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Salus in Caritate






“Feminino não é um atributo da mulher, masculino não é um atributo do homem. São dois construtos sociais que nós, tempo a tempo, sociedade a sociedade, classe a classe, raça a raça, gênero a gênero, localização geográfica a localização geográfica, inventamos. Feminino, feminilidade é uma coisa que você compra, literalmente, da unha ao cabelo, da prótese ao espartilho, do sapato à meia-calça. Você vai comprar, está à venda. Ela se constrói a partir do que pode ser comprado.”

Esta fala é de um comunista.

No entanto, me pergunto se está perceptível que a concepção da construção do denominado “gênero”, conforme a literatura revolucionária e seus defensores, fundamenta-se na aquisição de certos apetrechos que conferem ao seu portador a feminilidade ou a masculinidade, independentemente de ser este ente homem ou mulher. A feminilidade e a masculinidade são edificadas pela aquisição de determinados adornos, sendo, portanto, transitórias. O indivíduo está homem ou está mulher, podendo amanhã estar de outra forma.

Muito bem, certamente, isso já é de conhecimento do leitor. Portanto, adentremos o Pantheon contemporâneo que é a percepção da feminilidade atual.

A educação católica tradicional é bastante clara, tanto na Patrística quanto nos textos Sagrados, ao afirmar que os apetrechos e acessórios não são determinantes para a definição de um sexo (por isso o homem não deve se vestir de mulher e a mulher de homem). O sexo é uma condição intrínseca, assim como a nacionalidade e a genealogia; ou seja, você nasce com um sexo, uma nacionalidade e em uma família (numa linhagem, mesmo que você a desconheça). Isto está dado.

Ao adotarmos o discurso da feminilidade como a adesão a acessórios, além de confortarmo-nos em nossas próprias afeições e afetações, também nos propomos a um flerte perigoso com a ideia materialista revolucionária de construção do sexo por meio de apetrechos externos. Isso é bastante contraditório e grave para aqueles que não acreditam em “fluidez identitária” ou em uma “sexualidade construída”.

Compreendo que o exercício de análise do discurso e crítica cultural é exaustivo. Contudo, neste estágio, torna-se necessário revisitar os discursos dos cristãos, conservadores e da direita. Nós, cristãos, estamos replicando, ingenuamente ou burguesamente, mas certamente, solenemente e alegremente, discursos marxistas em menor escala.

Todavia, esses discursos são deletérios em termos morais, sociais e políticos, pois encerram uma contradição intrínseca.




Qual seria a conduta adequada?

Alinhar os atributos da feminilidade à sua verdadeira essência.

A maioria das mulheres não sabe definir o que é a feminilidade. Sabem citar atributos, e metade deles tem alguma relação com imagem e aparência. Isso é realmente preocupante, pois a redução da feminilidade a apetrechos também reduz a percepção da beleza. A mulher é o ícone visível da Beleza Suprema. Reduzindo a percepção da beleza temporal, reduzimos também a moralidade. A moral, por sua vez, nos permite trilhar o caminho até o Belo Supremo.

Novamente, observe que o discurso atual está servindo à pauta revolucionária e inviabilizando a conduta cristã genuína, mesmo que revestido do verniz conservador-culto-cristão.




O que é a feminilidade?

Tentemos, mais uma vez, destruir as estátuas de Ísis e das deusas da toalete feminina espalhadas por aí.

Santa Hildegarda, ao descrever o momento da criação de alguns minerais e plantas, narra que cada um deles recebeu um atributo ou potência em determinado momento. Embora nem todos apreciem a linha teológica da Santa, o exemplo se torna oportuno para explicar o feminino e o masculino para além das análises materiais.

É uma potência conferida ao corpo da mulher e que somente nele reside, possuindo a função física e/ou espiritual de receptáculo, de gestar e gerar. Tal potência nos credibiliza o direito à proteção, ao amparo e à recepção de dádivas. É desta potência que advêm a docilidade, a fortaleza, a delicadeza, a sabedoria e a firmeza. Quando esta potência se encontra suprimida, desregulada ou deseducada, surgem: as revoltas, as afetações e apegos, os vícios, a brutalidade e a falta de docilidade ao ser educada ou corrigida. Independe dos apetrechos. 

Estas questões não são insignificantes; todo acolhimento de discurso é uma aprovação de uma mentalidade. E se isso acontece, é pela fraca mentalidade cristã moderna.





A expressão material da feminilidade é, indubitavelmente, a virtude da modéstia.



A expressão material da feminilidade é, indubitavelmente, a virtude da modéstia.

É evidente que a potência feminina norteia os atos. A virtude responsável por moderar o comportamento é a virtude da modéstia e, por meio dela, ocorre a moderação da mente pela estudiosidade, da percepção de si pela humildade e dos gestos, vestimenta e fala pela modéstia. A manifestação da feminilidade não se realiza pela aquisição de apetrechos, mas sim pela transformação da ordem interior que gera uma conduta refinada espiritual e moralmente. Desta forma, cumpre-se o pedido do Apóstolo Pedro para que as mulheres cristãs se adornem de piedade, sabedoria, firmeza e coragem: “Não seja o vosso adorno exterior: cabelos frisados, adereços de ouro, gala e preparo dos vestidos — mas (resida) no interior do vosso coração, na incorruptibilidade de uma alma doce e serena; eis o que é de grande valor diante de Deus” (1 Pedro 3, 3-4).

A instância material não pode oferecer tais coisas; as escolhas materiais são reflexos da ordem interior e das preocupações da mente. O Apóstolo propõe que façamos boas escolhas na esfera material, mas que, acima de tudo, estejamos firmes na certeza de que somos fortes, sábias e corajosas na piedade, não buscando tais atributos em modas ou apetrechos. E continuamos sábias, fortes e corajosas com poucos apetrechos ou sem apetrechos, pois a beleza não reside neles.






“A tradição pode ser definida como uma extensão dos direitos civis. Tradição significa dar votos à mais obscura de todas as classes, os nossos antepassados.” (G. K. Chesterton)



Quarto Papa


Primeiro Papa: São Pedro (Cartas disponíveis na Bíblia)

Segundo Papa: Sâo Lino (sem documentos oficiais que chegaram até nós)

Terceiro Papa: Sâo Anacleto (sem documentos oficiais que chegaram até nós)


Governou a Igreja durante a perseguição do Imperador Dominiciano (88-97 ou 92-99 d.C - 7 a 9 anos)

Motivo da escrita: trata-se de uma carta aos coríntios motivada pela rebelião dos presbíteros novos contra os que vieram antes deles, os novos depuseram o antigo (algo que para nós é bem familiar, nada há de novo debaixo do sol), a carta aborda as condutas de autopreservação tomadas por ciúmes dentro deste cenário e a dulia, que é a veneração às pessoas santas (não por pura imposição de autoridade).



Citações gerais


"Insurgiram-se, assim, os vis contra os honrados, os inglórios contra os gloriosos, os insensatos  contra os prudentes, os jovens contra os anciões. Por causa disso, afastam-se para longe a justiça e a paz, ao abandonar cada um o temor de Deus e enceguecer quanto à fé n'Ele, visto que não se caminha segundo às diretrizes de seus mandamentos, nem se leva a vida de acordo com o que seria digno de Cristo, mas cada um procede conforme as concupiscências do próprio coração malvado, tomado por um ciúme injusto e ímpio, através do qual a morte entrou no mundo."


"Afastemo-nos, porém, dos antigos exemplos e venhamos aos atletas que se nos tornaram próximos, tomemos os generosos exemplos da nossa geração [mártires] ...as maiores e mais justas colunas foram perseguidas e lutaram até a morte"


"A esses homens, que santamente viveram, agregou-se numerosa multidão de eleitos, os quais, tendo sofrido muitos suplícios e tormentos por ciúme, entre nós se tornaram belíssimo exemplo. "


"Deixemos, por isso, as vãs e frívolas preocupações e venhamos à gloriosa e veneranda regra da nossa tradição. Consideremos o que é belo, prazenteiro e agradável na presença d'Aquele que nos criou."


