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A tessitura discursiva de Gilmore Girls relaciona-se com o chamado ethos cômico presente em uma das personagens, Lorelai. É um recurso narrativo, por vezes cansativo, com ironia, ridículo e hipérbole. Esse recurso narrativo se tornou a marca da série e da forma de comunicação dos anos 90: com frases rápidas, ágeis, em fluxo de pensamento, tanto quando escritas como quando faladas.

O humor na série tem função catártica por transmutar as diversas tensões familiares e sociais em comicidade. É um mecanismo também muito frequente para esconder ou fugir, o que torna a série um prato cheio para análises psicológicas das características de cada geração. Lorelai aproxima-se da figura clássica do eirón, o ironista que, ao censurar e desmascarar os excessos, torna-se um espelho crítico da sociedade ou de si mesma. Ironia e hipérbole são os recursos da geração dos anos 90, em geral.

Os diálogos acelerados, a ponto de causar dor de cabeça, são saturados de pressuposições e alusões intertextuais. Lorelai, que rejeita o conservadorismo dos pais, vê Rory buscar reinserção nesse universo, num movimento de retorno que reflete o ciclo de ruptura e retorno característico das dinâmicas geracionais. A geração mais nova sempre está pronta a fazer o oposto da geração dos pais, porque cresce vendo os pontos positivos e negativos. Como o negativo sempre tem maior força, infelizmente ou felizmente, a geração mais nova busca fazer o contrário.

As referências culturais da época ajudam a entender, de forma mais ampla, o cenário dos anos 90 retratado na série. No campo musical, Sonic Youth aponta para o desencanto urbano e a fragmentação da experiência moderna, enquanto The Bangles parecem querer resgatar o espírito lúdico e efervescente dos anos 80 e 90. Também existe a presença do rock alternativo, com sua recusa ao mainstream, e do folk, que sempre está ligado à busca de si e à contestação. Um cenário musical muito característico da época.

Já no âmbito cinematográfico, alusões a Pulp Fiction mostram a percepção fragmentada e pós-moderna dos anos 90, enquanto The Godfather funciona quase como uma metáfora das tensões de poder e tradição. The Breakfast Club traz a ideia da juventude em crise e a contestação das normas sociais.

Essas alusões não são acidentais, são parte constitutiva do roteiro e, se vistas com atenção, dizem muito sobre a qualidade do trabalho de roteiro da série, já que é uma chuva de menções culturais em meio ao caos que vai se instalando na história dos personagens. Assim, é justo que, ao revisitar a série, jovens contemporâneos encontrem uma narrativa sobre relações familiares, mas também um retrato de uma geração que viveu a cultura pop como uma linguagem comum, um meio com uma riqueza tão grande de referências combinadas que só hoje podemos olhar e ficar assombrados.


O que me leva ao ponto que chama muito a atenção na série: o patrimônio cultural.



A primeira lição é que o patrimônio cultural de uma pessoa não impede que ela faça burrada. Nas primeiras temporadas de Gilmore Girls, os livros citados surgem como elementos estruturantes da identidade de Rory e como recurso para a formação intelectual. Obras clássicas e contemporâneas aparecem em suas mãos ou são mencionadas nos diálogos, instaurando uma atmosfera em que a leitura é valorizada como prática cotidiana, o que tornou a série interessante, já que os livros criavam um roteiro paralelo ao roteiro principal. Esse recurso narrativo funcionava como estímulo cultural, encorajando jovens espectadores a reconhecer na literatura um espaço de pertencimento e de construção crítica. Esse elemento é o que torna Rory interessante.

Com o avançar das temporadas, entretanto, esse repertório literário vai rareando ou tomando um papel coadjuvante. À medida que os enredos se concentram nos caminhos românticos das personagens, os livros cedem espaço, diminuindo a densidade que conferiam à narrativa. Essa mudança é uma perda significativa para o espectador, pois reduziu o potencial de incentivo à leitura que a série havia instaurado em seus primeiros anos. Interessantemente, isso acontece quando a própria Rory fica desinteressante, um tanto perdida, e o brilho da personagem vai sumindo de uma forma estranha de assistir.

A sensação, infelizmente, é de alguém que poderia ser tudo e não foi. Já que o ter, ela tinha. Essa percepção de decadência é uma repetição, que deveria ser ainda mais brutal se o roteiro permanecesse com a roteirista original, da suposta decadência da mãe de Rory. Essa decadência está ligada às expectativas da própria pessoa e dos pais.

Voltando aos livros. Esse apagamento de sua presença coincide com a crescente presença dos dispositivos digitais. Celulares, computadores e outros aparatos tornam-se mais visíveis, mostrando de forma muito interessante (e certamente sem ser o objetivo principal) a transição cultural dos anos 2000, em que a leitura tradicional perde protagonismo diante da mediação tecnológica. É realmente interessante ver o uso de diferentes dispositivos à medida que são lançados pela série, desde Walkman até MP3 e YouTube. A série virou uma espécie de acervo, um curioso acervo.





Rory, como vimos, é apresentada como uma leitora voraz, alguém que encontra na literatura tanto refúgio quanto legitimidade social, e que constrói sua personalidade a partir desse gosto genuíno pela leitura.

Na primeira temporada, essa identidade é delineada por títulos como Na Estrada (On the Road) de Jack Kerouac, A Redoma de Vidro (The Bell Jar) de Sylvia Plath, Madame Bovary de Gustave Flaubert, O Sol é para Todos (To Kill a Mockingbird) de Harper Lee e Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice) de Jane Austen. A curadoria inicial mostra uma leitora de clássicos da literatura universal e obras que tematizam identidade, liberdade e dilemas existenciais. Esse repertório inicial estabelece Rory como personagem que busca algo de si em narrativas literárias.

A segunda temporada mostra Rory ainda na literatura clássica, como As Aventuras de Huckleberry Finn (Huckleberry Finn) de Mark Twain e poemas de Yeats, e obras contemporâneas, como A Sujeira (The Dirt) e Segredos da Carne (Secrets of the Flesh). Essa oscilação coincide com a própria Rory, que começa a oscilar entre tradição e modernidade.

Na terceira temporada, há uma mistura entre cânone literário — Faulkner, Fitzgerald, Yeats — e literatura juvenil, como Deenie de Judy Blume. Essa combinação reforça Rory como leitora de amplitude cultural, mas também espelha sua própria fase de transição entre adolescência e vida adulta, ou ainda sua involução, já que a Rory mais nova passa a ser mais madura que a Rory mais velha, a partir dessa temporada.

A quarta temporada marca uma virada: Rory já está na universidade e as referências literárias se tornam mais densas e acadêmicas. Predominam clássicos do século XIX, como Tolstói, Flaubert e Hawthorne, e autores modernistas como Plath, Eliot e Cheever. Essa seleção consolida a imagem de uma leitora sofisticada, porém instável. Aqui começam os primeiros sinais do intelectual instável que tem em si mesmo o seu maior inimigo.

