Estudo literário sobre a Querela dos Catecismos da Igreja Católica e a Crise da Linguagem

by - sexta-feira, novembro 28, 2014

Estudo literário sobre a Querela dos Catecismos da Igreja Católica e a Crise da linguagem

Professora Ana Paula Barros¹



A tradição da Igreja Católica produziu diferentes catecismos ao longo da história, cada um respondendo a necessidades específicas de tempo, lugar e público. Entre eles, destacam-se o chamado Catecismo Amarelo, o Catecismo de São Pio X e o Catecismo Romano. A leitura comparada desses textos mostra diferenças de forma e conteúdo, bem como de finalidade pastoral e cultural.

O Catecismo Amarelo, publicado no século XX, é um material extenso, rico em filosofia e teologia, voltado para responder às dúvidas dos ateus e intelectuais. Sua linguagem é densa. Trata-se de um texto que exige preparo intelectual e fôlego de leitura, pois se aproxima da complexidade de tratados teológicos. Por isso, sua recepção é mais adequada em contextos onde há tradição filosófica e hábito de leitura, como na Europa ou entre grupos acadêmicos e intelectuais. No Brasil, país marcado por uma cultura pouco filosófica e por baixa prática de leitura, esse catecismo encontra barreiras de permeabilidade. Em ambientes populares, onde muitas vezes “não se lê nem gibi”, a proposta de um livro extenso, com linguagem filosófico-teológica, não se mostra eficaz num primeiro momento. Um brasileiro comum pode fazer até mesmo ensino superior sem nunca ler, de fato, um texto filosófico durante todo o curso.

Já o Catecismo de São Pio X apresenta uma forma breve e direta, estruturada em perguntas e respostas. Sua finalidade é responder às dúvidas práticas e combater heresias. Essa característica o torna mais compatível com o contexto brasileiro, onde a linguagem simples e direta é mais acessível ao público geral. O formato dialogal, muito didático, usado pelo Papa Pio, facilita a memorização e a transmissão oral, o que se ajusta bem a comunidades que não possuem tradição de leitura extensa ou formação filosófica, ou seja, quase todo o país.

O Catecismo Romano, por sua vez, ocupa um meio-termo entre os dois. Elaborado após o Concílio de Trento, apresenta uma linguagem mais desenvolvida que a de São Pio X, mas sem a densidade filosófica do Catecismo Amarelo. É útil como instrumento pastoral equilibrado, capaz de atender tanto a grupos com maior formação quanto a comunidades que necessitam de clareza, sem exigir o mesmo esforço que o Catecismo Amarelo demanda.

Essa diversidade de catecismos mostra que cada texto é uma resposta a questões específicas, pertencendo à tradição viva da Igreja. Eles fazem parte de um repertório que pode ser adotado conforme o público, o desenvolvimento cultural e a bagagem de cada grupo ou povo. No Brasil, a escolha do catecismo mais adequado deve considerar a realidade concreta: oferecer um material que as pessoas de fato possam ler e compreender. O Catecismo Amarelo, embora seja resultado de esforço para responder questões modernas, não encontra permeabilidade adequada em periferias ou comunidades populares, onde a leitura extensa e filosófica não corresponde às necessidades imediatas. Já na Europa, ou entre intelectuais brasileiros, seu impacto é evidente, pois dialoga diretamente com questões filosóficas e ateias que já estavam postas antes da leitura.

Portanto, os catecismos publicados permitem uma evolução de leitura e de indicações de acordo com cada pessoa, grupo ou povo. O Catecismo Amarelo é eficaz em contextos de alta bagagem filosófica e dúvidas ateias; o Catecismo de São Pio X é mais adequado ao Brasil popular, pela clareza e objetividade; e o Catecismo Romano se apresenta como meio-termo útil, capaz de servir em diferentes realidades. 


E a isso o clero brasileiro deveria se atentar.






Limitações do Catecismo Amarelo



As críticas ao Catecismo Amarelo não precisam ser respondidas com elogios, mas com a constatação de que se trata de um texto que possui limitações próprias. Sua proposta é enfrentar questões levantadas por ateus e intelectuais, especialmente aquelas que dizem respeito à salvação de povos que nunca receberam o anúncio explícito do Evangelho, somada ao cenário moderno que tornou o clero pouco adepto de discursos afirmativos e mais voltado para uma linguagem inexata, o que, em alguma medida, traz também uma sensação de que nem o clero acredita na Santa Doutrina. Como professora, eu sou mais voltada à reflexão, ao ambiente próprio para questionamento e à calma da reflexão para constatação, mas isso é diferente de inexatidão.