"Com esse mandamento, com esses preceitos, fortaleçamo-nos a nós mesmos, para caminhar humildes, na obediência às santas palavras d'Ele, pois diz a Palavra Santa: sobre quem pousarei os meus olhos, senão sobre o humilde, o manso, o que treme diante de minhas palavras (Is 66, 2)."


"Unamo-nos, então, àqueles que, com piedade, cultivam a paz, e não os que a querem com uma atitude hipócrita". 

**Hipócrita: que ou aquele que demonstra uma coisa, quando sente ou pensa outra, que dissimula sua verdadeira personalidade e afeta, quase sempre por motivos interesseiros, fingido, falso, simulado.


"Consideremos que nada Lhe escapa dos nossos pensamentos, nem dos discursos que fazemos. É justo, pois, que não desertemos da Sua vontade. Mais vale chocar-nos com homens ignorantes, insensatos, soberbos, jactanciosos na arrogância de seus discursos, que com Deus".


"Aproximemo-nos d'Ele, portanto, na santidade da alma, elevando-Lhe mãos castas e sem mancha, amando o nosso Pai benigno e misericordioso, que nos fez porção eleita para Si".


"Unamo-nos estreitamente, pois, à Sua benção e vejamos quais os caminhos da benção".


"Militemos, portanto, irmãos, com toda a diligência nos Seus imaculados preceitos."


"O forte cuide de quem é fraco, e o fraco respeite quem é forte; o rico preste auxílio a quem é pobre, e o pobre agradeça a Deus por ter-lhe dado alguém que lhe supra. O sábio mostre a sua sabedoria não com palavras, mas com boas obras; quem é humilde não dê testemunho de si mesmo, mas deixe que por meio de outrem se testemunhe a seu respeito. O casto na carne não se vanglorie, sabendo que Outro é quem lhe concede a continência."


"Não encontrareis que os justos tenham sido repelidos por varões santos. Os justos foram perseguidos, mas por iníquos; foram aprisionados, mas por ímpios; foram apedrejados por criminosos, mortos por gente tomada de um impuro e injusto ciúme"


"Enquanto muitas portas estão abertas, aquela que se abre na justiça é a que se abre em Cristo: bem aventurados todos os que por ela tiverem entrado e orientado o seu caminho na santidade e na justiça, tudo fazendo de modo imperturbável. Cada um seja fiel, capaz de expor o conhecimento, sábio no discernimento das palavras, casto nas obras."


"Intercedamos, pois, também nós, pelos que se encontram incursos em alguma falta, para que se lhes concedam mansidão e humildade a fim de cederem não a nós, mas à vontade de Deus."

"Obedeçamos, pois, ao Seu Nome, em tudo santo e glorioso, fugindo das ameaças feitas pela Sabedoria aos que não se deixam persuadir, a fim de habitarmos em segurança sob o nome santíssimo da Sua Majestade."


"De resto, o Deus que tudo vê e é Soberano dos espíritos e Senhor de toda carne, que escolheu o Senhor Jesus Cristo e a nós por meio d'Ele, para que fossemos o Seu povo eleito, conceda a toda alma que tiver invocado o Seu magnífico e Santo nome a fé, o temor, a paz, a paciência e a longanimidade, a continência, a castidade e a moderação, a fim de que agrade a Seu nome por meio de nosso sumo sacerdote e protetor, Jesus Cristo, pelo qual a Ele sejam dados glória e majestade, poder e honra, agora e por todos os séculos".






Relacionados aos temas de trabalho salus



Educação e Filosofia:

"Instruamos os jovens na disciplina do temos de Deus"

"Os nossos filhos participem da educação em Cristo, aprendam o que pode a humildade junto a Deus, o que pode, junto a Deus, o casto amor e como é belo o Seu temor, como é grande e como salva todos os que levam santamente a vida n'Ele, com puro coração. Ele é, de fato, esquadrinhador de pensamentos e sentimentos, e Seu sopro está em nós; quando quiser, Ele o retomará."




Arte e Literatura

Citações sobre o Belo, de raiz socrática, ou seja, a beleza da alma, elevada ao cristianismo (colocadas nas citações gerais). 




A Mulher Católica:

"Exortáveis os jovens a pensar em coisas moderadas e sensatas, recomendáveis às mulheres que tudo fizessem um consciência irrepreensível, digna e pura, amando com ternura, como convém a seus maridos, e as ensináveis a administrar dignamente como concerne à casa, atendo-se à norma da submissão e agindo, em tudo, com discrição. "

"Encaminhemos nossas mulheres para o que é bom. Que elas mostrem a amável conduta da castidade e façam ver a pura vontade da sua doçura; tornem manifesta, através do silêncio, a moderação da sua língua e pratiquem a sua caridade sem acepção de pessoas, mas igualmente para com todos os que, na santidade, temem a Deus."




A vida quieta  e o tempo:

"Os céus, que se movem por disposição d'Ele, obedecem-Lhe na paz. O dia e a noite perfazem o curso por Ele estabelecido, sem que mutuamente se impeçam. O sol e a lua, assim como os coros das estrelas, conforme a ordenação d'Ele, giram em harmonia sem qualquer desvio, nos limites que lhes foram marcados. A terra, geminando de acordo com a vontade d'Ele, produz, nos devidos tempos, alimento abundante para os homens, as feras e todos os que sobre ela vivem, sem rebelar-se ou mudar coisa alguma de quanto foi por Ele decretado. As regiões insondáveis dos abismos e os juízos imperscrutáveis dos infernos regem-se pelas mesmas leis. A cavidade do mar imenso, contraída pelo ato criador d'Ele em seus reservatórios, não ultrapassa os limites que lhe foram impostos, mas conforme lhe foi estabelecido, assim age. "

"Vejamos, amados, a ressurreição, que acontece a seu tempo. O dia e a noite manifestam-nos uma ressurreição: a noite cessa, levanta-se o dia, o dia vai-se, cai a noite. Tomemos os frutos: como nasce uma semente, de que maneira. Saiu o semeador e lançou na terra cada semente, e elas, caídas em terra, secas e nuas, dissolvem-se. Em seguida, a partir da dissolução, a magnífica providência do Senhor fá-las ressurgir e, de uma só, muitas crescem e produzem fruto."



Referências:


Coleção Guardiões da Tradição. Documentos Pontifícios: Idade Antiga. Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2024. 11-51 p. Disponível em: Documentos Pontifícios (Coleção - 5 tomos - CAPA DURA) - Guardiões da Tradição 



Parábola das Virgens Sábias e Loucas (1886), 
por Baron Ernest Friedrich von Liphart




Neste mês estou a fazer, novamente, o Mês de Maio. Um mês que é como uma bala dada a uma criança com lágrimas nos olhos. Um mês que trás doçura a esta vivência eclesial tão cheia de espinhos e dessabores. Nossa Senhora e Nosso Senhor são as únicas coisas realmente valiosas nesta vivência eclesial que ele mesmo instituiu.

Bem, num dos dias de meditação é solicitado a leitura do texto das Virgens Prudentes. Lembra-se? O texto das lamparinas e das moças que ficaram sem óleo. Mas o que me chamou a atenção foi: as Virgens Prudentes não dividiram o seu óleo. Elas disseram "não". 

Eu confesso que fiquei um tanto chocada. Estamos tão habituados ao modo de pensamento de que a bondade é sinônimo de ser trouxa, que muitas vezes é difícil se livrar disso. Então, lá estava eu, maravilhada com o "não" daquelas moças, que simbolizam a alma prudente que se prepara para receber o Senhor.

Confesso que sou uma pessoa de poucos "sim". Tenho a sensação de que muitas pessoas, ainda que na Igreja, preservam essa visão de que o cristão é meio trouxa e acabam usando isso em seu proveito.


Por exemplo, há muitos locais que chamam para dar aula, não pagam o professor e depois colocam a aula em um curso ou em uma plataforma de membros paga (veja bem). Editoras que querem divulgação mandam livros retirados das vendas por estarem danificados, livros com erro de impressão ou com páginas faltando. Ou seja, mandam livros aos "divulgadores", que devem incentivar a compra obrigatoriamente, independentemente de terem lido ou não o livro, e gerar lucro para os editores com os livros que receberam do resto inutilizado da impressão. Grupos que fazem "convite" sem conhecer o trabalho ou ler uma linha de texto. Grupos que fazem "convite" por representatividade feminina, sem conhecer o trabalho (o que é uma falta de respeito para uma pessoa que não acredita em "representatividade", mas em competência, o que me levaria a falar dos possíveis preconceitos sobre a competência feminina, mas isso seria outro texto).

