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Salus in Caritate


apostila virtudes e literatura I






O Trivium é apresentado como uma "filosofia de vida", um fio que liga a infância, a adolescência e a maturidade intelectual. O percurso é: primeiro absorver fatos (gramática), depois aprender a pensar sobre eles (lógica) e, por fim, expressar-se com clareza e criatividade (retórica).

No estágio da gramática, a criança é comparada a um papagaio: repete, memoriza, acumula vocabulário e regras. É um período de intensa absorção, em que o conhecimento é armazenado como matéria-prima para o que virá. Já na fase da lógica, o espírito se torna questionador. O aluno começa a analisar, comparar, discernir causas e efeitos; é o momento em que a mente se abre para o raciocínio crítico. Finalmente, na retórica, surge a capacidade de criar, persuadir e comunicar, ainda mantendo a honestidade intelectual.

Essa sequência é didática e bíblica: conhecimento, entendimento e sabedoria. Não basta acumular dados; é preciso organizá-los e, sobretudo, aplicá-los (isso é o que nos diferencia de uma IA). A educação clássica, nesse sentido, pode ser vista como uma forma de autodidatismo, de autoeducação que dura a vida toda. Não busca formar especialistas em compartimentos estanques, em caixinhas, mas cultivar uma mente capaz de aprender qualquer coisa, em qualquer tempo. É, portanto, o modelo de aprendizado mais compatível com a época pós-moderna, cheia de informações pela internet, em que é preciso, de forma radical, absorver, questionar e comunicar num ambiente que demanda certa inclinação para o aprendizado e interesses em prol de preservar a nossa humanidade. Infelizmente, o Brasil, em sua atuação no setor da educação, tem feito forte opressão em relação a isso, colocando essa possibilidade como algo ruim, sendo que, na verdade, é uma porta para que, através da educação de uma parte da população nesse método, se consiga dar novo tom à educação brasileira, tão massacrada e sofrida. Uma parcela de pessoas com fome de conhecimento que possa valorizar a faca e o queijo que o professor oferece.

Há também uma dimensão cultural muito presente na educação clássica, como o nome evidencia. Os autores lembram que a língua é a chave da cultura: mudar palavras e significados é mudar a própria civilização. Muitos autores tocam nesse tema. Por isso, o ensino de línguas e literatura é um fundamento; lê-se muito nessa modalidade de educação.

A lógica, por sua vez, é a ferramenta que impede que o pensamento se dissolva em contradições. E a retórica é apresentada como a arte de dar forma bela e eficaz às ideias, seja em cartas, debates ou discursos públicos.

O percurso educacional sugerido é progressivo: antes dos 10 anos, foco no vocabulário; dos 10 aos 12, gramática e ortografia; dos 13 aos 15, redação e argumentação; dos 16 aos 18, pesquisa e debate. Cada etapa prepara o terreno para a seguinte, como árvores que, nutridas ao longo dos anos, finalmente dão frutos. Claro que vale lembrar que isso não é válido só para crianças. Como costumo dizer, há muitos adultos por aí que se veem como intelectuais e não se formaram devidamente em nenhum desses pilares, tendo uma educação defasada. Dentro da educação clássica isso é uma falha, e não importa se têm ou não diploma universitário, mestrado etc.; isso não garante que esses pilares estejam bem desenvolvidos. Eu gosto de dar o exemplo de alguns alunos que assistem às minhas aulas e depois precisam assistir novamente, muitas vezes repetidamente, e a cada vez parece que estão finalmente entendendo. Esse é o fundamento da educação clássica: retirar, a cada olhar, parte do embotamento da mente que a educação que recebemos nos impôs. Existem alunos que contam que, no princípio, sentem ansiedade, não conseguem seguir, desistem; depois dizem que trechos das aulas aparecem enquanto a vida segue, e então voltam a estudar e avançam. Isso ocorre por conta do coração não ensinável, algo comum devido ao tipo de educação que recebemos, que retira o aprendiz cedo demais da posição de aprendiz. A alma fica sem apetite, sem fome, não tem vontade de comer e também não vê valor na comida do conhecimento. No entanto, pela graça de Deus, o ensino nunca deixa de dar fruto e, com o tempo — nosso querido tempo — essa alma volta a ter fome. Portanto, muitas pessoas com 30, 40 ou mais anos de vida podem estar, no que se refere à educação clássica, com o desenvolvimento abaixo do indicado para os 10 ou 12 anos de idade.

O Trivium é como um mapa para a mente humana: absorver, compreender, expressar. Um processo que não se encerra na adolescência, mas acompanha o indivíduo por toda a vida; por isso, o aprendizado não tem fim. Aprender não é uma obrigação forçada pelas notas num boletim, pela necessidade de atingir metas educacionais do vestibular ou por um título numa carteirinha profissional que cobra mensalidade para existir, nem por dez aulinhas que dizem dar resposta a questões humanas de uma geração inteira. Aprender é uma aventura pessoal de quem tem fome e encontra no estudo alimento. Não apenas aprende: come.





Minúsculo Guia Prático da Educação Clássica para aplicação e autoaplicação


Etapa da Gramática — absorção
Pensamento norteador e estado interior: profundo respeito pelo aprendizado e pelo professor.
Idade aproximada: até 10 anos.
Princípio: ser como uma esponja, pronta para acumular vocabulário, fatos e regras.


Práticas:
Ler em voz alta diariamente, escolhendo literatura de qualidade. Ler todos os dias.
Incentivar a memorização de poesia, trechos bíblicos e narrativas curtas.
Expandir o vocabulário com jogos de palavras e listas temáticas.
Evitar linguagem infantilizada: fale, escute e leia sempre um grau acima da compreensão plena.




Etapa da Lógica — análise
Pensamento norteador e estado interior: interesse genuíno, ser interessado para ser interessante.
Idade aproximada: dos 10 aos 15 anos.
Princípio: o espírito se torna inquisitivo, busca causas e conexões.


Práticas:
Introduzir noções de lógica formal: silogismos, lei da não contradição.
Estimular debates curtos sobre temas cotidianos.
Propor exercícios de comparação, contraste e análise de textos.
Incentivar perguntas investigativas: “por que isso acontece?”, “qual a causa?”.
Observação de discursos de professores, padres, políticos, diplomatas e etc. para visualizar a estrutura lógica ou a falta dela.




Etapa da Retórica — expressão
Pensamento norteador e estado interior: clareza, cortesia, honestidade.
Idade aproximada: dos 15 aos 18 anos e acima.
Princípio: o saber vira sabedoria aplicada, em discurso criativo e persuasivo mantendo a honestidade intelectual.


Práticas:
Redação de cartas, diários e artigos.
Participação em clubes de oratória ou debates.
Exposição a discursos clássicos.
Projetos integrados: escrever sobre ciência, história ou literatura com clareza e estilo.
Falar com poder de síntese. 
Falar com síntese e com cruzamento de áreas.
Falar com síntese, com cruzamento de áreas e com observações pessoais apuradas (viver filosofia).
Falar com síntese, com cruzamento de áreas, com observações sociais apuradas, organizadas para contribuição formal sobre o tema (fazer filosofia). 


Durante as etapas, existe a integração das matérias visando a um discurso rico em temas, exemplos e expansão. Os saberes obrigatoriamente se cruzam; se não houver esse cruzamento, não é educação clássica, mesmo que haja latim e grego. A característica da educação clássica é a riqueza de áreas.




