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Devocional 37| Dons do Espírito Santo - Entendimento e Ciência - correspondentes à Fé





A virtude da fé, com a cooperação de alguns dons do Espírito Santo, é suficiente para conhecer as verdades sobrenaturais na medida que nos é possível neste mundo. 

Os dons do Espírito Santo destinados a cooperar com a virtude da fé, são os dons do entendimento e da ciência. 

O dom do entendimento auxilia a virtude da fé no conhecimento da verdade revelada da seguinte forma: se se trata de verdades  que não excedem a capacidade de nosso entendimento, faz com que debaixo do influxo direto do Espírito Santo, a alma penetre no sentido íntimo e mais recôndito dos enunciados divinos e das proporções que com eles guardam relação, e quando se trate de mistérios, faz-lhe ver que não se lhes opõe nenhuma outra verdade conhecida, apesar dos problemas e dificuldades que os mistérios apresentam. 

O dom do entendimento é o dom de iluminação por excelência, tudo que de claridade e puros gozos intelectuais de ordem sobrenatural que há em nós, o devemos ao dom de entendimento, o qual faz frutificar na alma os germes da verdade infinita, objeto próprio e direto da virtude da fé. Assim este dom influi também na prática das virtudes, uma vez que as verdades sobrenaturais são postas em relevo e aderidas pela faculdade da vontade, divinizada pelo amor a Deus (que é a virtude da caridade). 

A virtude da fé tem por objeto três classes de verdades reveladas: umas que se referem a Deus, outras às criaturas e outras às direções dos atos humanos. O homem adere à essas verdade mediante a virtude da fé, no entanto, não pode compreende-las, nem penetrar o seu sentido mais profundo. No entanto, sem isso, não lhe é possível formar juízos mais profundos, vem então os dons do Espírito Santo em seu auxilio. 

Manisfestar o sentido íntimo e profundo das verdades reveladas é objetivo do dom do entendimento, o dom da sabedoria tem por objeto formar juízo reto e seguro no que se refere às coisas de Deus; no que se refere às criaturas pertence ao dom da ciência, e por fim, no que diz respeito aos atos humanos pertence ao dom de conselho.

Tomando esta doutrina definimos o dom da ciência como uma virtude (do latim virtus=força) por mercê da qual, o cristão, no estado de graça e diretamente movido pelo Espírito Santo, conhece e distingue imediatamente, sem discurso, nem raciocínio, de modo direto, poderemos dizer, intuitivo, o que é objeto da fé, regra de bem proceder e ato virtuoso, e a maneira como havemos de servir-nos das criaturas para nos acercarmos da Verdade Suprema.

Este dom é de especial importância em nossos dias já que é o remédio de uma das pragas que afligem o gênero humano desde a renascença, que é o ato de converter o estudo - que em si deve ser usado para nos aproximar de Deus- em arma para combater a fé, renovando costumes pagãos. Este é um dos principais males que afligem a sociedade moderna. 

Portanto, os remédios para uma sociedade ímpia e afastada de Deus é a virtude da fé e seus aliados, quando a alma está em estado de graça, o dom de entendimento e ciência. Pois o dom da ciência combate a ignorância, o entendimento a cegueira de espírito e o embrutecimento (ou seja, baixeza e vileza) dos sentidos. Tais vícios provêm, principalmente, dos pecados da carne que asfixiam a alma. 

Catecismo da Suma Teológica de São Tomás de Aquino



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Devocional 36| Da Natureza da Fé e os Pecados Opostos à Fé



A fé é uma virtude sobrenatural, por cujo influxo o entendimento adere irrestritamente e sem temor de errar a Deus, como fim e objeto da eterna bem aventurança, e às verdades por Ele reveladas, posto que as não compreenda. O entendimento pode admitir de modo absoluto verdades que não compreende baseando-se na autoridade de Deus que nem pode enganar-se, nem enganar-nos. 

Deus não pode enganar-se e nem nos enganar por que é a verdade por essência. 

Podemos nos certificar de quais sejam as verdades reveladas por Deus mediante o testemunho daqueles a quem as revelou, ou daqueles a quem confiou o depósito da revelação. 

Deus revelou primeiramente a Adão, no Paraíso; mais tarde, aos Profetas do Antigo Testamento; por último, aos Apóstolos no tempo de Jesus Cristo. E por fim o sabemos pelas asserções bem comprovadas da história que se refere a fatos da revelação sobrenatural e os milagres realizados por Deus, em testemunho de sua autenticidade. 

O milagre é prova contundente da intervenção divina , visto que é ato do próprio Deus e nenhuma criatura pode realizá-lo com seus próprios meios. 

A história da revelação e outras ações sobrenaturais de Deus se acham na Sagrada Escritura , também chamada Bíblia, divido em Antigo e Novo Testamento. Não se trata de uma síntese ou resumo mas um livro escrito pelo próprio Deus. Assim, Deus é seu autor principal, e para escrevê-lo utilizou, à maneira de instrumentos, alguns homens por Ele escolhidos. 

Assim o livro original é sagrado, as cópias (e traduções) o são a medida em que se conformam com o original. 

Assim ao ouvir a leitura destes livros (com traduções que se conformem ao original) é o mesmo que ouvir a Palavra Divina. 

É possível, no entanto, distorcer o sentido da Sagradas Escrituras uma vez que há passagens  obscuras  e difíceis. 

A dificuldade de entender a Palavra Divina provem em primeiro lugar, dos mistérios que encerra, visto que não raro enuncia verdades superiores ao alcance das inteligências criadas, e que somente Deus pode compreender; provém além disso da dificuldade que existe em interpretar livros antiquíssimos, escritos primeiramente para povos que tinham idioma e costumes muito diferentes dos nossos; finalmente, das equivocações que tenham podido escapar tanto nas cópias dos originais, como nas traduções feitas por elas e em suas cópias. 

A única pessoa isenta de se equivocar é o Pontífice Romano e com ele a Igreja Católica, no Magistério Universal da Igreja. Pois Deus quis que fossem infalíveis, afinal se não o fossem careceriam os homens de meios seguros para alcançar o fim sobrenatural para que foram chamados. 

Portanto o Papa e a Igreja Católica são infalíveis em matéria de fé e de costumes; não podendo assim enganar-se ou enganar-nos no referente ao que estamos obrigados a crer e a praticar para conseguirmos a bem aventurança eterna. 

O compêndio das verdade essenciais da fé é o Credo ou Símbolo dos Apóstolos. A recitação do Credo é ato de fé por excelência e nunca devemos cessar de recomendar aos fiéis a sua prática. 

Também podem realizar o mesmo ato os que recitam o "ato de fé". 

