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Seja um Mecenas Salus


Política Eclesiástica IV -  Os Seminários


¹Professora Ana Paula Barros



“Se o sentinela vir a espada vir contra a terra e não tocar a trombeta, e o povo não for avisado, e vier a espada e tirar a vida de alguém, esse será levado por causa da sua iniquidade, mas o sangue dele eu o requererei da mão do sentinela.” - Ezequiel 33, 6.

“Proclama a palavra, insiste, quer seja oportuno, quer não, repreende, censura, exorta com toda paciência e doutrina.” - 2 Timóteo 4,2



Depois de falarmos dos fundamentos da política eclesiástica, acredito que é possível constatar que a crise da Igreja é, na verdade, uma crise do clero. Não se trata de uma crise doutrinal, como muitos alegam, mas sim de uma crise comportamental. Também é possível notar certa desesperança nos apontamentos realizados, o que se deve ao fato de que esse “problema clerical” não está apenas em um padre que profere uma homilia com palavras de morte, mas também nos seus professores no seminário, e nos professores dos professores. Esse padre foi formado para ser assim. Dito isso, podemos entrar no tema tenebroso dos seminários.

Caso você não tenha conhecimento — embora certamente o tenha, já que os padres gostam de falar disso com entusiasmo, mesmo fazendo um trabalho fraco — a formação dura em média de oito a nove anos. Primeiro vem o propedêutico, que é um ano de preparação inicial. Depois, três anos de filosofia e quatro anos de teologia. Em seguida, há o período de prática pastoral, normalmente de um a dois anos em uma paróquia, cuidando de atividades como catequese e comunicação.

Para a maioria dos brasileiros, isso parece uma grande formação. No entanto, como professora, não deixo de olhar para os seminaristas que falam orgulhosos de seus anos de estudo e compará-los ao meu sobrinho que me diz que sabe contar até dez. É bonitinho, e só isso. A maioria de nós, que se dedica a estudar e serve a Deus dessa forma por vontade d’Ele mesmo, estuda bem mais do que isso e não sai por aí arrotando a própria formação. Mas os reverendos, do alto de sua humildade, o fazem, enquanto os estudiosos são chamados de soberbos. Aqui já fica nítida a confusão em que vive o clero brasileiro.

Durante esses estudos, há também algum tempo de “prática”, ou seja, parte das aulas é dedicada a exposições e explicações, isto é, oratória (que deveria agrupar a lógica e a retórica). Nos bons seminários, as notas vêm, ou vinham, já que muitos não fazem mais isso, divididas em teórica e prática de oratória sobre o tema. Alguns padres antigos têm seus boletins guardados, muito lindos.

Por isso, é surpreendente, absurdamente surpreendente, que um padre faça uma homilia ruim. Logo, ele foi treinado para ser ruim. Essa é a única resposta possível. Cabe perguntar se isso é realmente possível. E sim, é possível, falo como quem já viu e vê. E aqui nem entro no mérito das questões morais, limito-me apenas a mencionar a formação dos padres.







Quando falo de homilia, muitos padres, já munidos de suas grandes ideias preconcebidas, acham que estou a falar de homilias rebuscadas. Não sei se você sabe, mas existe uma rixa entre os padres sobre homilias simples e rebuscadas, cada um defendendo suas linguagens. Quando falo de boas homilias, não estou a falar nem de uma coisa nem de outra. Conheci um padre, em toda a minha vida, que pediu conselho sobre catequese e homilia. Ele disse: “Eu sou padre, não sou professor. Qual é o melhor método?” Sábio esse padre, humilde também, só que de verdade, não só no gogó.

Como todo discurso que visa educar, deve ter começo, meio e fim. Exemplos de santos seriam bons, pois exemplos são sempre bons. Um modo prático de aplicação, que no caso é a virtude, também é necessário.  Três a quatro parágrafos, cinco a sete linhas cada, escrito à mão, com antecedência. 

Mas todo leigo sabe que as homilias não são assim. De modo geral, o padre repete as leituras com outras palavras, o que é preferível, ou ele deturpa as leituras porque há algo que o desagrada na Palavra Sagrada.

Certa vez assisti à saga de um padre para adoçar uma leitura em que estava escrito claramente: “o salário do pecado é a morte” e outros trechos de intensidade tal e qual. Naquele domingo Jesus tinha preparado pela Igreja uma feijoada com sustança, não havia laranja ou couve para aliviar a digestão, era comida de gente grande mesmo. Pois o padre não gostou, acredita? Ele quis adoçar a feijoada que Jesus preparou. Foi uma saga, cada momento o discurso ficava pior, no fim não dava para acolher aquela homilia. Horrível. Intragável.

E para que você saiba, todo padre sabe quando fez algo errado. Todos sabem, sim. E ele terminou a homilia já consciente da meleca que tinha feito.

Esse padre, como tantos outros, tem problemas com partes do Evangelho. Então, ele tenta mudar para parecer mais cheio de “compaixão”. O Senhor sempre corrige padres assim, porque eles não têm autoridade para mudar o Evangelho. Mas o coração é duro, e eles se arrependem apenas por alguns minutos, depois esquecem. Esquecem porque não rezam a liturgia das horas todos os dias, não fazem oração mental.

O padre pode ficar sem celebrar a Santa Missa todos os dias, mas não pode deixar de rezar a Liturgia das Horas. A liturgia mantém o coração dos religiosos ligado à Palavra e com temor suficiente para não mudar o Evangelho por gosto pessoal. 





Voltando aos seminários...


Recentemente vi um vídeo de uma recém-convertida, muito fofa por sinal, que dizia que os padres não têm direção política, que não são nem de direita nem de esquerda. Ora, tenho certeza que ela está a repetir o discurso sonhador de alguns católicos. Meus caros, como digo aos meus alunos, isso não existe.

Quando o guri entra no seminário ele já tem mais de 17 anos, ou seja, já passou pelo ensino médio, talvez cursinho e, se for mais velho, faculdade. Acredite: ele tem inclinação política, moral e etc. Mesmo que viva com os pais ou com professores particulares, ele terá inclinação política segundo as diretrizes de educação que recebeu ou não recebeu.

Rezo muito a Deus para que vocês possam perder a ingenuidade e não perder a pureza do coração. Algumas esperanças que vocês nutrem são simplesmente irreais. Os guris e os senhores seminaristas têm inclinação política e os seminários também. Têm também linhas filosóficas, teológicas e até psicológicas, se considerarmos os comportamentos.

Então, o que ocorre é que o guri entra e fica dez anos envolto, se nutrindo (ou se desnutrindo) nesses óleos psicológicos, filosóficos e teológicos. Depois de dez anos, nasce um padre conforme esse influxo. O que o padre coloca para fora, o que vê nos outros, os demônios dentro dele que não foram expulsos — tudo que ele faz foi formado no seminário ou não remediado no seminário.

Claro que ele não nasce perfeito, mas, a depender do trabalho não feito no seminário, é difícil para ele seguir. Isso porque a maioria dos padres não faz uma formação continuada, e muitos escondem isso dizendo que a "compaixão é o que importa". Mas não ficam nem três horas atendendo os sacramentos ou fazendo caridade direta. Muitos nem celebram a missa diária, muitos mesmo. Mas são "cheios de compaixão".

Tudo isso são coisas que não foram remediadas no seminário e que tampouco são remediadas pelo bispo, como já vimos nos textos anteriores. De modo que esse padre se vê numa condição propícia para a acomodação ou para a realização de atividades administrativas, visando angariar mais uns metros na subida das posições clericais.


Antes que você se impressione, saiba que isso é algo recorrente no clero pela história. Já relatei em textos anteriores que essa é a tentação do clero (cargos, prestígio, privilégios, o poder do microfone), e o clero brasileiro está a lidar muito mal com ela.


