"A sociedade não apenas continua existindo por meio da transmissão e da comunicação, mas pode-se dizer, com propriedade, que ela existe na transmissão e na comunicação." — John Dewey, Democracia e Educação (1916)
John Dewey, há mais de um século, assinalou que a sociedade é sustentada pela comunicação e encontra-se imersa nela. Essa observação retoma uma tradição filosófica que reconhece que a vida coletiva depende da circulação de mensagens para sua coesão e funcionamento. Segundo a tradição tomista, a metafísica é a ciência do ente enquanto ente (ens inquantum ens), isto é, o estudo das causas e princípios mais universais da realidade. São Tomás de Aquino ensina que a sociedade existe porque o ser humano, enquanto ente racional, é naturalmente inclinado à vida em comum e à comunicação. Nesse quadro, a comunicação não é o fundamento último da sociedade, mas uma consequência necessária da natureza social do homem.
Dewey, por outro lado, interpreta a comunicação como condição ontológica da própria sociedade. O pragmatismo de Dewey considera a comunicação como elemento constitutivo da vida social, enquanto a metafísica tomista a entende como derivada da essência racional e relacional do ser humano.
A semiótica, definida como a ciência dos signos e dos processos de significação, foi sistematizada por Charles Sanders Peirce e, em paralelo, por Ferdinand de Saussure sob o nome de “semiologia”. Embora distintas, ambas as tradições convergiram para o estudo da produção e circulação de significados. A semiótica demonstra que toda comunicação é mediada por signos e que os símbolos (palavras, gestos, imagens) são a trama pela qual a significação é produzida e compartilhada. Palavras faladas e escritas são exemplos evidentes, mas formas de comunicação não verbal, como a Língua de Sinais e códigos comportamentais sociais, igualmente participam, estes últimos de maneira muito forte, desse processo. Todas compartilham o traço fundamental de recorrer a presenças simbólicas para transmitir significação.
A comunicação interpessoal refere-se à interação entre duas ou mais pessoas em nível pessoal, frequentemente presencial, podendo assumir modalidades verbais ou não verbais. Em contraste, a comunicação de massa caracteriza-se pela emissão de mensagens simbólicas de uma fonte para um público numeroso. No contexto das mídias digitais, contudo, a distinção entre ambas pode tornar-se difusa, uma vez que mensagens originalmente destinadas a interlocutores específicos podem viralizar e alcançar multidões. A comunicação organizacional, por sua vez, designa a circulação de mensagens no interior de organizações formais, como governos, empresas, escolas e hospitais, sendo condição sine qua non para o êxito ou fracasso dessas instituições.
A estrutura de comunicação, composta por tecnologias, normas e agentes especializados, pode ser compreendida metafisicamente como o “substrato material” da semiose social. Não se trata apenas de dispositivos técnicos, mas de um campo normativo e simbólico que regula a circulação de mensagens. A sociedade, em termos sociológicos, é definida como um agrupamento de grande escala sustentado por instituições formais e por relações estruturadas ao longo do tempo, como ocorre nas nações, compostas por sistemas jurídicos, econômicos e educacionais. A cultura, por sua vez, pode ser entendida em sentido antropológico clássico como “o conjunto complexo de conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes e quaisquer outras capacidades adquiridas pelo homem como membro da sociedade”. Em uma acepção mais contemporânea, inspirada na antropologia simbólica, cultura é o sistema simbólico que organiza princípios e fundamentos, indispensável à compreensão da experiência humana.
A comunicação de massa exerce influência decisiva tanto sobre a sociedade quanto sobre a cultura. Os sistemas midiáticos, variando conforme os ordenamentos jurídicos, condicionam o modo de funcionamento social e, ao mesmo tempo, disseminam signos culturais em escala global. Embora os indivíduos manifestem preferências ao consumir conteúdos, são as corporações midiáticas que determinam quais narrativas serão produzidas e promovidas, sobretudo em formatos de elevado custo, como grandes filmes, lançamentos de videogames e notícias internacionais. Metafisicamente, a mídia de massa pode ser vista como um “campo de forças” em que signos disputam hegemonia; semioticamente, ela é o espaço privilegiado da circulação de significações que estruturam tanto a cultura quanto a sociedade. Dewey enfatiza o caráter constitutivo da comunicação para a sociedade, enquanto a tradição tomista lembraria que tal comunicação é expressão de uma natureza racional e social já dada no ser humano.
