Visão Geral + Comentários dos Doutores da Igreja sobre o Livro de Jó

by - janeiro 11, 2021

Comentário católico do Livro de Jó
Pintura: Livro de Jó, William Black




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I- Introdução


A história se passa numa terra obscura e distante de Israel, chamada Uz. O personagem principal, Jó, não é Israelita. 

Uz é por vezes identificada com o reino de Edom (país dos descendentes de Esaú (edomitas), que era irmão de Jacó (Israel), Esaú trocou a primogenitura por um prato de lentilhas), aproximadamente na área da moderna Jordânia sudoeste e sul de Israel. Conforme indicado em Lamentações 4,21 que diz:. "Regozija-te e alegra-te, ó filha de Edom, que habitas na terra de Uz".

Portanto, Jó não era israelita, era edomita. Segundo Gênesis 36,33 estes são os reis que reinaram em Edom (aparentemente um reinado eletivo): 

- primeiro foi Balaque, filho de Beor, e sua capital chamava-se Denaba,
- depois de Balaque, reinou Jobabe, que depois se chamou Job (Jó),
- depois deste Husam (Asom), que foi chefe da região de Temã; 
- depois dele, Adade filho de Barade, que foi o que derrotou os Midianitas (ou madianitas, descendentes de  Midiã filho de Abrãao e sua segunda esposa Quetura, desposada após a morte de Sara) no campo de Moabe, e sua capital chamava-se Getaim (Gn 36,31-35). 

Assim Jó era  descendendo em quinto grau de Abraão (no ramo de Esaú e não do de Jacó). 

Os amigos que foram  visitar Jó eram: 
- Elifaz de Temã (descendente de Esaú, talvez o mais importante dos visitantes, por, talvez, ser o mais idoso; ele fala primeiro e seus discursos são mais extensos, isso demonstra abertura de autoridade);
- Bildade de Suá, soberano dos saqueus (descendente de Suá, que foi também um dos filhos que Abrãao gerou com Quetura, o filho caçula)
- Zofar de Naamã, rei dos mineus (O Reino de Main ficava no Iêmem (400 a 200 a.c) e depois foi conquistado pelo Reino de Sabá). 


Jó aborda a questão da teodiceia — a justificação da justiça de Deus à luz do sofrimento da humanidade — e é uma rica obra teológica que apresenta diversas perspectivas sobre a questão. O texto tem sido amplamente elogiado por suas qualidades. Alfred Tennyson (laureado poeta inglês) chamou-o de "o maior poema dos tempos antigos e modernos".


E o autor, que é anônimo, não situa a história em nenhum período específico da história antiga. O que parece ser intencional. 


II- Estrutura


O livro de Jó tem uma esquematização literária bem clara. Ele começa e termina com um curto prólogo narrativo e depois com um epílogo. E a parte central do livro é um denso poema hebraico representando conversas entre Jó e seus 4 parceiros de diálogo.

Essas conversas são então concluídas por uma série de discursos poéticos de Deus para Jó. 

1- Primeira Parte


O prólogo nos apresenta Jó. É um homem justo que honra a Deus. E então, de repente, somos levados para o Reino Celestial onde Deus está numa espécie de "reunião". É uma  imagem comum no Antigo Testamento, descrevendo como Deus governa o mundo (Santa Brígida viu várias "reuniões" como essas sobre diversos assuntos).

E entre essas criaturas celestiais está uma figura chamada de "Satan", que em hebraico significa "O  acusador", ou "O promotor". Ou seja, é uma reunião que parece um  espécie de julgamento.

Deus mesmo apresenta Jó como esse homem verdadeiramente justo! E então o acusador desafia  a  política de Deus de recompensar pessoas justas como Jó, ele diz que a única razão que faz com que Jó obedeça a Deus é porque Ele o abençoa de forma próspera. Satan propõe que o Senhor deixe Jó sofrer e então Ele veria que Jó não era tão bom assim. Deus concorda em deixar o Acusador aflingir Jó com sofrimento, com várias ressalvas sobre não lhe atentar contra a vida. Ou seja, Deus mediu a porção do sofrimento.