Na quinta temporada, o repertório filosófico e político se intensifica, com obras de Orwell, Tolstói, Dostoiévski e Woolf. Há uma clara ênfase em textos que discutem poder, sociedade e identidade (novamente), refletindo a fase universitária de Rory e sua inserção em debates mais densos. Ou seja, sua progressiva instabilidade nela mesma. É nessa temporada que começamos a não encontrar mais a Rory que fez a série. Claro que isso também tem relação com as questões administrativas do roteirista e diretor, o casal Paladino. Mas, em resumo, nessa temporada temos uma Rory perdida, um pouco estúpida, que perdeu, como diria o Chapeleiro Maluco, “sua muiteza”.

A sexta temporada marca a entrada de obras contemporâneas e pós-modernas, como McEwan, Lahiri, Hosseini e Sebold, refletindo o contexto cultural da época. Rory é a personagem que condensa essa mudança, sinalizando também uma transição da série para um repertório mais próximo das inquietações contemporâneas. Ou seja, instável, aloprada, meio idiota tentando dar certo, tudo isso com boas notas e uma cabeça de gênio sabotado por si e pelo meio.

Por fim, a sétima temporada (já com outro roteirista) retoma o cânone clássico e filosófico, com obras de Dostoiévski, Camus, Kafka, Steinbeck e Dante. Numa tentativa de salvar Rory dela mesma. Essa seleção final reforça o caráter erudito, mesmo em meio ao declínio das menções literárias, também numa tentativa tardia de reconectar a narrativa ao repertório intelectual que a consagrou.

Esse percurso literário abre espaço para uma questão crítica e para a segunda lição: é difícil determinar se Rory foi moldada pelos livros que leu e, por isso, caminhou para sua derrocada; ou se ela leu porque estava extremamente confusa e buscava na literatura respostas para suas inquietações; ou ainda se a série é, ao que parece, um retrato final das atitudes das pessoas da idade dela nos anos 90, incluindo sua personalidade e seus erros.

Talvez sejam todas as alternativas anteriores. Mas a terceira nos interessa, já que quem tem meados de 40 anos sabe que foi justamente assim: mentes brilhantes em derrocada e salve-se quem puder. Rory condensa essa sensação de sucesso e derrocada dessa geração. Formada em Yale, jornalista em um jornal americano e em um jornal inglês, ela é bem-sucedida, mas por algum motivo não é suficiente ou não é isso. Ela então se torna repórter da cidade em que nasceu. Essa questão não é um problema, não está aí a derrocada. A questão é que, no roteiro original dos Paladino, apesar de ter feito um caminho completamente diferente da mãe, ter cumprido todo o protocolo, Rory termina por replicar a mãe. É curioso notar como a autossabotagem é quase um personagem com vida própria na série e esta aqui o que nomeio como "derrocada".





¹Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)


A moda, historicamente percebida como um campo voltado à estética (percepção pelos sentidos) e ao consumo, assume, na contemporaneidade, um papel de construção identitária e expressão psicossocial. Como fenômeno cultural, ela ultrapassa o vestuário e insere-se nas dinâmicas de poder, nas relações interpessoais e nos processos de individualidade. A moda opera como mecanismo de distinção social, ao mesmo tempo em que promove certa homogeneização do comportamento.

Neste contexto, produções audiovisuais como O Diabo Veste Prada (2006), o drama sul-coreano Agora Terminamos (2022) e a série Celebrity (2023) apresentam narrativas que exploram a moda como linguagem simbólica, não verbal, mediadora de conflitos internos, estratégia de ascensão social e reconstrução emocional e biográfica.

A psicologia social contribui significativamente para esse debate, oferecendo subsídios teóricos para a análise dos processos de influência, representação e identidade. O conceito de enclothed cognition, desenvolvido por Adam e Galinsky (2012), sugere que as roupas que vestimos afetam não apenas a forma como os outros nos percebem, mas também a maneira como nos percebemos. Aliada à sociologia da moda e aos estudos culturais, essa abordagem permite compreender o papel da moda como artifício do sujeito, que vê nessa dinâmica a oportunidade de finalmente se alocar no mundo, funcionando como instrumento de autoconstrução. Vestir-se é um ato social que envolve negociações entre o corpo, o contexto e os códigos culturais vigentes. Esse ato pode, no entanto, desenrolar-se em uma conjuntura de banalização ou em vigências altamente falseadoras, o que compromete a veracidade da expressão.




A moda moderna é marcada pela efemeridade e pela individualização, funcionando como espelho das transformações sociais e individuais. Nesse sentido, a moda é usada para performar identidades, negociar pertencimento e exercer formas de resistência ou conformidade. Basta observar que, ao aderir a determinado conceito atrelado a um grupo, uma das primeiras atitudes tomadas é mudar as roupas, o que, dentro do terreno moral, muitas vezes é benéfico para a pessoa e para o mundo. No entanto, quando ocorre alguma ruptura com o grupo, a primeira coisa a ser desfeita são os pactos da linguagem não verbal manifestada pelas roupas; ou seja, a pessoa muda a forma de se vestir, o que também, em alguns casos, é um favor que faz a si mesma e ao mundo.

Isso posto, vale salientar que a moda opera como mecanismo não verbal de conformidade social, capaz de reforçar normas e expectativas coletivas. A escolha de determinadas peças, marcas ou estilos pode indicar o desejo de integração a um grupo ou a busca por distinção. Possuir uma marca é visto, nesse prisma, como possuir um lugar no mundo.

Devemos reconhecer o papel que a moda tem na mediação entre o indivíduo e o coletivo, entre o interno e o externo, entre o desejo e a norma. Vivemos entre muitas normas, inclusive mais vigentes que as religiosas, e diante delas existe um número enorme de pessoas que se curva sem reflexão. O mundo em que vivemos é cheio de normas não verbais.

A discussão sobre moda como linguagem psicossocial ganha amplitude e profundidade quando confrontada com a perspectiva da modéstia enquanto virtude, conforme apresentada no livro Modéstia: O Caminho da Beleza e da Santa Ordem (2018). No ensaio, é proposta uma abordagem em que o vestuário é visto como reflexo de valores éticos, espirituais e sociais. A modéstia no vestir é uma postura interior de respeito, equilíbrio e ordenação da beleza.


“A modéstia é a virtude que regula os atos exteriores conforme a dignidade da pessoa humana e a ordem natural das coisas” (Barros, 2018, p. 45).


Ao vestir-se com modéstia, o indivíduo comunica valores pessoais e participa de uma ética coletiva que valoriza a dignidade e a harmonia social. 







Análise fílmica e seriada: representações psicossociais da moda


A moda, enquanto linguagem simbólica e psicossocial, desempenha papel central nas narrativas de O Diabo Veste Prada (2006), Agora Terminamos (2022) e Celebrity (2023). Em cada obra, o vestuário torna-se expressão de conflitos internos e dinâmicas sociais.

Em O Diabo Veste Prada, a trajetória de Andrea Sachs, interpretada por Anne Hathaway, funciona como metáfora da jornada do herói. Inicialmente alheia ao universo da moda, Andrea ingressa na revista Runway como assistente da poderosa editora Miranda Priestly. A transformação da personagem acompanha sua evolução psicológica e social, mostrando fases de desequilíbrio, adaptação e ruptura.