O ato de fé só pode ser rezado por quem possuí a virtude sobrenatural da fé. 

Assim os infiéis não podem rezá-lo, porque não creem na Revelação, ou seja, ignorando-a, não se entregam confiadamente nas mãos de Deus, nem se submetem ao que deles se exige, ou porque, conhecendo-a, recusam prestar-lhe assentimento. 

Também não podem fazer os ímpios, pois mesmo tendo por certas algumas verdades reveladas, fundadas na absoluta veracidade divina, a sua fé não é efeito de acatamento e submissão a Deus, a quem detestam, ainda que com pesar se vejam obrigados a confessá-lo. A pessoas que possuem a virtude sobrenatural da fé desta forma e nisso imitam os demônios. 

Os hereges não podem crer com fé sobrenatural, porque embora admitam algumas verdades reveladas, não fundam o assentimento na autoridade divina, senão no próprio juízo. Logo, os hereges estão mais afastados da verdade da fé que os ímpios e os demônios, pois não se apoiam na autoridade de Deus. 

Não o podem crer com fé sobrenatural os apostatas, pois desprezam o que haviam crido por virtude da Palavra Divina. 

Já os pecadores podem ter uma fé sobrenatural imperfeita, ainda quando, por efeito do pecado mortal, estejam longe da caridade. Pois nem todo pecado mortal destrói a fé. 

O pecado contra fé é chamado infidelidade, trata-se de recusar- se a submeter o entendimento às verdades sobrenaturalmente reveladas. Este ato é sempre culpa do homem, que resite a graça atual que Deus oferece para impeli-lo a submeter-se. 

Deus concede esta graça a todos os homens, no entanto, com intesidade e medidas prefixadas pelos decretos da Sua Santa Providência. 

O ato de Deus de infundir em nós a virtude da fé é grande e inestimável, é em certo modo, uma das maiores mercês que podemos receber. Poque sem a virtude da fé nada podemos intentar em ordem a nossa salvação, e estamos perpetuamente excluídos da glória, se Deus não se digna conceder-no-la antes da morte. 

Logo se temos a dita de a possuir é pecado gravíssimo, se espontaneamente e conscientemente,  mantermos companhias, conversações e leituras capazes de faze-la perder. Assim importa escolher amizades e leituras que nos tragam estímulos para arraigar a fé, principalmente nesta época em que desfreio de expressão, chamado liberdade de imprensa, oferece tantas ocasiões e meios de perdê-la. 

Existe ainda outro pecado contra a fé, o da blasfêmia. É pecado por ser diretamente oposta ao ato exterior da fé que consiste em confessá-la por palavras, e a blasfêmia consiste em proferir palavras injuriosas contra Deus e seus santos. O pecado da blasfêmia é sempre grave. E o costume não atenua antes agrava, pois o costume demonstra que se deixou arraigar o mal, em lugar de dar-lhe remédio. 


                                               Baseado no Catecismo da Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino



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A importância da leitura espiritual por Santo Afonso Maria de Ligório



“Sempre tenha o livro sagrado em suas mãos,
para que ele possa alimentar sua alma pela leitura devota.”
S. JERÔNIMO (Carta a São Paulino).

