Estado. Isso significa que um cidadão que se declara católico em seus dados oficiais deve automaticamente contribuir com cerca de 8% a 9% do valor do imposto de renda devido, retirados diretamente junto ao imposto. Para não ter que doar, o cidadão precisa comparecer a um cartório e declarar formalmente que não é mais católico; a diocese, ao receber esse documento, procede ao desligamento da pessoa da comunidade. A partir desse momento, ela deixa de pertencer à comunidade e não tem mais direito de receber os sacramentos, como casamento, crisma e outros.

Eu sei que, para um brasileiro, essa conjuntura parece extremamente estranha, mas na Alemanha é assim. Ainda assim, ouso pensar que o não recebimento da comunhão seja algo difícil de monitorar com base no dízimo — e, de fato, eles não têm interesse em fazê-lo. Portanto, você que vive reclamando que é preciso pagar para casar, mesmo sem nunca ter contribuído com nada para a Igreja, deveria considerar que, ao menos, está no Brasil. Talvez seja mais sensato parar de reclamar.

Pois bem, continuando o relato: devido a essa coleta, as dioceses alemãs têm uma quantidade considerável de dinheiro entrando em suas contas, com frequência, sem necessidade de quermesse, pizza, porco no rolete e diversas outras coisas que os padres brasileiros precisam fazer para gerar renda e cobrir as diversas despesas.

Devido a todo esse dinheiro, a Alemanha banca sozinha pelo menos duas obras caritativas do Vaticano e também faz doações adicionais. 







O Vaticano, apesar de sua majestade, vive no vermelho. Segundo os últimos dados, o déficit anual gira em torno de 50 a 60 milhões de euros. Isso ocorre porque o Vaticano é essencialmente uma cidade administrativa e não arrecada impostos dos poucos moradores e lojistas que ali residem ou trabalham. A renda da Cidade do Vaticano vem dos ingressos nos museus, das lojinhas e do Óbolo de São Pedro. 

O Óbolo de São Pedro é a coleta realizada em todas as igrejas no dia da solenidade de São Pedro e São Paulo, destinada a sustentar as obras de caridade do Papa e a missão da Santa Sé. Os países que mais contribuem são os Estados Unidos, a Itália e o Brasil, seguidos por Coreia do Sul, Alemanha, França e Espanha. Com essas doações, é possível cobrir parte do déficit anual do Vaticano, embora os valores arrecadados não sejam suficientes para eliminar completamente o rombo financeiro. 

Portanto, em resumo: a Igreja Católica na Alemanha possui um peso financeiro expressivo dentro da Igreja mundial. O principal fator é o Kirchensteuer, o imposto religioso arrecadado pelo Estado, que garante bilhões de euros anuais às dioceses. Em 2019, esse sistema atingiu seu auge, com cerca de 6,76 bilhões de euros arrecadados. No entanto, desde então, os valores vêm caindo devido à saída massiva de fiéis e ao envelhecimento da população.

Mesmo assim, a Alemanha continua sendo uma das maiores financiadoras da ação global da Igreja. Em 2022, dioceses, ordens religiosas e agências alemãs destinaram aproximadamente 673 milhões de euros para projetos pastorais e sociais em diversos países. Desse montante, cerca de 425 milhões de euros vieram de doações diretas, enquanto 47,8 milhões de euros foram subsídios públicos para iniciativas de desenvolvimento e assistência emergencial.

Apesar dessa força financeira, a Igreja alemã enfrenta uma crise (obviamente). Em 2024, o número de católicos caiu para 19,7 milhões, menos de um quarto da população do país, e apenas 6,6% frequentam regularmente a missa dominical. Além disso, mais de 321 mil pessoas deixaram oficialmente a Igreja em 2024, o que impacta diretamente na arrecadação futura. Projeções indicam que algumas dioceses podem acumular déficits superiores a 100 milhões de euros até 2035.

A Igreja na Alemanha é hoje uma das mais ricas do mundo e sustenta grande parte da ação missionária e social da Igreja Católica. Porém, seu peso financeiro está ameaçado pela secularização (mundanização).







Então, é isso que sinalizo quando escrevo que um dos motivos que impedem sanções aos bispos alemães é que a Igreja na Alemanha é rica? Não, não só isso. Apesar da grande participação na contribuição financeira ao Vaticano, outros países poderiam suprir a falta com tranquilidade em caso de um novo cisma alemão. E nem mesmo toda a Alemanha seria cismática.