A mídia de massa constitui, assim, uma instituição autônoma, distinguindo-se pelo potencial de influenciar o pensamento coletivo. As ideias que circulam na comunicação organizacional e interpessoal são frequentemente estabelecidas, reforçadas ou contestadas pelas mensagens veiculadas na grande mídia, confirmando que as sociedades existem em transmissão e em comunicação. Contudo, a mídia não atua isoladamente: ela é moldada por grupos sociais e instituições, ao mesmo tempo em que os molda.
Quase tudo o que se lê, vê ou ouve está enquadrado em um contexto de mídia de massa. Entretanto, a familiaridade não garante êxito: signos midiáticos que não ressoam com o público tendem a desaparecer rapidamente, ainda que aparentem consonância com as tendências dominantes.
Com o advento das redes de computadores globais, especialmente a banda larga de alta velocidade e as tecnologias de comunicação móvel, os indivíduos passaram a dispor da capacidade de publicar seus próprios trabalhos e comentar mensagens da mídia de massa com uma facilidade inédita. Se a comunicação de massa do século XX era caracterizada como um sistema de um-para-muitos, em que editoras e radiodifusores alcançavam plateias que aguardavam passivamente, a mídia de massa possibilitada pelas redes digitais de informação no século XXI assumiu um formato de muitos-para-muitos, descentralizando o fluxo comunicativo.
Um exemplo eloquente é o YouTube, que reúne milhões de produtores que também são consumidores. Nenhuma das grandes plataformas sociais — Facebook, YouTube, Instagram, Qzone, Weibo, Twitter, Reddit ou Pinterest — é reconhecida principalmente pela produção de conteúdo próprio. Em vez disso, oferecem espaços para que os usuários publiquem suas criações e compartilhem materiais oriundos das empresas de mídia de massa, como notícias e entretenimento. O resultado é um processo de definição de interesses muito mais distribuído no ambiente digital do que no sistema analógico de mídia de massa, centrado em poucos emissores.
O processo de atribuir significação à sociedade, isto é, de contar múltiplas histórias menores que se somam em uma narrativa compartilhada por grandes públicos, tornou-se mais colaborativo do que no século XX, pois mais pessoas consomem notícias em plataformas em rede do que em canais controlados por guardiões. Um guardião da mídia de massa é aquele, profissional ou não, que decide quais informações serão transmitidas ao público e quais serão omitidas. Toda narrativa, ficcional ou não, implica seleção: programas compostos por várias histórias, como noticiários ou reality shows, são fortemente editados. Os guardiões escolhem o que o público verá e descartam o restante. Embora seu poder seja reduzido em redes digitais, onde os usuários podem decidir por si mesmos quais temas valorizam, ainda desempenham uma função de controle, já que grande parte do conteúdo compartilhado nas plataformas sociais tem origem em corporações midiáticas.
Nas redes sociais, os consumidores de mídia podem acrescentar opiniões e críticas, desempenhando um papel ativo. Não apenas exercem voz como audiência sobre o conteúdo que desejam ver, ler ou ouvir, mas também assumem uma função cívica ao responsabilizar representantes eleitos. Se as plataformas fossem compostas apenas por conteúdo de mídia de massa, comentários individuais e produções próprias, a comunicação digital já seria complexa. Contudo, outras forças intervêm: indivíduos mal-intencionados, redes de hackers e botnets (computadores programados para criar contas falsas e difundir mensagens) contribuem com conteúdos que podem amplificar hostilidade, desinformação e animosidade em um ambiente hiperpartidário.
