Carta aos Romanos| Comentários de Santo Agostinho

by - março 19, 2020


estudo bíblico católico




Contexto
A epístola aos romanos foi escrita por Paulo, provavelmente na cidade de Corinto (Grécia) enquanto ele estava hospedado na casa de Gaio e transcrita por um dos Setenta Discípulos, o escriba chamado Tércio de Icônio. Há uma série de razões que convergem para a teoria de que Paulo a escreveu em Corinto, uma vez que ele estava prestes a viajar para Jerusalém ao escrevê-la, o que corresponde com Atos 20, 3, no qual é relatado que Paulo permaneceu durante três meses na Grécia. Isso provavelmente implica Corinto, pois era o local de maior sucesso missionário de Paulo, na Grécia.  
O momento exato em que foi escrita não é mencionado na carta, mas foi obviamente escrita quando a coleta de ofertas para Jerusalém fora organizada e Paulo estava prestes a ir a Jerusalém, ou seja, no final de sua segunda visita a Grécia, durante o inverno que precedeu a sua última visita a essa cidade. A maioria dos estudiosos propõem que a carta foi escrita no final de 55, 56 ou 57 d.C.
Durante os dez anos que antecedem a escrita da carta (aproximadamente entre os anos 47 a 57 d.C.), Paulo viajou ao redor do mar Egeu evangelizando. Igrejas foram edificadas nas províncias romanas da GaláciaMacedôniaAcaia e Ásia. Paulo, considerando a sua tarefa concluída, queria pregar o evangelho na Espanha. Isso lhe permitiu visitar Roma no caminho, uma ambição de longa data. A carta aos Romanos, em parte, prepara a comunidade de Roma e dá motivos para sua visita.



Comentário de Santo Agostinho a Carta aos Romanos

Os vários sentidos da Carta do apóstolo Paulo aos romanos serão expostos a seguir. Em primeiro lugar, deve-se levar em conta que a carta versa sobre as obras da Lei e da graça.

A proposição “porque diante dele ninguém será justificado pelas obras da Lei, pois pela Lei vem só o conhecimento do pecado” e afirmações semelhantes, que alguns consideram terem sido proferidas como insulto à Lei, devem ser lidas com mais cuidado, para evitar que nem a Lei pareça reprovada pelo Apóstolo, nem tenha sido retirado do homem o livre-arbítrio. Por conseguinte, devemos distinguir estes quatro graus a respeito do homem: antes da Lei, sob a Lei, sob a graça, na paz.  Antes da Lei, caminhamos de acordo com a concupiscência da carne; sob a Lei, somos arrastados por ela; sob a graça, nem caminhamos com ela, nem por ela somos arrastados; na paz, não há concupiscência da carne.

Portanto, antes da Lei não lutamos, pois não apenas desejamos ardentemente e pecamos, mas também aprovamos os pecados. Sob a Lei lutamos, mas somos vencidos; com efeito, confessamos serem más as coisas que praticamos e, confessando serem más, por isso não as queremos praticar, mas somos vencidos, porque ainda não existe a graça.

Nesse grau, nos é mostrado como estamos prostrados e, quando queremos levantar e caímos, angustiamo-nos sobremaneira. Daí o que se diz: “a Lei interveio para que avultassem as faltas” (Rm 5,20). Daí também o que agora foi citado: “pois pela Lei vem só o conhecimento do pecado”; e não, de fato, a abolição do pecado, porque somente pela graça o pecado é eliminado.

Portanto, a Lei é boa, pois proíbe o que é preciso evitar e ordena o que se deve ordenar. Mas quando alguém pensa que a pode cumprir pelas próprias forças, não pela graça de seu Libertador, de nada lhe aproveita essa presunção; pelo contrário, prejudica- o tanto que é também arrastado por um mais veemente desejo de pecado e, no pecado, descobre-se também como transgressor. “Onde não há Lei, não há transgressão” (Rm 4,15). Assim, portanto, prostrado, quando alguém percebe que não tem capacidade de se levantar por si mesmo, implore o auxílio do Libertador.

