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Salus in Caritate


Margareth in the Church. Nicaise de Keyser, 1813-1887




Recentemente, estudos sociais sobre amparo a mulheres, abusos e gentileza se tornaram comuns na Europa. Vários deles mostram uma mulher dando o Sinal de Ajuda após esbarrar em alguém. A maioria dos homens não a ajudou. 

Raramente defendo homens em meus textos; pouco me agrada essa visão de que a mulher comeu o fruto proibido porque estava sozinha e fez coisa errada, entre outras absurdidades que circulam pela internet numa agilidade insana e voraz.

Afinal, esses estudos sociais europeus confirmam o que escrevi nos livros que publiquei: os homens estão mais perdidos que as mulheres.

A temática da proteção masculina se tornou frequente. Não existe um grupo social de direita, conservador ou seja lá qual placa a pessoa escolheu carregar que não fale sobre a tal proteção masculina. Mas a proteção veiculada é uma proteção restritiva, a proteção dos que ele ama, das pessoas próximas a ele. E está correto, é o mínimo esperado. É também verdade que muitos falham nesse mínimo.

Acho curioso esse discurso em prol de aumentar o patrimônio financeiro, que, se possível, deve ser feito. No entanto, o tal homem cristão muitas vezes deixa de trocar o chuveiro da casa onde vive a família inteira. Acredite: isso acontece, e a família permanece com um chuveiro mequetrefe. O mesmo vale para os reparos da casa, para reformas que poderiam melhorar o atendimento às necessidades da família. Tudo isso é prover. E, em muitos casos, não exige grande patrimônio financeiro, mas apenas organização com o pouco dinheiro disponível. Estranho que nada disso seja apontado como ser provedor. 

Não me espanta, portanto, que os estudos citados no início mostrassem homens que não oferecem ajuda a uma pessoa pedindo socorro por abuso. Eles mal conseguem dar conta da própria dinâmica familiar e, portanto, são muito egoístas para olhar uma mulher estranha e pensar: poderia ser minha mãe, minha filha, minha irmã. Esse é o segundo ponto que parece faltar nessa visão de varão nobre que brotou atualmente: ainda é muito egoísta. Existem outros fatores que motivam isso, mas acredito que infelizmente nunca cheguemos a falar sobre eles.

Voltando ao Éden, para não deixar essa explicação sem ser dada: Adão e Eva não morriam, não adoeciam, tinham inteligência infusa e domínio da razão sobre as paixões, coisa que, a essa altura, um número maior de pessoas já conhece, tão diferente do cenário de 2016, quando nas catequeses online muitos duvidavam de que eu estava ensinando certo. Isso significa que Adão e Eva eram mais inteligentes que qualquer gênio que possa agora passar pela sua cabeça. Eva não era burra; certamente era milhões de vezes mais inteligente que as mulheres inteligentes deste tempo. Ela escutou a serpente porque queria ter um conhecimento maior do que já tinha e, para isso, ultrapassou os limites divinos.

Adão, que também não tinha nada de burro, certamente reconheceu o fruto que ela estava oferecendo, lembre-se de que eles cuidavam daquele jardim dia e noite. Ele sabia que fruto era aquele e escolheu aceitar. O resto você lembra: ele passou a responsabilidade para ela, e ela passou a responsabilidade para a serpente.

E aqui está o ponto que, novamente, insistentemente e exaustivamente, venho ensinando: o cerne de alguma restauração, se Deus permitir, será a responsabilidade. Nosso Senhor Jesus encarnou, viveu, trabalhou, se deixou escarnecer, morreu e ressuscitou para tomar sobre si a responsabilidade. Toda a sua vida foi um: Eu me responsabilizo por eles.

E está aí a porta de alguma chance para que homens cristãos sejam de fato cristãos: assumir a responsabilidade de verdade, levar a culpa, assumir a consequência por si e pelos que estão sob seus cuidados (claro que isso tem um limite no caso dos filhos, principalmente a depender da idade e do sexo). Mas, no geral, está aí o que não se escuta nos discursos de hoje. Pelo contrário, os discursos atuais fomentam que, na verdade, a responsabilidade é da mulher. O que é uma réplica, com babados, do discurso feminista de que as mulheres sozinhas dariam conta de tudo, como já escrevi e falei diversas vezes em vários lugares durante os últimos 10 anos, que não dará certo.

No frigir dos ovos, estamos numa cena tal e qual no Éden, mas mais engomada. Isso também se repete na dinâmica entre padres e fiéis. Na maioria dos discursos, os fiéis são responsáveis pelos padres, são culpados inclusive pela queda dos padres. Toda essa dinâmica é uma inversão completa e total da ordem. Esse é o motivo que me leva a não contribuir para esse discurso tão distante da postura do Senhor Jesus, tão distante do que Ele gostaria que fizéssemos: que cada um assuma a responsabilidade do seu posto.



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professora Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025). 


Desde a narrativa da Torre de Babel, a linguagem aparece como força capaz de unir ou dispersar, criar ou destruir. O episódio bíblico mostra que o excesso de orgulho humano ao construir uma torre que chegasse ao céu, foi contido por Deus através da multiplicação das línguas.




No século XX, o estruturalismo e seus desdobramentos pós-estruturalistas insistiram em ver a linguagem como campo de luta ideológica. Vários autores mostraram que não há neutralidade nas palavras: elas carregam estruturas de poder, moldam consciências e podem ser revolucionárias. A “revolução da linguagem” é política. Mudar o discurso é alterar a realidade social.




Os Padres do Deserto falavam dos logismoi (pensamentos que se manifestam como palavras interiores) como portas de entrada para as tentações. Embora não utilizassem literalmente a expressão “demônios da linguagem”, descreviam como certas formas de fala ou pensamento verbalizado podiam ser inspiradas por forças malignas. O demônio da tagarelice, da vaidade verbal e da dispersão mental era visto como opositor da oração contínua. O silêncio, nesse contexto, era uma disciplina ascética, mas também uma forma de resistir e vencer a dispersão espiritual. Uma pequena anedota ilustra bem essa visão: um discípulo perguntou a seu abba por que o silêncio era tão importante. O monge respondeu: “Um homem tinha um jarro cheio de água pura. Cada palavra que dizia era como uma pedra lançada dentro do jarro. Logo a água se turvou, e ele já não podia beber dela. Assim é a alma: quando falamos demais, mesmo coisas boas se tornam confusas, e não resta clareza para ouvir a voz de Deus”.


Em outras culturas, encontramos imagens que passam ideias semelhantes. O chamado Quin Ling chinês, em algumas interpretações, é descrito como personagem que drena a vitalidade da pessoa através das palavras ditas e escritas. Ele só se dissipa quando o discurso se extingue; isso aponta metaforicamente a ideia de que a fala excessiva ou simplesmente falar por falar enfraquece a força interna. Também podemos ver algo similar, mas com outro prisma, no mito grego de Eco, a ninfa condenada a repetir apenas as últimas palavras que ouvia. Incapaz de criar um discurso próprio, sua vida se reduziu a ecos, uma vida desgastada pela repetição da fala de outros.


Na tradição judaica, também encontramos, como era de se esperar, advertências severas. A Torá (Pentateuco da Bíblia) apresenta a criação como ato de fala divina: “E Deus disse: haja luz”. A palavra é força criadora, mas o Midrash (coleções de comentários da Torá) alerta para o lashon hara, a língua má, considerada tão grave quanto o homicídio. Um conto midráshico reforça essa percepção: um rei pediu a seu servo que trouxesse do mercado a melhor coisa do mundo. O servo trouxe uma língua. No dia seguinte, o rei pediu a pior coisa do mundo. O servo trouxe novamente uma língua. “Com a língua podemos abençoar e curar, mas também amaldiçoar e destruir. Nada é tão bom, e nada é tão mau, quanto a palavra”, explicou. O Tânia, livro da tradição judaica hassídica, ensina que as palavras têm força espiritual e que o discurso vazio alimenta as forças do sitra achra, o “lado oposto”, associado ao mal. A linguagem é um canal de força que pode ser santificado ou corrompido.



