Comentários de São João Crisóstomo sobre a Carta aos Gálatas

by - janeiro 04, 2020

O QUE É UM DOUTOR DA IGREJA? 


Os Doutores da Igreja são homens e mulheres ilustres que, pela sua santidade, pela ortodoxia de sua fé, e principalmente pelo eminente saber teológico, atestado por escritos vários, foram honrados com tal título por desígnio da Igreja. Os Doutores se assemelham aos Padres da Igreja, dos quais também diferem. Padres da Igreja são aqueles cristãos (Bispos, presbíteros, diáconos ou leigos) que contribuíram eficazmente para a reta formulação das verdades da fé (SS. Trindade, Encarnação do Verbo, Igreja, Sacramentos. ..) nos tempos dos grandes debates e heresias. O seu período se encerra em 604 (com a morte de S. Gregório Magno) no Ocidente e em 749 (com a morte de S. João Damasceno) no Oriente. 

Para que alguém seja considerado Padre da Igreja, requer-se antiguidade (até os séculos VII/VIII), ao passo que isto não ocorre com um Doutor.Para os Padres da Igreja, basta o reconhecimento concreto, não explicitado, da Igreja, ao passo que para os Doutores se requer uma proclamação explicita feita por um Papa ou por um Concílio. Para os Padres, não se requer um saber extraordinário, ao passo que para um Doutor se exige um saber de grande vulto. 

EM SUMA 


Doutor da Igreja é aquele cristão ou aquela cristã que se distinguiu por notório saber teológico em qualquer época da história. O conceito de Doutor da Igreja difere do de Padre da Igreja, pois Padre da Igreja é somente aquele que contribuiu para a reta formulação dos artigos da fé até o século VII no Ocidente e até o século VIII no Oriente. Há Padres da Igreja que são Doutores. Assim os quatro maiores Padres latinos (S. Ambrósio, S. Agostinho, S. Jerônimo e S. Gregório Magno) e os quatro maiores Padres gregos (S. Atanásio, S. Basílio, S. Gregório de Nazianzeno e S. João Crisóstomo). 

Portanto, o parecer de um Doutor da Igreja é maior do que achismos, independente do assunto em estudo ou discussão.


SÃO JOÃO CRISÓSTOMO 


Doutor da Igreja, Boca de Ouro, Alma de Anjo e Coração de Pai.

 João nasceu com alma monástica, tanto que, por duas vezes passou anos no silêncio do deserto; por causa da precária saúde voltou da vivência religiosa mais retirada e em Antioquia foi ordenado sacerdote. Famoso devido ao seu dom de comunicar a Palavra de Deus, Crisóstomo não demorou a abraçar a cruz do governo pastoral da diocese de Constantinopla, já que o imperador fez de tudo para isto. Ao perceber a má formação do clero, entregue à ambição e à avareza, o santo começou a exigir vida de pobreza e simplicidade evangélica daqueles que precisavam ser exemplo para o rebanho. 

Devido aos naturais atritos com o clero e fervorosas pregações contra o luxo e imoralidades da vida social, São João teve problema com a imperatriz Eudóxia, que começou o movimento causador dos seus dois exílios, sendo que no último, os sofrimentos da longa viagem e os maus tratos foram mortais! 

Amado pelo povo e respeitado por todos, São João Crisóstomo morreu em 407 e deixou, além do belo testemunho dos dez anos de pontificado, suas últimas palavras as quais resumiram sua vida: “Glória seja dada a Deus em tudo!”. 

São João Crisóstomo, rogai por nós! Oração "Protegei-nos Senhor, concedeu-nos santos sacerdotes e leigos. Agradecemos por nos dar São João Crisóstomo como pai e professor em meio as trevas desse mundo que nos quer afastar de Vós. Agradecemos Senhor, pois nunca nos abandonou."

IGREJA DA GALÁCIA 


A província da Galácia se localizava na Asia Menor e abrangia os territórios da Frigia, Panfília, Licaônia e Galácia. 

