A vida de Santa Rita de Cássia, de Padre José Rodrigues Cabezas.
"O homem nasce, não para viver sempre neste mundo, senão para morar nele por algum tempo, consagrado ao cumprimento dos deveres sagrados impostos pela lei natural e positiva, sofrendo com resignação cristã os trabalhos da vida presente até chegar a hora de partir para a pátria celeste, para a qual foi criado. Tal é o fim do homem sobre a terra; porém, quando por culpa das mães, ignora ou esquece esse destino, a criança de hoje empreenderá amanhã a carreira da vida com passo incerto, na noite obscura do presente, sem a luz da fé e sem os ensinos salutares que inspiram a fervorosa piedade da mãe, não podendo esperar, quando for entrando em anos, outra coisa senão graves e dolorosas quedas morais que multiplicando os males presentes, o despenharão por fim no abismo".
O presente escrito tem por objetivo apresentar a obra A Vida de Santa Rita de Cássia, escrita pelo Padre José Rodrigues Cabezas.
CONTEXTO HISTÓRICO
Santa Rita de Cássia, nascida Margherita Lotti em 1381, na pequena vila de Roccaporena, próxima à cidade de Cássia, na Itália, viveu em uma época marcada por profundas crises políticas e religiosas. Faleceu em 22 de maio de 1457, deixando à Igreja um testemunho de santidade que atravessaria os séculos.
O ano de seu nascimento coincidiu com um dos períodos mais difíceis da história da Igreja. O rei João I de Castela acabara de declarar apoio ao antipapa Clemente VII, agravando uma divisão que já se espalhava pela cristandade. Para compreendermos melhor o mundo no qual Santa Rita nasceu, é necessário recordar os acontecimentos que conduziram ao chamado Grande Cisma do Ocidente.
Durante o reinado de Filipe IV da França, conhecido como Filipe, o Belo (1285-1314), surgiram fortes conflitos entre o poder temporal e a autoridade da Igreja. Entre os pontos de atrito estava a tentativa do rei francês de submeter o clero e tributar os bens eclesiásticos. O choque atingiu seu auge durante o pontificado de Bonifácio VIII.
Após a morte deste papa, seu sucessor, Clemente V, foi levado a estabelecer a sede do papado em Avinhão, no sul da França. Iniciava-se assim o período conhecido como Papado de Avinhão ou Cativeiro de Avinhão (1309-1377), chamado por muitos autores de "cativeiro babilônico da Igreja", em alusão ao exílio do povo de Israel na Babilônia.
Durante quase setenta anos, os papas permaneceram fora de Roma, sob forte influência da política francesa. A situação provocou crescente descontentamento em diversos setores da cristandade e alimentou debates sobre a independência da autoridade papal.
Em 1377, graças sobretudo à atuação de Santa Catarina de Sena, o Papa Gregório XI decidiu retornar com a sede do papado para Roma. Contudo, sua morte no ano seguinte desencadearia uma nova crise.
Em 1378 foi eleito Urbano VI. A escolha, porém, desagradou grande parte dos cardeais franceses, que alegaram ter sofrido pressão popular durante o conclave. Reunidos novamente, proclamaram como papa o cardeal Roberto de Genebra, que adotou o nome de Clemente VII e estabeleceu residência em Avinhão. Iniciava-se assim o chamado Grande Cisma do Ocidente (1378-1417), período em que diferentes regiões da cristandade reconheciam autoridades papais distintas.
Clemente VII, filho de Amadeu III, Conde de Genebra, possuía vasta experiência diplomática e demonstrou grande habilidade política na defesa de sua causa. Entre suas estratégias de legitimação destacou-se o incentivo à veneração do Santo Sudário. Contrariando outras vozes da época, declarou a relíquia autêntica e concedeu indulgências aos peregrinos que a visitassem, fortalecendo simultaneamente a devoção popular e o prestígio de sua obediência.
Apesar de seus esforços para consolidar sua reivindicação ao papado, o cisma permaneceu sem solução. Clemente VII morreu em 1394 e foi sucedido por outro antipapa, Bento XIII. A divisão somente seria encerrada décadas depois, com o Concílio de Constança, realizado entre 1414 e 1418.
Foi, portanto, em meio a esse cenário de instabilidade, disputas e incertezas que nasceu aquela que seria conhecida como Santa Rita de Cássia. Assim como Deus suscitara Santa Catarina de Sena para defender a unidade da Igreja, permitiu também o surgimento de uma alma cuja vida se tornaria exemplo de fidelidade, humildade e perseverança.
As fontes hagiográficas registram que, desde muito jovem, Rita já demonstrava sinais extraordinários de piedade. Sobre sua infância, lemos:
"Contava ainda poucos anos e já mostrava certa compaixão pelos pobres, grande inclinação à piedade e nenhum entusiasmo pelos brinquedos próprios de sua idade; seu rosto alegre e risonho aparecia mais belo e encantador pela modéstia que realçava sua formosura; porém, o que caracterizou Rita em seus primeiros anos foi um amor extraordinário a Jesus crucificado e às dores de sua Mãe Santíssima."
