Sempre a mesma cena
Margareth in the Church. Nicaise de Keyser, 1813-1887
Recentemente, estudos sociais sobre amparo a mulheres, abusos e gentileza se tornaram comuns na Europa. Vários deles mostram uma mulher dando o Sinal de Ajuda após esbarrar em alguém. A maioria dos homens não a ajudou.
Raramente defendo homens em meus textos; pouco me agrada essa visão de que a mulher comeu o fruto proibido porque estava sozinha e fez coisa errada, entre outras absurdidades que circulam pela internet numa agilidade insana e voraz.
Afinal, esses estudos sociais europeus confirmam o que escrevi nos livros que publiquei: os homens estão mais perdidos que as mulheres.
A temática da proteção masculina se tornou frequente. Não existe um grupo social de direita, conservador ou seja lá qual placa a pessoa escolheu carregar que não fale sobre a tal proteção masculina. Mas a proteção veiculada é uma proteção restritiva, a proteção dos que ele ama, das pessoas próximas a ele. E está correto, é o mínimo esperado. É também verdade que muitos falham nesse mínimo.
Acho curioso esse discurso em prol de aumentar o patrimônio financeiro, que, se possível, deve ser feito. No entanto, o tal homem cristão muitas vezes deixa de trocar o chuveiro da casa onde vive a família inteira. Acredite: isso acontece, e a família permanece com um chuveiro mequetrefe. O mesmo vale para os reparos da casa, para reformas que poderiam melhorar o atendimento às necessidades da família. Tudo isso é prover. E, em muitos casos, não exige grande patrimônio financeiro, mas apenas organização com o pouco dinheiro disponível. Estranho que nada disso seja apontado como ser provedor.
Não me espanta, portanto, que os estudos citados no início mostrassem homens que não oferecem ajuda a uma pessoa pedindo socorro por abuso. Eles mal conseguem dar conta da própria dinâmica familiar e, portanto, são muito egoístas para olhar uma mulher estranha e pensar: poderia ser minha mãe, minha filha, minha irmã. Esse é o segundo ponto que parece faltar nessa visão de varão nobre que brotou atualmente: ainda é muito egoísta. Existem outros fatores que motivam isso, mas acredito que infelizmente nunca cheguemos a falar sobre eles.
Voltando ao Éden, para não deixar essa explicação sem ser dada: Adão e Eva não morriam, não adoeciam, tinham inteligência infusa e domínio da razão sobre as paixões, coisa que, a essa altura, um número maior de pessoas já conhece, tão diferente do cenário de 2016, quando nas catequeses online muitos duvidavam de que eu estava ensinando certo. Isso significa que Adão e Eva eram mais inteligentes que qualquer gênio que possa agora passar pela sua cabeça. Eva não era burra; certamente era milhões de vezes mais inteligente que as mulheres inteligentes deste tempo. Ela escutou a serpente porque queria ter um conhecimento maior do que já tinha e, para isso, ultrapassou os limites divinos.
Adão, que também não tinha nada de burro, certamente reconheceu o fruto que ela estava oferecendo, lembre-se de que eles cuidavam daquele jardim dia e noite. Ele sabia que fruto era aquele e escolheu aceitar. O resto você lembra: ele passou a responsabilidade para ela, e ela passou a responsabilidade para a serpente.
E aqui está o ponto que, novamente, insistentemente e exaustivamente, venho ensinando: o cerne de alguma restauração, se Deus permitir, será a responsabilidade. Nosso Senhor Jesus encarnou, viveu, trabalhou, se deixou escarnecer, morreu e ressuscitou para tomar sobre si a responsabilidade. Toda a sua vida foi um: Eu me responsabilizo por eles.
E está aí a porta de alguma chance para que homens cristãos sejam de fato cristãos: assumir a responsabilidade de verdade, levar a culpa, assumir a consequência por si e pelos que estão sob seus cuidados (claro que isso tem um limite no caso dos filhos, principalmente a depender da idade e do sexo). Mas, no geral, está aí o que não se escuta nos discursos de hoje. Pelo contrário, os discursos atuais fomentam que, na verdade, a responsabilidade é da mulher. O que é uma réplica, com babados, do discurso feminista de que as mulheres sozinhas dariam conta de tudo, como já escrevi e falei diversas vezes em vários lugares durante os últimos 10 anos, que não dará certo.
No frigir dos ovos, estamos numa cena tal e qual no Éden, mas mais engomada. Isso também se repete na dinâmica entre padres e fiéis. Na maioria dos discursos, os fiéis são responsáveis pelos padres, são culpados inclusive pela queda dos padres. Toda essa dinâmica é uma inversão completa e total da ordem. Esse é o motivo que me leva a não contribuir para esse discurso tão distante da postura do Senhor Jesus, tão distante do que Ele gostaria que fizéssemos: que cada um assuma a responsabilidade do seu posto.
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professora Ana Paula Barros
Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

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