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Salus in Caritate

Os Bosques de Nom Kinnear King


Controle Cerebral e Emocional: Psicologia Pastoral e Educação da Vontade


Professora Ana Paula Barros¹



Resumo


O presente artigo analisa a obra Controle Cerebral e Emocional, do padre Narciso Irala, à luz de uma abordagem interdisciplinar que articula espiritualidade cristã, psicologia aplicada e formação humana. Escrita em meio às tensões emocionais e culturais do século XX, a obra propõe uma pedagogia da vontade como caminho para o equilíbrio psíquico, o amadurecimento moral e a cura interior. Com linguagem acessível, tom pastoral e fundamentos práticos, Irala integra a teologia prática à psicologia para oferecer um modelo de desenvolvimento pessoal sustentado nas virtudes cristãs, nos sacramentos e no fortalecimento da consciência. A permanência da obra em círculos religiosos, educativos e espirituais aponta sua atualidade diante das crises de sentido, ansiedade e fragmentação interna que marcam o mundo contemporâneo.

Palavras-chave: Padre Narciso Irala; faculdade da vontade; formação humana; psicologia pastoral; saúde mental.




1- Contexto Histórico e Biográfico


A trajetória de vida do padre Narciso Irala (1896–1988) ilumina com rara coerência o conteúdo e os objetivos de sua obra Controle Cerebral e Emocional. Jesuíta espanhol radicado no Brasil, Irala foi missionário, psiquiatra e conferencista internacional — um homem inserido tanto no universo espiritual da Companhia de Jesus quanto no campo emergente da psicologia aplicada à vida cotidiana.

Sua longa missão na China, que durou vinte e dois anos, ocorreu em um cenário de intensas transformações políticas e culturais. O país vivia os efeitos de guerras civis, da invasão japonesa e da consolidação do regime comunista — período em que a repressão religiosa atingiu diretamente as comunidades cristãs. Irala conviveu com perseguições, deslocamentos forçados e viu de perto os impactos psicológicos causados por contextos extremos de medo, escassez e perda de sentido. De volta ao Brasil, trouxe na bagagem não apenas relatos de fé cristã e sobrevivência, mas também o compromisso de encontrar formas práticas para ajudar, de forma séria, aqueles que sofriam interiormente.

É desse espírito que nasce sua obra mais conhecida, publicada em 1964, quando o mundo vivia outra forma de tormento: a ansiedade moderna. A década de 1960 marca o auge da psicologia comportamental e o nascimento de correntes humanistas que buscavam compreender o ser humano em sua totalidade. No campo religioso, a psiquiatria pastoral florescia como uma tentativa de integrar espiritualidade cristã e saúde mental. Nesse contexto, Controle Cerebral e Emocional apresenta-se como uma síntese ousada e acessível: um manual de higiene mental, escrito por um padre com formação científica, dirigido tanto aos crentes quanto aos secularizados em busca de equilíbrio interior.

O livro responde à fragmentação típica do sujeito moderno, oferecendo ferramentas para o domínio dos pensamentos, o fortalecimento da vontade e a reconciliação entre emoção, razão e fé. Nas palavras do próprio autor, trata-se de um guia não apenas para os que sofrem psiquicamente, mas também para os que aspiram a “maior eficiência em seus estudos ou empresas” e “maior alegria, satisfação e felicidade interna”. Ao mesmo tempo simples e profundo, o texto reflete o esforço de um tempo em que espiritualidade cristã e ciência ainda buscavam um idioma comum — e onde o sofrimento humano exigia respostas práticas.


“Dedicamos esta edição, primeiramente, aos que já sofrem psiquicamente, aos nervosos ou cansados por excesso de trabalho, de preocupações ou de sofrimento. Aos que sentem diminuído seu controle de pensamentos e emoções e não conseguem nem descansar, nem dormir sossegadamente, nem sabem dominar suas antipatias, desalentos, temores ou tristezas.

Em segundo lugar, aos sãos que desejam ter maior eficiência em seus estudos ou empresas, maior energia e constância em seus propósitos, maior domínio de seus sentimentos ou instintos, maior alegria, satisfação e felicidade interna.

