O Rio e a Fonte, de Margaret Ogola: uma história do Quênia contada por mulheres fortes

by - sexta-feira, agosto 06, 2021

 

O rio e a fonte (Margareth Ogola)



O Rio e a Fonte - As Mulheres Fortes do Quênia, de Margaret Ogola, foi publicado no Brasil pela Editora Cultor de Livros. Com 292 páginas, o romance integrou minhas leituras de julho de 2021.


Margaret Ogola estudou na Thompson's Falls High School e na Alliance Girls High School, sendo uma aluna destacada. Em 1984, obteve bacharelado em Medicina e Enfermagem pela Universidade de Nairóbi e, em 1990, concluiu o mestrado em Medicina e Pediatria pela mesma universidade. Também obteve um diploma de pós-graduação em Planejamento e Desenvolvimento de Projetos pela Universidade Católica da África Oriental, em 2004.


Foi diretora médica do Cottolengo Hospice, um orfanato para crianças com HIV e AIDS. Também recebeu o Familias Award for Humanitarian Service (Serviço de Ajuda Humanitária às Famílias), concedido pelo Congresso Mundial das Famílias. Foi assessora dos bispos católicos quenianos em questões sanitárias e familiares, além de ser membro do Opus Dei.

O Opus Dei foi fundado em 2 de outubro de 1928 por São Josemaria Escrivá, sacerdote espanhol canonizado em 2002. O termo latino Opus Dei significa "Obra de Deus". Em 28 de novembro de 1982, o Papa João Paulo II, por meio da Constituição Apostólica Ut Sit, constituiu o Opus Dei como prelazia pessoal.

Este é um romance que acompanha quatro gerações de quenianos em meio a uma intensa transformação social. A obra teve grande receptividade e foi muito bem acolhida pela crítica, recebendo o Prêmio da Região África da Commonwealth para a Literatura. A autora era casada com o Dr. George Ogola e tinha seis filhos, sendo dois deles adotados.

A primeira publicação deste livro ocorreu em 1994. Foi o ano do processo contra o ex-presidente Fernando Collor e da candidatura de Fernando Henrique Cardoso; o Brasil, portanto, estava conturbado, para variar. Foi também o ano da morte de Ayrton Senna e de Tom Jobim.

Na África, foi o primeiro ano de eleições sem as regras do apartheid. O dia 27 de abril ficou conhecido como o Dia da Liberdade, e Nelson Mandela foi eleito presidente.

Também estavam vivos durante a publicação deste livro São João Paulo II e Madre Teresa de Calcutá.

Considerando esse contexto, é muito interessante o caminho que a autora escolheu para desenvolver seu romance. Como os personagens pertencem a gerações diferentes e suas histórias são contadas de forma gradual e entrelaçada, podemos observar não apenas o desenvolvimento de cada personagem, mas também o do Quênia e, de forma mais ampla, o da própria África por meio deles.

Eu confesso que não fiquei muito empolgada quando recebi este livro. Acredito que alguma parte da minha mente tenha sido condicionada a pensar que romances que abordam questões frequentemente associadas a pautas ideológicas acabam sendo distorcidos por elas. Assim, iniciei a leitura com certa reserva. No entanto, em um domingo sem vontade de ler livros de doutrina e tampouco livros ruins, já que não os tenho, tirei-o da estante. E foi grande a minha surpresa: é fantástico!

A história começa com Akoko, protagonista da primeira geração. Filha de um cacique, ela é uma personagem especial. O enredo acompanha sua trajetória ao lado do marido, também um cacique, mostrando seu papel como Mikai (a primeira esposa do cacique; no caso dela, a única), alguém dotada de grande autoridade dentro da comunidade.

Muitas coisas são interessantes nessa história, mas o que mais me chamou atenção foi a construção de uma imagem mais real e menos revolucionária da África. Não sei se você já teve a oportunidade de conversar com alguém sobre a missão de evangelização no continente africano, mas os temas que mais aparecem costumam ser: o povo é dócil e bom, ainda existem guerras tribais que impedem o crescimento dos países e assim por diante.