Esse é o ponto da história em que a maioria de nós se vê inquieto: Deus permitiu o sofrimento, Deus permitiu a dor, a angústia e ainda... permitiu que um justo sofresse. Muitos podem se perguntar "mas como?", "por quê?"; e ao lermos o livro, essa questão não é respondida. Nada no livro responde a essa questão. Passamos por um reajuste que nos leva às verdadeiras questões que o livro intenta responder, que são: sobre a justiça de Deus e a nossa visão sobre os planos da Providência. São essas as questões que o livro responde. 

A principal razão para o sofrimento de Jó simplesmente nunca é revelada. No entanto, ao fazermos a leitura seguindo o ensinamento da Igreja lembramos facilmente das feridas do pecado original (a ignorância, a doença e a morte, a concupiscência) e que após a queda do homem o sofrimento se tornou parte inerente da existência humana. Relembremos o Catecismo da Igreja:

Além da Graça Santificante, Deus concedeu aos nossos primeiros pais outros dons, chamados "preternaturais", quais sejam:

 - a integridade, isto é, a perfeita sujeição dos sentidos à razão; 
- a imunidade a todas as dores e doenças, 
a imortalidade do corpo
- a ciência infusa proporcional ao seu estado.

Quando o pecado entrou no mundo perderam-se os dons preternaturais e em seu lugar surgem as feridas do pecado original: a ignorância, a morte, a concupiscência (os sentidos não são submissos à razão). 

Dessa escravidão - do pecado - veio nos resgatar Nosso Senhor Jesus Cristo que é a Verdade - remédio da ignorância, Vida - que nos resgatou das garras da morte eterna, Caminho - de virtudes que nos afasta da trilha animalesca da escravidão dos sentidos.

Catecismo Essencial, 1987 



Então o prólogo é concluído com um Jó aturdido e em sofrimento, que perde tudo e depois é abordado por 3 amigos que tentarão prover sabedoria e conselho. Eles são todos não-israelenses, como Jó, como já vimos. E eles representam o melhor do pensamento antigo oriental sobre Deus e o sofrimento na condição humana. 


comentário católico ao livro de jó
Pintura: Satan ferindo Jó, William Black




2- Segunda Parte



Todos os debates que se seguem estão focados em 3 questões: "Deus é realmente justo em seu caráter?" e  "Deus realmente governa o universo de acordo com  princípios de justiça?" E se sim, então "como o sofrimento de Jó, que é justo, é explicado?". O raciocínio é  sempre: "se você é sábio, uma boa pessoa e honra a Deus, coisas boas irão acontecer com você. Deus irá recompensá-lo. Mas se você é mal e estúpido e faz coisas pecaminosas, coisas más irão acontecer com você. Deus irá lhe punir."

Lembrando que a definição de Justiça, dentro da Doutrina Católica, é: “a justiça é uma constante e perpétua vontade de dar a cada um o seu direito” (São Tomás de Aquino)

No entanto, a argumentação constante de Jó nos seus discursos é: primeiramente, que ele é inocente, a implicação disso é que seu sofrimento não é uma punição divina. Nós sabemos pelo prólogo, que essas coisas são verdade, Deus mesmo disse que Jó era justo e sem culpa, então, por fim, Jó conclui seu argumento acusando a Deus. Gerando duas possibilidades: ou Deus não governa o mundo de acordo com Sua justiça, ou pior, o próprio Deus é simplesmente injusto!

Os amigos, por outro lado, discordam veementemente. O argumento deles é de que Deus é justo. Deus sempre governa o mundo de acordo com Sua justiça, e dessa maneira, eles concluem não acusando Deus, mas acusando Jó. Jó deve ter feito algo muito, muito ruim para Deus e Ele lhe puniu a falta. 

Jó discorda em absoluto e continua dizendo que é justo, que é capaz de se apresentar diante de Deus e atestar que é justo. E é isso o que ele faz, ele leva o seu sofrimento a Deus. 


Vale lembrar que Jó está em um emaranhado de emoções nesses poemas. Ele costumava pensar que Deus era justo, mas agora ele não consegue conciliar isso com o fato de estar sofrendo. E isso faz com ele, num impulso, acuse Deus, ele diz até mesmo que Deus orquestra toda a injustiça no mundo! Mas no mesmo momento que ele solta esse pensamento, ele fica aterrorizado com isso porque ele quer acreditar e ter esperança de que Deus é verdadeiramente justo. Ele novamente se declara inocente e pede a Deus que se explique. 