Retomando o percurso, vale lembrar que esse guri formado no seminário, que depois de dez anos se viu um senhor padre, pode ser em si uma pessoa boa, bem-intencionada, cheia de muitas coisas que não deveria carregar. Pode também ser alguém que viu nessa posição uma forma de propagar o mal ou simplesmente, quando percebeu, já tinha caído no caminho do erro e não adiantava voltar atrás. Então, está até o momento solenemente no caminho errado, mesmo em roupas clericais.

Tudo isso existe, e cabe a todos nós, leigos, ter clareza disso e saber que, ainda assim, Cristo sustenta a Igreja. Até porque, com a situação do clero, a Igreja é um milagre. Esses textos têm o objetivo de lembrar os leitores disso. E esse milagre está acontecendo agora.

Apesar das sementes corrompidas semeadas nos púlpitos a cada domingo, o número de convertidos aumentou em todo o mundo. Isso não é definitivamente trabalho do clero. É o trabalho de vozes leigas, pequenas e insignificantes, que são puramente cristãs, que falam das virtudes e da vida em conduta santa, que rezam o terço e falam com olhos brilhantes dos santos e da Santa Igreja. Riqueza vinda dos livros, de uma indicação na internet, de uma pessoa com véu na missa, de outro que comungou de joelhos. Enfim, dos vários recursos que o Espírito Santo tem usado para o bem de sua Igreja, para a conversão dos que estão no erro e para a fortificação dos bons. Não veio dos padres.

E isso é muito importante neste ponto de reflexão. Esse movimento está conforme o que Senhor ordenou? Não está. Os padres deveriam fazer mais, entregar mais.

Mas o Espírito Santo não nos abandona, ele continua trabalhando na evangelização mesmo que os operários estejam ociosos, como de fato estão. E estão porque se autoenganam: fazem luau na praia e dizem que é missão missionária, mentem para alguém que está em pecado mortal dizendo que está tudo bem e chamam isso de "compaixão", olham para quem quer ter vida santa e dizem que isso é ser "farisaico".

Tudo isso vem deles, dos seminários, dos professores nos seminários e dos professores dos professores. Perceba como a cadeia é grande, a largura e a profundidade da deterioração e do acomodamento. Tudo revestido de silenciamento sepulcral.



Por quê? 


Bem, se o guri no seminário quer ser um padre bom mesmo, ser santo e ajudar o povo a ser santo, o guri está decidido. O que acontece? 

Te conto. 


O guri terá que passar os anos do seminário se isolando, porque assim como existem panelinhas no clero (e em qualquer lugar), existem panelinhas no seminário. Ele não se encaixa e se isola (muito parecido com muitos leigos). Aí, finalmente... senhor padre. O seminário é uma prova de fogo para o guri bom que quer ser um padre bom, ou seja, um padre santo.

Acontece que o padre bom que quer ser santo tem colegas, padres, mas não bons, que não gostam dele, porque ele quer ser santo. Então o padre bom se isola dentro do clero, se isola para se proteger e conseguir viver o sacerdócio em paz. Mas os padres não bons não se isolam, pelo contrário, se unem, se unem muito e até demais, vão juntos cantar na orelha do bispo e pronto: comandam a Igreja. Essa é a história do padre bom que quer ser santo.

No entanto, os padres bons são em maior número que os maus, mas eles se habituaram desde o seminário a se isolar para se proteger, a se isolar para poder ter paz. Nós, leigos, podemos entender, já que muitos de nós fazemos o mesmo. Mas no caso dos padres, o isolamento deles sai caro para nós, leigos. Nós estamos entregues nas mãos dos maus, ou dos que não sabem se são bons ou maus (acredite, existe aquele padre que oscila entre ser bom e seus demônios não exorcizados).

Na política eclesiástica existe quem aposta todas as fichas nos leigos. De minha parte, acredito que Deus apostou as fichas em nós, leigos, conservou alguns leigos, principalmente celibatários, para esse fim. Mas não podemos deixar de constatar: a crise do clero será resolvida pelo clero, será resolvida pelo ímpeto corajoso dos padres bons.

Muita gente acha que os padres estão completamente atados. Não é bem assim. Os padres, um pároco por exemplo, têm um poder considerável na própria paróquia. Para você ter uma ideia, se um padre, qualquer padre do interior, envia uma carta para Roma, ele é respondido diretamente, em no máximo um mês, com solução e etc. Como eu disse em textos anteriores, Roma é estruturada para amparar padres.

Ou seja, o pároco mais simples não está à mercê do bispo local, solto e indefeso, como alguns pensam. A questão é que no seminário eles são condicionados a determinados comportamentos, e um deles é essa inação, mesmo tendo poder em sua própria paróquia.

Os padres estão sob um condicionamento comportamental de silenciamento. Eles têm formas e recursos para serem eles mesmos o remédio. Falta o quê? Coragem. Essa palavra, que tanto define o agir cristão, somada a outra: convicção. Convicção de fazer o certo simplesmente porque é o certo.


O avanço dos maus se dá pela covardia dos bons.



“Não te ordenei eu? Sê forte e corajoso; não temas, não te apavores, porque contigo está o Senhor teu Deus, por onde quer que vás.” - Josué 1,9






¹Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)
















Ao nos depararmos com o tema “missa tridentina” é fácil encontrarmos várias vertentes de argumentos e contra-argumentos. Em alguns momentos também é muitíssimo fácil entrar em uma guerra intelectual, em que a missa é um dos tópicos que gradativamente se perde em meio a tantos outros temas igualmente reais e importantes. No entanto, cabe salientar a superioridade do tema da defesa da missa tridentina. No que refere aos argumentos, realmente acredito que muitos deles não resistem a uma avaliação lógica, também não permeiam as mentes pós-modernas (afinal, são as almas que hoje estão no mundo para santificação) e são certamente incompreendidos por pessoas que, em toda a sua vida, frequentaram outro rito.




Portanto, é difícil defender algo que as pessoas não tiveram a oportunidade de vivenciar. A maioria dos católicos não sabe o que é uma missa tridentina; muitos padres também desconhecem. Podem ter uma notícia por terceiros, mas não por experiência própria. Da mesma forma que não conhecem o rito maronita, greco-melquita, bizantino etc. A visão católica romana atual mostra-se, em grande parte, absolutamente autocentrada.




Isso me leva a fazer a defesa da missa tridentina pela via cultural, que é a minha via de atuação cristã: a missa tridentina é um patrimônio imaterial da humanidade. Esta frase, em si, já poderia finalizar toda a disputa e contra-disputa em relação ao tema. Mas cabe um desenvolvimento.

Um patrimônio pode ser definido como o conjunto de bens culturais que representam a identidade e a memória de um povo. Ele se divide em material e imaterial:

  • Patrimônio material: corresponde a bens tangíveis, como imóveis (cidades históricas, sítios arqueológicos, paisagens, edificações) e móveis (coleções arqueológicas, acervos museológicos, documentais, bibliográficos, fotográficos e cinematográficos). São elementos concretos que podem ser preservados fisicamente.
  • Patrimônio imaterial: refere-se às manifestações culturais intangíveis, como celebrações, saberes, tradições, religiosidade, música, danças, culinária, artesanato, mitologias, narrativas e línguas. São práticas e expressões transmitidas de geração em geração, fundamentais para a identidade de comunidades e povos.



Isso posto, podemos afirmar que o patrimônio material só encontra sentido de preservação, seu sopro de vida, por assim dizer, no patrimônio imaterial. No que se refere à missa tridentina, temos diante de nós o primeiro argumento: muitas igrejas só podem ser compreendidas em sua arquitetura pela vivência da missa tridentina. Sem ela, o patrimônio material fica deslocado, historicamente faltante. É o imaterial que dá sentido ao material.



