A tal da vida intelectual
A tal da vida intelectual, da forma como atualmente é divulgada, virou uma grande praça neoliberal: tudo se tornou um produto. Bem, eu não sou uma pessoa que acredita que não precisamos disso para a economia e blá, blá, blá, mas é extremamente chato que um universo tão único se torne uma variedade incessante de produtos. No entanto, o que também me chama a atenção é que ninguém sabe o que é a tal da vida intelectual. Tudo se tornou clubes de luxo, produtos de luxo, estilo de poeta cansado (que inclusive gosto muito) etc. Mas a vida intelectual é a sina da pessoa que deseja respostas, descobrir formas que a humanidade traçou para responder a tais perguntas e, enfim, achar extremamente divertido não saber nada depois de tanto tempo estudando.
Na vida intelectual, estudar é uma diversão, é um investimento de tempo que depois se transforma numa grande teia de referências sobre vários temas. Depois de tanto tempo, tenho notado que quem tem mesmo uma espécie de vocação para a vida intelectual simplesmente tem, e ainda é uma forma de viver a vida. Embora possa ser construída, daí vem aquele esforço medonho que muita gente não gosta. Parece-me que está mais para algo próximo do gosto. Então faz algum sentido tantas marcas se apossarem dessa categoria de gente que até pouco tempo atrás era chamada de nerds e desatualizados da moda. Segundo eles, todos sabemos que não é verdade.
Já em outra bolha de sabão social, vemos a vida intelectual ligada à modéstia (que, na verdade, é a forma como muita gente chama as feminices) e à castidade. Realmente, a vida intelectual cristã vem da virtude da pureza e da modéstia. Vale lembrar que os puros de coração verão a Deus. Eu não vou aqui responder às infinitas coisas que são ditas por aí sobre “para ser puro não precisa estudar” etc., porque o texto é sobre a vida intelectual. Se você não tem, basta não ler e se poupar.
Muito bem, a pureza é, de certa forma, o que nos faz manter o interesse pelas coisas elevadas, e ela está atrelada à castidade, que é a gerenciadora dos afetos, logo também dos gostos. Um dia me estenderei sobre isso. Já a modéstia, como já expliquei exaustivamente em outros lugares, é uma virtude que modera o comportamento. Esta virtude tem virtudes anexas e uma delas, pasme, é a estudiosidade, ou seja, a capacidade de não se perder em coisas vãs e focar a mente no que edifica.
Fica claro, então, que realmente essas duas esferas da vida intelectual — pureza e modéstia — são integrantes estruturais da vida intelectual católica. Por isso a insistência de Hugo de São Vítor em "Instruções aos principiantes". No entanto, como a maioria acha que a vida intelectual é um business, não existe a construção do que nomeio como integrantes estruturais. É como alguém que gosta de decoração mas não observou se a areia usada para o cimento é de boa qualidade.
Portanto, realmente, num meio cristão honesto é muito difícil fugir da formação em pureza e modéstia. O que é diferente de se tornar uma pessoa sem repertório de conhecimento. Noto que, por exemplo, alguns acham ruim o uso de autores ou citações fora do contexto religioso, é quase uma blasfêmia. Esse cuidado é muito adequado para o ambiente escolar cristão, em que crianças estão aprendendo e precisam de segurança quanto a temas. Mas em um ambiente de universidade, ambiente de adultos (que deviam já ter corrido atrás de sanar suas defasagens de formação), esse comportamento é absurdo e antiuniversitário, já que é próprio desse ambiente a circulação de ideias e, acima de tudo, a capacidade de usá-las para o Reino. Não conseguir fazer isso é falta de habilidade e competência, logo ainda não se tem uma vida intelectual madura.

0 comments
Olá, Paz e Bem! Que bom tê-lo por aqui! Agradeço por deixar sua partilha.