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Salus in Caritate

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Uma vocação

O Padre Sertillanges inicia sua abordagem sobre a Vida Intelectual¹ apontando que o intelectual é um consagrado e que a vida de estudo é uma vocação, um chamado.

A vocação é um chamado único, que somente a pessoa chamada escuta e que, normalmente, a faz parecer louca aos olhos dos demais. Portanto, a vocação não pode ser vista por nenhuma outra pessoa, e este é o grande dilema de toda busca vocacional. Esta reflexão sempre me faz pensar nas cartas escritas por Rainer Maria Rilke a um jovem poeta que lhe pediu conselhos e uma avaliação da sua poesia. Rainer, como um bom mestre, lhe adverte e orienta sobre diversas coisas; trocam cartas por longos anos, mas nunca lhe respondeu sobre sua poesia, pois ele mesmo diz ser isso impossível.

Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: "Preciso mesmo escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "preciso", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão.²


Este trecho traduz bem o que é uma vocação. É um constante ‘preciso’. Não se relaciona com as pessoas, as honras, os elogios ou as cusparadas, com estar ou não na moda. É uma necessidade para existir e ser você mesmo. Isso é uma vocação. E se encaixa muito bem na chamada Vida Intelectual. Basta se perguntar, na hora mais monótona da sua vida, ‘preciso mesmo estudar a razão das coisas?’, ‘preciso mesmo entender, ao menos em parte, o caos?’, ‘preciso falar sobre isso, escrever sobre isso?’. Se a resposta for um forte ‘preciso’, é uma vocação.


Tal vocação está presente em níveis na vida de todo cristão, já que algumas vocações pedem este chamado de forma mais ou menos radical (um professor, pais de família, padres ou religiosos, ou qualquer pessoa que se vê responsável por instruir). Cada um, dentro do seu ciclo, tem certa responsabilidade de estudo para bem servir. No entanto, a Vida Intelectual, da qual trato aqui, está realmente direcionada a responder a um chamado que gera uma necessidade existencial na qual se ancoram todas as outras atividades vocacionais. O estudo é sempre um dever para quem instrui, seja quem for, mas a Vida Intelectual é uma dedicação, uma consagração do tempo, da vida.


Não espere ser compreendido

 

Uma única coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém durante horas, é a isso que é preciso chegar. Estar só, como a criança está só.²


A maioria das pessoas tem uma grande inclinação a querer ser compreendida… Bem, se você deseja estudar, habitue-se a uma certa solidão. A solidão dos que veem. Não é muito cômoda, realmente, mas ao menos faz parte da vocação; por isso, não é de todo angustiante. No entanto, as pessoas, no geral, não entendem o estudo. Mesmo nesta terra brasileira que diz valorizar imensamente o estudo, este é infinitamente visto como alvo de preconceito, até mesmo dentro do clero. Estudar é visto como emburrecedor em alguns ciclos. Portanto, acostume-se: as pessoas têm aversão ao saber. Por isso, iniciei este texto com a reflexão a respeito do ‘preciso’. Somente se for um chamado (ou uma dedicação pelo bem dos que lhe são confiados) você poderá passar por estas pequenas aversões com algum sorriso no rosto.


Temas



Interessantemente, a preocupação da maioria se resume aos temas de estudo, sendo que deveriam começar pelo seu interior. Pela resposta firme: ‘preciso’.

Quanto aos temas, é importante que sejam temas de interesse. Afinal, todas as temáticas são objeto de estudo: o amor, a amizade, a vida, a morte, a religião, a beleza, a feiura, a história, as emoções, a vida comum, os costumes; enfim, tudo pode ser estudado. E um assunto leva a outro.

Da mesma forma que não é possível lhe dizer se possui uma vocação ou não, também não é possível lhe dizer por onde começar exatamente. Existem aqueles que orientam Platão, outros alguns livrinhos. Mas o melhor é, na hora mais pacata do seu dia, se perguntar: ‘Eu me interesso pelo quê nesta vida?’ Esta área te levará a outras e, daqui a uns anos - cinco ou dez - você verá que, muito provavelmente, todos os assuntos que lhe interessam estão ligados a um fio condutor, a um tema mestre.

No entanto, é sempre importante partir de uma boa e sólida base catequética, visando proteger a mente com a verdade da fé e os ensinamentos da Igreja: a sã Doutrina Católica, as Sagradas Escrituras e os Comentários dos Doutores sobre as mesmas. 


"Tudo quanto é velocidade não será mais do que passado, porque só aquilo que demora nos inicia."
"O tempo não é uma medida. Um ano não conta, dez anos não representam nada. Ser artista não significa contar, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva e resiste, serena, aos grandes ventos da primavera, sem temer que o verão possa não vir. O verão há de vir. Mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão sossegados como se tivessem na frente a eternidade."²


Tempo de Cultivo


Quero lhe implorar para que seja paciente com tudo o que não está resolvido em seu coração e tente amar as perguntas como quartos trancados e como livros escritos em língua estrangeira. Não procure respostas que não podem ser dadas porque não seria capaz de vivê-las. E a questão é viver tudo. Viva as perguntas agora. Talvez assim, gradualmente, você sem perceber, viverá a resposta num dia distante.²


Estudar é cultivar. É um tempo gasto em subir nos ombros dos gigantes para assim conseguir ver melhor; é buscar enraizar-se à beira do rio, buscando receber uma boa nutrição. Esse processo leva uma vida, por isso se diz ‘vida de estudo’, não ‘fase de estudo’. Por isso, também, o Padre Sertillanges chama essa atitude de consagração, pois toma tempo.

Este tempo nos faz fugir de opinadores e dos fragmentos desconexos; não é possível estudar a partir de fragmentos, de assuntos desconexos. Assim como nos situa longe de idealismos românticos e de realismos acachapantes.

Quem oferece tal propriedade de discernimento é o tempo de estudo. Tempo este que se relaciona a bem estudar os autores e livros, não na quantidade de livros, necessariamente.


Estudar bem se refere à capacidade de síntese e de absorção, depois à capacidade de interligar os temas estudados entre si (neste ponto, a maioria tem uma dificuldade considerável).

No entanto, o tempo de cultivo também se refere à vida espiritual.



Vida Espiritual


Um dito católico diz que ‘o doutor derrota o demônio’. Estudar é o ato de buscar a Verdade. Por isso, a virtude da estudiosidade nos livra das curiosidades vãs que embotam a mente e corrompem a alma em falsas realidades.

Assim, muito ingênuo é quem estuda, buscando a Verdade e não se fortalece numa vida espiritual e moral adequada.

Basta observar a história e vemos como vários pensamentos anticristãos se estabeleceram por uma ‘linha intelectual’, e isso só foi possível porque a ‘linha intelectual católica’ se tornou fraca, inexistente ou covarde. No entanto, muito provavelmente, sua fraqueza se originou na falta de vida de oração e não na vida de estudo.

A vida de oração é o adubo da vida de estudo. É nela que a árvore recebe os raios do sol, os clarões de lucidez, os vislumbres da realidade. É também pela vida de oração que podemos usufruir dos Dons do Espírito Santo que recebemos no Santo Batismo: o entendimento para ver as realidades com clareza e precisão, a ciência para vislumbrar os acontecimentos terrenos com acuidade, adquirindo uma clareza ‘sócio-política’, e a sabedoria para vislumbrar a direção (não os motivos) dos atos da Providência na História.

