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Salus in Caritate



Visão Geral  e Comentário sobre o livro do Êxodo



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Visão Geral sobre o Êxodo



I) Introdução


Este é um material de apoio do Projeto de Leitura Bíblica: Lendo a Bíblia, para baixar o calendário de leitura bíblica e os outros textos de apoio dos Doutores da Igreja , online e pdf, sobre cada livro da Bíblia, clique aqui. 


Este projeto é um dos ramos de uma árvore de conteúdos planejados especificamente para o seu enriquecimento. Os projetos que compõem esta árvore são: Projeto de Leitura Bíblica com textos de apoio dos Doutores da Igreja (baixar gratuitamente aqui), Plano de Vida Espiritual (baixar gratuitamente aqui), o Clube Aberto de Leitura Conjunta Salus in Caritate, com resenha e materiais de apoio (para ver a lista de livros, materiais e os cupons de desconto 2020 clique aqui) e o Salus in Caritate Podcast (ouça em sua plataforma preferida aqui).

O livro do Êxodo pode ser divido em duas partes:

1- A Libertação (Capítulo 1 ao 18)
2- A Aliança (Capítulo 19 e seguintes)


Para facilitar os apontamentos sobre o livro farei as observações em pontos:

II) Primeira Parte do livro do Êxodo

1- a história começa 400 anos depois da descida do povo hebreu para o Egito. O povo havia se multiplicado, o número era um sinal da benção de Deus que se propagava por todo território egípcio.

2- o povo crescia ainda mais, debaixo da opressão que o faraó lhes impôs, ou seja, o povo ainda era o sinal da benção de Deus mesmo tendo o faraó se esquecido disso.

3- o faraó decide exterminar os meninos, ele acredita ser certo matar para preservar seu poder, Herodes também fez a mesma coisa ao saber do nascimento de Jesus, esse episódio ganhou o nome de Massacre dos Inocentes, mais de 10000 bebês foram judeus mortos, são reconhecidos como mártires do cristianismo, pois foram mortos em razão da vinda do Senhor. Mas voltando...

4- Dentre os bebês estava um menino levita, que foi colocado no rio num cesto por sua mãe, que fazia isso na tentativa de salvar a vida do menino, ele foi encontrado pela princesa egípcia, dali ele foi criado pelos opressores de seu povo, o menino ganhou o nome de Moisés. Como disse ele era levita, como vimos no livro do Gênesis, Levi e Rubem ganharam um péssima herança de seu pai Jacó, pois haviam exterminado uma cidade inteira vingando sua irmã Dina, que havia sido estuprada pelo príncipe de Siquém, mas Jacó não gostou nada dos métodos usados, então os dois irmãos foram rechaçados e Jacó ainda disse que não os escutaria nos conselhos. No entanto, Deus mudou a sorte da casa de Levi, um levita foi escolhido para resgatar o povo e ainda da tribo de Levi seriam os sacerdotes de Israel. No mínimo, é interessante.

5- Moisés cresce como príncipe, mas pelas Escrituras ele sabia ser hebreu, de modo que ao ver uma injustiça contra um irmão hebreu, mata o soldado egípcio (muito similar a reação de seu antepassado Levi no caso de Dina). Os antigos patriarcas judeus dizem, em sua tradição, que Moisés disse o nome de Deus e o soldado morreu, como sabem os judeu nunca falam o nome de Deus, Moisés teria que ser alguém escolhido para falar ele mesmo o nome de Deus e não morrer, assim contam os patriarcas. 

6- Depois os hebreus brigam entre si, o que é mais difícil de resolver. Parece uma antecipação do Moisés haveria de passar. 

7- Moisés foge e encontra um sacerdote de Madiã, como vimos no Gênesis, estes são descendente do filho de Abraão, Madiã, com Cetura, sua segunda esposa que lhe deu 6 filhos, mas a herança ficou com Issac, o filho da promessa, o filho de Sara. 

8- Moisés vê a sarça ardente no Monte Horeb, que é o monte Sinai. Deus o chama no Sinai e lhe dá sua missão no Sinai e é nesse monte que Deus consuma sua aliança, com os 10 mandamentos. 

No Sinai, hoje, esta a Capela da Ss. Trindade, construída em cima da Igreja da Sarça, foi construída pela imperatriz Helena de Bizâncio. Também existe ali o Mosteiro de Santa Catarina.

O chamado Caminho de Moisés, entre a base e o pico do monte, tem 4000 degraus e demora 3 horas para subir.

A Plataforma de Aarão, onde ele e os 70 sábios ficarão, mais para a frente, esperando Moisés que estava no pico recebendo os mandamentos, fica 750 degraus abaixo do pico, também nessa altura esta o Retiro de Elias, o lugar onde Deus falou com Elias (1 Reis 19, 8-9).

9- Deus então dá a missão a Moisés e uma vara. A vara que será chamada Vara de Aarão é uma relíquia judaica, que ficará posteriormente na história dentro da Arca da Aliança, é um símbolo do sacerdócio, do pastoreio. 

10- Moisés vai ao faraó. Ele, o faraó, esta com o coração endurecido mas ainda tem escolha, ele poderia se deixar ser piedoso, mas não escolheu, foi assim nas primeiras pragas, depois vendo Deus que o faraó estava obstinado em não ceder, usou da dureza de coração do faraó e mais, Ele mesmo endureceu o coração do faraó ainda mais, para transformar o mal em bem.

11- O povo foi liberto. Moisés levou consigo os ossos de José e o povo atravessa o Mar Vermelho. Depois canta de alegria.

12- 3 dias depois o povo sente sede e surpreendentemente começa a murmurar contra Moisés! Deus provê água e maná no deserto de Sin.
Mas eles reclamam novamente e Deus provê água e maná, Moisés dá as fontes o nome de Massa e Meriba (Provação e Disputa), pois o povo provava a Deus que já havia feito tanto por eles.

13- Parece que Deus estava treinando o povo na confiança, pois logo depois foram atacados por amalecitas. Os amalecitas são descendentes do filho mais velho de Esaú, irmão gêmeo de Jacó. Esaú e Jacó tiveram uma história conturbado, e agora seus descentes são os primeiros a se levantarem contra os descendentes de Jacó, que acabavam de ser libertos. 
Israel vence com a intercessão incessante de Moisés diante de Deus. 

14- Moisés começa a ensinar o povo, em audiências separadas que o cansava absurdamente.

15- Depois de 3 meses o povo chega ao Sinai, onde o chamado de Moisés começou e onde ele levava a Deus a tarefa cumprida.

16- Moisés sobe o monte (como disse a subida tem uma duração de 3 horas) e Deus manda dizer ao povo que "serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa", ou seja, seriam os representantes de Deus na terra, por eles Deus chegaria a todas as nações, o amor dispensado a eles chegaria a todas as nações. O povo aceitou a proposta de Deus.

Deus iria falar com eles, depois de 3 dias de purificação, Deus lhes aparece envolto no véu de nuvens e o povo não podia se aproximar.

Diferente da manifestação de Deus a Moisés que viu os pés de Deus.


III) Segunda Parte do livro do Êxodo

17- O povo seria moldado pelos mandamentos e outras leis de convivência.

18- Deus manda construir um tabernáculo, com riqueza, querubins, flores, uma lembrança do Édem se anuncia, um lugar em que Deus e os homens possam estar juntos em comunhão novamente.

19- Mas enquanto Moisés esta a escutar as orientações de Deus o povo escolhe que deseja um "deus menor" e incrivelmente não querem esperar os desígnios de Deus, que acabou de mostrar a Sua Glória envolto em nuvens e trovões . Pois, que por seus esforços - eles dão o ouro que carregam - fazem um deus da medida e do jeito que acreditam ser bom, um deus que eles conseguem entender, ver com clareza e que nada pede deles, tanto que eles começam a festejar de modo nada parecido com um povo de sacerdotes. 

20- Deus se irrita, e com razão, quer dizimar o povo, mas Moisés intercede e detém a ira de Deus com sua intercessão. O santo patriarca mais honrado, aquele que fala a Deus com sinceridade, um grande "tsadic", como os judeus chamam as pessoas santas. Ao contrário do muita gente pensa os judeus possuem muitos santos, inclusive acreditam que agora nesse momento (e em cada época do mundo) vivem na terra 36 Tsadikim Nistarim, santos anônimos, e é por causa deles que Deus mantêm o mundo, acreditam também que todo judeu pode chegar a ser um tsadic, um santo, isso te parece familiar?

21- O povo então quebrou seu sim a Deus referente a aceitar ser um povo de sacerdotes e Moisés ao ver isso quebra as Tábuas da Lei, escrita pelo próprio dedo de Deus, foi no mês de Av, que é junho/agosto (muitas outras coisas também ocorrem nesse mês, vide ponto 17 do texto do Gênesis).

Deus que é amor, é também justiça e aqueles que não quiseram obedecer o Senhor, que os havia libertado, foram passados a fio de espada pelos seus parentes, já que todos eram de alguma forma parentes. 

A Aliança com Deus é maior que os laços de sangue, Jesus se refere a algo similar, mas de uma forma mais espiritual, quando diz que "não vim trazer paz, mas espada" (Mt 10, 34, 36). 

22- Deus, então, manda o povo seguir, mas Ele não estará no meio deles, por que o povo era "um povo de cabeça dura", ou seja, não haviam aceitado, de verdade, Deus em seus corações e diz "e se eu caminhasse com eles os exterminaria", Deus não fica junto de alguém que escolheu não estar com Ele, que escolheu um caminho em que Ele não está.

Mas Moisés intercede e Deus caminha com eles, por causa de Moisés (podemos relembrar aqui o papel e a necessidade de almas santas no mundo). 

Depois o texto toma um caráter particular, Moisés quer ver a glória de Deus e para mostrar como Moisés lhe agrada, Deus lhe concede que veja suas costas, mas não lhe mostra sua face, ainda havia uma barreira para contemplar a Deus. Que será quebrada em Jesus, "quem me vê, vê o Pai".

