Em defesa da preservação da Missa Tridentina (em sensatez)

by - segunda-feira, junho 15, 2026








Ao nos depararmos com o tema “missa tridentina” é fácil encontrarmos várias vertentes de argumentos e contra-argumentos. Em alguns momentos também é muitíssimo fácil entrar em uma guerra intelectual, em que a missa é um dos tópicos que gradativamente se perde em meio a tantos outros temas igualmente reais e importantes. No entanto, cabe salientar a superioridade do tema da defesa da missa tridentina. No que refere aos argumentos, realmente acredito que muitos deles não resistem a uma avaliação lógica, também não permeiam as mentes pós-modernas (afinal, são as almas que hoje estão no mundo para santificação) e são certamente incompreendidos por pessoas que, em toda a sua vida, frequentaram outro rito.




Portanto, é difícil defender algo que as pessoas não tiveram a oportunidade de vivenciar. A maioria dos católicos não sabe o que é uma missa tridentina; muitos padres também desconhecem. Podem ter uma notícia por terceiros, mas não por experiência própria. Da mesma forma que não conhecem o rito maronita, greco-melquita, bizantino etc. A visão católica romana atual mostra-se, em grande parte, absolutamente autocentrada.




Isso me leva a fazer a defesa da missa tridentina pela via cultural, que é a minha via de atuação cristã: a missa é um patrimônio imaterial da humanidade. Esta frase, em si, já poderia finalizar toda a disputa e contra-disputa em relação ao tema. Mas cabe um desenvolvimento.

Um patrimônio pode ser definido como o conjunto de bens culturais que representam a identidade e a memória de um povo. Ele se divide em material e imaterial:

  • Patrimônio material: corresponde a bens tangíveis, como imóveis (cidades históricas, sítios arqueológicos, paisagens, edificações) e móveis (coleções arqueológicas, acervos museológicos, documentais, bibliográficos, fotográficos e cinematográficos). São elementos concretos que podem ser preservados fisicamente.
  • Patrimônio imaterial: refere-se às manifestações culturais intangíveis, como celebrações, saberes, tradições, religiosidade, música, danças, culinária, artesanato, mitologias, narrativas e línguas. São práticas e expressões transmitidas de geração em geração, fundamentais para a identidade de comunidades e povos.



Isso posto, podemos afirmar que o patrimônio material só encontra sentido de preservação, seu sopro de vida, por assim dizer, no patrimônio imaterial. No que se refere à missa tridentina, temos diante de nós o primeiro argumento: muitas igrejas só podem ser compreendidas em sua arquitetura pela vivência da missa tridentina. Sem ela, o patrimônio material fica deslocado, historicamente faltante. É o imaterial que dá sentido ao material.



O segundo argumento de defesa é que, exceto em textos latinos antigos, cantos gregorianos e escolas universitárias de saber clássico na Europa, é muito difícil para uma pessoa comum ter acesso à língua de César, Cícero e Virgílio. Muitos se perguntam por que isso seria importante. Ora, para um professor, a depender da matéria, é de suma relevância. Quanta riqueza há em uma aula que pode contar com o recurso de escutar, ainda hoje, uma língua apresentada em sala de aula numa disciplina tão distante de nós. Esse contato, não limitado por classe social ou conhecimento, mas aberto a todos, cria um fio de união histórica e pertencimento — tão necessário em nosso tempo, fortemente abalado por situações oriundas da falta de pertencimento e acesso.



A Igreja, como uma grande mãe, pode auxiliar pessoas, grupos, comunidades e até mesmo um país inteiro a romper o teto de limitação e nivelamento social imposto pela classe e pela restrição de acesso. Esse é, em si, o terceiro argumento: uma atuação sociocultural realmente ativa, comprometida com o acesso ao que a pessoa não teria se continuasse a se alimentar culturalmente apenas daquilo que está ao seu entorno. Que belo papel (que visão!) de atuação efetiva, simples, rotineira e acessível a todos os que quiserem.




O quarto argumento é o efeito da missa tridentina em suprir o desejo de nutrição espiritual de almas com características distintas. As almas não são iguais. Cada pessoa é uma alma diferente, única e irrepetível. Logo, cada alma se enamora, cresce e se nutre espiritualmente de forma distinta: umas pela caridade, outras pela simplicidade, outras pela comunidade, outras pela beleza, outras pela ordem, outras pela clareza, outras pelo amor, outras pela retidão, outras pela reverência. Se a intenção é alcançar as almas, é sensato que existam múltiplos recursos para nutrir cada uma. Muitos são os recursos, mas um só é o Espírito.




A missa tridentina é um recurso forte e poderoso. Conheci almas que só se mobilizaram para conhecer o Senhor ao vivenciar uma missa tridentina; a reverência e o mistério eram os nutrientes que suas almas ansiavam. Outras só conseguiram sair da profunda apatia de uma depressão por meio da missa tridentina; a vivência "que parece o céu" as retirou da vida que as fazia permanecer apáticas. É realmente belo ver como essa experiência se aproxima de um encontro com a arte. Algumas pessoas, diante de um quadro, podem responder às perguntas “o que vê?”, “o que sente?”, “você entendeu?” dizendo: “não vejo nada, não sinto nada, não entendo nada”. Outras, diante da mesmíssima obra, podem encher os olhos de lágrimas, deixar escapar suspiros de alegria, alívio ou compaixão, e responder: “eu entendo a minha vida”.




Rezo a Deus para que possamos ultrapassar a disputa, a competição, a inveja, o ciúme e o nivelamento forçoso e, assim, nos abrir ao enamoramento, ao maravilhamento diante do cuidado da atuação do Espírito Santo em sua Igreja. É Ele quem coloca diante de todos o remédio para cada tempo, remédio extraído do tesouro da tradição, um tesouro de riquezas espirituais, culturais, emocionais e intelectuais. É a própria Igreja que, pela abundância desse tesouro, pode prover tudo o que cada alma necessita, de forma individual, para sua nutrição e elevação em todas as áreas, de modo cuidadosamente específico e atento. Basta permitir, sem tardar, o acesso ao remédio, acesso livre, sincero e encorajado. 







Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)

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