O segundo argumento de defesa é que, exceto em textos latinos antigos, cantos gregorianos e escolas universitárias de saber clássico na Europa, é muito difícil para uma pessoa comum ter acesso à língua de César, Cícero e Virgílio. Muitos se perguntam por que isso seria importante. Ora, para um professor, a depender da matéria, é de suma relevância. Quanta riqueza há em uma aula que pode contar com o recurso de escutar, ainda hoje, uma língua apresentada em sala de aula numa disciplina tão distante de nós. Esse contato, não limitado por classe social ou conhecimento, mas aberto a todos, cria um fio de união histórica e pertencimento — tão necessário em nosso tempo, fortemente abalado por situações oriundas da falta de pertencimento e acesso.



A Igreja, como uma grande mãe, pode auxiliar pessoas, grupos, comunidades e até mesmo um país inteiro a romper o teto de limitação e nivelamento social imposto pela classe e pela restrição de acesso. Esse é, em si, o terceiro argumento: uma atuação sociocultural realmente ativa, comprometida com o acesso ao que a pessoa não teria se continuasse a se alimentar culturalmente apenas daquilo que está ao seu entorno. Que belo papel (que visão!) de atuação efetiva, simples, rotineira e acessível a todos os que quiserem.




O quarto argumento é o efeito da missa tridentina em suprir o desejo de nutrição espiritual de almas com características distintas. As almas não são iguais. Cada pessoa é uma alma diferente, única e irrepetível. Logo, cada alma se enamora, cresce e se nutre espiritualmente de forma distinta: umas pela caridade, outras pela simplicidade, outras pela comunidade, outras pela beleza, outras pela ordem, outras pela clareza, outras pelo amor, outras pela retidão, outras pela reverência. Se a intenção é alcançar as almas, é sensato que existam múltiplos recursos para nutrir cada uma. Muitos são os recursos, mas um só é o Espírito.




A missa tridentina é um recurso forte e poderoso. Conheci almas que só se mobilizaram para conhecer o Senhor ao vivenciar uma missa tridentina; a reverência e o mistério eram os nutrientes que suas almas ansiavam. Outras só conseguiram sair da profunda apatia de uma depressão por meio da missa tridentina; a vivência "que parece o céu" as retirou da vida que as fazia permanecer apáticas. É realmente belo ver como essa experiência se aproxima de um encontro com a arte. Algumas pessoas, diante de um quadro, podem responder às perguntas “o que vê?”, “o que sente?”, “você entendeu?” dizendo: “não vejo nada, não sinto nada, não entendo nada”. Outras, diante da mesmíssima obra, podem encher os olhos de lágrimas, deixar escapar suspiros de alegria, alívio ou compaixão, e responder: “eu entendo a minha vida”.




Rezo a Deus para que possamos ultrapassar a disputa, a competição, a inveja, o ciúme e o nivelamento forçoso e, assim, nos abrir ao enamoramento, ao maravilhamento diante do cuidado da atuação do Espírito Santo em sua Igreja. É Ele quem coloca diante de todos o remédio para cada tempo, remédio extraído do tesouro da tradição, um tesouro de riquezas espirituais, culturais, emocionais e intelectuais. É a própria Igreja que, pela abundância desse tesouro, pode prover tudo o que cada alma necessita, de forma individual, para sua nutrição e elevação em todas as áreas, de modo cuidadosamente específico e atento. Basta permitir, sem tardar, o acesso ao remédio, acesso livre, sincero e encorajado. 







Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)





Nos últimos anos, os clubes de leitura criados por grandes marcas se tornaram uma espécie de vitrine cultural. Além de vender produtos, essas iniciativas buscavam oferecer experiências, e o livro foi escolhido como um símbolo de sofisticação e profundidade. Afinal, o ato de ler carrega consigo um quê de conhecimento, reflexão e até mesmo status. Os clubes de leitura de marcas de luxo surgiram como uma forma de aproximar os consumidores de valores intangíveis: cultura, intelectualidade e pertencimento. Participar de um clube promovido por uma marca de luxo, por exemplo, é fazer parte de uma comunidade que compartilha interesses e estilo de vida. É um fio condutor entre grupos sociais, funcionando da mesma forma relatada no livro Modéstia: Ordem e Beleza.



“A leitura traz ao homem plenitude; o discurso, segurança; e a escrita, precisão.” - Francis Bacon (1625)




O impacto da leitura coletiva é outro ponto que nos faz olhar com certa curiosidade para esse movimento social. Veja bem, ler em grupo amplia a experiência individual, porque o livro deixa de ser  uma narrativa de vivência solitária e passa a ser um ponto de encontro de ideias. No entanto, toda arte tem esse efeito no receptor, como refletimos nessas aulas aqui, mas uma leitura em grupo traz essa experiência de forma reverberada, justamente o que falta na sociedade atual. Recentemente, escutei uma acadêmica dizer que se sente incomodada quando uma pessoa quer falar sobre um livro ou um filme e ela não quer ouvir. Acredito que isso me gerou tanto espanto, vindo de uma acadêmica, que certamente já escrevi em algum texto sobre essa experiência. Esse desinteresse total e completo é justamente o que esses grupos de leitura compartilhada reduzem. As discussões, trocas e interpretações diferentes criam uma rede de significados que fortalece vínculos sociais. É isso que as marcas perceberam: o livro, quando compartilhado, gera comunidade e engajamento, uma certa linguagem interna do grupo, verbal e não verbal, algo valioso para qualquer estratégia de branding. Afinal, a moda é uma linguagem não verbal; não é espantoso que utilize outras linguagens não verbais para ancorar espaço na vida cotidiana do consumidor. Também dá às marcas certo tom de “desprendimento material” — que coisa, não é? Mas, ao observarmos o comportamento francês, um país sede de muitas maisons, veremos que é justamente isso que aparece: uma interessante ligação entre as marcas e uma postura desprendida, despojada, lida como um sinal de riqueza intelectual. Não escrevo com a intenção de dizer se isso é correto ou errado, como é muito comum nos discursos brasileiros. Nos estudos culturais, mais vale olhar e constatar o que existe e os movimentos humanos de distanciamento e aproximação de posturas já existentes em outras culturas. Nesse caso, esse movimento das marcas está muito alinhado com a leitura francesa de imagem e aparência em união com a riqueza intelectual.




“O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.” - Padre Antônio Vieira


“Ler livros alimenta a mente, fortalece o pensamento crítico e protege contra reducionismos ideológicos.” - Papa Leão XIV (centenário da Livraria Editora Vaticana, 2026)




"Um livro, independente da edição, é nobre." Essa frase chegou até mim pela boca da dona da livraria em que eu trabalhava quando tinha entre 15 e 23 anos. Num livro existe conhecimento, memória e poder. Quando uma marca se associa a um livro, já se ancora a esses valores e transmite a ideia de que oferece mais do que produtos: oferece cultura e profundidade. Seja com uma sede genuína, seja por uma sede de status, o fato é que parte da sociedade busca isso. 

Mas, quando essa moda passar, o que fica é a lembrança de que o livro, em si, já é um objeto de luxo acessível, pelo valor que agrega à vida de quem lê.

No fim das contas, o que podemos retirar de bom dessa fase é a inspiração para cultivar a leitura como hábito pessoal. Se até grandes marcas enxergaram no livro um símbolo de prestígio, nós podemos continuar a vê-lo como um espaço íntimo de crescimento e cultivo reflexivo, mesmo sem o glamour dos clubes patrocinados. O verdadeiro luxo será sempre o tempo, o tempo de se dedicar ao próprio autocultivo.