Pratique calmamente e constantemente aqui





¹Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)






Magnífica humanidade I

Professora Ana Paula Barros¹




O Papa Leão, com sua habitual calma, surpreendeu na escolha de seu nome e, agora, na escolha do nome de sua primeira encíclica, muito adequado ao momento e ao propósito da carta.


Definição: Uma carta encíclica é um documento oficial escrito pelo Papa e dirigido aos bispos, ao clero e aos fiéis católicos, tratando de temas doutrinários, morais ou sociais de grande relevância para a Igreja e para o mundo.


O texto apresenta, a princípio, uma introdução com o pedido de harmonia, muito característico do clero. O que chama a atenção, no entanto, é o trabalho de “colocar os pingos nos is” desenvolvido no primeiro capítulo. De modo geral, mas de forma muito especial no clero brasileiro, há uma certa falta de cuidado com definições: as palavras são proferidas nos discursos sem muita clareza sobre o que exatamente significam — amor, paz, harmonia, obediência, concórdia — tudo é dito um tanto a esmo. Por isso, chama a atenção esse cuidado, que certamente passará despercebido por alguns, em definir algumas coisas no meio do texto.



A escrita do Santo Padre é muito calma e cortês. Define enquanto trata de um assunto mais geral. Começa por “magistério”. Na estrutura do texto, utiliza expressões como “magistério recente”, “meus predecessores” (comum em encíclicas) e “os Papas”. Você pode pensar que isso é uma obviedade, mas afirmo que não. Se tiver a coragem de perguntar a um padre brasileiro o que é o “magistério”, ele dirá, como quase todos dizem, que são o Papa e os bispos. E, se perguntar “quais?”, responderá: “os de agora”.

Na mentalidade brasileira, existe certa ruptura entre o que foi e o que é. Claro que esse raciocínio não se sustenta, já que o Papa da época já não está, morreu. Portanto, magistério é o conjunto do todo. Parece evidente, e é, mas na prática eclesiástica não é tão evidente assim. Por isso, é uma grata observação a feita pelo Papa Leão, ao mencionar “os Papas”. Ele o faz dentro de uma digressão histórica sobre a doutrina social da Igreja e certamente corre o risco de passar despercebido.




Outro aspecto importante é o cuidado que ele teve em esclarecer querelas durante a digressão, muito refinado o Santo Padre. A primeira é em relação a tempo x espaço. Nesse momento, parece que ele vai repetir aquele discurso que já conhecemos, com uma dose daquele ecumenismo que nos faz perder o catolicismo. Mas ele afirma que, na verdade, tempo x espaço tem relação com estar nesses meios para semear o Evangelho, que, com o tempo, não necessariamente espaço numérico, dará fruto. Um esclarecimento muito sutil, mas muito oportuno, pois cria o terreno para o próximo tópico: o diálogo.

Essa palavra causa-nos certo calafrio, já que, nos meios eclesiásticos, também vem acompanhada daquela nota ácida de perdermos a catolicidade e sermos um outro, ou outros, numa vivência eclesiástica do movimento antropofágico brasileiro, fazendo com que os católicos se tornem, cada um, um Abaporu — corpo grande e rosto de uva passa (identidade pequena ou sem identidade). Mas o Papa explica que o diálogo serve para fermentar a massa no Evangelho, já que nós somos o fermento da sociedade. Veja só, meus caros, como uma definição muda tudo. Haverá aqueles que dirão: “mas já estava implícito nos textos anteriores”. Não estava, e esse é o problema. Mas, sem rompantes positivos nem negativos, continuemos.




Depois, Sua Santidade descreve a variedade de prismas na aplicação do Evangelho e, para isso, utiliza a imagem de um poliedro, uma figura geométrica. O Papa é professor de matemática, como sabemos, e apenas um professor de matemática colocaria um poliedro como exemplo, como todos sabemos. “Verdade única e simultaneamente multifacetada”. Veja que ele cuida para falar “única” e, em seguida, usa “simultânea” e “multifacetada”. Ou seja, existe a possibilidade de ver uma faceta e não o todo (todos sabemos que de fato é assim), mas ele não emprega as palavras “múltipla”, “multifragmentada”, “plural”, “diversa” (estas só são usadas quando se trata da realidade social). Mais uma definição sutil e muito bem empregada.

Mais adiante, ao relatar a ação do magistério, relembra o pedido dos antecessores por atenção a um julgamento ético e não apenas técnico. Por fim, ao concluir o primeiro capítulo, passa a apresentar, também de forma muito sutil, a definição dessa palavra que nos causa calafrios: “sinodalidade”. É uma palavra que, se você tiver coragem de perguntar a um padre brasileiro o significado, perceberá que cada um responde uma coisa. Logo, é um termo que paira sobre nós, até mesmo uma suposta direção que, no entanto, não tem definição clara. O Papa, caridosamente, nos dá esse pingo no i: “caminhar em conjunto”. De todas as definições, essa é a mais aceitável, acredite em mim.

No entanto, como não posso deixar de apontar, muito desse “caminhar em conjunto” depende de uma mudança comportamental do clero. Ao menos, existe uma pequena luz de que essa abertura para contribuições intelectuais católicas não clericais seja verdadeira, apesar da necessidade evidente de uma mudança comportamental para que se torne real (inclusive na elaboração das referências dos textos publicados).




A filosofia é serva da teologia, no sentido de preparar as reflexões para a atuação dos teólogos. Por isso, a importância dessa temática, ainda que incômoda.

“A verdade é um bem a partilhar.” Aqui está colocada uma distinção que me parece muito ajustada (foi empregada para ajustar): um bem que se partilha é, antes, um bem já possuído. Não se partilha o que não se possui. O Papa, então, parte da premissa de que já temos a verdade como um bem. Não precisamos bradar a esse respeito, mas escolher uma postura de quem possui e deseja partilhar o que tem, e ainda ser rico.

Algo nessa frase me recorda a postura de pessoas muito ricas. Talvez você conheça alguma. Elas falam baixo, pouco, porque já possuem; não precisam impor nada, justamente porque já possuem. O resultado é que todos na mesa de reunião esperam que elas falem, esperam que elas façam, e então falam e fazem igual.



Continuamos na parte 2.




A saber:

  • A frase "a filosofia é serva da teologia" é atribuída a São Pedro Damião, Doutor da Igreja, e foi trabalhada por São Tomás de Aquino, Doutor Comum da Igreja.
  • Abaporu é um quadro de Tarsila do Amaral.
  • Movimento antropofágico brasileiro: foi um movimento artístico e cultural iniciado em 1928, com o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade. Defendia a ideia de "devorar" culturalmente influências estrangeiras para recriá-las.



¹Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)


Borgognone, 1510





“Suscitou-se também entre eles uma discussão sobre qual deles deveria ser considerado o maior. Jesus lhes disse: Os reis das nações dominam sobre elas, e os que exercem autoridade são chamados benfeitores. Mas vós não deveis ser assim; ao contrário, o maior entre vós seja como o menor, e aquele que governa seja como quem serve.” (Lc 22,24-26)





Política Eclesiástica - ponto 3

Professora Ana Paula Barros¹




A atuação do clero sempre esteve, obviamente, fortemente ligada à estrutura monárquica da Igreja, e essa estrutura é, em si, uma proteção oferecida pelo Senhor em relação à responsabilidade. Acostumados à dinâmica democrática, facilmente nos deixamos levar por afirmações de que os leigos teriam responsabilidade sobre a conduta sacerdotal. Isso, no entanto, é falso. O sacerdote, como detentor de autoridade, é o único responsável pelas escolhas que faz, e essa responsabilidade é compartilhada com os demais membros do clero e, sobretudo, com o bispo. Bispo significa “inspetor” (epískopos  literalmente significa “aquele que vigia de cima”), e por isso, se um padre comete erros no ensino da doutrina, erros administrativos ou erros de conduta, a responsabilidade recai sobre ele, sobre os padres que sabem e nada fazem, e principalmente sobre o bispo, que sabendo, permanece inerte.

