O Sermão da Montanha (Santo Agostinho): a moral cristã rumo ao Sumo Bem
Romain Looymans, Santo Agostinho em Êxtase (1899). Museu Real de Belas-Artes de Antuérpia.
Existem livros que são estudados porque se tornaram clássicos. Outros se tornam clássicos porque continuam sendo estudados. O Sermão da Montanha, de Santo Agostinho, parece pertencer aos dois grupos.
Escrito de forma relativamente despretensiosa, o texto acabou se tornando um marco importante da tradição cristã. Embora não seja a obra mais famosa de Santo Agostinho, sua influência atravessou séculos e chegou até autores posteriores, como São Tomás de Aquino. Não por acaso, continua sendo leitura recorrente para aqueles que desejam compreender a moral cristã a partir das Bem-aventuranças.
Santo Agostinho viveu entre os anos de 354 e 430, aproximadamente oitocentos anos antes de São Tomás de Aquino. Sua reflexão sobre o Sermão da Montanha procura mostrar que toda a vida moral cristã possui uma direção muito específica: conduzir o homem ao Sumo Bem, que é Deus.
Foi justamente esse aspecto que mais me marcou durante a leitura. O livro oferece um aprofundamento das Bem-aventuranças não como ensinamentos isolados, mas como um itinerário para ordenar a vontade humana ao seu fim último.
Um dos temas recorrentes na obra é a pureza da intenção. Santo Agostinho insiste que o valor das ações não está somente no que fazemos, mas principalmente naquilo que buscamos ao agir. Por isso afirma:
"Portanto, só possui um coração simples e puro quem passa por cima dos louvores humanos e busca os olhares e o agrado do Único que vê a consciência. Tudo o que procede dessa pureza de consciência é tanto mais louvável, quando menos louvor humano busca."
Da mesma forma, ele observa que:
"O problema não é ser visto pelos homens, e sim viver uma vida justa para ser visto pelos homens".
Essa distinção é particularmente interessante porque evita dois extremos: a busca vaidosa pela aprovação alheia e a falsa humildade que rejeita qualquer testemunho público da fé.
Outro aspecto importante da obra é a compreensão da oração. Para Santo Agostinho, rezar consiste em preparar a própria alma para receber aquilo que Deus deseja conceder.
Nas palavras do autor:
"O objetivo da oração é pacificar e purificar o nosso coração tornando-nos capazes de receber as dádivas divinas, que nos são infundidas de modo espiritual."
Por isso, a oração aparece menos como uma tentativa de convencer Deus e mais como um processo de conversão interior:
"Portanto, orar é converter o coração Àquele que está sempre disposto a dar, para que recebamos o que nos quer dar."
Essa mesma direção aparece na interpretação do Pai-Nosso. Quando rezamos "seja feita a vossa vontade", não estamos tentando alterar a vontade divina, mas conformar nossa própria vida a ela:
"Aqueles que fazem a vontade de Deus, neles é feita a vontade de Deus, não porque façam com que Deus queira, mas porque fazem o que Deus quer, isto é, agem segundo a vontade d'Ele."
Ao longo da leitura, torna-se evidente que Santo Agostinho vê toda a moral cristã como uma educação da vontade. A educação da vontade é a ordenação dos afetos ao seu verdadeiro fim. Por isso, uma das passagens que mais me chamou a atenção foi:
"A vontade (voluntas) só pode querer o que é bom, pois querer o que é mau não é propriamente vontade, mas concupiscência (cupiditas)."
Essa ideia ajuda a compreender por que o autor insiste tanto na retidão moral e na pureza do coração:
"A firmeza e o vigor para trilhar o caminho da sabedoria vêm da retidão moral, que nos faz ter um coração puro e simples."
A preocupação com a intenção reaparece diversas vezes. Em um trecho particularmente belo, Santo Agostinho resume toda a vida cristã na caridade:
"... todas as nossas obras são puras e agradáveis a Deus quando feitas com um coração simples, isto é, tendo em vista as realidades celestes e tendo por fim a caridade, pois o amor é complemento da lei."
Da mesma forma, afirma:
"Se ela for pura e reta, e tiver em vista aquilo que deve ser o nosso fim, então todas as nossas obras, realizadas segundo essa intenção, serão necessariamente boas."
Em outras palavras, o problema fundamental da vida moral é manter constantemente diante dos olhos o fim para o qual fomos criados: conhecer, amar e servir a Deus.
Também merecem destaque as observações práticas do Santo Autor sobre os costumes e o testemunho cristão. Ele adverte:
"Contudo, o homem cristão não deve usar ornamentos supérfluos só porque alguns hipócritas, para enganar os incautos, usam vestes austeras e simples, pois as ovelhas não devem tirar sua pele só porque, às vezes, os lobos se passam por elas."
A mesma ideia retorna quando comenta os falsos profetas:
"As ovelhas não devem odiar a sua pele só porque os lobos às vezes se escondem debaixo dela."
Esse é um dos pontos mais interessantes do livro: Santo Agostinho procura constantemente distinguir o uso correto de uma realidade do seu abuso.
Ao final da leitura, fiquei com a impressão de que O Sermão da Montanha oferece uma das melhores explicações sobre a contribuição cristã para a convivência humana. A moral cristã aparece como um caminho de formação interior capaz de ordenar a inteligência, a vontade e os afetos ao verdadeiro bem.
Talvez a frase que melhor resuma a obra seja esta:
"Tudo o que se ouve ou se aprende só adquire firmeza quando é posto em prática."
Ou seja, se não há concretude no mundo real, no agir cotidiano e nas escolhas diárias, simplesmente não existe.
E é justamente por isso que eu recomendaria este livro para aqueles que desejam alimentar a alma com uma interpretação reta das Escrituras e aprofundar sua compreensão da moral cristã a partir das Bem-aventuranças. Trata-se de uma reflexão sobre o modo de viver cristão orientado inteiramente para o Sumo Bem.
Referência

0 comments
Olá, Paz e Bem! Que bom tê-lo por aqui! Agradeço por deixar sua partilha.