Política Eclesiástica 1

by - sexta-feira, janeiro 16, 2026

Política Eclesiástica 1

“Ele é a cabeça do corpo, da Igreja; é o princípio, o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a primazia.” - Colossenses 1,18





Política Eclesiástica - ponto 1

Professora Ana Paula Barros¹





Para São Tomás de Aquino, a política é uma ciência prática que tem como finalidade ordenar a vida da comunidade em vista do bem comum. Em sua obra De Regno, São Tomás afirma que o governo não deve ser entendido apenas como técnica de administração, mas como uma dimensão moral: o governante é responsável por conduzir o povo à virtude e à justiça.


O bem comum, na tradição católica, significa o conjunto de condições sociais, morais e espirituais que permitem às pessoas alcançar sua plenitude — não apenas material, mas também ética e religiosa. Não se trata da soma dos interesses individuais, mas daquilo que garante a realização integral da comunidade e de cada pessoa dentro dela. A virtude é a prática do bem com todas as forças físicas e espirituais, e a justiça é dar a cada um o que lhe é devido. Na Suma Teológica, o Santo Doutor também distingue entre diferentes formas de governo, reconhecendo que a monarquia, quando orientada pelo bem comum, é superior às demais, mas alerta para o risco da tirania quando o poder se volta ao interesse próprio. Essa visão mostra que, para a tradição católica, a política é inseparável da moral e da finalidade última do homem, que é Deus.


Santo Agostinho, em A Cidade de Deus, oferece uma perspectiva anterior e complementar ao distinguir a civitas terrena (cidade terrena), marcada pelo amor próprio e pela busca de poder, da civitas Dei (cidade de Deus), orientada pelo amor a Deus e pela justiça. Para Santo Agostinho, a política terrena tem um valor subordinado: é necessária para manter a ordem e evitar o caos, mas deve sempre estar subordinada à lei divina.


Outros autores católicos reforçaram essa visão ao longo da história. São Roberto Belarmino (século XVI–XVII) afirmou que a autoridade política é legítima quando reconhece sua origem em Deus e se orienta pelo bem comum. Papa Leão XIII, na encíclica Rerum Novarum (1891), aplicou esses princípios à questão social, mostrando que a política deve proteger os trabalhadores e promover justiça social, sempre subordinada à lei moral. Por fim, Jacques Maritain, no século XX, retomou parte da tradição tomista ao afirmar que a política deve respeitar a dignidade da pessoa humana e ser expressão de uma ordem justa, mas também sublinhou a autonomia da esfera política em relação à Igreja, contribuindo para a concepção moderna de laicidade positiva.


A chamada laicidade positiva é uma concepção moderna que busca harmonizar a autonomia do Estado com a presença da religião na vida pública. Diferente da laicidade hostil, que procura excluir a fé do espaço social, a laicidade positiva reconhece que a religião, especialmente no caso da tradição cristã, pode oferecer valores éticos e culturais fundamentais para a construção do bem comum. No entanto, seus malefícios aparecem quando esse equilíbrio se rompe: o Estado pode instrumentalizar a religião para legitimar decisões políticas e a própria Igreja corre o risco de reduzir sua missão espiritual ao papel de mera colaboradora política. Assim, a laicidade positiva, embora concebida como diálogo, pode degenerar em ambiguidade e gerar tensões politico religiosas (como acontece aqui no Brasil nesse exato momento e em vários lugares do mundo).









A política eclesiástica pode ser entendida como a organização do poder dentro da Igreja, voltada para a preservação da fé, da disciplina e da comunhão. Diferente da política civil, que busca ordenar a sociedade em vista do bem comum temporal, a política eclesiástica tem como finalidade a unidade espiritual e a fidelidade à tradição. Em princípio, não deveria ser guiada pela lógica da competição ou da disputa de interesses, mas na prática muitas vezes sofre com as fragilidades humanas: invejas, ciúmes, ambições de poder e obstinações que não defendem a tradição, mas sim ideias de caráter político-partidário. Essa tensão mostra que, embora a estrutura eclesiástica seja ordenada e voltada para a comunhão, ela também está sujeita às mesmas limitações que marcam a vida social e política em geral.


A organização interna da Igreja se distribui em diferentes níveis de poder. O Papa, sucessor de Pedro, exerce autoridade suprema e garante a unidade da fé. O colégio episcopal, formado pelos bispos em comunhão com Roma, governa suas dioceses e participa de sínodos e concílios, colaborando na condução da Igreja em nível regional e universal. O clero local, composto por padres e diáconos, exerce autoridade pastoral direta sobre as comunidades, sendo o elo mais próximo entre a hierarquia e os fiéis. Já os institutos religiosos — ordens e congregações — ainda que subordinados à hierarquia, possuem autonomia interna para viver e testemunhar seus carismas específicos. Essa estrutura garante que a política eclesiástica seja ao mesmo tempo hierárquica e colegial, equilibrando a autoridade central com a participação das diversas instâncias, instâncias  clericais e religiosas, veja bem.



