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Salus in Caritate

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Comentário a Carta aos Hebreus por São João Crisóstomo


Introdução

Este é um material de apoio do Projeto de Leitura Bíblica: Lendo a Bíblia, para baixar o calendário de leitura bíblica e os outros textos de apoio dos Doutores da Igreja , online e pdf, sobre cada livro da Bíblia, clique aqui. 

Este projeto é um dos ramos de uma árvore de conteúdos planejados especificamente para o seu enriquecimento. Os projetos que compõem esta árvore são: Projeto de Leitura Bíblica com textos de apoio dos Doutores da Igreja (baixar gratuitamente aqui), Plano de Vida Espiritual (baixar gratuitamente aqui), o Clube Aberto de Leitura Conjunta Salus in Caritate, com resenha e materiais de apoio (para ver a lista de livros, materiais e os cupons de desconto  2020 clique aqui) e o Salus in Caritate Podcast (ouça em sua plataforma preferida aqui). 



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O QUE É UM DOUTOR DA IGREJA? 


Os Doutores da Igreja são homens e mulheres ilustres que, pela sua santidade, pela ortodoxia de sua fé, e principalmente pelo eminente saber teológico, atestado por escritos vários, foram honrados com tal título por desígnio da Igreja. Os Doutores se assemelham aos Padres da Igreja, dos quais também diferem. Padres da Igreja são aqueles cristãos (Bispos, presbíteros, diáconos ou leigos) que contribuíram eficazmente para a reta formulação das verdades da fé (SS. Trindade, Encarnação do Verbo, Igreja, Sacramentos. ..) nos tempos dos grandes debates e heresias. O seu período se encerra em 604 (com a morte de S. Gregório Magno) no Ocidente e em 749 (com a morte de S. João Damasceno) no Oriente. 

Para que alguém seja considerado Padre da Igreja, requer-se antiguidade (até os séculos VII/VIII), ao passo que isto não ocorre com um Doutor. Para os Padres da Igreja, basta o reconhecimento concreto, não explicitado, da Igreja, ao passo que para os Doutores se requer uma proclamação explicita feita por um Papa ou por um Concílio. Para os Padres, não se requer um saber extraordinário, ao passo que para um Doutor se exige um saber de grande vulto. 


EM SUMA 


Doutor da Igreja é aquele cristão ou aquela cristã que se distinguiu por notório saber teológico em qualquer época da história. O conceito de Doutor da Igreja difere do de Padre da Igreja, pois Padre da Igreja é somente aquele que contribuiu para a reta formulação dos artigos da fé até o século VII no Ocidente e até o século VIII no Oriente. Há Padres da Igreja que são Doutores. Assim os quatro maiores Padres latinos (S. Ambrósio, S. Agostinho, S. Jerônimo e S. Gregório Magno) e os quatro maiores Padres gregos (S. Atanásio, S. Basílio, S. Gregório de Nazianzeno e S. João Crisóstomo). 

Portanto, o parecer de um Doutor da Igreja é maior do que achismos, independente do assunto em estudo ou discussão.


SÃO JOÃO CRISÓSTOMO 


Doutor da Igreja, Boca de Ouro, Alma de Anjo e Coração de Pai.

 João nasceu com alma monástica, tanto que, por duas vezes passou anos no silêncio do deserto; por causa da precária saúde voltou da vivência religiosa mais retirada e em Antioquia foi ordenado sacerdote. Famoso devido ao seu dom de comunicar a Palavra de Deus, Crisóstomo não demorou a abraçar a cruz do governo pastoral da diocese de Constantinopla, já que o imperador fez de tudo para isto. Ao perceber a má formação do clero, entregue à ambição e à avareza, o santo começou a exigir vida de pobreza e simplicidade evangélica daqueles que precisavam ser exemplo para o rebanho. 

Devido aos naturais atritos com o clero e fervorosas pregações contra o luxo e imoralidades da vida social, São João teve problema com a imperatriz Eudóxia, que começou o movimento causador dos seus dois exílios, sendo que no último, os sofrimentos da longa viagem e os maus tratos foram mortais! 

Amado pelo povo e respeitado por todos, São João Crisóstomo morreu em 407 e deixou, além do belo testemunho dos dez anos de pontificado, suas últimas palavras as quais resumiram sua vida: “Glória seja dada a Deus em tudo!”. 

São João Crisóstomo, rogai por nós! Oração "Protegei-nos Senhor, concedeu-nos santos sacerdotes e leigos. Agradecemos por nos dar São João Crisóstomo como pai e professor em meio as trevas desse mundo que nos quer afastar de Vós. Agradecemos Senhor, pois nunca nos abandonou."



Os Hebreus

O nome "hebreus" vem do hebraico "Ivrim", que significa "povo do outro lado do rio". O livro de Gênesis, capítulo 10, a partir do versículo 21 diz que Noé gerou a Sem; este gerou a Arfaxade, que gerou Salá, que gerou Héber; este gerou a Pelegue, que gerou Reú, que gerou Serugue, que gerou Naor, que gerou Tera, que então gerou a Abrão (que significa "pai exaltado", mais tarde tendo seu nome mudado pra Abraão, que significa "pai de muitas nações"), sendo este considerado o patriarca do povo de Israel.


Comentário a Carta aos Hebreus por São João Crisóstomo

São Paulo escreve aos romanos: “Apóstolo dos gentios, procuro honrar o meu ministério, na esperança de provocar a emulação dos da minha raça” (Rm 11,13-14), e ainda em outra passagem: “Pois aquele que estava operando em Pedro para o apostolado em prol dos circuncisos operou também em mim em favor dos gentios” (Gl 2,8). Se, portanto, era apóstolo dos gentios (pois Deus lhe diz nos Atos: “Vai ao longe, aos gentios é que eu quero te enviar” – At 22,21), o que tinha ele a ver com os hebreus? Ou – lhes enviou uma carta? Aliás, era odiado por eles, conforme se evidencia por muitas passagens. Escuta ainda o que Tiago lhe diz: “Vês, irmão, como abraçaram a fé milhares de judeus...? Ora, ouviram dizer de ti que ensinas a apostatarem” da Lei (At 21,20-21). E foram-lhe feitas frequentes interrogações sobre este assunto.


Poderia perguntar alguém por que, sendo ele perito na Lei (instruído aos pés de Gamaliel e muito zeloso), e por isso idôneo para refutar, não fora enviado por Deus aos judeus? Porque justamente por isso o combatiam. Com tal previsão e certo de que não o aceitariam, disse Deus: “Vai aos gentios, porque eles não acolherão o teu testemunho a meu respeito” (cf. At 22,18). Então ele respondeu: “Mas, Senhor, eles sabem que de sinagoga em sinagoga eu mandava encerrar na prisão e vergastar os que creem em ti, e ao ser derramado o sangue de Estêvão, tua testemunha, estava presente como cúmplice daqueles que o matavam, e guardava as vestes deles” (At 22,19-20). Constituía sinal e prova de que não haveriam de acreditar nele. Acontece o seguinte: Se uma pessoa, contada entre os últimos, sem usufruir de estima, apartar-se de sua gente, será muito incômoda àqueles dos quais desertou. Mas, se quem o fizer for um homem ilustre, de zelo ardoroso e que partilhava com eles o modo de pensar, ser-lhes-á molesto e excessivamente triste o fato de rejeitar ele a doutrina, passar para outro partido e além disso, incrementar a incredulidade. Por que isso? Porque Pedro e os seus companheiros haviam convivido com Cristo, e visto seus prodígios e milagres; a Paulo, porém, nada disso sucedera, mas, sendo partidário dos judeus, de repente passou para o nosso lado, prestando-nos grande apoio. Os apóstolos pareciam dar testemunho da graça e diria alguém que atestavam por amor ao Mestre. Pedro era testemunha da ressurreição, e Paulo, no entanto, somente ouvira a sua voz. Por este motivo, vês que eles se tornaram inimigos, revoltados, planejando eliminá-lo.



Em verdade, “onde avultou o pecado, a graça superabundou” (Rm 5,20). Neste proêmio também o bem-aventurado Paulo o sugeriu, escrevendo aos hebreus. Atormentados e aflitos por muitos males, e por esta base julgando os fatos, podiam pensar que eram inferiores aos demais. Ele assegura que, por este motivo, haviam conseguido graça maior e superabundante, estimulando os ouvintes desde o começo do discurso. Diante disso enuncia: “Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora, aos pais pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio de seu Filho”.



Uma vez que realizou a purificação de nossos pecados, permaneçamos puros, sem contrairmos mácula. Conservemos impolutos e puros o decoro e a beleza que ele nos concedeu, sem mancha ou ruga ou algo de semelhante. São manchas e rugas mesmo os pecados leves, como a detração, a injúria, a mentira. Ou melhor, nem estes são leves, mas muito grandes a ponto de também privarem do reino dos céus. De que modo? Quem chama seu irmão de louco será condenado ao fogo da geena (cf. Mt 5,22). Se é assim para quem chamar de louco, por parecer mais leve e jogo infantil, quem o chama de malvado, malfeitor, invejoso e o ataca com inúmeros outros ultrajes, a que castigo não estará sujeito? O que há de mais horrível? Mas suportai, suplico-vos, o que digo. Se o que se faz a um dos mais pequeninos é a ele que se faz, e quem deixa de fazer a um dos mais pequeninos, é a ele que deixa de fazer (cf. Mt 25,40.45), não será o mesmo relativamente aos elogios e opróbrios? Quem injuria seu irmão, ofende a Deus, e quem o honra, honra a Deus.



Ensinemos, portanto, a nossa língua a proferir palavras boas: “Preserva tua língua do mal” (Sl 33,14). Deus não no-la deu para nos acusarmos, ultrajarmos, caluniarmo-nos mutuamente, e sim para louvarmos a Deus, proferir palavras agradáveis aos ouvintes, que sirvam de edificação e de proveito. Maldizes a alguém? O que lucras? Não causaste dano também a ti? Adquires a reputação de maldizente. Nenhum mal, nenhum se detém naquele que o suporta, sem abrange aquele que o comete. Por exemplo, o invejoso parece armar ciladas a outrem, mas ele é o primeiro a colher o fruto da injustiça, enfraquecido, corrompido, e odiado por todos. O cobiçoso priva o próximo de riquezas, mas perde a amizade dos demais; ou antes, faz com que todos o maldigam. A boa fama é muito melhor do que as riquezas. A boa fama não se elimina facilmente, as riquezas se perdem mais facilmente. Ou melhor, a falta de riquezas não prejudica àquele que não as possui; não ter boa fama torna o homem vergonhoso e ridículo, e de todos adversário e inimigo. O colérico primeiro castiga-se a si próprio atormentando-se, e por fim atinge aquele contra o qual se irrita. Assim também o maldizente primeiro causa a si mesmo vergonha, e depois àquele de quem detrai. E talvez nem o possa fazer, e vai-se com fama de malvado e desprezível, enquanto o outro se torna mais estimado. Quando alguém ouve uma detração, e em vez de se vingar, elogia e admira o detrator, não exalta o outro, mas o elogio reverte para si. Pois, conforme disse acima, as detrações tocam primeiro os que as proferem; assim igualmente os que conferem bens ao próximo são os primeiros a se deleitarem. De fato, os que praticam o bem ou o mal, certamente são os primeiros a deles fruírem. A água salobra e a potável igualmente enchem os vasos dos que a bebem e não diminuem a fonte donde emanam; assim também o vício e a virtude deleitam ou perdem aquele que os pratica. Assim acontece, de fato, na vida presente.