Nesse momento surge um amigo surpresa: Elihu, o Buzita. Elihú significa "Meu Deus É Ele". Ele não é israelita, mas tem um nome hebreu, é jovem e tinha se mantido em silêncio por conta de sua pouca idade. E Elihu tem a mesma idéia que os amigos de Jó, ele argumenta que Deus é justo, isso encadeia a idéia de que Deus sempre opera no universo de acordo com Sua justiça, mas a sua conclusão é mais sofisticada sobre a razão das pessoas boas sofrerem. Ele diz que pode não ser pelos pecados que foram cometidos, Deus pode inflingir sofrimento como um aviso para alertar as pessoas a evitarem pecado no futuro ou Deus pode usar a dor e o sofrimento para construir caráter ou para ensinar as pessoas lições valiosas. Elihu não reivindica saber o porque Jó está sofrendo, mas de uma coisa ele está certo: Jó está errado em acusar Deus de ser injusto. Jó nem mesmo responde a Elihu, e o diálogo chega ao fim. A sabedoria dos Anciões parece ter se acabado e o mistério permanece. 


5- Terceira Parte


Deus então responde, Ele aparece em uma tempestade e começa a questionar Jó sobre a forma de governar o universo. 

Primeiro Ele responde a acusação de Jó de que Ele é injusto e incompetente em governar o universo. Ele faz isso como que levando Jó a ver as realidades mais amplas do Universo e começa a fazer várias 
perguntas sobre a ordem e a origem dos cosmos. Estava Jó por perto quando Deus arquitetou a Terra e organizou as constelações? Havia Jó comandado o nascer do sol ou controlado o tempo? Deus tem um olhar atento sobre todos esses detalhes cósmicos que Jó nem sequer podia conceber. E o Senhor ainda continua descrevendo detalhadamente os hábitos de pastar das cabras da montanha ou como o cervo dá a luz, ou o padrão de alimentação dos leões e dos burros selvagens. 

Mas qual é a intenção do Coração Divino ao fazer essas perguntas? Deus quer mostrar que a suposição de Jó e de seus amigos sobre a forma dEle governar o universo carece de uma perspectiva mais ampla de existência. Ele faz isso para desconstruir todas essas suposições ditas nos capítulos anteriores.

Primeiramente, mostra que o universo é um lugar vasto e complexo, e que Deus tem um olhar atento sobre absolutamente tudo -- em cada detalhe. Jó, por outro lado, tem apenas o pequeno horizonte de sua experiência de vida, sua visão de mundo é muito limitada, e o que parece ser injustiça divina do ponto de vista de Jó precisa ser visto em um contexto infinitamente mais amplo. Jó simplesmente não está em uma posição que lhe favoreça fazer tamanhas acusações contra Deus. Após o Seu discurso educativo o Senhor pergunta a Jó se ele gostaria de governar o mundo por um dia de acordo com os princípios de justiça que Jó e seus amigos presumem serem os mais corretos.

Deus quer mostrar a complexidade do universo e também a complexidade de seus desígnios que criou o cosmos. Ele mostra que nós não somos capazes de abarcar as suas motivações. 

O Senhor começa a descrever, curiosamente, duas criaturas fantásticas: Behemoth e Leviathan, que algumas pessoas pensam que são representações poéticas de um hipopótamo e um crocodilo. É provável que elas se refiram a criaturas bem conhecidas da mitologia do antigo oriente e que são usadas em outros lugares da Bíblia como símbolos da desordem e do perigo que existe no bom mundo de Deus. Mas Deus não fala que elas são más, pelo contrário parece estar bem feliz por tê-las criado. Portanto, não são más, mas também não são seguras. O mundo de Deus tem ordem e beleza, mas também é selvagem e algumas vezes perigoso, como essas duas criaturas fantásticas. 

E então nós voltamos a grande questão sobre o sofrimento de Jó. Existe sofrimento no mundo - seja por terremotos ou animais selvagens ou outros humanos - é a herança do pecado original que alterou toda a ordem da criação pelo rebaixamento da cabeça da criação, o homem.