No cristianismo, Nossa Senhora, em locuções interiores ao Padre Stefano Gobbi, reunidas no livro do Movimento Sacerdotal Mariano, advertiu que existe uma ação diabólica por meio da comunicação. Ela descreveu como o mal usa as palavras para confundir e enfraquecer a fé dos sacerdotes e fiéis. É importante lembrar que tais mensagens pertencem ao campo das revelações privadas, não ao magistério oficial da Igreja. Ainda assim, elas reforçam a percepção de que a comunicação pode ser instrumento de evangelização ou de destruição, dependendo da pureza do coração do orador. É claro que devemos lembrar, como tenho feito em vários artigos anteriores, que a imposição do silêncio e do fazer calar também pode ser uma atitude diabólica, em prol de uma união e paz falsa e de uma defesa autoritária da própria autoridade. Portanto, temos, é claro, um território que exige muita cautela. Aquele que deseja falar precisa ter pureza de coração para que as palavras tenham efeito. E nem sempre o silêncio é sinal de cultivo espiritual e prudência.




A questão, portanto, não se resume à linguística ou à gramática, como parece ser a principal preocupação atualmente. Trata-se de adquirir o claro entendimento de que a linguagem é um território espiritual em si mesma, tanto o território escrito quanto o falado.


Se olharmos para a Torre de Babel, para os logismoi dos Padres do Deserto e para o lashon hara do Midrash, vemos um fio comum: a linguagem pode dispersar, drenar ou desviar. O poder das palavras é tão grande que exige disciplina espiritual. Não por acaso, tradições distintas convergem na valorização do silêncio e da palavra justa, que é caminho da sabedoria.


A modernidade, ao insistir na revolução da linguagem, talvez tenha esquecido que toda revolução verbal implica riscos espirituais. Mudar palavras é mudar mundos, mas também pode abrir espaço para forças destrutivas.


A comunicação contemporânea, cheia de velocidade e envolta na multiplicação de discursos, torna ainda mais urgente essa reflexão por parte daqueles que manuseiam o poder das palavras. Se os monges do deserto já viam na tagarelice um perigo espiritual, o que dizer das redes sociais e da avalanche de palavras que nos cercam? A advertência de Nossa Senhora parece tomar forma muito definida. Há uma ação diabólica por meio da comunicação, e cabe aos cristãos purificar sua linguagem. No entanto, é preciso também salientar que nem toda palavra que divide é diabólica. Nosso Senhor, ao comunicar a instrução sagrada, muitas vezes usou ou se viu em situações com a mesma atitude externa, mas com sentidos diferentes.


Por exemplo, o fariseu e o publicano no templo: o fariseu, de pé, exaltava suas obras, enquanto o publicano, de longe, batia no peito e pedia misericórdia. O sinal externo, portanto, não era o problema; a questão estava no coração: um tinha o coração impuro em autoapreciação, e o outro puro em contrição.

O mesmo vale para a divisão. “Diabo” significa divisor; realmente, quem induz a divisão por interesses pessoais, egoístas, mesquinhos e por sede de poder não age segundo as Leis Divinas (infelizmente, isso não acontece somente no meio secular). No entanto, Nosso Senhor disse claramente: “Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada”. Essa espada é o Evangelho, que causa uma divisão necessária: separa a verdade da mentira, a luz das trevas. Cabe, portanto, compreender que a divisão ocorrerá, mas nem toda divisão é diabólica. 


A espada já está posta e a cortar.



Curiosamente, a própria Bíblia, como era de se esperar, nos dá o remédio: se em Babel ocorre a dispersão das línguas como punição ao orgulho humano, em Pentecostes é o reverso. O Espírito Santo faz com que os apóstolos falem línguas de povos diferentes, e todos compreendem a mesma mensagem. Daí a minha insistência em falar do Espírito Santo aos que manuseiam a palavra em ações seculares cristãs.


Além disso, é útil lembrar que existem textos hebraicos que afirmam que o mundo é sustentado pelas palavras da Torá (da Bíblia), ou seja, se o estudo da Torá cessasse por um instante, o universo inteiro se desfaria. Acredito que, com o tempo, ficará claro que as nossas palavras podem refletir a força vital contida nas Palavras Divinas que sustentam a realidade e o mundo em que vivemos. Na filosofia antiga, Platão via o logos como ponte entre o mundo sensível e o inteligível; no cristianismo, o Logos é uma pessoa: o Verbo encarnado, Jesus Cristo.



Com esse olhar atento e refinado, surge a acuidade para ler com outra mente:

“As palavras que eu vos tenho dito são espírito e vida.” – João 6, 63





professora Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025). 






O luxo brasileiro, tantas vezes invisível aos próprios brasileiros, é valorizado no exterior. O mobiliário nacional é um exemplo: Sérgio Rodrigues, com sua poltrona Mole, tornou-se ícone do design moderno; Joaquim Tenreiro, pioneiro no uso da palhinha e da madeira tropical, é disputado em leilões internacionais; Lina Bo Bardi, com a Bowl Chair, figura em coleções de museus europeus. Essas peças, criadas com engenho e simplicidade, são vendidas como obras de arte em Nova Iorque e Paris, enquanto por aqui ainda são desconhecidas.

No campo dos tecidos, a seda brasileira está entre as melhores do mundo. Produzida principalmente no Paraná, em cidades como Ponta Grossa e Cascavel, onde se concentram as plantações de amoreira e a criação do bicho-da-seda. Essa fibra é exportada em larga escala. Estimativas recentes apontam para cerca de 2,2 mil toneladas de casulos por ano, embora a produção tenha diminuído em torno de 77% nas últimas duas décadas. Ainda assim, mais de 95% da seda nacional segue para o exterior, abastecendo grifes internacionais de alta costura. Há registros de que maisons como Hermès, Dior e Armani já incorporaram a seda brasileira em coleções específicas, atraídas pela qualidade. O comércio internacional movimenta cifras expressivas, reforçando uma tendência de vários setores no Brasil: exportamos o requinte e consumimos a imitação. Na grande dinâmica econômica do mundo, o Brasil é o fornecedor de ótima matéria-prima que nunca chega aos próprios brasileiros.






No universo da moda católica, observa-se uma busca por reproduzir designs europeus mais pesados que não se adaptam ao clima tropical. Assim, surgem roupas que atendem às diretrizes da virtude da modéstia no design, mas falham em ser compatíveis com o país em que vivemos. Não no design, veja bem, mas na escolha dos tecidos. Encontrar vestidos que atendam à modéstia em linho puro, algodão puro de qualidade ou seda nacional é tarefa difícil. O resultado é uma produção que ignora a riqueza de fibras locais e acaba um pouco sem identidade própria. No entanto, todos esses pontos são aceitáveis, uma vez que é um mercado novo, mas ainda assim causa certa preocupação a lentidão dos responsáveis em observar esses aspectos referentes aos tecidos 100% naturais, que sempre foram característica de roupas produzidas em regiões tropicais.