O figurino sofisticado representa status e pertencimento, mas também guarda ligação com alienação e perda de autenticidade. Andrea enfrenta dilemas éticos ao se adaptar ao ambiente competitivo, questionando seus valores e identidade, até esquecê-los. Ao final, rompe com o sistema que a aprisionava e reorganiza sua relação com a moda. Há certa libertação na ligação e desligamento parcial da personagem com esse universo, e também um aprendizado durante o percurso, ainda que abandonado pela própria protagonista.

Já o drama sul-coreano Agora Terminamos acompanha Ha Young Eun, designer de moda que vivencia rupturas afetivas e profissionais. A aparência dos personagens reflete estados emocionais e processos de reconstrução, como é característico dos dramas asiáticos. O figurino de Young Eun transita entre sobriedade e sofisticação, mostrando dor, resiliência e renascimento. As mudanças no vestuário acompanham os ciclos de aproximação e afastamento entre os protagonistas, numa psicodinâmica dos vínculos. A série também evidencia os tipos de interação no meio da moda, incluindo certo afastamento emocional imposto como forma de proteção.

Por outro lado, Celebrity (2023) aborda criticamente o universo das influenciadoras digitais, expondo os mecanismos de validação social, narcisismo e ansiedade atrelados à imagem e à aparência, agora duplicados em uma presença virtual. A narrativa, perturbadora em alguns momentos, mostra com ironia o lado obscuro da humanidade por trás de máscaras lindamente apresentadas em público. O vestuário é utilizado como construção de persona, reforçando status e visibilidade nas redes. A protagonista Seo Ah Ri visita os bastidores tóxicos da indústria da imagem, inicialmente incrédula de que tal realidade existisse, e acaba por descobrir seu funcionamento. Há também uma análise interessante nas entrecenas sobre a distinção entre ricos e novos ricos.

A obsessão por aparência e aprovação digital é retratada de forma explícita como fonte de sofrimento psíquico, alienação e perda de autenticidade. A moda é apresentada como instrumento de sobrevivência social, no sentido mais brutal e artificial possível. A série tensiona os limites entre realidade e espetáculo, mostrando os impactos da cultura da influência sobre a vida contemporânea. Em alguns momentos, lembra temas da peça O Veneno do Teatro, que aborda o efeito da interpretação e da artificialidade no ato do ator. Desde a primeira cena, entre um ator e um aristocrata, já se aponta o impacto da aparência sobre a percepção. Na montagem recente protagonizada por Osmar Prado e Maurício Machado, o aristocrata é inicialmente confundido com um copeiro, e o desrespeito do ator diante dessa imagem mostra como somos influenciados pelo que vemos. A peça condensa, de forma exemplar, nossa incapacidade de enxergar além das aparências e dos códigos de status.




Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025). 


Uma Leitura Estética do Curta Blossom, de Isabelle Drummond por professora Ana Paula Barros



 Uma Leitura Estética do Curta Blossom, de Isabelle Drummond

Professora Ana Paula Barros¹


Resumo


O curta-metragem Blossom, protagonizado por Isabelle Drummond e marcado pela presença da maison Dior no figurino e na caracterização, propõe uma reflexão poética sobre o tempo, a sofisticação e a dualidade entre o antigo e o novo. Marca também a atuação de Isabelle como produtora executiva, consolidando sua atuação em várias frentes da criação audiovisual. Este artigo analisa a obra à luz da história do cinema, com especial atenção à estética do preto e branco — isto é, à apreensão sensorial dessa linguagem — explorando como tal escolha comunica sensações de introspecção e elegância em um mundo marcado pela velocidade e pelo deslocamento, que frequentemente resulta em um afastamento de si. A narrativa de Blossom pode ser interpretada como uma ode ao resgate da lentidão, ao ato de parar e olhar, e à redescoberta de elementos antigos que podem conversar com a contemporaneidade. O curta constrói uma ponte entre o clássico e o moderno e aponta que a sofisticação também está na forma que escolhemos ou podemos viver e perceber o tempo.

Palavras-chave: cinema; preto e branco; lentidão; sofisticação; Blossom; Isabelle Drummond.




1. Introdução

O cinema surgiu oficialmente em 28 de dezembro de 1895, quando os irmãos Louis e Auguste Lumière apresentaram ao público o cinematógrafo — uma invenção que captava, revelava e projetava imagens em movimento. A primeira exibição, realizada no Grand Café em Paris, marcou o início da sétima arte e foi composta por curtas em preto e branco, como L'Arrivée d'un Train à La Ciotat, cujo realismo provocou reações intensas na plateia. O preto e branco, inicialmente uma limitação técnica, tornou-se uma linguagem estética que valorizava o contraste entre luz e sombra, a composição visual e a expressividade silenciosa.

O cinema mudo, predominante entre o final do século XIX e o final da década de 1920, foi uma fase de intensa experimentação artística. A ausência de som não era vista como limitação, mas como oportunidade para explorar ao máximo os recursos visuais e narrativos. A linguagem corporal dos atores, os enquadramentos, a iluminação e a montagem tornaram-se ferramentas essenciais para a construção de sentido. Obras como O Encouraçado Potemkin (1925), Nosferatu (1922) e O Gabinete do Dr. Caligari (1920) demonstram como o silêncio podia ser eloquente. Mesmo após o advento do som, muitos cineastas continuaram a utilizar o estilo mudo, valorizando a pureza da imagem e a intensidade emocional que ela pode transmitir. O legado do cinema mudo permanece vivo, influenciando produções contemporâneas que optam por uma narrativa mais visual e contemplativa.

A introdução do som, com The Jazz Singer (1927), e da cor, com Becky Sharp (1935), revolucionaram a experiência cinematográfica, mas não eliminaram o uso do preto e branco. Ao contrário, essa estética passou a ser uma escolha artística, associada à introspecção, à sofisticação e à concentração emocional do espectador.

No Japão, o cinema também desenvolveu formas narrativas singulares, como os benshi — narradores que acompanhavam as projeções mudas, explicando e dramatizando a história ao vivo. Essa tradição de mediação oral e sensibilidade estética pode ser vista em obras contemporâneas como Dias Calmos e Tranquilos ao Seu Lado, que resgatam o ritmo pausado do cinema antigo.

Este artigo busca compreender como Blossom articula esses elementos para construir uma linguagem atemporal, em diálogo com a história do cinema e com a sensibilidade contemporânea.




2. O curta Blossom: enredo e estética

O curta-metragem Blossom apresenta uma narrativa, roteirizada por Anna Lee, centrada em uma personagem que passa, aparentemente, pela pressa, pelo olhar rápido e desatento, e por um luto — de si e do outro — e que, depois, retorna a si, desacelera e redescobre o mundo ao seu redor. É um roteiro que, assim como alguns mitos gregos, traz notas da ideia de ressurreição, neste caso, uma ressurreição existencial. A trama se constrói por meio de gestos sutis, silêncio e atmosferas reflexiva e intimista. O silêncio, unido à trilha sonora, exige atenção para acompanhar a narrativa; somos levados a colocar um olhar atento, buscar interpretar, dar nome às cenas durante a descoberta da história — atitudes que não somos mais levados a fazer no cotidiano, em que as informações são praticamente esfregadas na nossa cara ou se apresentam determinadas a ser engolidas, por bem ou forçosamente. Neste cenário, o curta é um refrigério para os sentidos.