Em terceiro lugar, aos educadores e aos diretores espirituais que se deparam com casos difíceis para fazer adiantar no estudo ou na virtude, seja pela divagação mental, debilidade psíquica, indecisão ou preguiça volitiva, seja por paixões desenfreadas, fobias ou temores irracionais, ou sentimento de inferioridade.

Queremos oferecer um manual prático de higiene mental e de alegria interna, não um tratamento de psicologia ou psicoterapia.”




2- Gênero Literário e Estratégias Discursivas


A obra Controle Cerebral e Emocional, de padre Narciso Irala, insere-se no campo híbrido entre o manual de autoajuda e o tratado espiritual. Embora não se defina como obra de psicologia ou psicoterapia, apresenta-se como um guia prático de higiene mental e formação interior, destinado a leigos e religiosos que enfrentam dificuldades emocionais, desequilíbrios afetivos ou desafios de ordem espiritual. Seu gênero literário pode ser identificado como um manual de autoajuda espiritual, combinando uma estrutura didática, com capítulos temáticos curtos, linguagem acessível, exemplos cotidianos e um tom pastoral e orientador que aproxima o leitor da figura do autor.

O narrador da obra assume uma postura instrucional, dirigindo-se frequentemente ao leitor em segunda pessoa e fazendo uso recorrente de verbos no modo imperativo. Essa estratégia discursiva tem duplo efeito: por um lado, provoca engajamento direto e interpessoal; por outro, cria um ambiente de orientação confiável, como se o autor atuasse simultaneamente como conselheiro, diretor espiritual e mentor terapêutico. O apelo ao “você” confere à obra proximidade emocional e encoraja o leitor à prática das sugestões propostas.

O estilo do texto é claro, direto e funcional, evitando os jargões técnicos da psicologia clínica, mas incorporando conscientemente conceitos fundamentais da psicoeducação, como atenção concentrada, disciplina volitiva, canalização da energia mental e racionalização dos afetos. Em vez de uma abordagem teórica ou acadêmica, Irala opta por um discurso aplicado e experiencial, com ênfase em exercícios, observações práticas e princípios que podem ser integrados ao cotidiano do leitor.

Outra característica significativa da obra é a intertextualidade implícita com a tradição cristã, especialmente a bíblica e a patrística. Sem recorrer a citações extensas ou à erudição teológica, Irala mobiliza o léxico das Escrituras, a moral ascética dos primeiros monges e os ideais de virtude cristã como pano de fundo de sua argumentação. Conceitos como humildade, paciência, pureza de coração, faculdade da vontade e luta interior ressoam de forma natural ao longo da narrativa, permitindo ao leitor reconhecer no discurso um alicerce espiritual cristão reconhecível, ainda que discretamente apresentado.

Nesse sentido, o livro constrói uma linguagem pedagógica e espiritual que o torna acessível tanto aos que compartilham da fé cristã quanto àqueles que buscam apenas orientação prática e psicológica, já que a moral cristã está no manto cultural do Ocidente, portanto, é um manto moral comum. A força da obra reside justamente na confluência entre doutrina e técnica, moldando um gênero literário que escapa às classificações estritas, mas que se mostra notavelmente eficaz em seu propósito formativo.



3- Formação Humana e Educação da Vontade


No cerne de Controle Cerebral e Emocional está a convicção de que a vontade humana é a principal alavanca do equilíbrio psíquico e da maturidade espiritual. Para o padre Narciso Irala, é o fortalecimento dessa faculdade — com frequência desprezada ou enfraquecida na educação moderna — que permite ao indivíduo conquistar maior autonomia diante de seus impulsos, traumas e desequilíbrios. A obra apresenta a vontade não apenas como um recurso psicológico, mas como uma dimensão da alma que precisa ser treinada, disciplinada e direcionada para o bem, como parte da formação integral da pessoa.

Ao tratar da formação humana, Irala aborda temas universais e existencialmente delicados: ira, tristeza, medo, sexualidade, trabalho, estudo, descanso e o sentido da vida. Em cada um desses domínios, ele mostra como a ausência de controle emocional ou a dispersão mental prejudica a realização pessoal, o desempenho intelectual e a vida espiritual. Sua proposta não é reprimir emoções, mas educá-las por meio do autoconhecimento, da prática deliberada da atenção e da “canalização da energia interior”.