Outra testemunha destaca:
"...a inclinação de Rita para vestir-se com simplicidade, juntamente com grande recato e modéstia superiores à sua idade, acrescentando que o temor e a oração eram nela como que instintivos."
As biografias também ressaltam:
"Sua infância cheia de prodígios; sua modéstia, aquela prematura inclinação à penitência, seu desprendimento e caridade, que ela praticaria até chegar aos mais heroicos sacrifícios."
Durante o processo de beatificação, uma das testemunhas afirmou:
"Rita era desde os primeiros anos modelo de perfeição por sua piedade, pela frequência aos sacramentos e por sua muita oração, sendo ao mesmo tempo exemplar pelo respeito e obediência aos pais, pela modéstia no vestir e recato no falar."
Ao observar sua trajetória, percebemos que Santa Rita viveu a santidade em todos os estados da vida cristã: como filha, esposa, mãe, viúva e religiosa.
Duas palavras aparecem constantemente associadas à sua vida: modéstia e resignação.
Sobre sua capacidade de suportar as dores da existência com espírito sobrenatural, encontramos o seguinte relato:
"Curvada pelo peso da dor, não tardou em levantar-se, fazendo-se superior a si mesma e a tudo o que havia sucedido. Elevou sua contemplação ao Céu, reconhecendo que tanto os bens que dele procedem quanto os males que o homem causa entram nos desígnios da Providência, que respeitosamente devemos aceitar."
Sua vida parece resumir-se no antigo lema latino:
Ad augusta per angusta
(Às coisas excelentes pelo caminho estreito).
Eis por que seu exemplo continua atual:
"Não há nada que tão eficazmente influa na vida privada e pública das pessoas como o exemplo. Por isso, os servos de Deus fizeram do seu exemplo um facho luminoso."
Tão profunda foi sua influência que, segundo os relatos,
"Na ocasião da morte de Santa Rita, os moradores de Cássia não só haviam melhorado seus costumes, gozando ao mesmo tempo do benefício da paz, como se sentiam orgulhosos das virtudes daquela filha de Cássia."
Esse facho luminoso foi um sinal de esperança em um tempo de caos, que ainda se fazia presente até mesmo nos mais altos círculos da Igreja. No ano da morte de Santa Rita, ocupava a Cátedra de São Pedro o Papa Calisto III, membro da influente família Bórgia. Seu pontificado estendeu-se de 8 de abril de 1455 até sua morte, em 1458. Entre seus atos mais lembrados está a revisão do processo de Joana d'Arc, reconhecendo oficialmente sua inocência em 1456.
Filho de Domingo de Borja e de Francisca Martí, Calisto III era tio materno de outro membro ilustre da família, Rodrigo Bórgia, que mais tarde se tornaria o Papa Alexandre VI, um dos pontífices mais controversos da história, além de tio do cardeal Luis Juan de Milà y Bórgia.
Portanto, vemos na vida dos santos a manifestação da Vontade Divina agindo em sua Igreja. Quando as trevas parecem aumentar, Deus suscita luzes ainda mais radiosas.
Curiosidades
Os Bórgias foram uma poderosa família de origem espanhola que alcançou grande influência na Igreja durante os séculos XV e XVI, através de uma espécie de infiltração pelo poder. Sua ascensão deveu-se à combinação de habilidade política, alianças familiares, riqueza e, claro, à ocupação de importantes cargos eclesiásticos. A Igreja, portanto, era um instrumento político que as famílias nobres ansiavam por dominar. O primeiro membro da família a alcançar o papado foi Calisto III (1455-1458), que utilizou sua posição para favorecer parentes e consolidar a presença dos Bórgia em Roma.
O membro mais famoso da família foi Rodrigo Bórgia, eleito papa com o nome de Alexandre VI (1492-1503). Embora tenha sido um hábil diplomata e administrador, seu pontificado foi cheio de graves abusos: o nepotismo, o favorecimento de familiares e o fato de manter relacionamentos amorosos e filhos reconhecidos, apesar da obrigação do celibato clerical. Seus filhos, especialmente César Bórgia e Lucrécia Bórgia, tornaram-se figuras centrais da política italiana da época.
Os Bórgias chegaram ao papado porque articularam-se com grande eficácia no complexo cenário político do Renascimento, buscando proteger a si mesmos e fortalecer o poder familiar, acumulando poder temporal e eclesiástico; no entanto, nesse período várias famílias nobres disputavam influência dentro da própria Igreja. Isso mostra a força das instituições eclesiásticas e o mecanismo cansativo de uso da Igreja como instrumento para a autoproteção de grupos.
No entanto, mesmo com esse histórico, saíram santos dessa família.
Professora Ana Paula Barros
Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).
Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.
Totus Tuus, Maria (2015)



2 comments
Você é muita abençoada! Obrigada por esse trabalho incrível.
ResponderExcluirDeus lhe pague!
Obrigada por me dizer isso, de verdade.
ExcluirOlá, Paz e Bem! Que bom tê-lo por aqui! Agradeço por deixar sua partilha.