“Há três caminhos para o fracasso: não ensinar o que se sabe, não praticar o que se ensina, e não perguntar o que se ignora.” - São Beda



projeto Estudos Literários dos Clássicos, realizado desde 2019: disponível aqui









Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)





A escrita, principalmente a escrita à mão, não é uma prática apenas para quem quer ser escritor, tampouco uma forma de colocar em prática uma tara gramatical, mas ajuda a organizar a mente para alicerçar bem o pilar da retórica. Escrever é como pintar uma tela que se imprime na mente de quem lê, e esse alguém pode ser o próprio escritor. Quando escrevemos sobre temas, principalmente os mais banais, como é a proposta do ciclo de escrita deste ano, escolhemos fragmentos da memória a respeito do tema. Esses fragmentos, quando trabalhados, formam uma narrativa; essa narrativa, quando lida pelo escrevente, gera um acervo autobiográfico, num ciclo de retroalimentação da alma por memórias revisitadas, organizadas, narradas, apreciadas e reassimiladas.


A narrativa de qualquer assunto dentro dessa forma de escrita pelo maravilhamento melhora a acuidade sobre temas triviais, coloca sobre eles um olhar atento e notas fantásticas, engraçadas ou reflexivas. As coisas comuns da vida ganham outro impacto depois de narradas pelo maravilhamento. Esse é o poder da escrita e o objetivo deste projeto. Não tenho nenhuma intenção de avaliar textos; minha intenção é que, ao escrever pelo maravilhamento, a porta da retórica se abra e você possa ordenar a mente, falar sobre coisas interessantes, tornar o habitual instigante e ser uma pessoa interessada na vida, atributo próprio do filósofo.


Para isso, gostaria de orientar que faça a escrita à mão. O texto deverá ter no máximo uma página e, no mínimo, um parágrafo de sete linhas. Clareza é mais desejável que refinamento, mas, se quiser aproveitar para enriquecer o vocabulário buscando sinônimos para palavras que percebe repetir muito, essa é uma ótima oportunidade.


Muitos alunos têm dificuldade em encontrar a própria linguagem. É bem comum no Brasil esse “roubo linguístico” que, de uma hora para outra, toma as pessoas como um espírito de possessão: de repente, todo mundo está a falar como o fulano ou o beltrano. Isso não é de todo ruim, mas evite imitar linguagens nesta etapa. Aqui, a intenção é que você possa usar algo seu; portanto, se você é formal, use a linguagem formal; se é mais descolado, use essa linguagem sem recorrer a gírias e palavrões, que são normalmente uma forma de incapacidade de comunicação, já que a pessoa costuma usar a mesma palavra para algo bom e para algo ruim. Para esta etapa, isso não é interessante. A linguagem informal não é ruim, desde que exista clareza nas ideias, assim como nos textos escritos em formato de fluxo de pensamento.

Esqueça a tara da gramática: simplesmente escreva buscando pelo maravilhamento. Depois, você poderá revisar o texto. O texto é algo vivo e, como a vida, raramente é perfeito.



Confira aqui os temas propostos para cada mês do ano.






Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

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Totus Tuus, Maria (2015)



Uma mulher hindu se jogando na pira funerária de seu marido, por Frederic Shoberl. Em O Mundo em Miniatura: Hindoostão.




"Seu marido, recentemente falecido, jazia na pira funerária, esperando para ser acesa. Centenas de pessoas das vilas próximas observavam e aguardavam que a viúva cumprisse seu dever de castidade até o fim. Quando a pira foi acesa, a mulher deu vários passos em direção ao fogo e rastejou sobre o corpo do marido para abraçar-lhe o pescoço. A dor era excruciante, mas, se recuasse, envergonharia sua família e provavelmente seria linchada por uma multidão de qualquer forma. Então, permaneceu ali."







A prática de queimar uma viúva na pira funerária do marido, conhecida como suttee ou sati, foi comum em partes da Índia até o século XIX. Para permitir que os bens e propriedades do homem falecido retornassem à família, esperava-se que sua viúva cometesse suicídio e cumprisse seu dever de castidade imolando-se na pira funerária. Há registros também de viúvas afogadas ou enterradas vivas com seus maridos mortos. Essa prática perdurou por cerca de dois milênios, até ser proibida pelos britânicos em 1829, sob a alegação de que era desumana e imoral.

O caso do suttee levanta questões centrais da metaética: seria moralmente aceitável apenas porque foi endossado por uma cultura? Os oficiais britânicos que o proibiram são moralmente equivocados por impor um padrão externo e interferir em práticas consideradas sagradas por parte da população local? Existe uma resposta objetiva para determinar se o suttee é moralmente aceitável?

A metaética é o ramo da ética que investiga a natureza da moralidade. Pergunta-se: o que é moralidade? Ela é objetiva? De onde vem? Qual a relação entre fatos morais e o mundo físico? Antes de definir como devemos viver, é preciso estabelecer se existe algo como um “dever ser” universal. Uma das questões mais importantes é se há uma realidade moral que nos obriga independentemente de nossas crenças e opiniões. Talvez os códigos éticos sejam apenas relativos a grupos e culturas. Talvez não exista uma moralidade objetiva e vinculante fora da tradição e das preferências pessoais. Talvez... mas será?

Aí está a questão da metaética.

Nesse debate, surgem diferentes posições:

O realismo moral sustenta que existem fatos morais independentes da mente e da cultura, que são verdadeiros e vinculantes, como a afirmação de que “o estupro é errado”, válida mesmo que uma sociedade inteira acreditasse o contrário.

O antirrealismo moral nega essa tese, afirmando que a moralidade é construída socialmente ou relativa às culturas. Dentro dele, o relativismo moral apresenta três formas principais:

O relativismo descritivo observa que códigos éticos variam radicalmente entre culturas. Por exemplo, algumas sociedades consideram a homossexualidade imoral, enquanto outras a aceitam; algumas incentivam a poligamia, enquanto outras defendem a monogamia; algumas praticaram a escravidão, enquanto outras a condenaram. Essa diversidade foi registrada por antropólogos modernos e até por autores antigos como Heródoto, que relatou como diferentes povos consideravam suas próprias práticas como as melhores. O relativismo descritivo não afirma que a moralidade seja relativa, mas fornece a base empírica para versões mais fortes.

O relativismo metaético vai além e afirma que verdades morais só existem em relação a culturas específicas. Assim, dizer que “relações sexuais pré-nupciais são imorais” pode ser verdadeiro em uma cultura e falso em outra, dependendo do contexto. Nesse sentido, a moralidade não é universal, mas relativa ao ponto de vista cultural.

O relativismo normativo é a versão mais forte: sustenta que nenhuma cultura deve julgar a moralidade de outra como inferior, nem intervir em seus códigos éticos. Contudo, essa posição enfrenta uma tensão interna, pois ao afirmar que “nenhuma cultura deve julgar outra”, acaba introduzindo um princípio universal — justamente o tipo de valor que os relativistas costumam negar.


Já a visão tomista oferece uma alternativa distinta. Para São Tomás de Aquino, doutor Comum da Igreja, e portanto para o catolicismo, a moralidade deriva da natureza racional e relacional do ser humano, fundamentada na lei natural (lex naturalis), inscrita na essência humana e que orienta o homem a buscar o bem e evitar o mal. Assim, práticas como o suttee não poderiam ser justificadas apenas pela tradição cultural, pois violam a dignidade intrínseca da pessoa e a ordem racional universal.