Vem então a graça a perdoar os pecados passados e a ajudar o que se empenha e a outorgar a caridade da justiça e a abolir o medo. Quando isso acontece, ainda que alguns desejos da carne, enquanto estamos nesta vida, lutem contra nosso espírito para levá-lo ao pecado, o espírito, contudo, deixa de pecar, não consentindo nesses desejos, porque está firme na graça e caridade de Deus. Pois não pecamos pelo mau desejo em si, mas pelo nosso consentimento. Vem a propósito o que diz o Apóstolo: “portanto, que o pecado não impere em vosso corpo mortal para obedecerdes às suas paixões” (Rm 6,12).

Nesse trecho, Paulo mostra que, quando não atendemos aos desejos, embora existam,  não permitimos que o pecado impere em nós. Mas porque nascem da mortalidade da carne, a qual herdamos do primeiro pecado do primeiro homem, o que explica nosso nascimento carnal, esses desejos não terão fim a não ser que, na ressurreição do corpo, mereçamos aquela transformação que nos é prometida, onde haverá a paz perfeita ao sermos estabelecidos no quarto grau. É precisamente isso o que diz o Apóstolo: “O corpo está morto pelo pecado, mas o Espírito é vida pela justiça. E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos dará vida também a vossos corpos mortais por seu Espírito que habita em vós” (Rm 8,10-11).

Portanto, o livre-arbítrio existiu perfeitamente no primeiro homem, mas em nós, antes da graça, não há o livre-arbítrio de modo que não pequemos, mas somente de modo a não querermos pecar. Mas a graça faz com que não somente queiramos agir retamente, mas também com que o consigamos, não, porém, por nossas próprias forças, mas com o auxílio do Libertador, que nos concederá a paz perfeita na ressurreição; paz perfeita que é consequente à boa vontade. Pois, “glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2,14).

“Então eliminamos a Lei pela fé? De forma alguma! Pelo contrário, a consolidamos”, isto é, a reforçamos. Mas como haveria de se reforçar a Lei, senão pela justiça? Mas a justiça que se alcança pela fé; porque o que não pudera ser cumprido pela Lei, foi cumprido pela fé.

No que ele diz: “entretanto, não acontece com o dom o mesmo que com a falta”, o dom sobrepuja a falta de dois modos: ou porque a graça é muito mais abundante, pois, certamente, por ela se vive eternamente, enquanto a morte imperou no tempo pela morte de Adão; ou porque, pela condenação de um só delito, a morte aconteceu por meio de Adão, por nosso Senhor Jesus Cristo, porém, a graça foi dada para a vida eterna, com o perdão de muitos pecados. Mas explica assim outra diferença, ao dizer: “também não aconteceu com o dom como aconteceu com o pecado de um só que pecou, porque o julgamento de um resultou em condenação, ao passo que a graça, a partir de numerosas faltas, resultou em justificação”. Portanto, o que foi dito: “de um só”, subentende-se a falta, pois vem em seguida: “ao passo que a graça, a partir de numerosas faltas”. Assim, esta é a diferença: em Adão foi condenado um só pecado, mas pelo Senhor foram perdoados muitos.

Portanto, o que diz em seguida estabelece estas duas diferenças, a ponto de assim explicar: “Se, com efeito, pela falta de um só a morte imperou através desse único homem, muito mais os que recebem a abundância da graça e do dom da justiça reinarão na vida, por meio de um só, Jesus Cristo”. Portanto, o que ele disse: “muito mais reinarão”, refere-se à vida eterna; mas o que disse: “recebem a abundância da graça”, diz respeito ao perdão de muitos pecados. Explicadas essas diferenças, ele volta à forma de onde começara, cuja ordem interrompeu, ao dizer: “Por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte” (Rm 5,12). Volta a isso quando diz: “Por conseguinte, assim como pela falta de um só resultou a condenação de todos os homens, do mesmo modo, da justificação de um só resultou para todos os homens a justificação que traz a vida. De modo que, como pela desobediência de um só, muitos se tornaram pecadores, assim pela obediência de um só, muitos se tornaram justos” (Rm 5,18-19).