A questão é outra: como eles ainda têm dinheiro de sobra e em caso de excomunhão seria difícil retirá-los do cargo, eles teriam dinheiro para abrir seminários abertamente heréticos e crescer muito rapidamente. Entretanto, a forma de desobediência alemã tomou os ares da hipocrisia: eles desobedecem fingindo lealdade. Se o Papa os separar, eles podem facilmente (e ricamente) seguir sem o Papa, como quem diz "azar o seu".

A atitude deles é de puro escárnio, demonstrando obediência nas aparências, enquanto na prática desobedecem — e muitos padres brasileiros seguem o mesmo caminho, sabendo que contam com a proteção de certos cardeais do alto clero. Por isso, meus caros, é muito mais fácil emitir um decreto de excomunhão contra um grupo já desligado uma vez da Igreja (sem vínculo administrativo ou financeiro) do que contra os alemães. 

Um grupo ainda possui pouca influência política e financeira, tanto na maioria dos países quanto dentro da própria Igreja. Isso acontece, em geral, com os movimentos ligados à tradição, embora, no Brasil, esse cenário esteja se desenhando com traços curiosamente distintos, o que certamente poderá nos levar a novos cenários dentro da política eclesiástica.

Já o outro representa praticamente uma potência econômica, sustentada pelo sistema de arrecadação estatal alemão. Além disso, o Estado alemão garante proteção institucional ao cargo de bispo, assegurando sua posição e autoridade dentro da estrutura eclesiástica. Essa combinação de riqueza e respaldo estatal, somada ao entusiasmo de parte do clero pelo caminho sinodal, torna a Igreja na Alemanha muito mais difícil de ser sancionada.

O que nos importa, a esta altura, é reconhecer que esse assunto está para além da desobediência velada ou aberta de um ou de outro grupo. Ele se encontra no território da unidade, que pode ser afetiva, mas não é efetiva. E boa parte da Igreja está envolta nessa mesma trama. Importa-nos observar (dolorosamente) que talvez estejamos a assistir a uma unidade firmada sobre a premissa do fingimento.






Em resumo, é este o prisma de luz que tenho a apresentar, meus caros. Rezo a Deus para que, além de debates apaixonados, possamos nos firmar naquela esperteza das serpentes que tanto nos falta, a fim de permanecermos firmes e ancorados no Senhor, conscientes das tramas reais que direcionam a história da Igreja. No fim, mesmo que nossos olhos humanos e limitados não consigam perceber todo o desenlace histórico, a Providência sempre ordena tudo para o bem da Igreja, guiada pelo Espírito Santo.






¹Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)






Referências


ALEMANHA. Artigo 140 da Lei Fundamental da República Federal da Alemanha (Grundgesetz). Incorporação dos Artigos 136, 137, 138, 139 e 141 da Constituição de Weimar de 1919 sobre as Corporações de Direito Público (Körperschaft des öffentlichen Rechts). Berlim: Ministério Federal da Justiça, 1949 (atualizado). Disponível em: gesetze-im-internet.de.

ARQUIDIOCESE DE COLÔNIA (Erzbistum Köln). Relatório de Balanço Patrimonial e Ativos Financeiros da Arquidiocese. Colônia: Departamento de Finanças, 2015-2025. Disponível em: reuters.com.

BÄTZING, Georg. Germany's top bishop repeats call for female clergy. [Entrevista concedida à Revista Stern]. The Catholic Herald, Londres, 13 set. 2025. Disponível em: https://thecatholicherald.com/article/germanys-top-bishop-repeats-call-for-female-clergy.

BRASIL. Decreto nº 119-A, de 7 de janeiro de 1890. Proíbe a intervenção da autoridade federal e estadual em matéria religiosa, consagra a plena liberdade de cultos e extingue o padroado. Rio de Janeiro: Presidência da República, 1890. Disponível em: planalto.gov.br.

DICASTÉRIO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Vade-mécum sobre as bênçãos litúrgicas e a salvaguarda dos sacramentos. Cidade do Vaticano: Santa Sé, 2026. Disponível em: vaticannews.va.

DICASTÉRIO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Decreto sobre a exclusividade do múnus da homilia na Celebração Eucarística. Cidade do Vaticano: Santa Sé, 2026. Disponível em: reuters.com.

ENCÍCLICA Non abbiamo bisogno. Pio XI. Roma: Santa Sé, 1931.

LEFEBVRE, Marcel. Orientações Espirituais. Écône: 1988.

ÓBOLO DE SÃO PEDRO. Relatório Anual de Arrecadação e Distribuição do Fundo Papal. Cidade do Vaticano: Secretaria para a Economia da Santa Sé, 2025. Disponível em: vaticannews.va.

