Carta aos Coríntios: Comentários de São Tomás

by - janeiro 20, 2020


Nota do VS: O presente texto que apresentamos aos nossos leitores é parte de um belíssimo e extraordinário comentário da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios feito pelo mais Doutor dos Santos e o mais Santo dos Doutores da Igreja, isto é, de Santo Tomás de Aquino.
A tradução para a língua portuguesa foi feita por Rodrigo Santanta e revisada por Alessandro Lima de um texto editado em castelhano pela Editorial Tradicón (S. A. Av. Sur 22 No. 14 – entre Oriente 259 y Canal de San Juan – , Col Agricola Oriental. Codigo Postal 08500) de 1983. A edição em castelhano (disponível no site da Congração para o Clero: http://www.clerus.org) se deu através de um exemplar em latim intitulado Sancti Thomae Aquinatis Doctoris Angelici super Primam Epistoiam Sancti Pauli Apostoli ad Corinthios expositio editado por Petri Marietti em 1896.
O texto bíblico citado por Santo Tomás é o da Vulgata de São Jerônimo, infelizmente as atuais traduções em português não são tão fiéis aos termos empregados nesta referência católica das Escrituras, desta forma optamos por traduzir da Vulgata os textos utilizados neste comentário, dando assim maior uniformidade e fidelidade ao texto latino de Santo Tomás.
O que nos motiva a publicar o presente trecho do comentário de Santo Tomás (sobre o capítulo 14 de 1 Cor) é que ele trata de um tema  ainda muito incompreendido entre nós católicos deste século: o dom de línguas. Neste trecho de seu comentário o Doutor Angélico apresenta-nos a doutrina tradicional da Santa Igreja Católica a respeito deste tema que é de especial interesse em nosso tempo. É mister lembrar ainda que os Pontífices Romanos não só recomendaram-nos à doutrina do Aquinate (Santo Tomás), mas também em diversas oportunidades confirmaram a autoridade de seus ensinamentos para toda a Igreja Católia (alguns exemplos: Aeterni Patris de Leão XIII, Doctoris Angelici de S. Pio X , Lúmen Ecclesiae de Paulo VI, Sapientia Christiana, Laborem exercens, Inter Munera Academiaraum de João Paulo II).




Comentário de Santo Tomás de Aquino à Primeira Carta aos Coríntios

Capítulo 14
Texto sobre o dom de línguas.

Primazia do dom da Profecia sobre o dom de línguas.

1.    Buscai a caridade; mas também desejai com emulação os dons espirituais, especialmente a profecia.2. Pois o que fala em línguas não fala aos homens senão à Deus. Em efeito, nada ele entende: diz verbalmente coisas misteriosas.3. Pelo contrário, o que profetiza fala aos homens para sua edificação, exortação e consolação.4. O que fala em línguas, edifica-se a si mesmo; o que profetiza, edifica toda a assembléia.

Uma vez afirmada a excelência da caridade à respeito dos demais dons, logicamente compara agora o Apóstolo os demais dons entre si, e mostra a excelência da profecia sobre o dom das línguas. E para isto faz duas coisas. Primeiro mostra a excelência da profecia sobre o dom das línguas, e logo como se deve usar tanto do dom das línguas como o da profecia.

Primeiramente, faz duas coisas. Faz ver que o dom da profecia é mais excelente que o dom das línguas, em primeiro lugar por razões relativas aos infiéis, e em segundo por razões da parte dos fiéis.

A primeira parte se divide por sua vez em duas. Primeiro mostra como o dom da profecia é mais excelente que o dom das línguas pelo uso daquele nas exortações ou ensinamentos; em segundo termo, pelo que vê do uso das línguas, que é para orar. Com efeito, para estas duas coisas é o uso das línguas: Por isso aquele que fala em línguas peça para poder interpretar (14,13). Enquanto ao primeiro, ainda duas coisas. Desde logo antepõe uma, pela qual se assegura o que segue; e ela é isto: Dito está que a caridade excede a todos os dons. Logo se isto é assim, buscai, isto é, esforçadamente, a caridade, que é o doce e proveitoso vínculo dos espíritos. Ante todas as coisas a caridade, etc. (1P 4,7). Sobre todas as coisas tenham caridade (Cl. 3,14).
...