Esta é a condição do futuro Adão, da qual começara a falar antes (cf. Rm 5,12) e diferira a ordem, intercalando algumas diferenças nela; a ela voltando agora, concluiu dizendo: “por conseguinte, assim como pela falta de um só, resultou a condenação de todos os homens” etc.

A expressão “o pecado não vos dominará, porque não estais sob a Lei, mas sob a graça” diz respeito, certamente, àquele terceiro grau  em que o homem já serve com a mente à Lei de Deus, embora na carne sirva à Lei do pecado (cf. Rm 7,25).

Com efeito, não obedece ao desejo do pecado, embora as paixões ainda o solicitem e provoquem o consentimento (tentação), até que também ao corpo seja comunicada a vida, e a morte seja absorvida na vitória (cf. 1Cor 15,54). Portanto, pelo fato de não consentirmos nos desejos maus, estamos na graça e o pecado não reina em nosso corpo mortal. E quando diz, na passagem: “nós que morremos para o pecado, como haveríamos de viver ainda nele”, descreve aquele que está estabelecido sob a graça. Mas o dominado pelo pecado, embora queira resistir ao pecado, está ainda sob a Lei, e não sob a graça.

Isso acontece quando, ainda permanecendo em nós alguns desejos e impulsos para pecar, contudo não lhes obedecemos nem neles consentimos, servindo com a mente à Lei de Deus, pois morremos para o pecado. Mas o pecado também morrerá quando se der a restauração do corpo na ressurreição, da qual ele fala depois, dizendo: “dará vida também a vossos corpos, através do seu Espírito que permanece em vós” (Rm 8,11).

Ao dizer “sabemos que a Lei é espiritual, mas eu sou carnal”, Paulo demonstra sobejamente que tão somente os espirituais, assim convertidos pela graça, são capazes de cumprir a Lei. Pois aquele que se tornou semelhante à Lei cumpre com facilidade o que ela ordena, e não ficará sob ela, mas com ela.

Ao dizer: “Com efeito, não faço o bem que quero, mas pratico o mal que não quero. Ora, se faço o que não quero, concordo com a Lei, que é boa”, a Lei é satisfatoriamente defendida de toda acusação. Mas é preciso ter cuidado para que ninguém pense que, por essas palavras, nos é tirado o livre-arbítrio da vontade, pois não é assim. Com efeito, agora se descreve o homem sob a Lei, de antes da graça, quando é vencido pelos pecados, enquanto se empenha com suas forças para viver justamente sem a ajuda da graça libertadora de Deus. Mas no livre-arbítrio ele tem com que acreditar no Libertador e receber a graça, para que, naquele que a dá, ajudando-o e libertando-o, então não peque. E, assim, deixa de estar sob a Lei, mas com a Lei ou na Lei, observando-a com a caridade de Deus, o que não pudera com o temor.

Ao dizer: “Percebo outra Lei em meus membros, que peleja contra a Lei da minha mente e que me acorrenta à Lei do pecado que existe em meus membros”, denomina Lei do pecado aquela pela qual está preso todo aquele que está enredado em costumes carnais. Ele afirma que ela peleja contra a Lei de sua mente e o acorrenta à Lei do pecado, donde entende-se que é descrito o homem que não está ainda sob a graça. Com efeito, se os costumes carnais somente o combatessem e não o prendessem, não haveria condenação. Pois há condenação no fato de obedecermos e servirmos aos maus desejos carnais. Mas se existem e não cessam tais desejos, nós, porém, não lhes obedecemos, não somos aprisionados e já estamos sob a graça, da qual falará aquele que tiver exclamado e implorado o auxílio do Libertador, a fim de que a caridade possa, pela graça, o que o temor pela Lei não pudera. Assim, ele disse: “Infeliz de mim! Quem me libertará deste corpo de morte?”, e acrescenta: “a graça de Deus, por Jesus Cristo Senhor nosso”. Em seguida, começa a descrever o homem estabelecido sob a graça, que é o terceiro grau daqueles quatro que distinguimos anteriormente.