O texto também relata como o rosto de Moisés resplandecia ao fazer a sua visita diária ao Senhor para receber as suas orientações. 

23- O santuário é construído, tudo arrumado, Deus desce sobre a tenda, a glória de Deus enche o santuário e ... Moisés não pode entrar... 

Ainda havia uma barreira entre a santidade de Deus e a iniquidade do povo. Como Deus solucionou essa distância é o que veremos no próximo livro!



Comentário sobre o Livro do Êxodo


Lendo o Antigo Testamento, uma figura ressalta no meio das outras: a de Moisés, precisamente como homem de oração. Moisés, o grande profeta e guia do tempo do Êxodo, desempenhou a sua função de mediador entre Deus e Israel fazendo-se portador, junto do povo, das palavras e dos mandamentos divinos, conduzindo-o rumo à liberdade da Terra Prometida, ensinando os israelitas a viverem na obediência e na confiança em Deus, durante a sua longa permanência no deserto, mas também, e diria principalmente, rezando. Ele reza pelo Faraó quando Deus, com as pragas, procurava converter o coração dos Egípcios (cf. Êx 8–10); pede ao Senhor a cura da irmã Maria, atingida pela lepra (cf. Nm 12, 9-13), intercede pelo povo que se tinha revoltado, amedrontado pela descrição dos exploradores (cf. Nm 14, 1-19), reza quando o fogo estava prestes a devorar o acampamento (cf. Nm 11, 1-2) e quando serpentes venenosas faziam matanças (cf. Nm 21, 4-9); dirige-se ao Senhor e reage, protestando quando o fardo da sua missão se tinha tornado demasiado pesado (cf. Nm 11, 10-15); vê Deus e fala com Ele «face a face, como alguém que fala com o próprio amigo» (cf. Êx 24, 9-17; 33, 7-23; 34, 1-10.28-35).

Mesmo quando o povo, no Sinai, pede a Aarão que construa o bezerro de ouro, Moisés reza, explicando de maneira emblemática a própria função de intercessão. Este episódio é narrado no capítulo 32 do Livro do Êxodo e contém uma narração paralela no capítulo 9 do Deuteronômio. É sobre este episódio que gostaria de meditar na catequese hodierna e, de modo particular, sobre a oração de Moisés, que encontramos na narração do Êxodo. O povo de Israel encontrava-se aos pés do Sinai enquanto Moisés, no monte, esperava a entrega das tábuas da Lei, jejuando durante quarenta dias e quarenta noites (cf. Êx 24, 18; Dt 9, 9). O número quarenta tem um valor simbólico e significa a totalidade da experiência, enquanto com o jejum se indica que a vida deriva de Deus, é Ele que a sustém. Com efeito, o gesto de comer implica a assunção do alimento que nos sustenta; por isso jejuar, renunciando ao alimento, adquire neste caso um significado religioso: é um modo para indicar que não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca do Senhor (cf. Dt 8, 3). Jejuando, Moisés demonstra que espera o dom da Lei divina como fonte de vida: ela revela a vontade de Deus e alimenta o coração do homem, fazendo-o entrar numa aliança com o Altíssimo, que é fonte da vida, é a própria Vida.

Mas enquanto o Senhor, no monte, oferece a Lei a Moisés, aos pés do mesmo monte o povo transgride-a. Incapazes de resistir à expectativa e à ausência do mediador, os israelitas pedem a Aarão: «Faz-nos um deus que caminhe à nossa frente, porque a Moisés, que nos tirou do Egito, não sabemos o que lhe aconteceu» (Êx 32, 1). Cansado de um caminho com um Deus invisível, agora que também Moisés, o mediador, desapareceu, o povo pede uma presença tangível, palpável, do Senhor, e encontra no bezerro de metal fundido, construído por Aarão, um deus que se torna acessível, manobrável, ao alcance do homem. Trata-se de uma tentação constante no caminho de fé: eludir o mistério divino, construindo um deus compreensível, correspondente aos próprios esquemas, aos próprios programas. Aquilo que acontece no monte Sinai demonstra toda a insensatez e vaidade ilusória desta pretensão porque, como afirma ironicamente o Salmo 106, «Eles trocaram a sua glória pela estátua de um touro que come feno» (Sl 106 [105], 20). Por este motivo, o Senhor reage e ordena a Moisés que desça do monte, revelando-lhe aquilo que o povo estava a fazer, e terminando com estas palavras: «Deixa, pois, que se acenda a minha cólera contra eles e os devore; mas de ti farei uma grande nação» (Êx 32, 10). Como tinha acontecido com Abraão, a propósito de Sodoma e Gomorra, também agora Deus revela a Moisés o que pretende fazer, como se não quisesse agir sem o seu consenso (cf. Am 3, 7). Ele diz: «Deixa, pois, que se acenda a minha cólera». Na realidade, este «deixa, pois, que se acenda a minha cólera» é pronunciado precisamente para que Moisés intervenha e lhe peça para não o fazer, revelando deste modo que o desejo de Deus é sempre a salvação. Como para as duas cidades dos tempos de Abraão, a punição e a destruição, em que se exprime a ira de Deus como rejeição do mal, indicam a gravidade do pecado cometido; ao mesmo tempo, o pedido do intercessor tenciona manifestar a vontade de perdão do Senhor. Esta é a salvação de Deus, que implica misericórdia, mas ao mesmo tempo também denúncia da verdade do pecado, do mal que existe, de maneira que o pecador, reconhecendo e rejeitando o próprio mal, possa deixar-se perdoar e transformar por Deus. A prece de intercessão torna deste modo concreta, no contexto da realidade corrompida do homem pecador, a misericórdia divina, que encontra voz na súplica do orante e que se torna presente através dele onde há necessidade de salvação.

A súplica de Moisés está inteiramente centrada na fidelidade e na graça do Senhor. Ele refere-se em primeiro lugar à história de redenção à qual Deus deu início com a saída de Israel do Egito, para depois fazer memória da antiga promessa feita aos Pais. O Senhor realizou a salvação, libertando o seu povo da escravidão egípcia; para que então — pede Moisés — «os egípcios possam dizer: “Fê-los sair com a malícia, para os deixar morrer nas montanhas, para os fazer desaparecer da face da terra”?» (Êx 32, 12). A obra de salvação começada deve ser completada; se Deus fizesse perecer o seu povo, isto poderia ser interpretado como o sinal de uma incapacidade divina de completar o plano de salvação. Deus não pode permitir que isto aconteça: Ele é o Senhor bom que salva, o garante da vida, é o Deus de misericórdia e de perdão, de libertação do pecado que mata. E assim Moisés apela-se a Deus, à vida interior de Deus, contra a sentença exterior. Mas então, Moisés argumenta com o Senhor, se os seus eleitos perecerem, mesmo que sejam culpados, Ele poderia parecer incapaz de derrotar o pecado. E isto não se pode aceitar. Moisés fez uma experiência concreta do Deus de salvação, foi enviado como mediador da libertação divina e agora, mediante a sua oração, torna-se intérprete de uma dupla inquietação, preocupado com o destino do seu povo, mas ao mesmo tempo também preocupado com a honra que é devida ao Senhor, pela verdade do seu Nome. Com efeito, o intercessor deseja que o povo de Israel seja salvo, porque é o rebanho que lhe foi confiado, mas inclusive a fim de que naquela salvação se manifeste a verdadeira realidade de Deus. Amor aos irmãos e amor a Deus compenetram-se na prece de intercessão, são inseparáveis. Moisés, o intercessor, é o homem contendido entre dois amores, que na oração se sobrepõem num único desejo de bem.

Em seguida, Moisés apela para a fidelidade de Deus, recordando-lhe as suas promessas: «Recorda-te de Abraão, de Isaac e de Israel, teus servos, aos quais juraste por ti mesmo e disseste: “Tornarei a tua posteridade tão numerosa como as estrelas do céu, e toda esta terra, da qual te falei, dá-la-ei aos teus descendentes, que a possuirão para sempre”» (Êx 32, 13). Moisés faz memória da história fundadora das origens, dos Pais do povo e da sua eleição, totalmente gratuita, em que só Deus tivera a iniciativa. Eles não receberam a promessa por causa dos seus méritos, mas pela livre escolha de Deus e do seu amor (cf. Dt 10, 15). E agora, Moisés pede que o Senhor continue na fidelidade à sua história de eleição e de salvação, perdoando o seu povo. O intercessor não apresenta desculpas para o pecado do seu povo, não enumera méritos presumíveis, nem do povo nem seus, mas apela para a gratuidade de Deus: um Deus livre, totalmente amor, que não cessa de procurar quem se afastou, que permanece sempre fiel a Si mesmo e oferece ao pecador a possibilidade de voltar para Ele e de se tornar, mediante o perdão, justo e capaz de fidelidade. Moisés pede a Deus que se mostre até mais forte do que o pecado e a morte e, com a sua oração, suscita este revelar-se divino. Mediador de vida, o intercessor solidariza com o povo; desejoso unicamente da salvação que o próprio Deus deseja, ele renuncia à perspectiva de se tornar um novo povo agradável ao Senhor. A frase que Deus lhe tinha dirigido, «de ti farei uma grande nação», nem sequer é tomada em consideração pelo «amigo» de Deus, que ao contrário está pronto a assumir sobre si mesmo não só a culpa do seu povo, mas todas as suas consequências. Quando, depois da destruição do bezerro de ouro, ele voltar ao monte para pedir de novo a salvação de Israel, dirá ao Senhor: «Rogo-te que lhes perdoes agora este pecado! Senão, apaga-me do livro que escreveste» (v. 32). Com a oração, desejando a vontade de Deus, o intercessor entra cada vez mais profundamente no conhecimento do Senhor e da sua misericórdia, tornando-se capaz de um amor que chega até ao dom total de si mesmo. Em Moisés, que está no alto do monte face a face com Deus e que se faz intercessor para o seu povo e se oferece a si próprio — «apaga-me» — os Padres da Igreja viram uma prefiguração de Cristo que, no alto da cruz, realmente está diante de Deus, não apenas como amigo, mas como Filho. E não só se oferece — «apaga-me» — mas com o seu coração trespassado faz-se cancelar, torna-se como diz o próprio são Paulo, pecado, carrega sobre si os nossos pecados para nos salvar a todos; a sua intercessão é não só solidariedade, mas identificação conosco: traz todos nós no seu corpo. E assim toda a sua existência de homem e de Filho é um clamor ao Coração de Deus, é perdão, mas perdão que transforma e renova.