Em outros momentos já destaquei que o aumento das denúncias no cenário eclesiástico decorre, sobretudo, da ausência de supervisão episcopal sobre os padres. No entanto, essas denuncias tem sido frequentemente interpretadas como desobediência. A raiz está em um traço recorrente no pensamento clerical a respeito da forma como o clero se relaciona com os leigos. De modo geral, os padres não demonstram interesse em leigos que pensam, e a obediência hoje propagada é muitas vezes entendida como deixar o cérebro cair para fora da cabeça. O próprio clero reflete pouco sobre sua condição e sobre se está agindo de forma equivocada, e por isso não é surpresa que se incomodem quando são confrontados. Essa reação nasce do mesmo incômodo que muitos nutrem diante do estudo, ainda que se considerem estudiosos. Dez anos de formação não são muito para quem se dedica à vida intelectual, mas muitos acreditam ser o suprassumo do saber. A ideia de que os leigos são ignorantes é facilmente rastreável nos discursos sacerdotais, e raramente se cogita que alguém nos bancos da igreja possa ter uma formação tão sólida quanto a deles. 


Claro que isso tem motivos históricos: durante muito tempo o clero foi, de fato, o grupo de estudiosos da sociedade, aqueles que ensinavam inclusive as matérias que hoje aprendemos na escola e na universidade. Havia um número muito reduzido de leigos que conseguiam ascender na hierarquia dos estudos. Mas hoje a realidade é outra. Em qualquer bairro, seja central ou periférico, é possível encontrar um número expressivo de pessoas universitárias, formadas ou em preparação nos cursinhos. Essa postura distancia os sacerdotes da realidade atual, mas também os impede de reconhecer a riqueza intelectual presente nas comunidades que servem. 


Assim, a dinâmica entre padres e leigos, especialmente no Brasil, é uma dinâmica operária, voltada para buscar mão de obra que mantenha os trabalhos funcionando. Não há espaço para contribuição intelectual de fato, e isso é mal visto pelo clero. É comum encontrar padres que, ao ouvir algum pensamento mais elaborado, respondem com ironias como “bispo”, “é padre”, “tá achando que é o papa”. Eles tem dificuldades sérias com isso. No entanto, Nosso Senhor Jesus salvou pessoas: entes racionais, pessoas com cérebro, pessoas que pensam.


Esse ponto nos leva a outra mazela: a resistência em refletir sobre frases comuns no meio eclesiástico, como “quem obedece nunca erra”, “tal padre caiu porque o povo não rezou por ele”, ou “prefiro errar com o padre do que acertar sem ele”. É importante salientar que a obediência é valiosa, pois grupos que não prezam por nenhuma hierarquia facilmente se veem com indivíduos que não seguem orientações espirituais. Contudo, é igualmente importante lembrar que a obediência só se dá quando a ordem está alinhada com os mandamentos e com o Evangelho. Obrigar o "obedecer por obedecer" é prática ligada a disputas de poder, a testes de obediência cega, ao desejo de ser obedecido apenas por ser obedecido. Não tem relação com a reta Doutrina e o Evangelho. Infelizmente isso é muito comum no clero, mais do que se imagina.


Não é difícil compreender: se o padre ensina segundo os mandamentos e o Evangelho verdadeiro, não ficará bravo se alguém disser que irá desobedecer quem ensine o contrário. Pelo contrário, ficará aliviado em ver que seus anos de vida não foram gastos em vão. Agora, se o ensino é contrário aos mandamentos e ao Evangelho, ainda assim deseja ser obedecido? Não seria pedir demais? Em tal caso, é dever cristão desobedecer. 


Novamente, não é difícil entender, na verdade, é algo evidente. 


Portanto, para finalizar podemos concluir:

Se um padre permite algo errado em sua igreja, essa responsabilidade é do padre, pois a autoridade assume a responsabilidade. O leigo, por não ser autoridade, não tem responsabilidade sobre as decisões clericais. Quem é responsável é o padre, os outros padres que se calaram tendo autoridade e o bispo que não exerceu a função de inspecionar, advertir e corrigir o clero.


Em segundo lugar, é importante lembrar que muitas práticas clericais vêm de uma postura obstinada do clero em não refletir sobre si mesmos e sua atuação como grupo. A resposta dos padres em geral é de autoproteção e autopreservação: protegem o próprio pescoço e o do colega de forma instantânea e automática. Por isso, qualquer assunto em relação à atuação clerical é logo rechaçado, suprimido, na prática conhecida como “afastar para calar”. Daí vem o costume tão enraizado no clero brasileiro de usar o altar e o supremo poder do microfone para os mais diversos usos negativos, raramente para o encorajamento da virtude.


Tenho insistido em refletir sobre os aspectos comportamentais porque o clero, pela história da Igreja, sempre teve que lutar contra a tentação* do poder, do apego aos privilégios e ao cargo (Lc 22,24-26; Mt 20,20-21; Mt 16,22-23; Mt 16,22-23). Hoje não é diferente: muito do que vemos em relação as reações clericais é resultado disso e não de uma defesa do Evangelho para o bem espiritual do povo. É importante que isso seja apontado repetidamente, apesar da reação clerical obstinadamente negativa. 


Essa exigência de uma subserviência diante de erros reais e inaceitáveis lembra muito a fala dos soldados nazistas quando questionados em julgamento sobre o motivo de não terem feito nada diante de tanta atrocidade: “estávamos obedecendo ordens” (Julgamentos de Nuremberg, 1945–1946). Existe um momento crucial na atuação moral em que essa frase não funciona como desculpa. Há um momento em que a obediência cega é, em si, uma tragédia. Por isso insisto, como professora, em tocar nesse assunto nas aulas e em qualquer oportunidade: essa semente é perigosa. Se alguém (qualquer autoridade cívica, religiosa ou pessoal) te pede uma obediência que exige que você desligue a consciência e anule a reflexão, cuidado, há algo muito estranho nessa obediência. Nosso Senhor falou, salvou e remiu seres racionais, pessoas com alma, coração e cérebro. Pessoas que pensam. E em nenhum momento Ele pediu para abrirmos mão de pensar; pelo contrário, Ele instigava o pensamento e a reflexão.

E isso, inclusive, é traço nosso, um traço muito católico.






*A saber: a tentação do clero é o poder, o apego aos privilégios e ao cargo; dos leigos, o apego à vida mundana sem conversão verdadeira; e dos religiosos, o não cumprimento das normas da ordem com dedicação.




"A Igreja é Santa: porque Jesus Cristo, seu Fundador, é Santo; Santo é o Espírito que vivifica; Santa a sua Doutrina; Santos os seus Sacramentos; Santos são muitos dos seus membros." - Catecismo Essencial, 1987.