A igreja foi fundada por São Paulo em uma de suas primeiras viagens missionária, como podemos ler em Atos 13 ,1 e 14, 26; nessa passagem vemos também o ocorrido em Listra, onde Paulo e Barnabé foram confundidos com deuses, rangaram as vestes, depois foram perseguidos pelos judeus. 

Esse foi "o tom" da fundação da Igreja na Galácia.




COMENTÁRIOS 

O prólogo é vigoroso e cheio de afeto, e de certo modo, não só o proêmio, mas a epístola inteira. Com efeito, dirigir-se sempre com moderação aos discípulos necessitados de severidade, não condiz com um mestre, e sim com um sedutor e inimigo. Por este motivo, igualmente, o Senhor, que falava aos discípulos com muita mansidão, algumas vezes utilizou linguagem mais severa, e ora felicitava, ora censurava. Assim, tendo dito a Pedro: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas” (Mt 16,17), e prometido que os fundamentos da Igreja repousariam sobre a pedra de sua confissão, não muito depois, lhe disse: “Arreda-te de mim, Satanás! Tu me serves de pedra de tropeço” (Mt 16,23), e em outra passagem mais uma vez: “Nem mesmo vós tendes inteligência?” (Mt 15,16). Tanto respeito lhes inspirava que João narra que, ao vê-lo falar com a mulher samaritana acerca do alimento, “nenhum deles lhe perguntou: ‘Por que falas com ela?’, ou: ‘Que desejas?’” (Jo 4,27). 

Paulo, aprendendo a lição e seguindo as pegadas do mestre, se adapta às necessidades dos discípulos, e ora cauteriza e corta, ora aplica remédios mais suaves. E dizia aos coríntios: “Que preferis? Que eu vos visite com vara ou com amor e em espírito de mansidão?” (1Cor 4,21). Aos gálatas, porém: “Ó gálatas insensatos” (Gl 6,16). Não foi somente uma vez, mas por duas vezes que utilizou esta repreensão. Além disso, no final da epístola, investe: “Ninguém mais me moleste” (Gl 6,7). De outras vezes suaviza o tom. Assim: “Meus filhinhos, por quem eu sofro de novo as dores do parto” (Gl 4,19), e outras palavras semelhantes. 

De resto, é evidente a todos desde a primeira leitura que esta epístola é impetuosa. 

Convém expor o que provocava a ira do Apóstolo contra os discípulos. Não era coisa pequena nem insignificante; do contrário, não os teria perseguido tanto. De fato, é próprio do homem pusilânime, rude e mísero irritar-se por qualquer motivo, e peculiar ao mais preguiçoso e sonolento recuar diante de problemas importantes. Mas Paulo não era dos tais. Qual era, então, o pecado que tanto o abalava? Certamente era grande, excessivamente grave e os apartava a todos de Cristo, conforme diz em seguida: “Atenção! Eu, Paulo, vos digo: Se vos fizerdes circuncidar, Cristo de nada vos servirá” (Gl 5,2).

Não foi somente numa cidade, nem em duas ou três, mas em toda a nação dos gálatas que o incêndio deste erro se propagara. Vê a intensa indignação do Apóstolo. Não disse: Caríssimos, nem: Santificados e sim: “Às Igrejas da Galácia”. Era sinal de grande aborrecimento e de sua dor não chamá-los com um apelativo amigável, nem respeitosamente com o próprio nome, mas somente pelo da assembleia. E não aditou: Igrejas de Deus, mas disse simplesmente: “Às Igrejas da Galácia”. Embora em outra passagem no próprio prefácio logo se apressa a reduzir à concórdia o dissídio entre eles; por isso, colocou o nome de Igreja, incutindo-lhes pudor e impelindo-os à unidade. 