Penso que devemos meditar sobre estas realidades. Cristo está diante do Rosto de Deus e reza por mim. A sua oração na Cruz é contemporânea a todos os homens, contemporânea a mim: Ele reza por mim, sofreu e sofre por mim, identificou-se comigo, assumindo o nosso corpo e a nossa alma humana. E convida-nos a entrar nesta sua identidade, fazendo-nos um corpo, um só espírito com Ele, porque do alto da Cruz Ele não trouxe novas leis, tábuas de pedra, mas trouxe a si mesmo, o seu corpo e o seu sangue, como nova aliança. É assim que nos faz consanguíneos com Ele, um corpo com Ele, identificados com Ele. Convida-nos a entrar nesta identificação, a estar unidos com Ele no nosso desejo de ser um corpo, um só espírito com Ele. Oremos ao Senhor, para que esta identificação nos transforme, nos renove, porque o perdão é renovação, é transformação.

Gostaria de concluir esta catequese com as palavras do apóstolo Paulo aos cristãos de Roma: «Quem poderia acusar os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? Cristo Jesus, que morreu, ou melhor, que ressuscitou, que está à direita de Deus, é quem intercede por nós! Quem nos separará do amor de Cristo? [...] nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados [...] nem qualquer outra criatura nos poderá separar do amor que Deus nos testemunha em nosso Senhor Jesus Cristo» (Rm 8, 33-35.38.39).


Papa Bento XVI, Audiência Geral, Praça de São Pedro, 1 de junho de 2011



Lendo o Antigo Testamento podemos ver que as intervenções de Deus na história do povo que Ele escolhe para Si e com o qual estabelece aliança não são eventos que passam e caem no esquecimento, mas tornam-se «memória», constituem juntos a «história da salvação», conservada viva na consciência do povo de Israel através da celebração dos acontecimentos salvíficos. Assim, no Livro do Êxodo o Senhor indica a Moisés que celebre o grande momento da libertação da escravidão do Egito, a Páscoa judaica, com estas palavras: «Conservareis a memória daquele dia, celebrando-o com uma festa em honra do Senhor: fareis isso de geração em geração, pois é uma instituição perpétua» (12, 14). Para todo o povo de Israel, recordar o que Deus realizou torna-se uma espécie de imperativo constante, para que o transcorrer do tempo seja marcado pela memória viva dos acontecimentos passados, que assim formam, dia após dia, de novo a história e permanecem presentes. No Livro do Deuteronômio, Moisés dirige-se ao povo, dizendo: «Cuida de nunca esqueceres o que viste com os teus olhos, e toma cuidado para que isso nunca saia do teu coração, enquanto viveres; e ensina-o aos teus filhos, e aos filhos dos teus filhos» (4, 9). E assim diz também a nós: «Cuida de nunca esqueceres o que Deus fez por nós». A fé é alimentada pela descoberta e pela memória do Deus sempre fiel, que guia a história e constitui o fundamento seguro e estável sobre o qual apoiar a própria vida. Também o cântico do Magnificat, que a Virgem Maria eleva a Deus, é um exemplo excelso desta história da salvação, desta memória que torna e mantém presente o agir de Deus. Maria exalta o agir misericordioso de Deus no caminho concreto do seu povo, a fidelidade às promessas de aliança feitas a Abraão e à sua descendência; e tudo isto é memória viva da presença divina que nunca esmorece (cf. Lc 1, 46-55).

Para Israel, o Êxodo é o evento histórico central em que Deus revela o seu agir poderoso. Deus liberta os israelitas da escravidão do Egito, para que possam regressar à Terra prometida e adorá-lo como Senhor único e verdadeiro. Israel não se põe a caminho para ser um povo como os outros — para ter também ele uma independência nacional — mas para servir Deus no culto e na vida, a fim de criar para Deus um lugar onde o homem lhe é obediente, onde Deus está presente e é adorado no mundo; e, naturalmente, não só para eles, mas para o testemunhar no meio dos outros povos. Celebrar este evento é torná-lo presente e atual, porque a obra de Deus não desfalece. Ele é fiel ao seu desígnio de libertação e continua a persegui-lo, a fim de que o homem possa reconhecer e servir o seu Senhor e responder com fé e amor ao seu agir.

Portanto, Deus revela-se não só no gesto primordial da criação, mas entrando na nossa história, na história de um pequeno povo que não era o mais numeroso, nem o mais forte. E esta Revelação de Deus, que continua na história, culmina em Jesus Cristo: Deus, o Logos, a Palavra criadora que está na origem do mundo, encarnou em Jesus e mostrou o verdadeiro rosto de Deus. Em Jesus realizam-se todas as promessas, nele culmina a história de Deus com a humanidade. Quando lemos a narração dos dois discípulos a caminho de Emaús, escrita por são Lucas, vemos como sobressai de modo claro que a pessoa de Cristo ilumina o Antigo Testamento, toda a história da salvação, e mostra o grande desígnio unitário dos dois Testamentos, indica o caminho da sua unicidade. Com efeito, Jesus explica aos dois viandantes confusos e decepcionados, que Ele é o cumprimento de todas as promessas: «E começando por Moisés, percorrendo todos os profetas, explicava-lhes o que dele se fora dito em todas as Escrituras» (24, 27). O evangelista cita a exclamação dos dois discípulos depois de ter reconhecido que aquele companheiro de viagem era o Senhor: «Não ardia o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» (v. 32).

O Catecismo da Igreja Católica resume as etapas da Revelação divina, indicando sinteticamente o seu desenvolvimento (cf. nn. 54-64): Deus convidou o homem desde os primórdios a uma comunhão íntima consigo, e até quando o homem, pela sua própria desobediência, perdeu a sua amizade, Deus não o quis abandonar ao poder da morte, mas ofereceu muitas vezes aos homens a sua aliança (cf. Missal Romano, Oração eucarística IV). O Catecismo repercorre o caminho de Deus com o homem, desde a aliança com Noé depois do dilúvio, até à chamada de Abraão, a sair da sua terra para fazer dele pai de uma multidão de povos. Deus forma Israel como seu povo, através do evento do Êxodo, a aliança do Sinai e o dom, por meio de Moisés, da Lei para ser reconhecido e servido como o único Deus vivo e verdadeiro. Com os profetas, Deus guia o seu povo na esperança da salvação. Conhecemos — através de Isaías — o «segundo Êxodo», o regresso do exílio da Babilónia para a própria terra, a refundação do povo; mas ao mesmo tempo, muitos permanecem na dispersão e assim tem início a universalidade desta fé. No final, já não se espera apenas um rei, David, um filho de David, mas um «Filho do homem», a salvação de todos os povos. Realizam-se encontros entre as culturas, primeiro com a Babilónia e a Síria, depois também com a multidão grega. Assim vemos como o caminho de Deus se amplia, se abre cada vez mais para o Mistério de Cristo, Rei do universo. Em Cristo realiza-se finalmente a Revelação na sua plenitude, o desígnio de benevolência de Deus: Ele mesmo faz-se um de nós.

Detive-me a fazer memória do agir de Deus na história do homem, para mostrar as etapas deste grande desígnio de amor testemunhado no Antigo e no Novo Testamento: um único desígnio de salvação dirigido à humanidade inteira, progressivamente revelado e realizado pelo poder de Deus, onde Deus reage sempre às respostas do homem e encontra novos inícios de aliança quando o homem se perde. Isto é fundamental no caminho de fé.


Papa Bento XVI, Audiência Geral, 12 de dezembro de 2012



 
Carta 18: Colhendo Pérolas




Piracicaba, 14 de abril de 2020

Este é um daqueles tempos em que a poesia parece que foge e as palavras parecem mais úteis se não ditas. Um daqueles tempos que já dizia Adélia Prado: "olho pedra, vejo pedra mesmo". Talvez o caminho seja somente andar e colher as pérolas que se formam no mar do cotidiano. Só andar, nadar e ir indo, mas buscando pontos de luz aqui e ali de boas práticas.

Um dia um conhecido me disse que eu não devia gastar tanto tempo fazendo material para as pessoas, era jogar pérolas fora. Pensei nisso e quase sucumbi a esse jeito mercenário de ver a vida, mas aí lembrei que talvez isso fosse as pérolas de algumas pessoas e na pior das hipóteses no fim do percurso teria eu deixado um caminho de pérolas. Não me pareceu ruim... 

Esses dias li aquela frase da Clarisse Lispector: "o que me mata é o cotidiano, eu queria só exceções". Penso que muitas vezes pensamos assim, quando vivemos nas ondas calmas... No entanto, devo dizer, prefiro pensar como Rilke: "se o cotidiano lhe parece pobre, não o acuse: acuse-se a si próprio de não ser muito poeta para extrair as suas riquezas". E se Deus, por sua Providência, vela-nos a nossa querida poesia, que ao menos vejamos uma pedra repousada na grama da esperança, iluminada pelas nuances dos raios da Providência, envolta nas flores da paciência... linda pedra essa... 

Talvez o caminho seja somente andar, ou navegar, em busca de pérolas e tudo se ajeita.


Singelamente, Ana.


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Devocional 65: Da Verdade e da Vindicta e os vícios opostos: mentira, simulação ou hipocrisia

Pintura: Alfred Augustus Glendening, Jnr (British 1861-1907)




Diante daqueles que nos agravam e fazem mal devemos observar a conduta de seguir o ditame de uma virtude chamada vindicta, que aconselha a não deixar impunes os agravos, quando assim o exige a obrigação de conservar e defender algum bem em atenção a todos.