Tudo isso e muito mais acontece. Então, ler sobre esse "não" protetor, que preserva o óleo da lamparina, foi um sufrágio. Não é uma tarefa fácil se proteger da malícia das pessoas, da falta de cuidado e respeito que permanece no comportamento de muitos, mesmo após a conversão. Exige paciência e muitos "nãos".


O "não" protetor também protege quem nós somos. Talvez, se elas tivessem dado o óleo, não seriam quem são. Teriam perdido a própria identidade.

A identidade ...  a pequena luz que já me levou a dizer muitos "nãos": 
-mostrar a própria vida na internet: não 
-se expor todo o tempo: não 
-seguir as panelinhas: não
-aceitar propostas baseada em visibilidade e status: não 
-adotar os discursos correntes para pertencer: não
-puxar o saco das pessoas: não 
-acatar tudo sem pensar e refletir: não 
-fazer concessões em matérias simples e fáceis: não 

E, claro, todo não tem um custo.

Segundo os exegetas, o óleo são as boas obras. Por isso, elas mandaram que as Virgens Loucas fossem comprar o seu óleo. Pareceu-me muito oportuno refletir sobre isso, num momento (alguns anos) em que existem tantas pessoas que querem lucrar placidamente e descaradamente em cima dos esforços das obras de outras pessoas. Eu me pergunto se elas não notam mesmo que isso é errado...

Bem, quanto a mim, adotei o "não" das Prudentes e a postura de sonhar com um meio católico em que o trabalho das pessoas é realmente valorizado, que os professores recebam a justa paga de suas aulas, que os escritores recebam a justa paga e em dia, que os coordenadores busquem conhecer o trabalho e o talento das pessoas e as escalem por sua competência em um assunto, que as pessoas não sejam usadas como tapa-buraco ou algo similar. Enfim, que a conduta cristã seja melhor que a do pagão.


Um sonho que vale vários "nãos".

 






            Artista desconhecido, Vitória de Samotrácia ou Nice de Samotrácia, século II a.C, período helenístico (mesma época da ação militar judaica realizada pelos Macabeus no livro bíblico de mesmo nome, estudo disponível aqui)



por aLEXANDRE WESTENBERG

Notas: Ana paula barros


É uma característica notória da filosofia que qualquer tentativa de defini-la levante mais perguntas do que respostas: se isso é verdade para a filosofia de forma mais ampla, talvez seja ainda mais verdadeiro para esse ramo conhecido como estética. Embora em alguns aspectos seja uma disciplina moderna, com raízes na filosofia europeia do século XVIII, não foi um trabalho isolado, mas um resultado de trabalhos realizados em muitos séculos anteriores. Além disso, verificamos a longa tradição do trabalho estético na China e no Japão. Finalmente, embora a estética seja frequentemente tomada como uma área que se preocupa somente com obras de arte, isso está em desacordo com grande parte da estética histórica.

 



Se, portanto, lês, ou estudas, e tens por isto a inteligência e conheceste o que se deve fazer, isto já é princípio do bem, mas ainda não te será suficiente, não és perfeito ainda.


Sobe, pois, na arca do conselho, e medita como poderás realizar aquilo que aprendeste através da leitura e do estudo que deve ser feito. De fato, houve muitos que possuíram a ciência, mas poucos foram aqueles que souberam de que modo era importante saber.

O conselho do homem, porém, sem o auxílio divino, é enfermo e ineficiente. É necessário, pois, levantar-se à oração, e pedir o seu auxílio, sem o qual nenhum bem pode ser feito; isto é, a sua graça, a qual, antes que tivesses chegado até aqui para pedí-la era ela que já te iluminava, e daqui para a frente será quem haverá de dirigir os teus passos para o caminho da paz, e de cuja única boa vontade depende que sejas conduzido ao efeito da boa obra.

Resta agora para ti que te prepares para a boa ação, de tal maneira que aquilo que pedes na oração mereças receber pela obra, se Deus consigo quiser operar. Não serás obrigado, serás ajudado. Se apenas tu operares, nada realizarás; se apenas Deus operar, nada merecerás. Opere Deus para que tu possas; opera tu para que algo mereças. O caminho pelo qual se vai à vida é a boa obra, e aquele que corre por este caminho busca a vida.

Conforta-te e age virilmente. Esta via tem o seu prêmio. E quantas vezes, fatigados pelos seus trabalhos, não somos ilustrados do alto pela graça, saboreando e vendo
"quão suave é o Senhor" (Salmo 33).

Hugo de São Vitor, Dicascalicon, L.V, C.9.





As indulgências sempre foram matéria de muitos debates, má reputação, amor genuíno ou puro desconhecimento. Assim como muitos outros assuntos, é comum que o ensino sobre as indulgências seja fraco ou inexistente. Com isso, perde-se a riqueza profunda das pequenas práticas de piedade e a união que as mesmas possuem com a vida cotidiana. Isso se agrava quando se fala de vida de estudo ou vida intelectual (pelos motivos já apontados nos artigos anteriores).

No entanto, antes disso, caso não entenda o que são as indulgências, poderá estudar aqui. Também oriento que leia as concessões do Manual de Indulgências; muitas podem lhe impressionar pela riqueza e facilidade.


As concessões úteis são:


Concessão 01 - Inspirai Senhor as nossas ações... (indulgência parcial)

Antes de começar a estudar, ler e etc...


Concessão 20 - Ensino e aprendizado da Doutrina Cristã (indulgência parcial)



Considerando que o estudo católico abarca várias áreas do saber, este ponto é bem interessante.

Embora as mentes ainda estejam imbuídas da forma moderna de percepção sobre o ensino, separando religião ou ensino catequético de filosofia, sociologia e educação, o ensino clássico católico considera o primeiro como base dos outros, uma vez que contém a causa e os princípios das coisas.

Talvez uma das maiores dificuldades atuais seja o fato de as pessoas não entenderem que pontos de catequese fazem parte de uma aula católica, seja lá qual for o assunto. Na mente delas, tudo que contém um versículo ou a simples menção ‘Espírito Santo’ é catequético e somente catequético, nada mais que catequético. Não conseguem fazer pontes entre o livro dos Macabeus, o helenismo, a filosofia antiga, os 300 de Esparta, por exemplo. E o professor também se vê refém da caixa social do nivelamento, já que, se ele corajosamente fizer esta ligação em aula, terá entrado no perigoso e proibido território religioso. E até mesmo os que estão dentro do catolicismo e defendem uma cristandade estranhamente não aceitam a cristandade nos assuntos e nas aulas (e, se for uma professora, esta poderá ser acusada de querer ser padre e “ensinar a doutrina”).

Mas a Doutrina Católica é obviamente a base da Educação Clássica Católica, da Filosofia Perene e de qualquer estudo executado catolicamente. Novamente, isto é uma obviedade: se existem falhas no ensino da doutrina, todo o resto ficará sem alicerce (por isso, gastei tanto tempo com catequese, por exemplo, e, claro, me colocaram numa caixa). Logo, ensinar e aprender a Doutrina se torna uma exigência para além da catequese paroquial. Tal coisa já era vivenciada nas Escolas Catequéticas, como a de Alexandria, dos primeiros séculos da Igreja, por exemplo, que foram as antecessoras das Universidades, ou seja, visavam mais que um ensino local e desprendido do restante das áreas de conhecimento. Não era uma caixa, mas um portal.



"A humildade",
diz Hugo de São Vítor,
"é o princípio do aprendizado,
e sobre ela, muita coisa tendo sido escrita,
as três seguintes, de modo especial,
dizem respeito ao estudante:


A primeira é que não tenha como vil
nenhuma ciência e nenhuma escritura...



Tu, porém, meu filho,
aprende de todos de boa vontade
aquilo que desconheces.

