O Homem Moderno (Padre Alfredo Sáenz): o perdedor
"O que o homem moderno precisa compreender é simplesmente que toda a argumentação começa com uma afirmação ponto-de-partida; isto é, com algo de que não se duvida. Pode-se, é claro, duvidar da afirmação base, mas, nesse caso, já estaria dando início a outra argumentação diferente, propondo que se parta de outra suposição. Todo argumento inicia por um dogma infalível, e esse dogma absoluto, por sua vez, só pode ser discutido, se recorrermos a outro dogma infalível: nunca se pode provar o primeiro ponto-de-partida (senão não seria ponto-de-partida)."
G.K. Chesterton
Publicado originalmente no Daily News, 22 de junho de 1907
Tradução de Gabriele Greggersen
Alguns livros procuram explicar o homem moderno a partir da política. Outros, da economia. Padre Alfredo Sáenz segue um caminho diferente: procura compreender o homem moderno a partir daquilo que ele perdeu.
A tese do autor é simples e, ao mesmo tempo, bastante dura. O homem contemporâneo trocou a interioridade pela exterioridade. Já não procura recuperar o mundo dentro de si, mas perde-se nele. Vive cercado por informações, pessoas e estímulos, mas encontra cada vez mais dificuldade para permanecer em silêncio e refletir.
Por isso, uma das características centrais do homem moderno seria a dispersão.
Vivemos em cidades cada vez maiores, mas frequentemente mais isolados. Habitamos cubos de concreto, consumimos sem cessar e reagimos emocionalmente a tudo o que aparece diante de nós. A técnica, que deveria servir ao homem, passa a ser adorada como um fim em si mesma. O que importa é a eficiência e o rendimento.
Ao mesmo tempo, desaparece o apreço pela privacidade, pelo recolhimento e pelo senso do sublime. Assim, outro ponto destacado pelo autor é a ruptura com a tradição.
O homem tradicional recebia uma herança: formas de pensar, modelos de comportamento, princípios morais e critérios para orientar sua vontade. O homem moderno, ao contrário, desconfia de tudo o que recebeu. Sem raízes e sem bagagem ancestral, passa a tratar tudo como descartável: costumes, instituições, ideias e pessoas.
Como já não existem referências permanentes, todas as opiniões parecem possuir o mesmo valor. A verdade deixa de ser algo a ser buscado e passa a ser tratada como uma preferência individual. A consequência, segundo Padre Sáenz, é previsível: se ninguém quer mudar a si mesmo, mas todos querem mudar o mundo, acaba-se construindo o império da mediocridade.
O autor também chama atenção para um fenômeno que considera particularmente perigoso: a massificação. A massa, explica ele, não é uma classe social. É um modo de ser.
Qualquer pessoa pode tornar-se homem-massa quando abandona a própria capacidade de pensar e passa a repetir opiniões, hábitos e comportamentos do grupo. Em alguns casos, isso acontece de forma passageira; em outros, transforma-se numa condição permanente.
Pouco a pouco, perde-se a individualidade. Todos passam a pensar da mesma maneira, a desejar as mesmas coisas e a reagir aos mesmos estímulos. Forma-se uma falsa igualdade que nivela todos por baixo.
A televisão ocupava papel importante nesse processo quando o livro foi escrito. Hoje poderíamos acrescentar as redes sociais, os algoritmos e as diversas formas de entretenimento digital que massificam ações e reações em um encorajamento algorítmico.
Como a imagem produz mais impacto que a palavra, as emoções acabam prevalecendo sobre a reflexão pausada, que exige, para existir, alinhamento entre recepção, pensamento e emoções. Porém, com os sentidos constantemente assaltados por estímulos e a capacidade de contemplação minguada, o que impera é uma desordem que traz angústia. Essa angústia é a raiz dos discursos de medo usados, também de forma massificada, para alavancar pautas partidárias que agravam ainda mais a desordem.
Outro aspecto interessante analisado pelo Padre é aquilo que poderíamos chamar de naturalismo. O homem moderno já não deseja elevar-se acima de si mesmo. Renuncia à sublimidade e se contenta com os limites da própria natureza. A vida sobrenatural passa a ser vista como desnecessária, e os valores religiosos, como obstáculos à liberdade. Daí surge o imanentismo: a tentativa de explicar toda a realidade sem recorrer a Deus. O resultado é uma sociedade que procura construir um paraíso terreno, dispensando qualquer referência ao sobrenatural.
Mas o ser humano foi criado para buscar algo maior que ele mesmo. Por isso, quando perde A Verdade, continua procurando substitutos e fracassa terrivelmente.
É nesse contexto que o autor interpreta o crescimento de diversas formas de espiritualidade difusa. Astrologia, horóscopo, tarô, práticas esotéricas e inúmeras correntes espiritualistas procuram responder a um desejo legítimo do coração humano: o anseio pela sublimidade.