A escolha estética do preto e branco desempenha papel fundamental na construção da linguagem visual do filme. Essa opção reforça a introspecção da protagonista e comunica uma sofisticação atemporal, alinhando-se à identidade da Dior, cuja presença na obra permite traçar paralelos com a história da maison. A irmã de Christian Dior, Catherine Dior, passou por momentos horríveis durante a Segunda Guerra Mundial: foi presa pela Gestapo (por pertencer a rede de inteligência franco-polonesa F2, financiada pelos britânicos), torturada e deportada para campos de concentração, sobrevivendo a Ravensbrück e outros locais até ser libertada em 1945. Após a guerra, dedicou-se à floricultura — tema presente no curta de Isabelle. Ela também inspirou o vestido bordado com mil flores e foi presidente honorária do Museu Dior. Todos esses pontos — desligamento de si, sofrimento, flores, arte, novas flores — estão presentes no curta. 

A ausência de cores permite que o espectador concentre-se nos contrastes, nas texturas e na composição dos planos, valorizando a luz e a sombra. Essa estética remete ao cinema antigo e ao cinema de autor.

O cinema de autor caracteriza-se pela presença marcante da visão artística e pessoal do cineasta, que assume o controle criativo sobre os diversos aspectos da obra, do roteiro à linguagem visual. Diferentemente das produções comerciais voltadas ao entretenimento de massa, o cinema de autor valoriza a expressão pessoal, a experimentação narrativa e a construção de atmosferas singulares. Nesse contexto, o diretor é visto como um 'autor' no sentido literário, imprimindo sua assinatura estilística e temática ao filme. A abordagem frequentemente privilegia o silêncio, o tempo dilatado, os conflitos internos e a linguagem simbólica, criando obras que convidam à reflexão e ao envolvimento sensorial. Essa vertente é especialmente relevante na análise de curtas como Blossom, já que o liga às características do cinema francês sem deixar de ser brasileiro.

O cinema francês é reconhecido mundialmente por sua abordagem estética refinada, narrativa introspectiva e valorização da autoria. Desde os primórdios com os irmãos Lumière até movimentos como a Nouvelle Vague, o cinema francês privilegia o realismo poético, os conflitos existenciais e a experimentação formal. Diferente do cinema americano, que se apoia em fórmulas de sucesso voltadas ao entretenimento de massa — como blockbusters, narrativas lineares e efeitos visuais espetaculares — o francês busca provocar reflexão e sensibilidade. Já o cinema asiático, especialmente o japonês, coreano e chinês, destaca-se pela forte presença cultural e linguagem visual singular, com narrativas que também exploram o silêncio, o tempo e o simbolismo dentro da identidade comunitária. Em contraste, o cinema brasileiro tem raízes no realismo social e na crítica política, como visto no Cinema Novo, mas também enfrenta desafios de financiamento e distribuição. Embora compartilhe com o francês o interesse por temas humanos e sociais, o cinema brasileiro ainda busca maior reconhecimento internacional e equilíbrio entre produções autorais e comerciais. Cada tradição cinematográfica oferece um olhar único sobre o mundo — e o curta Blossom oferece uma junção refinada e delicada de duas formas de atuação nas produções culturais.





¹Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)

 


O uso do macabro na arte — A Família Addams 

Profª Ana Paula Barros






1. INTRODUÇÃO


A palavra macabro tem origem no francês macabre, amplamente disseminado a partir da expressão danse macabre (“dança da morte”), recorrente nas manifestações artísticas europeias da Idade Média, especialmente em murais, gravuras e textos religiosos que ilustravam a morte conduzindo personagens de distintas classes sociais rumo ao túmulo. Alguns autores associam essa expressão ao latim medieval chorea Machabaeorum (“dança dos Macabeus”), em referência aos mártires hebreus descritos no livro bíblico Macabeus (saiba mais aqui), cujos sofrimentos teriam sido convertidos em alegorias visuais de dor e enlevo. Neste contexto o macabro é usado como representação. Com o passar dos séculos, o termo passou a designar representações que evocam o sombrio, o grotesco, o inquietante e a morte, consolidando-se como elemento característico da literatura gótica, do cinema de horror e das artes visuais voltadas à linguagem visual do desconforto.


Dança da Morte, c.1499 (detalhe) · Bernt Notke
Art Museum of Estonia, Tallinn, Estonia





"A Dança da Morte" (gravura de Micheal Wolgemut, xilogravura em Crônica de Nuremberg de Hartmann Schedel, 1493).




A Família Addams, produzida em 1938 pelo cartunista Charles Addams para a revista The New Yorker, é uma sátira à família tradicional estadunidense, utilizando humor mórbido e uma linguagem visual gótica para subverter convenções sociais e exaltar o que é visto como, ou entendido como, incomum. Desde sua origem nos quadrinhos, a franquia expandiu-se para diversos formatos midiáticos, incluindo adaptações cinematográficas, televisivas, teatrais e, mais recentemente, a série Wandinha, lançada pela plataforma Netflix.

A presente pesquisa propõe-se a analisar a trajetória da Família Addams como produção cultural que articula discursos sobre alteridade e pertencimento, com foco nas peças teatrais e na recepção da série Wandinha. A popularidade dessas obras é compreendida como expressão da valorização de personagens “excluídos especiais”, que desafiam normas sociais e encontram caminhos para si mesmos em suas singularidades — fenômeno também observado em franquias contemporâneas como Harry Potter, Jogos Vorazes e Divergente.

Além da exclusão social por fatores de imagem e aparência — culturais ou comportamentais — é possível observar que muitos desses personagens representam, metaforicamente, indivíduos com desvios de conduta ou transtornos de comportamento. A neurociência tem demonstrado que tais desvios podem estar associados a padrões diferenciados de desenvolvimento cerebral, especialmente em áreas relacionadas à empatia, tomada de decisão e regulação emocional. Estudos indicam que o comportamento antissocial pode ter origem em fatores neurobiológicos, sendo, portanto, não apenas uma questão moral ou social, mas também clínica e cognitiva.

Nesse cenário, propõe-se investigar como os produtos culturais ligados à Família Addams se conectam com jovens que se reconhecem em histórias protagonizadas por personagens socialmente deslocados, com atitudes e perfis fora do esperado. Muitos desses personagens representam indivíduos que desafiam padrões, lidam com conflitos internos ou têm comportamentos considerados inadequados, mas que apontam para outras formas de inteligência. No entanto, cabe também salientar o aspecto artístico desempenhado pelo feio e pelo mórbido na peça, para desencadear o efeito estético — ou seja, a apreensão pelos sentidos — capaz de suscitar alguma reflexão, como também alguns possíveis malefícios na construção do imaginário coletivo.






2. ORIGEM E EVOLUÇÃO DA FAMÍLIA ADDAMS


A Família Addams foi criada em 1938, quando o cartunista norte-americano Charles Addams publicou suas primeiras tiras na revista The New Yorker. Com humor mordaz e ares sombrios, os personagens foram concebidos como uma inversão satírica da família tradicional estadunidense, representando um núcleo aristocrático, excêntrico e indiferente às convenções sociais. A crítica implícita ao ideal de normalidade consolidou os Addams como ícones do grotesco.

