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Transcrição em partes da aula: Educação Clássica Católica: orientações gerais ministrada pela professora Ana Paula Barros em 22 junho de 2024. Aula disponível na íntegra aqui com link para o mapa mental na descrição da aula (sugerimos fortemente a escuta da aula na íntegra).


Gostaria de abordar um novo tópico relacionado à Educação Clássica Católica, fornecendo algumas orientações essenciais tanto para a aplicação prática quanto, principalmente, para o processo de autoeducação. Percebo que há uma grande confusão a respeito da Educação Clássica Católica e do que entendemos por catequese.


Para iniciar, acredito ser fundamental apresentar alguns pilares da Educação Clássica Católica. Mencionarei aqui alguns deles de forma alusiva, sem um aprofundamento inicial ou detalhado de cada um. Isso poderá ser feito tanto nas aulas presenciais quanto no Educa-te. No entanto, considero importante mencioná-los para fornecer uma orientação clara e tentar, de alguma forma, esclarecer as mentes em relação a esse tópico.

Os pilares são: piedade, maravilhamento, exercício físico, memória, leitura, ensino e aprendizado, virtude. Estes são alguns dos pilares da Educação Clássica Católica.


Vale ressaltar que o primeiro pilar é a piedade, razão pela qual, por exemplo, neste mesmo podcast, no site, e até mesmo nos primeiros módulos do Educa-te, você encontrará uma vasta gama de conteúdos relacionados à vida espiritual. Posteriormente, aprofundar-me-ei um pouco mais nessa temática, abordando o plano de leitura bíblica, o plano de vida espiritual, o cronograma de quaresma, o plano de Natal e a organização das festividades natalinas, além dos exercícios espirituais que são de extrema importância. 

Vocês compreendem, a princípio, que a catequese já faz parte integrante da Educação Clássica Católica. Está situada no território que eu denomino, e que organizei inclusive no site e nos materiais do podcast, como: Preceptora.

A preceptora é aquela primeira professora que não se confunde com uma professora de jardim de infância ou pré-escola. Essa professora tinha a responsabilidade de educar as crianças e adolescentes em casa, ensinando não somente as noções iniciais de letras, mas, sobretudo, a moral. Na instrução aos principiantes, Hugo de São Vítor afirma que uma das primeiras coisas importantes é a aquisição da disciplina, alcançada pela moderação do comportamento e pela prática da piedade.


Todos os materiais para formação humana e espiritual no livro Físico completo: Cultivo - plano de vida Espiritual (aqui)

Páginas: 181


A piedade não é um pilar insignificante e talvez seja o que mais diferencia a Educação Clássica Católica da educação meramente clássica ou convencional. Na educação clássica, mesmo sem ser católica, esse pilar já existia e era necessário. Esse respeito ao sagrado é essencial para iniciar o processo educacional. Contudo, com o tempo, foi esquecido, e esse pilar tem passado despercebido numa imitação constante e irrefletida dos mundanos, que afirmam que a piedade não pertence ao território da educação. Afirmam [inclusive padres] que quando alguém cita um versículo ou fala sobre o Espírito Santo, está dando, absolutamente e sem discussão, catequese. Esse pensamento precisa ser erradicado, pois, se persiste, torna-se muito difícil concluir o processo educacional.

Portanto, há esse pilar, que eu enriqueci sem oferecer muitas explicações. Como vocês sabem, o Salus existe há mais de 10 anos, desde 2012, quando a situação era como era. O que a maioria de nós faz? Continuamos a agir sem explicar muito, porque naquele momento não julgávamos importante esclarecer a metodologia. O pilar da piedade era o mais defasado; não adiantava falar sobre o maravilhamento ou a memória se o pilar da piedade não estava bem fundamentado.


O Pilar da Leitura: é crucial que se tenha uma bagagem literária do Ocidente, que se fundamenta essencialmente nas Sagradas Escrituras. Portanto, ler a Bíblia é um benefício religioso, moral, intelectual e de enriquecimento do seu acervo de memória e do seu universo interior, essenciais para compreender muitas das obras clássicas e outras manifestações artísticas e literárias. Isso porque, ao ler a Bíblia, você consegue identificar quem são os personagens, suas histórias, qual a sua intenção do escritor e as camadas de significado ao citar ou mencionar determinados personagens bíblicos.

Isso é extremamente importante. Por que digo que é uma das coisas mais importantes e que tem sido solenemente negligenciada, especialmente pelos jovens que têm paixão por ensaios e tratados filosóficos, mas não conseguem fazer conexões simples entre personagens bíblicos e personagens de obras como "Moby Dick"? Isso é um sinal de deficiência e deformação educacional. Por isso, se você tem essa dificuldade, pergunto: quantas histórias bíblicas você conhece? Você já fez um estudo bíblico? Quanto de boa literatura você já leu? De verdade, o que você leu de autores e autoras? Você consegue fazer a ligação entre o que leu, as Sagradas Escrituras e os ensinamentos da catequese? Precisa conseguir.

Se você tem muita dificuldade nisso, o Educa-te oferece um caminho detalhado para que você possa trilhar e superar essa deficiência. Esforce-se para adquirir essa habilidade. E, realmente, provavelmente levará de dois a três anos para conseguir criar essa bagagem e interligar esses conhecimentos. Não adianta apenas ler; é preciso interligar com as Sagradas Escrituras e com a doutrina da Igreja. Não é uma questão de ler dois ou três livrinhos em um ano; é necessário ter uma bagagem significativa.

Por que isso é importante? Porque ao fazer isso, você enriquecerá o Pilar da Piedade, o Pilar da Memória e o Pilar da Leitura.


Bom, por onde começar? Essa é a pergunta que a maioria de vocês faz.

Primeiro, comece com aquilo que tem em casa. Isso é fundamental: utilize os recursos que você já possui. Ah, você não tem nada em casa? Faça como eu fiz aos 13 anos de idade: vá até uma biblioteca. Foi o que eu fiz, sozinha. Faça uma carteirinha da biblioteca. É fantástico! E então explore as sessões de literatura estrangeira e brasileira, onde você encontrará, em grande parte, obras de autores clássicos. Ou leia o que já possui em casa, e a partir daí, inicie esse enriquecimento.

Ah, você não tem acesso a esses livros? Talvez você tenha em casa um livro chamado Bíblia. Então comece por ele. Acesse o site, baixe o cronograma de leitura bíblica gratuitamente, juntamente com os comentários, que também estão disponíveis gratuitamente. Você começará a enriquecer sua base de piedade, leitura e memória, e depois poderá ampliar com outras leituras. Simples assim. Isso é Educação Clássica Católica

Ah, mas isso não é catequese? Também é, mas principalmente é um enriquecimento da Educação Clássica Católica, iniciando com três a quatro anos de aquisição de bagagem cultural e literária. Sem preguiça, sem menosprezar a importância disso, sem achar que ler um ensaio é melhor do que ler literatura ou fazer um estudo bíblico. É inadmissível que um cristão não tenha lido a Bíblia completa. Deixo claro que o cronograma no site abrange todos os livros bíblicos da Bíblia católica, com comentários dos doutores da Igreja. É inadmissível que alguém com pretensões de vida intelectual não tenha se dedicado a isso. Esse conhecimento é essencial e previne erros comuns entre aqueles que consomem apenas tratados de filosofia, teologia e ensaios. Esses livros são importantes, mas sem essa bagagem inicial, o conhecimento fica solto, desvinculado das demais formas que compõem a cultura literária, e pode gerar uma percepção deficiente.

Já falei sobre isso em vários podcasts anteriores e em outras instâncias: temos a formação humana, intelectual e doutrinal. A formação humana é enriquecida com essa bagagem cultural e literária, adquirida através da leitura de personagens e histórias... as ações e reações e onde determinada coisa ocorre. Consegue identificar sinais de como é uma modulação, uma moderação de temperamento, o que é um desequilíbrio de temperamento, um vício, uma virtude, uma atitude sábia, uma atitude tola. Tudo isso está condensado nos personagens.

Isso é apenas para crianças? Ou para adolescentes? Não, jovens adultos e adultos cultos, é para vocês também. Vocês precisam suprir essa bagagem, e muitas vezes enterram-se em ensaios e compêndios, deixando de lado essa parte essencial do alicerce, construindo a casa na areia e achando-se muito sábios. Tome cuidado. Preste atenção.


Os mitos também são extremamente valiosos nesse processo e podem ser gradativamente interligados na sua teia de conhecimento com os contos e, posteriormente, com as obras de ficção que você for acrescentando à sua bagagem. A forma como você lê também é importante. Você pode marcar nos livros as partes que mais chamam sua atenção, fazer um sistema de fichamento das citações que mais gostou e marcar os livros com tags, desde que também revise essas anotações, citações e marcações de tempos em tempos.