Serás mais sábio do que todos,
se quiseres aprender de todos.


Nenhuma ciência, portanto, tenha como vil,
porque toda ciência é boa.

Nenhuma escritura, ou pelo menos,
nenhuma lei desprezes, se estiver à disposição.
Se nada lucrares, também nada terás perdido.

Diz, de fato, o Apóstolo:

"Omnia legentes,
quae bona sunt tenentes" (I Tes 5)


Concessão 25 - Exercícios Espirituais por ao menos 3 dias (indulgência plenária)

Alguns modelos estão disponíveis aqui, podem ser feitos em casa e sem sair completamente do cumprimento dos deveres de estado, embora isso seja encorajado. Nosso Senhor é o "primeiro livro de estudo". 



"O bom estudante deve ser
humilde e manso,
inteiramente alheio aos cuidados do mundo
e às tentações dos prazeres,
e solícito em aprender de boa vontade de todos.


Nunca presuma de sua ciência;
não queira parecer douto, mas sê-lo;
busque os ditos dos sábios,
e procure ardentemente ter sempre
os seus vultos diante dos olhos da mente,
como um espelho"


Concessão 55 - Fazer o Sinal da Cruz (indulgência parcial)

Um ato simples e muito eficaz, no começo e término do trabalho intelectual realizado. Existe uma frase que diz que "o doutor derrota o demônio" pela sua busca pela Verdade. Bem, parece correto usar um estandarte bem à vista para proteger a mente e o coração. Se as pessoas soubessem o empenho que satanás faz para influenciar a mente das pessoas, entenderiam melhor o trabalho dos estudiosos católicos.




"Aquele que diante de uma multidão
de livros não guarda o modo e a
ordem da leitura",


continua Hugo de São Vitor,

"como que andando em círculos no meio
de uma densa floresta, perde-se do reto caminho.
É de pessoas assim que a Sagrada Escritura diz
que estão sempre aprendendo, mas nunca
chegam ao conhecimento da verdade".

Didascalicon V, 5





Algumas práticas foram retiradas do Manual, como beijar a cruz, mas podem ser realizadas por piedade no começo ou durante o trabalho intelectual.

Talvez, com a tríade santa do silêncio, trabalho e contemplação realizada pelos monges católicos em seu trabalho de enriquecimento cultural e intelectual em prol da própria santificação e dos demais, possamos nos salvar das caixas acachapantes modernas e das visões deturpadas sobre o estudo e a piedade.


Para o filósofo cristão
o estudo deve ser uma exortação,

e não uma preocupação;
deve alimentar os bons desejos,
e não secá-los.
Como gostaria de mostrar
àqueles que se puseram ao estudo, por amor da virtude,
e não das letras,
o quanto é importante para eles
que o estudo não lhes seja ocasião de aflição,
mas de deleite.

Quem , de fato, estuda as Escrituras como preocupação
e, por assim dizer,
as estuda para aflição do espírito,
não é filósofo...

É necessário, porém,
e tarefa de grande importância,
prevenir aos eruditos... 
Nosso propósito deverá ser, portanto,
o de subir sempre.
Roguemos, pois, à sabedoria,
para que se digne resplandecer em nossos corações
e iluminar-nos em seus caminhos
para introduzir-nos naquele banquete
puro e sem animalidade".

Didascalicon V,8-9;VI,13


 






Dentre as virtudes agregadas à Virtude Cardeal da Justiça a mais importante depois da Virtude da Religião é a Virtude da Piedade. 


A virtude da piedade é a que tem por objeto honrar e venerar aos pais e a pátria pelo grande benefício de nos terem dado a vida, conjuntamente com tudo o mais que a conserva e completa. 


Estes deveres são especialmente sagrados e obrigatórios. 

Depois dos deveres para com Deus, não existe outros mais sagrados. 


A piedade para com os pais impõem as seguintes obrigações: respeitá-los, obedecer-lhes enquanto se vive debaixo de sua autoridade e socorrê-los em necessidades. 


Já a piedade para com a pátria impõem a obrigação de reverenciar àqueles que a personificam e representam, obedecer às suas leis e sacrificar, se necessário, a vida por ela na guerra justa. 


Vale, caro leitor, fazer uma breve citação da piedade filial demonstrada nos contos de fadas, hoje tão desajustados de seu real objetivo educacional por questões ideológicas. Por exemplo: a Bela (de a Bela e a Fera), aceitou ficar no lugar do pai, ainda que este, dependendo da história abordada, não seja bom moralmente. Ela não foi sequestrada, ela escolheu ficar no lugar do pai por piedade filial. O mesmo fez Mulan, ela foi para a guerra, não para fazer afronta aos homens e tomar o lugar deles, foi por devoção filial, no lugar do pai idoso que não tinha filhos homens para cumprir a devoção para com a pátria. 


A devoção filial é retratada em contos de fadas para mostrar aos pequenos que existe uma regra no mundo, existe um coisa que devemos nos lembrar, mesmo que trilhemos caminhos diferentes dos nossos pais, nós devemos honrar a nossa linhagem que, muitas vezes apesar de seus erros e desvios, são pessoas que disseram um sim à vida e possibilitaram que, numa linha que se perde na história do mundo, nós pudéssemos estar aqui, nós somos o resultado do sim dos nossos pais, dos nossos avós, dos nossos bisavós, dos nossos tataravós e assim sucessivamente até o primeiro de nossa linhagem. A devoção filial nos faz honrar a Vida expressa no sim à vida dado por nossos antepassados, perdidos no curso da história, mas presentes no Plano Perfeito do Senhor.

Sempre me lembro da família do Senhor... 

Vemos mulheres com marcas de atos reprováveis: Tamar, coabitou com o seu próprio sogro Judá e gerou dele dois filhos gêmeos Farés e Zara; Raabe era prostituta em Jericó; Rute era moabita e Bate-Seba, mãe de Salomão, adulterou com Davi. Talvez alguns não citariam pessoas assim de sua família, mas os textos sagrados mantiveram-nas para mostrar o poder da Redenção e da Misericórdia. 

Também vemos homens cuja vida foi marcada pela mentira. Os patriarcas mencionados, Abraão, Isaac e Jacó tiveram momentos de fraqueza na área da mentira. Eles não só se omitiram, mas esconderam a verdade e inverteram os fatos com medo de sofrerem com as consequências de seus atos. Esses atos não foram apagados de suas vidas pois o Senhor é poderoso para usar os instrumentos mais fracos e inúteis, pois isso, inclusive, serve para mostrar o Seu Poder e Misericórdia.


Além disso vemos homens cuja vida há marcas de violência. Davi, tinha as mãos cheias de sangue. Roboão governou Judá com truculência. O rei Acaz queimou seus filhos, perseguiu seu próprio povo e cerrou ao meio o profeta Isaías. Manassés foi muito violento, ele encheu Jerusalém de sangue. Poucos listariam entre seus parentes pessoas que cometeram crimes, não é mesmo? Mas desta linhagem marcada com sangue, saiu Aquele que deu todo o Seu Sangue por nós e que incitou a sermos violentos para entrarmos no Céu. Aprendemos com o Senhor a tornar as marcas históricas que "herdamos" em redenção e purificação para nós e para os outros. 


Outros ainda eram idolatras, ou seja, colocaram as coisas do mundo ou a si mesmos no lugar de Deus. Salomão, por causa de suas muitas mulheres, sucumbiu à idolatria. Roboão, fez um bezerro de ouro e construiu novos templos em Israel para desviar o povo de Deus. Acaz fechou a casa de Deus e encheu Jerusalém de ídolos abomináveis. Manassés foi astrólogo, idólatra e feiticeiro, levantou altares pagãos. Vemos assim exemplos de rebeldia na família do Senhor Jesus, pessoas desobedientes. Mas Ele veio como o Grande Obediente, Aquele que se responsabiliza pelos outros (a obediência não gera irresponsabilidade). 

Agora é a nossa chance de sermos sinais de obediência ao Pai Celestial em nossas famílias. 