De fato, os que se dividem em vários partidos não podem de forma alguma receber este nome; na verdade, o nome de Igreja é denominação de concórdia e unanimidade. Ao dizer, portanto, que eles se apartaram do Pai, atribui-lhes dupla culpa, a saber, que se afastaram, e o fizeram rapidamente. Na verdade, é merecedor de repreensão quem se aparta depois de muito tempo, mas quem cai na primeira investida e no próprio lançamento das setas, oferece um exemplo de extrema tolice. Com tal nome ele os acusa, dizendo: Por que os vossos sedutores nem de espaço de tempo precisam, mas basta-lhes o primeiro acesso para vos subverter e captar? Que perdão podeis impetrar? Mas há alguns que vos estão perturbando e querendo corromper o evangelho de Cristo. Isto é, não conhecereis outro evangelho, enquanto tiveres um julgamento correto, enquanto não for distorcida tua visão, imaginando o que não existe. Como o olho turvo vê uma coisa por outra, assim a mente perturbada pela confusão de maus pensamentos costuma padecer o mesmo. Por isso os que estão loucos imaginam uma coisa por outra. 

Na verdade, esta loucura é mais perigosa do que aquela, porque não ocasiona prejuízo a respeito das coisas sensíveis, mas das inteligíveis, não danifica a pupila dos olhos corporais, mas subverte os olhos do espírito. “Querendo corromper o evangelho de Cristo.” Ora, eles introduziram um ou outro preceito, restabelecendo só a circuncisão e a observância dos dias. Mas, para indicar que um pequeno erro corrompe o todo, Paulo diz que corrompe o evangelho. Se alguém apagar um pouco a figura impressa numa moeda régia falsifica a moeda inteira; assim quem corromper a mínima partícula da fé ortodoxa, estraga o todo, e deste início procede a erros piores.

Onde estão os que nos condenam como contenciosos, porque disputamos com os hereges? Onde estão os que murmuram que não há diferença entre nós e eles, mas que a discórdia provém da ambição de poder? Ouçam o que Paulo diz, a saber, que corromperam o evangelho os que reintroduziram uma pequena novidade. 

Não é possível, não é. A causa de todos os males consiste em que não nos importamos com estas coisas pequenas. Por isso cometeram os crimes maiores porque os menores não encontraram a adequada correção. Como relativamente aos corpos, os que negligenciam cuidar das feridas, contraem febre, gangrena e por fim advém a morte, assim, em relação às almas, os que menosprezam as coisas pequenas acarretam as grandes. Aquele homem, diz-se, resvalou quanto ao jejum, o que não importa; um outro tem a verdadeira fé, mas disfarça por oportunismo e renuncia à ousadia de confessar; nem isso é grave. Um outro, irritado, ameaçou abandonar a fé verdadeira; nem este merece castigo, replicas, porque pecou num movimento de ira e furor. Encontram-se diariamente pecados desta espécie cometidos nas Igrejas. Por esse motivo, tornamo-nos ridículos diante dos judeus e dos gentios, enquanto a Igreja se divide em mil partes. Com efeito, se desde o início fosse empregada conveniente admoestação aos que se entregavam à transgressão dos preceitos divinos e tentavam fazer um pouco além do que é devido, não teria aparecido de forma alguma esta peste, nem haveria irrompido tão grande tempestade nas Igrejas. 

E por que falar das observâncias judaicas? Dentre os nossos alguns guardam costumes pagãos, observam presságios, voos de aves, dias e símbolos, superstições sobre os nascimentos e letras cheias de toda impiedade, que para seu grande mal são impostas na cabeça das crianças recém-nascidas, ensinando-lhes desde o começo a rejeitar o zelo na aquisição das virtudes e sujeitando-as à tirania do destino falaz. Se Cristo não é de proveito algum aos que se circuncidam, o que adiantará a fé para a salvação destes, contra os quais tantos males investem? Entretanto a circuncisão fora dada por Deus; mas como causava dano ao evangelho, quando observada fora do tempo oportuno, Paulo fez o possível por aboli-la. 

Além disso, como Paulo tinha tanto empenho em abolir os costumes judaicos, porque obsoletos, nós nem os hábitos pagãos cortaremos? Que escusa teremos? Por estas razões, nossas vidas acham-se envolvidas em tumulto e agitação, e os que deviam ser discípulos, inchados de soberba, subverteram a ordem e tudo se acha revolucionado. Se alguém os acusar, mesmo levemente, cospem com desprezo contra os chefes, porque os educamos mal. Ora, mesmo se os que governam fossem ímprobos e estivessem repletos de milhares de vícios, nem assim o discípulo teria o direito de desobedecer. Se não é permitido julgar o próximo, quanto mais proibido será julgar os doutores?