O Catecismo Amarelo se aproxima da linha do “não sabemos” e tem muito da limitação humana diante da pressão externa. Afinal, o Senhor revelou claramente o destino dos que creem (Jo 14,6; Rm 10,9-13), mas pouco disse sobre os que nunca receberam a Boa Nova de Seu Nome. Embora possa parecer improvável, existem pessoas que não conhecem verdadeiramente o Senhor, mesmo que tenham ouvido falar dEle. Diante dessa realidade, a resposta honesta da teologia só pode ser: não sabemos, porque Deus não nos revelou exatamente como será. Ele nos deu somente alguns indícios dos critérios que serão usados pela Sagrada Justiça (Rm 2,14-16; Lc 12,47-48), e sobre esses critérios o catecismo foi feito.

Portanto, é esperado que em um catecismo com uma meta tão alta ocorram ruídos teológicos. Eles são sinal do limite humano: o texto entra em cogitações baseadas na misericórdia. 




A crise da linguagem na Igreja



A Igreja Católica sempre utilizou a linguagem como instrumento fundamental para transmitir a fé e formar consciências, como ensina o versículo: “A fé vem pelo ouvir” (Rm 10,17). Contudo, ao longo das últimas décadas essa linguagem passou por uma transformação significativa. A Igreja, que antes se expressava de forma clara, afirmativa e doutrinária, passou a adotar uma comunicação mais fluida e dialogal, marcada por ambiguidades e pela tentativa de se aproximar de diferentes culturas e contextos, muitas vezes esquecendo, com isso, a própria cultura. Essa mudança está ligada ao pluralismo moderno e à globalização, que exigiram da Igreja uma adaptação para dialogar com sociedades cada vez mais heterogêneas.

Palavras que antes tinham um sentido preciso passaram a ser usadas em contextos mais amplos, muitas vezes com significados múltiplos ou contraditórios. Isso pode ser visto em conceitos como “direitos humanos”, originalmente vinculados a uma cosmovisão cristã, mas que hoje aparecem em discursos diversos, mantendo uma aparência de consenso. O mesmo ocorre com a palavra “profecia”, que deixou de significar denúncia do erro e passou a ser usada como sinônimo de busca pela justiça social, muitas vezes atrelada à ação política partidária; ou com a palavra “laicato”, frequentemente atribuída à função do leigo como mão de obra, e não necessariamente como contribuinte pensante. Também a palavra “justiça” deixou de significar dar a cada um o que é devido. Sem contar “fraternidade” e “união”, que passaram a ser usadas como formas de manter qualquer um calado e não observante diante de fatos nada agradáveis no clero. Na prática pastoral, essa mudança se refletiu em documentos oficiais, catecismos e homilias, que passaram a privilegiar uma linguagem inclusiva e aberta, em contraste com a firmeza doutrinária de períodos anteriores.

O maior peso dessa mudança está justamente na facilidade em ser dialogal com quem está fora da Igreja, mas sem escutar com a mesma atenção quem está dentro. Essa inversão criou a base da atual crise entre clero e leigos, pois muitos fiéis sentem que a Igreja fala mais para agradar ao mundo do que para fortalecer a fé daqueles que já pertencem a ela. Além disso, a linguagem adotada permite uma "livre interpretação" da homilia, do catecismo e dos documentos oficiais, principalmente por não utilizar o recurso clássico da repetição de matérias já postas em documentos anteriores. Soma-se a isso uma tendência moderna: os documentos oficiais citam com frequência textos mais recentes, muitas vezes ditos pela mesma autoridade que escreve o atual, aumentando o uso da auto-referência. Esse recurso, embora não seja problemático em si, torna-se limitado quando não é articulado com documentos oficiais anteriores, pois enfraquece a continuidade da tradição e a clareza da doutrina.



Se, por um lado, essa nova linguagem favoreceu a aparente aproximação cultural e o diálogo com não crentes e outras tradições, por outro trouxe o risco de enfraquecer a clareza doutrinal e de gerar insegurança nos fiéis. Isso nos faz pensar se essa abertura, feita dessa forma, é realmente necessária. Afinal, mais atração exerce quem vive melhor a própria identidade do que quem demonstra demasiada preocupação em ser aceito. Isso vale tanto para pessoas quanto para grupos. Talvez fosse melhor vivermos nossa própria cultura católica, sermos nós mesmos: católicos.



A crise da linguagem não é um detalhe estilístico; não se trata de possuir uma linguagem rebuscada, mas de um fenômeno profundo, praticamente existencial, que afeta tanto a transmissão da fé quanto a relação entre clero e leigos. Talvez fosse útil lembrar: sair de si e se esquecer de si, de suas características próprias e de quem é, são coisas diferentes.









¹Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)


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2 comments

  1. Olá,Salve Maria! Quem é vocacionado ao sacerdócio,também deveria ler esse livro?
    Que Deus nos abençoe!

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    1. Olá, Salve Maria! Com certeza, não só para a vivencia da sua vocação, como ajudará muito a orientar casais.

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Olá, Paz e Bem! Que bom tê-lo por aqui! Agradeço por deixar sua partilha.