Entre essas correntes, o autor destaca a New Age, que propõe uma visão religiosa baseada em alguns pressupostos fundamentais:
- tudo é uma única realidade;
- o cosmos possui caráter divino;
- o próprio homem é divino;
- não há necessidade de redenção;
- a humanidade estaria evoluindo naturalmente rumo a uma condição superior;
- todas as religiões seriam expressões equivalentes de uma mesma verdade.
Dentro dessa mentalidade, Cristo deixa de ser o Salvador e passa a ser mais um mestre espiritual entre outros.
O que mais me chamou a atenção durante a leitura não foi necessariamente a crítica à modernidade, mas a pergunta que permanece depois dela: como um cristão deve viver nesse cenário adverso?
A resposta sugerida pelo autor passa por uma recuperação da tradição e da vida interior.
Se a dispersão é um dos males do nosso tempo, o recolhimento é o remédio mais rápido e eficaz. Se a massificação destrói a personalidade, a formação intelectual é uma forma de proteção. Se a verdade é constantemente relativizada, o estudo da doutrina cristã é de importância radical.
O Homem Moderno
Feito em 5 de dezembro de 2021
1- Dispersos
Não recuperamos o mundo dentro de nós, mas nos dispersamos no mundo. Trocamos a interioridade pela exterioridade; vivemos à parte dos homens, em cubos de concreto, adorando a técnica, que busca render e não servir, consumindo tudo e reagindo apaixonadamente, abraçando o despudor e a aversão à privacidade e ao sagrado que nela se revela.
2- Sem tradição e raízes
Sem bagagem ancestral (como tem o homem tradicional), sem leis, sem normas para o pensamento e para a vontade, tudo se torna descartável (coisas, pessoas e costumes); todas as ideias são válidas, mas não há valores absolutos. A verdade perene é questionada, e surge uma aversão ao tradicional que se manifesta em ideologias sucessivas.
Como não quer mudar, mas quer que tudo e todos mudem, edifica o império da mediocridade.
3- Massificado e teledirigido
A massa é um modo de ser homem, não uma classe social. Esse modo pode existir:de forma transitória, quando perdemos a capacidade de pensar e tomar decisões livres e aderimos ao conglomerado;
de forma crônica, quando as características pessoais são perdidas e aderimos a um conjunto uniformizado, numa falsa igualdade que nivela todos por baixo. Todos juntos na lama, numa propensão ao fácil, imitando o que aparece na TV, nas revistas etc.;
A imagem produz mais comoção que a fala. Como os sentidos são assaltados, tornamo-nos incapazes de reflexão; a comoção rompe o equilíbrio entre a paixão e a razão.
4- Divinização dos bichos
Preso à própria natureza, não deseja ser mais do que homem; renuncia ao transcendente e à vida sobrenatural. É um libertário que acredita que nada nem ninguém deve se submeter a valores morais e religiosos, pois estes são obstáculos para a liberdade.
Esse naturalismo gera um homem anticristão, e o imanentismo é fruto de seus pensamentos. Sendo anticristão, busca o "paraíso na Terra" e, para propagar essa ideia, surge a secularização da Igreja: não existe mais A Verdade, e sim mais uma verdade.
Isso gera um medo massivo da morte, que tem como fonte a desesperança na vida eterna.
O quantitativo e o impessoal geram uma "errância espiritual" e uma insatisfação mortal. Sem A Verdade, surge uma falsa espiritualidade que busca sanar o desejo, inerentemente humano, pelo transcendente. Astrologia, horóscopo, tarô ou qualquer outra superstição tornam-se "espiritualidade" e "elevação".
A New Age é a principal vertente desse movimento; sua doutrina prega:
- tudo é uma só coisa;
- o cosmos é vivo e divino;
- o próprio humano é divino;
- o mundo está passando por uma transição (do ciclo de Peixes para o de Áries); o Deus masculino (e machista) dará lugar a Gaia, Mãe Terra;
- o resgate do culto às deusas e o culto a psicotécnicas que buscam o despertar para o novo ciclo: yoga, hipnose, drogas etc.;
- nós estamos evoluindo rumo ao ser divino, mas, antes, passamos por todos os reinos: uma pedra, uma planta, um animal, um humano, um ser divino (ideia baseada no budismo). Portanto, o homem não recebe redenção; autorredime-se, não precisa de Salvador;
- a transformação do cristianismo: Jesus voltaria para adaptar o cristianismo à nova fase (não para julgar, veja bem). Esse processo gera a "guerra da religião", uma guerra mental, intelectual e até, podemos dizer, psicológica.
Diante disso, defende o autor, devemos buscar análises pessimistas para alcançar uma postura mais sábia.
Autor: Padre Alfredo Saénz (nasceu em 1932, tem 90 anos). É professor de Dogma e Patrística na Faculdade de Teologia de San Miguel, da Universidad del Salvador, em Buenos Aires, e desenvolve intensa atividade como conferencista e escritor, além de pregador de retiros e exercícios espirituais.
¹Ana Paula Barros
Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).
Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.
Totus Tuus, Maria (2015)
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