Política Eclesiástica IV
Política Eclesiástica IV - Os Seminários
¹Professora Ana Paula Barros
“Se o sentinela vir a espada vir contra a terra e não tocar a trombeta, e o povo não for avisado, e vier a espada e tirar a vida de alguém, esse será levado por causa da sua iniquidade, mas o sangue dele eu o requererei da mão do sentinela.” - Ezequiel 33, 6.
“Proclama a palavra, insiste, quer seja oportuno, quer não, repreende, censura, exorta com toda paciência e doutrina.” - 2 Timóteo 4,2
Depois de falarmos dos fundamentos da política eclesiástica, acredito que é possível constatar que a crise da Igreja é, na verdade, uma crise do clero. Não se trata de uma crise doutrinal, como muitos alegam, mas sim de uma crise comportamental. Também é possível notar certa desesperança nos apontamentos realizados, o que se deve ao fato de que esse “problema clerical” não está apenas em um padre que profere uma homilia com palavras de morte, mas também nos seus professores no seminário, e nos professores dos professores. Esse padre foi formado para ser assim. Dito isso, podemos entrar no tema tenebroso dos seminários.
Caso você não tenha conhecimento — embora certamente o tenha, já que os padres gostam de falar disso com entusiasmo, mesmo fazendo um trabalho fraco — a formação dura em média de oito a nove anos. Primeiro vem o propedêutico, que é um ano de preparação inicial. Depois, três anos de filosofia e quatro anos de teologia. Em seguida, há o período de prática pastoral, normalmente de um a dois anos em uma paróquia, cuidando de atividades como catequese e comunicação.
Para a maioria dos brasileiros, isso parece uma grande formação. No entanto, como professora, não deixo de olhar para os seminaristas que falam orgulhosos de seus anos de estudo e compará-los ao meu sobrinho que me diz que sabe contar até dez. É bonitinho, e só isso. A maioria de nós, que se dedica a estudar e serve a Deus dessa forma por vontade d’Ele mesmo, estuda bem mais do que isso e não sai por aí arrotando a própria formação. Mas os reverendos, do alto de sua humildade, o fazem, enquanto os estudiosos são chamados de soberbos. Aqui já fica nítida a confusão em que vive o clero brasileiro.
Durante esses estudos, há também algum tempo de “prática”, ou seja, parte das aulas é dedicada a exposições e explicações, isto é, oratória (que deveria agrupar a lógica e a retórica). Nos bons seminários, as notas vêm, ou vinham, já que muitos não fazem mais isso, divididas em teórica e prática de oratória sobre o tema. Alguns padres antigos têm seus boletins guardados, muito lindos.
Por isso, é surpreendente, absurdamente surpreendente, que um padre faça uma homilia ruim. Logo, ele foi treinado para ser ruim. Essa é a única resposta possível. Cabe perguntar se isso é realmente possível. E sim, é possível, falo como quem já viu e vê. E aqui nem entro no mérito das questões morais, limito-me apenas a mencionar a formação dos padres.
Quando falo de homilia, muitos padres, já munidos de suas grandes ideias preconcebidas, acham que estou a falar de homilias rebuscadas. Não sei se você sabe, mas existe uma rixa entre os padres sobre homilias simples e rebuscadas, cada um defendendo suas linguagens. Quando falo de boas homilias, não estou a falar nem de uma coisa nem de outra. Conheci um padre, em toda a minha vida, que pediu conselho sobre catequese e homilia. Ele disse: “Eu sou padre, não sou professor. Qual é o melhor método?” Sábio esse padre, humilde também, só que de verdade, não só no gogó.
Como todo discurso que visa educar, deve ter começo, meio e fim. Exemplos de santos seriam bons, pois exemplos são sempre bons. Um modo prático de aplicação, que no caso é a virtude, também é necessário. Três a quatro parágrafos, cinco a sete linhas cada, escrito à mão, com antecedência.
Mas todo leigo sabe que as homilias não são assim. De modo geral, o padre repete as leituras com outras palavras, o que é preferível, ou ele deturpa as leituras porque há algo que o desagrada na Palavra Sagrada.
Certa vez assisti à saga de um padre para adoçar uma leitura em que estava escrito claramente: “o salário do pecado é a morte” e outros trechos de intensidade tal e qual. Naquele domingo Jesus tinha preparado pela Igreja uma feijoada com sustança, não havia laranja ou couve para aliviar a digestão, era comida de gente grande mesmo. Pois o padre não gostou, acredita? Ele quis adoçar a feijoada que Jesus preparou. Foi uma saga, cada momento o discurso ficava pior, no fim não dava para acolher aquela homilia. Horrível. Intragável.