Leias também: 
Política Eclesiástica 1 - A Igreja uma Monarquia
Política Eclesiástica 2 -  A comunicação em uma monarquia eletiva




¹Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)







"A sociedade não apenas continua existindo por meio da transmissão e da comunicação, mas pode-se dizer, com propriedade, que ela existe na transmissão e na comunicação." — John Dewey, Democracia e Educação (1916)




John Dewey, há mais de um século, assinalou que a sociedade é sustentada pela comunicação e encontra-se imersa nela. Essa observação retoma uma tradição filosófica que reconhece que a vida coletiva depende da circulação de mensagens para sua coesão e funcionamento. Segundo a tradição tomista, a metafísica é a ciência do ente enquanto ente (ens inquantum ens), isto é, o estudo das causas e princípios mais universais da realidade. São Tomás de Aquino ensina que a sociedade existe porque o ser humano, enquanto ente racional, é naturalmente inclinado à vida em comum e à comunicação. Nesse quadro, a comunicação não é o fundamento último da sociedade, mas uma consequência necessária da natureza social do homem.

Dewey, por outro lado, interpreta a comunicação como condição ontológica da própria sociedade. O pragmatismo de Dewey considera a comunicação como elemento constitutivo da vida social, enquanto a metafísica tomista a entende como derivada da essência racional e relacional do ser humano.


A semiótica, definida como a ciência dos signos e dos processos de significação, foi sistematizada por Charles Sanders Peirce e, em paralelo, por Ferdinand de Saussure sob o nome de “semiologia”. Embora distintas, ambas as tradições convergiram para o estudo da produção e circulação de significados. A semiótica demonstra que toda comunicação é mediada por signos e que os símbolos (palavras, gestos, imagens) são a trama pela qual a significação é produzida e compartilhada. Palavras faladas e escritas são exemplos evidentes, mas formas de comunicação não verbal, como a Língua de Sinais e códigos comportamentais sociais, igualmente participam, estes últimos de maneira muito forte, desse processo. Todas compartilham o traço fundamental de recorrer a presenças simbólicas para transmitir significação.

A comunicação interpessoal refere-se à interação entre duas ou mais pessoas em nível pessoal, frequentemente presencial, podendo assumir modalidades verbais ou não verbais. Em contraste, a comunicação de massa caracteriza-se pela emissão de mensagens simbólicas de uma fonte para um público numeroso. No contexto das mídias digitais, contudo, a distinção entre ambas pode tornar-se difusa, uma vez que mensagens originalmente destinadas a interlocutores específicos podem viralizar e alcançar multidões. A comunicação organizacional, por sua vez, designa a circulação de mensagens no interior de organizações formais, como governos, empresas, escolas e hospitais, sendo condição sine qua non para o êxito ou fracasso dessas instituições.

A estrutura de comunicação, composta por tecnologias, normas e agentes especializados, pode ser compreendida metafisicamente como o “substrato material” da semiose social.  A sociedade, em termos sociológicos, é definida como um agrupamento de grande escala sustentado por instituições formais e por relações estruturadas ao longo do tempo, como ocorre nas nações, compostas por sistemas jurídicos, econômicos e educacionais. A cultura, por sua vez, pode ser entendida em sentido antropológico clássico como “o conjunto complexo de conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes e quaisquer outras capacidades adquiridas pelo homem como membro da sociedade”. Em uma acepção mais contemporânea, inspirada na antropologia simbólica, cultura é o sistema simbólico que organiza princípios e fundamentos, indispensável à compreensão da experiência humana. 

A comunicação de massa exerce influência decisiva tanto sobre a sociedade quanto sobre a cultura. Os sistemas midiáticos, variando conforme os ordenamentos jurídicos, condicionam o modo de funcionamento social e, ao mesmo tempo, disseminam signos culturais em escala global. Embora os indivíduos manifestem preferências ao consumir conteúdos, são as corporações midiáticas que determinam quais narrativas serão produzidas e promovidas, sobretudo em formatos de elevado custo, como grandes filmes, lançamentos de videogames e notícias internacionais. Metafisicamente, a mídia de massa pode ser vista como um “campo de forças” em que signos disputam hegemonia; semioticamente, ela é o espaço privilegiado da circulação de significações que estruturam tanto a cultura quanto a sociedade. Dewey enfatiza o caráter constitutivo da comunicação para a sociedade, enquanto a tradição tomista lembraria que tal comunicação é expressão de uma natureza racional e social já dada no ser humano.

A mídia de massa constitui, assim, uma instituição autônoma, distinguindo-se pelo potencial de influenciar o pensamento coletivo. As ideias que circulam na comunicação organizacional e interpessoal são frequentemente estabelecidas, reforçadas ou contestadas pelas mensagens veiculadas na grande mídia, confirmando que as sociedades existem em transmissão e em comunicação. Contudo, a mídia não atua isoladamente: ela é moldada por grupos sociais e instituições, ao mesmo tempo em que os molda. 

Quase tudo o que se lê, vê ou ouve está enquadrado em um contexto de mídia de massa. Entretanto, a familiaridade não garante êxito: signos midiáticos que não ressoam com o público tendem a desaparecer rapidamente, ainda que aparentem consonância com as tendências dominantes. 





Com o advento das redes de computadores globais, especialmente a banda larga de alta velocidade e as tecnologias de comunicação móvel, os indivíduos passaram a dispor da capacidade de publicar seus próprios trabalhos e comentar mensagens da mídia de massa com uma facilidade inédita. Se a comunicação de massa do século XX era caracterizada como um sistema de um-para-muitos, em que editoras e radiodifusores alcançavam plateias que aguardavam passivamente, a mídia de massa possibilitada pelas redes digitais de informação no século XXI assumiu um formato de muitos-para-muitos, descentralizando o fluxo comunicativo.

Um exemplo eloquente é o YouTube, que reúne milhões de produtores que também são consumidores. Nenhuma das grandes plataformas sociais — Facebook, YouTube, Instagram, Qzone, Weibo, Twitter, Reddit ou Pinterest — é reconhecida principalmente pela produção de conteúdo próprio. Em vez disso, oferecem espaços para que os usuários publiquem suas criações e compartilhem materiais oriundos das empresas de mídia de massa, como notícias e entretenimento. Os usuários também são trabalhadores, não contratados, dessas plataformas. O resultado é um processo de definição de interesses muito mais distribuído no ambiente digital do que no sistema analógico de mídia de massa, centrado em poucos emissores.

O processo de atribuir significação à sociedade, isto é, de contar múltiplas histórias menores que se somam em uma narrativa compartilhada por grandes públicos, tornou-se mais colaborativo do que no século XX, pois mais pessoas consomem notícias em plataformas em rede do que em canais controlados por guardiões. Um guardião da mídia de massa é aquele, profissional ou não, que decide quais informações serão transmitidas ao público e quais serão omitidas. Toda narrativa, ficcional ou não, implica seleção: programas compostos por várias histórias, como noticiários ou reality shows, são fortemente editados. Os guardiões escolhem o que o público verá e descartam o restante. Embora seu poder seja reduzido em redes digitais, onde os usuários podem decidir por si mesmos quais temas valorizam, ainda desempenham uma função de controle, já que grande parte do conteúdo compartilhado nas plataformas sociais tem origem em corporações midiáticas.

Nas redes sociais, os consumidores de mídia podem acrescentar opiniões e críticas, desempenhando um papel ativo. Não apenas exercem voz como audiência sobre o conteúdo que desejam ver, ler ou ouvir, mas também assumem uma função cívica ao responsabilizar representantes eleitos. Se as plataformas fossem compostas apenas por conteúdo de mídia de massa, comentários individuais e produções próprias, a comunicação digital já seria complexa. Contudo, outras forças intervêm: indivíduos mal-intencionados, redes de hackers e botnets (computadores programados para criar contas falsas e difundir mensagens) contribuem com conteúdos que podem amplificar hostilidade, desinformação e animosidade em um ambiente hiperpartidário.