É importante compreender que estamos falando da formação de uma biblioteca interna. Você guardará algumas citações de diversos livros, que se unirão em uma teia de conhecimento e criarão uma melodia interna. As obras de tratados e de ensaios, que costumam ser mais densas e com pouca poesia, ganharão  certa harmonia interna.

Criar uma biblioteca de poemas dentro de si ajuda muito. Para você ter uma ideia, a sabedoria dos grandes autores das Sagradas Escrituras inspirou muitos poetas. Em vários livros bíblicos, até mesmo nos livros proféticos, há poesias e cânticos. Isso não é de pouca importância dentro do ciclo literário. Eles possuem um valor simbólico e várias camadas de interpretação, muitas vezes mais do que um livro extenso. Versar na leitura de poesia é essencial dentro do tópico da leitura, pois tem ligação com a memória, maravilhamento e vários outros pilares.

Preste atenção: é necessário fazer esse processo e entender que, provavelmente, a ficção será mais fácil, os contos serão mais fáceis, os mitos começam a ficar um pouco mais difíceis, e a poesia será realmente um pouco mais desafiadora, dependendo da bagagem que a pessoa tem e do que está lendo. Pode ser que uma obra clássica, como a "Ilíada" ou algo de Jorge de Lima, seja mais desafiadora que outra, dependendo do treino de leitura.


Depois, é importante contemplar as obras mais densas, como acabei de mencionar, como a "Ilíada".

A importância da "Ilíada" e da "Odisseia" reside na necessidade de revisitar esses grandes clássicos gregos, mesmo que você se sinta um pouco descontente ou inseguro. É fundamental que você se disponha e se exponha a essas obras o mais cedo possível, assim como à leitura das Sagradas Escrituras. Isso vale também para adolescentes, pois, na educação clássica, esse tipo de exposição ocorre por volta dos 15 anos, e às vezes até antes, aos 13 ou 14 anos, dependendo da bagagem que já possuam. Se você não teve essa oportunidade, há uma defasagem significativa. Talvez isso lhe dê uma noção de quanto isso é importante e faz falta.

Uma das principais razões para abordar esses pontos é que, devido ao grande número de ensaios e publicações excelentes realizados, parece-me que existe uma defasagem tão grande que essas obras [ensaios filosóficos e teológicos] ficam orbitando num espaço interior oco. Isso não acontece com pessoas que possuem uma bagagem literária robusta, que inclui poesia, contos e ficção. Para essas pessoas, os ensaios não ficam orbitando, mas, em outras, pode passar uma falsa imagem de aprendizado e enriquecimento intelectual, quando na verdade não existe. Uma pessoa não se forma com um único tipo de literatura. 


Visite as abas de estudo do site, entre no Educa-te e supra sua defasagem com materiais disponibilizados generosamente. Com esta aula, quero deixar alguns apontamentos e esclarecimentos a respeito do que é a educação clássica católica, alguns pilares que a compõem e os processos necessários, principalmente no que tange à piedade e à leitura, para suprir, de início, pelo menos esses dois pilares.


É perigoso querer pular essas etapas, mesmo já sendo um jovem adulto ou um adulto. Ser uma pessoa que faz uma escolha intencional em relação ao seu caminho é transformador. Sei que existe uma certa dor quando falo sobre a posição que o avanço das redes sociais nos deixou. Tornamo-nos receptores passivos. É muito importante que, ao tomar essa decisão, você deixe de ser um receptor passivo.

Porque, com a facilidade trazida pela modernidade, também houve um aumento do estado de preguiça e ingratidão, tanto interior quanto exterior, para com aqueles que estão ensinando. Isso é inadmissível dentro da Educação Clássica Católica. Há uma ligação intrínseca entre o trabalho intelectual, a postura moral do aluno e do professor. A prontidão, que se opõe à preguiça, e a gratidão são aspectos essenciais que caracterizam uma pessoa que passou por um processo educativo sólido.

Assim, termino aqui estas orientações gerais. Na descrição, você encontrará vários links para contos e para as abas de Educação e Filosofia, Literatura e Arte, onde poderá enriquecer-se com o material que já está disponível gratuitamente. Há também uma aba para acessar o Educa-te e explorar conteúdos mais profundos. Material, método e aulas estão disponíveis.



Resumo em tópicos:


Pilares da Educação Clássica Católica:

  • Piedade
  • Maravilhamento
  • Exercício Físico
  • Memória
  • Leitura
  • Ensino e Aprendizado
  • Virtude


Importância da Piedade:

  • Diferencia a educação clássica católica da educação convencional.
  • Base para vida espiritual e moral.
  • Essencial para entender outros pilares.


Leitura das Sagradas Escrituras:

  • Benefício religioso, moral e intelectual.
  • Enriquecimento do acervo de memória.
  • Importante para compreender obras clássicas e artísticas.


Bagagem Literária e Cultural:

  • Revisitar clássicos como "Ilíada" e "Odisseia".
  • Importância da exposição a obras clássicas desde cedo.
  • Formação de uma biblioteca interna com citações e anotações.


Ficção e Poesia:

  • Leitura de romances clássicos (ingleses, russos, americanos).
  • Contos medievais e de fadas.
  • Poesia como elemento essencial, ligada à memória e maravilhamento.
  • Importância de criar uma biblioteca de poemas internos.


Educação Clássica e Católica:

  • Integração do trabalho intelectual com postura moral.
  • Prontidão e gratidão como valores essenciais.
  • A importância de não ser um receptor passivo.


Materiais Disponíveis:

  • Contos, cronogramas de leitura, resenhas de livros.
  • Aulas e materiais de apoio.
  • Orientações para suprir defasagens literárias e culturais.


Conclusão:

  • Perigo de negligenciar etapas formativas essenciais.
  • Necessidade de fazer escolhas intencionais em direção ao conhecimento.
  • Importância de deixar de ser um receptor passivo e ser ativo no processo educativo.



A visão de Constantino. Bernini, 1670. Vaticano.





Transcrição em partes da aula: Educação do encorajamento na Igreja e na Sociedade ministrada pela professora Ana Paula Barros em 24 de abril de 2024. Aula disponível na íntegra aqui com link para o mapa mental na descrição da aula (sugerimos fortemente a escuta da aula na íntegra).


Introdução

É provável que eu já tenha mencionado anteriormente o padrão de formação nivelada ao qual estamos habituados, uma metodologia de nivelamento que possui diversas origens, dentre as quais uma de natureza revolucionária, que busca homogeneizar a todos. No entanto, é imperativo utilizar a observação e a percepção para constatar que, embora tenha raízes revolucionárias, esta prática mantém as mesmas características mesmo em ambientes que, a princípio, não são revolucionários. Ou seja, este fenômeno ultrapassou o contexto de grupos adeptos de determinadas vertentes filosóficas e políticas, tornando-se uma prática amplamente adotada, muitas vezes sem a devida reflexão.

Este fenômeno é evidente, por exemplo, nas diversas demandas da internet, que induzem as pessoas a se tornarem absolutamente iguais, replicando umas às outras e utilizando o mimetismo não como um meio de educação, mas como uma forma de pertencer.

A análise que hoje proponho, focada na aplicabilidade da Educação do Encorajamento, será dividida em quatro pontos:

  1. Avaliação de talentos;

  2. Como se dá essa avaliação de talentos e competências;

  3. Trabalho como método educacional;

  4. Educação ao longo da vida.

Avaliar talentos tornou-se uma prática comum em algumas obras que analisam a atualidade do mundo em que vivemos, referindo-se a ele como um mundo VUCA (Volatility, Uncertainty, Complexity, Ambiguity). Esse acrônimo em inglês, que para nós, brasileiros, pode soar peculiar, é extremamente relevante. O mundo em que vivemos é volátil, incerto, complexo e ambíguo. É claro que essa visão de mundo também deriva de uma base filosófica desconexa. A filosofia moderna tem se fundamentado mais recentemente em uma espécie de panteísmo ou materialismo, ou ambos. No primeiro caso, Deus se estende a todas as criaturas, seres e objetos, onde todos são um e um são todos, uma visão panteísta presente em algumas correntes filosóficas. Já o materialismo simplesmente nega a transcendência, ou, se esta existe, é uma transcendência que se dirige ao próximo. Portanto, não se transcende mais verticalmente, mas horizontalmente.