SANTA SÉ. Decreto de Excomunhão latae sententiae por consagrações episcopais ilícitas em Écône. Cidade do Vaticano: Tribunal do Dicastério para a Doutrina da Fé, 2026. Disponível em: vaticannews.va.

THE CATHOLIC HERALD. Women's ordination, transgender ideology move forward at German Synodal Way. Arlington: Catholic Herald, 13 mar. 2023. Disponível em: https://www.catholicherald.com/article/global/womens-ordination-transgender-ideology-move-forward-at-german-synodal-way/.

VASCONELOS, Irmã Maria. Vestes litúrgicas e paramentos. Brasil, década de 1950.

VATICAN NEWS. Esclarecimento da Santa Sé sobre o "Caminho Sinodal" na Alemanha. Cidade do Vaticano: Dicastério para a Comunicação, 2022. Disponível em: vaticannews.va.





Política Eclesiástica IV -  Os Seminários


¹Professora Ana Paula Barros



“Se o sentinela vir a espada vir contra a terra e não tocar a trombeta, e o povo não for avisado, e vier a espada e tirar a vida de alguém, esse será levado por causa da sua iniquidade, mas o sangue dele eu o requererei da mão do sentinela.” - Ezequiel 33, 6.

“Proclama a palavra, insiste, quer seja oportuno, quer não, repreende, censura, exorta com toda paciência e doutrina.” - 2 Timóteo 4,2



Depois de falarmos dos fundamentos da política eclesiástica, acredito que é possível constatar que a crise da Igreja é, na verdade, uma crise do clero. Não se trata de uma crise doutrinal, como muitos alegam, mas sim de uma crise comportamental. Também é possível notar certa desesperança nos apontamentos realizados, o que se deve ao fato de que esse “problema clerical” não está apenas em um padre que profere uma homilia com palavras de morte, mas também nos seus professores no seminário, e nos professores dos professores. Esse padre foi formado para ser assim. Dito isso, podemos entrar no tema tenebroso dos seminários.

Caso você não tenha conhecimento — embora certamente o tenha, já que os padres gostam de falar disso com entusiasmo, mesmo fazendo um trabalho fraco — a formação dura em média de oito a nove anos. Primeiro vem o propedêutico, que é um ano de preparação inicial. Depois, três anos de filosofia e quatro anos de teologia. Em seguida, há o período de prática pastoral, normalmente de um a dois anos em uma paróquia, cuidando de atividades como catequese e comunicação.

Para a maioria dos brasileiros, isso parece uma grande formação. No entanto, como professora, não deixo de olhar para os seminaristas que falam orgulhosos de seus anos de estudo e compará-los ao meu sobrinho que me diz que sabe contar até dez. É bonitinho, e só isso. A maioria de nós, que se dedica a estudar e serve a Deus dessa forma por vontade d’Ele mesmo, estuda bem mais do que isso e não sai por aí arrotando a própria formação. Mas os reverendos, do alto de sua humildade, o fazem, enquanto os estudiosos são chamados de soberbos. Aqui já fica nítida a confusão em que vive o clero brasileiro.

Durante esses estudos, há também algum tempo de “prática”, ou seja, parte das aulas é dedicada a exposições e explicações, isto é, oratória (que deveria agrupar a lógica e a retórica). Nos bons seminários, as notas vêm, ou vinham, já que muitos não fazem mais isso, divididas em teórica e prática de oratória sobre o tema. Alguns padres antigos têm seus boletins guardados, muito lindos.

Por isso, é surpreendente, absurdamente surpreendente, que um padre faça uma homilia ruim. Logo, ele foi treinado para ser ruim. Essa é a única resposta possível. Cabe perguntar se isso é realmente possível. E sim, é possível, falo como quem já viu e vê. E aqui nem entro no mérito das questões morais, limito-me apenas a mencionar a formação dos padres.







Quando falo de homilia, muitos padres, já munidos de suas grandes ideias preconcebidas, acham que estou a falar de homilias rebuscadas. Não sei se você sabe, mas existe uma rixa entre os padres sobre homilias simples e rebuscadas, cada um defendendo suas linguagens. Quando falo de boas homilias, não estou a falar nem de uma coisa nem de outra. Conheci um padre, em toda a minha vida, que pediu conselho sobre catequese e homilia. Ele disse: “Eu sou padre, não sou professor. Qual é o melhor método?” Sábio esse padre, humilde também, só que de verdade, não só no gogó.