Globalmente, as sociedades democratizaram a comunicação de massa, mas concordar com uma narrativa compartilhada ou mesmo com uma lista comum de fatos tornou-se mais difícil. Usuários criam bolhas de filtro, onde predominam apenas as vozes e informações que desejam ouvir. Isso pode gerar visões de mundo opostas, em que diferentes grupos não apenas sustentam opiniões divergentes, mas também operam com conjuntos distintos de fatos, construindo imagens incompatíveis sobre o que ocorre no mundo e sobre como a sociedade deveria funcionar. Quando os indivíduos sentem a necessidade de defender suas visões filtradas, o resultado é prejudicial para a coesão social.




Outro fenômeno relevante é a desmassificação, entendida como o colapso das audiências tradicionais da mídia de massa. À medida que a quantidade de informações cresce exponencialmente e os canais de disseminação se multiplicam, o público homogêneo e pronto para ser alcançado entra em declínio, fragmentando-se em nichos e comunidades específicas.

Nesse novo cenário, o público (ou base de fãs) precisa ser construído, e não simplesmente aproveitado. Uma estratégia recorrente para ampliar a audiência nas redes digitais consiste em adotar pontos de vista extremos. Essa polarização, somada à tendência das redes sociais de incentivar a organização de grupos por linhas políticas, contribui para a desmassificação, pois os indivíduos passam a se agrupar em facções ideológicas.

O futuro de determinados canais de comunicação de massa, como provedores regulares de significação compartilhada para grandes audiências, encontra-se, portanto, em questão. Ainda assim, alegações de que qualquer meio específico esteja “morto” são exageradas. A leitura de jornais, por exemplo, vem declinando em termos de receita publicitária e número de empregos há cerca de 25 anos, mas em 2025 ainda havia mais de 5 milhões de assinantes no Brasil, 6 milhões na Inglaterra, 5 milhões na França e 90 milhões nos EUA. A diferença numérica é tão grande porque os EUA valorizam muito a produção de jornais locais; as assinaturas são também uma forma de preservação da identidade comunitária, algo que, durante a transição do físico para o digital, o setor soube aproveitar, além de se antecipar na execução.


As implicações para as estruturas sociais e para a produção cultural são de disrupção contínua. A sociedade funciona de modo mais coeso quando a mídia de massa opera adequadamente, mas hoje essa operação depende de ecossistemas digitais complexos. A comunicação interpessoal pode ocorrer sem grandes aparatos tecnológicos, mas é mediada por aplicativos e redes; quando falha, surgem problemas nos relacionamentos. A comunicação organizacional, quando falha, compromete grupos e empresas. E quando a comunicação de massa falha, seja por desinformação, polarização ou colapso de confiança, a própria sociedade corre o risco de fragmentar-se.










Na história da comunicação de massa vemos como os meios técnicos transformaram profundamente a circulação de informações e a relação entre sociedade e instituições. No início do século XX, a mídia de massa começou a articular interesses de grandes instituições de novas maneiras, impulsionada pelo desenvolvimento do telégrafo e pela popularização dos jornais. A rede telegráfica global, consolidada entre meados do século XIX e o início do século XX, reduziu drasticamente as barreiras espaciais ao permitir a transmissão quase instantânea de mensagens, e os jornais se tornaram o primeiro meio de comunicação de massa ao integrar essa tecnologia à produção impressa. A função primordial desse sistema global era a economia de tempo, oferecendo às pessoas acesso rápido a notícias e entretenimento.

John Dewey advertia que comunicação não é sinônimo de compreensão e defendia que o sistema global de informação deveria ser moldado como instrumento educacional, capaz de formar cidadãos aptos a viver em sociedades interconectadas. Embora a esperança utópica de que novas tecnologias como telégrafo, rádio, televisão e, mais tarde, internet promovessem maior entendimento social tenha sido recorrente, a realidade demonstrou que sistemas de comunicação também podem ser utilizados como instrumentos de manipulação e conflito, independentemente de um viés político específico. A evolução das tecnologias de comunicação de massa é, portanto, como já sabemos, o espelho da ampla capacidade humana de realizar tanto ações benéficas quanto nocivas.

O primeiro meio de comunicação global, além da palavra falada, foi o papel. Cartas circulavam lentamente por rotas comerciais, mas já eram uma forma de comunicação transnacional. Com o telégrafo, mensagens passaram a ser transmitidas em minutos e, quando associado aos jornais, inaugurou-se uma comunicação rápida e global capaz de influenciar grandes públicos. A prensa de Gutenberg, por volta de 1440, havia aberto caminho para a disseminação de textos sagrados, como a Bíblia, e impulsionado a Reforma Protestante, mas os livros, caros e de circulação restrita, não constituíam ainda um meio de massa (mais sobre em "Estudos Literários"). A alfabetização crescente, somada à queda dos custos de impressão, permitiu o surgimento da leitura de jornais em larga escala. O Penny Press, publicado em formato acessível e voltado à classe trabalhadora desde a década de 1830, foi o primeiro jornal de massa.

Durante o século XX, a mídia de massa expandiu-se em paralelo à produção industrial e à consolidação das marcas. A publicidade tornou-se combustível para os jornais, que se fundiram em redes cada vez mais lucrativas. O jornalismo profissionalizou-se, desenvolvendo normas de objetividade que buscavam garantir autonomia e credibilidade. Essa prática, embora ainda influente, vem sendo questionada no ambiente hiperpartidário contemporâneo, em que novas formas de transparência e responsabilidade social são exigidas. Ou seja, não é mais tão importante abordar todos os lados, mas sim tomar um lado.





Após analisar as transformações estruturais no campo da comunicação de massa, é necessário reconhecer que os canais midiáticos funcionam como motores de produção cultural. Eles criam o entretenimento que contribui para definir identidades coletivas e individuais. Como se afirma no filme Sociedade dos Poetas Mortos, “Lemos e escrevemos poesia porque somos membros da raça humana, e a raça humana é cheia de paixão. Medicina, direito, negócios, engenharia, essas são atividades nobres e necessárias para sustentar a vida. Mas poesia, beleza, romance, amor, é por isso que sobrevivemos.” Se substituirmos “ler e escrever poesia” por “criar cultura”, compreendemos a relevância da produção cultural. Cultura pode ser entendida como o conjunto de conhecimentos, crenças e práticas que expressam e organizam a experiência humana, e cultivar é, na prática, a forma como nos manifestamos e damos sentido à vida.

Na esfera midiática, distinguem-se três grandes categorias de obras culturais: a alta cultura, a cultura pop e a cultura popular. A alta cultura corresponde ao que se considera o ápice da produção artística e intelectual de uma sociedade, frequentemente associada às elites econômicas e às instituições tradicionais. A cultura pop designa o vasto conjunto de produtos culturais voltados às massas, caracterizados pela acessibilidade e pela ampla difusão. A cultura popular, por sua vez, refere-se às expressões nascidas da vida cotidiana, reconhecíveis por sua utilidade prática e valor artístico. Nas sociedades pré-históricas, alta cultura, cultura popular e cultura pop eram muitas vezes indistintas, já que os objetos do cotidiano, como tigelas, cestos ou máscaras, podiam ser simultaneamente utilitários e artísticos. A arte popular moderna, entretanto, busca capturar o que é ao mesmo tempo belo e funcional na vida cotidiana.