No livro de Jó, Deus nos ensina a perceber que o mundo e nossa natureza não estão mais arquitetado para evitar o sofrimento, mesmo na vida do justo ele acontecerá. E essa é a resposta de Deus. Ele pede a Jó que ele confie em Sua sabedoria e Seu caráter. E então, Jó responde com humildade e arrependimento. Ele pede perdão por acusar Deus e reconhece que falou do que não entendia. 

Mas, de repente, o livro concluí com um curto epílogo.

Primeiro, Deus diz que os amigos estavam errados (exceto Elihu, ele não foi corrigido, provavelmente porque a conclusão dele era mais próxima da verdade), que as suas ideias sobre a justiça de Deus eram apenas simples demais - não eram verdadeiras na profundidade da sabedoria de Deus e de sua ação no mundo.

E, surpreendentemente, Deus diz que Jó falou corretamente sobre Ele! Isso é surpreendente porque não se aplica a tudo o que Jó falou sobre Deus. Nós vimos que Jó tirou conclusões precipitadas e erradas, mas Deus, ainda assim, aprova a luta de Jó, ele foi honestamente diante de Deus com toda sua dor. E Deus diz que esse é o jeito certo de proceder: com luta e da oração.

O livro conclui com Jó tendo sua saúde, sua família, sua riqueza, tudo restaurado - não como uma recompensa por bom comportamento, mas simplesmente como um presente generoso de Deus. E esse é o final do livro. O livro de Jó não resolve o a questão do motivo que coisas ruins acontecem com pessoas boas, o livro nos convida a confiar na sabedoria de Deus em meio aos sofrimento e a desilusão, ao invés de tentar descobrir a razão e os motivos dos acontecimentos. Quando nós procuramos pelas razões, nós tendemos a simplificar Deus - como os amigos - ou ainda como Jó podemos acusar Deus nos baseando somente em nossa visão limitada da realidade. 

Confiar que Deus realmente se importa e que Ele sabe o que está fazendo, tudo visando o nosso resgate das feridas do pecado original, que existem até mesmo nos justos, é sobre isso que o livro fala.


III- Job imago Christi et exemplum virtutis¹


"Job, este homem dotado de tantas virtudes admiráveis, que se conhecia a
si mesmo e a Deus. Mas teria permanecido desconhecido para nós, se não
tivesse sido ferido e posto à prova... Do mesmo modo que um perfume não
se pode cheirar ao longe se não for agitado ou o incenso não espalha o seu
aroma se não for queimado, assim também o perfume da virtude dos santos
só se espalha por meio das tribulações"


(GREGÓRIO MAGNO, Moralia in Job, prefácio).

Durante muitos anos Orígenes não teve seguidores que se afoitassem a comentar o Livro de Job. Temos de esperar pela segunda metade do século IV para podermos ler as homilias sobre Job, de Hilário de Poitiers. 


De fato, a partir dos inícios do século IV, a tendência, que já vinha de trás, para considerar sobretudo as virtudes de Job, propondo-o como modelo de edificação moral, é cada vez mais notada.


Metódio de Olimpo, entre os séculos III e IV, consagrara definitivamente a metáfora atlética aplicada a Job, para expressar a condição humana, mormente sob a experiência da dor, e exortar à sua superação. A mesma metáfora será reutilizada por outros autores, como Dídimo o Cego, de quem temos um comentário ao Livro de Job (restituído pelos papiros de Tura, apenas até ao capítulo 17). Neste, Job é proposto como modelo de coragem, suportação e submissão à vontade de Deus, verdadeiro “atleta”, e exemplo de testemunho prático da ressurreição. Em Dídimo encontramos também já o paralelo Eva-Adão; Diabo-Job (2,9), e a identificação da Serpente de Gn com o Diabo, ideia já consumada no século IV. O Pseudo Ambrósio ou Ambrosiaster (Quaestio 118 de Job) segue a mesma exegese, revisitando Job como modelo dos cristãos nas suas lutas contra a tentação do Diabo (9-10). O ilustre patriarca bíblico personifica todo o género humano enganado pelo Diabo e Eva (Job enganado pelo Diabo por meio da 
sua mulher, 8). Ideia que Agostinho fará sua.