Por isso, antes de começar, certifique-se de sua vida espiritual, se está exposto e disposto aos raios de luz da Inteligência Divina que tudo rege e orienta. Só assim poderá estudar qualquer tema com a certeza de que o Senhor lhe guiará e protegerá. Também é preciso um comprometimento com a retidão moral. Um estudioso católico busca se firmar no terreno das virtudes, converter o estudo em atos elevados e dirigidos para a eternidade. O sábio é o virtuoso.


Referências


1- SERTILLANGES, A-D. A Vida Intelectual. É Realizações, 2010. Disponível em: https://amzn.to/43P15Q4
2- RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. L&PM, 2006. Disponível em: https://amzn.to/3CJVChe
3- MESCHLER, Mauricio. O Dom de Pentecostes. Cultor de Livros, 2016. Disponível em: https://amzn.to/3PpmB9B







 





O livro O Carmelo Interior, de John Wu, é uma obra que busca traduzir para o leitor moderno a tradição espiritual carmelita, especialmente inspirada em Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz. Wu, intelectual chinês convertido ao catolicismo, escreveu em meados do século XX, num contexto marcado por intensas transformações políticas e sociais na China e pela necessidade de diálogo entre culturas. Sua trajetória pessoal, que o levou a atuar como diplomata junto ao Vaticano e a traduzir textos bíblicos para o mandarim, dá à obra uma dimensão intercultural rara: ela é fruto de um encontro entre a mística ocidental e a cultura oriental.

A estrutura do livro segue o caminho clássico da vida espiritual, dividido em três etapas: a via purgativa, a via iluminativa e a via unitiva. Na primeira, o autor destaca a necessidade de vencer as paixões e ordenar a vida interior, associando-a às bem-aventuranças dos pobres em espírito e dos mansos. A segunda etapa, iluminativa, é apresentada como o momento em que a alma se abre à justiça, à misericórdia e ao amor mais profundo por Cristo e pela Virgem Maria. Já a via unitiva corresponde à pureza de coração e ao desapego das próprias obras, culminando na união íntima com Deus. Em todas essas fases, o autor insiste que a vida espiritual não é estática, mas um processo dinâmico de crescimento, sujeito ao ritmo da própria natureza humana.

Escrita em um período de perseguição religiosa na China e de expansão do materialismo político, O Carmelo Interior surge como resposta à necessidade de reafirmar a vitalidade da fé cristã. Wu mostra que é possível viver no mundo com “espírito de claustro”, isto é, unir vida ativa e contemplativa, sem separar o cotidiano da busca pela santidade. Essa proposta conversa diretamente com os desafios de seu tempo, em que muitos cristãos se sentiam deslocados diante das pressões sociais e ideológicas.

Literariamente, o texto se caracteriza por uma linguagem clara e acessível, mas profundamente enraizada na tradição teológica, especialmente na filosofia de São Tomás de Aquino. O escritor evita abstrações excessivas e procura mostrar que o ideal cristão de perfeição, embora absoluto, é acessível a todos pela graça. Ao mesmo tempo, sua escrita carrega ecos da espiritualidade oriental, valorizando o silêncio interior e o uso didático dos saberes orientais com pré figuração da pedagogia crista na Santa Doutrina.

Assim, O Carmelo Interior pode ser visto como um testemunho da universalidade da experiência mística cristã. 







Citações:

"Podemos viver no mundo com espírito de claustro. Podemos levar uma vida ativa e viver em contemplação. Podemos tornar-nos santos."

"A vida na Graça é semeada sobre a terra, isto é, na natureza humana. Assim, a vida na Graça tem de crescer segundo o desenvolvimento normal dessa natureza e está sujeita a esse ritmo alternado da vida, que tem seu símbolo na sucessão do dia e da noite."

"Quem não avança, recua. A razão pela qual tantos cristãos se sentem frustrados e atrofiados está no desconhecimento da importância vital do contínuo progresso da vida interior e na pouca atenção prestada às leis que regem esse crescimento... parecem não ter tempo nem atração pelas coisas do espírito."

"Consideram a vida espiritual uma coisa parada, não um processo dinâmico, uma realidade em movimento."

"Como diz São Tomás de Aquino: 'É natural à razão humana progredir gradativamente do imperfeito ao perfeito'. Assim, se esse anseio de progresso não é levado em conta na vida espiritual, ele procura realizar-se em algum outro terreno."

"Se existe uma doutrina que favorece o harmonioso desenvolvimento da atividade humana e incita a liberdade a elevar-se continuamente para o bem, é, sem dúvida, o dogma católico da santificação."

"O ideal cristão de perfeição é absoluto."




O autor correlaciona a primeira etapa da vida espiritual, a via purgativa, às duas primeiras bem-aventuranças: os pobres em espírito e os mansos. Segundo São Tomás, os pobres em espírito venceram a concupiscência e os mansos venceram a ira.

"Reconhecer a nossa inanidade é sinal de saúde, é a base de nossa santificação."

inanidade: caráter fútil




A via iluminativa se correlaciona com as bem-aventuranças dos que têm fome e sede de justiça e a dos misericordiosos.

"É a parte mais central da nossa vida. A nossa casa já está, mais ou menos, em ordem."

"Penetramos cada vez mais no Coração de Cristo, aumenta a devoção à Santíssima Virgem e o amor à Sagrada Comunhão."

"Com efeito, nos esforçamos por fazer crescer os interesses de Jesus nas almas do próximo." (Padre Faber)

"Nenhum trabalho é mais nobre que o do apostolado. É o supremo cargo a que o homem pode aspirar: dá-lhe poder sobre a vida e a morte dos homens."





A via unitiva se correlaciona com a bem-aventurança dos limpos de coração.

"Todo poder corrompe, e o poder absoluto corrompe de maneira absoluta. Quantos zelosos missionários e apóstolos leigos ficam paralisados no seu desenvolvimento espiritual porque se apegam excessivamente às suas realizações e se deixam inconscientemente contagiar por espírito partidário... enquanto não nos desapegamos completamente do fruto de nossas mãos, o nosso amor a Deus não é puro."

"Quase todos nós — diz Madre Saint Austin — vivemos na superfície de nosso ser; nas profundezas existe um insondável santuário, onde o Espírito vem encontrar o espírito: é o recesso secreto, onde o Amor que procede do Pai e do Filho — o Espírito Santo — se comunica a nós."










É, realmente as pessoas ficaram malucas. Às vezes me sinto como a Alice, que diz ao Gato que não quer ficar entre gente maluca, e o Gato responde que todos são malucos — inclusive ela. Talvez o único antídoto contra a maluquice seja outra forma de maluquice. Como o Chapeleiro e a Rainha de Copas. Mas, antes que eu entre no País das Maravilhas com esse papo, falemos das maluquices cotidianas.

  1. A mentalidade revolucionária é caracterizada por três atos:
  2. Renega o passado e seus aprendizados, gerando uma busca por algo novo que irá mudar o rumo da história;
  3. Utiliza a autoridade para defender esta busca por novidade, colocando todos os que não aceitam tal caminho como párias — o que gera uma dinâmica de grupos que lutam entre si (isso se chama demagogia);


O “pária” é excluído do meio em questão, e o motivo da sua exclusão é a sua negação em acatar as novidades e as buscas pelo novo — ou seja, ele mesmo se excluiu. Che Guevara, quando matava os que não estavam de acordo com ele, dizia que não era ele quem matava — era a pessoa que se matava.