DA LEITURA ESPIRITUAL

1. Se a oração é útil para a vida espiritual, talvez não o seja menos a leitura dos livros de piedade. Segundo S. Bernardo, nós aí aprenderemos, ao mesmo tempo a fazer oração e a praticar as virtudes. Donde concluía que a leitura e a oração são armas com que se pode vencer o inferno e adquirir o paraíso.[1] Nem sempre podemos ter junto de nós nosso padre espiritual, para nos ajudar com seus conselhos em todas as nossas ações, e especialmente em nossas dúvidas; mas a leitura supre tudo, nos fornece as luzes necessárias e nos ensina como havemos de proceder para evitar as ciladas do demônio e do nosso amor próprio, e para nos conformarmos com a vontade de Deus. — Dizia por isso Sto. Atanásio que não se verá ninguém que de propósito se aplique ao serviço de Deus, que não seja dado a leitura espiritual.[2] — É por isso que todos os fundadores de ordens muito recomendaram este santo exercício aos seus religiosos. — S. Bento, entre outros, ordenou que cada um dos seus monges fizesse todos os dias a sua leitura, e que houvesse dois encarregados de ir visitar as celas, para verem se todos observavam esta regra; e quando se achava algum nisto negligente, queria que fosse penitenciado. — Mas, antes de todos, o Apóstolo a impôs a seu discípulo Timóteo, dizendo-lhe: Aplica-te à leitura.[3]
Estas palavras são dignas de nota: Significam que, por mais ocupado que estivesse S. Timóteo nos seus trabalhos pastorais, como bispo, S. Paulo queria que se aplicasse ainda a leitura dos livros santos, e isto não de passagem e por pouco tempo, mas aturadamente.
------- Nota deste blog: aqui o santo doutor inicia uma série de avisos que visa orientar aqueles que se entretêm somente com livros seculares, filosóficos ou ainda misticos e morais e não leem nada dos livros devotos, das Sagradas Escrituras e da vida dos santos. Fica claro a preocupação do santo em mostrar a extensão dos efeitos das leituras de acordo com a alma que a lê, algumas podem ter interesses pelos acontecimentos misticos e se esquecer de lapidar as virtudes, outras podem se inquietar com questões morais e se esquecer de pedir auxilio divino, outras podem desenvolver uma imaginação cheia de apegos mundanos. Como tudo depende do tipo da alma que esta a ler o santo discorre em avisos para que a alma que lê identifique os efeitos que as leituras geram em si. Prova disso é que, por exemplo, embora fale dos livros de Santa Teresa volta a indicar a leitura de seus livros logo depois, ou seja, mostrando que são avisos e reflexões - que cabe a cada alma o exame sincero de consciência sobre isso. 
2. — Tanto é nociva a leitura dos livros maus, quanto proveitosa a dos bons. Assim como esta foi muitas vezes a causa da conversão dos pecadores, assim aquela não cessa de perverter uma multidão de moços inexperientes. — O Espírito de Deus é o primeiro autor dos livros de piedade, ao passo que o autor dos livros perniciosos é o espírito do demônio, que muitas vezes tem a arte de ocultar o veneno aos olhos de certas pessoas, sob o pretexto de que tais livros servem para aprenderem o modo de falar bem e conhecerem as coisas do mundo para seu bom governo, ou ao menos para passarem o tempo sem enfado. — Para as religiosas, sobretudo, eu digo que nada é mais pernicioso do que a leitura dos maus livros. E por maus livros eu entendo não só os proibidos pela Santa Sé que tratam de heresia e de matérias torpes, mas também todos o que versam sobre amores mundanos. Que piedade poderá ter uma religiosa que lê romances, comédias ou poesias profanas? Que recolhimento poderá ter na oração e na comunhão? Deverá essa tal chamar-se esposa de Jesus Cristo? Ou antes, uma má esposa do mundo? Pois que até as jovens do século, que soem ler esses livros, raramente são boas seculares.
3. — Mas, dirá aquela, que mal fazem os romances e as poesias profanas, onde não há palavras imodestas? Vós perguntais que dano fazem? Ei-lo: inflamam a concupiscência, despertam, sobretudo, as paixões, as quais facilmente dominam a vontade, ou, ao menos, a enfraquecem de tal modo que, apresentando-se depois a ocasião de conceber alguma afeição desregrada, o demônio acha o coração já disposto para vencê-lo. — Notou um sábio autor: É pela leitura de tais livros perniciosos que a heresia fez e faz todos os dias tantos progressos; porque ela assim deu e dá mais força à libertinagem. O veneno desses livros entra pouco a pouco na alma; apodera-se primeiro do espírito, infecciona depois a vontade e acaba por dar a morte à alma. O demônio talvez não tenha meio mais eficaz e mais seguro para perder uma jovem, do que a leitura de tais livros envenenados. Oh que assolação não fará esse veneno, se acaso se introduzir em uma comunidade? Bastará um só livro mau desta espécie para arruiná-la! — Esposa bendita do Senhor, se vos acontecer ter nas mãos um livro semelhante, lançai-o imediatamente no fogo; digo no fogo, para não aparecer mais. Se fordes superiora, empregai todos os esforços possíveis, para extirpar e afastar essa peste do convento sob pena de dar contas severas a Deus, nosso Senhor.
4. — Adverti, além disso, que certos livros não serão maus por si mesmos, mas serão inúteis para o vosso proveito espiritual. Esses serão também nocivos para vós, porque vos farão perder o tempo que podereis empregar em ocupações proveitosas para a alma. — Eis que S. Jerônimo escreveu para a sua discípula Sta. Eustóquia, para instruí-la: Na sua solidão de Belém, ele apreciava e lia muitas vezes os livros de Cícero; e, ao contrário, tinha certo horror aos livros sagrados, pelo estilo inculto que achava nestes. Sobreveio-lhe uma enfermidade grave, na qual se viu transportado e apresentado ao tribunal de Jesus Cristo. Então o Senhor lhe perguntou: Quem és? — Ele respondeu: Eu sou cristão. — Mentes, replicou o Juiz; tu és cristão? Não. Tu és ciceroniano e não cristão. — E ordenou que imediatamente fosse flagelado. O santo logo prometeu emendar-se, e, voltando a si, achou as espáduas lívidas e contundidas, em consequência do castigo recebido durante a visão. Desde este momento, deixou as obras de Cícero e entregou-se à leitura dos livros sagrados. — É verdade que alguns autores profanos às vezes apresentam algum pensamento útil à vida espiritual; mas o mesmo S. Jerônimo, escrevendo a uma outra sua discípula, faz esta sábia reflexão: Que necessidade tens de procurar um pouco de ouro no meio da lama, quando podes ter livros de piedade onde acharás ouro puro, sem mistura de lama?[4]
As obras de teologia moral são também livros ordinariamente inúteis e algumas vezes mesmo nocivos para as religiosas, porque podem facilmente perturbar-lhes a consciência, ou ensinar-lhes o que lhes seria mais vantajoso ignorar. Igualmente, a leitura dos livros de teologia mística pode ser nociva a algumas, que presumam ter pretensões à oração sobrenatural: para consegui-lo, deixariam a costumada oração ordinária, que consiste na meditação e nos afetos, e desta arte ficariam privadas de ambas; pois ninguém se deve elevar à contemplação, se Deus a não leva a tal manifestamente. — É por isso que Sta. Teresa apareceu, depois de sua morte, a uma de suas filhas e ordenou que as superioras proibissem às religiosas ler o que ela escreveu sobre as visões e revelações; e acrescentou que ela se tinha santificado pelo exercício das virtudes e não com as visões e revelações.
-------
5. — Voltemos ao nosso assunto, e consideremos os felizes efeitos que produz em nós a leitura dos bons livros.
Primeiramente, se a leitura dos maus livros, como dissemos, nos enche de sentimentos mundanos e perniciosos, a dos bons livros, ao contrário, nos sugere bons pensamentos e santos desejos. Quando uma religiosa passa parte considerável do dia a ler livros curiosos e profanos, que lhe abarrotam o espírito com uma multidão de ideias mundanas e afetos terrenos, como pode recolher-se, ocupar-se de pensamentos piedosos, conservar-se na presença de Deus e produzir frequentes atos de virtudes? — O moinho mói o grão que recebe. Se recebe mau grão, como poderá dar boa farinha? — Depois de ter empregado um bom espaço de tempo em ler algum livro curioso, vá uma religiosa à oração, à comunhão; em vez de pensar em Deus e de fazer atos de amor e de confiança, estará toda distraída; por que a lembrança de todas as vaidades que leu, se apresentará ao seu espírito. — Ao contrário, aquela que nutre seu espírito com coisas edificantes, tais como as máximas espirituais e os exemplos dos santos, não só no tempo da oração, mas ainda fora dela, será sempre acompanhada de santos pensamentos e se conservará quase sempre unida a Deus. — S. Bernardo nos faz compreender bem esta verdade, por uma outra comparação, ao explicar as palavras do divino Mestre: Procurai e achareis.[5]— Procurai pela leitura dos livros de piedade, diz ele, e achareis na meditação, o que houverdes buscado; porque a leitura nos põe na boca a nutrição espiritual, que digerimos depois na meditação.[6]
6. — Em segundo lugar, a alma que se nutre de santos pensamentos na leitura, tem mais força para repelir as tentações interiores. — Eis o conselho que dava S. Jerônimo à Salvina, sua discípula: Procura ter sempre à mão algum bom livro, afim de que te sirva de escudo para te defender dos maus pensamentos.[7]
Em terceiro lugar, a leitura espiritual nos ajuda a descobrir as máculas de nossa alma e a fazê-las desaparecer. O mesmo S. Jerônimo em sua carta a Demetriades, lhe recomenda o uso da leitura espiritual como de um espelho.[8] Queria dizer que, assim como o espelho nos mostra as manchas que temos no rosto, assim os bons livros nos fazem conhecer as faltas que mancham a nossa consciência. — Falando da leitura espiritual, S. Gregório diz: Nela podemos contar nossas perdas e nossos adiantamentos de espírito: nela observamos o atraso ou proveito que temos adquirido no caminho de Deus.[9]
Em quarto lugar, na leitura dos livros santos, recebem-se muitas luzes e inspirações divinas. — Dizia S. Jerônimo que na oração nos falamos a Deus, mas na leitura é Deus que nos fala.[10] O mesmo dizia Sto. Ambrósio: Quando oramos, Deus escuta as nossas preces; mas quando lemos, escutamos a voz de Deus.[11] — Como já vos disse, não podemos ter sempre, perto de nós, nosso padre espiritual, nem ouvir os santos pregadores que nos dirigem e nos comunicam as luzes necessárias para caminhar bem no caminho do Senhor: Os bons livros suprem suas instruções. — Sto. Agostinho diz que eles são outras tantas cartas que o Senhor em sua bondade nos envia, para nos advertir dos perigos que corremos, nos ensinar os caminhos da salvação, nos animar a sofrer as adversidades, nos esclarecer e inflamar de seu divino amor. Quem, pois deseja salvar-se e adquirir o amor divino, deve ter frequentemente estas cartas do paraíso.