Mas como nas coisas espirituais existem certos graus, porque a profecia excede o dom de línguas, se disse: especialmente a profecia, como se dissera: entre os dons espirituais desejai com maior emulação o dom da profecia. Não extingais o Espirito; não desprezeis a profecia (1Filem 5,19-20).

Mas para a explicação de todo o capítulo devem-se ter desde agora em conta três coisas, a saber: o que é profecia, de quantos modos se designa a profecia na Sagrada Escritura, e o que é falar em línguas.

Acerca do primeiro se deve saber que profeta é algo assim como o que vê ao longe, e em segundo lugar alguns o entendem como falar prognósticos, mas todavia melhor se toma por guia, farol, que é o mesmo que ver.

...
É, pois, a profecia a visão ou manifestação de futuros incertos ou do que excede a inteligência humana. Mas para tal visão se requerem quatro coisas.
Com efeito, como nosso conhecimento é mediante as coisas corporais e por espectros ou imagens tomadas das coisas sensíveis, primeiramente se necessita que na imaginação se formem semelhanças corporais das coisas que se mostram, como ensina Dionísio, pelo qual é impossível que nos ilumine a luz divina se não seja mediante a diversidade das coisas sagradas envoltas em véus.
O que em segundo lugar se necessita é uma luz intelectual que ilumine o entendimento sobre coisas que se devem conhecer acima de nossa natural cognição.

Com efeito, como a luz intelectual não se dá senão sobre as semelhanças sensíveis formadas na imaginação para serem entendidas, aquele a quem tais semelhanças se mostram não pode ser chamado profeta, mas senão um sonhador, como o Faraó, que embora viu espigas e vacas, as quais indicavam certos fatos futuros, como não entendeu o que viu, não se chama profeta, senão que o é, aquele José, que fez a interpretação. E o mesmo há que dizer de Nabucodonosor, que viu a estátua, mas não entendeu. Pelo qual tampouco ele foi chamado profeta, senão a Daniel. Pelo qual se disse em Daniel 10,1: Lhe foi dada na visão sua inteligência.

O que em terceiro lugar se necessita é ousadia para anunciar o revelado. Pois para isto fez Deus suas revelações: para que sejam manifestadas aos demais. Eis, eu ponho minhas palavras na tua boca (Jr. 1.9).

O quarto são os milagres, que são para a certeza da profecia. Pois se não fizerem alguns, que excedam as forças naturais, não crerão naquilo que está por cima da cognição natural.

Pelo que aponta ao segundo, os modos da profecia, sabemos que existem diversos modos de ser profeta. 
Com efeito, às vezes se diz que alguém é profeta porque tem estas quatro coisas, a saber: que vê visões imaginárias, e têm a compreensão delas, e ousadamente as manifiesta aos demais e também faz milagres, e de um como está dito em Numeros 12,6: Se existe entre vós um profeta, etc.

Chama-se também às vezes profeta o que só tem as visões imaginárias, mas impropriamente e muito de longe.

Também se diz às vezes profeta ao que tem a luz intelectual para explicar também as visões imaginárias, ou feitas a ele mesmo, ou a outros; ou para expor os ditos dos profetas ou as Escrituras dos Apóstolos.
...

Mas o que aqui diz o Apóstolo em todo o capítulo sobre os profetas deve-se entender do segundo modo, isto é, do que se diz que profetiza aquele que explica em virtude da luz divina intelectual as visões recebidas por ele mesmo ou por outros. É claro que aqui se trata desta classe de profetas.

Quanto ao dom de línguas devemos saber que como na Igreja primitiva eram poucos os consagrados para pregar pelo mundo a fé de Cristo, a fim de que mais facilmente e a muitos anunciassem a palavra de Deus, o Senhor deu-lhes o dom de línguas, para que a todos ensinassem, não de modo que falando uma só língua fossem entendidos por todos, como alguns dizem, mas sim, bem literalmente, de maneira que nas línguas dos diversos povos falassem as de todos. Pelo qual disse o Apóstolo: Dou graças a Deus porque falo as línguas de todos vós (1Cor 14,18). E em Atos 2,4, se disse: Falavam em várias línguas, etc. E na Igreja primitiva muitos alcançaram de Deus este dom.