Bem, a maioria de nós acredita que isso só acontece nos grupos revolucionários. Que se refere a uma forma de pensar do outro lado — ou seja, que estamos ilesos e sãos. Doce ilusão. Estamos todos soterrados em pensamentos revolucionários, por todos os lados. A diferença é que estão enrustidos.

Por isso, também é uma característica do pensamento revolucionário não pertencer ao grupo X ou Y. A mentalidade revolucionária é uma alteração mental e espiritual que pode acontecer — e acontece — em vários grupos, até mesmo nos mais bem-intencionados.

Exemplos notórios e enrustidos:

  • O padre que não deixa um catequista ensinar a Doutrina e nega que este seja catequista: é a mentalidade revolucionária.
  • O outro que acredita que só o seu grupo pode trazer algo bom para a Igreja ou a sociedade: também é a mentalidade revolucionária.
  • Quando um grupo é impedido de fazer um evento na Igreja porque é “católico demais”: é um impedimento da mentalidade revolucionária.
  • Mas quando um grupo exclui todos os outros membros da Igreja Católica, como inferiores em conhecimento: também é a mentalidade revolucionária.
  • Quando uma moça quer ter atenção e “lugar de fala” defendido, calando os homens para que não abordem tais temas: é a mentalidade revolucionária.
  • Mas quando um homem acha que a mulher nem mesmo deva falar, que ela não tem lugar para falar: também é movido por uma mentalidade revolucionária.
  • Quando uma mulher acredita que pode ensinar sobre doutrina no púlpito: isso vem da mentalidade revolucionária.
  • Mas quando se acredita que ela nunca deva abordar ensinos sobre doutrina: também há um movimento do pensamento revolucionário.
  • Quando se tem desdém do passado, caçoando e debochando dos costumes antigos, principalmente os religiosos: isso é resultado da mentalidade revolucionária.
  • Mas também o é quando existe um excesso de idealização do passado, numa tentativa de destruir tudo para construir algo novo compatível com o idealizado.
  • Quando não podemos falar sobre a Missa Tridentina, o último Concílio, os debates da época, e somos orientados somente sobre as maravilhas atuais e o novo que buscamos (que nunca chega): este é um impedimento da mentalidade revolucionária.
  • Mas quando não se vê como reais as realidades eclesiásticas, quando existe uma tendência a excluir tudo que não pertença a determinado grupo — inclusive pessoas e almas: isso também é resultado da mentalidade revolucionária.
  • Quando temos uma negação da transcendência e sacralidade, ficando somente no aqui e agora: isso é a mentalidade revolucionária.
  • Mas quando temos uma diocese que não abraça a realidade da variedade das almas e acolhe somente uma forma de vivência espiritual — normalmente do grupo tal e tal — exigindo que todos se adaptem e engulam sem reclamar: isso também é a mentalidade revolucionária.

Como vê, a mentalidade revolucionária é bem comum. Não pertence a um grupo específico. Muitos de nós podemos desenvolver uma cadeia de pensamento com os três componentes já citados, que resultam numa incapacidade de abarcar a realidade — além de gerar obtusidades evidentes.

Por exemplo:

  • O padre que acredita que todos os caminhos dão no Céu e, dois minutos depois, reza por missionários: é uma obtusidade evidente.
  • Quando alguém defende a catolicidade da sociedade e não quer que cada leigo — homens e mulheres (me perdoe a redundância, mas se faz necessário) — fale catolicamente em todos os meios: é uma obtusidade evidente.
  • Quando se defende a contra-revolução em todas as possíveis realidades eclesiásticas e sociais, mas se evita o contato com esses mesmos meios: é uma obtusidade evidente.

Enfim, maluquices de cada dia.










Senhor, que nos prometeu bons pastores, concedei-me a graça de um pároco e vigário conforme o Vosso Coração e às orientações da Santa Igreja. 

Rezo já por esse seu servo, que ele seja abençoado com sabedoria e graça, que ele se nutra dos sacramentos e da Palavra, que ele seja abençoado com todos os dons espirituais e humanos para guiar-me para o Céu, dá-lhe Amado Deus apreço pelas virtudes e amor à Tradição e Instrução Católica, dá-lhe zelo e obediência exata às orientações do Santo Sacrifício, que ele seja em tudo agradável aos Seus olhos. 

Concede-lhe fidelidade na vocação e força moral, amor paternal pelas ovelhas, temor do Senhor ao servir o altar.  

Dá-lhe também generosamente o dom de encorajar as almas no caminho das virtudes e da santidade, o dom de falar e orientar com Verdade, a capacidade de ver talentos e aperfeiçoá-los.

Afasta desse teu servo a preguiça, as más doutrinas, a covardia, a fraqueza interior, os maus padres e más influências, as tentações carnais naturais e antinaturais, as tentações vindas de cargos e ofícios, o respeito humano e a incapacidade de ver a diferença entre as almas e de amá-las. Ajude-o, Bom Pastor, em suas batalhas, vicissitudes, dúvidas, tentações, defeitos e imperfeições. 

Concede-lhe a graça de uma homilia abençoada pela Santa Doutrina, uma vida sacerdotal e uma morte santa.

Dá-lhe Senhor o dom de ser instrumento da Vossa Paternalidade. E que no Céu ele contemple a Vossa Face e vislumbre o resultado do ofício que por Vós cumpriu nas almas. 

Pelo desejo que tenho de ver santificado o Vosso Santo Nome e pela intercessão de Nossa Senhora do Bom Sucesso, atendei Senhor o meu pedido. Amém 








Introdução


Em abril de 2017, durante a Brazil Conference em Harvard, o filósofo Olavo de Carvalho afirmou que 80% dos formandos de universidades brasileiras são analfabetos funcionais. Ao final, ele foi contestado por uma integrante da plateia, que apresentou um dado muito diferente: o índice entre os universitários seria de apenas 1%. Objetivamente, quem está certo? A resposta curta é esta: nenhum dos dois.

De forma geral, o analfabetismo funcional costuma ser definido como a incapacidade de compreender e interpretar textos ou fazer operações matemáticas com um grau mínimo de complexidade.

Hoje, as avaliações que medem os graus de analfabetismo incluem quatro ou cinco categorias (geralmente divididas entre analfabetismo total e níveis como alfabetização rudimentar, básica, intermediária e proficiência). Somente as duas primeiras categorias são consideradas analfabetismo funcional.

O Instituto Paulo Montenegro, que é referência no assunto e mede regularmente o nível de alfabetização dos brasileiros, sustenta que 4% dos que cursam ou cursaram uma faculdade são analfabetos funcionais. O percentual na população geral fica em 27%.

Por outro lado, o Instituto Paulo Montenegro identificou que apenas 22% dos universitários ou graduados são proficientes em leitura. Uma matemática simples leva à conclusão de que quase 80% dos universitários brasileiros não atingiram o nível ideal de alfabetização. Isso é diferente da definição clássica de analfabetismo funcional. Mas, como os números evidenciam, a situação é ruim¹.

Proficiência é ter a capacidade e habilidade de ler e compreender.

Eu me lembro do período em que lecionava em sala de aula (até 2017). Sempre fui professora de adultos, alunos de cursos técnicos (sim, eu estava lá quando a Dilma desenvolveu uma obsessão pelo Pronatec, lembra? Pois é… foi traumático). E como você, professor, já sabe, esse número (80%) não é ilusório, é a pura realidade. Se não desenharmos, não existe compreensão. Esta é a raiz do surgimento da necessidade de professores que precisam fazer praticamente um espetáculo de circo para “prender a atenção do aluno” para que ele “compreenda ludicamente”. O TikTok já existia em algumas salas de aula, acredite.