Como todo discurso que visa educar, deve ter começo, meio e fim. Exemplos de santos seriam bons, pois exemplos são sempre bons. Um modo prático de aplicação, que no caso é a virtude, também é necessário.  Três a quatro parágrafos, cinco a sete linhas cada, escrito à mão, com antecedência. 

Mas todo leigo sabe que as homilias não são assim. De modo geral, o padre repete as leituras com outras palavras, o que é preferível, ou ele deturpa as leituras porque há algo que o desagrada na Palavra Sagrada.

Certa vez assisti à saga de um padre para adoçar uma leitura em que estava escrito claramente: “o salário do pecado é a morte” e outros trechos de intensidade tal e qual. Naquele domingo Jesus tinha preparado pela Igreja uma feijoada com sustança, não havia laranja ou couve para aliviar a digestão, era comida de gente grande mesmo. Pois o padre não gostou, acredita? Ele quis adoçar a feijoada que Jesus preparou. Foi uma saga, cada momento o discurso ficava pior, no fim não dava para acolher aquela homilia. Horrível. Intragável.

E para que você saiba, todo padre sabe quando fez algo errado. Todos sabem, sim. E ele terminou a homilia já consciente da meleca que tinha feito.

Esse padre, como tantos outros, tem problemas com partes do Evangelho. Então, ele tenta mudar para parecer mais cheio de “compaixão”. O Senhor sempre corrige padres assim, porque eles não têm autoridade para mudar o Evangelho. Mas o coração é duro, e eles se arrependem apenas por alguns minutos, depois esquecem. Esquecem porque não rezam a liturgia das horas todos os dias, não fazem oração mental.

O padre pode ficar sem celebrar a Santa Missa todos os dias, mas não pode deixar de rezar a Liturgia das Horas. A liturgia mantém o coração dos religiosos ligado à Palavra e com temor suficiente para não mudar o Evangelho por gosto pessoal. 





Voltando aos seminários...


Recentemente vi um vídeo de uma recém-convertida, muito fofa por sinal, que dizia que os padres não têm direção política, que não são nem de direita nem de esquerda. Ora, tenho certeza que ela está a repetir o discurso sonhador de alguns católicos. Meus caros, como digo aos meus alunos, isso não existe.

Quando o guri entra no seminário ele já tem mais de 17 anos, ou seja, já passou pelo ensino médio, talvez cursinho e, se for mais velho, faculdade. Acredite: ele tem inclinação política, moral e etc. Mesmo que viva com os pais ou com professores particulares, ele terá inclinação política segundo as diretrizes de educação que recebeu ou não recebeu.

Rezo muito a Deus para que vocês possam perder a ingenuidade e não perder a pureza do coração. Algumas esperanças que vocês nutrem são simplesmente irreais. Os guris e os senhores seminaristas têm inclinação política e os seminários também. Têm também linhas filosóficas, teológicas e até psicológicas, se considerarmos os comportamentos.

Então, o que ocorre é que o guri entra e fica dez anos envolto, se nutrindo (ou se desnutrindo) nesses óleos psicológicos, filosóficos e teológicos. Depois de dez anos, nasce um padre conforme esse influxo. O que o padre coloca para fora, o que vê nos outros, os demônios dentro dele que não foram expulsos — tudo que ele faz foi formado no seminário ou não remediado no seminário.

Claro que ele não nasce perfeito, mas, a depender do trabalho não feito no seminário, é difícil para ele seguir. Isso porque a maioria dos padres não faz uma formação continuada, e muitos escondem isso dizendo que a "compaixão é o que importa". Mas não ficam nem três horas atendendo os sacramentos ou fazendo caridade direta. Muitos nem celebram a missa diária, muitos mesmo. Mas são "cheios de compaixão".

Tudo isso são coisas que não foram remediadas no seminário e que tampouco são remediadas pelo bispo, como já vimos nos textos anteriores. De modo que esse padre se vê numa condição propícia para a acomodação ou para a realização de atividades administrativas, visando angariar mais uns metros na subida das posições clericais.


Antes que você se impressione, saiba que isso é algo recorrente no clero pela história. Já relatei em textos anteriores que essa é a tentação do clero (cargos, prestígio, privilégios, o poder do microfone), e o clero brasileiro está a lidar muito mal com ela.


Retomando o percurso, vale lembrar que esse guri formado no seminário, que depois de dez anos se viu um senhor padre, pode ser em si uma pessoa boa, bem-intencionada, cheia de muitas coisas que não deveria carregar. Pode também ser alguém que viu nessa posição uma forma de propagar o mal ou simplesmente, quando percebeu, já tinha caído no caminho do erro e não adiantava voltar atrás. Então, está até o momento solenemente no caminho errado, mesmo em roupas clericais.