7. — Quantos santos, pela leitura de algum bom livro, se decidiram a deixar o mundo e se entregar a Deus! É sabido que Sto. Agostinho estava miseravelmente encadeado por suas paixões e vícios, e, com a leitura de uma Epístola de S. Paulo, foi iluminado pela divina luz, saiu das suas trevas e começou a se santificar. — O mesmo sucedeu a Sto. Inácio de Loyola. Era soldado e estava preso no leito por uma grave enfermidade. Para se desenfastiar pôs-se a ler as vidas dos santos em um livro que tomou ao acaso. Isto foi bastante para se determinar a começar uma vida santa; e eis como veio a ser o pai e fundador da Companhia de Jesus, que tanto bem tem feito à Igreja. — Assim também S. João Colombini, lendo quase contrariado um livro de piedade, resolveu a deixar o mundo, se santificou e fundou também um instituto religioso. — Eis ainda o que conta Sto. Agostinho: Dois cortesãos do Imperador Teodósio entram um dia em um mosteiro. Um deles se põe a ler por acaso a vida de Sto. Antão abade, que encontra em uma cela, e logo se sente tão penetrado de santos pensamentos, que toma a resolução de renunciar o mundo. Depois, fala com tanto ardor ao seu companheiro, que o persuade a ficar com ele no mosteiro para se consagrarem ao serviço de Deus. — Lê-se também na crônica dos Carmelitas descalços que uma senhora de Viena se tinha preparado para ir uma tarde a um festim. Não se realizando, porém este, ela tomou para distrair a sua cólera, um livro de piedade com que deparou, e nele aprendeu tão bem o desprezo do mundo, que o abandonou com suas vaidades e se fez carmelita da reforma de Sta. Teresa. — O mesmo aconteceu à duquesa de Montalto, na Sicília, a qual, também por acaso, se pôs, um dia, a ler as obras de Sta. Teresa; e tanta impressão lhe causaram que obteve o consentimento de seu marido e entrou na ordem das Carmelitas descalças.
8. — A leitura dos livros espirituais foi útil aos santos, não só no começo de sua conversão, mas também durante toda a sua vida, para se manterem e aproveitarem cada vez mais no caminho da perfeição. — O glorioso S. Domingos beijava ternamente seus livros de piedade e os apertava com amor ao seu coração, dizendo: “Estes livros me dão o leite que me nutre”. — E como poderiam os anacoretas passar tantos anos a viver no deserto, longe de todo o comércio com os homens, se não tivessem a prática da oração e o uso dos livros espirituais? — O grande servo de Deus Tomas de Kempis não podia gozar de mais doce consolação, do que estar em um canto de sua cela a ler um livro que lhe falasse de Deus. — O mesmo se dava com o venerável padre Vicente Carafa, já citado em outro lugar: assegurava que não podia aspirar maior felicidade neste mundo, do que passar a sua vida em uma pequena gruta, com um pedaço de pão e um livro de piedade. — S. Filipe Nery empregava todas as horas de que podia dispor, em ler livros espirituais, e particularmente as vidas dos santos.
9. — Se me perguntardes agora que livro seria preferível para vós, que sois religiosa, eu vos aconselho antes de tudo que procureis ter aqueles em que vossa alma acha mais devoção e dos quais mais vos aproveitastes para ter união com Deus. Tais podem ser as obras de S. Francisco de Sales, de Sta. Teresa, de Luiz de Granada, de Rodrigues, de Saint-Jure, de Nieremberg, de Pinamonti, e outros semelhantes, especialmente os Avisos aos Religiosos pelos Padres de S. Mauro e o Diretório ascético do Pe. Scaramelli, obra moderna, mas muito douta e devota. — De resto, geralmente falando, eu vos aconselho a deixar os livros difíceis, e escolher os que são devotos e fáceis. Procurai ler as matérias que sabeis serem mais úteis para a vossa perfeição. Lede muitas vezes, entre outros, as vidas dos santos e principalmente das santas e santos que foram religiosos, como de Sta. Teresa, de Sta. Maria Madalena de Pazzi, de Sta. Catarina de Senna, de Sta. Joana de Chantal, da Venerável Sór Francisca Farnese, da Venerável Sór Serafina de Capri, de S. Pedro de Alcântara, de S. João da Cruz, de S. Francisco de Borgia, de S. Luiz Gonzaga, e outros. Lede também frequentemente as vidas dos santos mártires, principalmente de tantas santas virgens que deram a vida por Jesus Cristo. Para este fim podeis adquirir as vidas dos santos publicadas pelo padre Croiset, as quais se vendem em três volumes separados da sua obra grande dos Exercícios de Piedade.
Oh! como é vantajoso ler as vidas dos santos! Nos livros de instrução sobre as virtudes, vê-se o que se deve fazer, mas nas vidas dos santos se mostra o que fizeram tantos homens e tantas mulheres que eram da mesma carne que nós. Seu exemplo se outra utilidade não nos trouxesse, ao menos nos faria humilhar e prostrar com a face em terra. Quando lemos as grandes coisas que fizeram os santos, de certo nos envergonhamos do pouco que fizemos e fazemos por Deus.
10. — Falando de si mesmo, dizia Sto. Agostinho: Meu Deus, a consideração dos exemplos dos vossos servos consumia a minha tibieza e me inflamava de amor para convosco.[12] — S. Boaventura escreveu também de S. Francisco, que, quando ele pensava nos santos e em suas virtudes, se sentia tão abrasado de novo amor de Deus, como se estivesse em contato com outras tantas pedras encandecidas.[13]
S. Gregório conta que havia em Roma um pobre chamado Sérvulo, que era enfermo e tinha necessidade de mendigar para viver. Das esmolas que recebia dava uma parte aos outros pobres como ele, e com outra parte comprava também alguns livros devotos. Não lia, mas os fazia ler por outros a quem dava hospedagem nos aposentos em que dormia. Deste modo, diz S. Gregório, Sérvulo adquiriu uma grande paciência e, ao mesmo tempo, uma admirável ciência das coisas divinas. Quando chegou o tempo de morrer, pediu a seus amigos que continuassem a sua cara leitura; mas, antes de expirar, os interrompe, dizendo: “Calai-vos, calai-vos. Não ouvis como todo o paraíso ressoa em cânticos e harmonias?”. E, dizendo estas palavras, terminou docemente a vida. Apenas expirou, um odor celeste se espalhou pelo quarto, e provou a santidade do mendigo que partiu deste mundo pobre dos bens materiais, mas rico de virtudes e merecimentos.[14]
11. — Eis o que se deve observar para tirar muito fruto da leitura espiritual:
Primeiramente, antes de começar, é preciso recomendar-se a Deus, a fim de ser esclarecido por sua luz nas coisas que se vão ler. Já ficou dito, que, na leitura espiritual, é o Senhor que se digna de nos falar. Devemos, pois, ao pegar no livro fazer esta prece: Falai, Senhor, que o vosso servo ouve.[15] Fazei-me conhecer a vossa vontade, pois quero vos obedecer em tudo.
Em segundo lugar, é preciso ler unicamente para avançar no amor divino, e não para se instruir nem para satisfazer a sua curiosidade. Ler para se instruir, é fazer, não uma leitura espiritual, mas um estudo inútil nesse momento para a alma. O mal é maior quando se lê por curiosidade, como fazem algumas religiosas, que devoram os livros, sem pensar em outra coisa que em percorrê-los depressa para contentar a sua curiosidade. Que proveito esperam elas de tais leituras? Todo o tempo que empregam nelas é tempo perdido. — S. Gregório dizia: Muitos lêem, e lêem muito; mas, depois da leitura, se acham em jejum, como se nada houvessem lido, porque o fizeram somente por curiosidade.[16] — Disto justamente o Santo censura o médico Teodoro, que lia os livros sagrados, percorrendo-os com vista rápida e sem fruto.
12. — Em terceiro lugar atenda-se que para aproveitar a leitura espiritual, é preciso ler pausadamente e com reflexão. — Sto. Agostinho dizia: Nutre a tua alma com as leituras divinas.[17] Ora, para nutrir-se bem, não é bastante devorar os alimentos, mas é preciso mastigá-los bem.
Advirta-se, portanto, que para tirar bastante fruto das boas leituras, é preciso ruminar, isto é ponderar bem o que se lê, aplicando a si mesmo as resoluções práticas que se insinuam. — Sto. Efrem aconselha que se torne a ler o que fez mais impressão.18
Além disso, quando, na leitura de um ensinamento ou de um exemplo que penetra o coração, se recebe alguma luz especial, é muito útil parar um pouco e elevar o espírito a Deus, tomando alguma boa resolução, ou fazendo algum bom ato interior ou alguma prece fervorosa. — Dizia S. Bernardo: A oração interrompa a leitura.[19] Nesse caso, pois, deixe-se a leitura para se entregar à oração, enquanto durar o sentimento vivo que fez impressão. — Façamos sempre assim, à exemplo da abelha, que não passa de uma flor a outra, senão depois de ter recolhido todo o mel que ai encontra.
Pouco importa que, em tal caso, se esgote de todo o tempo, determinado para a leitura, porque, assim, é empregado de uma maneira mais útil para o nosso bem espiritual: a leitura de uma só linha, às vezes, nos é mais proveitosa, do que a de uma página inteira.
É preciso, enfim, ao terminar a leitura, escolher algum sentimento mais piedoso que se tenha tirado dela, e levá-lo consigo, como se faz com uma flor de um jardim, onde se tenha estado a recrear-se.
ORAÇÃO
Senhor, eu vos agradeço todos os socorros e todas as luzes que me destes, para me santificar e me unir a vós mais e mais. Quando virá o dia em que me possa ver livre de todos os afetos terrenos, e inteiramente unida ao vosso coração tão cheio de ternura para com minha alma? Eu espero tudo isto da vossa misericórdia infinita. Meu Jesus, eu não poderia resistir mais ao vosso amor, não quero mais ser ingrata para convosco, como fui pelo passado. Senhor, dai-me um coração novo, que só cuide em vos agradar.[20] O desejo que me inspirais, faz esperar a graça que vos peço.
Meu Deus, eu creio em vós, e daria mil vezes a vida para vos ser fiel. Espero em vós pelos merecimentos de Jesus Cristo, sem os quais estaria perdida. Ó sumo bem, eu vos amo, e por vosso amor renuncio tudo, e abraço todas as penas, todas as cruzes que quiserdes me enviar. Eu vos ofendi, mas disso tenho mais pesar, do que se tivesse experimentado todas as desgraças. Agora nada mais desejo, senão a vossa graça e o vosso amor. Meu Deus, ajudai-me, tende piedade de mim.
Vós também, ó Virgem santa, socorrei-me por vossas preces, que obtém de Deus tudo o que pedem. Minha Mãe, recomendai-me ao vosso Filho, não vos esqueçais de mim.