Na afirmação: “portanto, não existe mais condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus”, demonstra sobejamente que não há condenação, ainda que existam os desejos carnais, mas não se lhes obedecem para pecar. Isso acontece àqueles que foram estabelecidos sob a Lei, mas não se encontram ainda sob a graça. Pois os estabelecidos sob a Lei não somente têm a concupiscência que investe, mas também são considerados prisioneiros ao lhe obedecerem. O que não acontece aos que servem a Deus com a mente.

Pelo que diz: “com efeito, não recebestes um espírito de escravidão, para cair no temor, mas recebestes um espírito de filhos adotivos, pelo qual clamamos: ‘Abba! Pai!’”, com toda a evidência diferenciou os tempos dos dois Testamentos: o antigo diz respeito ao temor, mas o novo à caridade. Contudo, pergunta-se: o que é espírito de servidão? Pois o espírito de filhos adotivos é certamente o Espírito Santo. O espírito de servidão no temor, portanto, é aquele que tem o poder da morte, porque por toda a vida foram réus da servidão no mesmo temor aqueles que agiam sob a Lei, não sob a graça. Nem causa admiração o fato de o terem recebido mediante a divina Providência aqueles que perseguiam os bens temporais, não porque a Lei e o preceito procedem dele. De fato, “a Lei é santa e, santo, justo e bom é o preceito” (Rm 7,12); mas é certamente esse espírito de servidão, não bom, que recebem aqueles que não são capazes de cumprir os preceitos da Lei dada, enquanto estão a serviço dos desejos carnais, ainda não assuntos à adoção filial pela graça do Libertador. Com efeito, o espírito de servidão não tem ninguém em seu poder, a não ser aquele que lhe foi entregue por ordem da divina Providência, a justiça de Deus dando a cada um o que é seu. Esse poder o Apóstolo recebera quando se refere a alguns: “os quais entreguei a Satanás, a fim de que aprendam a não blasfemar” (1Tm 1,20); e, novamente, referindo-se a um outro: “já julguei” (1Cor 5,3) – diz –, “entreguemos tal homem a Satanás, para a perda de sua carne, a fim de que o espírito seja salvo” (1Cor 5,5).

Portanto, aqueles que ainda não estão sob a graça, mas estabelecidos sob a Lei, são vencidos pelos pecados para obedecer aos desejos carnais e aumentam a culpabilidade de seus delitos pela transgressão, receberam o espírito de servidão, ou seja, o espírito daquele que tem o poder de morte. Pois, se interpretarmos o espírito de servidão como o próprio espírito do homem, começaremos também a interpretar o espírito de adoção como o espírito mudado para melhor. Mas, como concebemos o espírito de adoção como o Espírito Santo, que o apóstolo claramente mostra, quando diz: “o próprio Espírito dá testemunho ao nosso espírito”, resta que interpretemos o espírito de servidão como aquele a quem servem os pecadores, para que, assim como o Espírito Santo liberta do temor da morte, assim o espírito de servidão, que tem o poder de morte, os mantenha como réus da mesma morte pelo temor, a fim de que cada um se volte para o auxílio do Libertador, mesmo contra a vontade do próprio diabo, que sempre deseja mantê-lo sob seu poder.