Acredito que você tenha entendido a extensão do que desejo lhe dizer. Você pode ser descendente de pessoas ilustres, boas e até santas; mas pode, assim como eu, ter uma linhagem problemática. Talvez existam assassinos, ladrões, corruptos, rebeldes, mentirosos, violentos, viciados em sua família, talvez isso seja uma realidade bem próxima... talvez você tenha medo de replicar isso, talvez já tenha replicado. Mas a virtude da devoção filial nos faz viver melhor a verdade da redenção extensa e profunda, integral, como diz o Papa Bento XVI. Ele também tinha uma linhagem problemática... você já parou para pensar que em Belém a maioria era da família de Davi? Boa parte da cidade era parente de São José, parentes próximos, irmãos de sangue, primos... ninguém o recebeu, ninguém recebeu o primogênito da linhagem de Davi e o Seu Menino, que seria o Rei dos Reis.

Talvez essa seja uma das grandes virtudes desse tempo, uma virtude que incorpora tudo que muitos desejam que já não exista mais.






A devoção filial se desdobra na devoção à pátria, à terra em que nascemos. Cada país tem uma vocação, que é demonstrada pelos seus traços históricos, cada país tem um papel no Plano Perfeito do Senhor, então se você nasceu brasileiro tenha certeza que Deus quis, para o nosso bem, que nascêssemos aqui. Este país é a nossa casa no mundo, a história deste país é também a nossa história, devemos lembrarmo-nos daqueles que por ela lutaram com fé e verdade. Nós temos uma responsabilidade radical de, enobrecendo e convertendo a nossa vida, fazer a nossa parcela no enobrecimento e conversão deste país. Nós nascemos para sermos santos e se nascemos aqui, nascemos para sermos santos brasileiros, para que através da nossa jornada ao Eterno aconteça os passos da santificação de uma nação. Para isso é importante não perdermos de vista a história verdadeira do nosso povo, a vocação católica deste país que é a terra da Vera Cruz. 


No entanto, vale um alerta. Nós podemos fazer uma ligação entre esta Virtude da Piedade e a mensagem de Nossa Senhora de Fátima dizendo que o território da última batalha será a família. Isso se torna cada dia mais visível. Entretanto, Ela não disse que a solução do problema está na família. Devemos tomar muito cuidado para não confundir o terreno da batalha com a solução da batalha. A solução da batalha é a Devoção ao meu Imaculado Coração. Nós podemos tomar medidas para impedir um avanço no terreno da família, mas não é sensato acreditar que restabelecer uma "ideia familiar" seja suficiente. Não será. Simplesmente porque já existem percepções de certa "devoção familiar" em alguns países. Na Ásia a devoção familiar é a única religião de algumas pessoas, nos EUA também, na África também; nem por isso estão isentos dos males diversos presentes nas ações culturais, políticas e espirituais contra a família. Antes estão mais expostos, porque não possuem um alicerce firme. Portanto, lembrem-se, não tomem o terreno como a solução. 




ORAÇÃO À SANTA TERESINHA PARA
ALCANÇAR A PAZ NA FAMÍLIA


Ó Santa Teresinha, anjo tutelar da família cristã, vós que fostes o raio de sol e o sorriso de vossa família, dignai-vos acolher debaixo de vossa proteção, a minha família que ardentemente recomendo à vossa Bondade. Que a paz, o sossego da família alegre também a minha com a reprodução de todo o bem e de todas as virtudes de que a vossa foi verdadeiro santuário. Que o nome de Deus seja adorado e bendito em minha casa; que a sua santa lei e os preceitos de sua Igreja sejam perfeitamente observados por todos e por cada um. Afastai de minha casa o pecado e o espírito de vaidade e de dissipação do mundo. Longe de minha casa seja a irreverência, a desconfiança, o ciúme, a inveja, o ódio, as desgraças, os males todos; só reine sobre nós a abundância do amor, da caridade, mútua compaixão e do bem. Ó milagrosa Santinha, delícia dos vossos pais, santo orgulho de toda a vossa família, pelo amor terníssimo que tivestes aos autores dos vossos dias e a todos os vossos queridos, abençoai a minha família; que o bom exemplo e a virtude desçam do céu sobre aqueles que são obrigados a obedecer, a fim de que se transformem em obediência e respeito para com aqueles que tem a responsabilidade do lar. Que na vossa proteção e na vossa devoção seja esta família uma no amor, no pensamento e na ação, para ser uma na felicidade da terra e na bem-aventurança eterna do céu. Assim seja!.



Consagração do Brasil e oração do voto nacional


Vimos a Vós, ó Coração Sagrado de Jesus, depois de nossa fraquezas e infidelidades; abri-nos os tesouros de Vossa Misericórdia infinita. O Sangue que correu de Vossas Chagas resgatou o mundo; permita que uma gota desse Sangue Divino, por seu poder expiatório, resgate  ainda uma vez este Brasil a que tantas provas de amor tendes dado, e que venha ele a reconhecer seus grandes erros, contando em cada um do seus filhos um verdadeiro cristão.

Esquecei nossas ingratidões, para lembrar-vos unicamente que Vossa Cruz foi o primeiro sinal de civilização e de possa plantado em nossa Pátria. 

Coração adorável de nosso Deus, em nome da nação brasileira Vos imploramos: concedei-lhe Vosso amor, Vossa benção e dignai-vos salvá-la. Amém. 






Todos os dias o mesmo café coado, com a água fervida na mesma chaleira, aquecida no fogo do mesmo fogão, que fica na mesma cozinha, que não recebe a mesma claridade todas as manhãs. Todos os dias o mesmo tênis pisa na mesma rua, faz a caminhada no mesmo trajeto, sob as mesmas árvores, que não estão debaixo do mesmo céu. 

As mesmas coisas se desenrolam numa vida quieta e absolutamente normal. Que grande graça é a normalidade, as tarefas pequenas desempenhadas na quieta passagem do tempo, que como um gentleman passa com um aceno de cabeça e mão na cartola.

O som da quietude é a maior sinfonia do universo, a vida parece um livro que está sendo folheado pelo silêncio da passagem do tempo numa rotina calma e cheia de repetições normais. A louça ao sol, o vento que faz badalar os sinos na cozinha, o sol que descansa no tapete da sala às 13 horas, no guarda roupa do quarto às 15 horas e no quadro da sala às 16:30.

Pequenas mudanças aqui e ali acontecem na casa e na vida, mas tudo numa certa calma. Sentir a vida quieta parece nos colocar numa outra existência, é como mudar a estação de rádio num aparelho analógico, trás um alívio imediato finalmente encontrar algo sem ruídos e frases fragmentadas. 

As respirações se tornam mais profundas, os olhos se enchem de lágrimas sem nenhuma vontade de chorar ou tristeza, é como encontrar um velho amigo que trás conforto e certo sentido. 

A fala da vida quieta é densa, instrui muito em poucos minutos, alimenta a alma de certas forças que não são encontradas em outros locais. Parece uma oração recebida, em que o próprio silêncio intercede por nós.

Existe uma situação mental que ganha o nome, por alguns, de algo como "deslocamento do self". Self é o "consigo". Então seria um deslocamento do "estar consigo". Não é difícil notar este deslocamento: nuvem mental, certa desconexão do corpo, irritabilidade, uma sensação de fraqueza interior. Existem várias orientações sobre essa situação, mas tenho pensado que se assemelha muito à uma escassez da nutrição que a vida quieta trás. 

A vida quieta não é uma vida totalmente silenciosa, antes é a vida que se desenrola num fundo de silêncio. Por exemplo, quando estou com a máquina de lavar ligada, algo no forno da cozinha, um feijão na panela de pressão, o moço da manutenção arrumando o jardim do prédio e eu mesma falando numa aula online, se eu parar um momento encontrarei o silêncio ali, no pano de fundo de todos esses acontecimentos simultâneos. Me parece que é essa percepção - hora maior, hora menor - que constitui o que eu chamo de vida quieta, que me permite de tempos em tempos olhar em volta, ver o Tempo passar com a mão na cartola e não como o Coelho do País das Maravilhas que me faz correr atrás dele sem rumo. Antes, a vida quieta é a vivência da oração de agradecimento realizada no alívio e reconhecimento deste fragmento de eternidade que repousa sobre a criação como bençãos em partículas cintilantes. 