Ao longo das décadas, a franquia passou por múltiplas adaptações, mantendo como eixo temático o estranho como gosto — uma “faceta do gosto pessoal”. A primeira série televisiva, exibida entre 1964 e 1966 pela rede ABC, transformou os personagens em figuras populares, embora tenha suavizado o tom sombrio das tiras originais para se adequar ao formato de comédia de situação (sitcom). Nos anos 1990, os filmes dirigidos por Barry Sonnenfeld reacenderam o interesse pela franquia, com destaque para a atuação de Christina Ricci como Wandinha.

A transposição para o teatro ocorreu com o musical The Addams Family, estreado na Broadway em 2010. Com letras de Andrew Lippa e libreto de Marshall Brickman e Rick Elice, a peça explora os conflitos geracionais e afetivos da família, utilizando humor ácido, ambientação gótica e elementos visuais que, como esperado, apresentam o macabro como recurso estético (leia-se: recurso de apreensão pelos sentidos). No Brasil, o musical teve montagens de grande sucesso em São Paulo e no Rio de Janeiro.

A mais recente reinterpretação da franquia se deu com a série Wandinha (Wednesday, 2022), dirigida por Tim Burton (o mesmo diretor de Edward Mãos de Tesoura, que possui uma crítica muito similar à da franquia Família Addams) e distribuída pela plataforma Netflix. A produção desloca o foco narrativo para a filha mais velha. Alguns temas como personalidade, comportamento desviante e pertencimento/deslocamento são amplamente abordados. Ambientada na Escola Nunca Mais, a série apresenta Wandinha como uma adolescente intelectualmente brilhante, emocionalmente contida e socialmente deslocada. O resultado é atingir um público que se reconhece em personagens que desafiam padrões normativos, que se sentem deslocados — o que, atualmente, abrange praticamente todas as pessoas. A linguagem visual gótica, o humor sombrio e os conflitos internos da protagonista contribuem para a consolidação da série como fenômeno cultural entre pessoas que se identificam com a narrativa, somado aos já desencadeados movimentos subculturais da Dark Academia, que dialoga com séries escolares como Harry Potter, Wandinha e Divergente.

A linguagem visual denominada Dark Academia configura-se como uma subcultura contemporânea que valoriza o conhecimento clássico, a erudição e a atmosfera acadêmica tradicional, com forte influência da arquitetura gótica, da literatura europeia e da moda das décadas de 1930 e 1940. Essa linguagem visual associa-se à romantização do ambiente universitário, à introspecção e ao culto à melancolia intelectual. Embora seja frequentemente lembrada como expressão de refinamento cultural, a Dark Academia também tem sido alvo de críticas por certa tendência à idealização de comportamentos emocionalmente disfuncionais em nome da genialidade.

Isso posto, podemos considerar que, além do discurso proferido pela linguagem visual adotada nessas franquias que abordam o meio escolar, existe uma forte classificação de grupos nessas obras. Todas as produções com alta adesão a esse estilo apresentam um padrão de escolas com casas, grupos e "panelas". Ou seja, existe uma veiculação que aborda instantaneamente o desejo de pertencimento — razão pela qual as casas da franquia Harry Potter nunca saem de moda. O roteiro possibilita uma adesão imediata a uma personalidade ligada a uma subcultura apresentada no mundo ficcional.




3. RELAÇÃO COM O PÚBLICO DE HARRY POTTER E DIVERGENTE


As franquias Wandinha, Harry Potter, Jogos Vorazes e Divergente compartilham um fator narrativo recorrente: o protagonista marginalizado que, ao longo da trama, descobre possuir habilidades ou características que o tornam singular e, por vezes, essencial para a resolução de conflitos centrais. Essa estrutura narrativa, amplamente difundida na literatura e no audiovisual, estabelece uma conexão emocional, já que todos, de alguma forma, são desejosos do protagonismo e de certa nota de especialidade.

Ambientes escolares como Hogwarts, em Harry Potter, e a Academia Nunca Mais, em Wandinha, funcionam como espaços simbólicos de iniciação. Em Jogos Vorazes e Divergente, esse processo é intensificado pela divisão da sociedade em facções, cada uma com valores específicos, o que reforça a ideia de que a identidade individual pode ser moldada e validada por grupos com os quais se compartilham afinidades.

A linguagem visual gótica presente em Wandinha, aliada aos temas de mistério, magia e rebeldia, estabelece pontes simbólicas com o universo de Harry Potter, especialmente no que tange à ambientação sombria, à presença de criaturas fantásticas e à estrutura de casas e competições escolares. Esses elementos enriquecem o universo ficcional. A recorrência de profecias, personagens ambíguos e reviravoltas narrativas reforça o vínculo entre essas obras, consolidando um imaginário coletivo com a assimilação de que o gosto macabro não está atrelado a uma pessoa ruim, desassociando o belo do bom no sentido material da interação. Algo deste tipo está presente em obras como O Retrato de Dorian Gray e O Médico e o Monstro, que traçaram a delicada relação entre o belo e o bom e ainda a difícil tarefa de nomear o que é a beleza, mostrando que a beleza atrelada à bondade pode não ter nenhuma relação com a aparência e a imagem.

O uso do macabro, neste contexto, é retirado do ofício de gerar afastamento do mal, mas assume o papel de indicar que existe uma distinção entre a aparência do horrendo e macabro e o próprio horrendo. Parece haver uma tentativa, muito interessante, de gerar reflexão pelo estranho sobre o que é a beleza, levando-nos, por um lado, à definição de que a beleza é imaterial. Por outro lado, no que se refere à franquia Família Addams e outras, também existe a preocupação de identificar o que de fato é o horrível. Dessa forma, sempre existe uma personagem que personifica a beleza dos anos 50 (que remete à perfeição dos comerciais de margarina), que, na verdade, é uma pessoa ruim, e que encarna, portanto, a aparência bela atrelada ao mal; enquanto os outros representam a aparência estranha atrelada ao bem.


Para alguns, isso pode ser interpretado como uma inversão imposta pela indústria cultural, mas, na verdade, trata-se de uma reflexão, como já mencionado, presente em outras obras. É evidente que, embora essa expressão visual seja útil, ela gera uma nova cadeia de pensamentos restritivos, uma vez que, normalmente, a mente humana tende a estabelecer padrões. O resultado dessa veiculação pode ser a descrença em pessoas que aparentam ser bonitas e boas, além de uma confiança cega em indivíduos que não seguem os padrões normativos, o que pode levar a certa leniência. No entanto, apesar do risco envolvido, é oportuno desvincular a beleza da percepção imposta pela indústria acerca de imagem e aparência — ou ainda da ideia de aparência como reflexo de moralidade.


Ainda é possível observar que, na franquia Família Addams, há sempre, em algum momento, um personagem que personifica o horrendo propriamente dito, evidenciando dentro da trama aquilo que é de fato considerado horrível — ou seja, o feio e o mal internos — em contraste com a beleza e o bem interiores.

