A vida intelectual católica e os demônios da linguagem

by - sábado, março 21, 2026


Desde a narrativa da Torre de Babel, a linguagem aparece como força capaz de unir ou dispersar, criar ou destruir. O episódio bíblico mostra que o excesso de orgulho humano ao construir uma torre que chegasse ao céu, foi contido por Deus através da multiplicação das línguas.




No século XX, o estruturalismo e seus desdobramentos pós-estruturalistas insistiram em ver a linguagem como campo de luta ideológica. Vários autores mostraram que não há neutralidade nas palavras: elas carregam estruturas de poder, moldam consciências e podem ser revolucionárias. A “revolução da linguagem” é política. Mudar o discurso é alterar a realidade social.




Os Padres do Deserto falavam dos logismoi (pensamentos que se manifestam como palavras interiores) como portas de entrada para as tentações. Embora não utilizassem literalmente a expressão “demônios da linguagem”, descreviam como certas formas de fala ou pensamento verbalizado podiam ser inspiradas por forças malignas. O demônio da tagarelice, da vaidade verbal e da dispersão mental era visto como opositor da oração contínua. O silêncio, nesse contexto, era uma disciplina ascética, mas também uma forma de resistir e vencer a dispersão espiritual. Uma pequena anedota ilustra bem essa visão: um discípulo perguntou a seu abba por que o silêncio era tão importante. O monge respondeu: “Um homem tinha um jarro cheio de água pura. Cada palavra que dizia era como uma pedra lançada dentro do jarro. Logo a água se turvou, e ele já não podia beber dela. Assim é a alma: quando falamos demais, mesmo coisas boas se tornam confusas, e não resta clareza para ouvir a voz de Deus”.


Em outras culturas, encontramos imagens que passam ideias semelhantes. O chamado Quin Ling chinês, em algumas interpretações, é descrito como personagem que drena a vitalidade da pessoa através das palavras ditas e escritas. Ele só se dissipa quando o discurso se extingue; isso aponta metaforicamente a ideia de que a fala excessiva ou simplesmente falar por falar enfraquece a força interna. Também podemos ver algo similar, mas com outro prisma, no mito grego de Eco, a ninfa condenada a repetir apenas as últimas palavras que ouvia. Incapaz de criar um discurso próprio, sua vida se reduziu a ecos, uma vida desgastada pela repetição da fala de outros.


Na tradição judaica, também encontramos, como era de se esperar, advertências severas. A Torá (Pentateuco da Bíblia) apresenta a criação como ato de fala divina: “E Deus disse: haja luz”. A palavra é força criadora, mas o Midrash (coleções de comentários da Torá) alerta para o lashon hara, a língua má, considerada tão grave quanto o homicídio. Um conto midráshico reforça essa percepção: um rei pediu a seu servo que trouxesse do mercado a melhor coisa do mundo. O servo trouxe uma língua. No dia seguinte, o rei pediu a pior coisa do mundo. O servo trouxe novamente uma língua. “Com a língua podemos abençoar e curar, mas também amaldiçoar e destruir. Nada é tão bom, e nada é tão mau, quanto a palavra”, explicou. O Tânia, livro da tradição judaica hassídica, ensina que as palavras têm força espiritual e que o discurso vazio alimenta as forças do sitra achra, o “lado oposto”, associado ao mal. A linguagem é um canal de força que pode ser santificado ou corrompido.



No cristianismo, Nossa Senhora, em locuções interiores ao Padre Stefano Gobbi, reunidas no livro do Movimento Sacerdotal Mariano, advertiu que existe uma ação diabólica por meio da comunicação. Ela descreveu como o mal usa as palavras para confundir e enfraquecer a fé dos sacerdotes e fiéis. É importante lembrar que tais mensagens pertencem ao campo das revelações privadas, não ao magistério oficial da Igreja. Ainda assim, elas reforçam a percepção de que a comunicação pode ser instrumento de evangelização ou de destruição, dependendo da pureza do coração do orador. É claro que devemos lembrar, como tenho feito em vários artigos anteriores, que a imposição do silêncio e do fazer calar também pode ser uma atitude diabólica, em prol de uma união e paz falsa e de uma defesa autoritária da própria autoridade. Portanto, temos, é claro, um território que exige muita cautela. Aquele que deseja falar precisa ter pureza de coração para que as palavras tenham efeito. E nem sempre o silêncio é sinal de cultivo espiritual e prudência.