O que ele diz: “Pois a criação em expectativa anseia pela revelação dos filhos de Deus. De fato, a criação não foi submetida voluntariamente à vaidade” e tudo o que segue, até as palavras: “E nós mesmos gememos interiormente, suspirando pela redenção do nosso corpo”, devemos entender de tal modo que não pensemos que exista o sentido da dor e do pranto nas árvores, nos arbustos, nas pedras e nas demais criaturas semelhantes, pois esse é o erro dos maniqueus, nem julguemos que os santos anjos estejam sujeitos à vaidade, nem creiamos a respeito deles que serão libertos da servidão da morte, já que, certamente, não haverão de perecer. Mas pensemos que a criação está no próprio homem, e isso sem qualquer juízo temerário. Com efeito, não pode existir criatura alguma que não seja ou espiritual, como a que se destaca nos anjos, ou animal, como a que se manifesta na vida dos animais, ou corporal, a qual pode ser vista ou tocada; mas toda ela se encontra também no homem, porque o homem se compõe de espírito, alma e corpo. Portanto, “a criação em expectativa anseia pela revelação dos filhos de Deus” refere-se ao homem que sofre e está sujeito à corrupção e que espera a manifestação, sobre a qual afirma o Apóstolo: “porque morrestes e vossa vida está escondida com Cristo em Deus: quando Cristo, que é vossa vida, se manifestar, então vós também com ele sereis manifestados na glória” (Cl 3,3-4). Também João diz: “Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas o que nós seremos ainda não se manifestou. Sabemos que por ocasião dessa manifestação seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é” (1Jo 3,2). Portanto, a criatura espera essa revelação dos filhos de Deus, a qual no homem está submetida à vaidade, enquanto estiver entregue às coisas temporais, que passam como a sombra. Daí o que é dito no salmo: “O homem é como um sopro, seus dias como a sombra que passa” (Sl 144,4). Sobre a mesma vaidade também Salomão fala, quando diz: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol?” (Ecl 1,2-3). Da mesma forma Davi o diz: “Até quando amareis o nada, e buscareis a ilusão?” (Sl 4,3). Não diz, porém, que a criatura está submetida à vaidade voluntariamente, porque essa sujeição é penal. De fato, o homem pecou voluntariamente, mas não voluntariamente foi condenado; contudo, a condenação foi infligida à nossa natureza, não sem esperança de reparação. Por isso, diz: “Por vontade daquele que a submeteu, na esperança de a criatura também ser liberta da escravidão da corrupção, para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus”, ou seja, mesmo aquela que é somente criatura, ainda não agregada pela fé ao número dos filhos de Deus. Contudo, naqueles que haveriam de acreditar, o Apóstolo via o que diz: “Na esperança de a criatura também ser liberta da escravidão da corrupção”, para não servir à corrupção à qual servem todos os pecadores. Com efeito, ao pecador foi dito: “Terás de morrer” (Gn 2,17). Mas, “para entrar na glória dos filhos de Deus”, ou seja, para que também a criatura alcance pela fé a liberdade da glória dos filhos de Deus. Mas enquanto ainda não possuía a fé, era somente chamada criatura. E a ela se refere o que vem em seguida: “pois sabemos que a criação inteira geme e sofre até o presente”. De fato, ainda haveriam de acreditar os que mesmo pelo espírito estavam submetidos a erros que faziam sofrer. Mas para que ninguém pensasse que isso se refere tão somente ao sofrimento dos mesmos, acrescentou também sobre aqueles que já tinham acreditado. Pois, embora com o espírito, ou seja, com a mente servissem à Lei de Deus, mas porque pela carne se serve à Lei do pecado, enquanto padecemos incomodidades e os apelos de nossa mortalidade, acrescentou, dizendo: “e não somente a criação. Mas também nós que temos as primícias do Espírito, gememos interiormente”. Portanto, não sofre e geme, diz ele, aquela que é denominada apenas criatura nos homens que ainda não acreditaram e, por isso, não foram inscritos no número dos filhos de Deus, mas também nós que acreditamos e temos as primícias do Espírito, pelo fato de termos aderido a Deus com o espírito pela fé e, por isso, não mais somos chamados criaturas, mas filhos de Deus, “mas também nós gememos e sofremos esperando pela adoção, pela redenção do nosso corpo”. Com efeito, essa adoção, que já se realizou naqueles que acreditaram, realizou-se no espírito, não no corpo. Pois o corpo não foi ainda restaurado para adquirir aquela transformação celeste, do mesmo modo como o espírito já se transformou pela reconciliação da fé, convertido dos erros para Deus. Portanto, mesmo naqueles que acreditaram, espera-se ainda aquela manifestação que acontecerá na ressurreição do corpo, que diz respeito àquele quarto grau, no qual a paz e o descanso eterno serão completamente perfeitos, nada havendo de corrupção a nos servir de obstáculo ou de sofrimento a nos incomodar.