Tudo isso existe, e cabe a todos nós, leigos, ter clareza disso e saber que, ainda assim, Cristo sustenta a Igreja. Até porque, com a situação do clero, a Igreja é um milagre. Esses textos têm o objetivo de lembrar os leitores disso. E esse milagre está acontecendo agora.

Apesar das sementes corrompidas semeadas nos púlpitos a cada domingo, o número de convertidos aumentou em todo o mundo. Isso não é definitivamente trabalho do clero. É o trabalho de vozes leigas, pequenas e insignificantes, que são puramente cristãs, que falam das virtudes e da vida em conduta santa, que rezam o terço e falam com olhos brilhantes dos santos e da Santa Igreja. Riqueza vinda dos livros, de uma indicação na internet, de uma pessoa com véu na missa, de outro que comungou de joelhos. Enfim, dos vários recursos que o Espírito Santo tem usado para o bem de sua Igreja, para a conversão dos que estão no erro e para a fortificação dos bons. Não veio dos padres.

E isso é muito importante neste ponto de reflexão. Esse movimento está conforme o que Senhor ordenou? Não está. Os padres deveriam fazer mais, entregar mais.

Mas o Espírito Santo não nos abandona, ele continua trabalhando na evangelização mesmo que os operários estejam ociosos, como de fato estão. E estão porque se autoenganam: fazem luau na praia e dizem que é missão missionária, mentem para alguém que está em pecado mortal dizendo que está tudo bem e chamam isso de "compaixão", olham para quem quer ter vida santa e dizem que isso é ser "farisaico".

Tudo isso vem deles, dos seminários, dos professores nos seminários e dos professores dos professores. Perceba como a cadeia é grande, a largura e a profundidade da deterioração e do acomodamento. Tudo revestido de silenciamento sepulcral.



Por quê? 


Bem, se o guri no seminário quer ser um padre bom mesmo, ser santo e ajudar o povo a ser santo, o guri está decidido. O que acontece? 

Te conto. 


O guri terá que passar os anos do seminário se isolando, porque assim como existem panelinhas no clero (e em qualquer lugar), existem panelinhas no seminário. Ele não se encaixa e se isola (muito parecido com muitos leigos). Aí, finalmente... senhor padre. O seminário é uma prova de fogo para o guri bom que quer ser um padre bom, ou seja, um padre santo.

Acontece que o padre bom que quer ser santo tem colegas, padres, mas não bons, que não gostam dele, porque ele quer ser santo. Então o padre bom se isola dentro do clero, se isola para se proteger e conseguir viver o sacerdócio em paz. Mas os padres não bons não se isolam, pelo contrário, se unem, se unem muito e até demais, vão juntos cantar na orelha do bispo e pronto: comandam a Igreja. Essa é a história do padre bom que quer ser santo.

No entanto, os padres bons são em maior número que os maus, mas eles se habituaram desde o seminário a se isolar para se proteger, a se isolar para poder ter paz. Nós, leigos, podemos entender, já que muitos de nós fazemos o mesmo. Mas no caso dos padres, o isolamento deles sai caro para nós, leigos. Nós estamos entregues nas mãos dos maus, ou dos que não sabem se são bons ou maus (acredite, existe aquele padre que oscila entre ser bom e seus demônios não exorcizados).

Na política eclesiástica existe quem aposta todas as fichas nos leigos. De minha parte, acredito que Deus apostou as fichas em nós, leigos, conservou alguns leigos, principalmente celibatários, para esse fim. Mas não podemos deixar de constatar: a crise do clero será resolvida pelo clero, será resolvida pelo ímpeto corajoso dos padres bons.

Muita gente acha que os padres estão completamente atados. Não é bem assim. Os padres, um pároco por exemplo, têm um poder considerável na própria paróquia. Para você ter uma ideia, se um padre, qualquer padre do interior, envia uma carta para Roma, ele é respondido diretamente, em no máximo um mês, com solução e etc. Como eu disse em textos anteriores, Roma é estruturada para amparar padres.

Ou seja, o pároco mais simples não está à mercê do bispo local, solto e indefeso, como alguns pensam. A questão é que no seminário eles são condicionados a determinados comportamentos, e um deles é essa inação, mesmo tendo poder em sua própria paróquia.

Os padres estão sob um condicionamento comportamental de silenciamento. Eles têm formas e recursos para serem eles mesmos o remédio. Falta o quê? Coragem. Essa palavra, que tanto define o agir cristão, somada a outra: convicção. Convicção de fazer o certo simplesmente porque é o certo.