Relativamente à futura, quem consegue narrar os bens ou os males? Ninguém. Com efeito, os bens excedem não só as palavras, mas também todo entendimento; quanto aos males, recebem as denominações que costumamos lhes atribuir. De fato, diz-se que no além há fogo, trevas, vínculos, verme que não morre. E não só os que nomeamos, mas outros mais graves. E para entenderes, em primeiro lugar pondera logo o seguinte. Se há fogo, como existem trevas? Percebes que aquele fogo é mais intenso? Não produz luz. É fogo, e queima sempre? Vês que é mais intenso do que o nosso? Não se apaga, e, portanto, se diz que é inextinguível. Reflitamos, portanto, na gravidade do mal que consiste em queimar-se perpetuamente, estar nas trevas, emitir inúmeros gritos, ranger os dentes, e não ser atendido. Se, lançados num cárcere, pessoas criadas em liberdade consideram mais duro que qualquer espécie de morte apenas o fato do mau odor, de jazer nas trevas e de estar preso entre homicidas, calcula o que representa ser queimado com os homicidas deste mundo, sem ver nem serem vistos, mas no meio da multidão imaginar que se acha sozinho. Com efeito, as trevas e a carência de luz não permitem discernir nem os mais próximos, mas cada qual sentir-se-á isolado neste padecimento. Se, porém, por si nossas almas se angustiam e se perturbam com as trevas, o que será quando além das trevas, as dores e incêndios forem tantos? Por isso, suplico-vos, revolvamos estes fatos continuamente e suportemos o aborrecimento que nos causam as palavras, a fim de não sofrermos realmente os suplícios. Sem dúvida, tudo isto acontecerá, e ninguém socorrerá os que na terra cometeram injustiças; nem pai, nem mãe, nem irmão, mesmo se gozam de muita confiança e alcançam grandes coisas junto de Deus: “Mas o irmão não pode pagar o seu resgate, nem o homem o seu preço” (Sl 49,8). Deus retribui a cada qual segundo suas obras, e de acordo com elas salva ou castiga.“Fazei amigos com o dinheiro da iniquidade” (Lc 16,9). Obedeçamos, portanto. É mandamento do Senhor. Distribuamos o supérfluo aos pobres. Demos esmolas, quanto pudermos. Eis o que significa fazer amigos com o dinheiro da iniquidade. Gastemos o dinheiro com os pobres a fim de apagarmos, extinguirmos aquele fogo, e no além obtermos confiança. Não são eles que nos receberão ali, e sim as nossas obras. O suplemento dá a entender que não são simplesmente nossos amigos que podem nos salvar. Por este motivo não disse: Fazei amigos que vos recebam em seus eternos tabernáculos, mas acrescentou uma restrição, dizendo: “Com o dinheiro da iniquidade”. Mostra que convém fazer amigos com o dinheiro, explicando, no entanto, que a amizade só nos defende se tivermos boas obras, se distribuirmos com justiça as riquezas injustamente acumuladas. Não convém apenas aos ricos o que dissemos a respeito da esmola, mas também aos pobres. Se alguém se alimenta por meio da mendicidade, também a este se dirige a palavra. Por mais que seja, ninguém é tão pobre que não tenha dois óbolos. Como aquela viúva (cf. Lc 21), é possível mesmo aos que dão o pouco do mínimo que possuem superar os que dão muito porque muito possuem. Não são os dons que fornecem a medida, mas julga-se a importância da esmola de acordo com a possibilidade, a decisão dos doadores. Por conseguinte, sempre é necessária a decisão e sempre o amor a Deus. Se procedermos desta forma, e dermos pouco porque temos pouco, Deus não desviará a sua face, mas receberá a dádiva como se fosse grande e admirável. Atende à boa vontade, não às dádivas; e se vir que é grande, dá seu sufrágio e julgamento favorável e nos tornará participantes dos bens eternos. Seja-nos dado a todos nós alcançá-lo pela graça e amor aos homens etc. 



Por isso disse: “Pelos dons do Espírito Santo, distribuídos segundo a sua vontade”. Ele quer sugerir aqui, a meu ver, outra coisa: É possível que não houvesse ali muitos dotados de carismas; faltavam porque se fizeram negligentes. Visando consolá-los e não permitir que desanimassem, atribui tudo ao plano de Deus. Ele sabe, diz o Apóstolo, a quem é proveitoso conferi-los, e assim distribui a graça. O mesmo declara na Carta aos Coríntios: “Deus dispôs cada um dos mesmbros no corpo, segundo a sua vontade” (1Cor 12,18); e ainda: “Cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para a utilidade de todos” conforme lhe apraz (1 Cor 12,7). Mostra que o carisma depende da vontade do Pai. Às vezes, porém, muitos não recebem carismas por causa da vida impura e indolente. Por vezes também os que levam vida pura, não receberam. Por quê? Para não se ensoberbecerem, não se orgulharem, não se tornarem mais preguiçosos, não se exaltarem demais. Pois, se mesmo na falta de um carisma basta a consciência de uma vida pura para exaltar, muito mais, quando também ele existe. Por isso os carismas eram doados mais aos humildes e simples, e principalmente aos simples, porque, conforme foi dito: “Com alegria e simplicidade de coração” (At 2,46). Por este motivo mais exorta; ataca se forem mais indolentes. O humilde, que não enche a fantasia de pensamentos orgulhosos, torna-se mais zeloso, ao receber um carisma, julgando que o recebeu sem o merecer. Quem pensa que fez algum bem, considera que o carisma lhe é devido, e se incha de orgulho. Por isso Deus o distribui conforme a utilidade. Ver-se-á que isto acontece também na Igreja. De fato, um tem o dom de ensinar, outro nem abre a boca. Por essa razão, ninguém fique pesaroso: “Cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para a utilidade de todos” (1Cor 12,7). 



Sei que ficareis estupefatos e admirados por ouvir que podeis possuir um dom maior do que o de ressuscitar mortos, dar a vista a cegos, e fazer os milagres que se faziam no tempo dos apóstolos. E talvez vos pareça incrível. De que carisma se trata? Da caridade. Mas acreditai-me. A palavra não é minha e sim de Cristo, que fala através de Paulo. O que diz ele? “Aspirai aos dons mais altos? Aliás, passo a indicar-vos um caminho que ultrapassa a todos” (1Cor 12,31). O que significa: “Que ultrapassa?” É o seguinte: Os coríntios muito se vangloriavam por causa dos carismas, por falarem em línguas, dom mínimo, e exaltavam-se diante dos demais. Ele diz, portanto: Quereis absolutamente possuir alguns carismas? Eu vos mostro o caminho dos carismas, não só excelente, mas que ultrapassa a todos. Em seguida, diz: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tivesse a caridade, nada seria. Ainda que eu tivesse fé, a ponto de transportar montes, se não tivesse a caridade, eu nada seria” (1Cor 13,1-2). Vistes o carisma? Aspirai a este carisma. É superior a ressuscitar mortos, muito melhor do que todos os outros. E para te certificares de que assim é, ouve o que Cristo diz aos discípulos: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,35). Logo, demonstrando a que se refere, não menciona milagres. O que diz? “Se tiverdes amor uns pelos outros”. E ainda roga ao Pai: “Todos sejam um, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21). Ele dizia aos discípulos: “Dou-vos um mandamento novo: Que vos ameis uns aos outros” (Jo 13, 34).



(Observação do santo aos que ouvem a homilia)

Gostaríamos de saber claramente se alguns escutam com adequado zelo nossos dizeres, a fim de não lançarmos a semente à beira da estrada; desta forma transmitiremos os ensinamentos mais bem dispostos. Falaremos, contudo, mesmo que ninguém ouça, pelo temor do Salvador. Testemunha, diz ele, perante este povo, e se não ouvir, não terás culpa. Convicto de vosso zelo, porém, falarei não só por temor, mas com prazer. Agora, portanto, mesmo se ninguém ouvir, contanto que cumpra meu dever sem perigo, mesmo sem prazer assumo o trabalho. Pois, de que serve não ser acusado, se ninguém é auxiliado? Alguns retirem proveito e não alcançaremos tanta vantagem com a isenção do castigo quanto com vosso proveito. E como obter conhecimento disto? Observando que alguns de vós não estão atentos, interrogá-los-ei à parte; e se descobrir que retiveram algo, não digo tudo, do discurso – pois não será fácil –, mas ao menos um pouco, é evidente que não duvidarei acerca do restante. Convinha que, sem prevenir, de improviso vos inculcássemos. De resto, ser-me-á agradável, se ao menos desta maneira conseguir; ou melhor, também posso atacar os incautos. De fato, predisse que iria interrogar, mas ainda não declarei quando. Talvez hoje, talvez amanhã, talvez depois de vinte ou trinta dias, talvez depois de poucos dias, talvez após vários dias.


Desta forma igualmente Deus deixou-nos incerto o dia da morte. Não nos manifestou se virá hoje, amanhã, após um ano inteiro, ou vários anos, a fim de que em dúvida diante da expectativa nos mantenhamos em contínua virtude. Disse, em verdade, que havemos de partir, mas não a ocasião. Igualmente eu disse que perguntaria, mas não acrescentei a data, com a intenção de que estivésseis sempre prevenidos. Não retruque alguém: Ouvi há quatro, cinco ou mesmo mais semanas, e não posso guardar tudo. Com efeito, quero que o ouvinte retenha de tal modo que não haja esquecimento, a memória não falhe, não rejeite os dizeres. Quero que os guardeis, não para repetirdes, mas a fim de retirardes lucro. Esforço-me por obter tal finalidade. Tendo dissertado por cautela sobre os pontos necessários, iniciemos os subsequentes.



(Continua o comentário)


Deus, portanto, em primeiro lugar honrou o Filho, que conduziu por meio dos sofrimentos. Em verdade, é muito mais assumir a carne e sofrer o que sofreu do que ter criado o mundo e tirado do nada. É fruto da benignidade, muito maior do que o ato de criar. Demonstrando-o, ele declara: “A fim de mostrar nos tempos vindouros a extraordinária riqueza da sua graça, com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos céus, em Cristo Jesus” (Ef 2,7.6). “Convinha, de fato, que aquele por quem e para quem todas as coisas existem, conduzindo muitos filhos à glória, levasse à perfeição, por meio de sofrimentos, o Autor da salvação deles.” Importava que aquele que de todas as coisas cuida, e produziu-as para que existissem, entregar o Filho pela salvação dos demais, um só por muitos. Todavia não o disse, mas: “Levasse à perfeição, pelo sofrimento”. Expõe que aquele que sofre por um outro, não somente oferece proveito ao próximo, mas também se torna mais ilustre e perfeito. Declara-o aos fiéis, animando-os. De fato, Cristo foi glorificado ao sofrer. Quando, porém, digo: Foi glorificado, não penses que ele assumiu a glória; aquela glória da natureza sempre a teve, não assumiu coisa alguma.