Características do Analfabeto Funcional

"O analfabeto funcional lê todas as sentenças em sentido absoluto, material e chapado, como se fossem juízos atomísticos num manual de química. É insensível às nuances, imprecisões e ambiguidades que tornam possível a linguagem literária. Objeções levantadas por um analfabeto funcional são irrespondíveis, pois versam sobre objetos da sua própria invenção, alheios àquilo que ele imagina questionar."²



O analfabeto funcional, e todos nós somos ou já fomos, parece ter uma nuvem mental que o impede de ler e entender o que está escrito. Como não possui a capacidade de realmente receber a mensagem do autor, constrói interiormente uma série de interpretações, baseadas exclusivamente em sua vida e visão; é a interpretação de texto baseada no próprio umbigo. O resultado são as interpretações fragmentadas, baseadas na emoção que o leitor tem ao, forçosamente, adaptar algo que leu ou ouviu à sua vida e buscar trechos de auto confirmação. Como a interpretação é puramente emocional e forçosamente adaptada a uma realidade diferente da apontada pelo autor do texto, qualquer objeção apontada pelo analfabeto funcional não tem resposta, dado que ele inventou uma interpretação, criou um cenário de interpretação.

É um monólogo numa sala cheia de espelhos distorcidos.

"Os analfabetos funcionais ajudam uns aos outros a não perceber que o são."²

O resultado dessa Babel interpretativa é a incapacidade generalizada de aprender.

O Aprendizado

Para aprender, é preciso se abrir a uma outra percepção. É preciso se esforçar para entender a apresentação de um outro pensamento fora do nosso. É a capacidade de absorver outro prisma, de atravessar um portal e ser apresentado a um outro feixe de luz de conhecimento. Obviamente, isso se torna impossível sem a capacidade de realmente ler o pensamento do autor. O primeiro passo é receber o pensamento do autor e, depois, num segundo momento, verificar algo do ensinado na própria vida, se existir, sem fazer adaptações forçadas.

"A lógica é a arte de pensar; a gramática, a arte de inventar símbolos e combiná-los para expressar pensamento; e a retórica, a arte de comunicar pensamentos de uma mente a outra, ou de adaptar a linguagem à circunstância."³


Os textos expressam a linha de pensamento de uma pessoa; a linguagem literária possui nuances. Quando um autor escolhe uma palavra e não outra, quando evidencia uma sentença com vírgulas, quando termina um pensamento com reticências, cada uma dessas escolhas tem um motivo e leva uma mensagem ao leitor. Ser capaz de interpretá-las, de ler os pensamentos contidos nas palavras, isso é o que chamamos proficiência na leitura.


O segundo passo é ser capaz de sintetizar os ensinamentos apresentados. O poder de síntese torna o aprendizado parte de nós mesmos, como uma mão ou um pé.

O terceiro passo se refere a interligar ou contrapor leituras/conhecimentos já sintetizados, criando uma grande teia de conhecimento mental.

Existem aqueles que possuem dificuldades distintas em todos ou em um desses passos.


Cabe aqui a humildade de reconhecer as próprias limitações e buscar ordenar cada um desses pontos. O que, sim, pode levar alguns anos.

É normal, no entanto, ao iniciar um estudo ou ao ler algo novo, se sentir um pouco burro. É normal e sadio. Nos parece que a mente une as letras, mas não entende o conteúdo. Isso é reduzido quando retrocedemos um pouquinho e lemos coisas mais simples sobre o tema, buscando assim nos acostumar com o vocabulário, até que, finalmente, o “texto difícil” se torna menos complicado. Já que o “difícil”, normalmente, é interpretar o pensamento do autor, ler verdadeiramente.


Ler ou escutar uma aula de forma emotiva produz um arquivo mental distorcido e ilusório. 




Portanto, alguns comportamentos remediadores se tornam necessários:
  • perseverança,
  • ler os textos, livros e escutar as palestras na íntegra,
  • detectar os pontos-chave do pensamento do autor e não dos próprios pensamentos,
  • contrastar os ensinamentos do autor com os próprios pensamentos,
  • intercalar ou contrapor o apresentado com outros autores.

O resultado desse processo é a ampliação da teia de conhecimento e não uma autoconfirmação das próprias emoções e percepções da realidade.


Referências


1- CASTRO, Gabriel de Arruda. Nem 1%, nem 80%: a real taxa de analfabetismo funcional entre universitários. Gazeta do Povo, 2017.
2- CARVALHO, Olavo. Analfabetos funcionais, 2017
3- JOSEPH, M. O Trivium: as artes liberais da Lógica, Gramática e Retórica: entendendo a natureza e função da linguagem. São Paulo: É Realizações, 2008 in Sérgio, Maurício & Souza. O Método de Educação Clássica e os Paradigmas do Modelo Educacional Brasileiro, 2020. 








Ó Senhor, não me prive de seus abençoados dons celestiais,

Ó Senhor, me defenda e me livre dos tormentos eternos,

Ó Senhor, se eu pequei com minha mente, com meus pensamentos, com minhas palavras ou minhas ações, me perdoe e cure minha alma,

Ó Senhor, concede-me amar-te com toda a minha alma e mente,

Ó Senhor, livra-me da ignorância, esquecimento, da covardia e do tédio,

Ó Senhor, não me deixe cair e me livre de toda tentação,

Ó Senhor, ilumine meu coração obscurecido pelos desejos do maligno,

Ó Senhor, concede-me amar-te com toda a minha alma e mente,

Ó Senhor, como homem que sou, pequei, mas Tu, como Deus amado e benevolente, tem piedade da minha alma, vendo as fraquezas do meu coração,

Ó Senhor, envia Tua Misericórdia para minha ajuda, para que eu possa glorificar Teu Santo Nome,

Ó Senhor Jesus Cristo, inscreva Seu servo no Livro da Vida e conceda-me uma morte em paz,

Ó Senhor, concede-me amar-te com toda a minha alma e mente,

Ó, meu Deus! Embora eu não tenha feito nada de bom, estenda sua mão, ajude-me com sua graça para começar a fazer todo o bem,

Ó Senhor, cubra meu coração fraco com o orvalho do seu amor,

Ó Senhor do céu e da terra, lembra-te de mim, teu servo pecador, impuro e frio de coração, em teu reino,

Ó Senhor, concede-me amar-te com toda a minha alma e mente,

Ó Senhor, aceite meu sincero arrependimento,

Ó Senhor, pelo bem da minha alma, não me abandone,

Ó Senhor, mantenha-me longe da tentação,

Ó Senhor, concede-me amar-te com toda a minha alma e mente,

Ó Senhor, conceda-me pensamentos nobres e puros,

Ó Senhor, conceda-me as lágrimas do arrependimento, a memória da morte e a sensação de paz,

Ó Senhor, conceda-me humildade, caridade e obediência para agir em Seu Nome,

Ó Senhor, concede-me amar-te com toda a minha alma e mente,

Ó Senhor, conceda-me a confissão e perdão dos meus pecados,

Ó Senhor, conceda-me paciência, magnanimidade e doçura,

Ó Senhor, coloque em mim a fonte de todas as bênçãos e o temor de Vós em meu coração,

Ó Senhor, concede-me amar-te com toda a minha alma e mente,

Ó Senhor, conceda que eu possa te amar com todo meu coração e toda minha alma, e que eu sempre obedeça sua palavra,

Ó Senhor, proteja-me de provocadores, demônios, paixões corporais e tudo o que não leva a Ti,

Ó Senhor, eu sei que ages como desejas; assim, que seja feito em mim, pecador, a tua vontade, porque Abençoado és para todo o sempre.