O avanço dos maus se dá pela covardia dos bons.



“Não te ordenei eu? Sê forte e corajoso; não temas, não te apavores, porque contigo está o Senhor teu Deus, por onde quer que vás.” - Josué 1,9






¹Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)





















Ao nos depararmos com o tema “missa tridentina” é fácil encontrarmos várias vertentes de argumentos e contra-argumentos. Em alguns momentos também é muitíssimo fácil entrar em uma guerra intelectual, em que a missa é um dos tópicos que gradativamente se perde em meio a tantos outros temas igualmente reais e importantes. No entanto, cabe salientar a superioridade do tema da defesa da missa tridentina. No que refere aos argumentos, realmente acredito que muitos deles não resistem a uma avaliação lógica, também não permeiam as mentes pós-modernas (afinal, são as almas que hoje estão no mundo para santificação) e são certamente incompreendidos por pessoas que, em toda a sua vida, frequentaram outro rito.




Portanto, é difícil defender algo que as pessoas não tiveram a oportunidade de vivenciar. A maioria dos católicos não sabe o que é uma missa tridentina; muitos padres também desconhecem. Podem ter uma notícia por terceiros, mas não por experiência própria. Da mesma forma que não conhecem o rito maronita, greco-melquita, bizantino etc. A visão católica romana atual mostra-se, em grande parte, absolutamente autocentrada.




Isso me leva a fazer a defesa da missa tridentina pela via cultural, que é a minha via de atuação cristã: a missa tridentina é um patrimônio imaterial da humanidade. Esta frase, em si, já poderia finalizar toda a disputa e contra-disputa em relação ao tema. Mas cabe um desenvolvimento.

Um patrimônio pode ser definido como o conjunto de bens culturais que representam a identidade e a memória de um povo. Ele se divide em material e imaterial:

  • Patrimônio material: corresponde a bens tangíveis, como imóveis (cidades históricas, sítios arqueológicos, paisagens, edificações) e móveis (coleções arqueológicas, acervos museológicos, documentais, bibliográficos, fotográficos e cinematográficos). São elementos concretos que podem ser preservados fisicamente.
  • Patrimônio imaterial: refere-se às manifestações culturais intangíveis, como celebrações, saberes, tradições, religiosidade, música, danças, culinária, artesanato, mitologias, narrativas e línguas. São práticas e expressões transmitidas de geração em geração, fundamentais para a identidade de comunidades e povos.



Isso posto, podemos afirmar que o patrimônio material só encontra sentido de preservação, seu sopro de vida, por assim dizer, no patrimônio imaterial. No que se refere à missa tridentina, temos diante de nós o primeiro argumento: muitas igrejas só podem ser compreendidas em sua arquitetura pela vivência da missa tridentina. Sem ela, o patrimônio material fica deslocado, historicamente faltante. É o imaterial que dá sentido ao material.



O segundo argumento de defesa é que, exceto em textos latinos antigos, cantos gregorianos e escolas universitárias de saber clássico na Europa, é muito difícil para uma pessoa comum ter acesso à língua de César, Cícero e Virgílio. Muitos se perguntam por que isso seria importante. Ora, para um professor, a depender da matéria, é de suma relevância. Quanta riqueza há em uma aula que pode contar com o recurso de escutar, ainda hoje, uma língua apresentada em sala de aula numa disciplina tão distante de nós. Esse contato, não limitado por classe social ou conhecimento, mas aberto a todos, cria um fio de união histórica e pertencimento — tão necessário em nosso tempo, fortemente abalado por situações oriundas da falta de pertencimento e acesso.



A Igreja, como uma grande mãe, pode auxiliar pessoas, grupos, comunidades e até mesmo um país inteiro a romper o teto de limitação e nivelamento social imposto pela classe e pela restrição de acesso. Esse é, em si, o terceiro argumento: uma atuação sociocultural realmente ativa, comprometida com o acesso ao que a pessoa não teria se continuasse a se alimentar culturalmente apenas daquilo que está ao seu entorno. Que belo papel (que visão!) de atuação efetiva, simples, rotineira e acessível a todos os que quiserem.




O quarto argumento é o efeito da missa tridentina em suprir o desejo de nutrição espiritual de almas com características distintas. As almas não são iguais. Cada pessoa é uma alma diferente, única e irrepetível. Logo, cada alma se enamora, cresce e se nutre espiritualmente de forma distinta: umas pela caridade, outras pela simplicidade, outras pela comunidade, outras pela beleza, outras pela ordem, outras pela clareza, outras pelo amor, outras pela retidão, outras pela reverência. Se a intenção é alcançar as almas, é sensato que existam múltiplos recursos para nutrir cada uma. Muitos são os recursos, mas um só é o Espírito.