É interessante observar que essa transcendência horizontal, que implica transcender-se no próximo, é o discurso atual em algumas linhas teológicas, tanto católicas quanto não católicas. Aqui abro um parêntese para não reduzir a mentalidade revolucionária aos movimentos da teologia da libertação e similares. Este é apenas um aspecto; há outras mentalidades revolucionárias infiltradas na Igreja, que se manifestam de diversas formas em diferentes países.

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Dentre as conexões mais frequentes, trabalhar com outras pessoas é uma prática que fomenta o desenvolvimento de aspectos cruciais, tais como lidar com frustrações e superar o medo de errar. Esse tipo de interação é benéfica para a formação da personalidade. Outro aspecto relevante é a obediência a ordens, que deve ser avaliada com uma bagagem moral adequada para discernir se são justas ou injustas. A história nos mostra que, muitas vezes, ordens injustas foram dadas e seguidas sem questionamento, ressaltando a necessidade de avaliação crítica e de agir conforme a consciência.

Quando se trata de avaliar talentos, existem cinco competências que precisam ser observadas:

  1. Desempenho de tarefas: Observado pela persistência.

  2. Regulação emocional: Avaliada pelo otimismo e resistência ao estresse.

  3. Colaboração: A capacidade de trabalhar com outras pessoas.

  4. Criatividade: Abertura para a criatividade e o maravilhamento, aspectos essenciais no processo educacional.

  5. Sociabilidade: A habilidade de interagir de forma benéfica com outros, fomentando um ambiente de apoio e crescimento mútuo.

Muitas vezes, a expressão de emoção pode incentivar a criatividade. No entanto, no contexto da Educação do Encorajamento que apresento, a ligação está em identificar e exercer o talento pessoal. Criatividade é a capacidade de, de certa forma, imitar o agir criador de Deus. Portanto, é fundamental identificar o próprio talento e, ao longo do tempo, colocá-lo em prática, exercitando essa criatividade. A criatividade pode ou não estar vinculada a atividades artísticas, dependendo do talento individual.

O papel de instrutores, professores, pais, mães, padres e religiosos é justamente auxiliar as pessoas a formarem uma base sólida e instigá-las a descobrir seus próprios talentos. Esse processo pode ser facilitado por uma exposição constante a momentos de maravilhamento, seja pelo incentivo à contemplação, seja pela exposição às artes e formas artísticas.


Sociabilidade


A sociabilidade está intrinsecamente ligada à formação da personalidade. Trabalhar em colaboração com outras pessoas e obedecer ordens, possuindo uma base moral que permita avaliar se essas ordens são justas ou não, são aspectos essenciais no desenvolvimento da personalidade. Contudo, essa habilidade nem sempre se manifesta em grandes grupos. Há quem acredite que, ao inserir alguém em um ambiente social repleto de pessoas, essa pessoa se tornará automaticamente sociável. Todavia, a realidade demonstra que muitas pessoas, mesmo quando cercadas por outras, não se tornam necessariamente sociáveis.

Estar em um ambiente propício ao aproveitamento dos momentos de interação entre as pessoas é fundamental. Isso não implica a necessidade de estar com um grande número de pessoas ou com desconhecidos, mas sim que o processo de interação proporcione oportunidades para seguir ou não padrões, observar ou não uma determinada ordem, lidar ou não com frustrações, ter medo de errar ou coragem de realizar. Essas interações podem ocorrer em grupos muito pequenos. Portanto, a habilidade de interagir beneficamente não deve ser confundida com simplesmente colocar uma pessoa no meio de uma multidão.



Avaliação de Talentos e Competências

Incentivar a descoberta dos próprios talentos é uma coisa; avaliar esses talentos e competências é outra. Tal processo pode ser facilitado através do exame de consciência ou da confissão. Nós, como católicos, estamos habituados a essa prática na vida espiritual, realizando um exame de consciência das nossas faltas. No entanto, no sentido mais clássico do termo, o exame de consciência e a confissão também estão ligados a um aspecto positivo, aquilo que de fato possuímos e somos.

Esse aspecto pode ser utilizado em um contexto educacional e em diversos ciclos sociais, onde o exame de consciência passa a ser empregado como observação da execução ou não de um talento, de uma habilidade em relação ao outro, e até mesmo da graduação de quanto isso está sendo realizado. Por exemplo, é através desse exame das próprias habilidades que a pessoa consegue perceber o quanto está excedendo ao desvalorizar o próprio talento ou não respeitar o seu tempo de maturação. Tudo isso pode ser facilitado com um exame consciente das próprias habilidades. Esse exame pode incluir algumas intervenções e mudanças intencionais para alterar comportamentos, auxiliando tanto em questões de saúde mental quanto na modulação da autoimagem.

Por exemplo, ao realizar um exame de consciência, um adolescente, adulto ou jovem senhor pode observar que algumas habilidades ou talentos foram alterados por intervenções de pais, chefes ou outras pessoas ao longo da vida, e que essas intervenções não representam necessariamente a verdade. Esses exames de consciência são importantes para a avaliação dos talentos e competências, permitindo uma autoimagem mais próxima da realidade.

Lembremo-nos de que a humildade é a verdade; isso significa que achar-se ruim ou desprovido de talentos não é sinal de humildade, mas pode ser uma modulação falsa adquirida ao longo da vida. Esse autoexame pode ser aplicado não apenas na relação da pessoa consigo mesma, mas também na relação com os outros. Muitas vezes, o autoexame revela nossa capacidade (ou a falta dela) de ver e valorizar o talento alheio.

A linguagem utilizada é um aspecto crucial que frequentemente não recebe a devida valorização. Modulações que promovam uma comunicação mais harmônica e cordial podem facilitar a manifestação dos próprios talentos, além de ajudar a observar e valorizar os talentos alheios. Uma linguagem harmônica e cordial não implica negligenciar a necessidade de correção ou pontuação; na verdade, essa abordagem estabelece uma ponte entre a avaliação de talentos e competências e a correção necessária.

Essa avaliação pode ser aplicada a qualquer pessoa em processo educacional, incluindo pais, padres, gestores e outros responsáveis pela instrução de indivíduos. Outra questão importante é a responsabilidade, que traz consigo a necessidade de escolher. Não há como ser responsável sem a capacidade de fazer escolhas. Para tomar boas decisões, é preciso ter bases morais sólidas. Essas questões estão intrinsecamente interligadas e não podem ser dissociadas.

Por fim, a santificação de qualquer pessoa passa pelo cumprimento do dever de estado. No caso dos sacerdotes, isso inclui preparar e oferecer boas homilias, ministrar os sacramentos conforme as normas canônicas e estar disponível para os fiéis. Os deveres dos pais e casais são manifestados no voto do matrimônio, incluindo a educação dos filhos na fé católica.

Esses são os deveres de estado. O dever de estado do filho é honrar pai e mãe e obedecer os mandamentos. A santidade passa pelo cumprimento do dever de estado e pela responsabilidade de arcar com esses deveres. Não é como uma pomba que pousa no ombro, sem que a pessoa cumpra suas responsabilidades.

Dei esses exemplos para que vocês possam revisitar e refletir sobre alguns aspectos. Outro ponto importante em relação às mudanças desenvolvidas após o processo de avaliação de talentos e competências, que pode ser autoaplicado ou aplicado a outra pessoa, é incentivar que a pessoa tome uma posição diante de algo errado. A Educação do Encorajamento incentiva a tomada de decisões.

Observe que há uma linha de interligação entre a linguagem harmônica e cordial, a responsabilidade e a tomada de decisões diante de situações equivocadas. Isso pode ocorrer na esfera social, eclesiástica, familiar e entre amigos. É importante incentivar esse aspecto. Uma criança que observa outra sofrer bullying, por exemplo, deve ter a formação moral e a fibra interior para ficar ao lado daquela que está sendo maltratada. Isso é criar um verdadeiro senso de justiça, de dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César.

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Diante de erros eclesiásticos, é imperativo questionar se possuímos uma dinâmica interna que encoraja as pessoas a se posicionarem contra tais equívocos, mesmo quando estão ligados a questões clericais sérias. Ou será que estamos presos em uma dinâmica de acobertar erros sob o pretexto de piedade? É fundamental refletir sobre a real eficácia dessa abordagem. Agindo dessa forma entre cristãos, podemos realmente ter esperanças sociais de cristianização? Será que isso representa justiça? Se não fazemos justiça entre nós, como poderemos promovê-la na sociedade?

Vivemos sob uma ditadura do silêncio, onde se promove a omissão diante do erro. Se essa é a realidade, esperar ações sociais cristãs verdadeiras não seria um engodo, uma falsificação do cristianismo?

Essas questões evidenciam que, muitas vezes, é mais fácil incentivar uma educação nivelada do que promover uma Educação do Encorajamento verdadeiramente cristã.