Singelamente, Ana






 Imagem e aparência. Talvez sejam as coisas que mais causam pré-ocupação numa moça. Eu me lembro que a primeira mesada que recebi na vida, o montante exorbitante de 15 reais, serviu para comprar minhas primeiras pecinhas banhadas a ouro e papéis de carta, claro. 


Me lembro também que ao realizar a minha primeira entrevista de emprego (2004), com 15 anos, a responsável pelo RH disse ao me ver: "Graças a Deus, é bonita". Achei interessante o fato de ser essa a minha maior qualidade. 


Eu cresci sabendo o que toda moça aprende: a beleza é uma dádiva e uma arma. Pode te fazer muito bem, pode também te fazer o oposto, pode ser empecilho para verem seus outros talentos. Eu aprendi tudo isso muito cedo. 


Quando olho para trás, não me vejo com problemas de imagem e aparência (que hoje chamam um tanto superficialmente, e por isso já inclinado ao erro, de "beleza"), mas isso não significa que eu não tinha algo para refinar. Claro, eu não sabia disso, descobri após a Total Consagração à Santíssima Virgem (Março, 2015). 


Como lhe contei eu comecei a trabalhar, numa livraria, com 15 anos (sim, o lugar que era preciso também ser bonita). Talvez isso tenha gerado algo benéfico na minha visão de aparência, ler e "ser bonita" eram coisas que existiam juntas na minha vidinha de jovem assalariada. Mas é num ponto muito sutil, visível somente por Aquele que vê os corações, que a Santíssima Virgem me ajudará pela Modéstia.


Eu aprendi muito cedo a disfarçar meu humor e tudo o mais, para não prejudicar o trabalho. Isso foi muito bom, trabalhei nesta mesma empresa por 6 anos, só sai dessa livraria para trabalhar numa clínica como recém formada. Trabalhar me fez ser quem eu sou hoje (além de ler muito os Padres do Deserto). No entanto, eu me habituei a usar os adornos como uma "máscara". Mas me deixe explicar melhor.


Depois de me formar, na minha primeira formação superior, fui trabalhar numa clínica (2009), que assim como a livraria era uma referência nacional no ramo. Em dois anos, me tornei coordenadora da equipe de profissionais. Minhas bases de referência de imagem e aparência sempre foram um tanto francesas, seja aquilo que todo mundo entende por francês, até aquilo que de fato é. De modo que a minha meta, já nesta época, era já um tanto ligada à francesa da vida real, uma aparência natural (que não é a francesa dos tons de vermelho, tá?). Talvez você já saiba, mas o natural que estou a mencionar não significa "nada" mas um "nada feito", um natural cuidado para sê-lo. Acho importante ressaltar esse ponto, já que a nossa cultura tende ao entendimento pelos opostos completos, ou seja, natural é facilmente entendido como desleixo, assim como buscar focar em estudo, ou virtude, ou ambos, é facilmente entendido como renegar a tal "beleza" (que nem mesmo existe como a apresentam). Bem, por falar em cultura, me deixe prosseguir.


Os padrões brasileiros de construir um rosto em cima do rosto, um cabelo em cima do cabelo, um corpo em cima do corpo sempre estiveram em alta, de modo que a minha referência era entendida somente por pessoas com a mesma formação que eu sobre imagem e aparência (e isso acontece até hoje). Ou seja, uma formação bem tradicional que se baseia no sutil, numa delicadeza de cuidados que não salta aos olhos, nada é gritante na aparência dentro desta percepção. Tanto a quantidade quanto a intensidade são extremamente sutis, o que exige mais atenção na vitalidade real do tecido do que em construir esta aparência. Somente a observação deste único ponto já nos coloca diante dos olhos as diferenças impostas pela cultura brasileira: muita quantidade, muita intensidade, é uma exigência ficar evidente o feito para poder mostrar que fez, que passou tal coisa no rosto e etc., se não for assim é como se não existisse. Homens e mulheres possuem está mesma percepção sobre aparência e imagem, vindas da cultura. 


No entanto, é interessante como a Providência torna real anseios bons e os aperfeiçoa. Quando entrei no caminho cristão da Modéstia, quando finalmente conheci o que me havia sido privado e negado, consegui tornar real, por impulso e fim espiritual, a imagem e aparência natural. Foi uma mudança muito sutil, nunca usei coisas muito carregadas, dada as minhas referências. Foi uma mudança na necessidade de ter que montar uma máscara (mesmo que não extremamente carregada) para então viver, ser, estar pronta e etc. Isto era uma bengala de personalidade. Não é muito fácil descobrir isso numa cultura tão alimentada pelo oposto. Eu queria me sentir confiante, inteligente sem a bengala.

Acredito que este foi o processo mais longo, esteve presente desde a primeira etapa relatada no artigo anterior. E ainda está presente, já que a cultura está aí, fazendo os seus vórtices dentro e fora do ciclo católico, num rodopiar sem fim. Sempre tento não me esquecer do que aprendi sobre imagem e aparência. 


É preciso também considerar que não tenho algo que se enquadre nos "ideais" (pois já sei que muitas mentes tendem para isso). Quando fui fazer um trabalho de missão (2017), nada agradável por sinal, no Nordeste (mas que aprendi muito), voltei com um Melasma de meio centímetro, que foi aumentando e espalhando. É muito difícil não querer esconde-lo 100%, é difícil se manter na linha de pensamento que disse que tenho há muitos anos quando a aparência destoa do considerado "ideal" pelas outras pessoas. Mas achei que era uma boa oportunidade de viver o que sempre acreditei. E é isso que estou fazendo até hoje. 


Recentemente (2023), ministrei uma aula num grande canal católico, fiquei feliz, pessoalmente feliz, porque ali estava eu, depois de 14 anos do anseio e 10 anos de refinamento, só eu mesma e o quê Deus fez em mim, sem bengalas de personalidade ou máscaras para então me sentir pronta, bela, confiante, capaz de servir, aceita e etc... Somente com um uso bem melhor para o  "francês natural", dado que tinha um fim eterno. E eu nunca me achei tão bonita, pronta, bela, confiante e capaz de servir. Este processo me ajudou muito na vivência da pura sinceridade. 


Realmente a Santíssima Virgem sabe das coisas e nos instrui naquilo que precisa de remédio. Independente da minha vocação, tenho certeza que eu precisava tomar vivência desta lição. Já que ela me ajudou numa outra etapa, mas essa é outra história. 


Singelamente, Ana






 





A Natureza

É uma virtude anexa à Virtude Cardeal da Justiça. As virtudes anexas são as mais simples de vivênciar, pois se referem a uma área do comportamento. No caso da virtude da religião se refere ao ato de prestar culto a Deus. 

A virtude da religião é assim chamada, porque constitui o vínculo que deve ligar o homem com Deus, como princípio de todo bem, é uma perfeição da vontade, mediante a qual se aprecia e estima, em seu verdadeiro valor, a relação de dependência do homem para com Deus, como primeiro princípio, último fim, Ser infinitamente perfeito e causa primeira de toda perfeição. 

Os atos da virtude da religião são todos os que por sua natureza manifestam e confessam esta dependência. Pode, além disso, a virtude da religião ordenar para este mesmo fim os atos de outras virtudes, e neste caso, podemos dizer, que converte a vida do homem em um ato de culto permanente. Neste caso chamamo-la de santidade, porque santo é o homem cujo a vida se torna um ato de religião. 

A virtude da religião é a mais excelsa das virtudes depois das virtudes teologais (fé, esperança e caridade), pois, entre todas as virtudes morais, cuja finalidade é disciplinar a atividade consciente do homem para lança-lo na conquista de Deus, - conhecido pela fé, prometido pela esperança e amado pela caridade - nenhuma tem objeto mais elevado e próximo do último fim. As outras virtudes regulamentam os atos e deveres do homem para consigo mesmo ou para com as outras criaturas; a religião ensina-lhe as suas obrigações para com Deus, a reconhecer e acatar a sua soberana majestade, a servi-lO e honrá-lO como servido e honrado quer ser Aquele cuja grandeza e perfeição excedem com diferença infinita à de todas as criaturas. 