De modo extremamente prático, o autor oferece exercícios para o desenvolvimento da concentração, da respiração consciente, da vigilância mental e da disciplina dos pensamentos. Esses métodos são apresentados de forma simples, quase cotidiana, para que sejam incorporados sem dificuldade pelo leitor comum — embora carreguem uma sofisticação teórica enraizada tanto na espiritualidade inaciana quanto nas descobertas da psicologia.

As ideias de Irala dialogam implicitamente com pensadores como Jules Payot, autor de A Educação da Vontade, e William James, cuja psicologia pragmatista exaltava a autodisciplina, a força do hábito e a construção da personalidade por meio da escolha consciente. Em sintonia com esses autores, Irala acredita na “plasticidade” humana: ela é capaz de se moldar, resistir, recomeçar, desde que a vontade esteja desperta e treinada.

Essa abordagem faz com que o livro se torne um tratado pedagógico sobre o amadurecimento moral e existencial do ser humano. Ao unir razão, cristianismo e ação, Irala oferece uma pedagogia da vontade que busca restaurar no indivíduo a confiança em sua capacidade de crescer por dentro — e, assim, encontrar sentido mesmo em meio às crises emocionais mais brutais.



4- Espiritualidade Católica e Psicologia Aplicada


Um dos traços mais especiais de Controle Cerebral e Emocional é a maneira harmoniosa com que padre Narciso Irala integra psicologia e cristianismo, sem sacrificar a profundidade de nenhuma das duas dimensões. O autor apresenta uma proposta de amadurecimento humano que se ancora tanto na compreensão científica da mente quanto nos recursos sobrenaturais da vida sacramental. Nesse sentido, sua obra antecipa muitos dos debates contemporâneos sobre saúde mental integrativa e teologia prática.

Irala sustenta que a verdadeira cura da angústia, da ansiedade e das perturbações emocionais não pode prescindir de uma base espiritual sólida. No entanto, sua espiritualidade é concreta e aplicada, centrada na prática das virtudes cristãs como meios eficazes de reeducação do caráter. Humildade, paciência, esperança e caridade são vistas não apenas como mandamentos morais, mas também como ferramentas terapêuticas: disposições internas e externas que reorientam o sujeito, fortalecem sua estabilidade interna e promovem o reencontro com o sentido mais profundo da existência.

A obra também destaca a importância dos sacramentos como apoio psíquico. A confissão é apresentada como uma via privilegiada de alívio da culpa e reconciliação; a eucaristia, como alimento da alma e renovação das forças; e a direção espiritual, como o espaço de escuta e esclarecimento gradual dos conflitos interiores. Com isso, Irala resgata um entendimento tradicional católico, segundo o qual a saúde da alma e do corpo andam juntas — e segundo o qual Deus não apenas salva, mas também sustenta e cura.

Ao mesmo tempo, o autor adota uma postura crítica frente à medicalização excessiva da dor psíquica, que tende a reduzir os sofrimentos humanos a meras disfunções bioquímicas. Sem negar a importância da medicina ou da psicoterapia, Irala propõe que a chave da superação está, muitas vezes, na reeducação da vontade, no fortalecimento da consciência moral e no cultivo da graça divina. Para ele, a pessoa não deve ser tratada apenas como um mecanismo falho, mas como um ser livre, vocacionado à superação e à comunhão com Deus.

Assim, o livro oferece uma “espiritualidade encarnada”, que não se isenta do esforço psicológico, nem da disciplina interior, mas tampouco despreza o auxílio invisível da fé. Essa articulação entre alma e psique, graça e razão, estrutura uma proposta de formação integral que permanece pertinente — especialmente num tempo em que a busca por sentido e equilíbrio se tornou, novamente, uma urgência.