Outra virtude da mesma ordem que a citada acima, e que é também necessária para o bem estar social, mas não em relação a todos, mas a nós mesmos, é a virtude da verdade. 

A virtude da verdade nos ensina a mostrar-nos tanto em palavras como nas ações, tais como na realidade somos. 

Os vícios opostos a verdade são: a mentira, a simulação ou a hipocrisia. 

A mentira é qualquer dito ou fato destinado a manifestar ou afirmar uma coisa falsa. A mentira é tão má que não há nenhum fim ou pretexto que possa justificá-la. 

No entanto, não estamos sempre obrigados a dizer toda a verdade, mas estamos obrigados a não dar a entender algo falso e a nunca dizer mentiras. 

Existem três classes de mentiras: a jocosa, a oficiosa e a perniciosa. Elas se distinguem em que a jocosa tem por fim divertir os outros; a oficiosa ser-lhes útil e a perniciosa causar-lhes algum detrimento ou prejuízo. 

A perniciosa é a pior, pois as primeiras podem não exceder a categoria de pecados veniais, mas esta, por natureza, é sempre pecado mortal, e se algumas vezes é venial, o será em atenção a parvidade da matéria ou prejuízo causado. 

A simulação consiste em aparentar exteriormente o que interiormente não somos, e a hipocrisia, em simular virtudes que não temos. 

Não estamos, no entanto, obrigados, para não cairmos nestes vícios, a declarar os nossos defeitos e má qualidades publicamente. Estamos, pelo contrário, obrigados a não mostrá-los para não perder o crédito diante dos outros e para não dar maus exemplos, nem motivo de escândalo; a verdade e a sinceridade somente exigem que não tenhamos intenção de dar a conhecer feitos e qualidade, boas ou más, que realmente não possuímos. 

O pecado da mentira ou hipocrisia pode ainda ser executado de modo distinto, por exemplo, alguém relata que possuí excelências e habilidades que não tem, é o pecado da jactância; outra dá a conhecer que carece de qualidades e merecimentos que na verdade tem, isto constitui o pecado da falsa humildade. 


Baseado no Catecismo da Suma Teológica de São Tomás












Carta: A Epifania do Senhor e o auto conhecimento
Pintura: Costurando o Estandarte de  Edmund Leighton


"O célebre preceito que recomenda conhecer-se a si mesmo só é de aplicação tão difícil porque, para conhecer-se, é preciso primeiro fazer-se. E as duas operações coincidem. Por isso, nossos atos aparecem sempre, aos nossos olhos, diferentes do que acreditávamos ser. O que pensamos de nós mesmos é também um véu que nos esconde de nós mesmos." Louis Lavelle

A festa da Epifania é uma daquelas solenidades que se perderam no curso do tempo. Perdemos a profundidade de seu significado e a eficácia de sua atualização no cotidiano singelo em que habitamos.
Essa festa nos oferece uma meditação sobre a manifestação do Senhor. Essa manifestação é nada mais, nada menos do que Deus nos dizer Quem Ele é. No entanto, também podemos nos lembrar que quando Deus se manifesta, Ele nos mostra a Sua Luz e essa luz manifesta quem nós somos.

Só é possível conhecer a si mesmo estando diante da Epifania do Senhor. Quanto mais vemos Quem Ele é, mas sabemos quem nós somos. Muitas reflexões podem surgir desse ponto.

E quem somos pode não ter nenhuma relação com quem somos agora. O olhar do Senhor que sonda os tempos e as eras foi capaz de nos ver em seu "tudo está consumado", lá Ele já vislumbrou a obra acabada e consumada nas almas que Lhe pertencem.

Deus nos ama como somos, mas não como nós achamos que somos, mas como Ele nos vê na completude de Sua Obra em nós.

O auto conhecimento passa, portanto, pelo fazer-se em Deus e ambos pela Luz do Único Deus que se manifestou aos homens.

Feliz Epifania!

Singelamente, Ana
devocional a virtude da observancia e da gratidao





Deem graças em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo Jesus.
1 Tessalonicenses 5,18


Além da virtude da religiosidade e da piedade também estão anexas à virtude da justiça a virtude da observância. 

A virtude da observância é a que tem por objeto regular as relações dos inferiores com os superiores, feita a exceção dos casos em que os superiores sejam Deus (a relação é regulada pela virtude da religiosidade), os pais, ou as autoridades que governam em nome da pátria (a relação é regulada pela virtude da piedade). 

Portanto, a virtude da observância põem ordem nas relações entre professores e alunos, patrões e empregados, em geral entre superiores e inferiores. 

A observância incluí a obediência, mas somente nos casos em que o superior tem jurisdição (poder exercido por um cargo) sobre o inferior. Pois existe superioridade sem jurisdição (sem um cargo), que acontece, por exemplo devido ao talento, ao engenho, a idade, a virtude e etc. É possível exercer a observância ainda nesses casos, pois, como dissemos, o objeto dessa virtude é acatar todo tipo de superioridades, começando sempre pelos superiores que possuem tanto a autoridade quanto a jurisdição e depois aqueles que possuem superioridade sem, no entanto, serem enaltecidos com um cargo específico.

A virtude da gratidão é uma virtude agregada à virtude da justiça que tem por objeto um débito moral a ser sanado.

Está virtude visa a obrigação que temos de agradecer e recompensar os bens particulares que tenhamos recebido. É muito necessária, ainda mais se considerarmos o vício contrário: a ingratidão. 

O agraciado deve tentar, na medida do possível, recompensar o benfeitor visando retribuir mais do recebeu. 


Baseado no Catecismo da Suma Teológica de São Tomás










 



Comentário dos Doutores da Igreja sobre o Gênesis
Pintura: William Blak


1) Introdução

Este é um material de apoio do Projeto de Leitura Bíblica: Lendo a Bíblia, para baixar o calendário de leitura bíblica e os outros textos de apoio dos Doutores da Igreja , online e pdf, sobre cada livro da Bíblia, clique aqui. 

Este projeto é um dos ramos de uma árvore de conteúdos planejados especificamente para o seu enriquecimento. Os projetos que compõem esta árvore são: Projeto de Leitura Bíblica com textos de apoio dos Doutores da Igreja (baixar gratuitamente aqui), Plano de Vida Espiritual (baixar gratuitamente aqui), o Clube Aberto de Leitura Conjunta Salus in Caritate, com resenha e materiais de apoio (para ver a lista de livros, materiais e os cupons de desconto  2020 clique aqui) e o Salus in Caritate Podcast (ouça em sua plataforma preferida aqui). 



Baixe esse material em PDF


2) O que é um Doutor da Igreja? 


Os Doutores da Igreja são homens e mulheres ilustres que, pela sua santidade, pela ortodoxia de sua fé, e principalmente pelo eminente saber teológico, atestado por escritos vários, foram honrados com tal título por desígnio da Igreja. Os Doutores se assemelham aos Padres da Igreja, dos quais também diferem. Padres da Igreja são aqueles cristãos (Bispos, presbíteros, diáconos ou leigos) que contribuíram eficazmente para a reta formulação das verdades da fé (SS. Trindade, Encarnação do Verbo, Igreja, Sacramentos. ..) nos tempos dos grandes debates e heresias. O seu período se encerra em 604 (com a morte de S. Gregório Magno) no Ocidente e em 749 (com a morte de S. João Damasceno) no Oriente. 

Para que alguém seja considerado Padre da Igreja, requer-se antiguidade (até os séculos VII/VIII), ao passo que isto não ocorre com um Doutor.Para os Padres da Igreja, basta o reconhecimento concreto, não explicitado, da Igreja, ao passo que para os Doutores se requer uma proclamação explicita feita por um Papa ou por um Concílio. Para os Padres, não se requer um saber extraordinário, ao passo que para um Doutor se exige um saber de grande vulto. 

Em Suma 


Doutor da Igreja é aquele cristão ou aquela cristã que se distinguiu por notório saber teológico em qualquer época da história. O conceito de Doutor da Igreja difere do de Padre da Igreja, pois Padre da Igreja é somente aquele que contribuiu para a reta formulação dos artigos da fé até o século VII no Ocidente e até o século VIII no Oriente. Há Padres da Igreja que são Doutores. Assim os quatro maiores Padres latinos (S. Ambrósio, S. Agostinho, S. Jerônimo e S. Gregório Magno) e os quatro maiores Padres gregos (S. Atanásio, S. Basílio, S. Gregório de Nazianzeno e S. João Crisóstomo). 

Portanto, o parecer de um Doutor da Igreja é maior do que achismos, independente do assunto em estudo ou discussão.


3) Comentários



Deus e a Criação

Baseado na Suma Teológica de São Tomás de Aquino, Doutor Angélico


Sobre Deus

Nada pode existir sem que exista um Ser que exista per si. Se todos os seres necessitam de alguma coisa logo nenhum pode existir per si. Dessa forma a nossa própria existência é prova da existência de Deus.


"Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos. Um dia fala disso a outro dia; uma noite o revela a outra noite. Sem discurso nem palavras, não se ouve a sua voz. Mas a sua voz ressoa por toda a terra, e as suas palavras, até os confins do mundo" (Salmo 19,1-4).


Deus é espírito. Espírito, pois está completamente isento de matéria, assim dizemos que Deus é o Ser por essência. Deus existe per si, é a origem de todos os seres, n'Ele se concentra todos os modos do ser, por isso dizemos que Ele é o Ser por essência. Essência é o que é o centro, o eixo.


O Ser é Perfeito, Bom, Infinito, Imutável e Eterno. 


Antes de nascerem os montes e de criares a terra e o mundo, de eternidade a eternidade tu és Deus. (Sl 90, 2)


É Perfeito pois nada Lhe falta e se é Perfeito também é Bom.


Pois tu, Senhor, és bom, e pronto a perdoar, e abundante em benignidade para todos os que te invocam. (Sl 86, 5)


Sendo Perfeito também é Infinito, nada o limita, sendo assim também é Onipresente.