A missa tridentina é um recurso forte e poderoso. Conheci almas que só se mobilizaram para conhecer o Senhor ao vivenciar uma missa tridentina; a reverência e o mistério eram os nutrientes que suas almas ansiavam. Outras só conseguiram sair da profunda apatia de uma depressão por meio da missa tridentina; a vivência "que parece o céu" as retirou da vida que as fazia permanecer apáticas. É realmente belo ver como essa experiência se aproxima de um encontro com a arte. Algumas pessoas, diante de um quadro, podem responder às perguntas “o que vê?”, “o que sente?”, “você entendeu?” dizendo: “não vejo nada, não sinto nada, não entendo nada”. Outras, diante da mesmíssima obra, podem encher os olhos de lágrimas, deixar escapar suspiros de alegria, alívio ou compaixão, e responder: “eu entendo a minha vida”.




Rezo a Deus para que possamos ultrapassar a disputa, a competição, a inveja, o ciúme e o nivelamento forçoso e, assim, nos abrir ao enamoramento, ao maravilhamento diante do cuidado da atuação do Espírito Santo em sua Igreja. É Ele quem coloca diante de todos o remédio para cada tempo, remédio extraído do tesouro da tradição, um tesouro de riquezas espirituais, culturais, emocionais e intelectuais. É a própria Igreja que, pela abundância desse tesouro, pode prover tudo o que cada alma necessita, de forma individual, para sua nutrição e elevação em todas as áreas, de modo cuidadosamente específico e atento. Basta permitir, sem tardar, o acesso ao remédio, acesso livre, sincero e encorajado. 







Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)











Nos últimos anos, os clubes de leitura criados por grandes marcas se tornaram uma espécie de vitrine cultural. Além de vender produtos, essas iniciativas buscavam oferecer experiências, e o livro foi escolhido como um símbolo de sofisticação e profundidade. Afinal, o ato de ler carrega consigo um quê de conhecimento, reflexão e até mesmo status. Os clubes de leitura de marcas de luxo surgiram como uma forma de aproximar os consumidores de valores intangíveis: cultura, intelectualidade e pertencimento. Participar de um clube promovido por uma marca de luxo, por exemplo, é fazer parte de uma comunidade que compartilha interesses e estilo de vida. É um fio condutor entre grupos sociais, funcionando da mesma forma relatada no livro Modéstia: Ordem e Beleza.



“A leitura traz ao homem plenitude; o discurso, segurança; e a escrita, precisão.” - Francis Bacon (1625)




O impacto da leitura coletiva é outro ponto que nos faz olhar com certa curiosidade para esse movimento social. Veja bem, ler em grupo amplia a experiência individual, porque o livro deixa de ser  uma narrativa de vivência solitária e passa a ser um ponto de encontro de ideias. No entanto, toda arte tem esse efeito no receptor, como refletimos nessas aulas aqui, mas uma leitura em grupo traz essa experiência de forma reverberada, justamente o que falta na sociedade atual. Recentemente, escutei uma acadêmica dizer que se sente incomodada quando uma pessoa quer falar sobre um livro ou um filme e ela não quer ouvir. Acredito que isso me gerou tanto espanto, vindo de uma acadêmica, que certamente já escrevi em algum texto sobre essa experiência. Esse desinteresse total e completo é justamente o que esses grupos de leitura compartilhada reduzem. As discussões, trocas e interpretações diferentes criam uma rede de significados que fortalece vínculos sociais. É isso que as marcas perceberam: o livro, quando compartilhado, gera comunidade e engajamento, uma certa linguagem interna do grupo, verbal e não verbal, algo valioso para qualquer estratégia de branding. Afinal, a moda é uma linguagem não verbal; não é espantoso que utilize outras linguagens não verbais para ancorar espaço na vida cotidiana do consumidor. Também dá às marcas certo tom de “desprendimento material” — que coisa, não é? Mas, ao observarmos o comportamento francês, um país sede de muitas maisons, veremos que é justamente isso que aparece: uma interessante ligação entre as marcas e uma postura desprendida, despojada, lida como um sinal de riqueza intelectual. Não escrevo com a intenção de dizer se isso é correto ou errado, como é muito comum nos discursos brasileiros. Nos estudos culturais, mais vale olhar e constatar o que existe e os movimentos humanos de distanciamento e aproximação de posturas já existentes em outras culturas. Nesse caso, esse movimento das marcas está muito alinhado com a leitura francesa de imagem e aparência em união com a riqueza intelectual.