No que ele afirma: “Assim também o Espírito socorre a nossa fraqueza. Pois não sabemos o que pedir”, é claro que o diz do Espírito Santo, o que é evidente nas palavras que seguem: “É segundo Deus que ele intercede pelos santos”. Portanto, nós não sabemos o que pedir por dois motivos: porque o que esperamos para o futuro, para o qual tendemos, ainda não aparece; e porque nesta vida, muitas coisas que são desvantajosas podem parecer-nos favoráveis e, muitas coisas que são favoráveis podem parecer-nos desvantajosas. Com efeito, mesmo a tribulação, quando sobrevém ao servo de Deus, para provação ou correção, às vezes parece inútil aos pouco entendidos; mas se se atende ao que foi dito: “Concede-nos socorro na opressão, pois a salvação humana é inútil” (Sl 59,13), chega-se a entender que Deus nos ajuda muitas vezes pela tribulação, e inutilmente se deseja a saúde, que às vezes é inconveniente, como quando prejudica a alma, pelo prazer e apego à vida. Daí o se ter dito: “Encontrei angústia e aflição. Então invoquei o nome do Senhor” (Sl 116,3-4). Quando diz encontrei, significa angústia e aflição úteis, pois justamente não nos congratulamos por ter encontrado senão o que buscávamos. Por isso, não sabemos o que pedir. Com efeito, Deus sabe tanto o que nos convém nesta vida quanto o que nos dará depois dela. Mas “o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis”. Ele diz que o Espírito geme, porque nos faz gemer com caridade, despertando o anseio pela vida futura, do mesmo modo como está escrito: “Porque é o Senhor vosso Deus que vos experimenta, para saber se de fato o amais” (Dt 13,4), ou seja, para fazer-vos saber.

A expressão “não depende, portanto, daquele que quer, nem daquele que corre, mas de Deus que faz misericórdia” não exclui o livre-arbítrio da vontade, mas diz não ser suficiente o nosso querer, a não ser que Deus ajude, tornando-nos misericordiosos para bem agir, pelo dom do Espírito Santo; a isso se refere o que disse acima: “farei misericórdia a quem eu fizer misericórdia e terei piedade de quem eu tiver piedade”. Com efeito, não podemos nem mesmo querer se não somos chamados e, quando quisermos, depois do chamado, não bastará nossa vontade e nosso empenho, a não ser que Deus conceda forças aos que correm e nos conduza aonde chama. Fica claro, portanto, que não depende de quem quer, nem daquele que corre, mas de Deus que faz misericórdia para agirmos bem, embora aí esteja também nossa vontade que, sozinha, nada pode. Daí o mencionar-se o testemunho do castigo do Faraó, quando se diz falando dele: “foi precisamente por isso que te conservei de pé, para fazer-te ver meu poder e para que o meu nome seja proclamado por toda a terra”. Com efeito, como lemos no Êxodo, “endureceu-se o coração do Faraó” (Ex 9,12; 10,1), para que não se convencesse perante sinais tão evidentes. O fato de o Faraó não obedecer na ocasião às ordens de Deus já provinha do castigo. Mas ninguém pode dizer que esse endurecimento do coração aconteceu ao Faraó imerecidamente, mas foi um castigo apropriado à sua incredulidade, pelo juízo de Deus que assim lhe retribuía. Por isso, não lhe é imputado o fato de não ter obedecido então, visto que não podia obedecer estando seu coração endurecido, mas o de se tornar merecedor de ter o coração endurecido, devido à infidelidade. Pois, assim como, naqueles que Deus elege, não são as obras mas sim a fé que dá início aos méritos, para que ajam bem, por dom de Deus: também naqueles que ele condena, a infidelidade e a impiedade são início do mérito do castigo, pelo qual agem mal, conforme diz acima o Apóstolo: “e como não julgaram ser bom ter o conhecimento de Deus, Deus os entregou à sua mente incapaz de julgar, para fazerem o que não convém” (Rm 1,28). Por isso, assim conclui o Apóstolo: “faz misericórdia a quem quer e endurece a quem ele quer”. De quem se compadece, fá-lo agir bem, e a quem endurece, abandona-o para que aja mal. Mas essa misericórdia é concedida também em virtude do mérito precedente da fé e esse endurecimento, em virtude da impiedade precedente, para que por dom de Deus façamos coisas boas e por castigo coisas más. Contudo, não se exclui do homem o livre-arbítrio da vontade, seja para crer em Deus, com a consequente misericórdia, seja para a impiedade, com o consequente castigo.