Não vos entristeçais, dizendo: Por que sofremos isto e aquilo? Assim a vitória se faz mais brilhante; não seria brilhante a não ser que a morte abolisse a morte. É admirável porque ela venceu quem a fizera potente, revelando quantas faculdades e habilidades possui. Não atraiçoemos o dom que nos foi concedido. Não recebemos um espírito para recair no temor, mas um espírito de virtude, caridade e modéstia. Estejamos, portanto, de pé com vigor, zombando da morte. 



“Volta ao repouso, ó minha alma, pois o Senhor foi bondoso contigo”, e choras? Não é encenação e hipocrisia? Se de fato acreditas no que proferes, é inútil chorar. Se, porém, julgas que se trata de jogo, hipocrisia e fábulas, por que salmodias? Por que acolhes os recém-vindos? Por que não afastas os que salmodiam? Mas isso, replicas, é próprio dos loucos. Aquilo, porém, é muito mais. Por enquanto, admoesto; no decorrer do tempo tratarei deste assunto com maior vigor. Receio muito que deste modo alguma doença grave ataque a Igreja. E depois, corrigirei o luto; por enquanto denuncio, e conjuro ricos e pobres, mulheres e homens. 


A todos vós suceda que sem luto possais partir desta vida, e segundo uma disposição justa, os pais que envelheceram sejam enterrados pelos filhos, as mães pelas filhas, netos e bisnetos em boa e avançada velhice, e jamais haja morte prematura. Assim suceda, e isso rogo. Exorto aos presidentes e a vós todos a orardes a Deus uns pelos outros, e seja comum este voto. Se, porém, não acontecer e sobrevier uma morte dolorosa (dolorosa, digo, não por sua natureza; por si não é amarga, e em nada difere do sono; mas o digo em consideração de vossa afeição): se, portanto, acontecer, e alguns encomendarem carpideiras, acreditai-me. Não falo de modo diferente do que penso. Irrite-se quem quiser. Por muito tempo o excluiremos da igreja, qual idólatra (cf. Cl 3,5). Pois, se Paulo chama o avaro de idólatra, muito mais aquele que emprega em relação a um fiel o que é próprio dos idólatras. Por que motivo, pergunto, convidas presbíteros e cantores? Não é para teu consolo e não em honra do defunto? Por que o ofendes e atraiçoas? Por que representas como num teatro? Temos meditado sobre a ressurreição e instruído aqueles que ainda não foram atingidos por aquela honra, de sorte que, se algo disto suceder, suportem-no com fortaleza.



Por conseguinte, não nos perturbemos. Ninguém se abale vendo os maus prosperarem. A terra não é o lugar da remuneração do vício, nem da virtude. Se acontece remuneração do vício ou da virtude, não é devido aos méritos, mas somente à decisão do juiz, de sorte que aqueles que acreditam menos na ressurreição, desta forma aprendam. Se, portanto, notarmos que um malvado é rico, não desanimemos; e se um bom sofre, não nos perturbemos, porque as coroas e os suplícios são conferidos no além. Aliás, é impossível que um malvado seja inteiramente mau, visto que possui algum bem; nem o bom é completamente bom, mas comete alguns pecados. Quando, portanto, o malvado prospera, fica sabendo que o mal recairá sobre sua cabeça; se dentre eles na terra recebem alguma remuneração, no além é inteiro o castigo. Por esse motivo, recebe na terra. E o outro é em extremo feliz porque é punido na terra, a fim de que, apagados todos os seus pecados, parta desta vida comprovado, purificado, isento de culpa. 



Supliquemos, portanto, a Deus, não cairmos em tentação; mas, no caso de sobrevir, suportemo-la com fortaleza. É peculiar aos homens prudentes não se precipitarem nos perigos; é próprio dos fortes e dos filósofos continuarem firmes na tentação. Por conseguinte, não nos precipitemos; seria audácia. Nem cedamos, induzidos pelos acontecimentos; seria timidez. No entanto, não recusemos, se o anúncio da palavra o reclamar. Não acorramos simplesmente, sem motivo, nem utilidade, nem necessidade em prol da piedade. Seria ostentação, inútil ambição de honras. Se lesar a piedade, até mesmo forçados a sofrer mil mortes, nada recusemos. Não provoques tentação, se aspiras à piedade. Por que enfrentar perigos inúteis, que não trazem lucro algum? 



Assim me exprimo, no intuito de observardes as leis de Cristo, que preceitua rezardes a fim de não cairdes em tentação, tomardes a cruz e segui-lo. Estas coisas não são opostas, mas em perfeita harmonia. Tu, soldado forte, preparado, permanece armado, sóbrio, vigilante, sempre na expectativa de um inimigo. Não declares guerra, o que não compete ao soldado, mas ao sedicioso. Mas, convocado pela trombeta da piedade, imediatamente apresenta-te, despreza a vida, com grande prontidão entra no combate, rompe as fileiras dos adversários, bate no rosto do diabo, levanta o troféu. Do contrário, se em nada lesa a piedade, nem devasta nossos dogmas, isto é, o lado espiritual, nem és coagido a agir de um modo que não agrada a Deus, não te esforces em vão. A vida do cristão há de estar cheia de sangue, não de sangue alheio, mas permanecer disposta a derramar o seu. Com tamanha prontidão, portanto, derramemos o próprio sangue por Cristo, quanto alguém derrama água (pois é água o sangue difuso pelo corpo), e com tanta facilidade despojemo-nos da carne quanto de uma veste. Tal sucederá se não estivermos apegados ao dinheiro, às casas, detidos pelo amor aos bens presentes. Se os que levam vida militar renunciam a tudo, apresentam-se lá onde a guerra os convocar, empreendem a caminhada, prontamente sujeitam-se a tudo, muito mais nós, soldados de Cristo, estejamos dispostos e armados para a luta contra as paixões. Agora não há perseguição, e oxalá jamais exista, mas aparece outra espécie de guerra, a da cobiça das riquezas, a da inveja, a de outras paixões. Paulo a descreve: “O nosso combate não é contra o sangue, nem contra a carne” (Ef 6,12.14). Guerra sempre existente, por cuja causa quer que estejamos sempre armados: “Cingi os vossos rins”; é tempo. E explica que importa estar sempre munidos. É intensa a guerra pela língua, pelos olhos e, portanto, contenhamo-los. Forte a guerra da cupidez. Por isso, daí começam as munições do soldado de Cristo: “Cingi os vossos rins”; e acrescenta: “Com a verdade”. Por que: “Com a verdade”? A cupidez é ilusão e mentira, segundo diz Davi em certa passagem: “Meus rins estão cheios de ilusões” (Sl 38, 8). Não é prazer, mas uma sombra. Por isso diz: “Cingidos vossos rins com a verdade”, isto é, com o verdadeiro prazer, com a modéstia, a honestidade.


Em consequência, conhecedor do absurdo do pecado, e querendo que os nossos membros estejam armados de todos os lados persuade: “A paixão má não será justificada” (Eclo 1,22). Protejamo-nos com a armadura e o escudo. A ira é uma fera que facilmente assalta, e precisaremos de mil ameias e barricadas para vencê-la e coibila. Por isso, Deus fez principalmente uma parte do corpo com uma espécie de pedras, os ossos, qual reforço, a fim de evitar que uma vez rompidos e fraturados, pereça o ser vivo inteiro. É fogo e forte tormenta, e nenhum outro membro suportaria esta violência. Dizem também os médicos que por este motivo sob o coração acha-se o pulmão qual substrato suave, para que o coração repouse numa espécie de esponja, não num peito resistente e duro, para não se ferir com as pulsações. Precisamos, portanto, de couraça válida para conservar continuamente esta fera sossegada; precisamos também de um capacete. Pois, uma vez que na cabeça se encontra a faculdade de raciocinar, pode-se preservar, quando faz o que é conveniente, ou perder-se, em caso contrário. Por isso diz: “O capacete da salvação”. Pois o cérebro por natureza é mole, e portanto é protegido pelo crânio como uma concha. É para nós causa de todos os bens ou males, porque conhece o que convém e o que não. Igualmente os pés e as mãos precisam de armas. Não propriamente estas mãos, nem estes pés, mas os da alma. As mãos ocupadas no que importa, os pés indo aonde devem. Assim armados, poderemos vencer os inimigos, e cingir a coroa da vitória, em Cristo Jesus nosso Senhor, ao qual com o Pai, na unidade do Espírito Santo glória, poder, honra, agora e sempre e nos séculos dos séculos. Amém.


A fé é grande e salutar, e sem ela não nos salvamos. Aliás, não basta por si só, mas exige vida honesta. Paulo também admoesta os que já participaram dos mistérios, nesses termos: “Empenhemo-nos, portanto, por entrar nesse repouso”. Empenhemo-nos, visto que a fé não basta, mas também a acompanhe uma vida cheia de grande zelo. De fato, precisamos de muito zelo para subir ao céu. Não mereceram a terra os que no deserto sofreram tanta infelicidade, e não a conseguiram, porque murmuraram e fornicaram. Como alcançaremos o reino dos céus, com uma vida descuidada e indolente?


Esforcemo-nos, portanto. Paulo afirma: “É assim que corro, não ao incerto” (1Cor 9,26). É necessário correr, e vigorosamente. O corredor a ninguém vê, mesmo se atravessar um prado, ou lugares áridos e ásperos. O corredor não olha para os espectadores, mas para o prêmio. Sejam ricos ou pobres, zombem, louvem, ofendam, apedrejem, tomem a casa, mesmo os filhos, a mulher, seja quem for, não se volta; cuida somente de correr para receber o prêmio. O corredor nunca para, porque por pouco que for indolente, tudo perde. O corredor não só não relaxa antes do fim, mas principalmente então intensifica a corrida. Isso replico àqueles que dizem: Na juventude nos exercitamos, na juventude jejuamos, agora estamos velhos. Especialmente agora é preciso intensificar a piedade. Não me contes teus feitos de outrora. Agora sobretudo rejuvenesce, remoça.


Tu, porém, por que reduzes o esforço da corrida? É necessário bom ânimo, alma vigilante, a qual, contudo, se fortifica na velhice, ou melhor, principalmente então é vigorosa, alegre. O corpo, tomado de febres frequentes e doenças sucessivas, robusto embora, aflige-se. Libertado deste cerco, recupera forças. Assim também a alma tem febre na juventude, presa à ambição da glória, dos prazeres, do sexo e outros afetos. Ao chegar à velhice, repele as paixões, em parte pelo decurso do tempo, em parte pela sabedoria. A velhice diminui a força do corpo, não deixa que a alma, mesmo que o queira, se entregue a tais sentimentos, mas de certo modo reprime toda espécie de inimigos, coloca-a em lugar isento de tumultos, produz grande tranquilidade, e introduz maior temor. Ninguém mais do que os velhos sabe com certeza que vai morrer, e acha-se iminente a morte. Quando, portanto, aparta-se a cupidez mundana, intensifica-se a expectativa do juízo, abranda-se a teimosia da alma, não se torna mais atenta, se o quiser? Por que, então, vemos velhos piores do que os jovens? Respondes que é a suprema exasperação do vício, pois vemos os loucos, sem que ninguém os empurre, lançarem-se nos precipícios. Um velho a lutar com os vícios da juventude é o cúmulo do vício. Nem o jovem merece escusa, pois não pode dizer: “Não recordes dos desvios e da ignorância de minha juventude” (Sl 25,7). Com efeito, quem continua tal na velhice, manifesta que na juventude não o foi por ignorância, imperícia, idade, mas por indolência. Pode dizer: “Não recordes dos desvios e da ignorância de minha juventude” quem procede conforme convém à velhice, quem se converte na velhice; se, porém, na velhice comete os mesmos atos desonestos e vergonhosos, mereceria ser denominado ancião, se desrespeita a idade? De fato, quem diz: “Não recordes dos desvios e da ignorância de minha juventude”, fala como alguém que procede corretamente na velhice.



