A amizade entre homem e mulher existe

by - segunda-feira, junho 11, 2018



Julian Marías, filósofo espanhol, observou que a interação entre homem e mulher sofreu uma transformação radical ao longo das décadas. Se antes o contato era distante, quase furtivo — um olhar rápido entre divisórias, um encontro breve na missa ou a alegria contida ao receber um bilhete —, com o advento das guerras mundiais e a reorganização social, a convivência se tornou aberta e cotidiana: nas ruas, nas escolas, nas universidades. Nunca houve tanta oportunidade para a amizade. E, contudo, contraditoriamente, nunca houve tanto desencantamento.

No romantismo, o encantamento era levado ao extremo. A mulher era vista como figura angelical, idealizada em sua palidez, brancura ou morenice, como faz o protagonista volúvel de A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, o primeiro romancista brasileiro. Hoje, em contraste, o que domina é a sexualidade. Freud e seus discípulos deram à sensualidade um peso quase absoluto, e com isso a amizade parece ter sido sacrificada. A aproximação entre homem e mulher, em muitos casos, é reduzida a um movimento instintivo, quase animal, voltado ao acasalamento, mesmo nos meios cristãos. É uma interação empobrecida, desumana.

Não surpreende, portanto, que alguns defendam que não existe amizade entre homem e mulher. Mas essa premissa se desfaz diante da vida dos santos e da própria tradição bíblica. Segundo a Bíblia, Adão e Eva foram criados em estado de inocência e pureza: viviam nus e não se envergonhavam, tinham inteligência infusa, não morriam nem adoeciam e possuíam o domínio das paixões pela razão. O Talmude e os Midrashim, da tradição judaica, descrevem Adão como portador de uma luz espiritual intensa visível de longa distancia, e Eva igualmente sem mácula antes da queda, também revestida de “luz de glória” (kotnot or). O Tanya, obra central do judaísmo chassídico, interpreta Adão e Eva como representantes da alma em estado de pureza original, sem inclinação ao mal. Essa pureza, porém, não era definitiva: estava em prova e foi perdida com o pecado. Assim, o plano original de Deus era um casal em pureza, que deveria passar por provação e ser elevado à vida celeste. A pureza é o estado da nossa alma na forma original, criada por Deus, antes da queda da humanidade.


No Antigo Testamento encontramos Débora e Baraque, que cooperaram na liderança de Israel contra Sísera. Após Cristo, surgem amizades santas que edificaram a Igreja: São Jerônimo e Santa Paula de Roma, Santa Teresa e São João da Cruz, São Francisco e Santa Clara, Dom Bosco e Santa Maria Mazzarello, São Francisco de Sales e Santa Joana de Chantal. Essas amizades existiram e geraram frutos espirituais imensos.



O problema, portanto, não está na impossibilidade da existência da amizade entre homem e mulher, mas em nossa mediocridade como humanidade caída, ferida e luxuriosa. É a incastidade, os pensamentos mundanos, o coração volúvel, a falta de fortaleza e a incredulidade na graça de Deus que nos impedem de viver amizades puras entre homem e mulher. Mesmo entre cristãos essa interação foi reduzida a uma só palavra: coito, tal e qual um animal. A graça redentora, porém, mostra que é possível restaurar a pureza nos relacionamentos e antecipar, já nesta vida, algo do convívio celeste. Talvez o mínimo de honestidade que se possa exigir seja reconhecer: a amizade entre homem e mulher existe, os santos estão aí para provar. Quem não consegue vivê-la deve dizer: a amizade existe, eu é que não consigo porque sou incrédulo, incasto, prisioneiro de pensamentos impuros, mas existe. 


Negar a existência da possibilidade dessa amizade é negar a própria obra da Graça, o poder da Graça.




professora Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025). 

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