Se voltarmos às primeiras fotografias e filmagens feitas em São Paulo e Rio de Janeiro, já em meados de 1900, veremos homens em ternos de algodão e mulheres em vestidos igualmente de algodão, quase sempre em tons claros. O algodão permitia pudor sem sacrifício térmico. Isso mostra que já tivemos uma moda condizente com nosso clima, algo que se torna mais urgente se considerarmos as sobrecargas térmicas que estamos vivendo por conta do asfalto e do ar-condicionado, que geram uma massa de calor em regiões urbanas, somadas aos apartamentos e casas com pouca ventilação cruzada, paredes finas e layouts que também não são condizentes com o Brasil.

É nesse ponto que se abre uma reflexão sobre o próprio termo moda modesta, recentemente questionado de forma desnecessária. Do ponto de vista da língua portuguesa, trata-se de uma construção gramatical clara: “moda” é o substantivo que designa o campo do vestuário, enquanto “modesta” é o adjetivo que o qualifica, indicando um vestuário marcado pela sobriedade, pelo pudor e pela simplicidade. Essa formulação, além de correta, já aparece historicamente em textos ligados ao vestuário cristão, sobretudo no universo católico, para designar roupas que conciliam imagem e aparência ao recato. Na verdade, o entendimento do termo é bem simples.

Voltando ao tema, podemos desdobrar essa reflexão sobre o termo. Sendo o Brasil o maior país católico do mundo, haveria espaço para que essa moda modesta se desenvolvesse com identidade própria, nascida de nossa realidade tropical. Não se trata de romper com tradições, mas de, de forma realmente honesta, aplicá-las ao clima, ou seja, não mudando os tamanhos, as medidas de pudor e recato, mas sim mudando o tecido. Uma moda modesta brasileira, feita de tecidos naturais, poderia unir a nossa amada tradição ao frescor, ao pudor e ao conforto térmico. Vestidos em algodão, linho, ternos de linho, blusas e camisas femininas em seda nacional: peças que mostram a nossa história, brasileira e católica, feitas para o nosso clima, sem perder a reserva que a modéstia exige.





Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025). 










Transcrição da aula: A história da moda e a modéstia ministrada pela professora Ana Paula Barros em 29 de julho de 2017 e similar em 14 de junho de 2018. Sugerimos fortemente a leitura complementar do Livro Modéstia: Beleza e Santa Ordem e também do livro Graça e Beleza. 
Texto de transcrição atualizado e revisado em 2026.




É importante discutirmos este tema para estabelecer uma conexão entre a história da moda, as mudanças na vestimenta, principalmente feminina, que será o foco de hoje, e as transformações sociais e ideológicas. Também abordaremos a dessensibilização que a moda pode gerar ao nos adaptarmos e nos vestirmos de maneiras que podem estar ligadas a ideologias ou pensamentos implementados na sociedade ao longo dos anos.

Ao longo da história da moda, você perceberá pontos importantes. Falarei pouco, mas apresentarei muitas imagens, e talvez você chegue a conclusões claras sobre o impacto da moda na sociedade atual. Por fim, veremos as questões espirituais necessárias para compreender, em um nível mais profundo, a importância da modéstia em contraposição às mudanças e influências que a moda exerce.









A história da moda que vamos abordar começa nos anos 1920. Antes disso, as mudanças foram mínimas: o vestido feminino era sempre aquele típico das novelas e séries de época, com grandes saias, saiotes e corpetes. A partir da década de 1920, com a Primeira Guerra Mundial (28 de julho de 1914 a 11 de novembro de 1918), iniciam-se transformações significativas.

Nos anos 1920, houve uma predileção pelo glamour, pelas joias e pela elegância, marcada pela ascensão de Coco Chanel, uma das estilistas mais aclamadas até hoje. Chanel revolucionou a forma de se vestir: os saiotes foram eliminados, as roupas ganharam caimento mais fluido, as cores tornaram-se mais escuras e ocorreu um aumento no uso de joias e brilhantes.

Na década de 1930, a elite artística buscou introduzir peças de alfaiataria no guarda-roupa feminino. Marlene Dietrich, por exemplo, popularizou o uso de calças de alfaiataria em fotos. Contudo, esse estilo não teve grande aceitação entre mulheres comuns, permanecendo restrito ao meio artístico. De modo geral, as roupas femininas ainda se assemelhavam às dos anos 1920, mas foram simplificadas pela escassez de tecidos durante a Segunda Guerra Mundial (1º de setembro de 1939 a 2 de setembro de 1945).

Nos anos 1940, o glamour retornou. As mulheres voltaram a ter acesso a uma variedade de tecidos, e as roupas ganharam detalhes em botões e acabamentos, embora ainda conservassem certa sobriedade. Já nos anos 1950, houve uma mudança significativa nas cores, refletindo inquietações sociais e comportamentais transmitidas pela moda.

Na década de 1960, houve uma intensificação no uso das cores e o período foi marcado pelo início do movimento feminista, que concentrou a inquietação feminina na primeira onda. O Concílio Vaticano II também discutiu o papel da mulher na sociedade, e essas transformações se refletiram na moda. Nos anos 1970, o movimento hippie trouxe saias longas, estampas florais e a filosofia do “paz e amor”.

Nos anos 1980, a moda sofreu uma grande virada: roupas brilhantes, paetês, dourado, maquiagens fortes e sobrancelhas marcadas, com traços animalescos, expressavam inquietação, desejo de liberdade e certa agressividade. Já nos anos 1990, surgiram estilos que ainda vemos hoje: minissaias, roupas justas ou muito largas, refletindo desleixo e descuido, mas também luxúria, sexualização e despudor. Até os anos 1950, medidas de pudor e decoro eram respeitadas; depois disso, a moda passou a expressar agressividade e promiscuidade, em sintonia com o movimento feminista.

Nos anos 2000, consolidou-se a tendência da moda de gênero fluido, com roupas femininas usadas por homens e vice-versa, sem adaptações. Nos desfiles, os modelos passaram a ser apresentados sem definição de sexo, algo incomum em décadas anteriores, quando havia separação clara entre moda masculina e feminina.

Assim, percebemos que a moda imprime ideias e ideologias, dessensibilizando a sociedade para determinados conceitos. A moda de gênero fluido, por exemplo, dessensibiliza para a ideologia de gênero em um momento em que essa discussão está cada vez mais acirrada.








Vamos entender como a moda funciona na prática. Em primeiro lugar, é importante lembrar que o termo moda se refere às coleções lançadas nas temporadas primavera-verão e outono-inverno. Os estilistas criam suas coleções e as apresentam em desfiles. Grandes estilistas e marcas de prestígio estreiam suas criações em eventos importantes, como a São Paulo Fashion Week ou outras semanas de moda ao redor do mundo. Essas coleções normalmente indicam as tendências para aquela temporada.

Hoje, temos uma gama enorme de estilistas, jornalistas e influenciadores digitais que atuam quase como militantes, defendendo ideologias nas quais eles e as marcas que representam acreditam. Essas ideologias são inseridas nas coleções, levadas às passarelas de grande prestígio e, posteriormente, reproduzidas por marcas menores, chegando ao mercado popular nas lojas.

O público, em geral, não percebe esse processo. Quem compra uma peça acredita que a tendência foi criada por um estilista que sabia exatamente o que estava fazendo. No entanto, é importante lembrar que essas tendências são planejadas com anos de antecedência. Por exemplo, marcas como a Nike já sabem qual será o modelo de tênis produzido daqui a cinco ou dez anos, porque isso já está programado. O mesmo ocorre com todas as grandes marcas: elas já têm a ideia, e talvez não a coleção completa, mas possuem uma direção definida para suas futuras criações.