O que é: “Doutrina da justiça”? A meu ver, sugere o estilo de vida, de acordo com as palavras de Cristo: “Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e a dos fariseus” (Mt 5,20). Diz o mesmo o Apóstolo: “Não pode degustar a doutrina da justiça”. Isto é, Não pode degustar a filosofia celeste, não pode assumir a vida perfeita e correta. Ou Cristo chama de justiça a palavra sublime. Ora, o Apóstolo disse que se haviam tornado lentos, mas não declarara de onde, deixando que o percebessem, a fim de não tornar o discurso aborrecido. Quanto aos gálatas, porém, admirou-se e duvidou. Maior consolo foi jamais esperar que isto acontecesse. Tal é a dúvida. Vês outra infantilidade? Outra perfeição? Tornemo-nos perfeitos, deste modo; é possível a nós, meninos e jovens, alcançar tal perfeição, não oriunda da natureza, mas da virtude.



Aprendamos também nós. Se ouvires que alguém não é grego, nem judeu, não penses logo que é cristão, mas examina bem. De fato, também os maniqueus, e todos os hereges tomam este aspecto, iludindo os mais simples.


Mas, se tivermos a faculdade de percepção da alma exercitada em discernir o bem e o mal, distingui-los-emos. De que maneira a nossa faculdade de percepção se exercita? Pela escuta contínua, pela perícia nas Escrituras. Se propusermos os erros deles, ouvires hoje e amanhã, e comprovares que não são válidos, entendeste tudo, tudo conheceste, e se hoje não percebeste, amanhã perceberás. “Possuem a faculdade de percepção exercitada.” Vês que havemos de exercitar nossos ouvidos à audição das realidades divinas, para não nos serem impingidas coisas estranhas? “Exercitados para discernir”, isto é, peritos.



É possível mencionar inúmeros dados a esse respeito. Todavia, ainda há algumas pessoas que nada sabem sobre as Escrituras. Por isso entre nós nada se faz de sadio, de proveitoso. Se alguém quiser conhecer a arte militar, tem necessidade de aprender as respectivas leis; se quiser ser perito piloto, carpinteiro, ou em outro ofício, necessita aprender as peculiaridades referentes ao ofício. Em nosso caso, nada de tal se verifica, embora estes conhecimentos reclamem muitas insônias. Escuta o profeta assegurar que esta arte é necessitada de instrução: “Filhos, vinde escutar-me, vou ensinar-vos o temor do Senhor” (Sl 34,12-15). O temor de Deus, em verdade, exige instrução. Em seguida diz: “Qual o homem que deseja a vida?”, a vida no além. E ainda: “Preserva tua língua do mal e teus lábios de falarem falsamente. Evita o mal e pratica o bem, procura a paz e segue-a”. Sabeis qual o profeta, o historiógrafo, o apóstolo, ou evangelista que assim se expressou? Julgo que não, exceto poucas pessoas; e ainda a estas, se apresentarmos um testemunho de outra parte, acontecerá o mesmo que a vós. Eis, portanto, que vou repetir em termos diferentes: “Lavai-vos, purificai-vos! Tirai da minha vista as vossas más ações! Aprendei a fazer o bem! Buscai o direito! Preservai vossa língua do mal e praticai o bem. Aprendei a fazer o bem!” (Is 1,16-17). Vês que a virtude precisa de instrução? Pois um diz: “Vou ensinar-vos o temor do Senhor”; e o outro: “Aprendei a fazer o bem”. 



Sabeis onde se encontram essas locuções? Penso que não, exceto poucas pessoas. Ora, cada semana, vos são lidas duas ou três vezes. Ao subir o leitor, primeiro enuncia de quem é o livro, a saber, deste ou daquele profeta, ou apóstolo, ou evangelista; depois as lê a fim de melhor as notardes e saberdes não apenas onde se encontram, mas por que foram escritas, e por quem. Tudo em vão, porém, tudo inútil. Toda vossa diligência se esgota nas circunstâncias desta vida, sem consideração para as realidades espirituais. Por isso, aquelas sentenças não vos ocorrem e surgem várias dificuldades. Cristo disse, em verdade: “Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6,33). E foram ditas que virão por acréscimo; nós, contudo, invertemos a ordem, e procuramos a terra e os bens terrenos como se os outros fossem um suplemento. Por isso não obtemos nem estes nem aqueles. Enfim arrependamo-nos, anelando pelos bens vindouros. Assim também estes advirão. É impossível que, estando à busca do que agrada a Deus, não se consigam também os bens materiais. É sentença da própria Verdade. Não procedamos de forma invertida, mas sigamos o conselho de Cristo, para evitarmos queda completa. Deus, porém, é poderoso para nos converter, fazer-nos melhores, em Cristo Jesus nosso Senhor, o qual com o Pai, na unidade do Espírito Santo glória, império, honra e adoração, agora e sempre, e nos séculos dos séculos. Amém. 




O que significa: “Elevemo-nos à perfeição”? Avancemos para o cume, isto é, levemos vida excelente. Como no A apoiam-se as letras e nos alicerces assenta todo o edifício, assim também a certeza da fé serve de base a uma vida pura. Sem ela é impossível ser cristão, como não se ergue o edifício antes de lançar os alicerces, nem se alcança perícia nas letras com exclusão dos elementos. Mas, se alguém parar nos elementos, em torno dos alicerces e não do edifício, não obterá coisa alguma; assim nos acontecerá. Se sempre permanecermos nos elementos da fé, jamais alcançaremos a fé perfeita. Não julgues diminuir a fé chamá-la de elemento; é a plenitude da força. Pois a declaração: “De fato, aquele que ainda se amamenta não pode degustar a doutrina da justiça, pois é uma criancinha!”, não significa dar-lhe o cognome de leite. Duvidar disso é próprio de uma mente fraca, necessitada de muitas exposições. Esses ensinamentos são sadios. Denominamos perfeito aquele em quem à fé acompanha uma vida reta. A pessoa que possui a fé e entretanto comete crimes, duvida, e ataca a doutrina, com razão a denominamos criancinha, que recorre aos elementos. Por isso se, durante inúmeros anos, tivermos fé, mas não inabalável, somos criancinhas, porque não manifestamos vida conveniente, e ainda estamos lançando o fundamento. A estes Paulo acusa quanto ao estilo de vida, e de outras faltas, como a de serem vacilantes e precisarem de lançar o fundamento do arrependimento das obras mortas



Em seguida, acrescenta: “que saborearam o dom celeste”, isto é, a remissão. “Receberam o Espírito Santo, experimentaram a beleza da palavra de Deus”, isto é, indica a doutrina. “E as virtudes do mundo que há de vir”. Quais? Operar milagres, ou o penhor do Espírito. “Não obstante decaíram; é impossível que eles renovem a conversão uma segunda vez, porque da sua parte crucificam novamente o Filho de Deus e o expõem às injúrias”. Renovar a conversão, isto é, pela penitência. Como? A penitência é rejeitada? Não a penitência, de modo algum, mas a renovação do batismo. Não disse: É impossível renovar-se pela penitência e calou-se, mas tendo dito: “É impossível”, acrescentou: “Porque crucificaram novamente”. Renovar, isto é, fazer-se novo. Transformar em homens novos é exclusivo do batismo: “Como a da águia, tua juventude se renova” (Sl 103,5). 


É próprio da penitência libertar da vetustez e renovar os homens novos que envelheceram pelos pecados. É impossível retornar ao esplendor, todo ele, proveniente da graça. “Porque da sua parte crucificam novamente o Filho de Deus e o expõem às injúrias.” É o seguinte: O batismo é cruz: “Nosso velho homem foi crucificado com ele”; e ainda: “Se nos tornamos uma coisa só com ele por uma morte semelhante à sua”; e: “Pelo batismo nós fomos sepultados com ele na morte” (Rm 6,6.5.3). É impossível que Cristo seja crucificado de novo; seria traí-lo. Igualmente não podemos ser rebatizados.


Suplico-vos, portanto, comecemos. Um caso, por meio de preces intensas, outro, de assíduas lágrimas, outro pelo pesar. Nem o que é tão pequeno é inútil: “ Vi seu pesar, seu triste caminhar, diz o Senhor, e o curarei” (cf. Is 57,17). Humilhemos nossas almas pela esmola, o perdão às faltas do próximo, esquecidos das injúrias, sem desejo de vingança. Com a frequente recordação de nossos pecados, nada de exterior poderá nos exaltar: nem as riquezas, o poder, o domínio, a honra. Até mesmo se estivermos sentados no carro real, lastimemo-nos amargamente. Pois, também o bem-aventurado Davi era rei e dizia: “Todas as noites banho meu leito com lágrimas” (Sl 6,6). Não foi lesado pela púrpura, pelo diadema, nem se ensoberbeceu. Sabia que era homem; e lamentava-se porque tinha o coração contrito. O que são as realidades humanas? Cinza e pó, e poeira levada pelo vento, fumaça e sombra, folha e flor arrastadas para cá e para lá, sonho e conto, e fábula, vento e brisa suaves dissipados, voo inconsistente, torrente defluente, e até algo de mais insignificante, se houver.



Nada tão oportuno quanto a pureza de vida; nada tão harmonioso quanto a vida excelente, nada tão adequado quanto a virtude. “E produz vegetação útil aos cultivadores, receberá a bênção de Deus.” Neste lugar afirma que Deus é o autor de tudo, atingindo progressivamente os gentios, que atribuem a geração dos frutos ao poder da terra. Não são, afirma, as mãos dos agricultores que fazem a terra produzir frutos, e sim a ordem de Deus. Por isso declara: “Receberá a bênção de Deus”. Observa que ele não diz a respeito dos espinhos: Produz espinhos, nem empregou este nome apropriado. O que disse? Germinou espinhos, como se dissesse: Fez sair e expeliu. “É rejeitada, e está perto da maldição.” Ah! quanta consolação nestas palavras! “E está perto da maldição”, e não: Maldita. O que ainda não incidiu em maldição, mas está perto, também poderá distanciar-se. Consola-te não apenas com isto, mas ainda pelas palavras subsequentes. De fato, não disse: Está rejeitada e perto da maldição; será queimada. Como se exprimiu? “E acabará sendo queimada”. Assegura que, se persistir até o fim, sofrerá esta pena. Por esse motivo, se extirparmos e queimarmos os espinhos, poderemos gozar de inúmeros bens, tornarmo-nos honestos e sermos partícipes da bênção. Com razão denominou abrolhos o pecado: “Mas, se produzir espinhos e abrolhos”. Com efeito, seja qual for o ponto em que os tocares, ferem e picam, e são feios até no aspecto visível. Tendo-os suficientemente atingido, atemorizado e atacado, de novo cura, para evitar que, rejeitando-os demais, fiquem prostrados. De fato, não adula inteiramente, a fim de não os exaltar; nem fere gravemente para não prostrá-los; mas utilizando o que fere de leve, aplica remédios que curam, conforme deseja.



