Patrimônios imateriais da Igreja

by - sábado, março 17, 2018

Patrimônios imateriais da Igreja

Professora Ana Paula Barros¹






Os patrimônios imateriais são expressões culturais que não se traduzem em bens materiais, mas em práticas, saberes, tradições e rituais que carregam identidade e memória coletiva. São exemplos de patrimônio imaterial as festas populares, as receitas tradicionais, os modos de fazer artesanato e os ritos religiosos que atravessam gerações.

No Brasil, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) reconhece como patrimônio imaterial elementos como a receita do pão de queijo, o modo de fazer o acarajé, as festas juninas e o frevo. Fora do Brasil, organismos como a UNESCO também preservam tradições culturais, como o flamenco na Espanha ou a dieta mediterrânea. Esses exemplos mostram que preservar o patrimônio imaterial é garantir a continuidade de práticas que dão sentido à vida comunitária.





“O patrimônio cultural imaterial significa as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas — juntamente com os instrumentos, objetos, artefatos e espaços culturais que lhes são associados — que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural.” - Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, 2003


“O patrimônio cultural imaterial é o conjunto de práticas e domínios da vida social que se manifestam em saberes, ofícios, celebrações, formas de expressão e lugares.” - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Brasil






Na Igreja Católica, também encontramos patrimônios imateriais. Entre eles, destacam-se os ritos litúrgicos, que não são apenas celebrações, mas expressões vivas da fé e da tradição. A Missa Tridentina, codificada após o Concílio de Trento (séc. XVI) mas vivenciada antes, é um exemplo claro: mais do que uma forma de culto, tornou-se símbolo de identidade e continuidade da tradição católica.

Outro patrimônio imaterial da Igreja são as liturgias próprias das igrejas sui iuris. O termo sui iuris significa “de direito próprio” e designa as igrejas orientais católicas que, embora estejam em plena comunhão com Roma, possuem autonomia litúrgica e disciplinar. Atualmente, existem sete grandes ritos reconhecidos na Igreja Católica:

  • Rito Romano (Latino) – celebrado pela Igreja Latina, incluindo a Missa Tridentina e a forma ordinária pós-Vaticano II.
  • Rito Bizantino – celebrado por igrejas como a Greco-Católica Ucraniana, Melquita, Romena e outras.
  • Rito Alexandrino (Copta e Etíope) – celebrado pelas Igrejas Católicas Coptas e Etíopes.
  • Rito Antioqueno (Sírio e Maronita) – celebrado pelas Igrejas Sírio-Católica e Maronita.
  • Rito Armênio – celebrado pela Igreja Católica Armênia.
  • Rito Caldeu – celebrado pela Igreja Católica Caldeia e pela Sírio-Malabar.
  • Rito Latino-Ambrosiano e Mozárabe – variantes dentro da Igreja Latina, preservadas em regiões específicas como Milão (Ambrosiano) e Toledo (Mozárabe).

Cada rito é um patrimônio imaterial da Igreja, pois preserva tradições litúrgicas, linguísticas e musicais próprias.


Voltando ao rito tridentino, é importante observar que a resistência de parte do clero à sua celebração não se deve a razões pastorais ou a uma preocupação genuína com o entendimento do povo. Afinal, jovens e adultos hoje têm contato com o latim em filmes, séries e até em expressões populares — basta lembrar que muitos sabem o que significa Expecto Patronum em Harry Potter. Não haveria, portanto, risco de que, ao entrar na igreja, a pessoa de repente perdesse a habilidade já utilizada em outros contextos de compreensão.


O motivo da resistência é, em grande parte, político, partidário e pessoal: pela preguiça em estudar, pelo receio de se sentir inferior diante de quem domina outros saberes ou pelo medo — nada real, portanto vão — de perder fiéis para a Missa Tridentina (e quem nutre essa esperança também alimenta uma esperança vã). Esse medo chega a ser irracional, como se toda uma cidade fosse migrar de repente para o rito antigo, isso não corresponde à realidade possível.

Assim, os patrimônios imateriais da Igreja, como a Missa Tridentina e os diversos ritos das igrejas sui iuris, são tesouros vivos que preservam a riqueza cultural e espiritual de uma tradição que atravessa séculos. Reconhecer e valorizar esses patrimônios é importante para manter viva a identidade católica em sua diversidade e profundidade — diversidade e profundidade em si mesma, em sua cultura e saberes — sem necessidade de se perder fora de si.

Ao longo da história, a Igreja sempre assumiu a missão de preservar não apenas a fé, mas também a memória, a cultura e os ritos que formam a identidade do povo cristão. Foi a Igreja que guardou manuscritos, tradições litúrgicas, obras de arte e práticas comunitárias, garantindo que séculos de espiritualidade não se perdessem diante das mudanças do mundo. Essa vocação de conservar e transmitir o patrimônio espiritual e cultural foi de importância radical para manter viva a continuidade da fé e até mesmo os saberes ocidentais. No entanto, essa missão de preservação parece hoje muitas vezes esquecida, diante de uma tendência de adaptação imediata ao presente ou de obstinações político-partidárias, sociais e eclesiásticas, que nos expõem ao risco de diluir a riqueza acumulada pela tradição. Recuperar essa consciência é fundamental para que a Igreja não apenas dialogue com o mundo moderno sem se perder de si, mas também permaneça fiel ao seu papel histórico de guardiã da memória e da identidade cristã. Uma guardiã que transmite saberes.



A missão do clero não se limita ao anúncio imediato do Evangelho, mas inclui também a preservação e o discernimento daquilo que, ao longo dos séculos, foi recebido como patrimônio espiritual e cultural. Nesse sentido, o clero é chamado a exercer não apenas funções administrativas ou pastorais, mas sobretudo um papel missionário de escuta e de investigação. É necessário compreender por que tantos fiéis se interessam pela tradição, pelo rito tridentino e pelos saberes antigos do cristianismo. Esse interesse não pode ser reduzido a uma nostalgia ou a uma resistência ao presente, mas deve ser reconhecido como expressão legítima de busca por profundidade espiritual e continuidade histórica.

Grande parte das conclusões correntes sobre tais movimentos intraeclesiais nasce de afirmações repetidas em ambientes acadêmicos ou seminários, transmitidas de professor a aluno sem contato direto com a realidade celebrativa da missa tridentina. Tal postura fragiliza a análise, pois carece de experiência concreta. O que se exige dos padres, portanto, é um resgate do interesse genuíno: conhecer, perguntar, escutar e discernir. Uma avaliação teológica séria não pode estar condicionada por alinhamentos partidários ou por linhas clericais com correntes de pensamento internas baseadas na afinidade , mas deve ser conduzida com a liberdade de quem busca compreender a ação do Espírito na Igreja. Somente assim o clero poderá oferecer respostas consistentes, enraizadas na tradição e capazes de dialogar, de verdade, com os desafios contemporâneos.







¹Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)









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