Quando essas tendências chegam ao mercado popular, a maioria das pessoas não tem escolha diante do que é imposto nas prateleiras das lojas. Isso é o que chamamos de moda.

Depois, temos o modismo. O modismo surge, por exemplo, quando um ator ou personagem de novela ou série usa uma roupa específica que ganha prestígio e visibilidade por um tempo. A novela termina, o ator sai de cena e aquele prestígio desaparece, fazendo com que a moda do momento passe. Ao contrário do que muitos pensam, não são os atores, filmes ou séries que criam a moda. Na verdade, a moda é impressa neles, e eles são usados como massa de manobra para levar essas tendências ao grande público sem nenhum filtro, já que as pessoas não são treinadas para reconhecer essas influências.

Por último, temos o estilo. O estilo é algo que perdura ao longo do tempo, diferente da moda e do modismo. O estilo é para sempre. Você adota um estilo caracterizado por determinados tipos de peças usadas em algum período da história da moda e que refletem traços de personalidade, escolhas e atributos pessoais. Quando falamos sobre moda, o ideal é descobrir qual estilo mais combina com sua personalidade, para que você possa expressar quem realmente é.

A moda tem uma questão muito importante: desde a infância, a roupa ajuda na identificação e compreensão da própria identidade e das diferenças entre as escolhas pessoais e as dos outros. É uma forma de distinção de sexo, personalidade e comportamento, contribuindo para a integração social do indivíduo.

Entramos agora em outro ponto importante: a tentativa das ideologias de se infiltrarem no mercado da moda e moldarem nossa identidade. Nossa Senhora deseja que suas filhas sejam libertas da indústria da moda e de seu plano silencioso de escravidão. As pessoas não têm direito de escolha a menos que entendam como a moda funciona e saibam que podem decidir de maneira diferente.

A moda é uma forma de interação com grupos, criando uma identidade pessoal e social. Por isso, é uma ferramenta poderosa para as ideologias. Ao imprimir certas formas de vestir, elas criam grupos, formas de pensar e união em torno daquele pensamento refletido pela vestimenta. Isso facilita a dessensibilização para ideias contrárias às questões morais da sociedade, como a ideologia de gênero.

Esse é um trabalho de longo prazo. As pessoas que atuam com esse tipo de pensamento sabem que precisam criar rachaduras no muro da moral cristã na sociedade para que possamos receber essas ideias e ideologias de maneira mais eficaz. Uma das armas usadas para isso é a moda.








Precisamos lembrar como a modéstia se relaciona com o caminho da virtude. Em primeiro lugar, a virtude é para todo cristão. Não é apenas para um grupo específico, não é só para quem se consagrou a Nossa Senhora, nem para determinadas pessoas. A virtude é para todos os cristãos. Em segundo lugar, a virtude é uma prática. Não adianta dizer “eu vivo a virtude da paciência internamente” sem praticá-la externamente. É necessário demonstrar a paciência nas ações. O mesmo vale para a modéstia.

A ideia de viver a modéstia apenas internamente é falha, tanto em relação à virtude como um todo quanto, principalmente, à própria modéstia. É impossível que isso seja realidade. Devemos lembrar que a virtude é uma prática no bem, é um ato.

Quando falamos de uma virtude, falamos também de outras virtudes da mesma família. A modéstia tem uma família. A mãe da modéstia é a temperança. A temperança nos dá a capacidade de equilibrar as coisas internamente, harmonizando emoções e pensamentos. É uma virtude difícil, mas fundamental, que age como filtro para tudo o que existe dentro de nós.

A temperança, como virtude mãe, tem “filhos”. O primeiro é o pudor. O pudor se desdobra na modéstia, como se fossem virtudes gêmeas. Ele se relaciona com a expressão do que existe dentro de nós, funcionando como um véu que protege nosso interior das coisas externas e guarda o coração. Quando bem trabalhado, o pudor se desdobra na modéstia, que cuida da exposição do corpo. A modéstia se relaciona diretamente com a vestimenta e com o cuidado em se vestir de maneira que não exponha indevidamente o corpo. Portanto, a modéstia é exterior por natureza; não pode ser vivida apenas internamente.

A terceira filha da temperança é a castidade. A castidade age como guardiã da afetividade e da sexualidade. Temos a temperança governando o interior, o pudor velando pensamentos e sentimentos, a modéstia cuidando do corpo físico e a castidade cuidando da sexualidade e da afetividade, impedindo que sejam expostas inadequadamente.

Quando cultivamos uma virtude, puxamos outras junto. Quem busca viver a castidade precisa cultivar a modéstia, não expondo o corpo indevidamente, e também o pudor, guardando pensamentos e sentimentos. Isso nos leva ao entendimento de que precisamos viver todas as virtudes em harmonia.


Cada santo foi exemplar em uma virtude específica, mas não negligenciava as demais. O cultivo de uma virtude leva ao aprimoramento das outras. O mesmo acontece com a modéstia: ao praticá-la, percebemos a necessidade de cuidar do comportamento, das palavras e das ações.

O Catecismo ensina que o pudor leva à discrição, à modéstia e à paciência. São três aspectos importantes: discrição no comportamento, modéstia na vestimenta e paciência no trato com as pessoas. A proposta é exigente, mas o caminho das virtudes é recompensador.

É radical compreender como a modéstia se insere no caminho das virtudes. Quando percebemos que a modéstia é mais do que um modismo dentro da Igreja, isso se torna claro. Se fosse uma tendência, com todos se vestindo modestamente, seria benéfico, pois a prática da modéstia leva à colheita de bons frutos e desperta outras virtudes.






A modéstia está intimamente ligada ao grande número de consagrações feitas a Nossa Senhora. Muitas pessoas foram conduzidas por Ela à prática da modéstia, aprendendo formas de comportamento e vestimenta adequadas. Quando alguém se aproxima de Nossa Senhora, aprende sobre modéstia e sobre atitudes corretas. Por isso, a consagração a Nossa Senhora tem uma relação direta com a modéstia. O aumento das consagrações despertou grande interesse pela prática da modéstia, justamente em um tempo em que a ideologia de gênero e a moda da promiscuidade estão em alta, ambas ofensivas ao Coração de Jesus. Nossa Senhora não permitiria que seus filhos caíssem em tais práticas.








Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025). 





A moda, historicamente percebida como um campo voltado à estética (percepção pelos sentidos) e ao consumo, assume, na contemporaneidade, um papel de construção identitária e expressão psicossocial. Como fenômeno cultural, ela ultrapassa o vestuário e insere-se nas dinâmicas de poder, nas relações interpessoais e nos processos de individualidade. A moda opera como mecanismo de distinção social, ao mesmo tempo em que promove certa homogeneização do comportamento.

Neste contexto, produções audiovisuais como O Diabo Veste Prada (2006), o drama sul-coreano Agora Terminamos (2022) e a série Celebrity (2023) apresentam narrativas que exploram a moda como linguagem simbólica, não verbal, mediadora de conflitos internos, estratégia de ascensão social e reconstrução emocional e biográfica.

A psicologia social contribui significativamente para esse debate, oferecendo subsídios teóricos para a análise dos processos de influência, representação e identidade. O conceito de enclothed cognition, desenvolvido por Adam e Galinsky (2012), sugere que as roupas que vestimos afetam não apenas a forma como os outros nos percebem, mas também a maneira como nos percebemos. Aliada à sociologia da moda e aos estudos culturais, essa abordagem permite compreender o papel da moda como artifício do sujeito, que vê nessa dinâmica a oportunidade de finalmente se alocar no mundo, funcionando como instrumento de autoconstrução. Vestir-se é um ato social que envolve negociações entre o corpo, o contexto e os códigos culturais vigentes. Esse ato pode, no entanto, desenrolar-se em uma conjuntura de banalização ou em vigências altamente falseadoras, o que compromete a veracidade da expressão.