E para que você saiba, todo padre sabe quando fez algo errado. Todos sabem, sim. E ele terminou a homilia já consciente da meleca que tinha feito.
Esse padre, como tantos outros, tem problemas com partes do Evangelho. Então, ele tenta mudar para parecer mais cheio de “compaixão”. O Senhor sempre corrige padres assim, porque eles não têm autoridade para mudar o Evangelho. Mas o coração é duro, e eles se arrependem apenas por alguns minutos, depois esquecem. Esquecem porque não rezam a liturgia das horas todos os dias, não fazem oração mental.
O padre pode ficar sem celebrar a Santa Missa todos os dias, mas não pode deixar de rezar a Liturgia das Horas. A liturgia mantém o coração dos religiosos ligado à Palavra e com temor suficiente para não mudar o Evangelho por gosto pessoal.
Voltando aos seminários...
Recentemente vi um vídeo de uma recém-convertida, muito fofa por sinal, que dizia que os padres não têm direção política, que não são nem de direita nem de esquerda. Ora, tenho certeza que ela está a repetir o discurso sonhador de alguns católicos. Meus caros, como digo aos meus alunos, isso não existe.
Quando o guri entra no seminário ele já tem mais de 17 anos, ou seja, já passou pelo ensino médio, talvez cursinho e, se for mais velho, faculdade. Acredite: ele tem inclinação política, moral e etc. Mesmo que viva com os pais ou com professores particulares, ele terá inclinação política segundo as diretrizes de educação que recebeu ou não recebeu.
Rezo muito a Deus para que vocês possam perder a ingenuidade e não perder a pureza do coração. Algumas esperanças que vocês nutrem são simplesmente irreais. Os guris e os senhores seminaristas têm inclinação política e os seminários também. Têm também linhas filosóficas, teológicas e até psicológicas, se considerarmos os comportamentos.
Então, o que ocorre é que o guri entra e fica dez anos envolto, se nutrindo (ou se desnutrindo) nesses óleos psicológicos, filosóficos e teológicos. Depois de dez anos, nasce um padre conforme esse influxo. O que o padre coloca para fora, o que vê nos outros, os demônios dentro dele que não foram expulsos — tudo que ele faz foi formado no seminário ou não remediado no seminário.
Claro que ele não nasce perfeito, mas, a depender do trabalho não feito no seminário, é difícil para ele seguir. Isso porque a maioria dos padres não faz uma formação continuada, e muitos escondem isso dizendo que a "compaixão é o que importa". Mas não ficam nem três horas atendendo os sacramentos ou fazendo caridade direta. Muitos nem celebram a missa diária, muitos mesmo. Mas são "cheios de compaixão".
Tudo isso são coisas que não foram remediadas no seminário e que tampouco são remediadas pelo bispo, como já vimos nos textos anteriores. De modo que esse padre se vê numa condição propícia para a acomodação ou para a realização de atividades administrativas, visando angariar mais uns metros na subida das posições clericais.
Antes que você se impressione, saiba que isso é algo recorrente no clero pela história. Já relatei em textos anteriores que essa é a tentação do clero (cargos, prestígio, privilégios, o poder do microfone), e o clero brasileiro está a lidar muito mal com ela.
Retomando o percurso, vale lembrar que esse guri formado no seminário, que depois de dez anos se viu um senhor padre, pode ser em si uma pessoa boa, bem-intencionada, cheia de muitas coisas que não deveria carregar. Pode também ser alguém que viu nessa posição uma forma de propagar o mal ou simplesmente, quando percebeu, já tinha caído no caminho do erro e não adiantava voltar atrás. Então, está até o momento solenemente no caminho errado, mesmo em roupas clericais.
Tudo isso existe, e cabe a todos nós, leigos, ter clareza disso e saber que, ainda assim, Cristo sustenta a Igreja. Até porque, com a situação do clero, a Igreja é um milagre. Esses textos têm o objetivo de lembrar os leitores disso. E esse milagre está acontecendo agora.