A música folclórica exemplifica bem essa dimensão, pois se apoia em instrumentos tradicionais e em narrativas que transmitem valores morais, de modo semelhante aos contos de fadas, que são talvez a forma mais emblemática de literatura popular. O valor da produção cultural, contudo, é sempre ligado às percepções.

Na sociedade contemporânea, a mídia de massa exerce papel decisivo na formação dessas percepções. É fundamental reconhecer que diferentes culturas possuem valores morais distintos, mas também admitir que certas práticas devem ser universalmente rejeitadas, mesmo quando aceitas em determinados contextos. 


Para compreender o papel da mídia na sociedade e sua influência sobre a cultura, é útil refletir sobre como ela molda nossas próprias percepções e escolhas cotidianas. E, principalmente, se as percepções moldadas pela mídia de massa são eticamente admissíveis. Essa, sim, seria uma verdadeira desmassificação, uma ação que tem a ética como guardiã, como curadora.







professora Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025). 



Referências

POEPSEL, Mark. Media, Society, Culture and You. Rebus Community, 2018. 







A edição da Salutaris sobre A Arte Moderna, o trabalho mais recente, está realmente muito interessante; foi extremamente cansativo produzir esta edição. A arte moderna é caracterizada pelo caos e pela enorme variedade de movimentos artísticos. Na edição Pausa, sobre o Fim da Arte, os ensaios abordaram toda essa diversidade, e na edição da Salutaris sobre arte moderna isso fica visível. Ainda assim, achei necessário incluir dois outros ensaios para comentar, aprofundar e articular os pontos vistos nas obras dos 14 artistas apresentados.

O processo de curadoria foi realmente difícil, principalmente na escolha das obras que melhor representam cada artista e seu movimento artístico. Muitas vezes me vi revisitando a curadoria e acrescentando uma ou outra obra. O processo foi concluído e fiquei realmente feliz em produzir este volume, que é o sexto. A revista nasceu de um desejo pessoal e de um interesse cultivado ao longo de anos em jornalismo cultural e estudos culturais.

Na arte existe um tipo de obra chamado “pintura de gabinete”: são obras pequenas para decorar espaços menores, já que, antigamente, algumas pessoas viviam em casas enormes, mas não utilizavam diariamente todos os cômodos. Normalmente, escolhiam alguns poucos e concentravam a vida cotidiana neles, decorando-os com um pouco mais de atenção.

As revistas de arte e os ensaios filosóficos são iniciativas que buscam oferecer ao leitor um conteúdo de gabinete, algo mais palatável, para ser visto, usado e revisitado no dia a dia. Isso sempre foi do meu interesse: essa possibilidade, assim como as diversas revistas e cadernos filosóficos, literários e artísticos publicados no Brasil e fora dele com essa intenção.

Recentemente escrevi uma newsletter para os Mecenas da revista Salutaris, com indicações de coisas muito interessantes e inusitadas, ressaltando a importância de ter interesses e, principalmente, de dedicar tempo para cultivá-los. Tenho a impressão de que as pessoas, independentemente da idade, têm se tornado desinteressadas. Talvez pela vida moderna, agitada e voltada à produtividade rentável. 


É estranho uma pessoa que não se interessa genuinamente por nada.

Tenho pensado que esse é o motivo de as amizades serem raras. De modo geral, elas surgem a partir de interesses e gostos; não acredito que precisem ser os mesmos, mas é necessário que exista algum interesse. É um pouco assombrosa essa ausência de interesses: parecem pessoas vazias. 


É tão maravilhoso ser interessado. Eu rezo a Deus para que eu não perca essa graça: divertir-me por ser interessada, sem ter curiosidade vã.

Uma vez, em aula, uma pessoa comentou que a curiosidade era boa por conta de um livro traduzido como “educação pela curiosidade”. No entanto, a tradução mais exata seria “educação pelo maravilhamento”: uma curiosidade positiva, que leva a algum lugar e preenche a alma. Penso que o maravilhamento ainda não foi bem compreendido. 

No livro Graça e Beleza busquei revisitar essa temática tão vasta, interessante e profunda, bem mais profunda do que simplesmente ver coisas bonitas na internet. Esse movimento da alma, de nutrir-se, preencher-se e transformar-se após a nutrição, só acontece quando a alma tem interesses, escolhe um deles, dedica tempo ao cultivo e depois comemora o percurso que realizou. É uma vivência muito pessoal, uma construção de um currículo pessoal, formado pelos interesses que receberam dedicação formativa. Muitos desses interesses não serão compartilhados e muito menos rentabilizados. Eu mesma tenho muitos interesses que somente quem é aluno assíduo reparou que eu os tenho, já que não faço nada exclusivamente dedicado a eles. Acredito ser importante citar esse ponto porque tenho a sensação de que quem consome muitas coisas pela internet acredita piamente que está consumindo tudo, absolutamente tudo o que quem produz conteúdo sabe... Ora, isso não acontece, ao menos não nas minhas produções. Eu compartilho aquilo que acredito que vale a pena e conforme o que percebo do processo dos alunos e leitores, eu penso no seu processo. 


Mas voltemos...

Como são diferentes as pessoas interessadas, com um currículo pessoal de interesses trabalhado e verdadeiro. É realmente raro, mas eu gostaria muito que você fosse uma dessas pessoas luminosas que habitam o mundo.






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professora Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025). 


Margareth in the Church. Nicaise de Keyser, 1813-1887




Recentemente, estudos sociais sobre amparo a mulheres, abusos e gentileza se tornaram comuns na Europa. Vários deles mostram uma mulher dando o Sinal de Ajuda após esbarrar em alguém. A maioria dos homens não a ajudou. 

Raramente defendo homens em meus textos; pouco me agrada essa visão de que a mulher comeu o fruto proibido porque estava sozinha e fez coisa errada, entre outras absurdidades que circulam pela internet numa agilidade insana e voraz.

Afinal, esses estudos sociais europeus confirmam o que escrevi nos livros que publiquei: os homens estão mais perdidos que as mulheres.

A temática da proteção masculina se tornou frequente. Não existe um grupo social de direita, conservador ou seja lá qual placa a pessoa escolheu carregar que não fale sobre a tal proteção masculina. Mas a proteção veiculada é uma proteção restritiva, a proteção dos que ele ama, das pessoas próximas a ele. E está correto, é o mínimo esperado. É também verdade que muitos falham nesse mínimo.

Acho curioso esse discurso em prol de aumentar o patrimônio financeiro, que, se possível, deve ser feito. No entanto, o tal homem cristão muitas vezes deixa de trocar o chuveiro da casa onde vive a família inteira. Acredite: isso acontece, e a família permanece com um chuveiro mequetrefe. O mesmo vale para os reparos da casa, para reformas que poderiam melhorar o atendimento às necessidades da família. Tudo isso é prover. E, em muitos casos, não exige grande patrimônio financeiro, mas apenas organização com o pouco dinheiro disponível. Estranho que nada disso seja apontado como ser provedor. 

Não me espanta, portanto, que os estudos citados no início mostrassem homens que não oferecem ajuda a uma pessoa pedindo socorro por abuso. Eles mal conseguem dar conta da própria dinâmica familiar e, portanto, são muito egoístas para olhar uma mulher estranha e pensar: poderia ser minha mãe, minha filha, minha irmã. Esse é o segundo ponto que parece faltar nessa visão de varão nobre que brotou atualmente: ainda é muito egoísta. Existem outros fatores que motivam isso, mas acredito que infelizmente nunca cheguemos a falar sobre eles.