Vê que (Paulo) teve maior amizade a Pedro, porque por sua causa empreendera a viagem, e demorou-se junto dele. Repito-vos isso constantemente e quero que guardeis na memória, de sorte que, se ouvirdes algo que pareça o Apóstolo ter dito contra Pedro, não tenhas suspeitas falsas. De fato, é por isso que ele assim se exprime, prevenindo, como ao dizer: “Eu enfrentei a Pedro” (cf. Gl 2,11). Não se julgue que estas palavras são de inimizade ou de rixa, pois ele o honra e ama mais do que a todos. 

Efetivamente, por causa de nenhum outro apóstolo narra que subiu a Jerusalém, mas somente por causa dele. “Não vi nenhum outro apóstolo, mas somente Tiago.” “Vi”, assegura, e não: Recebi dele uma instrução. Mas observa com que respeito o nomeia. Não disse simplesmente: Tiago, mas acrescentou respeitoso elogio: “O irmão do Senhor”, a tal ponto estava isento de inveja. De fato, se quisesse indicar de quem falava, poderia colocar outra nota e dizer: Tiago de Clopas, cognome usado pelo evangelista João (Jo 19,25). Mas não se exprimiu deste modo, porque considerava os títulos honoríficos dos apóstolos como seus, e uma honra para si próprio, e por isso o reverencia. 

Não o denominou desta forma, conforme disse; de qual, então? “O irmão do Senhor.” Ora, não era irmão do Senhor segundo a carne, mas assim era considerado; nem por isso deixou de dar-lhe o título honorífico. Aliás, Paulo muitas outras vezes demonstrou afeto sincero aos apóstolos, o que era, de fato, conveniente. Muitos que leem pouco atentamente esta passagem da epístola, julgam que Paulo acusou a Pedro de hipocrisia, mas não foi assim, de forma alguma. Descobrimos aqui disfarçada muita prudência tanto da parte de Pedro quanto de Paulo, visando ao bem dos ouvintes. 

Com efeito, os apóstolos, conforme narrei, em Jerusalém permitiam a circuncisão. Não podiam de repente afastá-los da Lei. Quando, porém, foram para Antioquia, já não praticavam essas observâncias, mas relativamente aos que acreditaram dentre os gentios, viviam sem diferenças. Certamente Pedro também o fazia. Mas, quando vieram alguns da cidade de Jerusalém, que os viram pregando assim, não o fazia mais, temendo que eles se escandalizassem, mas subtraía-se, agindo por condescendência com dois resultados: de um lado, não se escandalizavam os judeus, mas de outro, oferecia a Paulo oportunidade de censurá-lo com justeza. De fato, se aquele que pregava em Jerusalém permitindo a circuncisão, mudasse em Antioquia, pareceria aos judeus que acreditaram que agia assim por medo de Paulo e os discípulos o censurariam por empregar grande facilidade e causaria grande escândalo, embora a Paulo, que perfeitamente conhecia o motivo da mudança, sua recusa não causava nenhuma suspeita, porque sabia com que disposição assim procedia. Por conseguinte, Paulo censura e Pedro aceita. 

Enquanto o mestre cala ao ser censurado, mais facilmente os discípulos mudariam de parecer. Com efeito, se na realidade tivesse havido entre eles disputa, de forma alguma haveriam se censurado mutuamente na presença dos discípulos, porque teriam causado grande escândalo. Em nosso caso, era útil a discordância em público.


A força da fé 


“A vós ante cujos olhos foi desenhada a imagem de Jesus Cristo crucificado.” Ora, ele não foi crucificado na região dos gálatas, mas em Jerusalém. Como, pois, ele diz: “A vós”? Foi a fim de mostrar a força da fé, pela qual se torna possível discernir o que está longe. E não disse: Foi crucificado, e sim: “Foi desenhada a imagem do crucificado”, indicando que com os olhos da fé alguns viram mais exatamente do que alguns que estavam presentes e olhavam o que sucedia. 