Ouvindo isso, suplico-vos, sirvamos os santos. Todo fiel, enquanto fiel, é santo. Apesar de secular, é santo: “O marido não cristão é santificado pela esposa, e a esposa não cristã é santificada pelo marido cristão” (1Cor 7,14). Vês que a fé santifica. Estendamos as mãos ao secular infeliz. Não demonstremos zelo somente pelos (monges) habitantes dos montes. Eles são, na verdade, santos pela vida e pela fé; os outros são pela fé, muitos, porém, igualmente pela vida. Não visitemos no cárcere apenas um monge, e deixemos de procurar um secular, porque ele também é santo e irmão. Mas se for impuro e criminoso? Escuta o que diz Cristo: “Não julgueis para não serdes julgados” (Mt 7,1). Age por causa de Deus. No entanto, o que estou dizendo? Mesmo se virmos um dos gentios no infortúnio, devemos beneficiá-lo; e simplesmente a todo homem na adversidade; muito mais, contudo, ao secular fiel. Escuta as palavras de Paulo: “Pratiquemos o bem para com todos, mas sobretudo para com os irmãos na fé” (Gl 6,10). Mas não sei de onde se introduziu este costume, de onde invadiu. Procurar somente os monges para beneficiá-los, curiosamente perscrutando e dizendo: Não estendo a mão se não for digno, justo, se não operar milagres. A esmola fica diminuída, ou antes com o decorrer do tempo é eliminada. Ora, é esmola também a que for dada aos pecadores, aos réus. Não é esmola dar aos que procederam bem, e sim ter compaixão dos pecadores.


“É misericórdia que eu quero e não sacrifício” (Os 6,6). Vês quais os sacrifícios que aplacam a Deus? Vês que uns há muitos séculos foram abolidos, outros introduzidos em seu lugar? Ofertemos destes, portanto. Pois, aqueles são próprios das riquezas e daqueles que as possuem, mas estes são peculiares à virtude. Aqueles são exteriores, estes interiores; aqueles qualquer um pode oferecer, estes, contudo, poucos. Quanto o homem é melhor e mais importante do que a ovelha tanto este sacrifício do que aquele. Neste apresentas por vítima a tua alma. Existem outras vítimas, verdadeiros holocaustos, a saber, os corpos dos santos mártires, em que alma e corpo são santos e exalam odor suave. Podes tu também, se te apraz, oferecer tal sacrifício. Como, se teu corpo não é queimado? É possível por outro fogo, como o da pobreza voluntária, da tribulação. É possível levar vida delicada, lauta e esplêndida, mas escolher vida laboriosa e dura e mortificar o corpo não é holocausto? Mortifica e crucifica teu corpo, e igualmente obterás a coroa desse martírio. Na outra espécie a espada opera, nesta é a prontidão da alma. Não queime, nem te prenda à ambição do dinheiro, mas seja queimada e extinta esta torpe ambição pelo fogo do espírito, seja cortada pelo gládio do Espírito. Eis o belo sacrifício, que não necessita de sacerdote, mas o oferente o constitui. Belo sacrifício que se realiza cá embaixo e logo sobe às alturas. Não nos admiramos de que outrora descesse um fogo que tudo consumia? É possível que agora também desça um fogo muito mais admirável a consumir tudo o que se lhe oferece. Ou melhor, verdadeiramente não consome, mas eleva tudo ao céu. Não reduz a cinzas, mas oferece os dons a Deus.


Tais eram as ofertas de Cornélio. “As tuas orações e as tuas esmolas subiram até diante de Deus, e e ele se lembrou de ti” (At 10,4).


Por isso acontecem rapidamente mudanças e quedas. Nem assim aprendemos. Frequentes mortes imaturas e julgamo-nos imortais, como se jamais devêssemos morrer. Roubamos, ambicionamos o alheio, como se jamais devêssemos prestar contas. Edificamos como se para sempre devêssemos ficar aqui. Nem a palavra de Deus que ressoa cotidianamente em nossos ouvidos, nem a realidade nos instruem. Não há dia, nem hora, em que não se vejam assíduos enterros. Tudo em vão! Coisa alguma toca nossa dureza. Nem diante da infelicidade alheia é possível a melhoria. Ou antes, não queremos. Se choramos sozinhos, contraímo-nos. Retire Deus a sua mão, reerguemos as nossas. Ninguém aprecia as coisas do alto, ninguém despreza as terrenas, ninguém contempla o céu. À semelhança dos porcos que olham para o chão, inclinados para o ventre, e revolvem-se na lama, muitos homens não percebem que se sujam em horrível lodo. É melhor poluir-se em imundo lodo do que em pecados. Pois quem se suja no lodo, lava-se rapidamente, e torna-se semelhante os que nem começaram a escorregar naquela voragem. Os que, porém, caíram no báratro do pecado, contraem uma mancha que a água não purifica, mas exige longo tempo, apurada penitência, lágrimas e pranto, maior e mais ardente lamentação do que por ocasião da morte de seres muito queridos. Com efeito, estas manchas nos vêm de fora e logo as tiramos; as outras provêm de dentro e dificilmente as retiramos por meio de abluções. “Com efeito, é do coração que procedem más intenções, fornicações, adultérios, roubos, falsos testemunhos: (Mt 15,19). Por isso dizia o profeta: “Ó Deus, cria em mim um coração puro” (Sl 51, 12); outro, contudo: “Purifica teu coração da maldade, Jerusalém” (Jr 4,14). Vês que agir bem depende de nós e de Deus? E ainda: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8). 


Purifiquemo-nos à medida de nossas forças; apaguemos nossos pecados. O profeta ensina de que modo apagá-los, nesses termos: “Lavai-vos, purificai-vos! Tirai da minha vista as vossas más ações!” (Is 1,16). Que sentido tem a locução: “Minha vista”? Alguns parecem não ter vícios, diante dos homens; perante Deus são sepulcros caiados. Por isso diz: Afastai-vos deles, conforme eu vejo. “Aprendei a fazer o bem! Buscai o direito! Fazei justiça ao humilde e ao pobre! Então, sim, poderemos discutir, diz o Senhor. Mesmo que os vossos pecados sejam como escarlate, tornar-se-ão alvos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, tornar-se-ão como a lã” (Is 1,17-18). Vês que importa que primeiro nos purifiquemos e então Deus purifica? Pois tendo dito: “Lavai-vos, purificai-vos!”, acrescentou: Eu os tornarei alvos. Ninguém, apesar de ter chegado às profundezas do vício, perca a esperança. Mesmo se adquirires o hábito e quase a natureza do vício, não temas. Não são os de cores fracas e apagadas, mas os que estão perto da própria essência, que chegarão ao estado contrário. Não somente disse lavar, mas tornar-se alvos como a neve e como a lã para nos fornecer boas esperanças. Por conseguinte, a grande força da penitência nos torna alvos como a neve e a lã, mesmo se o pecado invadir e tingir nossas almas. Apliquemo-nos, portanto, a nos purificarmos. Não são ordens pesadas: “Fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva!” (Is 1,17). Vês como sempre têm junto de Deus grande força a misericórdia e a defesa dos oprimidos? Empreendamos estas boas obras, e conseguiremos os bens futuros pela graça de Deus. Oxalá os alcancemos todos nós em Cristo Jesus nosso Senhor.



O combate se encontra na praça, a luta, as vagas, a tempestade se acham nos negócios diurnos. Por isto precisamos de armas. Fortes armas são as preces. Necessitamos de ventos favoráveis, devemos aprender tudo, a fim de passarmos ao longo dos dias sem naufrágios e ferimentos. Muitos são os escolhos diários, de sorte que muitas vezes o escaler choca-se contra eles e afunda. Por este motivo precisamos das preces, especialmente das matutinas e noturnas. 

 

Trechos retirados do livro: Patrística, vol 27, tomo 3. 



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Devocional 51: Da Justiça - Do Juízo como Ato de Justiça Particular (São Tomás de Aquino)
A Borboleta por Johann Georg Meyer von Bremen



O ato de especial importância da virtude da justiça é o juízo, que consiste em determinar com exatidão aquilo que a cada um se deve dar, principalmente aqueles que executam funções de juízes ou em ocasiões particulares da vida em que é necessário discernir em consciência e por amor à justiça, até onde se estendem os deveres e os direitos de cada um. 


Em caso de dúvida inclina-se o juízo, quando se refere ao próximo, para a benevolência, pois a virtude da justiça exige que jamais se pronuncie sentença condenatória, quer seja interior, ou simplesmente interior e de pensamento, enquanto permaneça de pé alguma dúvida. 


No entanto, podemos em determinadas ocasiões presumir e suspeitar da existência do mal sem provas suficientes, principalmente quando devemos preveni-lo ou remedia-lo, pois a justiça legal, a prudência e a caridade nos mandam ser cautelosos e supor, ao menos como possível, a maldade de certos homens, ainda que dela não tenhamos certeza, mas apenas conjecturas. Mesmo assim, mesmo nesta ocasião, devemos não emitir um juízo completamente desfavorável, dando ainda ao ente o direito à dúvida. 


Muito longe está a vida cristã de ser uma vivência de bobos ou ainda de pessoas feitas tontas, a virtude da justiça modera a benevolência, e esta modera aquela, mantendo o espírito num olhar atento as luzes e as trevas da realidade da vida humana. 


Um exemplo prático: se eu visse um homem de disposição suspeita, não teria o direito de julgá-lo ladrão ou meliante, nem mesmo consigná-lo como tal; porém se o visse rondar a minha casa ou as dos meus amigos, teria direito de tomar cuidado para que tanto dentro de minha casa como das suas tudo estivesse a salvo de uma surpresa ou tentativa de roubo. 


Esta postura de alerta diante da possibilidade do mal está dentro da virtude da justiça e não excluí a benevolência. 


Baseado no Catecismo da Suma Teológica de São Tomás de Aquino


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Pintor: Johann Georg Meyer von Bremen



No decálogo não existe um preceito que esteja relacionado diretamente à prudência, no entanto, todos os mandamentos se referem a ela, pois ela é a reguladora de todas as virtudes. 


Os preceitos em relação a virtude da prudência são encontrados na Sagrada Escritura, no antigo testamento existem preceitos severos contra a astúcia, o dolo e a fraude. Deus os proibiu pois infligem a justiça, que é o conteúdo central do Decálogo. 



O homem prudente encobre o conhecimento, mas o coração dos tolos proclama a estultícia.
(Provérbios 12,23)


O tolo encontra prazer na má conduta, mas o homem cheio de entendimento deleita-se na sabedoria. (Provérbios: 10, 23)




Dado ao seu caráter particular, a prudência -- sem a qual não pode existir nenhuma virtude moral -- ocupa o primeiro lugar em importância; depois dela, a justiça. 


A justiça é a virtude que tem por objeto o direito, isto é, o justo.  Isso significa que está destinada a manter a paz e a harmonia entre os homens, fazendo que cada um respeite as pessoas, atribuições, faculdades e bens legitimamente adquiridos e possuídos pelos outros. 


