"Ninguém que esteja atento à beleza, portanto, está sem o conceito de redenção — de uma transcendência final da desordem mortal em um 'reino de fins'. Em uma era de fé em declínio, a arte é testemunho duradouro da fome espiritual e dos anseios imortais de nossa espécie." (Scruton, Beleza: Uma Introdução Muito Breve, 2011)
A metaestética é a área que realiza reflexões sobre a estética, que por sua vez é a "capacidade cognitiva de apreensão pelos sentidos".
Pensarmos sobre como a arte e o belo se relacionam com a sociedade, o corpo, a alma e a vida é metaestética. Meta na filosofia é o termo usado para “além”, portanto metaestética é “para além da apreensão”. Tal nicho reflexivo surgiu na filosofia para sanar as questões sobre o fim da arte, no sentido de finalidade, mas também de finitude, em que se coloca a questão de que a arte acabou e que agora vemos, na verdade, uma sucessão de reinvenções narrativas em que a arte é mais um discurso que passa a balizar questões históricas e sociais, fortemente ligada à crítica de cultura. O que pode gerar, evidentemente, a reflexão sobre se isso eleva a alma, refrigera a mente, acalma e causa maravilhamento. Talvez só gere mais perturbação. No entanto, também é válido pensar que a sociedade, em tal estado de espírito como o atual, só possa olhar para si através da perturbação.
Outro motivo que fez com que a metaestética fosse necessária é a conclusão de que o ato de pensar é, de certa forma, feitura artística, geradora de uma instigação para apreensão, fruto também de apreensão. Decorre então que, se o pensar é estético (lê-se capacidade de apreensão pelos sentidos), a linguagem também o é. Logo, é necessário um desdobramento do pensamento nessa direção específica, embora muitos autores tenham falado a respeito sem, no entanto, nomear como metaestética, como é muito comum na filosofia. Assim, como ao bom pensador meia ideia basta, a metaestética, como ocorre com toda disciplina trabalhada no modus “além”, tem relação com o eterno e, por isso mesmo, com o cotidiano, pois como ensina São Tomás "o superior abarca o inferior". É uma disciplina sobre o longe incrivelmente perto na concretude do dia a dia, terreno mesmo das nossas apreensões únicas e irrepetíveis.
Dessas três linhas, a disciplina da metaestética busca tecer uma longa e entrameada teia para a semiótica, que é o conjunto de símbolos que são norteadores sociais e culturais. Em termos práticos, no cotidiano de quem trabalha na área, a metaestética interroga a estética, interroga a apreensão e a liga a um cenário mais amplo de significados morais, culturais e, no caso católico, religiosos. Claro que isso, como tudo na filosofia, gera certa inquietação, certa revolta interna nas mentes mais acostumadas a assimilar as propostas de apreensão moduladas e, portanto, niveladoras, impostas pela indústria comercial, de moda, cosmética e tantas outras que usam da apreensão pelos sentidos para uma finalidade comercial, direta ou indiretamente.
“A indústria cultural perfidamente realizou o homem como ser genérico. Cada um é apenas aquilo que qualquer outro pode substituir: coisa fungível, um exemplar.” (Adorno, Indústria Cultural e Sociedade)
Também é inquietante caso seja apresentado a mentes fascinadas por padrões hoje tão disseminados em todos os meios, inclusive os religiosos, já que, de forma exigente e radical, esta área prevê um conhecimento cultural verdadeiro, ou seja, conhecer outras culturas, seus mitos, saberes e conjunto de ideias, para então desenvolver uma teia de ideias que possa catolicamente permear as culturas justamente por encontrar em cada uma um portal propício. Normalmente esse portal está na estética (na apreensão pelos sentidos), mas precisa do além-estética (para além da apreensão) para gerar algum bem real e duradouro e, por fim, conseguir usar sabiamente os símbolos. Como toda disciplina de filosofia e cultura, exige responsabilidade e profundo respeito pela história humana em cada cultura.
¹Ana Paula Barros
Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).
Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.
Totus Tuus, Maria (2015)