Na tradição católica, o título de doutor comum da Igreja designa um teólogo cuja obra é reconhecida como referência universal para o ensino e a interpretação da fé. Diferente de outros doutores que são valorizados em áreas específicas, o doutor comum é considerado normativo para toda a Igreja, servindo como guia seguro na formação doutrinal, filosófica e teológica. O tomismo foi integrado à Santa Doutrina Católica e, por isso, não pode ser considerado “apenas mais uma opinião



O problema da diversidade moral é frequentemente usado como evidência em defesa do relativismo, já que ele parece oferecer uma explicação plausível para o fato de existir tanto desacordo moral no mundo, especialmente entre culturas distintas. Há divergências sobre a moralidade da homossexualidade, proibida e até punida com a morte em alguns países, e sobre o uso de anticoncepcionais, que em alguns contextos é ilegal, enquanto pesquisas mostram que a maioria dos americanos o considera moralmente aceitável. Essa diversidade sugere que, se a moralidade é relativa às culturas, esperaríamos encontrar divergências mais profundas quanto mais diferentes forem os contextos culturais.

O realismo moral, que sustenta a existência de verdades objetivas sobre valores, oferece duas respostas principais ao problema da diversidade moral. A primeira é que muitas divergências culturais não são propriamente morais, mas derivam de crenças diferentes sobre fatos do mundo. O exemplo do senicídio, o sacrifício ritual de idosos, ilustra isso: se uma cultura acredita que a vida após a morte exige corpos vigorosos, a prática pode ser vista como expressão de cuidado e compaixão. O desacordo, portanto, não seria sobre valores morais universais, mas sobre crenças factuais acerca da vida após a morte. A segunda resposta é que a diversidade não implica inexistência de objetividade. O relativista assume que, se a moralidade fosse objetiva, não haveria desacordo. Mas essa suposição é questionável. Em matemática, por exemplo, alunos podem dar respostas diferentes a uma equação, sem que isso elimine a existência de uma solução correta. Analogamente, a diversidade moral não prova que não existam verdades morais objetivas; apenas mostra que elas são difíceis de alcançar.

O relativismo, por sua vez, enfrenta dificuldades conceituais e práticas. Uma delas é definir o que conta como “cultura”. Se a moralidade é relativa a culturas, como avaliar minorias dissidentes, como os abolicionistas nos Estados Unidos antes da abolição da escravidão? Se apenas a maioria define a moralidade, então visões minoritárias seriam automaticamente falsas, o que parece implausível. Outra objeção é o chamado reductio ad absurdum: se o relativismo fosse verdadeiro, práticas como o suttee, a mutilação genital feminina ou a escravidão seriam moralmente aceitáveis apenas porque foram endossadas por certas culturas. Isso leva a conclusões contraintuitivas e absurdas, minando a posição relativista. Algumas coisas simplesmente parecem erradas. Alguns relativistas, como David Wong, tentam contornar esse problema admitindo que certas moralidades são superiores porque promovem melhor o florescimento humano. Mas essa admissão já implica um critério universal — o bem-estar humano — e, portanto, aproxima-se do realismo moral. Reconhecer que algumas moralidades são objetivamente melhores contradiz a tese relativista de que não existem padrões universais.

Para Tomás de Aquino, a moralidade deriva da lei natural (lex naturalis). Isso significa que, mesmo diante da diversidade cultural, há princípios universais que ultrapassam épocas e lugares, como o respeito à dignidade da pessoa. 




Um dos argumentos frequentemente apresentados em defesa do relativismo é que ele promove a tolerância. O relativista sustenta que devemos abordar a ética com humildade e evitar condenar precipitadamente comportamentos diferentes dos nossos como imorais. A ideia é que, se reconhecermos que nenhum código ético é superior ao de outro, nossa capacidade de praticar a tolerância aumenta, já que todas as moralidades seriam iguais. O relativismo, nesse sentido, tornaria injustificada qualquer pretensão de superioridade moral.

Por mais nobre que essa proposta pareça, ela enfrenta uma dificuldade conceitual: se todas as moralidades são iguais, por que deveríamos considerar a tolerância como um valor universal? Se o relativismo é verdadeiro, então não há razão objetiva para afirmar que um código ético que promove a tolerância é melhor do que outro que a ignora. Ao defender o relativismo com base na tolerância, o relativista acaba reconhecendo a existência de pelo menos um valor universal — a própria tolerância — e isso mina sua posição, pois concede que há pelo menos um princípio que não é relativo. Além disso, a tolerância, embora apropriada em muitos casos, não pode ser aplicada indiscriminadamente. Certos comportamentos, como abuso infantil, escravidão, violência gratuita ou opressão dos vulneráveis, não merecem tolerância, mas sim indignação moral.

Outra objeção forte ao relativismo é que, se ele fosse verdadeiro, não haveria espaço para reforma social ou progresso moral. Se todos os códigos éticos são igualmente válidos, então mudanças históricas como a abolição da escravidão, o fim da segregação racial ou a conquista do direito de voto por mulheres e minorias não poderiam ser vistas como melhorias, mas apenas como alterações culturais. O progresso moral exige um padrão objetivo que permita afirmar que uma moralidade posterior é superior à anterior. Sem esse padrão, o relativismo reduz avanços históricos a meras mudanças de opinião coletiva. Contudo, exemplos como o trabalho contra o tráfico de escravos, a luta pela igualdade racial ou outras mobilizações que desafiaram costumes e leis injustas mostram claramente que houve progresso moral. Negar isso parece contraintuitivo e incompatível com nossa experiência histórica.


Em conclusão, grande parte do relativismo defendido pelas pessoas comuns nasce de virtudes como a tolerância e a humildade diante de opiniões opostas, e nesse aspecto pode ser valorizado. No entanto, quando submetido a uma análise crítica rigorosa, o relativismo apresenta inconsistências, dificuldades práticas e até consequências imorais. Entre elas estão a impossibilidade de reconhecer progresso moral, a aceitação de comportamentos obviamente errados como moralmente válidos em certas culturas e a contradição de admitir valores universais enquanto se nega sua existência. Não por acaso, pesquisas mostram que apenas uma minoria de filósofos profissionais endossa o antirrealismo e, dentro dele, o relativismo ético. O relativismo entra em conflito com aquilo que parece fundamental à experiência humana: nossa capacidade de reconhecer atrocidades como a escravidão, o Holocausto ou o Estupro de Nanking como erros objetivos, da mesma forma que reconhecemos a correção de uma verdade matemática simples como 2 + 2 = 4. Por isso, o relativismo enfrenta sérios problemas e sua capacidade de explicar a natureza da moralidade deve ser questionada. 



Isso posto, é importante considerar o peso moral, sobretudo dos discursos religiosos e clericais atuais. Se, por um lado, acolhem (e até mesmo acalentam) aqueles que cometem erros, por outro, raramente oferecem palavras de encorajamento aos bons e à virtude. Essa falta de cuidado com quem deseja ser bom e fazer o certo é consequência do relativismo ético, que tornou o discurso em favor da santidade vazio e sem convicção, já que o próprio orador não acredita nela. Para que a santidade seja vivida, é necessária uma radicalidade moral — e, para isso, é de importância radical estabelecer valores universais, valores cristãmente superiores. 






Referências

REZKALLA, Paul. Aren’t Right and Wrong Just Matters of Opinion? On Moral Relativism and Subjectivism. In: Introduction to Philosophy: Ethics. Rebus Community, 2021. 




Aulas sobre ética aqui





¹Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)









A moda pertence ao território da linguagem não verbal, é verdade. Não por acaso, documentos oficiais do Papa Pio XII citam diversas vezes a moda, a modéstia e o papel do designer.

No mercado internacional, ocorreu uma mudança que talvez passe despercebida para muitos brasileiros, mas que me chamou bastante atenção: o Brasil começou a ser visto como luxo.

Isso significa uma alteração na imagem que alguns países têm do Brasil, associando-o a alguém que aproveita a vida, com tempo livre. Esse Brasil imaginado participa de um estilo de vida aspiracional. Veja, por exemplo, o desfile da Chanel em Paris: o tema foi liberdade. A maison traduziu essa ideia nas peças com referências ao lazer, esportes e viagens, reforçadas pela curadoria musical.