“O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.” - Padre Antônio Vieira


“Ler livros alimenta a mente, fortalece o pensamento crítico e protege contra reducionismos ideológicos.” - Papa Leão XIV (centenário da Livraria Editora Vaticana, 2026)




"Um livro, independente da edição, é nobre." Essa frase chegou até mim pela boca da dona da livraria em que eu trabalhava quando tinha entre 15 e 23 anos. Num livro existe conhecimento, memória e poder. Quando uma marca se associa a um livro, já se ancora a esses valores e transmite a ideia de que oferece mais do que produtos: oferece cultura e profundidade. Seja com uma sede genuína, seja por uma sede de status, o fato é que parte da sociedade busca isso. 

Mas, quando essa moda passar, o que fica é a lembrança de que o livro, em si, já é um objeto de luxo acessível, pelo valor que agrega à vida de quem lê.

No fim das contas, o que podemos retirar de bom dessa fase é a inspiração para cultivar a leitura como hábito pessoal. Se até grandes marcas enxergaram no livro um símbolo de prestígio, nós podemos continuar a vê-lo como um espaço íntimo de crescimento e cultivo reflexivo, mesmo sem o glamour dos clubes patrocinados. O verdadeiro luxo será sempre o tempo, o tempo de se dedicar ao próprio autocultivo.



“Há três caminhos para o fracasso: não ensinar o que se sabe, não praticar o que se ensina, e não perguntar o que se ignora.” - São Beda



projeto Estudos Literários dos Clássicos, realizado desde 2019: disponível aqui









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A escrita, principalmente a escrita à mão, não é uma prática apenas para quem quer ser escritor, tampouco uma forma de colocar em prática uma tara gramatical, mas ajuda a organizar a mente para alicerçar bem o pilar da retórica. Escrever é como pintar uma tela que se imprime na mente de quem lê, e esse alguém pode ser o próprio escritor. Quando escrevemos sobre temas, principalmente os mais banais, como é a proposta do ciclo de escrita deste ano, escolhemos fragmentos da memória a respeito do tema. Esses fragmentos, quando trabalhados, formam uma narrativa; essa narrativa, quando lida pelo escrevente, gera um acervo autobiográfico, num ciclo de retroalimentação da alma por memórias revisitadas, organizadas, narradas, apreciadas e reassimiladas.


A narrativa de qualquer assunto dentro dessa forma de escrita pelo maravilhamento melhora a acuidade sobre temas triviais, coloca sobre eles um olhar atento e notas fantásticas, engraçadas ou reflexivas. As coisas comuns da vida ganham outro impacto depois de narradas pelo maravilhamento. Esse é o poder da escrita e o objetivo deste projeto. Não tenho nenhuma intenção de avaliar textos; minha intenção é que, ao escrever pelo maravilhamento, a porta da retórica se abra e você possa ordenar a mente, falar sobre coisas interessantes, tornar o habitual instigante e ser uma pessoa interessada na vida, atributo próprio do filósofo.


Para isso, gostaria de orientar que faça a escrita à mão. O texto deverá ter no máximo uma página e, no mínimo, um parágrafo de sete linhas. Clareza é mais desejável que refinamento, mas, se quiser aproveitar para enriquecer o vocabulário buscando sinônimos para palavras que percebe repetir muito, essa é uma ótima oportunidade.


Muitos alunos têm dificuldade em encontrar a própria linguagem. É bem comum no Brasil esse “roubo linguístico” que, de uma hora para outra, toma as pessoas como um espírito de possessão: de repente, todo mundo está a falar como o fulano ou o beltrano. Isso não é de todo ruim, mas evite imitar linguagens nesta etapa. Aqui, a intenção é que você possa usar algo seu; portanto, se você é formal, use a linguagem formal; se é mais descolado, use essa linguagem sem recorrer a gírias e palavrões, que são normalmente uma forma de incapacidade de comunicação, já que a pessoa costuma usar a mesma palavra para algo bom e para algo ruim. Para esta etapa, isso não é interessante. A linguagem informal não é ruim, desde que exista clareza nas ideias, assim como nos textos escritos em formato de fluxo de pensamento.

Esqueça a tara da gramática: simplesmente escreva buscando pelo maravilhamento. Depois, você poderá revisar o texto. O texto é algo vivo e, como a vida, raramente é perfeito.



Confira aqui os temas propostos para cada mês do ano.






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