Amém.






"A alma cristã abraça a pureza pelo desejo de ser mais livre no seu voo para Deus, na prática do amor divino... não há virtude verdadeira e perfeita senão a que conduz a Deus sob o impulso da caridade.

Assim compreendida, a castidade ou pureza é uma virtude especial que tem objeto próprio, distinto do de qualquer virtude.

A nossa alma, criada para amar e pertencer só a Deus inclina-se, entretanto, a aderir às criaturas e a procurar nelas a sua felicidade. Ora, toda afeição desse gênero é desordenada quando se afasta de Deus; mancha a alma culpada e faz dela, em relação a Deus, uma esposa infiel. É, pois, possível conceber-se uma castidade, uma pureza espiritual que consiste em interditar-se qualquer apego desordenado à criatura e em procurar a sua glória só em Deus pela prática da divina caridade. Ao contrário, todo pecado, toda afeição desordenada, podem ser considerados como uma fornicação espiritual, como ensina o doutor angélico (2º, 2º q. 151).

Essa castidade, porém, essa pureza espiritual não é virtude especial; mas é como estado de alma, o resultado do esforço de todas as outras virtudes, que desembaraçam a alma, cada uma em sua esfera, das afeições desordenadas. Assim, a pobreza impede a alma de procurar o gozo no amor das riquezas; a humildade arranca-a às falsas alegrias do orgulho. Mas essa pureza resulta, sobretudo, diz Santo Tomás, das virtudes teologais, e especialmente da caridade que, unindo a alma intimamente a Deus, não só a afasta do amor desregrado das criaturas e a preserva de toda mancha, mas lhe outorga ainda todo o brilho da beleza de Deus."¹





Corações Despedaçados

Na reflexão do mês de maio vimos os males da concupiscência, que nos faz ver o mundo - e os outros - com lentes deturpadas e maldosas, fragmentadas e cheias de ideias pré concebidas que não são amplas para abarcar a proposta salutar do evangelho. 

Passamos a andar cegados pela concupiscência e isso nos fez carregar um coração despedaçado, infiel às atitudes amáveis e amigáveis, aos bons sentimentos e altos ideais, às palavras do evangelho e a culta, alta e calma instrução cristã. Ideias turbulentas, apegos passageiros e tantos pecados nos fizeram fragmentar "a sede do ser" que é o nosso coração. 

Tantos males só poderiam ser solucionados por Aquele  a quem tudo está subordinado e por Sua morte e ressurreição nos ofereceu remédio salutar. No entanto, ainda estamos neste vale de lágrimas, nesta barca em mar turbulento, nesta terra de ilusões. Antes que o Senhor subisse ao Céu rezou por nós, para nos "consagrar à verdade" e pediu para que o Pai nos protegesse do Maligno. 

Consagrados à verdade e não ao amor, veja bem, sendo Ele Caminho, Verdade e Vida. Somente a verdade pode nos tirar dessa perspectiva ilusória do mundo e nos abrir os olhos para as realidades espirituais, que são maiores e mais eficazes do que o mundo material. Veja bem, existem mais anjos do que seres humanos, o mundo espiritual é maior e mais efetivo que o material. O mundo espiritual é a realidade, a nossa realidade. Estamos consagrados à essa Verdade e protegidos, por isso, do Maligno que é o mestre das ilusões.



Amizades que nos defendem do Mal ou que nos associam ao Mal


"A modéstia dos olhos pouco nos servirá se não vigiarmos sobre o nosso coração.


“Aplica-te com todo o cuidado possível à guarda de teu coração, diz o Sábio (Pr 4, 27), porque é dele que procede a vida”

É aqui o lugar apropriado para se dizer algumas palavras sobre as amizades e, primeiramente, sobre as santas, depois sobre as puramente naturais e, enfim, sobre as perigosas.

1) Descrevendo São Paulo a corrupção moral dos gentios, enumerava entre seus vícios a falta de sentimentos e de susceptibilidade para a amizade. A amizade, segundo Santo Tomás, é mesmo uma virtude. A perfeição não proíbe se entretenham amizades, diz São Francisco de Sales; exige somente que sejam santas e edificantes, a saber, só devem ser mantidas aquelas uniões espirituais por meio das quais duas, três ou mais pessoas comunicam entre si seus exercícios de devoção, seus desejos piedosos e sentimentos nobres, tornando-se como que um só coração e uma só alma para a glória de Deus e o bem espiritual próprio ou alheio. Com toda a razão podem tais almas exclamar:

“Vede quão bom e suave é habitarem os irmãos em união” (Sl 132, 1)

São Francisco de Sales diz mais que, em tal caso, o suave bálsamo da piedade destila de coração em coração, por meio dessas mútuas comunicações, e bem se pode dizer que Deus lança Sua bênção sobre tais amizades por toda a eternidade (Filotéia, parte 3, c. 19).

Tais amizades são recomendadas pela Escritura mesma em termos eloquentes:


“Nada se pode comparar com um amigo fiel e o valor do ouro e da prata não iguala a bondade de sua fidelidade” (Eclo 6, 10)

“Um amigo fiel é um remédio para a vida e a imortalidade, e os que temem o Senhor encontram um tal” (Idem)

Mas como podeis aconselhar as amizades particulares, dirá alguém, quando elas são tão rigorosamente condenadas por todos os ascetas? Respondo: As amizades particulares são proibidas unicamente nos claustros e com toda a razão, pois é imperiosamente necessário que todos os religiosos se amem mutuamente com amor fraterno, para que haja uma vida comum clausural. Ora, num claustro, as amizades particulares podem facilmente ocasionar perturbações dessa mútua caridade, dando ocasião a invejas, suspeitas e outras misérias humanas. São Basílio não hesitou em dizer que as amizades particulares em um convento são uma sementeira perpétua de invejas, de suspeitas, de desconfianças e inimizades. O mesmo acontece nas famílias em que o pai ou a mãe tem mais carinhos para um filho que para os outros. Os filhos de Jacó odiavam a seu irmão José, porque seu pai lhe dedicava um amor especial.

Não há, além disso, nenhum motivo de se alimentar tais amizades num estado religioso, pois, num convento, onde reinam a disciplina e a ordem, todos os membros tendem ao mesmo fim, à perfeição, e não é necessário travar amizades particulares para animar-se mutuamente ao serviço de Deus e ao trabalho do aperfeiçoamento próprio.

Os que, vivendo no mundo, desejam dedicar-se à prática da virtude verdadeira e sólida, precisam, pelo contrário, de se unir aos outros por uma amizade santa e edificante, para poderem, por meio dela, se animar, se auxiliar e se estimular ao bem. Há no mundo poucas pessoas que tendem à perfeição e muitas que não possuem o espírito de Deus e, por isso, é preciso que os bons, quanto possível, evitem os que podem, impedir seu adiantamento espiritual e travam amizade com os que os podem auxiliar na prática do bem.