No cenário geral, não chega a ser surpresa. Os sinais dessa associação já vinham surgindo discretamente: o interesse dos coreanos pela bossa nova, playlists americanas intituladas old money recheadas de músicas brasileiras, e a abertura da loja da Farm Rio em Nova York, felizmente recebida como marca de luxo.

Voltando ao desfile da Chanel: as modelos usavam peças menos estruturadas, os clássicos da maison apareceram em novos tecidos e o logo surgiu fortemente em diferentes formas. Já a Dior, conhecida pelos vestidos de princesa, apresentou criações fluidas e plissadas, com cinturas baixas, flores na cintura típicas dos anos 1920 e franjas. O nome da marca apareceu em destaque nos arcos de cabelo.

Ao meu ver, ambas as maisons sinalizam um afastamento temporário da alfaiataria e uma certa anti- aversão aos logos. Os desfiles reforçam a ideia de que, quando símbolos de status se tornam acessíveis, os ricos migram para aquilo que permanece exclusivo ou simplesmente fazem o oposto. Nesse caso, o luxo está na própria vida encenada nas passarelas: tempo livre, viagens e esportes em horários variados.

Curiosamente, o desfile da Chanel me lembrou Ralph Lauren, enquanto a Dior me lembrou a Chanel dos anos 20.









E o que isso nos interessa? Interessa, no que se refere aos estudos culturais, pelo fato de que, no Brasil, recentemente, os códigos de marca foram usados para diversas finalidades além de gostar daquela marca ou de colecionar determinadas coisas. Esses códigos, para alguns, veja bem, viraram uma receita para ser visto de determinada forma. O que, em si, não representa problema algum.


Acontece que, como era de se esperar, as próprias marcas reagiram no sentido oposto. Maisons conhecidas por peças estruturadas e de alfaiataria colocaram o casual e até aquela horrenda calça rasgada em jogo. Certamente isso, em algum momento, chegará às massas, ou seja, às pessoas comuns. Talvez, em pouco tempo, vejamos surgir outros códigos associados ao suposto tempo livre e às viagens, embora seja mais difícil reproduzir a vida em si. Diferente da compra de uma peça de alfaiataria, isso exige uma mudança de praça e de preço.



No mercado existe essa expressão: o luxo tem praça e preço específico. Ou seja, uma classe social, uma certa capacidade de disponibilidade e um preço alto. Um livro de capa dura, por exemplo, não é luxo, porque tem acessibilidade fácil por disponibilidade e preço; tem uma praça ampla e preço acessível. O mesmo vale para todos os outros produtos. Assim, o que ocorre é, na verdade, a venda de um produto com percepção de luxo.


Agora podemos destrinchar o que isso tem a ver com a nossa história brasileira. Quando Dom João voltou para Portugal, ele raspou os cofres do Brasil. Dom Pedro I começou um reinado sem dinheiro para realizar seu natural empreendedorismo. Sempre que recordo essa parte da história, não consigo deixar de pensar que, de certa forma, essa inanição financeira, somada ao sofrimento da escravatura, ao sufocamento da natural generosidade indígena pela comercialização e à própria corte portuguesa, retratada pelos ingleses como sem asseio enquanto os brasileiros eram asseados, gerou, talvez, essa nossa fixação nacional pela aparência e pela limpeza de tudo em vestes de algodão branco.


Tudo isso junto certamente gerou essa nossa fixação brasileira pela forma como somos vistos e por, finalmente, não termos impasses financeiros. Nós somos mais definidos pela história do que por qualquer outra coisa. A nossa história nos dá os horizontes; temos certa programação histórica para trilhar. A filosofia não visa à solução, a filosofia visa ao conhecer, ao olhar para. Isso já nos oferece, ao menos em forma de cogitação, a possibilidade de vislumbrar outros horizontes históricos para o país.


Ao avaliarmos a história, mesmo com a influência da educação francesa, portanto da cultura francesa que justamente preza o oposto do citado, por tanto tempo não deixamos esse traço como brasileiros. É sinal de que realmente está profundamente ligado à trama da identidade nacional. Mas nem todas as linhas dessa trama são boas para nós, brasileiros.



Aulas sobre Cultura aqui






¹Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

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 Menologion de Basílio II (cerca de 985 d.C., Constantinopla), iluminadores manuscritos bizantinos



Santa Melânia, a Jovem, nascida em Roma em 383, pertenceu a uma das famílias mais influentes da aristocracia romana e viveu em um período de intensas transformações políticas e religiosas no Império. O século IV e início do V foram marcados pela oficialização do cristianismo como religião do Estado, pelo Édito de Tessalônica em 380, e pela crise que culminou na invasão de Roma pelos visigodos em 410. Nesse contexto de instabilidade, muitas famílias nobres se voltaram para o ascetismo e o monasticismo. 

Casada aos treze anos com Valério Piniano, teve dois filhos que morreram ainda pequenos. Depois dessa experiência de dor, decidiu junto ao marido viver em continência e dedicar sua fortuna à fé cristã. Venderam propriedades na Itália, Sicília, África e Britânia, e aplicaram os recursos em obras de caridade e apoio às comunidades religiosas. Após a invasão de Roma, viveram na Sicília e depois na África, onde mantiveram contato com Santo Agostinho. Mais tarde, viajaram ao Egito e à Palestina, estabelecendo-se em Jerusalém, onde fundaram conventos e hospícios próximos ao Monte das Oliveiras, tornando-se figuras centrais na vida monástica da região.

Sua participação intelectual foi notável. Melânia manteve relações com grandes pensadores cristãos, como os santos Jerônimo, Agostinho e Alípio, participando de debates teológicos e sendo reconhecida por sua erudição e santidade. Em Constantinopla, contribuiu para a conversão de seu tio Volusiano, figura política relevante na corte de Teodósio II. Sua influência ultrapassava os limites estritamente religiosos.

Embora não tenha deixado obras próprias, sua vida foi registrada por Gerôncio em De Vita Sanctae Melaniae, principal fonte sobre sua trajetória, que a apresenta como modelo de ascetismo e santidade. Além disso, Santo Agostinho dedicou-lhe o tratado De Gratia et Peccato. Esses textos apontam sua relevância intelectual e cultural, inserindo-a na tradição hagiográfica e monástica que moldou o cristianismo primitivo.

Santa Melânia faleceu em Jerusalém em 31 de dezembro de 439, sendo celebrada liturgicamente na mesma data. Sua memória permanece como símbolo da união entre aristocracia e ascetismo, e como exemplo da participação feminina na difusão do monasticismo e na consolidação da fé cristã. Sua vida mostra como, em meio às crises políticas e religiosas do Império Romano, mulheres da elite transformaram sua condição social e cultural em instrumento de serviço cristão. 






Casamento Josefino



Santa Melânia e o marido viveram uma escolha e um caminho singular dentro do cristianismo: o chamado casamento josefino. Hoje, devido às ideias de Freud somadas ao desejo desesperado de uniões por carência, é difícil conceber, até mesmo em meios cristãos, esse estado que era muito encorajado por Santo Agostinho. Santa Melânia e o marido não se ligaram a nenhuma ordem religiosa, lembrando que os mosteiros estavam ainda em formação embrionária nos séculos IV e V. O que existia era o celibato leigo e grupos que se formavam no deserto ou nos montes, compostos por monges e monjas reclusos.