Primeiro Ato da Virtude da Religião

O primeiro ato da religião é uma ato interior chamado devoção. A devoção é um movimento da vontade, em virtude do qual ela (e quanto dela depende) se acha sempre disposta para empregar-se no serviço de Deus. 

Depois da devoção o primeiro ato que o homem se ocupa é a oração. 




Os atos externos da Virtude da Religião

Todos os atos exteriores destinados a honrar a Deus são atos da virtude da religiosidade. 

São eles, em primeiro lugar, certos movimentos corporais, como inclinação de cabeça, genuflexão, prostração, e em geral, todos os compreendidos na palavra adoração. 

Sua bondade consiste no fato de que, por meio deles, se honra a Deus com o corpo, se tornam assim auxiliares para suscitar os movimentos interiores de adoração.



Podemos oferecer ainda, além do nosso corpo e alma em adoração, coisas exteriores em sacrifício, homenagem e tributo. 

No que se refere ao sacrifício, no sentido de imolação de uma vitima, existe somente uma única forma na Nova Lei: o sacrifício da Missa. Nela sob as espécies sacramentais do pão e do vinho, se oferece a Deus a única vítima agradável aos seus olhos, imolada no sacrifício da Cruz. 

É ainda ato de religião contribuir, conforme permite os bens de cada um, para estabelecer e realçar o culto e sustentar os ministros em seu ministério. 

Tais atos não se realizam somente quando se oferece bens materiais para suprir questões temporais do exercício da Igreja no mundo, mas também quando oferecemos coisas que agradam a Deus. Damos a esses atos o nome de: voto. 

O fiel que fez um voto está obrigado a cumpri-lo, exceto em caso de impossibilidade verdadeira ou dispensa do voto por um padre. 

Os atos externos da virtude da religião também se realizam no manejo dos objetos sagrados e no uso do Santo Nome de Deus. 

Os objetos sagrados são os que, por intermédio da Igreja, receberam de Deus uma benção e consagração especiais, tais como as pessoas consagradas a Deus, os sacramentos, os sacramentais como a água benta, os objetos de piedade e os lugares destinados ao culto. Os objetos sagrados devem ser tratados com piedade. 

O uso do Nome Santo de Deus deve ser usado para honrar a Deus, amando-O como testemunha dos nossos atos e invocando-O para louvá-lO e bendizê-lO.

O ato de chamar o Senhor como testemunha dos nossos atos chama-se: juramento. Tal ato deve ser tomado somente em casos de grande necessidade e ser usado com a mais severo cuidado e temor. 

O ato de invocar o Nome de Deus ou alguma coisa sagrada, para obrigar outrem a executar ou desistir de algum propósito chama-se: adjuração. O uso é lícito quando é feita com o respeito devido ao invocado. 

O Nome de Deus pode ser invocado com frequência, desde que com o devido respeito e veneração, e não como se fosse uma forma de expressão corriqueira e banal. 





Os vícios opostos à Virtude da Religião


Os vícios que se opõem a virtude da religiosidade são de duas classes:

- uns são opostos por excesso e chamam-se superstição

- outros são por defeito e são chamados de irreligião


Entendemos por superstição uma aglomeração de vícios que consiste em dar a Deus um culto indigno Dele ou em dar às criaturas o que só a Deus pertence. O motivo mais frequente deste pecado é o desejo imoderado em conhecer o oculto, o secreto e o futuro que leva os homens a se entregarem às práticas de adivinhação e de observâncias. 

A irreligião abrange dois excessos:

- ver com indiferença ou desdém o que se refere ao culto e serviço de Deus;

- abster-se inteiramente de praticar atos de religião.

Este último se reveste de especial gravidade, visto que supõe desprezo ou esquecimento desdenhoso Daquele a quem todos os homens estão obrigados a servir e honrar. 

Este vício se propaga, atualmente, pelo laicismo.

Entendemos como laicismo o ato de pôr Deus completamente a parte, perseguindo-o e tratando de expulsá-lo de toda a parte, a Ele, Dono e Senhor de tudo quanto existe, ou organizando a vida social, familiar e individual, como se Ele não existisse. 

O grande pecado do laicismo consiste no ódio e fanatismo sectário ou também de uma espécie de entorpecimento e estupidez moral e intelectual que cega sobre tudo o que se refere ao sobrenatural e ao metafisico. 

Temos obrigação de nos opor energicamente contra o laicismo. 

Outros vícios que abrangem o ato de irreligião é o perjúrio (falso juramento), o tentar a Deus, o sacrilégio (profanar lugares, objetos ou pessoas sagradas) e a simonia (compra e venda de coisas espirituais ou cargos eclesiásticos). 

Tentar a Deus é um pecado contra a virtude da religião, pois sem respeito a Majestade Divina, pedem e exigem a intervenção de Deus como que pondo a prova a sua onipotência. Também tentamos a Deus quando confiamos em seu auxilio sem fazer o que podemos e devemos fazer. 

Perjúrio é um pecado contra a virtude da religião pois é apelar com falsidade para o testemunho divino, também é perjúrio o dizer de forma irrefletida o Santo Nome de Deus. 

O sacrilégio (atentar contra lugares, coisas e pessoas sagradas) é atentar contra o próprio Deus, aos sacrílegos se reserva os mais severos castigos, ainda neste mundo. 


Baseado na Suma Teológica em Forma de Catecismo, página 245-246




Eu conheci a virtude da Modéstia há 10 anos. Me lembro que quando escutei e li textos sobre esta virtude fiquei muito feliz, por ser a resposta à uma questão que tinha em mente: "como fica o corpo no caminho espiritual?" Saber que o Senhor nos concede um "virtus" (uma força) para educar, guardar e preservar o corpo, foi a resposta para uma pergunta feita durante três anos, estava esperando a resposta pacientemente e um tanto inertemente. 
Eu sempre fui católica, nascida e criada, mas precisei estudar para entender esta virtude. Estudar e viver, estudar e viver. Revi também todo o Catecismo. A Total Consagração e a Modéstia me tiraram da inércia. 

Não existiam muitos apostolados de internet sobre o assunto, a maioria dos que existiam e entraram pelo mesmo caminho que eu, não existem mais. Mas acredito que isso fora oportuno no meu refinamento, muitas vozes ditas ao mesmo tempo costumam confundir a mente e torná-la preguiçosa no estudo, enfraquecendo a vontade. Então, ao ter que me dedicar sem o apoio de padres, um grupo de iguais ou influências da internet acabei criando alguma fibra interior que, acredito, não seria possível em outra situação. Mas, confesso, um padre encorajador da virtude, abertamente, faz falta e ocupa um lugar que fica vazio na alma durante todo o caminho. 


Deus e eu

O meu primeiro refinamento, logo depois de conhecer a virtude e ainda estudando- a, foi olhar o meu guarda roupa e tirar o que não era compatível. No entanto, veja bem como é a Providência, eu não usava roupas curtas, nem transparência, nem decotes, nem roupas apertadas, enfim, sem um olhar atento eu não conseguiria fazer nenhuma abnegação. Então, restava uma coisa, as calças. Eu nunca tive muitas roupas, então tinha poucas calças, não eram apertadas. Portanto, resolvi que esta seria a minha abnegação. Foi estranho notar que eu fiquei com blusas (eu usava muitas camisas femininas com botões antigos) uma saia (que não era tão boa assim, era uma preta rente ao joelho, poderia ser mais longa, mas era o que tinha). 

Passou algumas semanas e eu encontrei uma loja, eu acho que ela estava fechando ou algo assim, encontrei saias com valores muito baixos e consegui comprar quatro ou cinco, com valor de duas, ou algo assim. Usei estas mesmas saias por três ou quatro anos. Eram boas e longas. Foi a primeira vez que comprei alguma coisa com uma intenção forte no que e em Quem eu acredito. 

No meu primeiro refinamento aprendi um pouco sobre abnegação, a virtude da pobreza, sobre a Providência. Foi também o começo da mudança de comportamento de gestos e tom de voz. 