2) Quanto às amizades puramente naturais, deve-se dizer que elas têm seu fundamento na nossa natureza, que nos compele a amar a nossos pais, nossos benfeitores e todos aqueles em quem vemos belas qualidades e com quem simpatizamos. Esta espécie de amizade é o laço da família e da sociedade, mas facilmente degenera em amizades falsas; por exemplo, se os pais, por um carinho demasiado, toleram as faltas de seus filhos, ou se um amigo ofende a Deus para agradar a seu amigo, etc. Quanto à essas amizades, devemos notar que só são agradáveis a Deus, se as santificarmos por meio da boa intenção; por exemplo, amando a nossos pais e amigos por amor de Deus.

3) Por amizades perigosas entendem-se, em particular — as sensuais — isto é, aquelas que se baseiam sobre uma complacência sensual, sobre a fruição comum de prazeres sensuais, sobre certos dotes fúteis e vãos de espírito e coração. Essas amizades são já por si perigosas, mesmo que, no começo, nada tenham de inconveniente, e devemos guardar nosso coração desembaraçado, delas.

a) “Quem não evita relações perigosas, cai facilmente no abismo”, diz Santo Agostinho (Sermo 293). O triste exemplo de Salomão bastaria para nos encher de terror. Depois de ter sido amado tanto por Deus, servindo ao Espírito Santo de mão para escrever, travou relações com mulheres pagãs, já na sua velhice, e caiu tão profundamente que chegou a sacrificar aos deuses. Isso, porém, não nos deve estranhar, pois, será para admirar que alguém se queime, pergunta São Cipriano (De sing. cler.), permanecendo no meio das chamas?"²





Pureza Espiritual


A pureza espiritual é a harmonia entre o nosso comportamento e a nossa fé, quando os nossos comportamentos são uma expressão fiel do que acreditamos, há pureza, se existe uma fragmentação entre o comportamento e a fé, existe uma impureza, que também chamamos de desvio moral. Estas fragmentações geram erros de doutrina, imoralidade e contaminação mundana. Portanto, a pureza espiritual não se realiza num terreno etéreo e imaterial, mas sim na realidade concreta, pois, o ser humano é corpo e alma e como um conjunto de matéria e espírito, consagrado à Verdade, tem o papel de expressar em si a harmonia da matéria e da fé em ato concreto.

No entanto, diversas são as atitudes diante da contaminação. 

Jacó tinha uma filha (lembra?), o nome dela era Diná. Quando Jacó se estabeleceu entre os cananeus, em Siquém, Diná foi tomada por um heveu, príncipe da região. Apesar das ordens expressas do Senhor para que não houvessem relações entre eles e os pagãos. Jacó não foi atento e Diná foi tomada e corrompida. Além do aspecto humano do texto (talvez tenha sido um estupro), existe uma lição muito profunda sobre a pureza espiritual. Jacó não zelou pela pureza espiritual do seu clã e - veja bem - quando soube, se calou. Já seus filhos primogênitos, levados pela ira, mataram todos do clã de Siquém, para vingar Diná. Rubens perdeu a benção da primogenitura (que foi dada a Judá) por conta disso. 

Diante da impureza espiritual, pessoal e eclesiástica, podemos nos associar a Jacó ou a Rubens... os dois estavam errados. Não houve uma boa resposta para a impureza, nenhum deles pediu a Deus a resolução da situação da pobre Diná que tinha um pai patriarca e 12 irmãos e mesmo assim ninguém a estava protegendo. Depois, um se calou e dois se rebelaram, o restante só Deus sabe. 

Talvez esteja acontecendo a mesma coisa com a Doutrina ou com o nosso comprometimento numa pureza espiritual. Falta de zelo e vigilância geram um comodismo silencioso ou agitação desordenada diante da contaminação. 

No entanto, algo realmente precisa ser feito... 



Proteja a sua mente


"Tomai o capacete da salvação" (Efésios 6, 17)

Só precisa de armadura quem está em ambiente sem segurança. Só precisa de capacete quem sabe que  sua cabeça corre algum risco ou que alguém lhe mira a cabeça. Portanto, não receberíamos orientação de nos revestir de uma armadura completa se estivéssemos sem perigo eminente de receber alguns golpes. O inimigo mira a sua cabeça, a sua mente, os seus pensamentos. Este é um dos motivos de recebermos tantas informações e não conseguirmos convertê-los em conduta santa. Os pensamentos, ainda que enriquecidos de instrução, não se fortaleceram na meditação. 

A meditação é o tempo dedicado em pensamentos devotos e de amor a Deus, pensamentos que fluem da nossa fé na salvação, pensamentos que provêm do grande fluxo salvífico que o Senhor abriu para nós. Tais pensamentos nos protegem e nos fazem converter o ensinamento em conduta santa. Uma hora de meditação vale mais que muitos livros, é mais forte que muitos conhecimentos.

A meditação é capaz de converter a força dos ensinamentos em uma unidade concreta que tem uma grande ação no mundo visível. Esse tempo de cultivo pela oração mental é o que faz usar bem a espada da Palavra e o escudo da Fé. 

Esta concretude é antes de tudo para a própria vida. Purificar os próprios pensamentos, cultivar um período de elevação da mente em piedosos e devotos pensamentos e por fim transformar os ensinamentos, fortalecidos no cultivo da oração mental, em atos concretos. E então começamos a construir a fortaleza de uma mente forte. 

O inimigo mira a tua cabeça, a tua mente, para aprisioná-la às coisas baixas e vis. 

Se nos dedicamos ao cultivo de pensamentos elevados, à construção dessa muralha, já começamos, através desta constante união com Deus, a viver em pureza espiritual e gerar dardos de pureza espiritual no mundo e na Igreja. Como um raio luminoso que dissipa as trevas, simplesmente por existir.



Dissipando as trevas da mente


Os pensamentos pecaminosos só podem ser vencidos por pensamentos piedosos, se a mente está repleta de um não tem espaço para o outro. No entanto, vivemos num mundo que realmente nos puxa para o lodo. Mas podemos nos munir de alguns bons comportamentos que nutrem bons pensamentos e que (como num ciclo) geram comportamentos ainda melhores.

- Confissão dos pensamentos que, mesmo sem serem praticados (portanto, não são pecado), rondam a mente e o coração,
- Bons livros,
- Boas amizades,
- Meditação,
- Tempo dedicado para tal,
- Boa música,
- Um altar em casa (com vela e incenso, de preferência),
- Verificar se a nutrição corporal está boa (falta de boa nutrição gera "nuvem mental")
- Vida ascética dentro do estado de vida,
- Uso de sacramentais com frequência: água benta, sal bento.
- Se for uma perturbação mental passageira, verificar donde vem e se afastar dela.
- Cordão de São José
- Oração de São João Crisóstomo



Referências


1) AZEVEDO C.SS.R., Padre Oscar das Chagas. As Doze Virtudes para cada Mês do Ano. Editora Vozes, p. 102-118

2) OMER C.SS.R., Padre Saint. Escola da Perfeição Cristã para Seculares e Religiosos: Obra compilada dos escritos de Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja. Editora Vozes, 1955, p. 186-204


3) JERUSALÉM, B. de. Bíblia de Jerusalém. 10. ed. São Paulo: Paulus, 2015.


