Outro aspecto interessante é que assim como a série Vincenzo a franquia Addams parece tender a retratar as "nuances do mal", em que o menos mal passa a ser visto como o bom. O que permanece dentro da proposta de desconforto característico do uso do macabro na arte.









4. PRODUÇÃO CULTURAL, NEURODIVERGÊNCIA E DESVIO DE CONDUTA


Obras como Wandinha, Harry Potter e Divergente não apenas retratam personagens com traços de marginalidade social, mas também incorporam elementos que podem ser interpretados como manifestações simbólicas de neurodivergência e desvio de conduta. Nesse sentido, tais produções funcionam como dispositivos narrativos que tensionam os limites entre o normal e o patológico, o aceitável e o transgressor.

O conceito de neurodivergência, cunhado pela socióloga Judy Singer, refere-se a indivíduos cujo funcionamento neurológico difere do padrão considerado neurotípico, incluindo condições como o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), a dislexia, entre outros. A abordagem da neurodiversidade propõe uma ruptura com os modelos medicalizantes, reconhecendo essas variações como expressões legítimas da diversidade humana. No campo da produção cultural, personagens com traços neurodivergentes são frequentemente retratados como excêntricos, geniais ou emocionalmente complexos, contribuindo para a construção de narrativas que geram reflexão e ampliam o repertório simbólico da sociedade. Entre eles estão Sherlock Holmes, Harry Potter e Malfoy (os dois quebram regras com facilidade e possuem certa raiva impulsiva), Wandinha e a Família Addams, Sheldon, Vincenzo.

Por outro lado, o desvio de conduta, tradicionalmente associado a comportamentos antissociais ou transgressivos, também tem sido ressignificado nas obras culturais. Em Wandinha, por exemplo, a protagonista apresenta traços de frieza emocional, sarcasmo extremo e aversão a normas sociais — características que poderiam ser interpretadas como desvios de conduta sob uma ótica psiquiátrica clássica. No entanto, a narrativa reconfigura esses traços como formas de inteligência emocional alternativa, criatividade e resistência à conformidade. A neurociência contemporânea tem demonstrado que comportamentos considerados desviantes podem estar relacionados a padrões diferenciados de desenvolvimento cerebral, especialmente em áreas ligadas à empatia, tomada de decisão e regulação emocional. É evidente que tais hipóteses enfrentam grandes obstáculos quando o assunto é, por exemplo, a psicopatia ou os desvios de conduta que colocam a sociedade em risco. Tais narrativas podem facilitar — embora seja necessário, inevitavelmente, algum período de confusão — a distinção social entre quadros de neurodivergência e gradações de desvios de conduta, já apontados de forma embrionária em outras obras.


A representação desses perfis na cultura pop não apenas contribui para a visibilidade de grupos historicamente destinados ao deslocamento, como também promove uma reflexão crítica sobre os mecanismos de afastamento social. A linguagem visual do estranho, do grotesco e do macabro, presente em produções como Família Addams, opera como recurso simbólico narrativo para questionar os vínculos entre aparência, moralidade e valor social. Vemos, portanto, o deslocamento — atualmente tão estudado — do uso da arte, e do macabro mais especificamente, não mais como representação, mas como narração (mais sobre isso clique aqui).


Nesse contexto, a produção cultural assume um papel pedagógico e político, ao oferecer narrativas que provocam reflexão sobre normalidade e anormalidade. No entanto, é possível que ocorra um enamoramento pela anormalidade, até que ela se torne o novo normal e voltemos a esse debate — que, na verdade, é pendular — sem que nenhum resultado reflexivo real aconteça. Além disso, o uso dos gostos de determinados grupos pode se tornar instrumento de adesão política específica, em que as produções são apenas formas de mobilizar as massas por meio de seus gostos. Apesar desses riscos e outros já apontados, parece ser inevitável considerar a necessidade de uma reflexão sobre essa temática, na esperança de que não se torne instrumento de mobilização partidária irreflexiva das massas.





Profª Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)





























"She Was Pretty" (2015)


Como o nome sugere, a série aborda o tema da "beleza" no sentido de imagem e aparência, especificamente a feminina.


A protagonista é uma "fracassada" que consegue um estágio em uma revista de moda. Além desse fator, ela tem uma aparência considerada desagradável, especialmente para os padrões coreanos. Para contextualizar, a Coreia é um dos países com a maior demanda por cirurgias plásticas, sendo um dos mercados mais renomados da medicina estética. Uma plástica é um dos presentes de maioridade mais frequentes na Coreia.


Assim, é comum que as séries coreanas apresentem reflexões sobre a beleza, os padrões idealizados naquela cultura e seus resultados. No entanto, "She Was Pretty" (2015) aprofunda-se na questão. A beleza estabelecida como um padrão baseia-se na aquisição, por meios financeiros, de alguns traços físicos que conferem ao portador a beleza socialmente aceita. Neste ponto, embora não de forma tão exigente, o Brasil apresenta comportamentos similares em relação à beleza física. A beleza é entendida como uma série de aquisições feitas de forma recorrente, determinando que uma pessoa é bela por adquiri-los. Ou seja, é uma visão materialista da beleza, uma beleza comprável.






Para aprofundamento: Livro A Mulher Católica: Graça & Beleza (Ana Paula Barros)





Esta aquisição torna-se uma forma de comunicação e se desenrola em uma lista de exigências que devem ser seguidas: sempre "passar um batonzinho", nunca "faltar um brinquinho", "que linda essa foto que você está mostrando as pernas", "acho tão bom que você está se cuidando fazendo as unhas". Estas "regras sociais", que parecem insignificantes, mostram uma série de normas (regras não verbais) que passam a possuir o status de beleza e geram uma longa dependência do olhar de aprovação do outro, que determinará se o aspirante a ser belo socialmente está de acordo com os requisitos.


As duas culturas possuem a visão da beleza pela exposição: se a pessoa não mostrar que fez tal coisa - se não é visível - não será belo. Embora a Coreia tenha um padrão de construção dessa imagem mais natural e acessível do que o brasileiro, que é uma sucessão de camadas visíveis para esconder uma determinada insatisfação, ambas compartilham a ideia de que não basta ter uma pele bem tratada ou um cabelo limpo e tratado. Nada do território do saudável basta.


E este é o ponto de várias produções asiáticas sobre a aparência que bem servem para o Brasil, que tem um aspecto de exposição bem mais estabelecido e sedimentado.


A série também aborda o sucesso profissional, a dedicação ao trabalho, os sonhos esquecidos e os relacionamentos que nos ajudam a descobrir quem realmente somos.




O aspecto do sucesso profissional não é insignificante; muitos mercados estão focados na imagem, especialmente o digital. No entanto, ao contrário dos americanos, europeus e alguns latinos, que recentemente têm optado pelo traço do "estranho", a Coreia (e também a China) ainda preserva exigências de imagem e aparência muito específicas e rigorosas quanto ao "normal perfeito". A aparência impecável, que impressiona alguns, pode esconder uma grande máquina de mercado que enriquece à custa das ansiedades dos consumidores.