Para averiguar quais são os diretor legítimos devemos: 

1) atentar ao que dita a razão natural; 

2) o que diz os homens prudentes;

3) atentar ao que diz a autoridade legítima. 


O direito fundado nos ditames da razão chama-se direito natural.


O direito fundado em leis e convênios promulgadas pela autoridade competente chama-se direito positivo, o qual se divide em privado e público, e este por sua vez, em nacional e internacional, baseado o primeiro em convênios privados e em leis da nação e o segundo, em pactos entre os diversos Estados. 


A justiça abrange as relações particulares e às dos particulares com o conjunto ou sociedade. No segundo caso chama-se justiça legal e no primeiro, justiça particular. 


A virtude da justiça, definida com precisão, consiste na disposição consciente, duradoura e irrevogável da vontade, mediante a qual se dá a cada um tudo o que lhe pertence. 


O vício oposto a justiça e a injustiça; e o mesmo se opõe tanto à justiça legal, quando prejudica o bem comum, como à particular, cujo objeto é manter relações dos cidadãos sobre a base da igualdade, cada um tendo o que lhe é devido por merecimento ou direito. 


O pecado da injustiça consiste em atentar livre e espontaneamente contra o direito de outrem, isto é, em negar é devido ao outro. 



Em tudo o que nos aconteceu foste justo; agiste com lealdade mesmo quando fomos infiéis.
Neemias 9,33



Porque não são os que ouvem a Lei que são justos aos olhos de Deus; mas os que obedecem à Lei, estes serão declarados justos.
Romanos 2,13



Baseado na Suma Teológica em Forma de Catecismo. 


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Devocional 49: Dos Vícios Opostos à Prudência: imprudência, precipitação ou temeridade, inconsideração, inconstância e os Vícios que a simulam: Prudência da carne, astúcia, dolo, fraude, falsa solicitude
Pintura de: Johann Georg Meyer von Bremen


Os vícios opostos à prudência são de duas classes: uns se opõem por defeito, e outros por excesso. 


Os opostos por defeitos são chamados de imprudência. Imprudência é todo ato que não se ajuste à normas da reta razão e da prudência. 


O ato imprudente pode ser pecado mortal, quando se menosprezam ou infringem regras e normas divinas. Será, por sua vez, pecado venial, quando, mesmo que seja bom, é executado com precipitação, inconsideração ou negligência. 


A precipitação é um ato contra a prudência, que consiste em tomar resoluções antes de informar-se convenientemente. 


A inconsideração é o pecado daquele que não toma em conta todos os elementos de que dispõe para formar juízo acertado nas coisas práticas. 


A inconstância, por sua vez, se opõe à prudência pois, como vimos, o ato principal da prudência é mandar; o inconstante carece de firmeza e resolução para levar à prática os seus projetos e desígnios. 


A negligência é uma falta de solicitude e presteza em ordenar a execução das resoluções tomadas depois de maduro exame, no concernente à prática da virtude. É uma pecado que podemos qualificá-lo como grande pelo pernicioso influxo que exerce em toda a economia espiritual, pois, ou a paralisa inteiramente, estorvando os seus atos ou fazendo que sejam frouxos, indolentes e como que forçados, perdendo deste modo o seu valor e mérito. 


Quando a negligência se estende a atos exteriores chama-se preguiça, e enervamento ou tardança. Esta é distinta da negligência, pois como se estende o seu influxo a todos os domínios da atividade, é veneno posto na fonte, capaz de contaminar todo o caudal de obras e virtudes. 


Tal ato pode ser pecado mortal quando impede que o homem se resolva a fazer algo de necessário para salvar-se, porém, ainda em casos mais amenos, produz um estado de apatia e indolência que conduz fatalmente à caducidade e à morte, se não se põe grande empenho em desarraigá-la. 


Temos também os vícios que pecam por excesso contra a prudência, são eles: solicitude fingidas ou simuladas. 


A prudência simulada é um conjunto de vícios que desnaturalizam o caráter da verdadeira prudência, abusando dos seus meios próprios, para procurar-se um fim ilícito. 


O vício que simulando a prudência busca um fim ilícito chama-se prudência da carne. Esta consiste em dispor e ordenar a vida, procurando como fim a maior soma possível de prazeres sensuais. 


A prudência da carne é pecado mortal quando o homem busca o prazer como fim último de seus atos, se, no entanto, o busca e procura com excessiva afeição, porém considerando habitualmente a Deus como fim último, será pecado venial. 


Já os vícios opostos à prudência, por abuso dos meios são: a astúcia, e seus anexos, o dolo e a fraude. 


A astúcia é uma simulação da prudência, que consiste em excogitar meios tortuosos e artes de dissimulação e engano para conseguir um fim, quer seja bom ou mau. 


O dolo é a execução exterior dos planos forjados pela astúcia. 


O dolo, portanto, é a execução dos planos forjados pela astúcia, empregando palavras e obras, já a fraude tem o mesmo objetivo, mas emprega somente as obras. 


O dolo e a fraude são diferentes da mentira, pois esta tem a finalidade de enganar e é oposta a virtude da veracidade, já a astúcia, o dolo e a fraude como são vícios opostos à prudência -- e já que esta se incorpora em outras virtudes -- andam misturados com todo gênero de pecados e vícios. 


A falsa solicitude é daquele que se preocupa exclusivamente com os bens temporais; e põe em procurá-los, mais trabalho e solicitude que nos da alma; também teme que possam faltar-lhe (bens temporais), se cumpre com seu dever. 


Nós temos, é claro, a obrigação de sermos solícitos em procurar pelos bens temporais com diligência moderada, ordenando-os à consecução da glória e confiando sempre na divina Providência. Não se deve, no entanto, ter preocupação com o porvir, pois, ela é má, quando peca por excessiva, ou se antecipa, usurpando o lugar de outros cuidados mais decisivos. No entanto, é boa, quando se limita a prevenir para o futuro o que depende e há de ser consequência do presente e deixa para mais tarde cuidados que terão de trazer tempos vindouros. 



Baseado na Suma Teológica em forma de Catecismo



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Devocional catolico
Pintura: Johann Georg Meyer von Bremen



O dom do Espírito Santo correspondente à virtude da prudência é o dom do conselho. 


Ainda que suponhamos o homem dotado de todas as virtudes infusas e adquiridas para melhor discernir o lícito do ilícito, é impossível que possa apreciar todos os casos particulares e contingentes, e a variedade quase infinita de circunstâncias capazes de modificar a sua moralidade. 


Tendo isto em conta, o dom de conselho é uma disposição ou qualidade transcendente da razão prática, em virtude da qual o homem abraça com prontidão e docilidade as ilustrações e moções com que o Espírito Santo vem em seu auxílio, quando se põe a meditar e discernir, no conglomerado de atos e práticas humanas, as que podem servir-lhe para alcançar a vida eterna. 


Este dom permanece na alma no Céu! Mas de uma forma muito particular e distinta da forma do dom quando na vida terrena. Pois este dom no Céu, consiste no conhecimento perfeitíssimo que têm os bem aventurados de tudo o que contribui para a felicidade que já possuem e com ela se relaciona, como propriedade e consequência da posse atual ou como meio para iluminar, auxiliar e socorrer os que neste mundo lutam por se lhes juntar no Céu. 


Baseado na Suma Teológica de São Tomás de Aquino em forma de Catecismo



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Pintura: Lição de Costura por Johann Georg Meyer von Bremen 


Para que o homem possa gozar um dia do Céu, além de possuir as virtudes teologais (a fé, a esperança e a caridade), deve exercitar-se na prática das morais e de seus correspondentes dons. 


A primeira virtude moral é a prudência. A prudência é uma regra moral do senso prático que põe tato e discrição suficientes para ordenar a sua vida e mandar em cada caso, aos seus subordinados, o mais apropriado à observância das virtudes. 


Tem uma enorme importância pois sem ela é impossível praticar qualquer ato virtuoso. Ela tem a propriedade de congregar todas as virtudes, que de forma que nenhuma podem existir sem ela, nem ela pode existir sem o concurso de todas as outras. 


Para que o ato de prudência seja perfeito é necessário:


1- os elementos constitutivos ou partes integrantes essenciais: são eles; 

- a memória ou a recordação do passado; 

-a inteligência e o conhecimento do presente, quer seja em geral quer em particular; 

-docilidade e respeito ao disposto por antecessores sábios e prudentes; 

-sagacidade para saber o que no momento dado se pode esperar de alguém; 

-firmeza e segurança de juízo para aplicar as regras gerais aos casos particulares; 

-providência ou determinação do tempo e do lugar de cada ato para obter o fim desejado; 

-circunspecção ou conhecimento das circunstâncias;

-precaução contra tudo o que puder ser obstáculo ou comprometer o êxito da empresa. 


2- virtudes adjuntas e ordenadas para atos secundários: são elas a virtudes do conselho e as duas virtudes do bom senso prático, uma referente à maneira de portar-se nos casos e circunstâncias ordinárias e outra nas extraordinárias e de grande empenho. 


3- o ato principal: o ato próprio da virtude da prudência é o mandato executivo, portanto é uma virtude que serve para dirigir e mandar. O ato próprio da prudência consiste em mandar com energia e decisão quando chega o momento oportuno. 


As espécies de prudência são tantas, quantas as espécies de mandatos necessários, a respeito de atos difíceis na prática das virtudes. No entanto, podemos reduzi-las a quatro:


1- o mando e governo de nós mesmos;

2- mando e governo da família;

3- mando e governo da sociedade civil;

4- mando e governo militar.


A virtude é chamada em cada uma dessas espécies de: prudência individual, prudência familiar, prudência real, prudência militar. 


A prudência individual se refere ao que que cada um necessita para governar sua vida moral e procurar o bem próprio. 


A prudência familiar se refere ao que cada membro da família necessita para manter-se e atuar em sua própria esfera e sob a direção do chefe, para o bem e proveito da sociedade familiar. 


A prudência real se refere a virtude especial que necessita o chefe supremo de toda sociedade para governá-la como convém. 


Não é suficiente para que uma nação seja bem regida que os governantes sejam prudentes é preciso que os governados também tenham prudência. A prudência dos súditos está em submeter-se às ordens e decisões do governante, de forma que os seus atos sociais jamais sejam peia ou obstáculo à consecução do bem comum. 


A prudência militar é de maior importância, porque tem por destino assegurar a defesa eficaz do Estado contra os inimigos exteriores, para isso é preciso prudência delicada no mando e mais completa disciplina dos subordinados. 


Quem quer vencer um obstáculo deve armar-se da força do leão e da prudência da serpente. Píndaro, poeta grego, 438 a.C



Pai Santo, faze-me prudente e dá-me discernimento para a jornada cristã. Que eu leve o óleo precioso da fé – confirmada pelas obras – para me iluminar até que eu esteja junto ao Senhor para sempre. Ó Santo Anjo da Guarda, Ó Santíssima Virgem Maria, fazei-me fazer a Vontade de Deus.  + Amém . 

