Papa Leão na Vogue: o sinal de um anseio
Papa Leão na Vogue: o sinal de um anseio
Professora Ana Paula Barros¹
A inclusão do Papa Leão na lista dos mais bem vestidos da Vogue 2025 deve ser compreendida como demonstrativo da relevância da tradição na cultura contemporânea. O reconhecimento pela revista secular evidencia a valorização de elementos que ultrapassam o campo da moda e se inserem na esfera da memória cultural, da linguagem não verbal que sustenta uma sociedade. O catolicismo é a religião, a resposta, mas é também uma cultura. Possui literatura, arquitetura, língua, artes, política, filosofia e leis próprias. Essa estrutura cultural apresenta uma linguagem verbal e uma não verbal. A linguagem não verbal é o que nomeamos como simbólica, que, longe de ser apenas figurativa, constitui um farol de sinalização.
Esse movimento de resgate da memória coletiva conecta-se a fenômenos observados em diferentes contextos. Na China, o retorno do hanfu reafirma a identidade nacional e a preservação de costumes. Na América do Norte e na Europa, o crescimento do vintage fashion demonstra a busca por peças que representam períodos históricos importantes, como a Guerra Civil americana ou a era vitoriana na Inglaterra. No livro intitulado Modéstia, capítulo “Anseio”, escrito em 2018 e reeditado em 2025, afirmo que esse processo é uma resposta ao vazio contemporâneo, em que o passado é convocado para sustentar o presente de uma sociedade formada por pessoas sem bagagem histórica, sem memória familiar ou coletiva. Trata-se de um esforço das gerações anteriores de esquecer a si mesmos, sem sucesso. Como mencionei em aula, as gerações são movidas por uma resposta à geração anterior, como um pêndulo social.
"Dentre os diversos modos de se referir a esse interesse pela modéstia, está a expressão “onda” ou ainda “neurose”.
O tempo dirá se estou certa, mas essa expressão provém de uma análise incompetente, não somente pelo que já foi dito anteriormente, mas ainda pelo que virá adiante.
Quando estamos diante de um comportamento social, devemos nos atentar a alguns pontos cruciais visando analisá-lo bem. No que se refere à modéstia, alguns deles podem ser observados nas respostas às seguintes perguntas:
— Quais os motivadores desse comportamento no Brasil?
— Isso se repete em outros países?
— Se sim, tem as mesmas características?
— Existe um fio condutor entre o que acontece no Brasil e o que acontece em outros países?
Toda abordagem que não considera nem mesmo estas questões é falha." (Modéstia, p. 171)
Durante as Olimpíadas de Paris 2024, o uso de trajes tradicionais por delegações reforçou esse aspecto. O uniforme deixou de ser apenas funcional e passou a representar narrativas culturais, pertencimento e raízes, ampliando a recepção simbólica dos participantes.
Há um anseio humano por história e herança. As descobertas arqueológicas evidenciam isso ao revelar estruturas como Göbekli Tepe, na Turquia, datado de cerca de 9600 a.C., aproximadamente 100 a 200 anos após o fim da última era glacial, quando o planeta ingressava no Holoceno. O fato de comunidades recém-saídas de um contexto de instabilidade climática severa terem erguido templos monumentais antes de possuírem suas próprias casas, ainda como nômades, demonstra a preocupação em deixar marcas duradouras e transmitir saberes astronômicos e simbólicos às gerações futuras. Esse impulso não se restringiu à Eurásia: na Amazônia, em Monte Alegre (Pará), os painéis rupestres da Pedra Pintada, feitos com pigmentos minerais misturados a resinas vegetais, datam de cerca de 11.200 anos atrás, praticamente contemporâneos a Göbekli Tepe. A ideia de criar e preservar uma herança histórica é puramente humana e reforça o papel da tradição como âncora cultural. Impressiona a engenhosidade desses antepassados: de um lado, estruturas monumentais de pedra na Turquia; de outro, um painel amazônico cuja técnica de fixação garantiu a durabilidade por milênios. É curioso e intrigante pensar que, séculos depois, artistas como Edgar Degas e Van Dyck enfrentaram problemas com a durabilidade de seus pigmentos, enquanto povos pré-históricos (aqueles que viveram antes da invenção da escrita) já haviam encontrado soluções eficazes para preservar sua arte. O depósito de saberes dos antigos. Mas voltemos...
Quando esse vínculo, o da herança histórica, não é encontrado nas famílias ou nos vínculos pessoais, ele migra para a cultura e para a religião quase automaticamente, caso o indivíduo em questão tenha essa graça. A religião, nesse contexto, assume o papel de família simbólica, oferecendo tradições, narrativas e linguagem próprias — verbais e não verbais — que acolhem o indivíduo em um manto de herança. Daí a importância dos padres e catequistas em transmitir a fé corretamente e o efeito negativo (humano e espiritual) da não realização dessa tarefa. Esse circuito — anseio, busca, religião — cura a sociedade ao oferecer bases históricas e de herança que funcionam como âncora: a história da Igreja passa a ser a história da pessoa.
Assim, a presença do Papa Leão na lista da Vogue 2025 não deve ser vista apenas como reconhecimento aparente, mas como parte de uma trama de anseio que possui o mesmo fio condutor: a busca por elementos que tenham história e que também nos inserem em uma narrativa coletiva que se torna pessoal. Em sociedades fragmentadas, como a pós-moderna, a tradição torna-se elemento de coesão, presente tanto nas vestes religiosas quanto nos resgates culturais em diferentes regiões do mundo.
¹Ana Paula Barros
Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).
Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.
Totus Tuus, Maria (2015)

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