Agora o herói bíblico é reproposto como o homem de fé e virtude a toda a prova. Cirilo de Jerusalém (segunda metade do século IV), na catequese sobre o Credo, recorda Job como o homem sábio que se mantém na fé reta, sem blasfémia: "Os hereges tiveram o desplante de blasfemar contra Deus que nos profetas se mostrou todo-poderoso. Tu, adora um só Deus omnipotente, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Foge do erro... foge de toda a heresia e diz como Job: Rogarei ao Senhor todo-poderoso, que fez coisas grandes e insondáveis, gloriosas e admiráveis, que não têm número" (Jó 5,8-9).


A partir dos finais do século IV e no século v, num tempo em que os cristãos já não são perseguidos, assistimos, por um lado, a esta transferência do adversário real (mundo hostil que persegue) para o adversário simbólico (Diabo, Tentador), ao mesmo tempo que se verifica um processo paralelo de “santificação” de Job (Capadócios). É o que encontramos nos grandes comentários de Ambrósio, Crisóstomo, Agostinho e sobretudo Gregório Magno. Mas já S. Leão Magno, nos seus Sermões se refere frequentemente à figura do Beatus Job, para mostrar que homem algum pode escapar à experiência do pecado e do sofrimento35. E S. João Crisóstomo atesta a existência de lugares de peregrinação a São Job, frequentados pelos cristãos desejosos de “tocar” os lugares em que teria decorrido a história de Job.

Numa série de homilias De interpellatione Job et David, Santo Ambrósio apresenta estes ilustres personagens bíblicos como exemplos da fragilidade humana e pretexto para uma ampla reflexão sobre a condição humana. Segundo o bispo de Milão, a interpellatio dirigida por Job a Deus foi em nome de todos nós (pro nobis), sublinhando a leitura cristológica de Job. Na pregação do célebre bispo milanês reencontramos ainda um tema que também vinha de longe, mas agora ganha nova atualidade: Job figura do homem pio e sábio. Com Santo Agostinho esta ideia assume novos desenvolvimentos.


O bispo de Hipona, que ao Livro de Job apenas dedica umas “annotationes” que nunca quis publicar, assume em toda a sua obra uma especial predileção pela figura e temas de Job. Neste vê o ícone do cristão, imagem do “homem ferido na sua natureza” que confessa a sua condição e pecado diante de Deus. Interessa a Agostinho não o Job secundum historiam, mas enquanto prefiguração do homem do Novo Testamento, e figura do homem confessante (laus, fides, peccatum) ou da própria Igreja (em polémica contra os donatistas que rejeitava os maus dentro da Igreja).


Como Job, Agostinho sabe que ninguém é puro diante de Deus, mesmos os homens justos. Ficam assim já anunciadas, nestas notas agostinianas, algumas temáticas antipelagianas ante litteram: a mortalidade como castigo pelo pecado; que ninguém é puro diante de Deus. Job, embora justo, permanece consciente do próprio status de pecaminosidade intrínseca. Há um pecado natural de conditione mortale.


Agostinho vê também na mulher de Job a “nova Eva”, enquanto Adão é qualificado como Adam in stercore, com uma diferença: Job resistiu à tentação do demónio. 


Há ainda um outro motivo que explica a estima de Agostinho por Job. O doutor da graça vê nesse patriarca bíblico a figura perfeita do homem na sua condição confessante, no sentido mais existencial e teológico que a palavra “confessio” assume no Hiponense... Sabemos que, para Agostinho, a confissão não é um ato exterior, ou uma prática de piedade religiosa, mas a raiz da própria relação do homem com Deus e do homem consigo mesmo, na sua verdade radical.


O homo verus é aquele que confessa, o homem verax que não engana Deus nem os demais. Neste contexto, S. Gregório Magno introduzirá um tema que se tornou popular na espiritualidade inspirada em Job. O motivo das lágrimas, evocado, por exemplo, neste comentário:



"A vida daquele que o Senhor iluminou converte-se em gemido... e choros
pela maldade cometida no passado, e pelo homem que se foi antes, porque já
começa a ver o bem que não fez... e já só deseja a penitência."