 



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A leitura é um dos meios de formação, humana e espiritual, mais eficazes. Boas leituras nutrem a mente e a alma, apresenta-nos novas realidades e situações, geram em nós um engrandecimento de alma; essa sensação que temos ao término de uma boa leitura, que a alma se alargou, que o intelecto se iluminou e que algo no nosso espaço interior mudou de lugar, é a maior prova da eficácia da leitura. Através dela adquirimos bagagem para ver a vida com olhos mais maduros e ainda ver mais adiante, uma vez que subimos nos ombros de gigantes e vemos com novos olhos algo novo ou cotidiano.




A cada dia se torna mais simples entrar neste "portal literário" e podemos buscar, com alguma destreza, montar a nossa biblioteca pessoal. Você sabia que antigamente os livros eram deixados como herança? Pois eram em si mesmos obras de arte, pois os monges copistas passavam meses a escrevê-los com caligrafia impecável, depois faziam capas ilustradas à mão. Um livro era visto, de fato, como um trabalho de várias pessoas, talvez tenhamos perdido a percepção real da nobreza do conhecimento impresso num livro.




A idéia de montar uma biblioteca pessoal tem este mesmo fundo respeitável: deixar para os futuros membros da família e amigos boas obras literárias (que, esperamos, tenha inspirado em nós boas obras existenciais).




Portanto não se trata de um consumo desenfreado, antes se trata de investir em aquisições intencionais e acima de tudo edificantes. Listei abaixo algumas dicas sobre isso:


1- A escolha das obras




  • Faça uma lista com as obras ou os autores que deseja adquirir, isso ajuda a fazer uma escolha mais acertada.
  • Dentre as coisas que podem lhe guiar na escolha das obras de sua biblioteca está: o gosto pessoal e os clássicos.
  • Os clássicos são ferramentas importantes para formar a sua bagagem literária, deles saíram boa parte dos enredos de ficção.




Também podemos considerar durante a escolha a possibilidade de possuir um biblioteca digital. O consumo de e-books tem aumentado muito nos últimos tempos, por conta da praticidade, talvez deva pensar nesta ferramenta para ajudar a compor a sua bagagem literária e ainda para ajudar a escolher as obras que realmente deseja ter em formato físico. Eu uso muito os e-books vendidos pela Amazon, que podem ser lidos no Kindle (o Kindle é um leitor digital). Acho muito bom pois podemos exportar os trechos grifados para o e-mail e (olha que alegria!) com isso você tem um resumo do livro, ou seja, um documento com as passagens que mais gostou. É muito rico reler os trechos grifados após o término da leitura, isso ajuda muito a assimilar o conteúdo.


E por fim para finalizar este tópico é sempre bom buscar materiais com resenhas e comentários sobre os livros, é uma forma de reter mais o conteúdo. O livro deve estar em sua estante física e/digital mas também deve estar em sua mente e alma, isso é ler de verdade.




2-  A aquisição


Sabemos, no entanto, que livros não dão em árvore e que de fato temos que decidir investir nessa área, que nada mais é que investir em nossa formação. Acredite um livro pode ser um dos alimentos que você precisa para conseguir passar por esses tempos tão confusos com a sanidade mental em dia.



3- Organização






Quando as obras chegam é preciso ter alguma idéia dos livros lidos e ainda por ler, também é muito bom trabalhar o desapego e saber quais são os livros que não serão lidos nunca ou novamente (para doar). Essa primeira idéia já nos leva a um sistema simples de organização.




Depois é possível separar por ordem alfabética, por tamanho, por autor, por assunto, por cor, enfim (eu separo, nas categorias citadas acima - lidos e por ler - e depois por tamanho, tenho toc de livros sem algum padrão estético na estante). Mas, sinceramente, ordenar os livros para que saiba exatamente quantos livros ainda estão por ler é um ótimo auxílio tanto na aquisição de outras obras como na reestruturação do tempo dispensado para leitura.




professora Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025). 

















Devocional 46 Dom da Sabedoria correspondente à caridade e o vício oposto ao dom da sabedoria

Da avó, assinado e datado de Meyer von Bremen 1847



O dom do Espírito Santo correspondente à caridade é o dom de sabedoria, o mais excelente dos dons. 


O dom da sabedoria é um dom do Espírito Santo, por ele o homem é capaz de formar juízo e opinião acerca das coisas, tomando por norma e regra a sua causa suprema, a ciência infinita de Deus na medida em que ele consegue conhecê-la pela revelação. 


Podemos afirmar que a virtude mais importante é a virtude da fé, uma vez que é o centro de todas as outras, e o dom mais importante é o da sabedoria. 


O dom da sabedoria nos traz um benefício em relação ao dom da ciência; este último, nos dá a faculdade de formar juízo acerca das verdadeiras relações das coisas com suas causas e fins imediatos, e o da sabedoria com a causa suprema e fim último, aos quais todos os outros estão subordinados. 


Logo, pelo dom da sabedoria, elevamo-nos ao mais alto grau de ciência que se pode alcançar neste mundo. 


O vício oposto ao dom da Sabedoria é: querer formar juízo cabal de uma coisa sem ter em conta o destino que Deus lhe assinalou, chamamos a este vício de insensatez e de necedade (afirmação que traduz falta de inteligência ou ignorância; nescidade). É um pecado muito comum, o cometem todos aqueles que forjam planos e ajustam projetos sem lembrar-se de Deus, ou prescindindo (desconsiderando) Deus. 


Existe uma oposição irredutível entre a sabedoria do mundo e a de Deus. A sabedoria do mundo considera o bem terreno com fim supremo, organiza a vida de modo que nada falte aqui na terra, ainda em coisas que redundam em detrimento e desprezo de Deus, Bem Supremo, prometido no Céu, ao passo que a sabedoria dos Filhos de Deus consiste em subordinar todos os bens da vida à futura posse da glória. 


Portanto, a prática das virtudes teologais e dos dons correspondentes constituem os únicos meios de que dispõem o homem para orientar-se e encaminhar-se para o seu verdadeiro fim último. 


Baseado no Catecismo da Suma Teológica de São Tomás de Aquino





Dai, nós vos pedimos, ó Deus todo-poderoso, que fulgure sobre nós o esplendor de vossa claridade e que a luz da vossa luz, pela iluminação do Espírito Santo, confirme os corações dos que renasceram pela vossa graça. Ó Deus, que hoje instruístes os corações dos fieis com a iluminação do Espírito Santo, dai-nos o reto saber, no mesmo Espírito, e o sempre gozar de sua consolação. Ó Deus, a quem é visível todo coração e compreensível toda vontade, e a quem nada permanece em segredo, purificai pela infusão do Espírito Santo os pensamentos de nossos corações, para que mereçamos amar-vos perfeitamente e louvar-vos dignamente. Ó Deus, por cujo Espírito somos governados, por cuja proteção somos guardados, estendei sobre nós a vossa misericórdia, e sede atento aos que vos suplicam, para que a fé dos vossos fieis em vós seja sempre auxiliada pelos vossos benefícios. 

Trechos da "Orações do Dia (Collectae)" retiradas do Missale Romanum, tanto na Forma Ordinária como na Extraordinária.



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Devocional 45 Dos Preceitos Relativos à Caridade (São Tomás de Aquino)

Johann Georg Meyer von Bremen.  Mother and Children in Prayer, 1880


O preceito relativo à caridade existente na Lei de Deus é: "Amarás o Senhor teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu ser e com todas as tuas forças" (Dt 6, 5).


Essas palavras nos mandam que nossas intenções terminem sempre em Deus; que a Ele estejam submetidos e por Ele regulados todos os nossos pensamentos e afetos sensíveis, e que a norma de nossas ações exteriores seja o cumprimento de sua Santíssima Vontade. 


Este preceito é de tão grande importância que é o resumo e o centro de todos os demais preceitos da Lei de Deus. 


Este preceito é anterior ao Decálogo, pois estes (os preceitos do Decálogo) estão destinados a assegurar o cumprimento dos da caridade. 


Este preceito faz parte da ordem natural do homem, logo é contrário ao Direito Natural (a teoria do direito natural tem, como projeto, avaliar as opções humanas com o propósito de agir de modo razoável e bom. Isso é alcançado através da fundamentação de determinados princípios do direito natural que são considerados bens humanos evidentes em si mesmos) e o bom emprego das potências afetivas (a faculdade da vontade) não amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. 


Retirado do livro: A Suma Teológica em Forma de Catecismo




A Caridade
Ela tinha no rosto uma expressão tão calma
Como o sono inocente e primeiro de uma alma
Donde não se afastou ainda o olhar de Deus;
Uma serena graça, uma graça dos céus,
Era-lhe o casto, o brando, o delicado andar,
E nas asas da brisa iam-lhe a ondear
Sobre o gracioso colo as delicadas tranças.

Levava pela mão duas gentis crianças.

Ia caminho. A um lado ouve magoado pranto.
Parou. E na ansiedade ainda o mesmo encanto
Descia-lhe às feições. Procurou. Na calçada
À chuva, ao ar, ao sol, despida, abandonada
A infância lacrimosa, a infância desvalida,
Pedia leito e pão, amparo, amor, guarida.

E tu, ó Caridade, ó virgem do Senhor,
No amoroso seio as crianças tomaste,
E entre beijos – só teus — o pranto lhes secaste
Dando-lhes leito e pão, guarida e amor.

Machado de Assis, in 'Crisálidas'



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Você tem problemas com a sua família? Veja o que a genealogia do Senhor Jesus nos ensina sobre isso.
Pintura: Johann Georg Meyer von Bremen. Alemã Meditando. 


Você, assim como eu e como tantas outras pessoas no mundo, talvez tenha nascido num lar sem piedade, muitas vezes com as orientações básicas da fé ou ainda nem mesmo as teve. Talvez você esteja agora passando por momentos difíceis, se sentindo estrangeiro em meio às pessoas que participam do lugar nominado como "lar". Pode ser que você tenha se tornando estranho para os seus parentes.

Também é possível que com o caminhar da vida espiritual, você tenha despertado um certo receio da sua linhagem, um medo de ser como os seus antepassados, de replicar o que parece costumeiro na sua família. Existem tantas camadas de purificação que devemos passar, não é mesmo? E algumas são tão profundas e escondidas que poucos lembram-se da sua existência. Essa questão sobre a influência dos padrões familiares em nós, é uma delas. 


Acredito que ninguém tenha dúvidas de que acabamos, quase sempre, reproduzindo os nossos pais, seja por repulsa, seja por imitação. Nós também acabamos vendo uma parte da vida com as lentes que por tanto tempo estiveram por perto. E de fato, quando o chamado do Pai Celestial chega, pode acontecer algumas mudanças nesta questão. 


A Paternidade de Deus é maior e mais profunda do que a paternidade ou maternidade terrena, portanto, sua ação atrativa e transformadora é maior e mais potente. Isso significa que a pessoa muda da água para o vinho e, é claro, ninguém a reconhece. Portanto, é normal essa reação da parte dos "observadores do milagre". 


No entanto, a questão está na reação do vinho, digo, da pessoa transformada. Muitas vezes nós nos esquecemos que fomos nós que mudamos, já o mundo, as pessoas, e nossos pais... não. Eu sei é horrível encarar a realidade, mas é a realidade. 