Meu segundo refinamento aconteceu quatro ou cinco anos depois. Dois anos antes eu já tinha começado a usar o véu. O que me permitiu mais um tanto de refinamento da minha fibra interior, isso me ajudou muito na criação de um ambiente interno independente do exterior (que nem sempre é tranquilo). Neste refinamento, me lembro que foi a primeira vez que pensei na minha personalidade. Eu já tinha notado que muitas coisas que eu tinha não tinham nada comigo, muitas eram ganhadas... eu nunca fui de comprar roupas. Já tinha doado essas peças, mesmo sendo boas, por este motivo. Mas não tinha pensado muito em mim, acho que isso foi muito bom, porque me fez notar como a abnegação nos faz pensar na virtude (agradar a Deus) antes de nós mesmos. Neste segundo refinamento foi a primeira vez que comprei coisas em brechó e consegui ter peças que expressam quem eu sou além do que eu acredito, sem sair da virtude. Foi um refinamento muito tranquilo, baseado somente no que eu já sabia de mim mesma: não gosto de babados, não gosto de muitos detalhes, não gosto de estampa, não gosto de coisas rodadas, não gosto de muitos acessórios, eu gosto de coisas simples, clássicas com uma delicadeza sutil. Tenho estas peças até hoje, algumas passaram pela costureira, mas são boas porque atendem à virtude e depois à minha personalidade. 

Neste refinamento eu aprendi que a virtude vem antes de mim e da minha personalidade. E ao mesmo tempo ela me dá clareza do que eu gosto ou não, independente da minha vocação. Isso também poupa dinheiro e tempo. Neste refinamento eu já estava com a fala e os gestos bem moderados, com alguns retornos esporádicos à minha natureza colérica, mesmo sendo ela uma aliada muito boa quando se tem um objetivo a ser alcançado. 

Meu terceiro refinamento foi exclusivamente interior. É muito interessante como a virtude trabalha o exterior no interior, o interior no exterior. Durante todo este processo, que não acabou, encontrei a expressão "elegância espiritual" usada pelo Monsenhor Idelfonso Villar. Entendi, numa expressão, o caminho que entrei com a Santíssima Virgem. Elegância é a arte de eleger, escolher. A Modéstia me ensina a escolher, usar meu livre arbítrio com uma intenção espiritual, para o meu crescimento espiritual. E no meu caso, colocar em prática a resposta que recebi: desde já cultivar a alma e o corpo numa conduta santa. A alma e o corpo caminhando juntos num caminho espiritual que se plasma no temporal, de certa forma, transfigurando a matéria. Eu me esqueci disso, por algum tempo e reaprendi (ou aprendi, de fato) no meu terceiro refinamento. 

Existem outras coisas que não consigo escrever, no entanto, espero que estas palavras sejam oportunas na sua disposição para o seu refinamento. 

Singelamente, Ana

 


Aparentemente, o ano começou. Os dias se tornaram mais frescos, como uma antecipação do outono. 

O outono é a estação das folhas secas e do vento. Uma estação de recolhimento para uma mudança interna, numa disposição para deixar o vento levar o que já não parece vívido. As árvores ficam lindamente alaranjadas ou sem folhas, as folhas antes verdejantes tornam-se adubo para um novo ciclo, de maior recolhimento. 

Mas ainda é verão. Embora já se possa sentir, pelos acordes que o Senhor rege a criação, as notas de uma nova sinfonia, mais aconchegante, lenta e intimista. 

Quando nos educamos para respeitar e honrar o tempo, passamos a acolher os tempos dos ciclos naturais com sentido católico. 

Segundo o ensinamento das Quatro Têmporas, a estação do verão nos impulsiona a contemplar a força do calor e a regrar em nós o arrebatamento e a falsidade, como se a própria estação se empenhasse conosco a vencer os arrebatamentos que o calor gera através da vivência da virtude da modéstia; acostumando-nos com a luz vibrante do sol, que como a Verdade não admite falsidade. Já o outono, com seu despojamento manifesto nas árvores, nos ensina a acalmar em nós a melancolia, a tristeza e a cobiça. 

O Senhor nos direciona por vários meios. Como um maestro coordena o Universo, no entanto, tem na mão, não uma vara de madeira, mas uma vara de ferro. 

"Tu as quebrarás com vara de ferro" (Salmo 2, 9).

A vara de ferro significa um governo severo. Sempre quando leio os salmos, me impressiono com o que fizeram com o Reinado do Messias. 

Severo significa exigente. 

Num mundo tão instantâneo quanto o nosso, tão ansioso, tão profundamente superficial, é difícil, para alguns, conciliar à Santa Bondade uma Santa Exigência. 

No entanto, este é um atributo do Reinado Messiânico. Uma característica do Príncipe Messiânico. O triunfo do Reino do Messias é justamente estabelecido quando os príncipes da terra que se uniram contra Deus e seu Messias, prestam-lhe vassalagem, com temor e tremor. 

O triunfo do Reinado do Senhor Jesus se manifesta quando se estabelece a Santa Ordem: tudo o que é inferior deve se submeter ao que é superior. 

Isso significa que o Reinado do Messias se fará sobre todo povo e nação. Significa também que estas serão sujeitadas a Ele. 

Tristemente não é essa a catequese que recebemos nas homilias, todos estão preocupados com a opinião dos outros e não com a opinião do Messias que pagou um alto preço e agora vê seus filhos e ministros ordenados se alistarem contra Ele, atentando contra o Seu Poder e Direito de Reinar. 

No entanto, não devemos deixar que essas atitudes, feitas por aqueles que deviam nos proteger, tirem a nossa esperança no Senhor e no Plano para a Sua Igreja, pois "o que habita os céus ri, o Senhor se diverte às Suas custas... confundi-os com o Seu furor" (Salmo 2, 5)

Proteja-se na Verdade do Senhor, no ensinamento puro da Santa Igreja e da Santa Tradição e deixe que os que escolheram solenemente a confusão nela recebam mais confusão.


"Felizes aqueles que n'Ele se abrigam." (Salmo 2, 12)

Quantas pessoas realmente esperam o Senhor? 

Você espera o Senhor?

Tenho pensado muito sobre isso. Os judeus, antes da vinda do Messias, esperavam o Messias. Os judeus que se converteram também esperaram o Messias. Por gerações, trabalharam, foram à sinagoga e esperaram o Messias. Hoje ainda muitos judeus o esperam. Ao menos, eles esperam. 

Não sei se posso dizer com veemência e sinceridade que os cristãos, os católicos, principalmente, esperam o Senhor. Quase não se escuta nenhuma ensino sobre a vinda do Messias. Estamos na Quaresma e quase não escutamos o motivo pelo qual entramos em oração e jejum. O motivo é: o noivo voltará. 

É triste constatar que ninguém parece esperar o Senhor. Os padres fogem de falar sobre a vinda do Senhor, por um único motivo: terão que falar sobre o Juízo. E é claro, isso fere a suscetibilidade das pessoas, então não pode. 

Penso constantemente na frase do Senhor: "quando eu voltar encontrarei fé sobre a terra?" (Lucas 18,8). Que triste, não é? Ele já sabia e por isso ficou tão triste. 

Eu não sei muito bem se podemos ajudar o clero, me parece que eles cavam diariamente a própria cova, se afundando em calar sobre realidade gritante ou em falar doutrinas estranhas. Não sei também se podemos mudar a sociedade, sem catequese ministrada de forma pura é difícil existir uma mudança social. Mas uma coisa me parece sensata: esperar que o Senhor venha. 

É comum escutar que o Senhor já veio, não é tão comum escutar que Ele virá de novo. Existe uma completa descrença na vinda do Senhor entre os que dizem crer, é algo tratado como um mito, como a existência de um pote de ouro no fim do arco íris. 

Que alegria seria se um número maior de pessoas pudesse levantar a cabeça e sorrir ao escutar que o Senhor vêm, Ele realmente vêm. E ter, finalmente, esperança. 


 



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"Pois o preceito é lâmpada, e a instrução é luz, e é caminho de vida a exortação que disciplina" - Provérbios 6, 23

Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)




"Quem ama a disciplina, ama o conhecimento" - Provérbios 12, 1

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