A questão, portanto, não se resume à linguística ou à gramática, como parece ser a principal preocupação atualmente. Trata-se de adquirir o claro entendimento de que a linguagem é um território espiritual em si mesma, tanto o território escrito quanto o falado.


Se olharmos para a Torre de Babel, para os logismoi dos Padres do Deserto e para o lashon hara do Midrash, vemos um fio comum: a linguagem pode dispersar, drenar ou desviar. O poder das palavras é tão grande que exige disciplina espiritual. Não por acaso, tradições distintas convergem na valorização do silêncio e da palavra justa, que é caminho da sabedoria.


A modernidade, ao insistir na revolução da linguagem, talvez tenha esquecido que toda revolução verbal implica riscos espirituais. Mudar palavras é mudar mundos, mas também pode abrir espaço para forças destrutivas.


A comunicação contemporânea, cheia de velocidade e envolta na multiplicação de discursos, torna ainda mais urgente essa reflexão por parte daqueles que manuseiam o poder das palavras. Se os monges do deserto já viam na tagarelice um perigo espiritual, o que dizer das redes sociais e da avalanche de palavras que nos cercam? A advertência de Nossa Senhora parece tomar forma muito definida. Há uma ação diabólica por meio da comunicação, e cabe aos cristãos purificar sua linguagem. No entanto, é preciso também salientar que nem toda palavra que divide é diabólica. Nosso Senhor, ao comunicar a instrução sagrada, muitas vezes usou ou se viu em situações com a mesma atitude externa, mas com sentidos diferentes.


Por exemplo, o fariseu e o publicano no templo: o fariseu, de pé, exaltava suas obras, enquanto o publicano, de longe, batia no peito e pedia misericórdia. O sinal externo, portanto, não era o problema; a questão estava no coração: um tinha o coração impuro em autoapreciação, e o outro puro em contrição.

O mesmo vale para a divisão. “Diabo” significa divisor; realmente, quem induz a divisão por interesses pessoais, egoístas, mesquinhos e por sede de poder não age segundo as Leis Divinas (infelizmente, isso não acontece somente no meio secular). No entanto, Nosso Senhor disse claramente: “Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada”. Essa espada é o Evangelho, que causa uma divisão necessária: separa a verdade da mentira, a luz das trevas. Cabe, portanto, compreender que a divisão ocorrerá, mas nem toda divisão é diabólica. 


A espada já está posta e a cortar.



Curiosamente, a própria Bíblia, como era de se esperar, nos dá o remédio: se em Babel ocorre a dispersão das línguas como punição ao orgulho humano, em Pentecostes é o reverso. O Espírito Santo faz com que os apóstolos falem línguas de povos diferentes, e todos compreendem a mesma mensagem. Daí a minha insistência em falar do Espírito Santo aos que manuseiam a palavra em ações seculares cristãs.


Além disso, é útil lembrar que existem textos hebraicos que afirmam que o mundo é sustentado pelas palavras da Torá (da Bíblia), ou seja, se o estudo da Torá cessasse por um instante, o universo inteiro se desfaria. Acredito que, com o tempo, ficará claro que as nossas palavras podem refletir a força vital contida nas Palavras Divinas que sustentam a realidade e o mundo em que vivemos. Na filosofia antiga, Platão via o logos como ponte entre o mundo sensível e o inteligível; no cristianismo, o Logos é uma pessoa: o Verbo encarnado, Jesus Cristo.



Com esse olhar atento e refinado, surge a acuidade para ler com outra mente:

“As palavras que eu vos tenho dito são espírito e vida.” – João 6, 63





professora Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025). 




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