Outro tema importante da série é a vergonha de si mesmo e suas consequências. "She Was Pretty" mostra que a beleza não está nos adornos que a protagonista coloca em si para parecer bela. Adotando uma abordagem quase socrática sobre a beleza, a série evidencia que a beleza não se resume à aquisição de apetrechos. Essa percepção é importante, pois nos distancia da ideia perigosa de que basta ter uma série de aquisições para ser bonita ou feminina, como se tais atributos fossem mercadorias adquiridas em transações comerciais, refletindo uma visão marxista sobre a aquisição da feminilidade e da masculinidade.




Para aprofundamento: A atual percepção de feminilidade flerta com o marxismo




As pressões sociais sobre a aparência feminina oscilam entre os estereótipos dos comerciais de margarina dos anos 50 e a aparência alienígena. No entanto, cabe observar a perspectiva cristã sobre a aparência e a imagem:






1 Pedro 3, 3-4: "Não sejam, pois, as suas atenções voltadas para o exterior, como frisado de cabelos, adereços de ouro ou roupas caras; mas sim para o interior do coração, unido ao incorruptível traje de um espírito manso e tranquilo, que é de grande valor diante de Deus."


Provérbios 31, 25-26: "A força e a dignidade são os seus vestidos, e quanto ao dia de amanhã, não tem preocupações. Fala com sabedoria, e a instrução da bondade está na sua língua."


1 Timóteo 2, 9-10: "Da mesma forma, que as mulheres, em traje decente, se ataviem com modéstia e bom senso, não com cabeleira frisada, ou com ouro, ou pérolas, ou vestuário dispendioso, mas (como convém a mulheres que fazem profissão de servir a Deus) com boas obras."


Cânticos 4, 7: "És toda formosa, querida minha, e em ti não há defeito."






Além disso, é interessante notar a presença do cristianismo na cultura coreana. De forma sutil, a série mostra como as percepções do cristianismo e da cultura ocidental se integraram ao cotidiano na Coreia, sendo visíveis em hospitais, escolas e orfanatos. Em uma cena com a protagonista e sua melhor amiga, essas influências são claramente evidentes.

O cristianismo, na percepção das produções coreanas, está atrelado à capacidade de suportar sofrimento, à remissão e ao perdão. Os símbolos cristãos surgem em determinados momentos das cenas, sempre que esses temas são abordados.

Também é possível encontrar produções mais recentes com padres e freiras como protagonistas, como a série "Um Padre Ousado", onde a justiça ativa, tão diferente do comportamento budista e taoísta em relação às ações sociais (baseadas na impassibilidade e na não-ação), está vinculada às ações cristãs. Nessa série, são retratadas pessoas que lutam por justiça e não aceitam o poder das máfias e das injustiças, uma visão que, para um ocidental consciente, é bem bondosa.






A complementariedade entre a missão feminina e masculina encontra diversos ruídos nas mais diversas produções culturais. Fruto da nossa limitação em conceber essa interação de forma saudável, frequentemente vemos estabelecidos, sem nenhum critério, uma série de padrões, tanto progressistas quanto conservadores, para essa interação.




É interessante observar que, dentre as produções culturais mais equilibradas sobre o assunto, destacam-se as produções chinesas. A produção chinesa, com altos investimentos e artistas de múltiplos talentos, tem mostrado uma abordagem hábil e reflexiva sobre pautas políticas como o feminismo.

A China é uma cultura milenar que se esforça por preservar sua história, mesmo num regime que, em essência, tende a descredibilizar o passado. O país parece trilhar um caminho próprio, fruto da união inusitada entre comunistas e empresários. Durante a revolução chinesa, os empresários apoiaram o avanço militar, o que resultou em um governo comunista militar empresarial.



Dessa interação inicial surgiu uma abordagem de governo de esquerda militar e de riqueza produtiva. E uma das maiores fontes para ver o retrato da China por ela mesma é o grande apoio que os produtores culturais da internet recebem para propagar a cultura chinesa. Cada canal de YouTube está ligado a uma empresa de mídia, uma vez que não existe YouTube na China, é preciso publicar os vídeos fora. Essa leitura da China é realmente agradável, de fartura e muita riqueza alimentar, o que mostra uma abordagem sinalizatória sobre o sucesso da China, que todos podemos ver nos produtos que compramos, pois são todos chineses. Essa potência silenciosa é também uma potência cultural silenciosa.


Na série "Los Intérpretes", a produção é voltada para a educação chinesa sobre o fato de que todo chinês é um embaixador da China nos países em que estão. Essa abordagem mostra a preocupação da China e a ação conjunta dos chineses em fazer da China uma grande nação. É o sonho coletivo chinês, desde a época dos imperadores chineses (assim como o sonho da unificação da China).


Há quem me pergunte o motivo de me atentar às produções chinesas. Além do fato de ser a atual superpotência do mundo, existe a questão da evangelização. Logo, nós estaremos cercados mais pela cultura chinesa do que pelas outras. É importante saber o que eles valorizam.


O sonho coletivo chinês, de uma nação bela, inteligente e forte, é plasmado na sociedade pelas produções, que querem educar mostrando que o país será forte, belo e inteligente se todos, homens e mulheres, assim forem. Veja, portanto, que o objetivo chinês é o crescimento de influência de sua pátria. Para isso, as pautas ideológicas não são favoráveis, já que muitas vezes colocam um em detrimento do outro. Por isso, as produções tendem a mostrar uma ação conjunta em prol de todos e da pátria.





A visão está correta e poderia ser muito melhor aproveitada se colocássemos uma visão cristã sobre isso, não só pelo bem da pátria terrena, mas pela vida na pátria celeste. Esta abordagem é inexistente nas produções chinesas (claro, por conta da mentalidade base do comunismo); no entanto, a complementariedade sempre existe, até mesmo no "olimpo chinês" com seus deuses e criaturas míticas. Mas este olimpo é uma cópia mais caótica do olimpo grego e romano. Com frequência, existem confusões sobre o bem e o mal, numa clara tentativa de incutir que uma vida terrena calma e tranquila é tudo o que poderíamos querer.


Portanto, embora a produção cultural chinesa tenha muitos pontos positivos, carece desse ponto fundamental. No entanto, a maioria das produções ocidentais também nada têm a enriquecer nesse ponto.


Os pontos positivos que podem fazer com que o avanço das produções asiáticas repercutam de forma a favorecer a boa doutrina cristã, através de um alimento cultural menos pernicioso moralmente, são:




Primeiro: são séries marcadas por grande pudor. Por razões culturais, raramente se encontram comportamentos luxuriosos e cenas de nudez explícita nas séries, nem mesmo comportamentos depravados. Para que se tenha uma ideia, até mesmo um beijo e pegar na mão são extremamente raros e só acontecem depois de muitos episódios. Isso é de extremo valor para nós, brasileiros, que temos dificuldade em viver o pudor devido à necessidade, quase crônica, de tocar nas pessoas. Especialmente aqueles que desejam viver um namoro santo encontrarão nessas séries uma forma de absorver comportamentos mais comedidos e poderão reafirmar a certeza de que amor e tocar na pessoa são coisas distintas. Observar como eles são comedidos nos ajuda a viver a temperança, o pudor e a modéstia em nossas atitudes.


Segundo: os personagens realmente condensam em si a missão masculina no homem e a feminina na mulher. Fica extremamente clara a distinção e a importância de cada missão e da individualidade de cada pessoa.


