Literato Católico: Santa Macrina, a mestra da filosofia cristã

by - sexta-feira, fevereiro 27, 2026









"Então, tu decidiste que a história de sua nobre carreira vale a pena ser contada para evitar que tal vida seja desconhecida no nosso tempo, e que o registro de uma mulher que cresceu [960C] pela filosofia para a maior elevação da virtude humana passando pelas sombras do esquecimento inútil, eu acho por bem obedecer a ti e, em poucas palavras, como eu posso melhor contar a história dela de uma maneira não meditada e num estilo simples."


"No mesmo momento, graças à proteção de sua mãe, ela estava vivendo sua própria vida sem culpa, de modo que o olhar de sua mãe direcionou e testemunhou tudo o que ela fez; e também por sua própria vida instruiu grandemente sua mãe, levando-a para a mesma marca, quero dizer, aquela da filosofia, e gradualmente conduzindo-a para a vida imaterial e mais perfeita."





A história de Macrina, a Jovem, insere-se no meio espiritual e intelectual da Capadócia do século IV, no período em que o cristianismo consolidava suas estruturas doutrinais e práticas comunitárias. Filha de uma família profundamente marcada pela catolicidade, irmã de Basílio Magno, Gregório de Nissa e Pedro de Sebaste, ela se destacou não pela produção escrita, mas pela força de sua vida ascética e pela influência que exerceu sobre os irmãos, tornando-se referência de sabedoria e modelo de santidade. Ela era uma irmã professora que, assim como os antigos mestres gregos, transmitia seu saber pelo exemplo e pela palavra falada. Sua trajetória é inseparável da busca da Igreja nascente por formas concretas de viver a fé, em meio às tensões teológicas e à afirmação da possibilidade da vida monástica organizada na forma de mosteiros (cenobitismo), diferente da forma eremítica dos períodos anteriores.

A ausência de obras próprias não diminui sua relevância literária. É sobretudo através da Vida de Santa Macrina, composta por seu irmão São Gregório de Nissa, que sua figura ganha um olhar atento. O texto, que combina elementos hagiográficos e filosóficos, apresenta-a como “mestra da filosofia cristã”, contrapondo sua vida de oração e penitência à tradição filosófica pagã. A obra de Santa Macrina foi filosófica, de uma filosofia extremamente refinada, aquela que faz do filósofo o portador da filosofia ensinada, já que a filosofia é uma disciplina que só pode ser transmitida por quem a vive. Nesse sentido, São Gregório converte a vida da irmã filósofa Macrina em texto: sua vida é narrada como obra, e sua memória, transmitida. A comunidade monástica que Santa Macrina fundou, nessa altura como leiga celibatária, é testemunho concreto de sua obra, perpetuada em práticas concretas da vida cristã.





"Assim era o modo de suas vidas, tão grande a altura de sua filosofia, e tão sagrada sua conduta dia e noite faz a descrição verbal inadequada."
 

"Porém, a mais velha da família, assunto da nossa história, levou-o [o irmão Pedro] logo após o nascimento para uma ama de leite, que criou-o e educou-o [972C] num sublime sistema de treinamento, exercitando-o desde a infância nos estudos sagrados para não dar à sua alma a ociosidade que o levaria às coisas vãs. Assim, tendo sido todas as coisas para o jovem — pai, professora, tutora, mãe, doadora de todos os bons conselhos — ela produziu tais resultados que, antes que a idade da puerícia tivesse passado, quando ele ainda estava despindo o primeiro florescimento da tenra juventude, aspirou à alta marca da filosofia."





A comunidade monástica fundada por Santa Macrina às margens do rio Íris, na Capadócia, é um marco na história da Igreja, ainda que pouco lembrado. Após a morte de seu noivo, Macrina transformou uma propriedade familiar que possuía em espaço para a vida ascética, reunindo sua mãe Emélia, servos libertos e discípulos que desejavam seguir o caminho da consagração. A comunidade tornou-se uma verdadeira escola de filosofia cristã, com a disciplina da vida comum baseada em oração, trabalho manual, penitência e partilha.

São Gregório de Nissa, ao narrar a vida da irmã em Vita Macrinae, descreve esse espaço como lugar de contemplação e sabedoria cristã. A comunidade, composta por homens e mulheres que viviam em celibato e em comunhão de bens, antecipava de modo especial — ainda que de forma rudimentar — o modelo cenobítico que se consolidaria no Oriente. São Basílio Magno, inspirado pela experiência da irmã Santa Macrina, elaboraria posteriormente suas célebres regras monásticas, que se tornaram referência para toda a tradição oriental. Eis aí o poder de influência de Santa Macrina.



[A história de um militar] "Seu irmão estava insistindo para que eu ficasse [998 A] e compartilhasse a mesa dos filósofos, e a santa senhora não queria deixar que minha mulher se fosse antes que preparasse uma refeição para elas e as entretivesse com as riquezas da filosofia."



Do ponto de vista literário, a narrativa de São Gregório constrói Santa Macrina como paradigma da santidade feminina, utilizando recursos retóricos que a elevam ao nível das grandes filósofas, mas em chave cristã. O estilo é marcado pela fusão entre biografia e tratado espiritual, de modo que a vida da santa se torna, em si mesma, um argumento teológico em favor da elevação da vida intelectual e espiritual cristã. A “escrita” de Santa Macrina manifesta-se de forma indireta: na formação espiritual dos irmãos, na inspiração que ofereceu a São Basílio para sua doutrina monástica e na própria obra de São Gregório, que a apresenta como modelo de sabedoria. A literatura que a envolve é edificante, destinada a formar e instruir, mas também a persuadir à vida cristã.




Trechos retirados de:

NISSA, Gregório de. Vida de Santa Macrina. Tradução de Maria Lúcia G. C. de Souza. São Paulo: Paulus, 1995.

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