Representações psicossociais da moda

by - segunda-feira, março 16, 2026



A moda, historicamente percebida como um campo voltado à estética (percepção pelos sentidos) e ao consumo, assume, na contemporaneidade, um papel de construção identitária e expressão psicossocial. Como fenômeno cultural, ela ultrapassa o vestuário e insere-se nas dinâmicas de poder, nas relações interpessoais e nos processos de individualidade. A moda opera como mecanismo de distinção social, ao mesmo tempo em que promove certa homogeneização do comportamento.

Neste contexto, produções audiovisuais como O Diabo Veste Prada (2006), o drama sul-coreano Agora Terminamos (2022) e a série Celebrity (2023) apresentam narrativas que exploram a moda como linguagem simbólica, não verbal, mediadora de conflitos internos, estratégia de ascensão social e reconstrução emocional e biográfica.

A psicologia social contribui significativamente para esse debate, oferecendo subsídios teóricos para a análise dos processos de influência, representação e identidade. O conceito de enclothed cognition, desenvolvido por Adam e Galinsky (2012), sugere que as roupas que vestimos afetam não apenas a forma como os outros nos percebem, mas também a maneira como nos percebemos. Aliada à sociologia da moda e aos estudos culturais, essa abordagem permite compreender o papel da moda como artifício do sujeito, que vê nessa dinâmica a oportunidade de finalmente se alocar no mundo, funcionando como instrumento de autoconstrução. Vestir-se é um ato social que envolve negociações entre o corpo, o contexto e os códigos culturais vigentes. Esse ato pode, no entanto, desenrolar-se em uma conjuntura de banalização ou em vigências altamente falseadoras, o que compromete a veracidade da expressão.




A moda moderna é marcada pela efemeridade e pela individualização, funcionando como espelho das transformações sociais e individuais. Nesse sentido, a moda é usada para performar identidades, negociar pertencimento e exercer formas de resistência ou conformidade. Basta observar que, ao aderir a determinado conceito atrelado a um grupo, uma das primeiras atitudes tomadas é mudar as roupas, o que, dentro do terreno moral, muitas vezes é benéfico para a pessoa e para o mundo. No entanto, quando ocorre alguma ruptura com o grupo, a primeira coisa a ser desfeita são os pactos da linguagem não verbal manifestada pelas roupas; ou seja, a pessoa muda a forma de se vestir, o que também, em alguns casos, é um favor que faz a si mesma e ao mundo.

Isso posto, vale salientar que a moda opera como mecanismo não verbal de conformidade social, capaz de reforçar normas e expectativas coletivas. A escolha de determinadas peças, marcas ou estilos pode indicar o desejo de integração a um grupo ou a busca por distinção. Possuir uma marca é visto, nesse prisma, como possuir um lugar no mundo.

Devemos reconhecer o papel que a moda tem na mediação entre o indivíduo e o coletivo, entre o interno e o externo, entre o desejo e a norma. Vivemos entre muitas normas, inclusive mais vigentes que as religiosas, e diante delas existe um número enorme de pessoas que se curva sem reflexão. O mundo em que vivemos é cheio de normas não verbais.

A discussão sobre moda como linguagem psicossocial ganha amplitude e profundidade quando confrontada com a perspectiva da modéstia enquanto virtude, conforme apresentada no livro Modéstia: O Caminho da Beleza e da Santa Ordem (2018). No ensaio, é proposta uma abordagem em que o vestuário é visto como reflexo de valores éticos, espirituais e sociais. A modéstia no vestir é uma postura interior de respeito, equilíbrio e ordenação da beleza.


“A modéstia é a virtude que regula os atos exteriores conforme a dignidade da pessoa humana e a ordem natural das coisas” (Barros, 2018, p. 45).


Ao vestir-se com modéstia, o indivíduo comunica valores pessoais e participa de uma ética coletiva que valoriza a dignidade e a harmonia social. 







Análise fílmica e seriada: representações psicossociais da moda


A moda, enquanto linguagem simbólica e psicossocial, desempenha papel central nas narrativas de O Diabo Veste Prada (2006), Agora Terminamos (2022) e Celebrity (2023). Em cada obra, o vestuário torna-se expressão de conflitos internos e dinâmicas sociais.

Em O Diabo Veste Prada, a trajetória de Andrea Sachs, interpretada por Anne Hathaway, funciona como metáfora da jornada do herói. Inicialmente alheia ao universo da moda, Andrea ingressa na revista Runway como assistente da poderosa editora Miranda Priestly. A transformação da personagem acompanha sua evolução psicológica e social, mostrando fases de desequilíbrio, adaptação e ruptura.

O figurino sofisticado representa status e pertencimento, mas também guarda ligação com alienação e perda de autenticidade. Andrea enfrenta dilemas éticos ao se adaptar ao ambiente competitivo, questionando seus valores e identidade, até esquecê-los. Ao final, rompe com o sistema que a aprisionava e reorganiza sua relação com a moda. Há certa libertação na ligação e desligamento parcial da personagem com esse universo, e também um aprendizado durante o percurso, ainda que abandonado pela própria protagonista.

Já o drama sul-coreano Agora Terminamos acompanha Ha Young Eun, designer de moda que vivencia rupturas afetivas e profissionais. A aparência dos personagens reflete estados emocionais e processos de reconstrução, como é característico dos dramas asiáticos. O figurino de Young Eun transita entre sobriedade e sofisticação, mostrando dor, resiliência e renascimento. As mudanças no vestuário acompanham os ciclos de aproximação e afastamento entre os protagonistas, numa psicodinâmica dos vínculos. A série também evidencia os tipos de interação no meio da moda, incluindo certo afastamento emocional imposto como forma de proteção.

Por outro lado, Celebrity (2023) aborda criticamente o universo das influenciadoras digitais, expondo os mecanismos de validação social, narcisismo e ansiedade atrelados à imagem e à aparência, agora duplicados em uma presença virtual. A narrativa, perturbadora em alguns momentos, mostra com ironia o lado obscuro da humanidade por trás de máscaras lindamente apresentadas em público. O vestuário é utilizado como construção de persona, reforçando status e visibilidade nas redes. A protagonista Seo Ah Ri visita os bastidores tóxicos da indústria da imagem, inicialmente incrédula de que tal realidade existisse, e acaba por descobrir seu funcionamento. Há também uma análise interessante nas entrecenas sobre a distinção entre ricos e novos ricos.

A obsessão por aparência e aprovação digital é retratada de forma explícita como fonte de sofrimento psíquico, alienação e perda de autenticidade. A moda é apresentada como instrumento de sobrevivência social, no sentido mais brutal e artificial possível. A série tensiona os limites entre realidade e espetáculo, mostrando os impactos da cultura da influência sobre a vida contemporânea. Em alguns momentos, lembra temas da peça O Veneno do Teatro, que aborda o efeito da interpretação e da artificialidade no ato do ator. Desde a primeira cena, entre um ator e um aristocrata, já se aponta o impacto da aparência sobre a percepção. Na montagem recente protagonizada por Osmar Prado e Maurício Machado, o aristocrata é inicialmente confundido com um copeiro, e o desrespeito do ator diante dessa imagem revela como somos influenciados pelo que vemos. A peça condensa, de forma exemplar, nossa incapacidade de enxergar além das aparências e dos códigos de status.





You May Also Like

0 comments

Olá, Paz e Bem! Que bom tê-lo por aqui! Agradeço por deixar sua partilha.