Voltando ao Éden, para não deixar essa explicação sem ser dada: Adão e Eva não morriam, não adoeciam, tinham inteligência infusa e domínio da razão sobre as paixões, coisa que, a essa altura, um número maior de pessoas já conhece, tão diferente do cenário de 2016, quando nas catequeses online muitos duvidavam de que eu estava ensinando certo. Isso significa que Adão e Eva eram mais inteligentes que qualquer gênio que possa agora passar pela sua cabeça. Eva não era burra; certamente era milhões de vezes mais inteligente que as mulheres inteligentes deste tempo. Ela escutou a serpente porque queria ter um conhecimento maior do que já tinha e, para isso, ultrapassou os limites divinos.

Adão, que também não tinha nada de burro, certamente reconheceu o fruto que ela estava oferecendo, lembre-se de que eles cuidavam daquele jardim dia e noite. Ele sabia que fruto era aquele e escolheu aceitar. O resto você lembra: ele passou a responsabilidade para ela, e ela passou a responsabilidade para a serpente.

E aqui está o ponto que, novamente, insistentemente e exaustivamente, venho ensinando: o cerne de alguma restauração, se Deus permitir, será a responsabilidade. Nosso Senhor Jesus encarnou, viveu, trabalhou, se deixou escarnecer, morreu e ressuscitou para tomar sobre si a responsabilidade. Toda a sua vida foi um: Eu me responsabilizo por eles.

E está aí a porta de alguma chance para que homens cristãos sejam de fato cristãos: assumir a responsabilidade de verdade, levar a culpa, assumir a consequência por si e pelos que estão sob seus cuidados (claro que isso tem um limite no caso dos filhos, principalmente a depender da idade e do sexo). Mas, no geral, está aí o que não se escuta nos discursos de hoje. Pelo contrário, os discursos atuais fomentam que, na verdade, a responsabilidade é da mulher. O que é uma réplica, com babados, do discurso feminista de que as mulheres sozinhas dariam conta de tudo, como já escrevi e falei diversas vezes em vários lugares durante os últimos 10 anos, que não dará certo.

No frigir dos ovos, estamos numa cena tal e qual no Éden, mas mais engomada. Isso também se repete na dinâmica entre padres e fiéis. Na maioria dos discursos, os fiéis são responsáveis pelos padres, são culpados inclusive pela queda dos padres. Toda essa dinâmica é uma inversão completa e total da ordem. Esse é o motivo que me leva a não contribuir para esse discurso tão distante da postura do Senhor Jesus, tão distante do que Ele gostaria que fizéssemos: que cada um assuma a responsabilidade do seu posto.



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professora Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025). 


Desde a narrativa da Torre de Babel, a linguagem aparece como força capaz de unir ou dispersar, criar ou destruir. O episódio bíblico mostra que o excesso de orgulho humano ao construir uma torre que chegasse ao céu, foi contido por Deus através da multiplicação das línguas.




No século XX, o estruturalismo e seus desdobramentos pós-estruturalistas insistiram em ver a linguagem como campo de luta ideológica. Vários autores mostraram que não há neutralidade nas palavras: elas carregam estruturas de poder, moldam consciências e podem ser revolucionárias. A “revolução da linguagem” é política. Mudar o discurso é alterar a realidade social.




Os Padres do Deserto falavam dos logismoi (pensamentos que se manifestam como palavras interiores) como portas de entrada para as tentações. Embora não utilizassem literalmente a expressão “demônios da linguagem”, descreviam como certas formas de fala ou pensamento verbalizado podiam ser inspiradas por forças malignas. O demônio da tagarelice, da vaidade verbal e da dispersão mental era visto como opositor da oração contínua. O silêncio, nesse contexto, era uma disciplina ascética, mas também uma forma de resistir e vencer a dispersão espiritual. Uma pequena anedota ilustra bem essa visão: um discípulo perguntou a seu abba por que o silêncio era tão importante. O monge respondeu: “Um homem tinha um jarro cheio de água pura. Cada palavra que dizia era como uma pedra lançada dentro do jarro. Logo a água se turvou, e ele já não podia beber dela. Assim é a alma: quando falamos demais, mesmo coisas boas se tornam confusas, e não resta clareza para ouvir a voz de Deus”.


Em outras culturas, encontramos imagens que passam ideias semelhantes. O chamado Quin Ling chinês, em algumas interpretações, é descrito como personagem que drena a vitalidade da pessoa através das palavras ditas e escritas. Ele só se dissipa quando o discurso se extingue; isso aponta metaforicamente a ideia de que a fala excessiva ou simplesmente falar por falar enfraquece a força interna. Também podemos ver algo similar, mas com outro prisma, no mito grego de Eco, a ninfa condenada a repetir apenas as últimas palavras que ouvia. Incapaz de criar um discurso próprio, sua vida se reduziu a ecos, uma vida desgastada pela repetição da fala de outros.


Na tradição judaica, também encontramos, como era de se esperar, advertências severas. A Torá (Pentateuco da Bíblia) apresenta a criação como ato de fala divina: “E Deus disse: haja luz”. A palavra é força criadora, mas o Midrash (coleções de comentários da Torá) alerta para o lashon hara, a língua má, considerada tão grave quanto o homicídio. Um conto midráshico reforça essa percepção: um rei pediu a seu servo que trouxesse do mercado a melhor coisa do mundo. O servo trouxe uma língua. No dia seguinte, o rei pediu a pior coisa do mundo. O servo trouxe novamente uma língua. “Com a língua podemos abençoar e curar, mas também amaldiçoar e destruir. Nada é tão bom, e nada é tão mau, quanto a palavra”, explicou. O Tânia, livro da tradição judaica hassídica, ensina que as palavras têm força espiritual e que o discurso vazio alimenta as forças do sitra achra, o “lado oposto”, associado ao mal. A linguagem é um canal de força que pode ser santificado ou corrompido.



No cristianismo, Nossa Senhora, em locuções interiores ao Padre Stefano Gobbi, reunidas no livro do Movimento Sacerdotal Mariano, advertiu que existe uma ação diabólica por meio da comunicação. Ela descreveu como o mal usa as palavras para confundir e enfraquecer a fé dos sacerdotes e fiéis. É importante lembrar que tais mensagens pertencem ao campo das revelações privadas, não ao magistério oficial da Igreja. Ainda assim, elas reforçam a percepção de que a comunicação pode ser instrumento de evangelização ou de destruição, dependendo da pureza do coração do orador. É claro que devemos lembrar, como tenho feito em vários artigos anteriores, que a imposição do silêncio e do fazer calar também pode ser uma atitude diabólica, em prol de uma união e paz falsa e de uma defesa autoritária da própria autoridade. Portanto, temos, é claro, um território que exige muita cautela. Aquele que deseja falar precisa ter pureza de coração para que as palavras tenham efeito. E nem sempre o silêncio é sinal de cultivo espiritual e prudência.




A questão, portanto, não se resume à linguística ou à gramática, como parece ser a principal preocupação atualmente. Trata-se de adquirir o claro entendimento de que a linguagem é um território espiritual em si mesma, tanto o território escrito quanto o falado.


Se olharmos para a Torre de Babel, para os logismoi dos Padres do Deserto e para o lashon hara do Midrash, vemos um fio comum: a linguagem pode dispersar, drenar ou desviar. O poder das palavras é tão grande que exige disciplina espiritual. Não por acaso, tradições distintas convergem na valorização do silêncio e da palavra justa, que é caminho da sabedoria.