Notas:
1. Lectio nos ad orationem instruit et ad operationem. Lectio et oratio sunt arma, quibus diabolus expugnatur, beatitudo acquiritur. De modo bene viv. c. 50.
2. Sine legendi studio, neminem ad Deum intentum videas.
3. Attende lectioni. I. Tim. 4, 13.
4. Non necesse habes aurum in luto querere. Ep. ad Furiam.
5. Quaerite et invenietis. Matth. 7, 7.
6. Quaerite legendo et invenietis meditando; lectio quasi cibum ori apponit, meditatio masticat. Scal. claust. c. 2.
7. Semper in manibus tuis sit divina lectio, ut omnes cogitationum sagittae hujusmodi clypeo repellantur.
8. Lectionem adhibeas speculi vice.
9. Ibi foeda, ibi pulchra nostra cognoscimus; ibi sentimus quantum proficimus. Mor. l. 2, c. 1.
10. Oras; loqueris ad Sponsum. Legis; ille tibi loquitur. Ep. ad Eustoch. 218
11. Illum alloquimur, cum oramus; illum audimus, cum legimus. De off. l. 1, c. 2.
12. Exempla servorum tuorum, congesta in sinum cogitationis nostrae. urebant et absumebant gravem torporem, et accendebant nos valide. Conf. l. 9, c. 2.
13. Ex recordatione Sanctorum, tanquam lapidum ignitorum, in deificum recalescebat incendium. Vit. S. Franc. c. 9.
14. S. Greg. In Evang. hom. 15.
15. Loquere, Domine, quia audit servus tuus. I. Reg. 3, 9.
16. Multi legunt, et ab ipsa lectione jejuni sunt. In Ezech. h. 10.
17. Nutri animam tuam lectionibus divinis.
18. Non pigeat saepius eumdem repetere versum. De Potient. et Cons. saec.
19. Oratio lectionem interrumpat. De Vita sol. c. 10.
20. Cor mundum crea in me Deus.

