Crônicas: Desviar os olhos das coisas inúteis

by - sábado, setembro 09, 2023





Os dias passam. Talvez seja essa a sensação reinante na maioria das almas. Os dias passam. Mesmo com tantas coisas por ler, estudar, viver. Os dias passam. Mesmo com tantos filmes, passeios, conversas e pessoas que vêm ou vão. Os dias sempre passam. Plasmando em nós algo como o estado interior de Salomão, ao dizer que tudo é, no fim, vão. Este estado, embora extremamente lúcido, possui a desvantagem de engendrar na alma certo enfado.

Me lembro sempre dos atenienses a quem São Paulo e São Barnabé disseram:

“Homens” – clamavam eles –, “por que fazeis isso? Também nós somos homens, da mesma condição que vós, e pregamos justamente para que vos convertais das coisas vãs ao Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo quanto neles há. Ele permitiu, nos tempos passados, que todas as nações seguissem os seus caminhos. Contudo, nunca deixou de dar testemunho de si mesmo, por seus benefícios: dando-vos do céu as chuvas e os tempos férteis, concedendo abundante alimento e enchendo os vossos corações de alegria.” (Atos 14, 15-17)

Os atenienses tinham sede de novidade, ficavam esperando por elas. Esperar sempre por algo acontecendo, numa obsessão por novidade, gera um extremo enfado na alma — uma apatia mordaz que a impede de ver as maravilhas de Deus, de se maravilhar.

“Nunca deixou de dar testemunho de si mesmo, por seus benefícios.”

Maravilhar-se. O Senhor dá testemunho de Si, todo o tempo. Essa correspondência silenciosa nutre a alma e o corpo, estimula a mente, acalma o coração.

Para nós, acredito, não tem sido fácil. Nossos olhos estão a receber luzes de diversas partes — luzes falsas que só geram escuridão e desânimo na alma. Somos bombardeados por diversas falas, notícias e conteúdos. Não notamos, com olhar atento, os testemunhos que Deus nos dá de Si mesmo no cotidiano. Os dias passam — e passamos o dia.

“Desvie meus olhos de olhar para coisas inúteis; e dá-me vida nos teus caminhos.” (Salmo 119, 37)

Hoje escrevo depois de um dia de coração cansado, mas tentando pensar nos testemunhos que Ele me deu dEle mesmo. Hoje estava resolvendo coisas burocráticas, mas recebi dois ótimos atendimentos — fiquei até constrangida com a dedicação. Depois, um senhor passou por mim e disse “a paz” (eu sempre respondo ou dou um aceno de cabeça respeitoso) e, logo depois, voltou dois passos e disse: “Você é católica, né? Devota de Nossa Senhora?”

Sabe... uma das coisas mais difíceis é “falar sem dizer nada”. É cansativo se não estamos atentos aos testemunhos do Senhor de Si mesmo. Sinto que ainda não tenho o talento para colocar o coração em palavras... O Senhor está tão comprometido em não nos deixar — é tudo o que consigo escrever — e em dar-nos vida em Seus caminhos.

Os dias passam, as pessoas passam, as conversas passam, algumas amizades passam, lugares passam; Deus não passa. Só precisamos desviar os olhos das coisas inúteis e buscar a correspondência silenciosa que o Senhor cotidianamente nos envia.

“Desvie meus olhos de olhar para coisas inúteis; e dá-me vida nos teus caminhos.” (Salmo 119, 37)






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