Artigo original em 23/06/2018
Atualização em 31/05/2023

"Quais são os nossos olhares? Olhares de apropriação, destruição, sedução, incompreensão, reprovação? Talvez seja preciso começar mergulhando nossos olhares nos olhares do Filho, para ver de maneira diferente. Talvez seja preciso deixar crescer em nós o desejo intenso de conhecer o Filho, de modo a se parecer com Ele. Talvez seja preciso reconhecer todas as nossas cegueiras aceitando oferecer-nos à luz fulgurante de Cristo. Mas como se precisa de tempo para se adaptar, ou se readaptar a Deus."
Cônego Constant Tonnellier


Os olhos

 

“Os olhos são a candeia do corpo” (Mt 6, 22).

“Ver, de certa forma, é apropriar-se daquilo que se vê. Temos um exemplo disso na história de Giges, guarda de confiança de Candaules, rei da antiga Lídia. Tendo visto a rainha despida - por insistência do próprio rei, que exaltava a beleza da esposa - Giges apaixona-se por ela, mata o soberano, toma-a para si e apossa-se do trono” (Heródoto I, 8-14).






Graças aos olhos, contemplamos o mundo; no entanto, também pelos olhos somos atraídos à cobiça. Como Eva, ao ver o fruto proibido antes de pegá-lo, apropriou-se dele primeiro pelo olhar e depois pelo tato.

O olhar é um dos sentidos mais comprometidos na queda tão conhecida do Éden; assim também aconteceu com a audição, pois são as duas portas para o mundo do pensamento.





Estas portas estão defeituosas desde a queda e podem ser reedificadas com a devida Ordem que a Luz de Deus oferece. 


Todos nós estamos fixados em realidades terrenas, tomando por beleza o que nada tem de eterno, instigados a encarar a vida como um monólogo reativo de uma pessoa trancada numa sala de espelhos distorcidos. 





Qual a essência da beleza? 



Essa é a busca dos olhos. Sua função é ser janela para uma realidade intangível e, muitas vezes, invisível e indecifrável, captando as suas nuances no visível. Esta é a busca e o deleite dos olhos.

Ao olhar uma obra de arte, não saber qual cor ou pincelada a fez ser bela, mas é bela. Ao olhar uma pessoa, ver que não são os apetrechos que a tornam bela, ela é bela. Olhar uma paisagem e não saber identificar qual árvore ou cor a faz bela, mas é bela. A beleza vem do mistério, do simples oculto, da perfeita percepção de que a fonte daquela beleza não é terrena e não se apoia em coisas terrenas.

Apreciar a beleza é um ato espiritual, e a beleza em si é sempre etérea.





Por isso, tanta destruição advém dos padrões e limitações impostos pela cegueira do mundo. Tornamo-nos incapazes dessa abertura à essência do belo, pois a beleza está no que não vemos.





Interessantemente, a geração que mais se distanciou do apreço pela essência da beleza é a mesma que abraçou o despudor com todas as forças. Mostra-se absolutamente tudo, e as formas de arte são caóticas. Não existe o apreço pelo oculto e, muito menos, pela essência oculta e fundamental da beleza. Assim, para que alguém seja apreciado, é preciso mostrar que se esforçou por esse apreço; é preciso esfregar na cara, já que a sensibilidade às sutilezas invisíveis da beleza não existe. É preciso, então, instalar-se numa expressão artística, pessoal ou social que deseja ser vista, atender às expectativas modernas, temporais e caóticas, para então ser devidamente apreciado. Para o nosso espanto, nem mesmo os cristãos escaparam da dinâmica do caos.





A nossa cegueira criou uma ditadura da aparência e deu a isso o nome de beleza. Mas a beleza é, antes de tudo, ser, uma essência que simplesmente existe nas coisas e pessoas belas em si mesmas. A beleza é espiritual, expressa na pureza e ordem da forma (harmonia), nas virtudes (equilíbrio espiritual), na verdade (canal das verdades eternas).




Nas artes, não se trata de uma pauta ou uma emoção, e na vida cotidiana, não se trata de acessórios. A essência da beleza é a recepção da luz fulgurante de Cristo, é a adaptação à existência em Deus e à sua beleza. Essa existência em Deus nos permite perceber a beleza de uma obra de arte, de uma pessoa, de uma paisagem, pois temos o olhar receptivo à essência da beleza, que não sabemos muito bem definir como uma coisa específica (na obra de arte, na pessoa ou na paisagem); simplesmente está lá e é belo, pois, de alguma forma, invisível e inacessível, está ligado ao Supremo Belo.



 


Referências


JERUSALÉM, B. de. Bíblia de Jerusalém. 10. ed. São Paulo: Paulus, 2015. Disponível em: https://amzn.to/3qmzBCe.

OLIVEIRA, J. V. G. de. Filosofia da Beleza. Rio Bonito: Editora Benedictus, 2022. 200 p. (Coleção Arte de Beleza). Disponível em: https://amzn.to/3C1lZz0.

NUNES, B. Introdução à Filosofia da Arte. São Paulo: Edições Loyola, 2016. 116 p. Disponível em: https://amzn.to/43xVApb.

TONNELIER, C. 15 de Dias de Oração com São João da Cruz. Paulinas, 2011. 104 p. Disponível em: https://amzn.to/3GO5PvE.









Que coisa engraçada são os caminhos cibernéticos. Eu, que detesto comoções — a pessoa mais pacata do interior de São Paulo — acabo de invadir o Panteão do Instagram, sem querer. Acabei por mexer com divindades, entrei no território da prestação de culto.

Que coisa mais esquisita. No entanto, como se trata do Instacrazy, a ferramenta mais eficaz de embotamento da mente até o momento, não é tão espantoso.

Tudo aconteceu quando eu, em minha pacata e simples palestra, me referi às “deusas do Instagram” — as quais eu não sabia serem divindades da toallet feminina. Qual não foi o choque de seus devotos com minha fala! Tão chocados ficaram que não leram o nome da palestra: “A Mulher e a Vida de Estudo.”

No entanto, a Providência me deu uma prova concreta do que eu falei na palestra (que a maioria não assistiu). Olha só que maravilha! As mentes estão tão embotadas que leem e escutam segundo as emoções e fruições, achando ser possível dar algum parecer neste estado de espírito. Ou seja, o tão conhecido — e nada curado — analfabetismo funcional. Munidos de seus celulares e afetação, ainda estamos às voltas, sem nenhuma correção intencional, no primeiro degrau da longa escada rumo ao brejo (no qual já estamos): as pessoas não leem o que está de fato escrito, não escutam o que de fato está sendo dito. Os sentimentos são os seus conselheiros — e seus interesses, terrenos. Superficialidade.








Basta fazer um teste: observe o que você faz no dia, além do trabalho e das tarefas (espero que esteja fazendo-as). As coisas que mais assiste no Instagram, no YouTube, na Netflix e outros — esses são os seus interesses. Se só existe isso, se não há um bom livro, um bom podcast, uma pregação, um bom filme... bem, isso é muito ruim. Principalmente se todos os seus interesses consistirem em materiais com segundos de duração.

Talvez seja por isso que incomode.







Não sei exatamente se temos alguma esperança em mudar tudo isso. O número é enorme em comparação com uma pá de gente que vê todo o caos. Mas é, de certa maneira, interessante observar como tudo é absurdo e hilário ao mesmo tempo.

Veja bem: somente a aparição de uma mulher já é identificada como feminismo em algumas mentes. Claro que algumas motivações podem ser, de fato, um resquício do conteúdo feminista — mas isso não significa que não deva existir a presença feminina de forma católica e cristã, justamente para alinhar tais resquícios.

Eu sempre defendo a máxima de que os filhos de Deus são inteligentes — mas, em alguns momentos, é bem desafiador.








