Gotas de Tomismo 26| Do ato de escolher: Do Mérito e do Demérito em Geral (São Tomás de Aquino)
O homem só pode dispor-se para alcançar, como recompensa, a visão beatífica, por meio de seus atos. E tais atos, para merecerem tão alta recompensa, devem ser atos virtuosos.
As ações virtuosas são aquelas que a vontade humana executa em conformidade com a vontade divina e sob o impulso da graça. Devem ser voluntárias, espontâneas e realizadas com conhecimento de causa. Uma ação espontânea é aquela que a vontade executa por impulso próprio, livre de violência e coação.
O homem pode ser obrigado a agir contra sua vontade por dois modos: pela violência ou pelo medo. Entendemos por violência toda força externa que impede o exercício voluntário dos membros ou os obriga a executar atos que a vontade recusa. O medo, por sua vez, é um movimento interior que, em certas circunstâncias, arrasta a vontade a consentir no que, em outras condições, não consentiria, para evitar males iminentes.
Assim, os atos resultantes de violência exterior são involuntários. Já os atos praticados por medo conservam algo de voluntário, pois não se pode negar totalmente o consentimento da vontade, ainda que seja dado com pesar. Quanto às paixões, como a ira, embora sejam movimentos interiores que podem violentar a alma, seus atos são voluntários, exceto quando a violência é tão intensa que impede o exercício da razão.
O ato voluntário deve ser feito com conhecimento do fim. Se o indivíduo se engana quanto ao que deve fazer, o ato é involuntário — mas somente se, conhecendo o erro, não o executaria. Contudo, há casos em que a ignorância ou o erro são culpáveis, quando o sujeito se recusa ou é negligente em aprender suas obrigações. A isso se chama negligência culpável.
Para apreciar a moralidade dos atos voluntários, é necessário considerar as circunstâncias:
- Pessoa: caráter ou condição do agente;
- Objeto e consequências: realidade do ato, seus efeitos e resultados;
- Lugar: o espaço em que se realiza;
- Intenção: o fim ou objetivo proposto;
- Meios: os recursos e auxílios empregados;
- Tempo: o momento em que se executa.
A mais importante destas circunstâncias é a intenção, o fim que move o operante.
Todos os atos voluntários procedem da vontade, e o valor dos atos humanos, bem como sua virtude, têm raízes exclusivamente nesta faculdade. Entre os atos da vontade, o mais importante é o ato de eleição, pois mediante ele a vontade, com conhecimento de causa e prévia análise, adere a um bem determinado e lhe dá preferência. A eleição é, portanto, um ato de livre arbítrio. Logo, o caráter moral e o valor dos atos humanos — para alcançar a bem-aventurança — são determinados pelo ato de eleger.
A eleição pode ser boa ou má. É boa quando são bons o objeto, o fim e as circunstâncias. A bondade do ato provém da reta razão, isto é, da razão humana esclarecida pela luz divina, ou ao menos não lhe opondo obstáculos.
Assim, para que um ato seja bom e virtuoso, é necessário que o objetivo esteja conforme a reta razão, que esta aprove o fim e não se oponha às circunstâncias. Se faltar alguma dessas condições, o ato deixa de ser bom e se converte, em graus diversos, em ato mau.
Os atos maus chamam-se culpas ou pecados.
Baseado no Catecismo da Suma Teológica de São Tomás
“Deve-se dizer que o caráter distingue uma pessoa de outra levando em consideração a finalidade a que está orientado” (TOMÁS DE AQUINO, Suma Teológica, q.63, a. 3).
“O caráter é propriamente um sinete com que alguém é marcado para que se oriente a determinado fim: assim o denário é marcado com um caráter para ser usado no comércio, e os soldados são marcados com um caráter por serem incumbidos do serviço militar” (TOMÁS DE AQUINO, Suma Teológica, q.56, a.3.).

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