Efetivamente, muitos daqueles que assistiram [à crucifixão] nenhum fruto retiraram; os que, porém, não viram com os próprios olhos, pela fé viram com maior evidência. 

Sobre a Lei 


De modo algum é supérflua. Vês que ele supervisiona tudo, como se tivesse inúmeros olhos? Havia enaltecido a fé, enquanto anterior à Lei; a fim de evitar que alguém julgasse a Lei supérflua, emenda, demonstrando que não fora em vão, mas muito útil: “Foi acrescentada em vista das transgressões”, isto é, para não permitir aos judeus viverem em segurança, e resvalarem na maior malícia, mas impor-lhes a Lei à guisa de freio, instruindo, regulando, proibindo as transgressões, se não de todos, ao menos de alguns preceitos. Não foi, portanto, pequeno o fruto proveniente da Lei. Mas até quando? – Até que viesse a descendência, a quem fora feita a promessa. 

Ora, se a Lei foi dada para abranger a todos, isto é, coagir e manifestar-lhes os pecados, não somente não obsta a que consigas a realização das promessas, mas ainda contribui para alcançá-las. 

Na verdade, se a Lei não tivesse sido dada, todos se revolveriam na malícia, nenhum judeu ouviria a Cristo; agora, porém, a Lei dada prestou-nos estes dois bens: um, ao ensinar uma virtude comedida àqueles que lhe davam atenção, e outro, ao persuadir a que reconhecessem os próprios pecados, o que os tornava mais inclinados a procurar o Filho. 

Em consequência, os que não acreditavam na Lei, por não condenarem os próprios pecados, não acreditaram em Cristo. Apontando para isso, ele diz: “Desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à justiça de Deus” (Rm 10, 3). “Vos revestistes de Cristo”, nem com esta palavra se contentou, mas explanando-a vai à união mais íntima e diz: “Pois todos vós sois um só em Cristo Jesus”, isto é, todos tendes uma só forma, um só modelo, a saber, o de Cristo. 

O que há de mais estupendo e respeitável do que tais palavras? Quem antes era gentio, judeu ou escravo, agora não se acha na condição de um anjo, de um arcanjo, mas na do Senhor do universo, representando Cristo em si.

Vós fostes chamados à liberdade, irmãos. Entretanto, que a liberdade não sirva de pretexto para a carne. 


Aqui já parece partir para um sermão moral. Emprega uma novidade que em nenhuma das outras epístolas aparece. Em todas costuma fazer uma divisão em duas partes, de sorte que na primeira trata dos dogmas, na segunda fala dos costumes; aqui, começa tratando dos costumes, e depois insere uma dissertação sobre os dogmas. Mas o que quer dizer: “Entretanto, que a liberdade não sirva de pretexto para a carne”? 

Cristo, diz ele, nos libertou do jugo da escravidão, quis que fosse livre a vontade, não a fim de abusarmos deste poder para o mal, mas para termos oportunidade de obter prêmio maior, após progredirmos em direção duma sabedoria mais elevada. De fato, após ter denominado a Lei, em todos os sentidos, jugo da servidão, e chamado à graça de libertação da maldição, a fim de evitar a suspeita de que estava ordenando o afastamento da Lei por ser lícito levar uma vida fora da Lei, corrige esta suspeita, dizendo: Não é para que se leve uma vida ilegítima, mas para transcender a Lei pela Sabedoria. 

Não me exprimo esta forma para ficarmos mais abatidos, mas para subirmos mais alto. Com efeito, tanto o que fornica quanto aquele que persevera na virgindade, ultrapassa os termos da Lei, mas não da mesma forma; um cai de forma péssima, outro se eleva a um grau mais alto, de sorte que um transgride a Lei, outro a ultrapassa. 