No que ele diz: “Todo homem se submeta às autoridades, pois não há autoridade que não venha de Deus”, justamente admoesta a que ninguém se ensoberbeça pelo fato de ter sido chamado e feito cristão pelo seu Senhor para a liberdade, e julgue que, na caminhada desta vida, não há de observar sua ordem e de se submeter aos poderes superiores, a quem foi confiado o governo das coisas temporais para serem administradas neste mundo. Com efeito, como somos compostos de alma e de corpo, e enquanto estamos nesta vida temporal, façamos uso também das coisas temporais para manter esta vida. É mister, portanto, por um lado que, no tocante a esta vida, nos submetamos às autoridades, ou seja, aos homens constituídos em dignidade de administrarem as coisas humanas. Por outro lado, no tocante a nós que cremos em Deus e somos chamados a seu reino, não é lícito que nos submetamos a homem algum que pretenda aniquilar em nós o que Deus se dignou dar-nos em ordem à vida eterna. Por isso, se alguém, por ser cristão, pensa que não deve pagar impostos ou tributos, ou que não é preciso tributar a devida honra às autoridades às quais foi confiada essa função, encontra-se num grande erro. Da mesma forma, se alguém pensa que se há de submeter a ponto de julgar que tem poder também sobre sua fé aquele que, investido de alguma autoridade, está à frente da administração das coisas temporais, cai num erro maior. A norma a seguir é a prescrita pelo Senhor, ou seja, que demos a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus (cf. Mt 22,31). Com efeito, ainda que sejamos chamados ao reino onde não existe poder algum deste mundo, enquanto, porém, permanecermos nesta caminhada e não chegarmos àquele momento em que se dará a supressão de todos os principados e potestades, toleremos nossa condição em favor desta mesma ordem das coisas humanas, nada fazendo com fingimento e, por isso, obedecendo não tanto aos homens, mas a Deus que nos dá esses preceitos.

O que ele afirmou: “Quem és tu que julgas o servo alheio?”, ele o diz com a finalidade de deixarmos para Deus o juízo sobre coisas que se podem levar a efeito com boa ou má intenção, e não ousemos julgar sobre o coração de outro, o qual não vemos. Mas nas coisas que de tal modo são percebidas como evidentes, que não podem ser praticadas com boa e pura intenção, não reprova que emitamos nosso juízo. Assim, o que diz sobre os alimentos, pelo fato de se ignorar com que intenção se faz, não quer que sejamos juízes, mas que o seja Deus; mas sobre aquele nefando estupro que certo homem cometera contra a esposa de seu pai, ordenou que devia ser julgado (cf. 1Cor 5,1). Com efeito, ele não podia dizer que o cometera com boa intenção tão hediondo delito. Portanto, todas as ações que de tal modo são evidentes, que não se possa dizer: “Fez com boa intenção”, devem ser julgadas por nós; mas todos os atos praticados de tal modo que seja incerta a intenção com que foram feitos, não devem ser julgados, mas deixados ao juízo de Deus, conforme está escrito: “As coisas escondidas pertencem a Deus; as coisas reveladas, porém, a vós e a vossos filhos” (Dt 29,29).

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