Extraído de “A Verdadeira Esposa de Jesus Cristo” de Santo Afonso Maria de Ligório,

embora escrito para irmãs religiosas,
não pode ser subestimado o benefício para todas as outras pessoas
apud catholicapologetics.info.






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A mortificação cristã por Cardeal Desidério José Mercier (1851-1926)


Livre-tradução do Artigo “La mortificación cristiana” do Cardeal Desidério José Mercier (1851-1926) publicado em “Cuadernos de La Reja” número 2.


Désiré-Félicien-François-Josep Mercier (Braine-l'Alleud, 21 de Novembro de 1851 — Bruxelas, 23 de Janeiro de 1926) foi um prelado belga da Igreja Católica Romana que serviu como arcebispo de Bruxelas-Mechelen de 1906 até falecer. Foi elevado a cardeal em 1907. Doutorado em Filosofia distinguiu-se como um dos líderes do movimento neotomista e como um defensor acérrimo da resistência belga à ocupação alemã em 1914.

Nota: Todas as práticas de mortificação que reunimos aqui são recolhidas dos exemplos dos santos, especialmente Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino, Santa Teresa, São Francisco de Sales, São João Berchmans, ou são recomendadas por reconhecidos mestres da vida espiritual, como o Venerável Louis de Blois, Rodriguez, Scaramelli, Abade Allemand, Abade Hamon, Abade Dubois, etc.
Nota adicional deste blog - a diferença entre mortificação e penitência é: a mortificação trata-se de frear as paixões e as desordens da carne; a penitência é uma obra de reparação pelos pecados cometidos. Ambas possuem o objetivo final de purificação e a mesma obra pode penitenciar e mortificar. 


Artigo 1 – Objeto da mortificação cristã

A mortificação cristã tem por fim neutralizar as influências malignas que o pecado original ainda exerce nas nossas almas, inclusive depois que o batismo as regenerou. Nossa regeneração em Cristo, ainda que anulou completamente o pecado em nós, nos deixa sem embargo muito longe da retidão e da paz originais. O Concílio de Trento reconhece que a concupiscência, ou seja, o triplo apetite da carne, dos olhos e do orgulho, se deixa sentir em nós, inclusive depois do batismo, afim de excitar-nos às gloriosas lutas da vida cristã (Conc. Trid., Sess. 5, Decretum de pecc. orig.).
A Escritura logo chama esta tripla concupiscência de “homem velho“, oposto ao “homem novo” que é Jesus que vive em nós e nós mesmos que vivemos em Jesus, como “carne” ou natureza caída, oposta ao “espírito” ou natureza regenerada pela graça sobrenatural. Este velho homem ou esta carne, ou seja, o homem inteiro com sua dupla vida moral e física, deve ser, não digo aniquilado, porque é coisa impossível enquanto dure a vida presente, mas sim mortificado, ou seja, reduzido praticamente à impotência, à inércia e à esterilidade de um morto; há que impedir-lhe que dê seu fruto, que é o pecado, e anular sua ação em toda a nossa vida moral.
A mortificação cristã deve, portanto, abraçar o homem inteiro, estender-se a todas as esferas de atividade nas quais a natureza é capaz de mover-se. Tal é o objeto da virtude de mortificação. 



Artigo 2 – Exercício da mortificação cristã



A. Mortificação do corpo
1º Limite-se, tanto quanto possa, em matéria de alimentos, ao estritamente necessário. Medite estas palavras que Santo Agostinho dirigia a Deus: “Me ensinastes, oh meu Deus, a pegar os alimentos somente como remédios. Ah, Senhor!, aqui quem de entre nós não vai além do limite? Se há um só, declaro que este homem é grande e que deve grandemente glorificar vosso nome” (Confissões, liv. X, cap. 31);
2º Roga a Deus com frequência, roga-lhe a cada dia que lhe impeça, com Sua graça, de transpassar os limites da necessidade, ou deixar-se levar pelo atrativo do prazer;
3º Não pegue nada entre as refeições, ao menos que haja alguma necessidade ou razões de conveniência;
4º Pratique a abstinência e o jejum, mas pratique-os somente debaixo da obediência e com discrição;
5º Não lhe está proibido saborear alguma satisfação corporal, mas faça-o com uma intenção pura e bendizendo a Deus;
6º Regule seu sono, evitando nisto toda relaxação ou molície, sobretudo pela manhã. Se pode, fixe-se uma hora para deitar-se e levantar-se, e obrigue-se a ela energicamente;
7º Em geral, não descanse senão na medida do necessário; entregue-se generosamente ao trabalho, e não meça esforços e penas. Tenha cuidado para não extenuar seu corpo, mas guarde-se também de agradá-lo: quando sentir que ele está disposto a rebelar-se, por pouco que seja, trate-o como a um escravo;
8º Se sente alguma ligeira indisposição, evite irritar-se com os demais por seu mal humor; deixe aos seus irmãos o cuidado de queixar-se; pelo que lhe cabe, seja paciente e mudo como o divino Cordeiro que levou verdadeiramente todas as nossas enfermidades;
9º Guarde-se de pedir uma dispensa ou revogação à sua ordem do dia pelo mínimo mal-estar. “Há que fugir como da peste de toda dispensa em matéria de regras“, escrevia São João Berchmans;
10º Receba docilmente, e suporte humilde, paciente e perseverantemente a mortificação penosa que se chama doença.