A moda moderna é marcada pela efemeridade e pela individualização, funcionando como espelho das transformações sociais e individuais. Nesse sentido, a moda é usada para performar identidades, negociar pertencimento e exercer formas de resistência ou conformidade. Basta observar que, ao aderir a determinado conceito atrelado a um grupo, uma das primeiras atitudes tomadas é mudar as roupas, o que, dentro do terreno moral, muitas vezes é benéfico para a pessoa e para o mundo. No entanto, quando ocorre alguma ruptura com o grupo, a primeira coisa a ser desfeita são os pactos da linguagem não verbal manifestada pelas roupas; ou seja, a pessoa muda a forma de se vestir, o que também, em alguns casos, é um favor que faz a si mesma e ao mundo.

Isso posto, vale salientar que a moda opera como mecanismo não verbal de conformidade social, capaz de reforçar normas e expectativas coletivas. A escolha de determinadas peças, marcas ou estilos pode indicar o desejo de integração a um grupo ou a busca por distinção. Possuir uma marca é visto, nesse prisma, como possuir um lugar no mundo.

Devemos reconhecer o papel que a moda tem na mediação entre o indivíduo e o coletivo, entre o interno e o externo, entre o desejo e a norma. Vivemos entre muitas normas, inclusive mais vigentes que as religiosas, e diante delas existe um número enorme de pessoas que se curva sem reflexão. O mundo em que vivemos é cheio de normas não verbais.

A discussão sobre moda como linguagem psicossocial ganha amplitude e profundidade quando confrontada com a perspectiva da modéstia enquanto virtude, conforme apresentada no livro Modéstia: O Caminho da Beleza e da Santa Ordem (2018). No ensaio, é proposta uma abordagem em que o vestuário é visto como reflexo de valores éticos, espirituais e sociais. A modéstia no vestir é uma postura interior de respeito, equilíbrio e ordenação da beleza.


“A modéstia é a virtude que regula os atos exteriores conforme a dignidade da pessoa humana e a ordem natural das coisas” (Barros, 2018, p. 45).


Ao vestir-se com modéstia, o indivíduo comunica valores pessoais e participa de uma ética coletiva que valoriza a dignidade e a harmonia social. 







Análise fílmica e seriada: representações psicossociais da moda


A moda, enquanto linguagem simbólica e psicossocial, desempenha papel central nas narrativas de O Diabo Veste Prada (2006), Agora Terminamos (2022) e Celebrity (2023). Em cada obra, o vestuário torna-se expressão de conflitos internos e dinâmicas sociais.

Em O Diabo Veste Prada, a trajetória de Andrea Sachs, interpretada por Anne Hathaway, funciona como metáfora da jornada do herói. Inicialmente alheia ao universo da moda, Andrea ingressa na revista Runway como assistente da poderosa editora Miranda Priestly. A transformação da personagem acompanha sua evolução psicológica e social, mostrando fases de desequilíbrio, adaptação e ruptura.

O figurino sofisticado representa status e pertencimento, mas também guarda ligação com alienação e perda de autenticidade. Andrea enfrenta dilemas éticos ao se adaptar ao ambiente competitivo, questionando seus valores e identidade, até esquecê-los. Ao final, rompe com o sistema que a aprisionava e reorganiza sua relação com a moda. Há certa libertação na ligação e desligamento parcial da personagem com esse universo, e também um aprendizado durante o percurso, ainda que abandonado pela própria protagonista.

Já o drama sul-coreano Agora Terminamos acompanha Ha Young Eun, designer de moda que vivencia rupturas afetivas e profissionais. A aparência dos personagens reflete estados emocionais e processos de reconstrução, como é característico dos dramas asiáticos. O figurino de Young Eun transita entre sobriedade e sofisticação, mostrando dor, resiliência e renascimento. As mudanças no vestuário acompanham os ciclos de aproximação e afastamento entre os protagonistas, numa psicodinâmica dos vínculos. A série também evidencia os tipos de interação no meio da moda, incluindo certo afastamento emocional imposto como forma de proteção.

Por outro lado, Celebrity (2023) aborda criticamente o universo das influenciadoras digitais, expondo os mecanismos de validação social, narcisismo e ansiedade atrelados à imagem e à aparência, agora duplicados em uma presença virtual. A narrativa, perturbadora em alguns momentos, mostra com ironia o lado obscuro da humanidade por trás de máscaras lindamente apresentadas em público. O vestuário é utilizado como construção de persona, reforçando status e visibilidade nas redes. A protagonista Seo Ah Ri visita os bastidores tóxicos da indústria da imagem, inicialmente incrédula de que tal realidade existisse, e acaba por descobrir seu funcionamento. Há também uma análise interessante nas entrecenas sobre a distinção entre ricos e novos ricos.

A obsessão por aparência e aprovação digital é retratada de forma explícita como fonte de sofrimento psíquico, alienação e perda de autenticidade. A moda é apresentada como instrumento de sobrevivência social, no sentido mais brutal e artificial possível. A série tensiona os limites entre realidade e espetáculo, mostrando os impactos da cultura da influência sobre a vida contemporânea. Em alguns momentos, lembra temas da peça O Veneno do Teatro, que aborda o efeito da interpretação e da artificialidade no ato do ator. Desde a primeira cena, entre um ator e um aristocrata, já se aponta o impacto da aparência sobre a percepção. Na montagem recente protagonizada por Osmar Prado e Maurício Machado, o aristocrata é inicialmente confundido com um copeiro, e o desrespeito do ator diante dessa imagem mostra como somos influenciados pelo que vemos. A peça condensa, de forma exemplar, nossa incapacidade de enxergar além das aparências e dos códigos de status.




Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025). 








“Marcela preferiu ser pobre com Cristo do que rica sem Ele. Desprezou os ornamentos do mundo e buscou apenas a glória de servir ao Senhor.” - São Jerônimo, Epístola 127




Santa Marcela de Roma, que viveu entre 325 e 410, é uma figura que permite compreender como a literatura católica se formou mantendo forte relação com as tramas dos movimentos culturais e espirituais de sua época. Inserida na Roma tardo‑antiga, em um momento de transição entre a herança clássica e a consolidação do cristianismo, sua vida se tornou um testemunho da tensão entre tradição pagã e renovação da fé. A cidade ainda respirava os valores da cultura greco‑romana, mas já se afirmava como centro da vida cristã, e nesse ambiente Santa Marcela se destacou como uma das primeiras mulheres a abraçar o ascetismo, influenciada diretamente por São Jerônimo, de quem foi discípula e interlocutora. Ela pertence ao grupo das chamadas matronas romanas. Assim como Santa Macrina, foi uma jovem viúva que abraçou o celibato por vontade própria. Segundo São Jerônimo, ela foi a primeira a viver os princípios do monaquismo entre as famílias nobres romanas.