Por fim, tenho um amigo que passou este dia bem-humorado por conta das reações à minha invasão não intencional — já que eu, a maior inimiga de likes, views e brigas de internet, e que não liga pra nada disso, havia gerado todos eles, juntos. Ele tem razão em achar graça...

Mas eu ainda penso: esses são as mães e os pais dos filhos de Deus... minha nossa...

  











  





Você parece perdido entre tantas falas, stories, orientações e “conselhos”. Parece que tantas opiniões não têm lhe feito bem. Não está progredindo na virtude e tem interesses pouco edificantes, temporais.

O Evangelho é radical, mas é simples. Você não deveria se sentir tão amuado e soterrado. O Evangelho faz resplandecer em nós paz e graça — só o Evangelho pode lhe dar a sua “melhor versão”. Então, não se perca nas falas fora do Evangelho.

Se você quer seguir uma virtude, busque purificar a sua intenção. Que ela vise agradar a Deus — e não somente conseguir tal rapaz, mulher ou status. Este pensamento é o pensamento do mundo. Não vem do Senhor. Nós devemos buscar as coisas do alto, e tudo o mais nos será acrescentado.

Peça a virtude. A maior parte das pessoas ainda está correndo como quem não sabe para onde vai — como aqueles cachorros do conto medieval: “Um cachorro viu uma lebre e saiu correndo. Os outros cachorros o viram e também correram, mas como não viram a lebre, se cansaram e pararam. Mas aquele que viu a lebre não parou.” Seja aquele que viu e almeja a graça da virtude — e não alguém que só segue o fluxo.

A virtude nunca nos faz sentirmo-nos perdidos. Antes, nos enraíza e fortalece. Você se tornará você mesmo.

A sua “melhor versão” é o resultado da adesão honesta e sincera às orientações do Senhor em Seu Evangelho — é só isso. Tenha uma vida sacramental, busque ser virtuoso, coloque as virtudes como metas importantes, modere o seu comportamento e reze todas as noites para receber a graça da virtude. Escolha uma específica e foque nela, depois em outra — e assim por diante. É nesse processo que está toda a nossa paz e alegria: em se deixar trabalhar pelo Nosso Belo Jardineiro.

Descubra o seu talento — ou talentos. Use-os. Executá-los é que lhe dará sucesso. Sucesso é estar em paz com os caminhos trilhados, é ser inteiro, viver na integralidade com os olhos na eternidade, sem as fragmentações que os caminhos humanos oferecem.

Saia do fluxo de opiniões sem fim. Fique sob o olhar de Um Só — a plateia de Um Só. Nisto está toda a paz e direcionamento. Você se tornará uma flecha nas mãos do Arqueiro: direcionada, harmônica e feliz por fazer o que uma flecha deve fazer. Que você cresça em graça e virtude.

Crescei na graça e no conhecimento (2 Pedro 3, 18).


Singelamente, Ana









Hoje é o primeiro sábado do mês de maio. Nesta manhã, notei que não escrevo uma crônica há tempos. Talvez seja por estar a notar, com certo interesse, um fenômeno que agora se faz visível.

Os padres estão perdidos — em crise, na verdade. E a razão da inquietude é: “só na Igreja Católica existe a salvação”.

Esta frase causa inquietação em muita gente, e os padres não são exceção. Mas como eles são os teólogos desta barca chamada Igreja, a coisa fica um pouco pior quando são eles que entram em crise existencial — ou melhor, teologal.

Acontece que, como você deve ter notado, um número considerável de padres assumiu uma teologia que é o resultado de uma série de junções de ideias. Muitas dessas ideias não casam umas com as outras. De modo que temos um híbrido de muitas cabeças. Tenho pra mim que isso não é intencional — eles sofrem com isso, afinal, entraram em crise.

Esta crise tem uns sintomas, e foi por isso que não escrevi por tanto tempo. Veja só, por exemplo: o padre acredita que fora da Igreja há salvação. Ok. Não é um pensamento tão estranho para o nosso tempo. Eu, particularmente, acho que Deus pode fazer o que bem entende — peço só que eu possa ficar com Ele. Não me importa quem Ele quer salvar. No entanto, uma coisa é o que eu acho, e outra é o que Ele disse.

Ele disse que quem acreditar em Seu nome será salvo, que temos que evangelizar os povos e batizá-los, que é preciso se arrepender e converter. Disse que Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida — no singular, não no plural.

Bem, é aqui que começa a crise dos padres. As palavras do Senhor não casam com o programa do “Céu para todos”. Existem alguns passos que são absolutamente inegociáveis.

Na verdade, é tudo muito simples: a pessoa que está fora da Igreja pode se salvar se converter-se (todo mundo sabe disso). Depois, existe o grupo dos bons que não conhecem a Jesus e Sua Igreja — eles podem se salvar se trilharam, na medida do que sabem, um bom caminho. São pessoas que, se tivessem conhecido o Evangelho e a Igreja, teriam se convertido. Existe, realmente, uma penca de gente nesta situação — pessoas que são boas, mas nasceram na heresia e ali ficaram; pessoas de outras denominações que não conhecem nada da catolicidade. Existem outros fatores, mas, resumidamente, é isso.

É por isso que existem missionários, inclusive.

Outro caso, porém, é daqueles que conhecem a Jesus e O negam solenemente. Aí a história muda — e muito.

No entanto, como os padres estão em crise, não especificam mais estas coisas. O mesmo padre que diz que todo mundo vai pro Céu, que existe salvação em todo lugar, reza por missionários e vocações. Se é assim, missionários pra quê, reverendo? Vocações que se entregam totalmente pra quê, se todo caminho dá no mesmo lugar? Também rezam o “Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica” no Credo. Não faz nenhum sentido. E o pior: eles não notam! Ou é o que parece. Fico sempre assombrada com essa parte. São incoerências gritantes — uma separada da outra por alguns minutos.

Muitos acham que são os leigos que estão perdidos. Eu não acho. São os padres. Às vezes dá vontade de dizer: “Padres, pelo amor de Deus, parem de bater a cabeça na parede. Não é de bom tom, não tá pegando bem.” Um padre não acreditar na própria Igreja é puxado — vários então...

Todos estão em crise e fingem que não estão. Normalmente, quando notamos uma crise, pensamos: “Preciso fazer alguma coisa” e depois “Preciso de ajuda e conselho”. Ao menos, é o mais prudente. Os padres, não — eles pegam o microfone (seu escudo do poder) e fazem reafirmações de suas crenças teológicas que não casam com o Evangelho.

Eu não sei se estou sendo clara, mas o que quero dizer é que os padres estão se sabotando — sabotando as vocações — e ficando bem transtornados por causa disso, emocionalmente e psicologicamente mesmo. Não sei se eles notam que estão fazendo isso, pois o conjunto de ideias pré-concebido é bem forte.

A sabotagem é tão forte que o padre mina a própria vocação. Veja bem: o padre foi ordenado para levar almas para o Céu, mas agora ele acredita que todos os caminhos dão no Céu — basta ter um ursinho carinhoso dentro de si. Não precisa de conversão, nem arrependimento. Pronto, formou-se o abismo. Pra quê temos que ter padre? Ele está lá fazendo tudo aquilo pra quê?

Deste questionamento, é fácil começar a duvidar e se perguntar: “Para quem?”

Esperemos em Deus que os padres deem um passo adequado. Peçam ajuda.

Nossa Senhora do Bom Sucesso, rogai por nós!

 


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Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)



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