Apesar dessa organização, a política eclesiástica, no que se refere aos leigos, depende essencialmente da escuta dos padres. Para que o prisma do leigo seja considerado, é necessário que sua voz passe pelos padres às instâncias superiores. Isso exige uma relação saudável entre clero e povo, bem como um genuíno interesse do clero pelo bem das almas católicas, evitando abordagens que apenas validem percepções pessoais, tendências político-partidárias ou correntes clericais internas (as populares panelinhas). Essa dinâmica se explica porque a Igreja é, em sua essência, uma monarquia — uma das poucas monarquias eletivas ainda em funcionamento no mundo — e sua vitalidade depende da fidelidade à tradição e da atenção aos movimentos dentro da comunidade católica, especialmente aqueles espontâneos, que muitas vezes sinalizam a ação do Espírito Santo nas diretrizes da Igreja. O clero brasileiro, contudo, tem demonstrado dificuldade em interpretar tais sinais. Quando foi solicitada a oração sobre o laicato em 2017, surgiram iniciativas de institutos seculares em diversos cantos do país, mas os padres pediram, receberam e não acolheram bem. Nos anos seguintes, clamou-se para que “o espírito de profecia não morra na Igreja”, mas, diante das denúncias que emergiram — afinal, profecia é também denúncia do erro — novamente os padres pediram, receberam e não gostaram. Isso evidencia que parte do clero encontra dificuldades em ler e compreender os movimentos espontâneos, resposta imediata às próprias orações. 



No plano institucional, a Igreja se organiza como uma monarquia eletiva: o Papa é escolhido pelo Colégio de Cardeais, mas uma vez eleito exerce poder monárquico pleno dentro da Igreja. Esse modelo combina a dimensão eletiva com a dimensão monárquica, que garante unidade e autoridade suprema. A antiga tríplice coroa ou tiara papal simbolizava três dimensões do poder pontifício: a autoridade espiritual sobre a Igreja, o poder temporal sobre os Estados Pontifícios e a primazia moral como vigário de Cristo. Com a perda dos Estados Pontifícios no século XIX, a Igreja deixou de exercer poder temporal direto, concentrando-se em sua autoridade espiritual e moral. Desde o Papa Paulo VI, a tiara deixou de ser usada, sinalizando a mudança definitiva no modo de exercer o poder político.


Ao longo da história, também se manifestaram correntes eclesiásticas, que podem ser comparadas a partidos internos, embora não sejam partidos políticos formais. Na Idade Média, disputas entre ordens religiosas e entre conciliaristas e papistas marcaram a vida da Igreja. No século XX, especialmente após o Concílio Vaticano II, surgiram divisões entre correntes progressistas e tradicionalistas. 


Nada de novo debaixo do sol...




A proposta destas explicações é oferecer uma visão mais realista da Igreja, reconhecendo tanto sua grandeza espiritual quanto suas fragilidades humanas. O fato de a Igreja ter atravessado séculos, resistido a crises internas e externas e permanecido fiel à sua missão, apesar das limitações de seus membros, constitui em si um verdadeiro milagre. Essa consciência permite viver uma catolicidade mais madura, sem ilusões ingênuas, mas também sem perder a admiração pelo mistério que sustenta a instituição. Para os leigos, essa maturidade significa ter clareza sobre o que esperar do clero, compreender como lidar com suas falhas e saber como proceder dentro de uma monarquia eletiva.




"A Igreja é Santa: porque Jesus Cristo, seu Fundador, é Santo; Santo é o Espírito que vivifica; Santa a sua Doutrina; Santos os seus Sacramentos; Santos são muitos dos seus membros." - Catecismo Essencial, 1987








Leia também:















¹Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)

You May Also Like

2 comments

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, é da Loyola em parceria com editora Vozes. Então não divido o vídeo, pois pessoas acabam não assistindo a segunda parte ou tirando uma parte do contexto da outra. Fazia assim até que notei que na prática gera muita mais confusão que auxílio. E o youtube sempre mostra os vídeos que precisam ser completados o que facilita mais o lembrete de terminar de assisti-lo dentro ainda do contexto...

      Excluir

Olá, Paz e Bem! Que bom tê-lo por aqui! Agradeço por deixar sua partilha.