A autora, utilizando sua própria bagagem, a de seus antepassados e a de pessoas próximas, constrói diante dos nossos olhos uma África mais real, e não apenas aquela apresentada nos cartazes atuais. Uma África assolada por questões políticas, mas também aberta ao que existe de melhor. Nas narrativas de cada membro dessa família, começando pela matriarca, vemos o que aconteceu no continente em cada geração.

Na primeira geração, é possível observar os costumes e perceber que, pelo menos no Quênia, as guerras tribais não eram tão frequentes quanto normalmente se imagina, em razão do Chik, a norma que regia as relações entre as tribos e funcionava como uma espécie de código de conduta. Também vemos aspectos da religião e de outros elementos culturais. Fica muito evidente um ponto interessante da evangelização: existem brechas para o cristianismo em todas as culturas, e elas podem surgir justamente da percepção mais aguçada de alguns membros daquele povo.

A partir daí se desenvolve toda a narrativa. Acompanhamos o contato com os britânicos desde o início da colonização inglesa e tudo o que isso gerou, inclusive a evangelização cristã, especificamente a católica.

É interessante notar como, gradativamente, a autora demonstra que muitos daqueles personagens buscavam algo além daquilo que já conheciam. Estavam dispostos a conhecer e aprender com outros povos; dessa sede nasceram conversões, vocações e uma profunda mudança de mentalidade e de comportamento, impulsionadas pela abertura à modernidade, que trouxe aspectos positivos e negativos.

Durante a leitura, lembrei-me de um colega africano, angolano, que lecionava na mesma escola que eu. Recordei-me dele porque, certa vez, disse: "realmente as condições na África não são as melhores, mas eu tive aula com os melhores professores da Inglaterra". E era verdade. Foi exatamente esse tipo de contraste, muitas vezes presente na trajetória de uma única pessoa, que encontrei neste romance.

A leitura é fluida e agradável. A escrita possui algumas semelhanças com a de Elizabeth Gaskell e Jane Austen, o que não é nenhuma surpresa. É uma obra divertida, embora também reflexiva e religiosa.

Recomendo a todos, mas especialmente a padres, missionários e a qualquer pessoa que deseje ter uma visão mais nítida da verdadeira missão evangelizadora da Santa Igreja em diferentes culturas.

Como exemplo da profundidade espiritual presente na obra, a autora escreve:




"A vida é um enigma e um mistério, e a mente humana percorre-a em anseio por aquilo que não compreende. Mas continua sempre em busca".



Em outro momento, lemos:


"O catequista - um homem alto e esquelético, de sobrancelhas salientes, olhos profundos, barba densa e lábios carnudos - olhou para ela gentilmente.Mulher, muitos vêm à procura do novo caminho, mas poucos conseguem mantê-lo, pois ele não é fácil para os fracos de formação. Ele exigirá que viva de acordo com um Chik diferente do que conhece. Porém, não quero desencorajá-la, pois Deus nos ama e nos chama a todos para escutar Seu Filho, Yeso Kristo, que enviou para viver como nós e nos dar a conhecer os caminhos de Deus. O ensino religioso acontece todas as manhãs. De vez em quando, o professor a testará para checar se você entende tudo. Quando você compreender e aceitar tudo o que aprender você receberá o batismo."



Mais adiante:


"Repentinamente... Nybera teve a certeza de ter feito a escolha certa. Estava cheia de esperança. Tinha trinta anos e já havia se encontrado à beira do desespero. Não importava que ela não entendesse a língua: algumas coisas vão além das palavras".



E, finalmente:


"... Não era a sua mãe Akoko, filha do grande cacique Odero? Longe dela sucumbir ao medo e à covardia. Ela aprenderia tudo o que precisasse aprender, conseguiria seu batismo e se tornaria um membro da Igreja una, santa, católica e apostólica. Algum dia - e que esse dia chegasse logo! - ela tomaria parte no corpo e sangue de Kristo e se converteria num dos seus ramos: estaria, finalmente, ligada a uma árvore."



Referência:





Professora Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)

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