A modernidade, ao insistir na revolução da linguagem, talvez tenha esquecido que toda revolução verbal implica riscos espirituais. Mudar palavras é mudar mundos, mas também pode abrir espaço para forças destrutivas.


A comunicação contemporânea, cheia de velocidade e envolta na multiplicação de discursos, torna ainda mais urgente essa reflexão por parte daqueles que manuseiam o poder das palavras. Se os monges do deserto já viam na tagarelice um perigo espiritual, o que dizer das redes sociais e da avalanche de palavras que nos cercam? A advertência de Nossa Senhora parece tomar forma muito definida. Há uma ação diabólica por meio da comunicação, e cabe aos cristãos purificar sua linguagem. No entanto, é preciso também salientar que nem toda palavra que divide é diabólica. Nosso Senhor, ao comunicar a instrução sagrada, muitas vezes usou ou se viu em situações com a mesma atitude externa, mas com sentidos diferentes.


Por exemplo, o fariseu e o publicano no templo: o fariseu, de pé, exaltava suas obras, enquanto o publicano, de longe, batia no peito e pedia misericórdia. O sinal externo, portanto, não era o problema; a questão estava no coração: um tinha o coração impuro em autoapreciação, e o outro puro em contrição.

O mesmo vale para a divisão. “Diabo” significa divisor; realmente, quem induz a divisão por interesses pessoais, egoístas, mesquinhos e por sede de poder não age segundo as Leis Divinas (infelizmente, isso não acontece somente no meio secular). No entanto, Nosso Senhor disse claramente: “Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada”. Essa espada é o Evangelho, que causa uma divisão necessária: separa a verdade da mentira, a luz das trevas. Cabe, portanto, compreender que a divisão ocorrerá, mas nem toda divisão é diabólica. 


A espada já está posta e a cortar.



Curiosamente, a própria Bíblia, como era de se esperar, nos dá o remédio: se em Babel ocorre a dispersão das línguas como punição ao orgulho humano, em Pentecostes é o reverso. O Espírito Santo faz com que os apóstolos falem línguas de povos diferentes, e todos compreendem a mesma mensagem. Daí a minha insistência em falar do Espírito Santo aos que manuseiam a palavra em ações seculares cristãs.


Além disso, é útil lembrar que existem textos hebraicos que afirmam que o mundo é sustentado pelas palavras da Torá (da Bíblia), ou seja, se o estudo da Torá cessasse por um instante, o universo inteiro se desfaria. Acredito que, com o tempo, ficará claro que as nossas palavras podem refletir a força vital contida nas Palavras Divinas que sustentam a realidade e o mundo em que vivemos. Na filosofia antiga, Platão via o logos como ponte entre o mundo sensível e o inteligível; no cristianismo, o Logos é uma pessoa: o Verbo encarnado, Jesus Cristo.



Com esse olhar atento e refinado, surge a acuidade para ler com outra mente:

“As palavras que eu vos tenho dito são espírito e vida.” – João 6, 63





professora Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025). 






O luxo brasileiro, tantas vezes invisível aos próprios brasileiros, é valorizado no exterior. O mobiliário nacional é um exemplo: Sérgio Rodrigues, com sua poltrona Mole, tornou-se ícone do design moderno; Joaquim Tenreiro, pioneiro no uso da palhinha e da madeira tropical, é disputado em leilões internacionais; Lina Bo Bardi, com a Bowl Chair, figura em coleções de museus europeus. Essas peças, criadas com engenho e simplicidade, são vendidas como obras de arte em Nova Iorque e Paris, enquanto por aqui ainda são desconhecidas.

No campo dos tecidos, a seda brasileira está entre as melhores do mundo. Produzida principalmente no Paraná, em cidades como Ponta Grossa e Cascavel, onde se concentram as plantações de amoreira e a criação do bicho-da-seda. Essa fibra é exportada em larga escala. Estimativas recentes apontam para cerca de 2,2 mil toneladas de casulos por ano, embora a produção tenha diminuído em torno de 77% nas últimas duas décadas. Ainda assim, mais de 95% da seda nacional segue para o exterior, abastecendo grifes internacionais de alta costura. Há registros de que maisons como Hermès, Dior e Armani já incorporaram a seda brasileira em coleções específicas, atraídas pela qualidade. O comércio internacional movimenta cifras expressivas, reforçando uma tendência de vários setores no Brasil: exportamos o requinte e consumimos a imitação. Na grande dinâmica econômica do mundo, o Brasil é o fornecedor de ótima matéria-prima que nunca chega aos próprios brasileiros.






No universo da moda católica, observa-se uma busca por reproduzir designs europeus mais pesados que não se adaptam ao clima tropical. Assim, surgem roupas que atendem às diretrizes da virtude da modéstia no design, mas falham em ser compatíveis com o país em que vivemos. Não no design, veja bem, mas na escolha dos tecidos. Encontrar vestidos que atendam à modéstia em linho puro, algodão puro de qualidade ou seda nacional é tarefa difícil. O resultado é uma produção que ignora a riqueza de fibras locais e acaba um pouco sem identidade própria. No entanto, todos esses pontos são aceitáveis, uma vez que é um mercado novo, mas ainda assim causa certa preocupação a lentidão dos responsáveis em observar esses aspectos referentes aos tecidos 100% naturais, que sempre foram característica de roupas produzidas em regiões tropicais.

Se voltarmos às primeiras fotografias e filmagens feitas em São Paulo e Rio de Janeiro, já em meados de 1900, veremos homens em ternos de algodão e mulheres em vestidos igualmente de algodão, quase sempre em tons claros. O algodão permitia pudor sem sacrifício térmico. Isso mostra que já tivemos uma moda condizente com nosso clima, algo que se torna mais urgente se considerarmos as sobrecargas térmicas que estamos vivendo por conta do asfalto e do ar-condicionado, que geram uma massa de calor em regiões urbanas, somadas aos apartamentos e casas com pouca ventilação cruzada, paredes finas e layouts que também não são condizentes com o Brasil.

É nesse ponto que se abre uma reflexão sobre o próprio termo moda modesta, recentemente questionado de forma desnecessária. Do ponto de vista da língua portuguesa, trata-se de uma construção gramatical clara: “moda” é o substantivo que designa o campo do vestuário, enquanto “modesta” é o adjetivo que o qualifica, indicando um vestuário marcado pela sobriedade, pelo pudor e pela simplicidade. Essa formulação, além de correta, já aparece historicamente em textos ligados ao vestuário cristão, sobretudo no universo católico, para designar roupas que conciliam imagem e aparência ao recato. Na verdade, o entendimento do termo é bem simples.

Voltando ao tema, podemos desdobrar essa reflexão sobre o termo. Sendo o Brasil o maior país católico do mundo, haveria espaço para que essa moda modesta se desenvolvesse com identidade própria, nascida de nossa realidade tropical. Não se trata de romper com tradições, mas de, de forma realmente honesta, aplicá-las ao clima, ou seja, não mudando os tamanhos, as medidas de pudor e recato, mas sim mudando o tecido. Uma moda modesta brasileira, feita de tecidos naturais, poderia unir a nossa amada tradição ao frescor, ao pudor e ao conforto térmico. Vestidos em algodão, linho, ternos de linho, blusas e camisas femininas em seda nacional: peças que mostram a nossa história, brasileira e católica, feitas para o nosso clima, sem perder a reserva que a modéstia exige.





Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025). 




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Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

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