Eis que indica outro caminho que facilita a virtude, e realiza bem o que foi dito, o caminho que gera a caridade, e que preme pela caridade. Nada de fato, nada, diria, de tal modo insere em nós a caridade como sermos espirituais, nem persuade igualmente ao Espírito que permaneça em nós senão a força da caridade. Por isso diz: “Conduzi-vos pelo Espírito e não satisfareis os desejos da carne”. 

Visto que expusera o que produzia a doença, igualmente receita o remédio que cura. Qual é e qual a força das palavras corretas senão viver pelo Espírito? Por isso diz: “Conduzi-vos pelo Espírito e não satisfareis os desejos da carne”. O que diz, portanto? Denomina carne aqui o pensamento terrestre, indolente e covarde. Não está acusando a carne, mas o crime da alma negligente; na verdade a carne é instrumento dela, mas ninguém tem aversão e ódio ao instrumento, mas àquele que o utiliza mal. Não é ao ferro, mas ao homicida que odiamos e punimos.


Lei e Espírito 


Qual a consequência? Máxima e evidente. De fato, quem se deixa guiar pelo Espírito, como convém, por meio dele extingue todo o mau desejo. 

Mas quem deles se libertou não precisa do auxílio da Lei, tendo se tornado muito superior àqueles preceitos. De fato, quem não se irrita, por que precisa ouvir: Não matarás? Quem não olha com olhos intemperantes por que há de aprender que não deve cometer adultério? Quem lhe falará do fruto da maldade, se já arrancou-a pela raiz? A raiz do homicídio é a ira, e a raiz do adultério é o olhar indiscreto. Por isso, ele diz: “Se vos deixais guiar pelo Espírito, não estais debaixo da Lei."

Fruto do Espírito 


Porque as más obras vêm somente de nós, e por isso se chamam obras; as boas, porém, não só exigem nossos cuidados, mas precisam da divina bondade. Em seguida, estando para descrevê-las, primeiro coloca a raiz dos bens, dizendo: caridade, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade... Se vivemos pelo Espírito, pelo Espírito pautemos também nossa conduta. Estabeleçamos nossa vida segundo suas leis. É o seguinte o sentido das palavras: “Pautemos nossa conduta”, isto é, contentemo-nos com a força do Espírito. 

"Vós, os espirituais, corrigi-o..."

 Não disse: Puni, ou condenais, e sim: “Corrigi. Não se detém aí, mas para mostrar que deviam ser muito mansos para com os que foram suplantados, assim termina: com espírito de mansidão, Não disse: Com mansidão, e sim: “Com espírito de mansidão”, afirmando que isso também apraz ao Espírito, porque, na verdade, o próprio fato de poder corrigir com equidade os pecadores é um dom espiritual. Em seguida, no intuito de que aquele que corrige não se exalte, submete-o ao mesmo temor, dizendo: cuidando de ti mesmo, para que também tu não sejas tentado.

Quanto às sementes, quem semeia cevada não pode colher trigo, porque a semeadura e a messe devem ser da mesma espécie. Assim deve acontecer relativamente às obras. Quem jogar na carne saciedade, embriaguez, maus desejos, colherá o fruto que brotar. Qual? Suplício, castigo, opróbrio, zombaria, podridão. De fato, nada resulta das mesas suntuosas e das iguarias senão a corrupção; simultaneamente elas se corrompem e arruínam a saúde do corpo. As realidades espirituais, porém, não são tais, mas exatamente o oposto. Pondera o seguinte: Semeaste esmola, ser-te-ão reservados tesouros celestes e glória sempiterna. Semeaste temperança, receberás honra e prêmio, congratulações dos anjos e coroas. 

Denomina nova criatura o nosso estilo de vida, tanto por causa do passado como do futuro. Do passado, na verdade, porque nossa alma que envelhecera na vetustez do pecado, de repente pelo batismo foi renovada como se fosse recriada. Por isso também exige-se de nós novo e celeste estilo de vida. Do futuro, porque o céu e a terra e enfim toda criação passarão à incorruptibilidade, conjuntamente com nossos corpos. 

Trechos retirados do livro Patrística: Comentários de São João Crisóstomo/1, pg 301-370.

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