Trabalho como Método Educacional

A relação entre o trabalho e a inteligência é sintetizada por uma frase conhecida em meios científicos: quanto mais inteligente a pessoa, mais competências cognitivas ela possui. Tal indivíduo tem a capacidade de se conectar com as pessoas e de reconhecer realidades, uma aptidão também referida como inteligência, relacionada à vida intelectual.

O estudo não deve ser visto como um fim em si mesmo, mas como um instrumento para enxergar a realidade com maior clareza. Ele promove a racionalidade sem eliminar a empatia e a amabilidade, que devem ser exercidas de forma controlada para gerar edificação e encorajamento. O trabalho, por sua vez, é uma excelente ponte para esses aspectos.

Projetos constituem uma das melhores formas de desenvolver talentos. Muitas vezes, pessoas inteligentes são capazes de detectar diversas formas e realidades, possuindo múltiplos talentos e habilidades, nem sempre na mesma área, independentemente de serem crianças, adultos, jovens ou idosos. Projetos de trabalho, desencadeados conforme o interesse e a motivação, tornam-se pontes para aplicar talentos e inteligência alimentados pelo estudo e reflexão.

Esses projetos facilitam o autoconhecimento e a compreensão das próprias habilidades, fomentando uma mentalidade de crescimento e aperfeiçoamento. Este é um dos motivos pelos quais, ao visitar o site Salus, é possível encontrar uma série de projetos como leitura bíblica, cronograma da Quaresma, Advento, plano de vida espiritual, entre outros. Eles incentivam a mentalidade de crescimento e aperfeiçoamento, facilitando o entendimento do que é virtude.

Especialmente quando falamos das virtudes morais, que crescem conforme o nosso esforço. Muitas vezes, tem-se a ideia de que a virtude é como uma luz que surge de repente e torna a pessoa virtuosa, mas não é assim que funciona. Embora Deus possa fazer isso, tanto no caso da pombinha no ombro do padre quanto no caso da luz, não é assim que Ele geralmente procede.

Portanto, essa mentalidade de crescimento é extremamente importante, tanto no aspecto educacional eclesiástico quanto no aspecto educacional geral. Se o objetivo é ensinar, é interessante inserir, no meio ou no final, um projeto para que a pessoa possa transbordar seu talento e aquilo que adquiriu e captou pela inteligência durante o aprendizado.

Na execução de projetos, sejam eles autoexecutáveis, como aqueles disponíveis no site, ou realizados com um grupo ou com alguém que tenha sido confiado à educação, podem surgir algumas questões que merecem atenção. A primeira é a assimilação de práticas que, muitas vezes, são vistas como normais, mas que, na realidade, não são. Na esfera eclesiástica, é importante observar que pode haver um desaproveitamento dos talentos locais. De modo geral, a maioria das dinâmicas de grupos, institutos, paróquias e dioceses não aproveita os talentos locais. Não há sequer interesse em conhecê-los ou saber do que são capazes.

Essa mentalidade, que já existe há muito tempo na Igreja, se alicerça na ideia de que o povo é ignorante. Muitos padres, inclusive, sustentam essa ideia, embora com outras palavras e expressões.

Muitas vezes, essa crença dificulta a execução de uma Educação do Encorajamento, pois é necessário acreditar que a pessoa possui talento e dar-lhe uma chance. Alguns podem pensar que, enquanto afirmo a necessidade de aulas, os talentos não devem ser aproveitados. Na verdade, devem sim ser aproveitados, mas também lapidados e aperfeiçoados. Por isso, falei da mentalidade de crescimento e aperfeiçoamento.

É fundamental valorizar os talentos locais, ao mesmo tempo que se proporcionam oportunidades de crescimento. Isso se aplica a diversas instâncias e ciclos sociais, que enfrentam a mesma dificuldade. Em vez de buscar dentro do próprio ciclo, frequentemente se procura fora, contratando externamente, inclusive na gestão da igreja. Em muitas dioceses, muitos dos que trabalham nas cúrias diocesanas nem são paroquianos assíduos, mas foram contratados.

Frequentemente, não há uma atenção adequada para a realidade paroquial ou diocesana. Quantas vezes você já viu, nas paróquias, vagas disponíveis na diocese para contratação? Talvez algumas pessoas da paróquia tenham capacidade para enviar seus currículos e se candidatar às vagas, mas isso nem é cogitado. Estamos tão absorvidos pelo desencorajamento que essa possibilidade nem nos ocorre.

Outro ponto que pode surgir na execução de projetos, sejam eles eclesiásticos, escolares ou em outros contextos, é a necessidade de estabelecer um ambiente favorável. Mais especificamente, é crucial que em qualquer processo educacional o ambiente seja propício e consiga combater algo que crianças ou adolescentes possam desenvolver: a impotência aprendida. Na igreja, isso é muito comum. As pessoas aprenderam que são impotentes, que não têm motivo para lutar por nada, o que gera apatia e uma sensação de desesperança. Muitas pessoas reclamam de quem faz denúncias na internet, mas não param para refletir por que isso acontece. A resposta é que, muitas vezes, elas buscam uma resposta no tribunal eclesiástico, que, embora existente e funcional, não oferece a resposta esperada. Com isso acontecendo reiteradamente, elas aprendem que são impotentes e que muitos discursos sobre escuta são enganosos.

Essas pessoas acabam buscando justiça em outros lugares, o que faz parte da educação cristã. É difícil um cristão não ter algum senso de justiça. Será que podemos culpá-los? Não parece justo, já que não receberam nenhum respaldo. Questões sociais dentro da igreja não surgem do nada; não são apenas rebeldias sem causa. Há fundamentos para essa situação.

Outro ponto a ser considerado é o sequestro da amígdala. A amígdala, uma região do cérebro (não a amígdala da garganta), está ligada a reações emocionais e gerencia o estresse. Quando uma pessoa é exposta reiteradamente ao estresse, como bullying na escola, maus-tratos ou abusos verbais de superiores, ela não só aprende a impotência, mas também começa a ter reações emocionais descontroladas devido ao sequestro da amígdala. Isso afeta a capacidade de gerenciar emoções, levando a explosões emocionais diante das mesmas situações de estresse.

No português, dizemos que a pessoa "explodiu do nada". Na verdade, isso não é do nada; pode ser resultado de uma carga de estresse prolongada e humilhação constante, levando a uma explosão emocional após um longo período de trauma.

Há um estudo comportamental realizado com dois grupos. Um grupo estava exposto a um barulho repetitivo e extremamente exaustivo, que parava quando faziam algo, como mexer uma alavanca. No outro grupo, independentemente do que faziam, o barulho continuava. O grupo que sempre obtinha uma resposta continuava buscando soluções para parar o barulho, aprendendo a não desistir. Já o grupo que não conseguia parar o barulho, independentemente de suas ações, eventualmente desistia de tentar, sabendo que o barulho não pararia.

Depois de algum tempo, os participantes foram colocados em outra situação, sem relação com o barulho. Aqueles que aprenderam que suas ações tinham impacto estavam prontos para resolver a nova situação. Enquanto os que aprenderam a impotência, por não terem controle sobre o barulho, não fizeram nada. Eles aprenderam que não adianta agir, e essa impotência se estendeu a todas as áreas de suas vidas.

Baseando-se nesse estudo, podemos refletir sobre o que está sendo incentivado em nós e nas pessoas ao nosso redor: encorajamento ou impotência aprendida? Quando a base educacional é a impotência aprendida, a autoridade é de fato autoridade?


Educação ao Longo da Vida

A educação ao longo da vida é imprescindível para ensinar a perspectiva da vida intelectual. Ensinar a vida intelectual não é algo facilmente exequível, pois se trata de um chamado específico. Antes disso, é necessário estabelecer um aspecto educacional contínuo ao longo da vida, com a percepção de autoeducação e autolapidação.

A educação não termina com a escola ou faculdade; é um processo contínuo. O traço de ser dedicado é tão importante quanto o de ser inteligente. Muitas pessoas inteligentes não enxergam o processo educacional como contínuo, o que resulta na falta de dedicação.

Para aprender, é preciso ter modelos. Sem encorajamento, atenção e responsabilidade, fornecer modelos torna-se ineficaz. A importância de fornecer alicerces é crucial para que as pessoas retenham e reproduzam o que aprendem. Por exemplo, apresentar vidas de santos como modelos não surte efeito se não houver uma base sólida. Sem essas bases, a aprendizagem não completa a reprodução necessária.

No contexto eclesiástico, a reprodução da vida dos santos não ocorre devido à falta de aprendizado da doutrina e das bases humanas da educação cristã. Aprender implica mudança de conduta, ligada ao estado mental e interior da pessoa, e requer um olhar atento e cuidadoso.