B. Mortificação dos sentidos, da imaginação e das paixões

1º Feche seus olhos, diante de tudo e sempre, a todo espetáculo perigoso, e inclusive tenha a valentia de fechá-los a todo espetáculo vão e inútil. Veja sem olhar; não se fixe em ninguém para discernir sua beleza ou feiúra;
2º Tenha seus ouvidos fechados às palavras bajuladoras, aos louvores, às seduções, aos maus conselhos, às maledicências, às zombarias que ferem, às indiscrições, à crítica malévola, às suspeitas comunicadas, a toda palavra que possa causar o menor esfriamento entre duas almas;
3º Se o sentido do olfato tem que sofrer algo por consequência de certas doenças ou debilidades do próximo, longe de queixar-se disso, suporte-o com uma santa alegria;
4º No que concerne à qualidade dos alimentos, seja muito respeitoso do conselho de Nosso Senhor: “Comei o que vos for apresentado“. “Comer o que é bom sem comprazer-se nisto, o que é mau sem mostrar aversão, e mostrar-se indiferente tanto em um como no outro, esta é a verdadeira mortificação“, dizia São Francisco de Sales;
5º Ofereça a Deus suas comidas, imponha-se na mesa uma pequena privação: por exemplo, negue-se um grão de sal, um copo de vinho, uma guloseima, etc.; os demais não o perceberão, mas Deus o terá em conta;
6º Se o que lhe apresentam excita vivamente seu atrativo, pense no fel e no vinagre que apresentaram a Nosso Senhor na cruz: isto não lhe impedirá de saborear o manjar, mas servirá de contrapeso ao prazer;
7º Há que evitar todo contato sensual, toda carícia em que se poria certa paixão, em que se buscaria ou onde se teria um gozo principalmente sensível;
8º Prescinda de ir aquecer-se ao menos que lhe seja necessário para evitar-lhe uma indisposição;
9º Suporte tudo o que aflige naturalmente a carne; especialmente o frio do inverno, o calor do verão, a dureza da cama e todas as incomodidades do gênero. Faça boa cara em todos os tempos, sorria a todas as temperaturas. Diga com o profeta: “Frio, calor, chuva, bendizei ao Senhor“. Felizes se podemos chegar a dizer com gosto esta frase tão familiar a São Francisco de Sales: “Nunca estou melhor do que quando não estou bem“;
10º Mortifique sua imaginação quando lhe seduz com a isca de um posto brilhante, quando se entristece com a perspectiva de um futuro sombrio, quando se irrita com a recordação de uma palavra ou de um ato que o ofendeu;
11º Se sente em você a necessidade de sonhar, mortifique-a sem piedade;
12º Mortifique-se com o maior cuidado sobre o ponto da impaciência, da irritação ou da ira;
13º Examine a fundo seus desejos, e submeta-os ao controle da razão e da fé: você não deseja mais uma vida longa que uma vida santa? prazer e bem-estar sem tristeza nem dores, vitórias sem combates, êxitos sem contrariedades, aplausos sem críticas, uma vida cômoda e tranquila sem cruzes de nenhum tipo, ou seja, uma vida completamente oposta à de nosso divino Salvador?
14º Tenha cuidado de não contrair certos costumes que, sem ser positivamente maus, podem chegar a ser funestos, tais como o costume de leituras frívolas, dos jogos de azar, etc.;
15º Trate de conhecer seu defeito dominante, e quando o tiver conhecido, persiga-o até suas últimas pregas. Por isso, submeta-se com boa vontade ao que poderia ter de monótono e de entediado na prática do exame de consciência particular;
16º Não lhe está proibido ter bom coração e mostrá-lo, mas fique atento para o perigo de exceder o justo meio. Combata energicamente os afetos demasiado naturais, as amizades particulares, e todas as sensibilidades moles do coração.



C. Mortificação do espírito e da vontade

1º Mortifique seu espírito proibindo-lhe todas as imaginações vãs, todos os pensamentos inúteis ou alheios que fazem perder o tempo, dissipam a alma, e provocam o desgosto do trabalho e das coisas sérias;
2º Deve distanciar de seu espírito todo pensamento de tristeza e de inquietude. O pensamento do que poderá suceder no futuro não deve preocupá-lo. Quanto aos maus pensamentos que o molestam, deve fazer deles, distanciando-os, matéria para exercer a paciência. Se são involuntários, não serão para você senão uma ocasião de méritos;
3º Evite a teimosia em suas ideias, e a obstinação em seus sentimentos. Deixe prevalecer de boa vontade o juízo dos demais, salvo quando se trate de matérias em que você tem o dever de pronunciar-se e falar;
4º Mortifique o órgão natural de seu espírito, ou seja, a língua. Exerça-se de boa vontade no silêncio, seja porque sua Regra o prescreve, seja porque você o impõe espontaneamente;
5º Prefira escutar os demais do que falar você mesmo; mas, sem embargo, fale quando convenha, evitando tanto o excesso de falar demasiado, que impede os demais expressar seus pensamentos, como o de falar demasiado pouco, que denota indiferença que fere ao que dizem os demais;
6º Não interrompa nunca quem fala, e não corte com uma resposta precipitada quem lhe pergunta;
7º Tenha um tom de voz sempre moderado, nunca brusco nem cortante. Evite os “muito”, os “extremamente”, os “horrivelmente”, etc.: não seja exagerado em seu falar;
8º Ame a simplicidade e a retidão. A simulação, os rodeios, os equívocos calculados que certas pessoas piedosas se permitem sem escrúpulo, desacreditam muito a piedade;
9º Abstenha-se cuidadosamente de toda palavra trivial ou inclusive ociosa, pois Nosso Senhor nos adverte que nos pedirá conta delas no dia do Juízo;
10º Acima de tudo, mortifique sua vontade; é o ponto decisivo. Adapte-a constantemente ao que sabe ser do beneplácito divino e da ordem da Providência, sem ter nenhuma conta nem de seus gostos nem de suas aversões. Submeta-se inclusive a seus inferiores nas coisas que não interessam para a glória de Deus e os deveres de seu cargo;
11º Considere a menor desobediência às ordens e inclusive aos desejos de seus Superiores como dirigida a Deus;
12º Lembre-se de que praticará a maior de todas as mortificações quando ame ser humilhado e quando tenha a mais perfeita obediência àqueles a quem Deus quer que se submeta;
13º Ame ser esquecido e ser tido por nada: é o conselho de São João da Cruz, é o conselho da Imitação de Cristo: não fale apenas de si mesmo nem para bem nem para mal, senão busque pelo silêncio fazer-se esquecer;
14º Diante de uma humilhação ou repreensão, se sente tentado a murmurar. Diga como Davi: “Melhor assim! Me é bom ser humilhado!“;
15º Não entretenha desejos frívolos: “Desejo poucas coisas, e o pouco que desejo, o desejo pouco“, dizia São Francisco;
16º Aceite com a mais perfeita resignação as mortificações chamadas de Providência, as cruzes e os trabalhos unidos ao estado em que a Providência o pôs. “Quanto menos há de nossa eleição, mais há de beneplácito divino“, dizia São Francisco de Sales. Queríamos escolher nossas cruzes, ter outra distinta da nossa, levar uma cruz pesada que tivesse ao menos algum brilho, antes que uma cruz ligeira que cansa por sua continuidade: Ilusão! Devemos levar nossa cruz, e não outra, e seu mérito não se encontra em sua qualidade, senão na perfeição com que a levamos;
17º Não se deixe turbar pelas tentações, pelos escrúpulos, pelas aridezes espirituais: “o que se faz durante a sequidão é mais meritório diante de Deus do que o que se faz durante a consolação“, dizia o santo bispo de Genebra;
18º Não devemos entristecer-nos demasiado por nossas misérias, senão mais bem humilhar-nos. Humilhar-se é uma coisa boa, que poucas pessoas compreendem; inquietar-se e impacientar-se é uma coisa que todo o mundo conhece e que é má, porque nesta espécie de inquietude e de despeito o amor próprio tem sempre a maior parte;
19º Desconfiemos igualmente da timidez e do desânimo, que fazem perder as energias, e da presunção, que não é mais do que o orgulho em ação. Trabalhemos como se tudo dependesse de nossos esforços, mas permaneçamos humildes como se nosso trabalho fosse inútil.