As chamadas matronas romanas foram mulheres da aristocracia de Roma, entre os séculos IV e V, que abraçaram a vida cristã e se tornaram referências espirituais e culturais. O monaquismo cristão, que começou a se desenvolver no século IV, estabeleceu princípios fundamentais que moldaram a espiritualidade da Igreja e influenciaram figuras como Santa Marcela de Roma. Entre esses princípios estavam a renúncia ao mundo, o celibato, a obediência, a pobreza voluntária, a oração contínua e o trabalho manual, que juntos formavam um ideal de vida consagrada. No Oriente, esse movimento se consolidou com os Padres do Deserto, como Santo Antão e São Pacômio, que fundaram comunidades eremíticas (monges que vivem fora de comunidades mas se uniam em pequenos grupos esporadicamente) e cenobíticas (monges que vivem em comunidades estruturadas). No Ocidente, ainda em formação, o monaquismo encontrou expressão em práticas mais domésticas e urbanas, como as casas de oração e estudo organizadas pelas matronas romanas. Santa Marcela encarnou esses princípios de modo leigo e urbano, antecipando o que mais tarde se tornaria a vida monástica feminina institucionalizada.




Embora não tenha deixado uma obra autoral própria, Santa Marcela é citada em cartas de São Jerônimo, como na Epístola 43, dirigida a ela, e na Epístola 127, escrita após sua morte, onde o autor descreve sua vida e virtudes. Nessas correspondências, São Jerônimo testemunha sua erudição e sua dedicação ao estudo das Escrituras, destacando sua capacidade de discutir com profundidade os textos bíblicos. Sua casa (um castelo) no Aventino se transformou em espaço de estudo e oração, reunindo outras mulheres da aristocracia romana e criando um círculo intelectual e espiritual que contribuiu para a difusão da cultura cristã, atitude que lhe deu o título de matrona romana. Nesse sentido, sua presença literária se dá mais como mediadora e inspiradora do que como autora, mas ainda assim sua figura é importante para compreender o papel das mulheres na formação da tradição patrística.



“Ela conhecia as Escrituras tão bem que, se alguma dúvida surgia, recorria-se a Marcela como a uma mestra.” São Jerônimo, Epístola 127




O estilo de escrita que se associa a Santa Marcela, sobretudo nas cartas em que é mencionada, é marcado pelo rigor exegético e pela sensibilidade espiritual. Esse estilo se aproxima da retórica clássica, entendida como a arte de persuadir por meio da palavra, combinando lógica, ética e estética. A retórica, herança da tradição greco‑romana, fornecia aos escritores cristãos instrumentos para organizar o discurso, construir argumentos e transmitir valores espirituais de forma convincente. Santa Marcela, ao ser retratada por São Jerônimo, aparece como alguém que dominava essa linguagem, capaz de unir clareza didática e profundidade simbólica.



“Tu me interrogas não como discípula, mas como igual, e eu respondo não como mestre, mas como companheiro de estudo.” São Jerônimo para Santa Marcela, Epístola 43




Assim, ao lado de figuras como Sofrônia, Asélia (sua irmã), Principia, Marcelina com seus irmãos Ambrósio e Sátiro, Léa, Paula com suas filhas e a própria mãe, Albina, Santa Marcela compõe um círculo feminino que, mesmo sem produzir tratados próprios, deixou marcas profundas na literatura cristã por meio da recepção e interpretação das Escrituras em ciclos de estudos da época. 








"Então, tu decidiste que a história de sua nobre carreira vale a pena ser contada para evitar que tal vida seja desconhecida no nosso tempo, e que o registro de uma mulher que cresceu [960C] pela filosofia para a maior elevação da virtude humana passando pelas sombras do esquecimento inútil, eu acho por bem obedecer a ti e, em poucas palavras, como eu posso melhor contar a história dela de uma maneira não meditada e num estilo simples."


"No mesmo momento, graças à proteção de sua mãe, ela estava vivendo sua própria vida sem culpa, de modo que o olhar de sua mãe direcionou e testemunhou tudo o que ela fez; e também por sua própria vida instruiu grandemente sua mãe, levando-a para a mesma marca, quero dizer, aquela da filosofia, e gradualmente conduzindo-a para a vida imaterial e mais perfeita."





A história de Macrina, a Jovem, insere-se no meio espiritual e intelectual da Capadócia do século IV, no período em que o cristianismo consolidava suas estruturas doutrinais e práticas comunitárias. Filha de uma família profundamente marcada pela catolicidade, irmã de Basílio Magno, Gregório de Nissa e Pedro de Sebaste, ela se destacou não pela produção escrita, mas pela força de sua vida ascética e pela influência que exerceu sobre os irmãos, tornando-se referência de sabedoria e modelo de santidade. Ela era uma irmã professora que, assim como os antigos mestres gregos, transmitia seu saber pelo exemplo e pela palavra falada. Sua trajetória é inseparável da busca da Igreja nascente por formas concretas de viver a fé, em meio às tensões teológicas e à afirmação da possibilidade da vida monástica organizada na forma de mosteiros (cenobitismo), diferente da forma eremítica dos períodos anteriores.

A ausência de obras próprias não diminui sua relevância literária. É sobretudo através da Vida de Santa Macrina, composta por seu irmão São Gregório de Nissa, que sua figura ganha um olhar atento. O texto, que combina elementos hagiográficos e filosóficos, apresenta-a como “mestra da filosofia cristã”, contrapondo sua vida de oração e penitência à tradição filosófica pagã. A obra de Santa Macrina foi filosófica, de uma filosofia extremamente refinada, aquela que faz do filósofo o portador da filosofia ensinada, já que a filosofia é uma disciplina que só pode ser transmitida por quem a vive. Nesse sentido, São Gregório converte a vida da irmã filósofa Macrina em texto: sua vida é narrada como obra, e sua memória, transmitida. A comunidade monástica que Santa Macrina fundou, nessa altura como leiga celibatária, é testemunho concreto de sua obra, perpetuada em práticas concretas da vida cristã.





"Assim era o modo de suas vidas, tão grande a altura de sua filosofia, e tão sagrada sua conduta dia e noite faz a descrição verbal inadequada."
 

"Porém, a mais velha da família, assunto da nossa história, levou-o [o irmão Pedro] logo após o nascimento para uma ama de leite, que criou-o e educou-o [972C] num sublime sistema de treinamento, exercitando-o desde a infância nos estudos sagrados para não dar à sua alma a ociosidade que o levaria às coisas vãs. Assim, tendo sido todas as coisas para o jovem — pai, professora, tutora, mãe, doadora de todos os bons conselhos — ela produziu tais resultados que, antes que a idade da puerícia tivesse passado, quando ele ainda estava despindo o primeiro florescimento da tenra juventude, aspirou à alta marca da filosofia."





A comunidade monástica fundada por Santa Macrina às margens do rio Íris, na Capadócia, é um marco na história da Igreja, ainda que pouco lembrado. Após a morte de seu noivo, Macrina transformou uma propriedade familiar que possuía em espaço para a vida ascética, reunindo sua mãe Emélia, servos libertos e discípulos que desejavam seguir o caminho da consagração. A comunidade tornou-se uma verdadeira escola de filosofia cristã, com a disciplina da vida comum baseada em oração, trabalho manual, penitência e partilha.

São Gregório de Nissa, ao narrar a vida da irmã em Vita Macrinae, descreve esse espaço como lugar de contemplação e sabedoria cristã. A comunidade, composta por homens e mulheres que viviam em celibato e em comunhão de bens, antecipava de modo especial — ainda que de forma rudimentar — o modelo cenobítico que se consolidaria no Oriente. São Basílio Magno, inspirado pela experiência da irmã Santa Macrina, elaboraria posteriormente suas célebres regras monásticas, que se tornaram referência para toda a tradição oriental. Eis aí o poder de influência de Santa Macrina.



[A história de um militar] "Seu irmão estava insistindo para que eu ficasse [998 A] e compartilhasse a mesa dos filósofos, e a santa senhora não queria deixar que minha mulher se fosse antes que preparasse uma refeição para elas e as entretivesse com as riquezas da filosofia."