Portanto, é muito importante, ao ler a história dos santos, moldar a mente para vislumbrar a realidade em que eles viviam e não permanecer restrito à noção limitada de vida religiosa que hoje a maioria dos cristãos possui. O casamento josefino era uma dessas práticas — muito singular e rara, é verdade — mas que rendeu muitos frutos. No cristianismo primitivo, tratava-se de uma forma de matrimônio em que os cônjuges, de comum acordo, viviam em continência, renunciando à vida sexual para dedicar-se integralmente à fé e ao ascetismo, inspirados no modelo de Maria e José. Essa prática foi adotada por alguns casais da aristocracia cristã entre os séculos IV e V, pelo conhecimento comum na época da superioridade da castidade.

Entre os casais conhecidos que viveram o casamento josefino estão:

  • Santa Melânia, a Jovem, e Piniano
  • Santa Cecília e Valeriano
  • Santa Paula de Roma e Toxócio (após a viuvez, Paula viveu em continência, mas sua união inicial é por vezes associada a esse ideal).




Superioridade da Castidade


Santo Agostinho refletiu profundamente sobre a superioridade da castidade, entendendo-a como um estado de vida que aproxima o ser humano da perfeição espiritual e da liberdade interior. Para ele, a castidade não era apenas abstinência, mas uma forma de ordenar os desejos e submeter corpo e alma ao amor de Deus. Em seus escritos, como De Bono Coniugali e De Sancta Virginitate, o Doutor da Igreja afirma que o matrimônio é bom e santo, mas a virgindade e a continência voluntária são ainda mais elevadas, pois representam uma entrega total ao Senhor.

Ele escreve que “a castidade perfeita é não apenas a integridade do corpo, mas também a pureza da alma”. Assim, aponta que quem escolhe viver em continência o faz por amor maior, renunciando a bens legítimos para alcançar um bem superior. Santo Agostinho via na virgindade e no celibato uma antecipação da vida futura, em que não haverá casamento, mas todos estarão unidos a Deus. A Igreja preserva essa percepção até os dias de hoje: cada celibatário vive em si mesmo um fragmento antecipado da realidade sempiterna do Reino dos Céus, e é por isso que esse é considerado um estado de vida superior. A castidade, portanto, é um sinal escatológico, uma forma de testemunhar já no presente a realidade eterna.

O termo escatológico vem do grego éschatos (“último”, “fim”) e, no contexto cristão, refere-se ao estudo ou à dimensão das realidades últimas: morte, juízo, céu, inferno e a consumação da história na eternidade. A teologia escatológica busca compreender como a vida presente se relaciona com o destino final da humanidade e do mundo. Toda a vida humana pode ser vista sob lentes escatológicas, mas o celibato é a realidade humana abraçada livremente que mais se aproxima da realidade celestial.


Essa visão influenciou fortemente o cristianismo primitivo, encorajando práticas como o celibato leigo e o casamento josefino, vividos por casais como Santa Melânia e Piniano. Ao valorizar a castidade como superior ao matrimônio, Santo Agostinho não desvalorizava o casamento, mas o colocava em uma hierarquia espiritual do amor. O celestial é superior ao temporal.




O celibato e a vida intelectual



A castidade, entendida como virtude que ordena os desejos e integra corpo e alma, eleva a vida espiritual e fortalece a vida intelectual. Ao viver em continência, numa decisão assumida como estado de vida, o indivíduo aprende a dominar suas paixões e emoções, adquirindo maior autoconhecimento e disciplina. Esse autodomínio libera energia mental que, de outra forma, seria consumida por preocupações afetivas românticas, permitindo maior concentração nos estudos, na reflexão e na criatividade. Essa energia mental e afetiva é redirecionada e focalizada nos estudos, sem perda, alteração ou enfraquecimento de qualquer aspecto da personalidade; ao contrário, torna-a mais forte, alicerçada e regulada.

Além disso, a castidade purifica o olhar sobre o outro, favorecendo relações mais honestas e respeitosas, o que cria ambientes intelectuais mais saudáveis e colaborativos, não influenciados por ciúmes, invejas, carências e inseguranças, características comuns em contextos onde o foco e preocupação em relações românticas consome energia mental, mesmo que de forma não verbal e falsamente apresentada como intelectual. 

O corpo, visto como dom sagrado, é valorizado e integrado à vida espiritual, evitando excessos que poderiam dispersar a mente. A castidade é, portanto, verdadeira liberdade: liberdade para pensar com clareza, para criar com profundidade e para amar de forma mais parecida com o amor de Cristo. 








 "Se todas as partes do meu corpo fossem convertidas em línguas, e se cada membro tivesse voz humana, ainda assim eu não poderia fazer justiça às virtudes da santa e venerável Paula." - São Jerônimo




Paula de Roma, nascida em 347, viveu em um momento de intensas transformações no Império Romano, quando o cristianismo deixava de ser apenas uma religião tolerada para se tornar uma força estruturante da vida social e cultural. O século IV foi marcado pelo Édito de Milão (313), que garantiu liberdade de culto, e pelo reinado de Constantino e seus sucessores, que favoreceram a expansão da fé cristã. Nesse contexto, a aristocracia romana passou a desempenhar papel decisivo na difusão do ascetismo e na formação das primeiras comunidades monásticas, especialmente femininas.




A vitória de Constantino na Batalha da Ponte Mílvia, em 312, foi interpretada como sinal divino e reforçou sua aproximação com a nova fé. A fundação de Constantinopla, erguida como um centro cristão, foi em 330.

O Concílio de Niceia, convocado em 325, estabeleceu dogmas fundamentais e combateu heresias como o arianismo, o imperador assumia papel de guardião da ortodoxia. A partir de Teodósio I, com o Édito de Tessalônica em 380, o cristianismo niceno tornou-se religião oficial do Império, e práticas pagãs foram progressivamente reprimidas. Essa união entre poder o secular e religioso redefiniu a identidade romana e moldou a cultura europeia.

Muitas famílias nobres abraçaram o ascetismo e financiaram obras religiosas. Foi nesse ambiente que se destacou Paula de Roma, que após a viuvez renunciou ao luxo e dedicou sua vida ao cristianismo. Sua trajetória, profundamente ligada a São Jerônimo, ocorre nesse movimento de mulheres da elite que fundaram comunidades monásticas e fortaleceram a presença cristã em regiões históricas como Belém.





Pertencente a uma família nobre, Paula casou-se com o senador Toxócio e teve cinco filhos. Após a morte do marido, aos 32 anos, renunciou ao luxo e à posição social para dedicar sua vida e fortuna ao serviço religioso. 

Foi discípula e colaboradora de São Jerônimo. Santa Paula financiou o trabalho de tradução da Bíblia para o latim — a célebre Vulgata — como também participou intelectualmente do processo, dominando o grego e auxiliando na revisão dos textos. São Jerônimo exaltou sua erudição e disciplina em diversas cartas, afirmando: “Se todas as partes do meu corpo fossem convertidas em línguas, eu não poderia dizer nada que se aproximasse das virtudes da venerável Paula.” Em outro trecho, destacou sua renúncia à nobreza: “Nobre em família, mais nobre ainda em santidade; outrora rica nos bens do mundo, agora mais distinta pela pobreza que abraçou por Cristo.”


Em 385, Santa Paula realizou uma peregrinação à Terra Santa e, em 396, estabeleceu-se em Belém, onde fundou igrejas, um hospital e um mosteiro feminino, tornando-se abadessa. São Jerônimo descreve com emoção como ela se prostrava diante dos lugares santos, chorando e contemplando espiritualmente os episódios da vida de Cristo. Sua atuação consolidou a presença cristã na Palestina e materializou um visão cristã aliada à cultura e ao cuidado comunitário.