O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens;
Nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois Ele mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas;
E de um só sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados, e os limites da sua habitação;
Para que buscassem ao Senhor, se porventura, tateando, o pudessem achar; ainda que não está longe de cada um de nós;
Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração. (Atos 17, 24-28)


Sendo Perfeito é Imutável, pois só muda quem almeja algo de perfeito, no entanto, Deus é Perfeito.


Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação. (Tg 1, 17)


Sendo Imutável é também Eterno, pois Deus não está à mercê da mutabilidade gerada pela sucessão do tempo.


Pois assim diz o Alto e Sublime, que vive para sempre, e cujo nome é santo: "Habito num lugar alto e santo, mas habito também com o contrito e humilde de espírito, para dar novo ânimo ao espírito do humilde e novo alento ao coração do contrito. (Isaías 57,15)


O que faremos então para conhecer a um Ser assim? 

Podemos conhecê-lO pela razão, pelas obras das mãos humanas, sim podemos, mas existe um caminho mais perfeito, que é conhecê-lO pelo que Ele mesmo revelou de Si, esse caminho é o caminho da fé. Crer através do véu do conhecimento limitado, sem ver por completo a plenitude da claridade Divina, crer. 

É esse manto, constituído pela fé em cada momento, que constituirá a nossa bem aventurança no Céu. 


Ele fez tudo apropriado ao seu tempo. Também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade; mesmo assim ele não consegue compreender inteiramente o que Deus fez. (Eclesiastes 3,11)


A Onipresença de Deus é conforto e segurança, Ele sabe o que se passa no mundo, nos corações e o que acontecerá. Ele é o grau supremo do imaterial, portanto, Inteligência Infinita. Todos e tudo dependem da Ciência Infinita de Deus. Essa Ciência se manifesta na sua Vontade, que é sempre boa, perfeita, agradável, caminho largo para quem O ama, embora seja estreito, segue-se em passos seguros e firmes. O Amado Deus está sempre presente!


"Porventura não encho eu os céus e a terra? diz o Senhor" (Jeremias 23, 24)


Pois que nós, criaturas, somos obras do Amor Divino, tal amor produz o efeito de dar a cada criatura o bem que possui.

A Justiça Divina é uma das nossas maiores alegrias, Ele dá a cada um o que exige a sua natureza, dá o prêmio aos bons e o castigo aos maus, tal merecimento pode ser vivido nessa vida, mas nunca totalmente, pois em plenitude somente no Céu ou no Inferno conforme a escolha de cada um enquanto vive. Eis a Justiça Divina que faz nascer o sol aos bons e aos maus, confirmando os primeiros e esperando a conversão dos segundos até a hora derradeira da morte, pois além dela não há mais chances de escolha. 

Deus também dá a cada um de nós mais do que exige a nossa natureza, dá aos justos mais do que seus merecimentos e castiga os pecadores menos do que mereciam, essa é a manifestação da Santa Misericórdia Divina. 

O poder do Senhor abarca Céus e Terra, ao governo de Deus no mundo chamamos Providência, tal ação se estende por todas as coisas criadas, nada escapa a ação divina, não existe nada que não tenha sido previsto e premeditado desde toda a eternidade. Os seres inanimados e os atos livres dos homens se curvam a esse Maestro Celestial, pois que tudo só acontece se o Bom Deus ordena ou permite. A liberdade que Deus deu aos homens não é uma independência de Deus, pois Deus tudo abarca, n'Ele vivemos e nos movemos.

A Providência Divina fia planos, tece em meio a história as determinações do Coração Divino, e ao que se refere aos justos chama-se Predestinação, pois a cada ação da Graça os que desejam e buscam ao Bom Deus respondem e, portanto, são os que caminham para gozar o Céu. Aos que mesmo recebendo as tentativas de resgate divino continuam a negar a Graça, chamam-se réprobos ou não eleitos, pois que negaram os chamados da eleição. A predestinação, a eleição, está sempre enlaçada ao livre arbítrio. 

Deus ama a todas as suas criaturas, mas os predestinados, os buscadores de Deus, são amados com amor de preferência e Deus os orienta, pois estabeleceram uma relação de fiel comprometimento amoroso. 

Eis a Justiça Divina que com olhar amoroso busca aqueles que a buscam, eis o Amor Divino que é transbordante aos que estão verdadeiramente abertos. O Santo Amor Divino oferece a graça a todos, mas os homens munidos de liberdade podem aceitar ou não, Deus é amigo dos homens, veio até nós para resgatar os laços que nos unem a Ele, cabe a cada um aceitar verdadeiramente essa amizade ou recusá-la, sendo cada um responsável por sua escolha. Mas aceitar o oferecimento Divino de sua Graça nunca é mérito próprio, mas ação da Providência e seus decretos que concede doses da virtude de fidelidade e retidão. 

Tais decretos, a que chamamos predestinação, significa que o Bom Deus assinalou, a cada um, um lugar na glória e pela graça o porá em condições de possuí-la, respeitando no entanto, a abertura da alma à graça que Ele está disposto a oferecer. Um santo é alguém que aceito o chamado, escolheu servir a Deus e se abriu sem reservas a ação da Graça Divina e aos designíos do Coração Divino. 


Eis o Deus das Maravilhas, Ele que tudo dispõe, nada deve a ninguém e concede a Graça como quer.


Devemos caminhar em espírito de humildade pedindo a Deus que nos inscreva no livro dos eleitos e nos conceda as graças necessárias para alçar vôo aos Altos Céus.


Tudo e todos foram tirados do nada pela Onipotência Divina, antes disso nada existia, somente Deus.


Já se perguntou sobre a motivação de Deus para criar o mundo? Foi para manifestar a sua Glória. Nós e todo o mundo somos uma manifestação da Glória Divina. Isso significa que Deus se propôs a deixarmo-nos conhecer a Sua Bondade, comunicando aos seres parte do bem infinito que possui, parte da Sua Bondade Infinita, nos criando, mantendo a vida em nós, nos salvando e cuidando da nossa existência até que nos unamos a Ele, se escolhermos durante a vida estar e ficar com Ele. 


Deus possuí vários atributos, alguns são incomunicáveis e outros são comunicáveis. 


Os atributos incomunicáveis são: 


1- Asseidade: significa que Deus é auto existente, e não necessita de nada nem ninguém para continuar a existir. Está diretamente ligada a sua eternidade (Sl 90, 1-2).


2- Eternidade: significa que Deus sempre existiu, Ele não foi criado por ninguém e está acima de qualquer limitação de tempo (Gn 21,33; Sl 90, 1-2). 


3- Unidade: significa que Deus é um e que todos os atributos dEle estão inclusos em seu Ser o tempo todo (Dt 6, 4; Ef 4, 6; 1Co 8, 6; 1Tm 2, 5). Não existe, portanto, um Deus do Antigo Testamento e um Deus do Novo Testamento (inclusive isso é uma heresia). O Senhor dos Exércitos e os Senhor das Misericórdias é o mesmo Deus.


4- Imutabilidade: significa que Deus não muda jamais, ou seja, tanto Seu Ser como Suas perfeições não sofrem qualquer alteração, e Ele não muda, de forma alguma, os Seus propósitos e promessas (Tg 1, 17). 


5- Infinitude: O tempo e o espaço não podem limitá-lO (1Rs 8, 27; At 17, 24-28). 


6- Onipresença: significa que Deus não é limitado de nenhuma forma pelo espaço. Ele está presente em toda parte com toda plenitude do Seu Ser (Sl 139). 


7- Onipotência: Deus é soberano e capaz de cumprir todos os Seus propósitos (2Co 6, 18; Ap 1, 8). 


8- Onisciência: significa que Deus conhece todas as coisas de modo completo e absoluto. Ele não precisa pedir nenhuma informação, bem como nunca possui dúvidas (Sl 139; 147, 4). 


9- Soberania: significa que Deus controla todas as coisas, pois Ele próprio é soberano e supremo sobre tudo e todos. Ele é quem governa o universo, através de Seus Anjos, e conduz a História segundo os seus propósitos eternos (Fp 2, 12-13).


Os atributos comunicáveis são:


10- Amor: a Bíblia diz explicitamente que “Deus é amor” (1Jo 4, 8). Os escritores do Novo Testamento chamaram de “amor ágape“, isto é, um amor profundo e incondicional, que ao mesmo tempo em que revela grande afeição, também revela cuidado, zelo, correção e abnegação.


11- Bondade: é a benevolência de Deus para com suas criaturas. Tudo o que Ele faz é essencialmente bom e legítimo, mesmo que o homem não compreenda (2Cr 30,18; Sl 86,5; 100,5; 119,68; At 14,17). Foi pelo impulso da Bondade Divina e do Amor Divino que Ele nos criou.


12- Misericórdia: ela revela a compaixão e a piedade de Deus para com os miseráveis e angustiados (Ef 2, 4-5). Existem várias outras características de Deus que estão relacionadas ao atributo do amor, como por exemplo, a benevolência, a benignidade e a longanimidade. Tais atributos se mostram quando Ele dá ao justo mais do ele merece e castiga o pecador menos do que merece.


13- Sabedoria: Ele é infinitamente sábio, Ele próprio é a fonte da sabedoria. “Dele são a sabedoria e a força” (Dn 2,20; Jó 12,13; Jó 36,5; Sl 147,5; Is 40,28; Rm 11,33). A sabedoria de Deus é completamente superior à sabedoria dos homens (Is 55,8; Jó 28, 12-28; Jr 51, 15-17).


14- Justiça: Ele é plenamente justo e perfeito em sua retidão. Ele é sempre correto, e seus juízos são perfeitos (Sl 11,7; Dn 9,7; At 17,31). Justiça é dar a cada um o que lhe é merecido. 


15- Santidade: Deus é completamente separado do pecado, Ele não compactua, nunca, com o pecado e é totalmente comprometido com sua honra. Ele nunca está relacionado a qualquer coisa impura ou qualquer comportamento indigno (Is 40,25; Hc 1,12; Jo 17,11; Ap 4,8). 