Do ponto de vista literário, a narrativa de São Gregório constrói Santa Macrina como paradigma da santidade feminina, utilizando recursos retóricos que a elevam ao nível das grandes filósofas, mas em chave cristã. O estilo é marcado pela fusão entre biografia e tratado espiritual, de modo que a vida da santa se torna, em si mesma, um argumento teológico em favor da elevação da vida intelectual e espiritual cristã. A “escrita” de Santa Macrina manifesta-se de forma indireta: na formação espiritual dos irmãos, na inspiração que ofereceu a São Basílio para sua doutrina monástica e na própria obra de São Gregório, que a apresenta como modelo de sabedoria. A literatura que a envolve é edificante, destinada a formar e instruir, mas também a persuadir à vida cristã.




Trechos retirados de:

NISSA, Gregório de. Vida de Santa Macrina. Tradução de Maria Lúcia G. C. de Souza. São Paulo: Paulus, 1995.



Ética na área da saúde

Professora Ana Paula Barros¹





A ética pode ser entendida como o campo filosófico que busca refletir sobre os fundamentos da ação humana, distinguindo o que é considerado correto ou incorreto em diferentes contextos. Diferente da moral, que se refere a normas e costumes específicos de uma sociedade, a ética se ocupa de pensar criticamente sobre tais normas. Assim, enquanto a moral trata dos costumes, a ética se apresenta como exercício reflexivo de auto investigação, capaz de orientar práticas em qualquer área, inclusive na saúde. Ela possibilita uma postura de reflexão constante dos profissionais sobre sua própria área.



Entretanto, há uma crise evidente na qualidade e na formação de profissionais, marcada por pressões mercadológicas e pela crescente dependência de exames complementares no que se refere à medicina. Clínicas de exames cada vez mais lotadas talvez sinalizem uma fragilidade na prática de avaliação clínica e uma perda da capacidade de escuta e observação, que sempre foram pilares da medicina. Seria este um resultado visível dos anos em que os profissionais deixaram de olhar nos olhos dos pacientes enquanto atendem? Uma visão mercadológica da saúde vê o paciente como um consumidor de serviço, mas nesse caso sem os cuidados e atenções que se recebem numa loja.



Esse cenário pode ser conectado a reflexões mais amplas sobre sociedade e história. Países como Áustria e Espanha têm demonstrado preocupação em reduzir o acesso às redes sociais por adolescentes e até mesmo adultos, reconhecendo os impactos nocivos da hiperconexão. No Brasil, por outro lado, observa-se um silêncio dos profissionais, mais dedicados a explorar economicamente essas redes do que a refletir sobre seus efeitos sociais e psicológicos nos próprios pacientes. Essa busca incessante por riqueza e lucro nos remete a um traço histórico: quando Dom João VI retornou a Portugal deixando os cofres do Brasil vazios, Dom Pedro I, em cartas, expressava grandes desejos de realização, mas lamentava não ter recursos para concretizá-los. Esse episódio ilustra como a sede por riqueza foi incorporada desde os primeiros passos do país nos ditames de vida criados pelo mundo europeu. Talvez por isso o Brasil viva até hoje a tensão do "herdeiro sem renda", reproduzindo a mesma frustração vivida por Dom Pedro I.



Retomando a área da saúde, é possível perceber que, assim como outras esferas sociais e grupos profissionais, ela precisa pensar sobre si mesma e sobre os impactos do mercado na prática profissional. A modernidade transformou médicos e cientistas em uma espécie de sacerdotes, como retratado em obras literárias como Frankenstein, O Médico e o Monstro e Drácula. Nesses imaginários, o médico aparece como aquele que detém respostas físicas e espirituais, o sacerdote moderno da ciência. Contudo, assim como o sacerdócio religioso, esse papel imposto pelos homens também enfrenta uma crise de autopercepção.





Em conclusão, a ética na área da saúde é um convite permanente à reflexão crítica. Ela exige que profissionais e sociedade questionem suas práticas, reconheçam seus dilemas e busquem caminhos que permitam que o olhar atento seja direcionado às pessoas, enquanto os próprios profissionais crescem e encontram a si mesmos pelo que fazem, tornando o próprio caminho um processo de enriquecimento. Muitos profissionais entraram no automático de suas profissões; muitos não têm gosto, por exemplo, não sabem dizer que filmes apreciam, que músicas preferem, não possuem um gosto artístico para formar a tão mencionada marca. E quando falo em gosto artístico, refiro-me simplesmente a saber se gostam de alguma coisa nas artes, se abrem tempo para isso.




Recordo-me claramente de uma professora numa turma da área da saúde que dizia: “Vocês precisam ir ao cinema, ao teatro, assistir a um filme, ter gostos”. Isso já faz 15 anos, e ela realmente tinha razão. Alguns profissionais estão vazios de interesses genuínos e talvez seja aí a origem do que vemos hoje. O vazio de interesses gera um estado de desinteresse pelo mundo e pelas pessoas, uma vida em modo automático técnico, que pode parecer aceitável, mas traz consequências.







¹Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)



“E tudo submeteu debaixo de seus pés e constituiu-o, acima de tudo, Cabeça da Igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que enche tudo em todos.” - Efésios 1, 22-23



Política Eclesiástica - Ponto II

Professora Ana Paula Barros¹






A distinção entre monarquia e democracia ou república é de importância radical para compreender a política eclesiástica. Na democracia ou república, o poder emana do povo e é exercido por meio de mecanismos de participação direta ou indireta, como votos, pressão midiática, abaixo-assinados e manifestações coletivas. A lógica democrática valoriza a alternância de poder, a representatividade e a capacidade de o povo influenciar as decisões por meio de instrumentos institucionais e sociais. Na monarquia, por outro lado, o poder é concentrado em uma figura central, o monarca, e a participação popular se dá de forma distinta, geralmente indireta e mediada por estruturas hierárquicas. A legitimidade do poder monárquico não depende de votos ou da pressão das massas, mas da tradição, da sucessão e da autoridade reconhecida. A comunicação política, nesse modelo, não se apoia em mecanismos de mobilização popular, mas em conselhos, instituições e canais formais que sustentam a estabilidade da ordem.

A Igreja Católica organiza-se como uma monarquia eletiva, como já vimos, um modelo singular que combina elementos da eleição com a autoridade monárquica. Reiterando, o Papa é escolhido pelo Colégio de Cardeais, mas, uma vez eleito, exerce poder monárquico pleno. Assim, a política eclesiástica não se confunde com a lógica democrática ou republicana: nela, a participação dos fiéis não se dá por votos ou pressão popular, mas pela escuta por parte dos padres e pelo discernimento espiritual vindo de um olhar atento, que são considerados canais legítimos de influência na condução da Igreja.

A ideia de monarquia eletiva encontra paralelos na Bíblia e na tradição dos hebreus. No Antigo Testamento, a escolha dos reis Saul e Davi foi marcada pela unção profética e pela intervenção divina, numa eleição que não era apenas política, mas também religiosa. Assim, a monarquia eletiva eclesiástica guarda semelhança com essa tradição: a escolha do Papa é entendida como um ato de discernimento espiritual, em que os cardeais buscam a inspiração do Espírito Santo para indicar o sucessor de Pedro. O que não significa que não existam tentativas de manejar a vontade de Deus em prol da vontade humana. No entanto, a vontade humana, sendo inferior em força e poder diante da divina, mesmo que se manifeste, ainda estará, de certa forma, subjugada à vontade divina na ordem geral das coisas, ainda que, em uma ordem menor, isso não fique tão evidente.