Globalmente, as sociedades democratizaram a comunicação de massa, mas concordar com uma narrativa compartilhada ou mesmo com uma lista comum de fatos tornou-se mais difícil. Usuários criam bolhas de filtro, onde predominam apenas as vozes e informações que desejam ouvir. Isso pode gerar visões de mundo opostas, em que diferentes grupos não apenas sustentam opiniões divergentes, mas também operam com conjuntos distintos de fatos, construindo imagens incompatíveis sobre o que ocorre no mundo e sobre como a sociedade deveria funcionar. Quando os indivíduos sentem a necessidade de defender suas visões filtradas, o resultado é prejudicial para a coesão social.
Outro fenômeno relevante é a desmassificação, entendida como o colapso das audiências tradicionais da mídia de massa. À medida que a quantidade de informações cresce exponencialmente e os canais de disseminação se multiplicam, o público homogêneo e pronto para ser alcançado entra em declínio, fragmentando-se em nichos e comunidades específicas.
Nesse novo cenário, o público (ou base de fãs) precisa ser construído, e não simplesmente aproveitado. Uma estratégia recorrente para ampliar a audiência nas redes digitais consiste em adotar pontos de vista extremos. Essa polarização, somada à tendência das redes sociais de incentivar a organização de grupos por linhas políticas, contribui para a desmassificação, pois os indivíduos passam a se agrupar em facções ideológicas.
O futuro de determinados canais de comunicação de massa, como provedores regulares de significação compartilhada para grandes audiências, encontra-se, portanto, em questão. Ainda assim, alegações de que qualquer meio específico esteja “morto” são exageradas. A leitura de jornais, por exemplo, vem declinando em termos de receita publicitária e número de empregos há cerca de 25 anos, mas em 2025 ainda havia mais de 5 milhões de assinantes no Brasil, 6 milhões na Inglaterra, 5 milhões na França e 90 milhões nos EUA. A diferença numérica é tão grande porque os EUA valorizam muito a produção de jornais locais; as assinaturas são também uma forma de preservação da identidade comunitária, algo que, durante a transição do físico para o digital, o setor soube aproveitar, além de se antecipar na execução.
À medida que o público de massa se fragmenta os diversos tipos de mídia (áudio, vídeo, texto, animação e as indústrias a eles vinculadas) passaram a se integrar em plataformas globais digitais e redes móveis em um processo de convergência. Hoje, essa convergência envolve ecossistemas mediados por algoritmos, inteligência artificial e sistemas de recomendação que reorganizam as audiências segundo interesses culturais, sociais e políticos específicos.
Em uma sociedade dominada por redes digitais, os indivíduos tendem a se agrupar em torno das informações que reconhecem e desejam acreditar, não apenas pela impossibilidade de processar a enorme quantidade de dados disponíveis, mas também porque os sistemas de filtragem automatizada reforçam preferências e criam bolhas informacionais, pequenos blocos massificados.
No futuro próximo, é plausível esperar que produtores tradicionais mantenham poder significativo como parte de grandes conglomerados, fortalecidos pela desregulamentação e pela aquisição de múltiplas empresas. Ao mesmo tempo, startups digitais continuarão a tentar construir audiências em comunidades fragmentadas.
As implicações para as estruturas sociais e para a produção cultural são de disrupção contínua. A sociedade funciona de modo mais coeso quando a mídia de massa opera adequadamente, mas hoje essa operação depende de ecossistemas digitais complexos. A comunicação interpessoal pode ocorrer sem grandes aparatos tecnológicos, mas é mediada por aplicativos e redes; quando falha, surgem problemas nos relacionamentos. A comunicação organizacional, quando falha, compromete grupos e empresas. E quando a comunicação de massa falha, seja por desinformação, polarização ou colapso de confiança, a própria sociedade corre o risco de fragmentar-se.
professora Ana Paula Barros
Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).
Referências
POEPSEL, Mark. Media, Society, Culture and You. Rebus Community, 2018.