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Mapa Mental da Aula: https://drive.google.com/file/d/1auLt...

Referência para citação: BARROS, Ana Paula. Educação do encorajamento na Igreja e na Sociedade. Transcrição da aula ministrada em 24 de abril de 2024. Aula disponível na íntegra aqui.


Referências:


ALBUQUERQUE, Fabíola da Silva; SILVA, Regina Helena. A amígdala e a tênue fronteira entre memória e emoção. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, v. 31, n. 3, supl., 2009. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/rprs/a/7x9NJbSS9Gz4KfyLgR4VjGK/>. 

BASTOS, Fernando. Deveres - Dez Minutos de Cultura Espiritual por Dia. São Paulo: Editora Cultural, 2022. Disponível em: <https://amzn.to/4daHeQ8>. 

GILBERT, Anthony. Podres de Mimados - As consequências do sentimentalismo tóxico. Rio de Janeiro: Editora Realidade, 2020. Disponível em: <https://amzn.to/49KuoFr>. 

NOGUEIRA, José. Direitos máximos, deveres mínimos: O festival de privilégios que assola o Brasil. Brasília: Editora Nacional, 2021. Disponível em: <https://amzn.to/4aVXDGq>. 

PIO XII. Mediator Dei, 20 de novembro de 1947. Disponível em: <https://www.vatican.va/content/pius-xii/it/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_20111947_mediator-dei.html>.

PIO XII. Mensagem ao IV Congresso Interamericano de Educação Católica, 5 de agosto de 1951. Disponível em: <https://www.vatican.va/content/pius-xii/it/speeches/1951/documents/hf_p-xii_spe_19510805_congresso-educazione-catolica.html>. 

REESE, William L. História da Filosofia. São Paulo: Editora Filosófica, 2018. Disponível em: <https://amzn.to/4daHMG2>. 

SILVA, João Carlos. A Selva - Virtudes e Deveres do Sacerdote. Rio de Janeiro: Editora Sacra, 2020. Disponível em: <https://amzn.to/4b7WLyj>. 

WEAVER, Richard M. As Ideias Têm Consequências. São Paulo: Editora Pensamento, 2019. Disponível em: <https://amzn.to/3Ut7Ogk>. 








"The First Thanksgiving”. Jean Leon Gerome Ferris, 1915.




"Em um mundo como o nosso, faríamos bem se voltássemos à simples gratidão pelas coisas que tornam uma vida familiar possível. Sou grata pelas coisas que ainda temos, apesar da bomba atômica. A terrível engenhosidade do homem pode nos exterminar nos tempos vindouros, mas agora, no dia de Ação de Graças, ainda temos o sol de novembro, o azul claro e profundo do céu, a glória branca das estrelas, a bondade amorosa dos amigos, assim como nossos antepassados tiveram. Se ao menos pudermos preservar as coisas reais – o amor do homem e da mulher, a paz de uma noite à beira do fogo, a doçura da música e o som das vozes das crianças – não teremos que ouvir o som do mundo se desintegrando. No caos. "
— Gladys Taber, O Livro de Stillmeadow




História do Dia de Ação de Graças


"Embora a data do primeiro Dia de Ação de Graças não seja clara, os historiadores observam que, quando os exploradores católicos espanhóis desembarcaram no Novo Mundo, cada um celebrou uma festa com os nativos americanos locais agradecendo por esta nova terra. A primeira data remonta a maio de 1541, quando Juan de Padilla realizou um culto de Ação de Graças em Canyon, Texas. A segunda celebração festiva aconteceu em 1565, quando o almirante espanhol Don Pedro Menéndez de Avilés beijou uma cruz segurada pelo padre Francisco Lopez e reivindicou a Flórida para Deus. A terceira celebração de ação de graças espanhola aconteceu em El Paso, Texas, em 1598, quando os soldados e nativos locais festejaram e assistiram padres franciscanos num teatro para os locais visando mostrar a Fé Católica.

Os historiadores observam que um nativo americano chamado Squanto. Que além de ser católico, ensinou os peregrinos a cultivarem sua nova terra, e supostamente, participou do primeiro evento de Ação de Graças." (Alexandra Greeley em  A Catholic Perspective on Thanksgiving).

No Brasil, o então presidente Gaspar Dutra instituiu o Dia Nacional de Ação de Graças, através da lei 781, de 17 de agosto de 1949, por sugestão do embaixador Joaquim Nabuco, entusiasmado com as comemorações que vira em 1909, na Catedral de São Patrício, quando embaixador em Washington. Em 1966, a lei 5110 estabeleceu que a comemoração se daria na quarta quinta-feira de novembro.



Que este estudo da Escritura cultive em nós uma gratidão que canta: "tudo isso, e Cristo também?" e abençoe o seu tempo.  


 Orientações Gerais:

Faça anotações à mão.
Leia o material antes e depois de fazer as anotações.
Revise suas anotações.
Utilize um caderno específico para esse propósito e reutilize-o a cada ano.




"Você pensaria que o ano também estava descansando, seu trabalho concluído. E sussurrei para mim mesmo que também começaria a descansar." — C.S. Lewis, Até Que Tenhamos Rostos.




Diariamente eu te louvarei
áudio de orientação no telegram salus (aqui)


Dia 1
"Entrai pelas suas portas com ação de graças"


Salmo 100; Hebreus 13,15; Colossenses 4, 2



Dia 2
"Cantai ao Senhor com ação de graças"

Salmos 147; Jeremias 31



Dia 3
"Vamos à sua presença com ação de graças"


Salmos 95; Colossenses 3,16; Efésios 5,19-20



Dia 4
"Darei graças ao Senhor de todo o meu coração"


Salmo 9; Jeremias 17,8; Colossenses 2, 6-7


Dia 5
"Seu louvor estará continuamente em minha boca"

Salmo 34; Efésios 5, 4; Tiago 3, 4-8


Dia 6
"Dou graças ao teu nome"


Salmo 138; Colossenses 3,15; Romanos 5,1-5; João 14,27


Dia 7
"Louvor convém aos retos"


Salmo 33; Colossenses 3,17; Jó 38; Apocalipse 4,11


Dia 8
"Grandes são as obras do Senhor"


Salmos 111; Efésios 1; Tiago 1,17


Dia 9
"É bom dar graças ao Senhor"


Salmo 92; Filipenses 4,4-7; 1 Tessalonicenses 5, 16-18



Dia de Ação de Graças
"Que os povos te louvem"


Salmo 67; Salmo 65; Apocalipse 7, 9-12; Colossenses 3,15-17; Romanos 11, 36



Tradução e Introdução: Ana Paula Barros
Autora do Plano: Kaetlyn Anne
Revisor: Jarbas









São Miguel e Inês pelo pintor holandês Colijn de Coter (1440-1532) - Museu e Galeria da Universidade Bob Jones em Greenville (Carolina do Sul, EUA)





Introdução 

A Doutrina Social da Igreja refere-se ao ensino católico sobre a conduta moral, oferecendo uma base sólida para a reflexão sobre questões sociais, políticas e econômicas. Este corpo de ensinamentos promove a reflexão, o encorajamento e a vigilância atenta das condutas católicas no meio social, utilizando-as como ferramentas de evangelização e aplicabilidade da sabedoria cristã em diversos contextos sociais.

Não se trata de uma disciplina nova, nem de um fruto recente do cristianismo. As orientações da Doutrina Social da Igreja estão presentes ao longo da história da Igreja, expressas nas cartas de São Pedro e São Paulo, nas orientações sobre como proceder socialmente, nos textos da patrística, nas ações católicas da Idade Média e, mais recentemente, nas orientações sobre os sistemas políticos modernos, como o capitalismo e o comunismo. Esta disciplina também favorece a reflexão e a manutenção do estado de vigilância cristã na observação e julgamento político-social, diferenciando adequadamente formas de governo como monarquia e totalitarismo, democracia e demagogia (mais sobre o assunto aqui: Educa-te | Paideia Cristã).

Trata-se, portanto, de uma matéria alimentada pelo ensino da Moral Católica e sua aplicabilidade prática. Quando ensinada corretamente, esta disciplina eleva o estado da alma, apelando para as capacidades morais e o anseio espiritual das pessoas. Se aplicada corretamente, torna-se uma forma eficaz de gerar uma diferença clara entre as ações dos cristãos e dos não cristãos, como afirmo no capítulo Sobre a Moralidade no livro Modéstia (2018).