Terceiro: em muitas séries é possível notar a evolução da cultura asiática através do contato com a cultura ocidental (judaico-cristã). Portanto, nos ajuda a notar como os valores cristãos incutidos nas leis e na moral auxiliaram diversos povos a melhorarem (principalmente em relação ao valor da mulher e ao casamento), mesmo indiretamente, como é o caso da Ásia. Eles não são um povo evangelizado; no entanto, em sua maioria, absorveram muitas coisas culturalmente católicas, afinal, o catolicismo é também uma cultura. Além disso, em séries contemporâneas é possível notar como o cristianismo tem feito parte da vida do povo comum. Presentes em hospitais, escolas e orfanatos, além das igrejas, é fácil notar cruzes pelas cenas, assim como as diversas reações ao cristianismo. Temos desde aqueles que acabam recebendo o benefício das obras de caridade até personagens que representam não pessoas em si, mas a cultura milenar desses países e sua tentativa de permanecer. Aliás, boa parte das séries possui a intenção de ressaltar os valores da cultura oriental, não fazendo menção direta a nenhuma religião, o que permite que possamos trabalhar o filtro para absorver as qualidades e nos atentar ao que chamo de brecha de evangelização (todas as civilizações possuem pequenas brechas que possibilitam a conversão ao cristianismo, e é assim que a Igreja vem evangelizando desde São Paulo com os gregos) e observar os pontos de erro para treinar como refutá-los (ao menos essa é a forma que concebo).


Quanto à complementariedade, objeto deste artigo. Podemos observá-la em todas as séries. Na série "General and I" ficam realmente desenhados os aspectos da complementariedade.


E, como o próprio nome indica, trata-se da história de um general e uma moça órfã e só no mundo, mas muito, muito inteligente. A série se desenrola em mais de 60 episódios. O tema da série é a nação. Uma característica muito interessante, como já apontado, é que o romance amoroso é um elemento, não o motivo da história; o tema da série é o patriotismo de ambos os personagens, e exemplos de fidelidade, caridade, abnegação, honestidade, honra e coragem. O que torna os personagens muito interessantes. É claro que, para que estas virtudes se tornem mais evidentes, existem também seus antagônicos, os vícios, presentes na trama.


Além disso, observamos uma representação profunda do casamento, um ponto que merece atenção especial. Aborda os motivos para o casamento e o significado de se unir a outra pessoa, destacando a fidelidade aos votos matrimoniais. Em todas as culturas, o casamento é um compromisso assumido pelos próprios noivos; no catolicismo, não é diferente. O casamento é o único sacramento realizado pelos noivos, onde ambos fazem votos expressos diante de Deus e prometem cumpri-los até a morte. Esse aspecto, que enfatiza o cumprimento dos votos, é tratado com clareza.



Aprofundamento sobre complementariedade: Livro A Mulher Católica: Graça & Beleza (Ana Paula Barros).



Com uma abordagem tão interessante é fácil conceber uma complementariedade social em prol do crescimento nacional. Característica também vista em "Você é a minha glória", "O começo de uma nova vida", "Floresce na Adversidade" e "O Tigre e a Rosa".


Talvez o que mais evidencie a forma chinesa de lidar com as pautas tão debatidas no ocidente seja a produção "O Tigre e a Rosa", sobre uma roteirista feminista que cria um mundo regido pelo "matriarcado" e não pelo "patriarcado". A história mostra de forma divertida o erro de somente inverter os supostos polos de força social.


Também é possível constatar nas séries modernas a resistência ao casamento e alguns pontos sobre a legalização da interrupção da gestação, que mostram como esses atos de pecado foram abraçados. Embora seja possível ver coisas bem piores em séries ocidentais, vale observar como o tema é retratado pela arte do cinema oriental.



Aprofundamento sobre educacional: Educa-te: Paideia Cristã 

Sobre Educação Estética: Revista Digital Salutaris: Educação Estética, Arte & Patrimônio 




Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia, Graça & Beleza.
















Fatos históricos são comumente usados como ricas inspirações para produções culturais das mais variadas naturezas. Somos por elas atualizados dos acontecimentos históricos através de um prisma, e isso se torna, de certa forma, uma verdade.


Ver é possuir. Logo, ao assistir a uma série, possuímos, de certa forma, uma forma de conhecimento ou novo conhecimento sobre aquele fato. Não é de todo ruim, no entanto, pode ser perigoso se atrelar a uma visão produzida intencionalmente. O protagonista de O Velho e Negro mostra como uma pessoa comum pode se tornar absolutamente intragável e sem caráter por simplesmente tomar o prisma de um livro sobre Napoleão como uma verdade, assim como o pensamento, ou suposto pensamento, do auto-coroado rei imperador francês. A visão do protagonista era restrita quanto ao personagem histórico adorado.


A série chinesa The Princess Weiyoung se baseia na história da dinastia Wei. Trata-se de uma princesa de um estado subjugado ao estado de Wei.


Vale lembrar que a China era dividida em reinos e tribos, e estes lutavam entre si. Cada estado possuía um rei, e de tempos em tempos surgia um imperador que desejava unificar os estados e desenvolvia batalhas para conquistar os estados vizinhos, para assim acabar com as guerras. Muitos imperadores tentaram isso. Esse era o sonho coletivo chinês. Pois até a última revolução da China, que causou a queda da última dinastia, as grandes cidades ficaram sob o comando de generais que, claro, lutavam entre si. O exército revolucionário acabou se beneficiando dessa situação, conseguindo o apoio dos empresários que queriam manter seus negócios sem a guerra. Esse contexto nos mostra o motivo que levou a China a um regime comunista tão duradouro; em sua cultura, um sistema centralizador não é muito diferente do que desejavam os imperadores que queriam unificar os estados. Muitas produções são feitas numa releitura deste período de transição, que passa a imagem de que o povo chinês foi quem fez a escolha. Uma delas é a produção "Fall in Love".


A série The Princess Weiyoung então se desenrola em capítulos de 40 minutos, sobre a ocultação dessa princesa até a sua influência na família imperial de Wei. O tema é família e, em segundo plano, o poder a serviço do povo. De uma forma geral, as séries sempre tratam muito do tema família e do poder, principalmente em manter o poder ou reconquistá-lo.


As virtudes presentes são: fidelidade, sacrifício do amor, lealdade, confiança, coragem e perdão. É claro que para que estas virtudes se tornem mais evidentes existem também seus antagônicos, os vícios, presentes na trama. É um trabalho realista; a atriz escolhida para protagonista está criando uma carreira como intérprete de imperatrizes, o que torna interessante acompanhar suas atuações. Essa imperatriz fictícia parece muito com a imagem da mulher inteligente e bela que as produções tendem a evidenciar. A inteligência é sua maior capacidade de governo.


Essa releitura do período do império, mesmo com fatos que apontam a existência de imperatrizes assim, mostra a preocupação em evidenciar os talentos da nação como um todo. Não existe um desprestígio do período passado, mas uma comprovação de que o país sempre foi grande em seus governantes, mesmo os maus governantes.


É uma estratégia de releitura histórica interessante que certamente será matéria de observação no futuro.




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