Mas os corintios, que eram de indiscreta curiosidade, preferiam esse dom que o da profecia. E aqui por falar em língua, o Apóstolo entende que em língua desconhecida e não explicada: como se alguém falasse em língua teutônica a um galês, sem explicá-la, esse tal fala em língua. E também é falar em língua o falar de visões somente, sem explicá-las...

Visto estas coisas, dediquemo-nos à exposição da carta, que é clara. E para isto faz o Apóstolo duas coisas. Primeramente prova que o dom de profecia é mais excelente que o dom de línguas; e em segundo lugar rechaça qualquer objeção: Volo autem vos…: Desejo que faleis todos em línguas; prefiro, contudo, que profezeis (1Cor 14,5). Que o dom de profecia exceda o dom de línguas o prova com duas razões, das quais toma a primeira da comparação de Deus com a Igreja; e a segunda razão se toma da comparação dos homens com a Igreja.

primeira razão é a seguinte: Aquilo pelo qual faz o homem as coisas que não são unicamente em honra de Deus, mas também para utilidade dos próximos é melhor que aquilo que se faz tão unicamente em honra de Deus. É assim que a profecia é não unicamente em honra de Deus, mas também para a utilidade do próximo, e pelo dom de línguas se faz unicamente o que é em honra de Deus. Logo etc.

Averigua esta razão, e primeiramente enquanto a sua primeira parte, para o qual disse: O que fala em línguas edifica-se a si mesmo (1Cor 14,4). (Dentro de mim meu coração me ardia, Sl. 38,4). Em segundo lugar enquanto a sua segunda parte, para o qual disse: Mas o que profetiza edifica, instruindo, a Igreja, isto é, aos fiéis. Edificados sobre o fundamento dos Apóstolos e dos Profetas (Ef. 2,20).

Como se dissera: não menosprezo o dom de línguas como se dele caressese, pois eu também o tenho, pelo qual disse: graças dou a Deus. E para que não se creia que todos falavam uma só língua, disse: porque falo todas as línguas de vós (Falavam os Apóstolos em várias línguas, Atos 2,6). 
...

Assim é que está escrito que em línguas estranhas, isto é, em diversos gêneros de línguas, e por lábios estrangeiros, ou seja, em diversos idiomas e modos de pronunciar, falarão a este povo, ao dizer, aos judeus, porque este sinal se deu especialmente para a conversão do povo judeu: Nem assim escutaram, porque com sinais manifestos não creram. Endureceu o coração deste povo, etc. (Is 6,10).

... não obstante que o dom de línguas se ordena para a conversão dos infiéis...

Disse, pois, primeiramente que o modo de usar do dom de línguas deve ser de tal maneira entre vós, que se fala em línguas, ou seja, sobre visões, ou sonhos, tal discurso não se faça por muitos, de modo que o emprego do tempo nas línguas não deixe lugar aos profetas, e se gere a confusão. Senão que falem dois, e se for necessário três, de modo que seja suficiente com três. Por declaração de dois ou três (Dt 17,6). E é de notar-se que este costume é conservado até agora na Igreja. Porque lições, e epístolas e evangelhos temos no lugar das línguas, e por isso na Missa falam dois, pois só por dois se dizem as coisas que pertencem ao dom de línguas, isto é, epístola e evangelho. (nota: São Tomás fala dos mistérios da Palavra de Deus interpretado corretamente pela Igreja)

...ensina quando não se deve usar das línguas dizendo que se deve falar por partes e que haja um que interprete. Porque se não há quem interprete, que quem tiver o dom de línguas guarde silêncio na assembléia, isto é, que não fale nem anuncie as pessoas na língua desconhecida (nota: sendo língua desconhecida sonhos, visões ou qualquer outra coisa sem entendimento) ... 

Assim é que não vale o pretexto de que te impulsiona o Espírito sem que possa calar.

Contudo, como, todavia poderia objetar-se que aquilo não ocorreria porque somente aos Coríntios mandava o Apóstolo estas coisas e não às demais Igrejas, pelo que até como algo molesto poderia ser considerado, agrega que isto ensina não somente a eles senão também em todas as Igrejas; e com efeito disse: Como ensino em todas as Igrejas dos Santos sobre o uso das línguas e da profecia. Já disse acima: Que tenhais todos um mesmo sentir (1Cor 1,10).

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