Partindo deste princípio eu sempre retiro um grande consolo ao ler a genealogia do Senhor nos Evangelhos. Eu sei, talvez você já tenha feito esta leitura e pode ser que tenha se enfadado com uma série de nomes desconhecidos e se perguntado porque raios aquela lista interminável foi feita. Bem, ela foi feita para nos mostrar que Deus é Supremo e Soberano e sua ação é capaz de fazer uma árvore com ramos ruins e doentes gerar um fruto bom e agradável ao Gosto Santo do Pai Celestial. E ainda mostrar que o fruto mesmo apodrecido pode ser transformado em fruto puro, bom. 


Veja só o que vemos na linhagem do Senhor:


Vemos mulheres com marcas de atos reprováveis: Tamar, coabitou com o seu próprio sogro Judá e gerou dele dois filhos gêmeos Perez e Zera; Raabe era prostituta em Jericó; Rute era moabita e Bate-Seba, mãe de Salomão, adulterou com Davi. Talvez muitos não citariam pessoas assim de sua família, mas os evangelistas mantiveram-nas para mostrar o poder da Redenção e da Misericórdia.  


Também vemos homens em cuja vida foi marcada pela mentira. Os patriarcas mencionados, Abraão, Isaque e Jacó tiveram momentos de fraqueza na área da mentira. Eles não só se omitiram, mas esconderam a verdade e inverteram os fatos com medo de sofrerem com as consequências de seus atos. Esses atos não foram apagados de suas vidas pois o Senhor é poderoso para usar os instrumentos mais fracos e inúteis, pois isso, inclusive, serve para mostrar o Seu Poder e Misericórdia.



Além disso vemos homens em cuja vida há marcas de violência. Davi, tinha as mãos cheias de sangue. Roboão governou Judá com truculência. O rei Acaz queimou seus filhos, perseguiu seu próprio povo e cerrou ao meio o profeta Isaías. Manassés foi muito violento, ele encheu Jerusalém de sangue. Poucos listariam entre seus parentes pessoas que cometeram crimes, não é mesmo? Mas desta linhagem marcada com sangue, saiu aquele que deu todo o Seu Sangue por nós e que incitou a sermos violentos para entrarmos no Céu. Aprendemos com o Senhor a tornar as marcas que "herdamos" em redenção e purificação para nós e para os outros. 



Outros ainda eram idolatras, ou seja, colocaram as coisas do mundo ou a si mesmos no lugar de Deus. Salomão, por causa de suas muitas mulheres, sucumbiu à idolatria. Roboão, fez um bezerro de ouro e construiu novos templos em Israel para desviar o povo de Deus. Acaz fechou a casa de Deus e encheu Jerusalém de ídolos abomináveis. Manassés foi astrólogo, idólatra e feiticeiro, levantou altares pagãos. Vemos assim exemplos de rebeldia na família do Senhor Jesus, pessoas desobedientes. Mas Ele veio como o Grande Obediente. Agora é a nossa chance de sermos sinais de obediência ao Pai Celestial em nossas famílias. 



Acredito que você tenha entendido a extensão do que desejo lhe dizer. Você pode ser descendente de pessoas ilustres, boas e até santas; mas pode, assim como eu, ter uma linhagem problemática. Talvez exista assassinos, ladrões, corruptos, rebeldes, mentirosos, violentos, viciados em sua família, talvez isso seja uma realidade bem próxima... talvez você tenha medo de replicar isso, talvez já tenha replicado. 



Mas eu realmente quero lhe dizer, tenha confiança, Deus é maior do que nossa família terrestre, Deus é maior do que a nossa linhagem, Deus é Soberano e Bom, Ele é o Nosso Pai Verdadeiro. Os que habitam o Céu são a Nossa Família Verdadeira. 



Tenha confiança, imite o Senhor e os Santos, nossos parentes de verdade, e tudo pela graça será diferente, pois se persistir Deus te fará canal de Sua Graça para purificar, retificar e alinhar a sua linhagem à partir de você, pois você é, de verdade, um Filho, uma Filha de Deus. 



"É tal a importância do Batismo... É um filho de Deus que acaba de nascer; um príncipe do Reino Celestial; e este nascimento não é devido às leis da natureza nem à vontade dos homens, mas unicamente à infinita misericórdia de Deus". 


"O Batismo não tem por único objetivo purificar a alma, santificá-la e elevá-la à adoção divina pela comunicação da graça santificante, das virtudes infusas e de todos os dons sobrenaturais, mas também e principalmente comunicar-lhe o Espírito Santo". 


"Não nos esqueçamos jamais da preciosa graça que nos concedeu de nos fazer filhos da Igreja e celebremos o aniversário do nosso Batismo... porque é este dia que nascemos para a verdadeira vida, em que nossa alma se tornou templo do Espírito Santo". 



"No Batismo contraímos vida sobrenatural... vivamos, portanto, sobrenaturalmente; que nossos pensamentos, palavras e obras, sejam pensamentos, palavras e obras sobrenaturais."



"... a Graça Santificante é o principio de toda dignidade... Por ela somos cidadãos do Reino de Jesus Cristo, membros de seu Corpo Místico, seu amigos, sua família, filhos de Deus e príncipes do Reino Celestial... o Pai Celestial estende até nós o amor que tem a seu Filho. Por este modo contraímos verdadeiro parentesco com Deus". 


Trechos do livro: O Dom do Pentecostes, Padre Maurício Meschler. Editora Cultor de Livros




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Primado de São Pedro por Santo Agostinho de Hipona




Assim já atestava a Igreja Primitiva a respeito do Primado de Pedro:



Distingamos, vendo-nos a nós próprios neste membro da Igreja, o que é de Deus e o que é nosso. Pois então não vacilaremos, então estaremos fundados sobre a Pedra, então estaremos fixos e firmes contra os ventos, e tormentas, e correntes, as tentações, quero dizer, deste mundo presente. No entanto vede este Pedro, que era então nossa figura; ora confia, ora vacila; ora confessa o Imortal, ora teme que Ele morra. Porquê? Porque a Igreja de Cristo tem tanto fracos como fortes ... Quando Pedro disse "Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo" representa os fortes; mas quando vacila, e não admite que Cristo possa sofrer, ao temer a morte d`Ele, e não reconhece a vida, ele representa os fracos da Igreja. Naquele único Apóstolo então, ou seja, Pedro, na ordem dos Apóstolos primeiro e principal, em quem a Igreja estava figurada, ambos os tipos estavam representados, ou seja, tanto os fortes como os fracos; porque a Igreja não existe sem ambos. (Sermão 26.) (Cita del Dr. Saraví: Sermón 26)



“Cristo, como vês, edificou a sua Igreja não sobre um homem mas sobre a confissão de Pedro. Qual é a confissão de Pedro? "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo". Aqui está a pedra para ti, aqui está o fundamento, aqui é onde a Igreja foi edificada, a qual as portas do inframundo não podem conquistar.”(Sermão 229P.1) (Cita del Dr. Saraví: Sermón 229P.1)




“Não vamos ouvir aqueles que negam que a Igreja de Deus é capaz de perdoar todos os pecados. Eles estão errados, porque eles não reconhecem em Pedro a Rocha e eles se recusam a acreditar que as chaves do céu, a partir de suas próprias mãos, foram entregues à Igreja.” (Agustín de Hipona, Christian Combat, 31:33(A.D. 397), in JUR,3:51)



“Quando assim ele disse aos seus discípulos: “Você também me deixaram”, Pedro, a rocha, respondeu por todos: “Senhor, a quem iremos nós, só tu tens palavras de vida eterna” (Agustín de Hipona, Homilies on John, Tract 11:5(A.D. 417), in NPNF1,VII:76)




“Pedro, que havia confessado a ele como o filho de Deus, e que nessa confissão foi chamado de rocha sobre a qual a igreja devia a ser construída” (Agustín de Hipona, In Psalms, 69:4[PL 36, 869] (A.D. 418 ), in Butler, 251)



“... Mas essa rocha, o próprio Pedro, a grande montanha...” (Agustín de Hipona, In Psalms, 104[103]:16(A.D. 418 ),in NPNF1,VIII:513)




“... O primeiro e principal, na ordem dos Apóstolos, no qual a Igreja foi representada.” (Agustín de Hipona, Serm 76,3)




“Tal que a Igreja atua em bendita esperança para esta vida conturbada, e esta Igreja... foi personificada no Apóstolo Pedro, que tomou conta da primazia entre os apóstolos” (Agustín de Hipona, On the Gospel of John, Tract 124:5 (A.D. 416), in NPNF1, VII:450)



“São Pedro, o primeiro dos apóstolos, que amou ardentemente a Cristo, e que chegou a ouvir dEle as palavras: ‘por isso eu digo: Tu és Pedro’. Pois ele havia dito antes: ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo’. E Cristo respondeu: ‘Por isso eu digo: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.’ Sobre esta pedra edificarei a esta mesma fé que professa. Sobre esta declaração você fez: ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo, edificarei a minha Igreja. Porque tu és Pedro’. ‘Pedro’ é uma palavra derivada de ‘pedra’, e não vice-versa. ‘Pedro’ vem de ‘pedra’, assim como ‘cristão’ vem de ‘Cristo’. O Senhor Jesus, antes de sua paixão, como você sabe, escolheu os seus discípulos, a quem deu o nome de apóstolos. Entre eles, Pedro foi o único que representava toda a Igreja em quase toda parte. Portanto, assim como ele representou em sua pessoa para toda a Igreja, pode escutar estas palavras: ‘Eu te darei as chaves do reino dos céus’. Porque estas chaves foram recebidas não para apenas um homem, mas toda a Igreja. Daí a excelência da pessoa de Pedro, como ele representava a universalidade e unidade da Igreja, quando ele disse: "vos dou", tratando se de algo que foi dado a todos. Bem, para que saibais que a Igreja recebeu as chaves do reino dos céus, ouvi o que o Senhor disse em outro lugar a todos os seus apóstolos: ‘Recebei o Espírito Santo’. E então: a quem perdoardes os pecados serão perdoados, que os retiverdes lhes são retidos. Nesse sentido, o Senhor, depois de sua ressurreição, confiou a Pedro suas ovelhas para apascenta-las. Não que ele era o único dos discípulos que tinham o encargo de apascentar o rebanho do Senhor, é que Cristo, em virtude de se referir a um, significava a unidade da Igreja, e, se direcionado a Pedro em detrimento de outros, é porque Pedro é o primeiro entre os apóstolos. Não fique triste,apóstolo, responde uma vez, responde duas, responde três. Fez por três vezes a sua profissão de amor, já que três vezes o medo venceu a sua presunção. Três vezes deve ser desligado o que três vezes você tinha ligado. Desligado através do amor o que você tinha ligado através do medo. Apesar da sua fraqueza, pela primeira, segunda, e terceiro vez, o Senhor confiou suas ovelhas a Pedro” (Agustín de Hipona. Serm. 295; PL 38,1348-1352)




“Não se pode crer que você guarda a fé católica, se não ensina que se deve guardar a fé romana”. (Agustín de Hipona, Serm.120 n.13)




“...cum se videret et Romanae Ecclesiae, in qua semper apostolicae cathedrae viguit principatus..”


"...ele [Ceciliano] viu-se com a Igreja Romana, na qual sempre floreceu a primazia da cátedra apostólica..." ( Augustine, Ep 43,3,7)




Trechos extraídos da pesquisa dos Apologistas Católicos



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Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

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