A metáfora atlética inspirada em S. Paulo e desenvolvida pela espiritualidade martirial continua agora a ser reutilizada para apresentar Job como modelo do agon christianus que S. Gregório Magno expõe nestes termos:


"Os comentadores de competições desportistas habitualmente descrevem
primeiro as características dos lutadores: compleição física, vigor, boa saúde,
musculatura desenvolvida e firme, abdómen sem o peso da gordura nem a
fraqueza esquelética. Só depois de ter mostrado primeiro quanto capazes são
para a competição, narram os fortes golpes que infligem. Pois bem, como
o nosso atleta ia travar um combate contra o Diabo, o escritor sagrado da
história – como se estivesse diante de um espetáculo da arena – enumera
as virtudes espirituais deste atleta e, descrevendo os membros de sua alma,
disse: era um varão simples e reto que temia a Deus e rejeitava o mal» (I,3,4)".



Mas é a S. Gregório Magno que devemos o contributo mais significativo para a confirmação do livro e figura de Job como referências obrigatórias da teologia e moral cristãs. Os seus 35 extensos livros intitulados Moralia in Job assinalam o culminar da exegese moral patrística, e o consumar do processo de moralização da figura de Job. O grande objetivo dos Moralia (primeiro grande manual de teologia moral e ascética) é, de facto, a edificação mediante a leitura moral do texto bíblico, abrindo caminho para a exegese medieval. 


Quando S. Gregório, a pedido do bispo Leandro de Sevilha, se dispôs a comentar o Livro de Job, começa por recordar que antes dele ninguém tinha comentado esse difícil livro bíblico: "Quando me coloquei perante este livro obscuro, nunca comentado antes, deparei-me com tantas e tais dificuldades que, vencido pelo peso da petição, me julguei, confesso-o, sucumbir pelo abatimento."


Com Gregório Magno ficou superada definitivamente a relutância que se notava até então face ao texto de Job da parte dos comentadores. Retomando a metodologia origenista, Gregório interpreta o Livro de 
Job a três níveis: literal, alegórico e moral, isto é: a história de Job; Job figura de Cristo cabeça da Igreja (leitura eclesiológica); Job como exemplum de virtude, a nível individual ou moral, onde se recolhem orientações para a vida de cada cristão. Lê-se Job para contemplar Cristo, para melhorar a vida e assim edificar a Igreja.


Falar de Job é tratar do homem na sua flagrante fragilidade: "O homem que se desfaz como a madeira podrida, como vestido carcomido pela traça" (Job 13,28). Palavras que Gregório Magno comenta assim: "Que é o homem senão uma folha caída da árvore do paraíso? Que é ele senão uma folha levada pelo vento da tentação e sacudida pela corrente dos seus desejos?". Job é, pois, a figura do Homem, na sua condição de filho de Adão que sabe que “ninguém é justo diante de Deus”.


Contra o maniqueísmo e pessimismo reinantes, Gregório apoia-se nas palavras de Job para afirmar  inequivocamente a bondade da criação, incluída a carne humana. Para além de retomar o lugar-comum que via em Job o profeta da ressurreição da carne, ao comentar a expressão “tuas mãos me formaram e me fizeram por completo”, conclui:

"Com estas palavras fica destruída a perversa opinião de Mani que defendendo erradamente que há dois princípios, pretende afirmar que o espírito foi criado por Deus e a carne por Satanás. O santo varão, cheio da graça do espírito profético,... elimina tais erros, dizendo: Tuas mãos me formaram e me fizeram por completo". 

É verdade que o sofrimento existe, mas Deus permite que o homem inocente sofra os flagella Dei porque estes se podem tornar, para o homem justo, um percurso de santidade.


Segundo uma consistente tradição interpretativa, o pecado de Adão foi uma “falta de paciência” (IRENEU, TERTULIANO...). Neste contexto, Job aparece como o antídoto de Adão e Eva desobedientes e impacientes. "Só a paciência – pregam os pastores patrísticos – pode salvar, só ela pode realizar o que buscamos; é por ela que restabelecemos a retidão de alma e dos pensamentos. Ela é a chave para o reino do céu."


Referências


¹Isidro Pereira Lamellas (da Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Portugal), O Homem que falou bem de Deus. Revista Didaskalia XLV (2015) II, pg.151-177. Foi mantido o português usado na publicação.





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