16- Veracidade: Deus, e tudo o que provém dEle, é necessariamente verdadeiro, infalível e absolutamente confiável (Hb 10,23), de modo que Ele é o próprio Deus verdadeiro (Jo 17,3). Tudo o que Ele revelou de Si mesmo é genuíno, e por ser fiel, Ele nunca fará nada que afronte a sua própria natureza ou contradiga Sua Santa Palavra.


17- Liberdade: Deus não precisa de nada nem de ninguém para fazer o que quer, ou seja, Ele é completamente livre para executar Sua Vontade (Mt 11,26; Is 40, 13-14) de acordo com a perfeição de sua natureza, ou seja, apesar de ser completamente independente e livre, isso não significa que Ele seja livre para pecar, mentir, deixar de ser Deus ou mesmo morrer, pois tais coisas contrariam seu próprio Ser.


18- Paz: revela que nEle próprio, ou em qualquer uma de suas ações, não há nenhum tipo de confusão ou desordem. Ele é o mesmo, nunca se contradiz, Ele é o Deus da Ordem e portanto da paz que vem de Seus Decretos que nunca mudam. Isso foi o que fez o juiz Gedeão dizer: “O Senhor é paz” (Jz 6,24). A paz que Deus nos comunica vem do seu atributo incomunicável da Imutabilidade.



Sobre a Criação


O Mundo ou o Universo é o conjunto de todos os seres criados, que são: os espíritos puros (os anjos), os corpos e os compostos de matéria e espírito (os homens).

Esse conjunto, Universo, foi criado pelo Império (Domínio Soberano efetivo) da Sua Palavra e pelo Influxo (abundância) do Seu Amor.


Assim o Universo não é uma potência, não possuí poder em si. O Universo é um conjunto de criaturas, umas mais elevadas e outras menos elevadas, que não são em si mesmas fonte de nenhum poder, são, no entanto, resultado da ação criadora da Voz Divina que ecoa nos ares e da abundância do Amor Divino que tudo abarca.

Deus quis que houvessem espíritos puros para que fossem a coroa da obra de suas mãos, pois são a porção mais formosa, nobre e perfeita do Universo. São substância completa, não tem qualquer relação com a matéria, por isso são denominados puros espíritos. 


Tais são numerosíssimos pois era conveniente que na Obra de Deus o perfeito sobrepujasse o imperfeito. 


Chamamo-os de anjos, pois são enviados de Deus e através deles Deus exerce o seu governo, soberano e efetivo, sobre as demais criaturas.

Os puros espíritos podem somente tomar aparência humana, não podem se unir a matéria. Sendo espíritos podem executar atividades sucessivas em lugares distintos.

A vida intima dos anjos consiste em conhecer e amar, possuem, no entanto, um conhecimento intelectual, carecem absolutamente do sensitivo, pois são incorpóreos. 

Seu conhecimento é mais perfeito, muito mais que o nosso, pois numa só visão abrangem o princípio e a consequência das coisas.

Tal ciência, não é infinita, não podem conhecer os pensamentos nem os segredos dos corações, só o conhecem por revelação de Deus ou pela manifestação do agente, ou seja, pela oração. No entanto, como são mais antigos e mais sagazes, podem intuir certas coisas por observação, afinal eles foram criados no começo dos tempos, viram gerações e gerações de seres humanos sobre a terra. 

Também não sabem o futuro, somente se Deus lhes conceder revelação divina. Amam a Deus, a si mesmos e as criaturas. Vivem nesta ordem natural do amor.

Deus criou os anjos imediatamente no princípio dos tempos e no mesmo instante que os elementos do mundo material, num lugar chamado Céu Empírico, o lugar mais alto dos Paraísos, onde está Deus e os seres bem aventurados (santos) tomados pela Luz Divina. "Emphyrius" vem de "queima", remete a queimar no amor de Deus.


Os anjos foram criados em estado de graça, que significa que com sua natureza receberam a graça santificante que os tornou filhos de Deus. 


Sua glória decorreu da execução de um ato livre que foi submeter-se a ação da graça que os inclina a submeter-se a Deus por inteiro, isso ocorreu em um só instante.


Nem todos permaneceram fiéis, alguns por orgulho quiseram ser como Deus e gozar a felicidade independentes da Vontade Divina. Deus então, justamente, os precipitou no Inferno, assim os anjos rebeldes e os condenados ao Inferno chamam-se demônios

A segunda categoria dos seres criados por Deus é formada pelo mundo corpóreo, criado no princípio dos seres, ao mesmo tempo que Deus criava o mundo dos espíritos (anjos), ambos foram criados instantaneamente.

Mas Ele não o criou como hoje o vemos. O Senhor o criou primeiro em estado caótico, que significa que Deus primeiro criou os elementos ou matérias que iria utilizar para criar o mundo como hoje vemos.

Ele, no entanto, não rematou de uma só vez a Sua Obra, mas usou de intervenções sucessivas, que foram seis, e que chamamos de "os seis dias da criação":


1- a luz; 2- o firmamento; 3- os mares separou da terra e criou as plantas; 4- sol, lua, estrelas; 5- aves e peixes; 6- animais terrestre e o homem.


O homem é um ser composto de espírito e matéria que, de algum modo, condensa os mundos espiritual e material. 


O espírito do homem chama-se alma. 


As plantas e os animais, que também são seres corpóreos, também possuem alma. A diferença é que a alma das plantas é vegetativa e a dos animais vegetativa e sensitiva. Já a alma humana, além dessas duas faculdades, possui também a faculdade da inteligência. 

A alma humana também exerce a sua função própria independente do corpo, já que o objeto do entendimento buscado pela inteligência é o imaterial e dessa verdade podemos concluir que a alma é imortal, pois se é independe do corpo no obrar, forçosamente o a de sê-lo no existir.


Assim, o corpo perece sem a alma, mas a alma existe ainda que sem o corpo, é eterna.


Portanto, a alma só se une ao corpo para formar um todo harmônico chamado homem. E a união da alma ao corpo não é acidental, não acontece ao acaso.

A alma dá ao corpo todas as perfeições que possui: o existir, o viver e sentir, reservando para si, unicamente, o ato de entender.


Quem entende é a alma e a alma é imortal.


O corpo vive das potências vegetativas, que são três: o poder de nutrição, o do crescimento e de reprodução.

E sente por virtude das potências sensitivas que se dividem em duas classes: cognoscitiva e afetiva.


Das cognoscitivas


1- Cognoscitivas (com sentidos exteriores) que são os cinco sentidos


2- Cognoscitivas sensíveis (sem órgão externo) que são o senso comum, a imaginação, o instinto e a memória.


O homem possuí também outra faculdade cognoscitiva chamada de inteligência ou razão, que são uma só potência, no entanto, tem dois nomes pois há verdades que o entendimento compreende de um só golpe e outras que necessita de raciocínio.

O homem possuí assim a capacidade de discorrer (entender pelo raciocínio), tal habilidade é uma perfeição do homem em relação a outros seres, pois pode chegar a verdade por esse meio. E imperfeição, comparado a Deus e aos anjos, pois pode ainda cair no erro.


A verdade é o conhecimento do que existe. 

A ignorância é a carência de conhecimento sobre algo. 

O erro é atribuir existência ao que não a teve ou tem. 


A verdade pode ser conhecida a partir da idade da razão, 7 anos. No entanto, não é possível, mesmo por investigação, adquirir o conhecimento de todas as verdades; mas poderá conhecer naturalmente as coisas sensíveis e as verdades que deste conhecimento se derivam.



Das Afetivas: o Livre Arbítrio


É o poder que o homem tem de propender para o que as faculdades cognoscitivas lhe apresentam como bom e de fugir do que como mau lhe põem diante dos olhos.


Existem duas classes de faculdades afetivas: o apetite sensitivo e a vontade (que é um apetite, mas mais nobre e espiritual) e portanto mais perfeito.

Os homens que existem e tem existido descendem dos mesmos pais, Adão e Eva, que foram criados por Deus.

Deus os criou dando-lhes corpo e alma. E as suas almas foram produzidas por Criação. Já os corpos o próprio Deus nos diz que criou Adão do barro e de uma de suas costelas formou Eva.

O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Tal afirmação quer dizer: que a natureza e operações mais elevadas do homem lhe permitem entrever a natureza divina e a vida íntima da Augusta Trindade e imitam, de certo modo, a perfeição das Pessoas Divinas.

Dado que nossa alma é espiritual e também as suas operações mais perfeitas, entender e amar, concluímos que tais operações devem ter por objeto primeiro a Verdade e o Bem Supremo, que é o mesmo Deus.


Assim, nos atos de entender e amar, visando o Sumo Bem, podemos ver uma semelhança da vida íntima da Trindade, pois o nosso espírito ao pensar em Deus concebe um "verbo interior", algo que serve de "imagem visual de Deus" (já que Deus é Espírito ao pesarmos na pessoa "Deus" a mente concebe a imagem de Pai, ou de Mestre, ou de Rei, ou Juiz; Deus é uma e todas essas percepções, mas a mente humana e ainda o coração humano pode possuir mais facilidade com alguma ou algumas delas, gerando um "verbo interior", uma expressão interior mais familiar de Deus; tal conhecimento é de suma importância já que uma imagem equivocada de Deus ou a deturpação de um atributo verdadeiro em algo falso pode impedir o próximo passo da alma, que é amar). 


Sob a influência do pensamento sobre o "verbo interior" brota o ato de amor, produzido no espírito do homem (assim o pensar, o meditar, o conhecer antecede o amar).


Podemos ainda imitar a perfeição própria das Pessoas Divinas quando o primeiro e último fim de nossos pensamentos e afetos é o próprio Deus, já que Pai fez tudo para o Filho, o Filho governa o mundo para entregá-lo ao Pai e o Espírito é o amor que os une, quando também convergimos nossos pensamentos, afetos e por fim os atos para Deus imitamos o agir das Pessoas Divinas e ainda entramos, de certa forma, pela ação do Espírito Santo, na vida íntima da Trindade.