A Situação Atual

No Brasil, houve um período de mais de 70 anos sem projetos católicos laicais, ou seja, empresas e colégios baseados em princípios católicos, com funcionários e público majoritariamente católicos. É natural, portanto, que por algum tempo se repliquem as condutas do meio secular ou da realidade paroquial. Por exemplo, é comum encontrar negócios que se baseiam exclusivamente na caridade, replicando a doação de serviços que existe nas paróquias. Embora não haja problema nisso, se há renda suficiente gerada para remuneração, não seria moralmente correto não remunerar os trabalhadores. Também pode ocorrer a replicação de práticas seculares de desrespeito às pessoas e aos acordos, refletindo certa irresponsabilidade observada no planejamento e trabalho paroquial.

Portanto, torna-se oportuno rememorar o ensinamento cristão para empresas e gestão de colégios, com a intenção de tornar o agir cristão superior ao secular, e não o contrário.




Princípios Fundamentais 


Valorização do Trabalho

A Doutrina Social da Igreja enfatiza a importância do trabalho como uma expressão da dignidade humana e uma forma de participação na obra da criação. O trabalho não deve ser visto apenas como um meio de subsistência, mas como uma oportunidade de desenvolvimento pessoal e contribuição para o bem comum. Empresas e instituições católicas devem promover um ambiente onde o trabalho seja valorizado e respeitado, reconhecendo o esforço e a dedicação dos trabalhadores.

A valorização do trabalho está intrinsecamente ligada ao respeito pelo tempo das pessoas: o tempo que dedicam para realizar suas tarefas, o tempo que investiram para chegar até aquele momento e o tempo empregado em edificar os outros. Seja um trabalho remunerado ou voluntário, é fundamental que esse tempo seja respeitado e devidamente honrado.

Para isso, é importante observar os detalhes do ambiente que favorecem e facilitam o trabalho, proporcionando ao trabalhador um tratamento compatível com a importância do ofício. Por exemplo, alguns locais colocam os professores para dar aulas numa banqueta e outros em uma mesa (o mesmo instituto faz isso, com dois professores diferentes); isso é desrespeitoso. Preparar um tratamento para um e não para outro é sinal de desrespeito ao tempo e ao ofício. Cito isso como exemplo, mas certamente pode ser feito um raio-x interno para avaliar posturas desrespeitosas em outros nichos e empresas.




 A Justa Paga do Trabalhador

Um dos pilares da Doutrina Social da Igreja é a justiça nas relações de trabalho. Isso inclui a garantia de uma remuneração justa que permita ao trabalhador e sua família viverem com dignidade. A justa paga não é apenas uma questão de contrato, mas de moralidade e ética, refletindo o reconhecimento do valor intrínseco do trabalho realizado.

Posso oferecer o exemplo da porcentagem de pagamento dos autores ou da hora-aula dos professores. Algumas editoras e institutos, tomando como referência a forma imoral de trabalho, não pagam o professor e muito menos o autor. Não dar a justa paga ao trabalhador é um pecado que brada ao céu, ou seja, segundo o Santo Ensino Católico, a pessoa atrai sobre si a desgraça.

Portanto, se você quer o crescimento do seu trabalho (e me sinto mal em ter que tocar nesta temática entre cristãos, mas infelizmente tem acontecido com frequência), é preciso pagar o trabalhador, mesmo que você como empresário não tenha recebido lucro. O empresário é um administrador dos bens que recebe da Providência; se administrou de forma irresponsável, deve arcar com os custos disso. Se deixar de pagar o trabalhador, Deus se encarregará de fazer a justiça e alinhar os atos errados segundo os princípios da ordem divina, penalizando os projetos do empresário de alguma forma em justiça ao trabalhador que não recebeu o pagamento.

Também merece atenção os institutos e colégios que, além de realizar o tópico da falta de respeito, não pagam o professor. Todos são pagos, menos o professor. E dizem que querem restaurar a catolicidade no Brasil, não dando a justa paga ao professor e acumulando dinheiro com o trabalho alheio. O professor pode, se quiser, dar aula de forma voluntária, mas ele não é obrigado a fazer de forma gratuita a única coisa que ele cobra. Em palavras mais claras, ele não é obrigado a trabalhar de graça, mesmo sendo católico.




Combate ao Pensamento de Ganho Individualista

A Doutrina Social da Igreja critica o individualismo exacerbado e o materialismo que muitas vezes permeiam as sociedades modernas. O neoliberalismo é uma teoria econômica que enfatiza a livre iniciativa e a redução do papel do Estado na economia, muitas vezes resultando em um aumento do individualismo. Ou seja, cada um está solenemente vendendo o seu peixe, e para isso vale tudo (novamente, é um absurdo ter que escrever isso): pessoas que vendem conteúdo de catequese, outras entram no curso de uma pessoa e literalmente roubam os temas de uma parte - ou todo o curso - e fazem o seu com um valor maior, outras retiram conteúdos disponíveis na internet, imprimem luxuosamente e vendem como seus. Todos esses atos acontecem com uma frequência considerável entre católicos possuídos pelo espírito neoliberal, "fazedor de dinheiro", e para isso rouba o talento de outros, ao invés de buscar encontrar o seu. Antes, as pessoas roubavam expressões e formas de ser, hoje elas roubam o trabalho do outro.

Quanto à catequese, é óbvio que não podemos vender catequese; o ensino sagrado não pode ser vendido, não se pode vender também direção espiritual, também não posso pedir doação e em troca oferecer tantas orações, isso beira a simonia. Acredito que o nicho católico é novo para algumas pessoas, então é comum - mas não normal - tomar a atitude secular como parâmetro. Mas a verdade é que não podemos desrespeitar o Evangelho. Eu posso citar um trecho bíblico, figuras bíblicas ou um dogma ou ensino católico numa aula sobre Moby Dick, por exemplo, ou ao falar das obras de arte produzidas em determinado período, ou ao contar a respeito de um tema na história ou ao falar da história da educação, e isso não será catequese. Mas estará enriquecido com catolicidade. Mas não posso rentabilizar o conteúdo da aula de catequese sobre "quem é Deus?", por exemplo, porque isso é catequese.

As empresas e instituições católicas devem combater essa mentalidade neoliberal de ganho individualista, mantendo a capacidade de autonomia e livre iniciativa, incentivando práticas que promovam a conduta católica, que é território fértil para santidade. Nem tudo pode ser solucionado com networking; às vezes, se ligar às pessoas erradas, com diretrizes diferentes das nossas, mesmo que católicas, pode quebrar princípios e alicerces fundamentais do seu trabalho ou empresa.




A Educação Católica da Equipe

A formação contínua dos funcionários em princípios e valores católicos é uma exigência permanente. Muitos erros atuais acontecem por falta de treinamento. Mesmo uma equipe enxuta pode fazer muito com treinamento e regras, por exemplo: regras de como receber os professores, regras de tratamento, regras de conduta moral, diretrizes para avaliação de parceria, regras de tratamento de professores e alunos, regras de horários.

Se você visitar rapidamente um documento chamado Ratio Studiorum, verificará que se trata de um conjunto de regras que direcionou uma das ações católicas mais eficazes já vistas. Como disse na aula aberta Educação Clássica aplicada à catequese (que ofereci em ação voluntária, o meu trabalho está disponível de forma regular para os alunos devidamente matriculados no Portal Educa-te), as pessoas estão habituadas com as práticas pastorais paroquiais que não possuem regras, baseadas na boa vontade (ou muitas vezes nas ações sem vontade), isso impregnou as ações católicas de uma forma a deixar tudo ao acaso, sem muita organização, preparo ou treinamento (tanto numa aula pequena quanto num evento).

Mas a pergunta essencial é: se no meio secular muitas vezes nos atentamos a deixar bem feito e organizado um jantar, uma recepção ou um chá, por que as coisas de Deus, que nos deu tudo, são feitas de uma forma tão desleixada? Portanto, as diretrizes não consideram somente a educação religiosa, mas também a promoção de uma cultura organizacional que reflita os ensinamentos da Igreja.

A educação católica da equipe visa criar um ambiente de trabalho harmonioso, ético e comprometido com a missão cristã, com ordem e cuidado. Não adianta só ser católico, é preciso se comportar como católico de verdade.




Fala Cordial e Harmônica

A comunicação dentro das empresas e instituições católicas deve ser marcada pela cordialidade, harmonia e verdade. Isso significa promover o respeito mútuo, a escuta atenta e a resolução pacífica de conflitos. A resolução é uma parte importante. É preciso resolver.