Apesar das sementes corrompidas semeadas nos púlpitos a cada domingo, o número de convertidos aumentou em todo o mundo. Isso não é definitivamente trabalho do clero. É o trabalho de vozes leigas, pequenas e insignificantes, que são puramente cristãs, que falam das virtudes e da vida em conduta santa, que rezam o terço e falam com olhos brilhantes dos santos e da Santa Igreja. Riqueza vinda dos livros, de uma indicação na internet, de uma pessoa com véu na missa, de outro que comungou de joelhos. Enfim, dos vários recursos que o Espírito Santo tem usado para o bem de sua Igreja, para a conversão dos que estão no erro e para a fortificação dos bons. Não veio dos padres.
E isso é muito importante neste ponto de reflexão. Esse movimento está conforme o que Senhor ordenou? Não está. Os padres deveriam fazer mais, entregar mais.
Mas o Espírito Santo não nos abandona, ele continua trabalhando na evangelização mesmo que os operários estejam ociosos, como de fato estão. E estão porque se autoenganam: fazem luau na praia e dizem que é missão missionária, mentem para alguém que está em pecado mortal dizendo que está tudo bem e chamam isso de "compaixão", olham para quem quer ter vida santa e dizem que isso é ser "farisaico".
Tudo isso vem deles, dos seminários, dos professores nos seminários e dos professores dos professores. Perceba como a cadeia é grande, a largura e a profundidade da deterioração e do acomodamento. Tudo revestido de silenciamento sepulcral.
Por quê?
Bem, se o guri no seminário quer ser um padre bom mesmo, ser santo e ajudar o povo a ser santo, o guri está decidido. O que acontece?
Te conto.
O guri terá que passar os anos do seminário se isolando, porque assim como existem panelinhas no clero (e em qualquer lugar), existem panelinhas no seminário. Ele não se encaixa e se isola (muito parecido com muitos leigos). Aí, finalmente... senhor padre. O seminário é uma prova de fogo para o guri bom que quer ser um padre bom, ou seja, um padre santo.
Acontece que o padre bom que quer ser santo tem colegas, padres, mas não bons, que não gostam dele, porque ele quer ser santo. Então o padre bom se isola dentro do clero, se isola para se proteger e conseguir viver o sacerdócio em paz. Mas os padres não bons não se isolam, pelo contrário, se unem, se unem muito e até demais, vão juntos cantar na orelha do bispo e pronto: comandam a Igreja. Essa é a história do padre bom que quer ser santo.
No entanto, os padres bons são em maior número que os maus, mas eles se habituaram desde o seminário a se isolar para se proteger, a se isolar para poder ter paz. Nós, leigos, podemos entender, já que muitos de nós fazemos o mesmo. Mas no caso dos padres, o isolamento deles sai caro para nós, leigos. Nós estamos entregues nas mãos dos maus, ou dos que não sabem se são bons ou maus (acredite, existe aquele padre que oscila entre ser bom e seus demônios não exorcizados).
Na política eclesiástica existe quem aposta todas as fichas nos leigos. De minha parte, acredito que Deus apostou as fichas em nós, leigos, conservou alguns leigos, principalmente celibatários, para esse fim. Mas não podemos deixar de constatar: a crise do clero será resolvida pelo clero, será resolvida pelo ímpeto corajoso dos padres bons.
Muita gente acha que os padres estão completamente atados. Não é bem assim. Os padres, um pároco por exemplo, têm um poder considerável na própria paróquia. Para você ter uma ideia, se um padre, qualquer padre do interior, envia uma carta para Roma, ele é respondido diretamente, em no máximo um mês, com solução e etc. Como eu disse em textos anteriores, Roma é estruturada para amparar padres.
Ou seja, o pároco mais simples não está à mercê do bispo local, solto e indefeso, como alguns pensam. A questão é que no seminário eles são condicionados a determinados comportamentos, e um deles é essa inação, mesmo tendo poder em sua própria paróquia.
Os padres estão sob um condicionamento comportamental de silenciamento. Eles têm formas e recursos para serem eles mesmos o remédio. Falta o quê? Coragem. Essa palavra, que tanto define o agir cristão, somada a outra: convicção. Convicção de fazer o certo simplesmente porque é o certo.
O avanço dos maus se dá pela covardia dos bons.
“Não te ordenei eu? Sê forte e corajoso; não temas, não te apavores, porque contigo está o Senhor teu Deus, por onde quer que vás.” - Josué 1,9
¹Ana Paula Barros
Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).
Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.
Totus Tuus, Maria (2015)
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