Deus criou o homem perfeito. Nesse primitivo estado de felicidade o homem possuía os bens da: 

- ciência (conhecimento da natureza e composição dos animais, plantas e etc.) claríssima e universal,
- justiça (dar a Deus o que é devido) original unida à prática de todas as virtudes (esforço habitual e firme na prática do bem, com todas as forças sensíveis e espirituais); 
- império absoluto da alma sobre o corpo, 
- domínio sobre todas as criaturas.


O homem também não estava sujeito a morte, visto que a alma, por especial privilégio, protegia o corpo contra todo o mal e ela por sua vez de coisa alguma poderia receber dano, enquanto a vontade permanecesse submissa a Deus. Tudo mudou depois da queda de Adão e Eva no Éden. 


Providencia de Deus e o governo do mundo


Deus é Soberano e Senhor de todas as coisas, pois todos os seres do mundo estão sujeitos ao governo e domínio supremo, único e absoluto de Deus. Assim coisa alguma existe no mundo espiritual, material e humano, que seja independente da ação divina, a qual conserva a existência de todos os seres e os conduz ao fim para que foram criados, que é Deus mesmo e a sua própria glória. 

Deus rege e conserva o universo para que na ordem e concerto do mundo se possa refletir e manifestar o pensamento Daquele que o criou, o conserva e o governa. Assim o concerto e ordem admiráveis do universo expressam a glória de Deus.


No plano atual da Providência não existe nada mais perfeito e grandioso que a obra da Criação, a conservação e governo do universo. Isso considerando um fato ainda mais sublime: dizemos plano atual da Providência pois que Deus é onipotente, assim nem o conjunto das obras mais perfeitas, podem exaurir o seu poder infinito.

Deus governa o universo conservando-o no ser e conduzindo-o ao fim para que foi criado. É o próprio Deus que conserva a existência dos seres. Assim a conservação do universo, assim como a Criação, são obras próprias e exclusivas de Deus. 

Deus poderia aniquilar o mundo, se assim quisesse, bastaria que suspendesse por um instante a ação que dá, a cada momento, a virtude do ser. Logo a existência das coisas se mantém debaixo da ação direta, absoluta e constante de Deus. 


O fim da Criação é a glória de Deus e a glória exige não a destruição mas a conservação do criado. 


As criaturas, por sua vez, apresentam transformações, mais ou menos profundas, conforme a espécie, e dentro das mesma espécie, conforme os diversos estados. Algumas transformações ocorrem por ação direta de Deus. Tais ações, quando fogem da explicação humana, são chamadas de milagres. Deus fez e faz milagres por sua bondade, para que os homens vejam a sua grandeza, para fazê-los ver que intervém no mundo e para a sua glória e bem dos homens.

As criaturas podem exercer um influxo uma nas outras para efetuar mudanças e alterações que se observam no mundo. Neste mútuo influxo se funda a ordem do universo que, por sua vez, são reguladas pelas leis da Providência. A Providência é o meio ou o instrumento que Deus utiliza para induzir as criaturas ao fim que Ele preparou. Deus poderia não utilizar tal recurso, mas tal procedimento possibilita a Sua maior Glória e ainda enobrece e torna mais perfeita a criatura que toma parte com Ele na execução de Seus Planos, que é guiar os seres ao seu fim último (o Sumo Bem). Digo que possibilita a maior glória de Deus pois que é sinal de grandeza e poderio soberano possuir uma legião de ministros submissos e prontos a executar Suas Santas Ordens. 

Assim quando as criaturas exercem o mútuo influxo, estão a cumprir as Ordens absolutas de Deus, pois é impossível que qualquer criatura execute atos não previstos, nem ordenados no plano da Providência Divina. 

Também não é possível que a atuação de uma criatura, sendo instrumento de Deus, perturbe ou contrarie o Plano Divino, pois quaisquer que sejam os seus atos, ordenados estão por Deus, para o bem do universo. 

No entanto, os atos desordenados podem ocasionar maus físicos e morais, ou seja, podem ocasionar um mal particular. Pois podem alterar a ordem de um grupo em particular ou impedir a manifestação secundária do poder e da vontade de Deus. Portanto, não gera um impedimento do Plano Divino em seu nível macro, considerando o plano em conjunto, mas gera um mal num nível particular, inferior.


Isso acontece devido ao soberano poder de Deus, que é de tal forma grandioso que se utiliza do mal particular, subordinando-o a um fim mais elevado para que contribua para o bem universal. 


Isso não significa que não há ação das criaturas que não estejam dispostas maravilhosamente a cooperar para o bem do universo; antes se algo aparece prejudicial e deslocado, num plano inferior, tem razão de ser visto como ruim, prejudicial e desordenado, mesmo considerando um plano de vista mais alto, ou seja, mesmo considerando que tais atos inferiores não interferem nos Planos Divinos numa visão em conjunto, mas geram, como vimos, males particulares; portanto são maus e desordenados e assim devem ser nomeados. 

Compreenderemos, no entanto, a maravilhosa grandeza de Deus somente no Céu, pois que o nosso entendimento não abarca os corações de todas as criaturas e os segredos do Coração Divino.


Ação dos Anjos no Governo do mundo

No mundo angélico, a que chamamos também de "mundo dos espíritos", dado que os anjos são espíritos e Deus é espírito; também existe - assim como no mundo corpóreo - uma atuação das criaturas uma sobre as outras. A esse influxo São Tomás chama de iluminação, o uso de tal termo se refere ao ato de um puro espírito influir sobre outro para lhe transmitir a iluminação que recebeu de Deus, relacionada ao governo do mundo. 

Essa comunicação, portanto, das iluminações de Deus, em relação ao governo do mundo, ocorrem de forma gradual e ordenada, isso quer dizer que, Deus comunica diretamente suas ordens aos que estão mais próximos Dele, e estes aos demais anjos, porém com uma ordem tão severa que a iluminação dos primeiros só pode chegar aos últimos por ação dos intermediários. 


Assim existe uma ordem angélica, há anjos superiores, intermediários e últimos. 

O mundo angélico se divide em hierarquia e ordens angélicas. 


O termo hierarquia deriva do grego é significa principado sagrado. O significado completo da expressão principado sagrado é: o conjunto de criaturas, homens e anjos, chamados a participar das coisas santas, debaixo do governo de Deus, Rei dos reis e Príncipe Soberano. 


Os homens, no entanto, enquanto vivem neste mundo não são da mesma hierarquia que os anjos, mas no Céu serão admitidos nas hierarquias angélicas. 


Existem três hierarquias angélicas - e em cada uma três ordens - e se distinguem pelo conhecimento que possuem da razão (motivo) das coisas no que refere ao governo do mundo. 

Os da primeira hierarquia recebem as ordens diretas de Deus e seus nomes estão ligados a sua proximidade com Deus. 

Os da segunda hierarquia recebem a iluminação da primeira hierarquia e seus nomes tem relação com o conjunto das coisas criadas. 

Os da terceira hierarquia recebem as ordens divinas da segunda hierarquia, de forma tão concreta e particularizada como é necessários para comunicá-la às nossas inteligências. As ordens que pertencem a essa hierarquia recebem nomes de atos limitados: anjo da guarda, principados (que vem de província). 

Comparados, no entanto, a um ser humano tem atuação imensa.


Existem três ordens (coros) principais dentro de cada hierarquia, dizemos principais, pois que dentro de cada ordem existem subordens e ainda categorias entre os anjos de uma mesma ordem, já que cada anjo tem uma categoria e um ofício particular, mesmo que não nos seja dado conhecê-las. 


Cada anjo é único e irrepetível. Nenhum anjo é igual ao outro, pois assim como os homens, Deus manifesta sua multiplicidade de dons em suas criaturas. 


Essa multidão de anjos executa as ordens divinas em harmonia retratando assim a glória de Deus, por isso chamamos muitas vezes as ordens angélicas de coros angélicos. 

As ordens angélicas são, em ordem descendentes: Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, Potestades, Virtudes, Principados, Arcanjos e Anjos. Tais ordens se referem a natureza de cada anjo. 

Essas ordens também existem entre os demônios pois a natureza permaneceu neles. Logo há subordinação entre os demônios, no entanto, essa superioridade nunca é usada para praticar o bem; pois entre eles não existe iluminação, já que esta vem de Deus e eles se separaram Dele, por isso que o reino dos demônios chama-se "império das trevas". 


Deus se serve dos anjos no governo do mundo material, pois o mundo angélico é superior ao mundo corpóreo. E em todo governo bem ordenado os inferiores são regidos pelos superiores. 


Seu ministério no governo do mundo é velar pela exato cumprimento do Plano Providencial e dos Decretos Divinos concernentes às coisas materiais. 

Os anjos que exercem a administração das coisas materiais pertencem à ordem das Virtudes. Assim sua função no mundo corpóreo é velar pela perfeita manifestação da vontade de Deus, em tudo o que se passa nos diversos seres que constituem o mundo material. 

Dessa forma podemos dizer que Deus executa todas alterações e mudanças no mundo material, inclusive os milagres, através dos anjos que pertencem à Ordem das Virtudes. No entanto, os anjos não tem virtude ou poder para efetuar milagres, só Deus pode fazê-los, os anjos atuam ou na intercessão ou como instrumentos.

Os anjos podem influenciar os homens pois são de natureza puramente espiritual e, portanto, superior à humana. Pois, em tudo o que é devidamente ordenado, o superior influi no inferior. Eles podem iluminar a nossa inteligência, dando-lhe vigor e pondo ao nosso alcance a verdade puríssima que eles contemplam. No entanto, não podem intervir diretamente na nossa vontade, pois a ação de decidir, de escolher, é um movimento interior que só Deus pode alterar. 

Deus pode atuar diretamente e mudar o movimento da vontade humana, assim o fez com o coração do Faraó. Ele pode, sim, mudar os corações, no entanto, como nos deu liberdade, mesmo tendo poder de mudar nossos corações, Ele escolhe respeitar a nossa vontade, descarregando, mesmo assim, uma chuva de oportunidades de redenção, mesmo ao pecador mais empedernecido, pois assim age sempre em sua Misericórdia, para que a alma se converta. Ele nos deu liberdade por amor e a respeita por amor. Assim os anjos não podem intervir em nossa vontade, já que Deus, mesmo podendo, muitas vezes não o faz. Mas lembre-se não existe nenhum lugar interior e profundo em que Deus não possa agir.