D. Mortificações que há que praticar em nossas ações exteriores
1º Deve ser o mais exato possível em observar todos os pontos de sua regra de vida (baixe o Panejamento de Vida Espiritual aqui), obedecer sem demora, lembrando-se de São João Berchmans, que dizia: “Minha maior penitência é seguir a vida comum“; “Fazer o maior caso das menores coisas, tal é o meu lema“; “Antes morrer que violar uma só de minhas regras!“;
2º No exercício de seus deveres de estado, trate de estar muito contente com tudo o que parece feito de propósito para desagradá-lo e molestá-lo, lembrando-se também aqui da frase de São Francisco de Sales: “Nunca estou melhor quando não estou bem“;
3º Não conceda jamais um momento à preguiça; da manhã à noite, esteja ocupado sem descanso;
4º Se sua vida se passa dedicada, ao menos em partes, ao estudo, aplique os seguintes conselhos de Santo Tomás de Aquino aos seus alunos: “Não se contentem com receber superficialmente o que lêem ou escutam, senão tratem de penetrar e aprofundar seu sentido. – Não fiquem nunca com dúvidas sobre o que podem saber com certeza. – Trabalhem com uma santa avidez em enriquecer seu espírito; classifiquem com ordem em sua memória todos os conhecimentos que possa adquirir. – Sem embargo, não tratem de penetrar os mistérios que estão por acima de sua inteligência“;
5º Ocupe-se unicamente da ação presente, sem voltar ao que precedeu nem adiantar-se pelo pensamento ao que vem a seguir; diga com São Francisco: “Enquanto faço isto, não estou obrigado a fazer outra coisa“; “Apressemo-nos com bondade: será tão logo tanto quanto esteja bom“;
6º Seja modesto em sua compostura. Nenhum porte era tão perfeito como o de São Francisco; tinha sempre a cabeça direita, evitando igualmente a ligeireza que age em todos os sentidos, a negligência que a inclina adiante e o humor orgulhoso e altivo que a levanta para trás. Seu rosto estava sempre tranquilo, livre de toda preocupação, sempre alegre, sereno e aberto, sem ter embargo uma jovialidade indiscreta, sem risadas ruidosas, imoderadas ou demasiado frequentes;
7º Quando se encontrava só mantinha-se em tão boa compostura como diante de uma grande assembleia. Não cruzava as pernas, não apoiava a cabeça no encosto. Quando rezava, ficava imóvel como uma coluna. Quando a natureza lhe sugeria seus gostos, não a escutava em absoluto;
8º Considere a limpeza e a ordem como uma virtude, e a sujeira e a desordem como um vício: evite os vestidos sujos, manchados ou rasgados. Por outra parte, considere como um vício ainda maior o luxo e o mundanismo. Faça de modo que ao ver sua vestimenta e adereços, ninguém diga: está desarrumado; nem: está elegante; senão que todo o mundo possa dizer: está decente.



E. Mortificações para praticar em nossas relações com o próximo

1º Suporte os defeitos do próximo: faltas de educação, de espírito, de caráter. Suporte tudo o que nele lhe desagrada: seu modo de andar, sua atitude, seu tom de voz, seu sotaque, e todo o resto;
2º Suporte tudo a todos e suporte até o fim e cristãmente. Não se deixe levar jamais por essas impaciências tão orgulhosas que fazem dizer: Que posso fazer de tal o qual? Em que me concerne o que diz? Para que preciso o afeto, a benevolência ou a cortesia de uma criatura qualquer, e desta em particular? Nada é menos segundo Deus que estes desprendimentos altaneiros e estas indiferenças depreciativas; melhor seria, certamente, uma impaciência;
3º Encontra-se tentado a irar-se? Pelo amor a Jesus, seja manso. De vingar-se? Devolva bem por mal. Diz-se que o segredo de chegar ao coração de Santa Teresa, era fazer-lhe algum mal. De mostrar a alguém uma cara má? Sorria com bondade. De evitar seu encontro? Busque-o por virtude. De falar mal dele? Fale bem. De falar-lhe com dureza? Fale doce e cordialmente;
4º Ame fazer o elogio de seus irmãos, sobretudo daqueles a quem sua inveja se dirige mais naturalmente;
5º Não diga acuidades em detrimento da caridade;
6º Se alguém se permite em sua presença palavras pouco convenientes, ou mantém conversações próprias para danificar a reputação do próximo, poderá às vezes repreender com doçura a quem fala, mas mais frequentemente será melhor distanciar habilmente a conversação ou manifestar por um gesto de descontentamento ou de desatenção querida que o que se está dizendo o desagrada;
7º Quando lhe custe fazer um favor, ofereça-se a fazê-lo: terá duplo mérito;
8º Tenha horror de apresentar-se diante de si mesmo ou dos demais como uma vítima. Longe de exagerar suas cargas, esforce-se em encontrá-las leves. O são em realidade muito mais frequentemente do que parece, e o seriam sempre se tivesse um pouco mais de virtude.



Conclusão

Em geral, saiba negar à natureza o que pede sem necessidade.
Saiba fazer-lhe dar o que ela nega sem razão. Seus progressos na virtude, disse o autor da Imitação de Cristo, serão proporcionais à violência que saiba fazer-se.
Dizia o santo Bispo de Genebra: “Há que morrer afim de que Deus viva em nós: porque é impossível chegar à união da alma com Deus por outro caminho que pela mortificação. Estas palavras: Há que morrer! são duras, mas serão seguidas de uma grande doçura, porque não se morre a si mesmo senão para unir-se a Deus por esta morte“.
Quisera Deus que pudéssemos aplicar-nos com pleno direito as seguintes palavras de São Paulo: “Em todas as coisas sofremos a tribulação… Trazemos sempre em nosso corpo a morte de Jesus, afim de que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos” (2 Cor. 4, 10).



Retirado do site: fsspx.com.br




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Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

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