Talvez por uma imitação do meio secular, vícios ou somente por sermos humanos, a fuga da resolução é constante. As pessoas fingem que não existe um problema interno, fingem que está tudo bem. Vale considerar um aspecto: não é a primeira vez que o Brasil tem um aumento vertiginoso de institutos e colégios. Isso já aconteceu em meados dos anos 60 e, hoje, se buscar pelos nomes deles, se buscar pelos grupos de estudo dos ciclos tomistas paroquiais (acredite, existiam, você não é o primeiro a ser tradicional ou a fundar um instituto nessa terra tupiniquim), enfim, se procurar, encontrará poucos que restaram. A pergunta é: eles caíram por quê? Respondo: falta de resoluções internas. Fingir que nada está acontecendo não é o caminho (e é um pouco ridículo, já que fica nítido para olhos treinados); alinhar-se aos grandes da internet acreditando que isso dará durabilidade ao projeto também não é o caminho.

Existem algumas resoluções que são difíceis. As pessoas tendem a escolher lados e não destinos. Também tendem a bajular os seus iguais e os que possuem fama, o que dificulta a aquisição de um bom balizador moral. Mas, de forma geral, se depois de um período de silêncio as condutas são as mesmas, afinal, pode acontecer de uma gestão demorar a refletir sobre si mesma (está aí o nosso clero para servir de exemplo), poderá ser necessário uma conversa mais franca, respeitosamente franca, para que ao menos o que não foi dito seja impedido de se tornar um conjunto de escuridão interna.

Outro aspecto relacionado à fala é a capacidade de elogiar. Coisa difícil no meio católico. Do alto clero ao leigo, todos veem os talentos alheios como ofensas pessoais, agulhas em seus egos. Por isso é muito importante incentivar a escuta do que já se sabe, valorização por elogio sincero ao trabalho e apoio sem interesse em ser marcado nos stories. Isso diminui muito a inveja e aumenta a capacidade de valorizar os talentos.

Numa série japonesa chamada "Cozinhando para a Casa Maiko", uma personagem coadjuvante nos ajuda a pensar sobre o respeito genuíno. Numa cena, ela está com uma pessoa que diz que a respeita muito, que gosta dela de verdade. A personagem coadjuvante era artista e fazia um trabalho tradicional chinês muito refinado chamado "Mai". Ao escutar essa declaração, ela disse: "Como você me respeita e gosta de mim se você nunca viu o meu Mai?" No Mai estava o que ela tinha de melhor, a parte mais importante dela, a vocação dela.

Então fica a pergunta: será que você respeita mesmo e gosta das pessoas que diz que respeita e gosta? Você já prestigiou a melhor parte dela? A vocação dela? Eu sempre acho estranho quando alguém diz que gosta de mim, mas nunca assistiu um curso, nunca leu um texto ou livro meu, por exemplo. Eu não acredito nela, simples assim. Respeito é uma palavra muito rara de vermos realizada hoje em dia.

Outro aspecto é o elogio. Os padres brasileiros não elogiam porque acham que isso desvaloriza os outros, porque não querem envaidecer e porque não sabem elogiar. Uma vez, um padre estava nos alimentando com a Sagrada Eucaristia e levantou os olhos; viu uma fileirinha de mulheres com véu, ele sorriu de verdade e, quando chegou a nossa vez, ele disse "tão lindo" ("so beautiful"). Ele era americano. O resultado foi que a igreja ficou feliz porque ele estava feliz conosco. Foi a primeira vez que vi o "quando um é edificado, todos são edificados" (1 Coríntios 12, 26).

Quisera Deus que os padres confiassem mais na Escritura do que na mediocridade própria e da comunidade. As empresas e colégios não devem cometer o mesmo erro: deixar de dar o elogio encorajador e corrigir as debilidades a tempo e atentamente.




Iluminura "Cosmos, Corpo e Alma" de Santa Hildegarda de Bingen apresentada em seu livro "O Livro das Obras Divinas". No centro, está a roda da vida com as estações harmonizadas ao ciclo da vida humana. Os animais em suas obras normalmente significam as tentações e suas forças (pelos sopros que fazem) que a alma precisa vencer. No canto inferior esquerdo, a santa pinta a si mesma para mostrar que é testemunha da visão, que, por sua vez, é muito maior que ela mesma.



Quantas reflexões podemos tecer sobre a palavra 'tradicional'? Recentemente, tenho me permitido ponderar longamente sobre o que, de fato, significa moldar a vida segundo essa palavra. A verdade é que, aqui no Brasil, o termo 'tradicional' está fortemente associado à forma da Santa Missa e, em alguns casos, ao comportamento e vestimenta. Isso é realmente fundamental.

No entanto, como seria uma vida mais alinhada aos ritmos das estações, ao tempo litúrgico e à devida harmonia entre descanso e trabalho? Tenho nomeado esse alinhamento, em meus pensamentos, como 'vida tradicional'. Talvez você já tenha notado o crescimento dessa busca em diversos grupos, dos mais variados credos ou convicções. Parece ser um anseio genuíno por um ritmo que perdemos, mas que ainda está latente em nossa memória coletiva. Um anseio é algo que, como explico no último capítulo do livro Modéstia (2018), pode ser observado em vários países, com nuances distintas, atreladas a um único fio condutor: "quando estamos diante de um comportamento social, devemos nos atentar a alguns pontos cruciais visando analisá-lo bem".

No entanto, viver realmente no campo não é, de imediato, a coisa mais simples de se realizar, pois, afinal, a maioria de nós pode se considerar um 'bicho da cidade' ou, para alguns, um 'guri de apartamento', em maior ou menor grau. O que fazer, então?

Em 1 Tessalonicenses 4,11 lemos uma orientação interessante: "E procureis viver quietos, e tratar dos vossos próprios negócios, e trabalhar com vossas próprias mãos, como já vô-lo tenho mandado". É um incentivo para a busca por uma vida simples e tranquila, focando no trabalho realizado com alegria para o Senhor. Já em Provérbios 31, 27 encontramos a orientação para as mulheres sobre este tema: "Atende ao bom andamento da sua casa e não come o pão da ociosidade". Viver quieta e tranquilamente sobre a terra, mas sem o ócio maléfico pairando sobre nós. "Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde vais, não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria" (Eclesiastes 9,10). Um ritmo de trabalho que não se torne doentio na busca por obras e resultados terrenos. Nossas forças são limitadas, limitado é o nosso entendimento. Numa grande aula sobre o esforço e a tensão intrínseca existente no tema, o Senhor continua: "E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens" (Colossenses 3,23). O esforço por resultados terrenos cansa e fadiga, excede as nossas forças. O esforço para a maior glória de Deus santifica. Quanta diligência em ambos os esforços e quanta tristeza vem do primeiro e quanta bênção vem do segundo. Afinal, os resultados humanos não importam, o Senhor se preocupa mais em nos fazer trilhar o seu método. É o método que importa.

Quando falo ou escrevo sobre isso sempre me recordo de São Roberto de Molesmes, o fundador dos trapistas que nunca deixou de ser um beneditino. Ele sofreu muito como abade de um mosteiro, os monges bateram nele e ele saiu em fuga do convento do qual era abade. O motivo? Ele queria restaurar o cumprimento da regra de São Bento entre os monges beneditinos. Quando fundou a sua tão sonhada ordem trapista, dos monges brancos (os monges pretos eram os beneditinos), não pôde viver com eles. Um santo que se santificou pelo anseio, mas colheu pouquíssimos resultados terrenos concretos. É um exemplo claro de que o que importa, para o Senhor, é seguir o método, mesmo sem resultados a olhos vistos. A fidelidade ao método pode ser chamada de disciplina. Vale a pena comentar que a disciplina, a diligência, é a primeira virtude nomeada pelo monge professor Hugo de São Vítor. A instrução pedagógica católica é uma educação espiritual que se plasma na matéria e se alicerça na disciplina, esta virtude abraça amorosamente a vida cristã.

Não existem áreas separadas; todas as áreas que compõem um ser humano fazem parte da educação católica. Seu ensino espiritual não significa uma restrição, antes é uma sinalização de sua ordem superior, pois o que é superior influencia o que é inferior, ou seja, o espiritual abarca o material, pois é superior a este. A segmentação das áreas, fruto da mente moderna, gera um conjunto de fissuras que desfavorecem a harmonização dos ciclos e ritmos do tempo. Passamos a viver achando que a leitura de um clássico da literatura, a filosofia, a oração piedosa são coisas distintas, sem nenhuma ligação. No entanto, estão completamente interligadas. E a primeira ponte entre elas é a virtude da disciplina. Como ensina o Cardeal professor Hugo de São Vítor: "(...) a prática da disciplina dirige o espírito para a virtude, e a virtude então leva à bem-aventurança".