Santa Paula faleceu em 404, sendo sepultada na Basílica da Natividade. Canonizada, é celebrada liturgicamente em 26 de janeiro e reconhecida como padroeira das viúvas e co-patrona da Ordem de São Jerônimo. Sua vida exemplifica o papel das mulheres e é uma referência de dedicação, erudição e liderança religiosa. A memória de Santa Paula, preservada nos escritos de São Jerônimo, mostra como a fé e a cultura se entrelaçaram na formação da tradição cristã, e como uma mulher da aristocracia romana pôde transformar sua condição social em instrumento de serviço e santidade.





apostila virtudes e literatura I






O Trivium é apresentado como uma "filosofia de vida", um fio que liga a infância, a adolescência e a maturidade intelectual. O percurso é: primeiro absorver fatos (gramática), depois aprender a pensar sobre eles (lógica) e, por fim, expressar-se com clareza e criatividade (retórica).

No estágio da gramática, a criança é comparada a um papagaio: repete, memoriza, acumula vocabulário e regras. É um período de intensa absorção, em que o conhecimento é armazenado como matéria-prima para o que virá. Já na fase da lógica, o espírito se torna questionador. O aluno começa a analisar, comparar, discernir causas e efeitos; é o momento em que a mente se abre para o raciocínio crítico. Finalmente, na retórica, surge a capacidade de criar, persuadir e comunicar, ainda mantendo a honestidade intelectual.

Essa sequência é didática e bíblica: conhecimento, entendimento e sabedoria. Não basta acumular dados; é preciso organizá-los e, sobretudo, aplicá-los (isso é o que nos diferencia de uma IA). A educação clássica, nesse sentido, pode ser vista como uma forma de autodidatismo, de autoeducação que dura a vida toda. Não busca formar especialistas em compartimentos estanques, em caixinhas, mas cultivar uma mente capaz de aprender qualquer coisa, em qualquer tempo. É, portanto, o modelo de aprendizado mais compatível com a época pós-moderna, cheia de informações pela internet, em que é preciso, de forma radical, absorver, questionar e comunicar num ambiente que demanda certa inclinação para o aprendizado e interesses em prol de preservar a nossa humanidade. Infelizmente, o Brasil, em sua atuação no setor da educação, tem feito forte opressão em relação a isso, colocando essa possibilidade como algo ruim, sendo que, na verdade, é uma porta para que, através da educação de uma parte da população nesse método, se consiga dar novo tom à educação brasileira, tão massacrada e sofrida. Uma parcela de pessoas com fome de conhecimento que possa valorizar a faca e o queijo que o professor oferece.

Há também uma dimensão cultural muito presente na educação clássica, como o nome evidencia. Os autores lembram que a língua é a chave da cultura: mudar palavras e significados é mudar a própria civilização. Muitos autores tocam nesse tema. Por isso, o ensino de línguas e literatura é um fundamento; lê-se muito nessa modalidade de educação.

A lógica, por sua vez, é a ferramenta que impede que o pensamento se dissolva em contradições. E a retórica é apresentada como a arte de dar forma bela e eficaz às ideias, seja em cartas, debates ou discursos públicos.

O percurso educacional sugerido é progressivo: antes dos 10 anos, foco no vocabulário; dos 10 aos 12, gramática e ortografia; dos 13 aos 15, redação e argumentação; dos 16 aos 18, pesquisa e debate. Cada etapa prepara o terreno para a seguinte, como árvores que, nutridas ao longo dos anos, finalmente dão frutos. Claro que vale lembrar que isso não é válido só para crianças. Como costumo dizer, há muitos adultos por aí que se veem como intelectuais e não se formaram devidamente em nenhum desses pilares, tendo uma educação defasada. Dentro da educação clássica isso é uma falha, e não importa se têm ou não diploma universitário, mestrado etc.; isso não garante que esses pilares estejam bem desenvolvidos. Eu gosto de dar o exemplo de alguns alunos que assistem às minhas aulas e depois precisam assistir novamente, muitas vezes repetidamente, e a cada vez parece que estão finalmente entendendo. Esse é o fundamento da educação clássica: retirar, a cada olhar, parte do embotamento da mente que a educação que recebemos nos impôs. Existem alunos que contam que, no princípio, sentem ansiedade, não conseguem seguir, desistem; depois dizem que trechos das aulas aparecem enquanto a vida segue, e então voltam a estudar e avançam. Isso ocorre por conta do coração não ensinável, algo comum devido ao tipo de educação que recebemos, que retira o aprendiz cedo demais da posição de aprendiz. A alma fica sem apetite, sem fome, não tem vontade de comer e também não vê valor na comida do conhecimento. No entanto, pela graça de Deus, o ensino nunca deixa de dar fruto e, com o tempo — nosso querido tempo — essa alma volta a ter fome. Portanto, muitas pessoas com 30, 40 ou mais anos de vida podem estar, no que se refere à educação clássica, com o desenvolvimento abaixo do indicado para os 10 ou 12 anos de idade.

O Trivium é como um mapa para a mente humana: absorver, compreender, expressar. Um processo que não se encerra na adolescência, mas acompanha o indivíduo por toda a vida; por isso, o aprendizado não tem fim. Aprender não é uma obrigação forçada pelas notas num boletim, pela necessidade de atingir metas educacionais do vestibular ou por um título numa carteirinha profissional que cobra mensalidade para existir, nem por dez aulinhas que dizem dar resposta a questões humanas de uma geração inteira. Aprender é uma aventura pessoal de quem tem fome e encontra no estudo alimento. Não apenas aprende: come.





Minúsculo Guia Prático da Educação Clássica para aplicação e autoaplicação


Etapa da Gramática — absorção
Pensamento norteador e estado interior: profundo respeito pelo aprendizado e pelo professor.
Idade aproximada: até 10 anos.
Princípio: ser como uma esponja, pronta para acumular vocabulário, fatos e regras.


Práticas:
Ler em voz alta diariamente, escolhendo literatura de qualidade. Ler todos os dias.
Incentivar a memorização de poesia, trechos bíblicos e narrativas curtas.
Expandir o vocabulário com jogos de palavras e listas temáticas.
Evitar linguagem infantilizada: fale, escute e leia sempre um grau acima da compreensão plena.




Etapa da Lógica — análise
Pensamento norteador e estado interior: interesse genuíno, ser interessado para ser interessante.
Idade aproximada: dos 10 aos 15 anos.
Princípio: o espírito se torna inquisitivo, busca causas e conexões.


Práticas:
Introduzir noções de lógica formal: silogismos, lei da não contradição.
Estimular debates curtos sobre temas cotidianos.
Propor exercícios de comparação, contraste e análise de textos.
Incentivar perguntas investigativas: “por que isso acontece?”, “qual a causa?”.
Observação de discursos de professores, padres, políticos, diplomatas e etc. para visualizar a estrutura lógica ou a falta dela.




Etapa da Retórica — expressão
Pensamento norteador e estado interior: clareza, cortesia, honestidade.
Idade aproximada: dos 15 aos 18 anos e acima.
Princípio: o saber vira sabedoria aplicada, em discurso criativo e persuasivo mantendo a honestidade intelectual.


Práticas:
Redação de cartas, diários e artigos.
Participação em clubes de oratória ou debates.
Exposição a discursos clássicos.
Projetos integrados: escrever sobre ciência, história ou literatura com clareza e estilo.
Falar com poder de síntese. 
Falar com síntese e com cruzamento de áreas.
Falar com síntese, com cruzamento de áreas e com observações pessoais apuradas (viver filosofia).
Falar com síntese, com cruzamento de áreas, com observações sociais apuradas, organizadas para contribuição formal sobre o tema (fazer filosofia). 


Durante as etapas, existe a integração das matérias visando a um discurso rico em temas, exemplos e expansão. Os saberes obrigatoriamente se cruzam; se não houver esse cruzamento, não é educação clássica, mesmo que haja latim e grego. A característica da educação clássica é a riqueza de áreas.




Pratique calmamente e constantemente aqui





¹Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

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