Os anjos podem também excitar a imaginação e as demais faculdades sensitivas, pois estão ligadas ao mundo corpóreo e assim submetidas à ação dos anjos. Eles também podem impressionar os sentidos externos.

Os anjos podem, por consequência disso, dificultar ou impedir a ação dos demônios, porque a justiça submeteu os demônios, como castigo de seus pecados, ao domínio dos anjos. 


Assim Deus se serve dos anjos para promover o bem e para executar os seus desígnios junto dos mortais. 


Mas nem todos os anjos são enviados para este fim. Os anjos da primeira hierarquia nunca são enviados, pois é seu privilégio permanecer constantemente junto ao Trono de Deus. Esses anjos são chamados de Anjos Assistentes. 

Portanto, os enviados aos homens são os anjos da segunda e terceira hierarquia, porém note-se que o coro das Dominações presidem a ordenação dos decretos divinos, e as outras ordens - Virtudes, Potestades, Principados, Arcanjos e Anjos - são os executores. 

Alguns Anjos são destinados para a guarda dos homens, porque a Divina Providência decretou que o homem, ignorante no pensar, inconstante e frágil no querer, tivesse como guia protetor, na sua peregrinação até ao Céu, um daqueles espíritos ditosos, confirmados para sempre no bem. 

Deus destina um anjo para cada ser humano, porque Deus ama mais uma alma do que todas as espécies de criaturas materiais. Mas apesar disto, Deus determinou que cada espécie tivesse um anjo custódio encarregado de seu governo. Estes - anjos custódios de cada ser humano e de cada espécie - são os Anjos da Guarda, que pertencem ao último coro (ordem) da Terceira Hierarquia Angélica. 

De fato - e que maravilhoso! - todos os seres humanos possuem, cada um, um anjo custódio, enquanto vivem neste mundo, em atenção aos obstáculos e perigos do caminho que têm de percorrer até chegar ao fim. 

Pode se perguntar se Nosso Senhor Jesus Cristo teve um anjo da guarda. Considerando que era a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, não convinha, mas teve anjos com a nobre e feliz missão de O servir. 

Os anjos da guarda começam seu ministério assim que o ser humano nasce e a executam sem interrupção até que exale o último suspiro. 

Eles veem as tribulações e os males que seus protegidos passam mas não se afligem, pois depois de fazerem o que está em suas mãos para evitá-lo se recolhem e adoram neles - seus protegidos- o mistério insondável dos Juízos de Deus. Pois, ainda pode a alma, apesar dos esforços de seu Anjo Guardião, escolher livremente o que é mal, ou ainda, não existir um meio ao alcance do anjo para impedir o sofrimento ou a tribulação, pois que esses também são caminhos de conversão, purificação e santificação. 

Portanto, sempre nos acode os Anjos da Guarda quando o invocamos, mas sua ação sempre estará de acordo com os decretos divinos e fará todas as coisas em harmonia com a glória de Deus.

Os anjos maus, ou demônios, podem combater e tentar os homens; porque o seu todo é malícia e, além disso, porque Deus sabe tirar proveito das tentações em benefício dos eleitos. 

Pois é próprio dos demônios tentar, no sentido em que eles só tentam os homens com o propósito de seduzi-los e perdê-los. 

Não podem, no entanto, com este objetivo fazer milagres, porém, podem realizar "alguma coisa parecida com os milagres", ou seja, algo que seja desconhecido dentro dos conhecimentos disponíveis no momento, mas não o é no conjunto do que pode ser feito pelas criaturas. 

Para os distinguir dos verdadeiros milagres nota-se que são feitos sempre com fim ilícitos ou por meios reprováveis e não podem, por consequência, ser obra de Deus. 

O homem pode, apesar da sua fraqueza, cooperar com a ação divina, no governo do mundo. Ele faz isso quando procura o bem dos seus semelhantes, se torna assim instrumento de Deus em benefício das almas e dos corpos. 

O homem pode ser instrumento de Deus no que se refere ao bem das almas, de dois modos, pelos seus atos: 

Primeiro se torna causa ocasional da Criação de novas almas;
Segundo porque essas almas infantis se nutrem e crescem em perfeição, com os exemplos e ensinos.

Pode ser instrumento de Deus em benefício dos corpos quando, na lei natural, estabelecida por Deus, podem gerar nova vida humana.

Existe uma semelhança entre as operações divinas e humanas, esta consiste em que Deus é livre para dispor do universo a seu agrado, também o é o homem no que dele depende. 

O homem quando obra como homem e não como máquina, por impulso ou guiado por uma reação física e instintiva, é capaz de ter em vista algum fim em todas as suas obras. O homem é o único capaz de propor uma finalidade para as suas ações dentre os seres materiais. 

Não que os outros seres obrem ao acaso, suas operações estão determinadas para um fim determinado, porém, não o intentam, nem o propõem como meta, pois isso o faz Deus em seu lugar. 

Todos se movem para realizar o fim que Deus propôs; mas o homem se diferencia dos outros seres pois pode, por impulso e dependência de Deus, determinar o fim de seus atos; enquanto os outros seres o fazem cegamente, por natureza ou instinto, rumo ao que Deus assinalou. 

Esta diferença ocorre pelo fato do homem possuir inteligência e os outros seres não. 

Seja por intenção explicita ou por certo instinto racional o homem direciona suas ações para o fim último supremo, que é a Felicidade. 

Todos os homens querem ser felizes e não há nenhum que queira, deliberadamente, ser um desgraçado. Mas pode, no entanto, se equivocar em suas escolhas, tomando os bens aparentes e temporários por verdadeiros. Se não vê em tempo o seu engano, no fim da jornada não encontrará a Felicidade mas desconsoladora e irreparável desgraça. 

Por isso é de fundamental e excepcional importância o acerto na eleição, o acerto nas escolhas.

A felicidade do homem consiste num bem superior a ele e este bem é o único capaz de o cumular de perfeições. 


Dessa forma tal bem não pode ser as riquezas, já que são coisa inferior ao homem e incapazes em si de aperfeiçoa-lo. 

Não pode ser as honras, já que não dão perfeição, antes a supõem, sob pena de serem postiças, e se são postiças são nada. 

Não pode ser a glória ou a reputação, pois elas supõem méritos, e eles são, neste mundo, coisa frágil e volúvel. 

Não pode também estar no poder, porque o poder não se dá para o bem próprio mas para os outros, além de estar sempre sujeito ao capricho e a insubordinação. 

Não pode ser também a saúde ou a beleza corporal uma vez que são bens inconsistentes e passageiros e, além de tudo, só dão perfeição ao exterior e não ao interior do homem. 

Muito menos o são os prazeres dos sentidos porque são grosseiros demais comparados às alegrias da alma. 

A felicidade do homem consiste na aquisição de um bem que influi diretamente sobre o espírito e este bem é o Sumo Bem, Deus, Soberano e Infinito.



Sobre a fé católica sobre o Gênesis Santo Agostinho

Trecho do livro Patrística, vol 21

A fé católica é esta: que Deus Pai todo-poderoso criou e ordenou todas as criaturas por meio de seu Filho Unigênito, ou seja, sua Sabedoria e Poder, consubstancial e coeterno com ele, na unidade do Espírito Santo, também consubstancial e coeterno com ele. A doutrina católica ordena crer que esta Trindade é um só Deus e que ela fez e criou tudo o que existe, enquanto existe, de tal modo que toda criatura, seja intelectual ou corporal, ou, o que se pode dizer brevemente de acordo com as palavras das divinas Escrituras, visível ou invisível, foi criada não da natureza de Deus, mas do nada por Deus; e que nela nada existe que pertença à Trindade, exceto que a Trindade a criou e ela foi criada. Por isso não é lícito dizer ou crer que o conjunto das criaturas seja consubstancial e coeterno com Deus.


Eis porque são boas todas as coisas que Deus fez. Mas, as coisas más não são naturais, e tudo o que se denomina mal é pecado ou castigo do pecado. O pecado não é senão o consentimento vicioso da vontade livre ao nos inclinarmos àquelas coisas que a justiça proíbe, e das quais o homem é livre de se abster; ou seja, o mal não está nessas coisas, mas no seu uso não legítimo. O uso das coisas é legítimo, contanto que a alma permaneça na lei de Deus e esteja sujeita ao Deus único com um amor perfeito, e se sirva das demais coisas, que lhe estão sujeitas, sem cupidez e sem luxúria, ou seja, de acordo com o preceito de Deus. Desse modo a alma administrará as coisas sem dificuldade e sem fadiga e com a maior facilidade e felicidade. E o castigo do pecado consiste em a alma ser atormentada pelas criaturas que não a servem, se ela não serve a Deus; pois a criatura obedecia-lhe quando ela obedecia a Deus. Assim sendo, o fogo não é um mal porque é criatura de Deus, mas queima nossa fraqueza devido ao mérito do pecado. Denominam-se pecados naturais os que forçosamente cometemos antes que nos chegue a misericórdia de Deus, depois de termos caído nessa vida no pecado pelo livre-arbítrio.


Que o homem se renova pelo Senhor Jesus Cristo, visto que a própria Sabedoria de Deus, inefável e imutável, se dignou assumir plena e totalmente o homem, nascer da Virgem Maria por obra do Espírito Santo, ser crucificado, sepultado, ressurgir e subir ao céu, o que já aconteceu; e vir no fim do mundo para julgar os vivos e os mortos. E que creiamos na ressurreição dos mortos na carne, o que se anuncia como coisa futura, e que o Espírito Santo foi dado aos que nele creem, que ele instituiu a mãe Igreja, que se denomina católica, e por isso é universalmente perfeita, não comete erros e se difundiu por todo o universo; que os primeiros pecados são perdoados aos que se arrependem, e que há a promessa de uma vida eterna e do reino de Deus.


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Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)




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