No entanto, em nossas mentes modernas, o termo disciplina é pintado com imagens tristes e taciturnas, com notas graves de tristeza e talvez castigos. No entanto, a disciplina pedida pelo salmista no Salmo 119, ensina Hugo de São Vítor, deve ser quista e pedida, juntamente com a ciência, a capacidade de discernir. A disciplina, portanto, trata-se de um itinerário didático que se inicia com a ciência (que é ver nas coisas terrenas os sinais dos desígnios divinos, é um senso político celestial das coisas terrenas segundo as eternas, adquirida pela meditação das Escrituras, da Santa Doutrina e da vida dos Santos). A ciência abre as portas para a disciplina (a habilidade de se deixar instruir por Deus, avaliar os próprios atos segundo as diretrizes meditadas e então mudar as atitudes). A disciplina nos leva a ser bons (já que nos tornamos continuação do Evangelho vivendo-o numa conduta santa).

A conduta santa ensinada por Hugo de São Vítor é a base da pedagogia católica e se refere não somente à oração, mas à conduta ao comer, falar, vestir, estudar, meditar, ou seja, abarca todos os atos e áreas. Parte da inanição católica vem do esquecimento de que a formação católica, sua instrução, se refere a todas as áreas que formam uma pessoa e que a piedade é o alicerce de todas as outras instruções. E, em suma, todas as áreas são trabalhadas em conjunto com uma atenção generosa à forma de administrar o tempo. Talvez, quando essa percepção, alocada no âmago da palavra tradicional, voltar realmente às nossas mentes possamos ter uma esperança mais luminosa e posturas menos jactantes.



As Quatro Têmporas e Seu Efeito no Ritmo do Tempo



As Quatro Têmporas, ou Quatuor Tempora, são períodos de jejum e abstinência instituídos pela Igreja Católica para marcar o início das estações do ano. Esses períodos são:


Têmpora da Primavera: Celebrada após o primeiro domingo da Quaresma.
Têmpora do Verão: Celebrada na semana após Pentecostes.
Têmpora do Outono: Celebrada após a festa da Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro).
Têmpora do Inverno: Celebrada após o terceiro domingo do Advento.


Segundo Michael P. Foley, em seu livro "The Light of the World: A Celebration of the Four Seasons": "As Têmporas são um poderoso testemunho de como os ritmos litúrgicos podem se alinhar aos ciclos naturais, promovendo uma sensação de harmonia e propósito ao longo do ano." Além disso, o autor Uwe Michael Lang, em seu ensaio "The Genius of the Roman Rite", menciona: "A observância das Têmporas nos convida a refletir sobre a generosidade de Deus em cada estação, ajudando-nos a manter um ritmo de vida que respeite os ciclos naturais e a piedade."

O Midrash (comentários sobre os livros da Torá) explica em VaYikra Rabá sobre a importância do trabalho e da diligência: "Como o agricultor que trabalha sua terra com devoção e esforço, também nós devemos dedicar-nos ao trabalho, servindo como exemplo de diligência e compromisso nas nossas vidas diárias."


Ela não come o pão da ociosidade (Provérbios 31, 27). 


Devemos permitir que a simplicidade da vida sazonal nos ensine a encontrar Deus em nossas pequenas ações diárias. Voltar às raízes de uma vida simples e tranquila é essencial para um elo catolicamente sadio e mais profundo com a natureza e, o principal, com Deus. A vida sazonal nos convida a adotar um ritmo mais lento e significativo, seguindo os ciclos da natureza e das estações do ano. Aproveitar cada estação ao máximo, celebrando as pequenas bênçãos que cada uma traz.

 Adotar uma rotina sazonal pode nos ajudar a viver de forma mais veraz, respeitando os tempos de atividade e descanso. Sem uma preocupação exasperada com o calendário como tinham os pagãos, mas numa atenção amorosa de filhos para a criação mantida pelo amor divino por nós. 

Numa época tão atribulada quanto a nossa, olhar para o céu e verificar, verbi gratia, que o sol está se pondo no mesmo horizonte, mas um pouco mais para a esquerda do que na estação anterior, pode ser um motivo para semear um sorriso no rosto e frutificar em oração por Sua bondade. Isso também é testemunhar as obras do Senhor. 





Práticas simples




Alimentação

Santa Hildegarda dava grande atenção à alimentação, acreditando que a comida deve proporcionar conforto. Um olhar atento ao consumo de alimentos locais e sazonais não apenas promove uma alimentação mais saudável, mas também fortalece a agricultura local. Há algo de profundamente significativo em visitar feiras e mercados locais, escolhendo frutas e vegetais da estação, repletos de frescor e sabor. Longe de ser uma atividade ativista, trata-se mais de uma ação consciente da qualidade inferior das produções alimentícias em massa e do aumento dos desertos alimentares nas grandes cidades. Desertos alimentares são regiões onde os habitantes têm acesso limitado a alimentos saudáveis, nutritivos e baratos.



Ritmo de Exercícios

Ajustar a modalidade de exercícios conforme a estação favorece uma atividade harmônica. Por exemplo, caminhadas na primavera, natação no verão, corridas no outono e aumentar o tempo de oração mental no inverno. Tais mudanças não só promovem o bem-estar físico, como também o equilíbrio mental e espiritual.

As estações estão realmente passando por mudanças, e existe uma nova ansiedade intitulada "ansiedade climática". O mundo moderno, gerador de uma instabilidade monstruosa, somado ao anseio marxista de que o estado supra todas as inseguranças, gera uma predisposição para ansiedade e terror.

Diante disso, é essencial adotar uma atitude cotidiana dinâmica, baseada em observar a estação, acolher a realidade e agir de acordo. Verificar os efeitos saudáveis dessas práticas pode proporcionar um equilíbrio entre corpo e mente, ajudando-nos a enfrentar os desafios contemporâneos com serenidade e discernimento.



Celebrações e Rituais Sazonais

Viver as têmporas, celebrar as festas tradicionais de Santa Luzia, São Nicolau, São João, o onomástico (santo com o mesmo nome que o seu), o santo do dia do nascimento, além da Páscoa e do Natal, ajudam a viver cada estação de uma forma agradável e católica.



Ritmo de Trabalho e Descanso

Equilibre períodos de trabalho e descanso de acordo com as mudanças sazonais. O inverno pode ser um tempo de mais repouso e reflexão, enquanto a primavera e o verão podem ser períodos de maior atividade e produtividade.



Refletir sobre o que cada estação pode ensinar. 


Essas atitudes cultivam a habilidade de respeito ao tempo, tanto ao nosso quanto ao das pessoas ao nosso redor. Encontramos alegria nos talentos próprios e nos dons de nossos irmãos, expressando agradecimentos mais frequentes a Deus e as pessoas pelo trabalho, pelos esforços, serviços e talentos daqueles que nos cercam.

Podendo desenvolver a capacidade de comunicação respeitosa e tranquila no dia a dia usando o antigo e tão esquecido "bom dia", "boa tarde", "boa noite". Quanto cansaço podemos poupar, quanta alegria podemos gerar com coisas simples como respeitar o próprio tempo e o tempo do próximo.

Veremos que o respeito ao tempo, ao nosso tempo, com a simples pergunta "Onde lanço as sementes de tempo que o Senhor me deu?" ou "Eu respeito as sementes de tempo das outras pessoas?", "Isso, essa pessoa, esse lugar respeita o meu tempo?" gera grandes mudanças de atitude em relação a escolhas de amizades, contatos, trabalhos e tantas outras áreas de nossas vidas, redescobrindo, assim, a serenidade e a harmonia no respeito ao tempo que nos faz crescer em graça.


revista salutaris cultura, arte e literatura






Referências:


BÍBLIA DE JERUSALÉM. Provérbios 31, 27: "Ela não come o pão da ociosidade."

BÍBLIA DE JERUSALÉM. 1 Tessalonicenses 4, 11: "E procureis viver quietos, e tratar dos vossos próprios negócios, e trabalhar com vossas próprias mãos, como já vô-lo tenho mandado."

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Eclesiastes 9, 10: "Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde vais, não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria."

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Colossenses 3, 23: "E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens."

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Provérbios 12, 24: "A mão dos diligentes dominará, mas a preguiça será sujeita a trabalhos forçados."

FOLEY, Michael P. The Light of the World: A Celebration of the Four Seasons.

LANG, Uwe Michael. The Genius of the Roman Rite.

KELLY, Matthew. Rediscovering Catholicism. Beacon Publishing.

KEMPIS, Thomas à. A Imitação de Cristo. Paulinas.

CHITTISTER, Joan. The Gift of Years: Growing Older Gracefully. BlueBridge.

BARROS, Ana Paula. Modéstia. 2018.

CALICO TWINE. "A Seasonal Life". Disponível em: <https://calicotwine.com/seasonal-life>. Acesso em: 14 out. 2024.








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Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)



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