Já a estrutura de uma monarquia não se limita ao monarca, mas envolve também o que nomeamos nobreza e aristocracia, que desempenham papéis fundamentais na manutenção da ordem e na condução da vida política. A nobreza, tradicionalmente composta por príncipes e duques, representa a proximidade imediata do poder, atuando como conselheiros diretos do soberano e guardiões da unidade. A aristocracia, formada por famílias influentes e autoridades locais, exerce funções administrativas e garante a estabilidade do governo em diferentes regiões. Essa divisão de responsabilidades cria um equilíbrio entre a autoridade central e a participação das elites, assegurando continuidade e legitimidade ao sistema monárquico.

Na monarquia eletiva eclesiástica, essa lógica se traduz de maneira espiritual e institucional. Os cardeais são considerados príncipes da Igreja, constituindo uma verdadeira nobreza eclesiástica. Sua missão não é apenas escolher o Papa, mas também aconselhá-lo, participar de consistórios e colaborar na definição das grandes diretrizes da Igreja universal. Paralelamente, existe uma aristocracia formada por bispos e superiores religiosos, que governam dioceses e institutos, garantindo a aplicação das decisões em nível local e regional. Essa aristocracia eclesiástica assegura que a vida da Igreja se mantenha ordenada e fiel à tradição, mesmo diante das mudanças de época.

Como acontecia no medievo, essa estrutura ainda preserva a exigência de que nobres e aristocratas sejam, de certa forma, guardiões do povo e exemplos de virtude, nobreza espiritual e caráter. São aqueles que, vindos do meio do povo, assumem a responsabilidade de cuidar dele ou, ao menos, assim deveria ser.








No que tange à comunicação, principal objeto de análise deste escrito, é preciso estabelecer primeiro que a participação não segue os moldes democráticos ou republicanos, baseados em pressão popular ou mobilização de massas. A Igreja não é uma democracia.


Isso posto, cabe estabelecer que, segundo, na monarquia, sobretudo a eclesiástica, a comunicação se dá por canais institucionais oficiais e espirituais em prol da unidade. 


No entanto, é válido salientar que a unidade verdadeira não significa ausência de divergência ou de opiniões distintas; trata-se de uma unidade que pensa sobre essas diferenças como sendo parte natural da vida comunitária. Assim, o discurso de defesa da unidade não deve ser entendido como um "mecanismo de contenção" ou de silenciamento, mas como um convite à fala e à escuta respeitosa e à busca comum da Verdade. 


A história da Igreja mostra que, quando se tenta ignorar ou afastar vozes críticas, dentro da própria Igreja, por motivos político-partidários ou pessoais, frequentemente surgem divisões. Infelizmente, essa atitude ainda é recorrente em alguns contextos clericais, sobretudo no Brasil. Muitas situações poderiam ser resolvidas com mais serenidade se houvesse abertura para escuta e autorreflexão por parte do clero.


Retomando a explicação, na política civil, como vimos, os meios de comunicação política incluem pressão midiática, abaixo-assinados, votos e manifestações públicas.  Já em uma monarquia, e de modo particular na monarquia eletiva eclesiástica, tais mecanismos não possuem a mesma eficácia e muitas vezes não são bem recebidos.


Os padres, em geral, são formados nos seminários para discernir e conduzir a pastoral sem se deixar guiar por pressões populistas ou de massas. Por isso, iniciativas que buscam mobilização popular não encontram espaço efetivo dentro da estrutura monárquica da Igreja. A comunicação, nesse contexto, se dá por meios próprios: diálogos pastorais oficiais, cartas e documentos oficiais, consultas internas oficiais. Esses canais são institucionalizados e seguem uma ordem hierárquica, na qual o parecer clerical geralmente antecede e condiciona o parecer dos leigos.


Para o leigo, os meios de comunicação disponíveis são essencialmente mediadores: sua voz precisa passar pelo clero para alcançar instâncias superiores, ponto também já mencionado no artigo anterior. Isso significa que, na prática, a escuta dos fiéis depende da disposição dos padres e bispos em transmitir suas preocupações. Embora existam espaços de participação mais direta, como conselhos pastorais e assembleias diocesanas, a estrutura monárquica favorece o peso da autoridade clerical sobre a opinião popular. Assim, o leigo tem uma influência extremamente indireta e espiritual.


Os leigos, ao buscar participação, devem considerar com bastante atenção que uma comunicação eficaz na Igreja passa por canais institucionais oficiais e espirituais, e não por mecanismos de pressão típicos da política civil. Nesse contexto, torna-se essencial destacar a importância da diplomacia.









Vimos que os meios oficiais constituem os canais legítimos de participação, quer os leigos gostem ou não. Ainda que, à primeira vista, possam parecer pouco eficazes diante de interesses internos ou resistências político-partidárias existentes dentro da dinâmica eclesiástica, são justamente esses instrumentos que asseguram que a comunicação seja reconhecida como válida e que tenha peso dentro da estrutura monárquica da Igreja.
 

As ações populares podem gerar mobilização social geral, mas não são reconhecidas como válidas pela hierarquia (e raramente penetram as realidades pastorais com efetividade) e, normalmente, acabam produzindo um efeito local contrário ao esperado. Daí a falta de harmonia entre os movimentos gerais e as vivências pastorais em um mesmo país, porque os leigos movem o social e o clero o pastoral, e cada um está tracionando, de certa forma, intencionalmente ou não, para um lado.


A diplomacia, nesse sentido, não é apenas uma questão de forma, mas de eficácia: somente por meio de interações respeitosas e oficiais — insisto na palavra "oficiais" — é possível que a voz dos leigos seja ouvida e integrada ao discernimento eclesial. Mesmo que não seja acolhida, mesmo que não produza efeitos imediatos, os requerimentos precisam ser apresentados repetidamente, sempre de maneira oficial, com arquivamento em cópia tanto do pedido quanto da resposta, quando houver. Atualmente, de modo geral, as autoridades eclesiásticas podem alegar facilmente que nunca receberam uma solicitação oficial, por meio de carta oficial, a respeito dos assuntos hoje tão debatidos nos meios de comunicação aberta, e esta é uma bela falha de método por parte dos leigos.


No contexto diplomático da política eclesiástica, seguir o método é mais importante do que obter uma resposta imediata. O método correto, veja bem, gera uma sequência de registros históricos oficiais: tanto das solicitações dos leigos às autoridades quanto das respostas ou da ausência delas. Oficialmente, esse é o único poder do leigo dentro da política eclesiástica (extremamente esquecido ou ignorado pelos leigos). A outra forma de participação se dá pela atuação cultural, que complementa e amplia sua presença na vida da Igreja.






A proposta deste tópico, repetitivo intencionalmente, é enfatizar a necessidade de uma comunicação mais compatível com a estrutura da Igreja. Uma estrutura monárquica. Essa estrutura, querida por Nosso Senhor, também protege o povo ao atribuir ao clero, e somente ao clero, a responsabilidade pelas decisões.






"A Igreja é Santa: porque Jesus Cristo, seu Fundador, é Santo; Santo é o Espírito que vivifica; Santa a sua Doutrina; Santos os seus Sacramentos; Santos são muitos dos seus membros." - Catecismo Essencial, 1987








Leia também:

Política Eclesiástica 1 


Estudo literário sobre a Querela dos Catecismos da Igreja Católica e a Crise da Linguagem


Patrimônios imateriais da Igreja 


A Preservação dos Livros Sacramentais nas Cúrias Diocesanas como Patrimônio Documental e Histórico 


O Palacete do Carmo e a Preservação do Patrimônio Religioso 


Papa Leão na Vogue: o sinal de um anseio 







¹Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

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