5- Recepção e Atualidade


A permanência da obra Controle Cerebral e Emocional no repertório formativo de educadores, religiosos e leigos aponta sua capacidade de atravessar décadas sem perder relevância. Embora concebido em meados do século XX, o livro encontra eco no século XXI, particularmente em contextos marcados por ansiedade generalizada, esgotamento emocional (burnout) e crise de sentido. Sua linguagem acessível e seu foco na reeducação da vontade oferecem um contraponto prático e espiritual a uma cultura que, muitas vezes, busca soluções rápidas e externas para dilemas internos.

Nos meios religiosos e educacionais, a obra foi prontamente acolhida como um recurso valioso. É comum encontrá-la presente em retiros espirituais, programas de formação humana, direções espirituais e até mesmo em escolas e comunidades paroquiais, onde auxilia no desenvolvimento da atenção, da constância e da maturidade afetiva. Ao abordar de forma direta as dificuldades emocionais que comprometem o rendimento escolar, o trabalho e a vida familiar, Irala se conecta com realidades muito próximas do cotidiano dos leitores, o que garante à obra sua resiliência editorial e pedagógica.

Apesar de seu valor formativo evidente, a obra não escapa a algumas limitações críticas. A principal delas reside na ausência de um aprofundamento clínico, o que a torna inadequada como substituta para acompanhamento psicológico ou psiquiátrico em casos mais graves. Além disso, alguns críticos podem identificar certa idealização da força de vontade, como se todos os problemas pudessem ser resolvidos apenas por disciplina e firmeza moral, uma premissa que, em contextos de transtornos mentais severos ou vulnerabilidades neuropsicológicas, pode não ser suficiente e até contraproducente.

Ainda assim, é justamente nesse equilíbrio delicado entre esforço pessoal e abertura à graça que o livro se consolida como uma ponte entre a psicologia pastoral e a espiritualidade laical. Sua proposta pode ser vista como precursora de iniciativas contemporâneas que buscam integrar fé, saúde mental e vida cotidiana. Oferecendo orientação segura, linguagem fraterna e confiança na capacidade de superação do ser humano, a obra continua sendo uma leitura oportuna para os que desejam compreender e guiar o coração humano em tempos de reconstrução interior ou em tentativas de iniciá-la.




Referências

IRALA, Narciso. Controle cerebral e emocional. 1. ed. São Paulo: Editora Castela, 2018.





¹Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)









Filoteia – Introdução à Vida Devota

Profª Ana Paula Barros



RESUMO

Este trabalho tem como objetivo analisar a obra Filoteia: Introdução à Vida Devota, de São Francisco de Sales (aqui), sob a perspectiva dos estudos literários, filosóficos e culturais. Publicada em 1609, a obra se destaca por sua linguagem acessível, estrutura pedagógica e proposta de espiritualidade integrada ao cotidiano. O estudo parte de uma contextualização histórica e biográfica do autor, inserido no cenário da Contra-Reforma e do barroco europeu, para compreender como Filoteia dialoga com os dilemas existenciais e culturais do século XVII. A análise da estrutura da obra revela uma divisão em cinco partes, que orientam o leitor por um caminho espiritual progressivo, combinando exercícios devocionais, práticas éticas e reflexões sobre virtudes.

Palavras-chave: Filoteia; catolicismo; literatura barroca.


1- INTRODUÇÃO



São Francisco de Sales (1567–1622), bispo de Genebra e figura proeminente do humanismo cristão, é reconhecido não apenas por sua atuação pastoral, mas também por sua contribuição à literatura espiritual europeia. Sua obra Filoteia: Introdução à Vida Devota, publicada originalmente em 1609, ultrapassa os limites da literatura religiosa ao se configurar como um tratado de estilo refinado, linguagem acessível e profunda sensibilidade estética (sensibilidade de oportunidade de apreensão pelos sentidos). Escrita em francês — e não em latim, como era comum na época — Filoteia visa o leitor comum, propondo uma vida devota integrada ao cotidiano, "estar no mundo sem ser do mundo".


O humanismo cristão é uma corrente filosófica e cultural que busca integrar os valores do humanismo — como dignidade, liberdade, razão e responsabilidade — à visão teológica cristã, reconhecendo o ser humano como imagem de Deus e protagonista da história. Surgido no final do século XV, especialmente com pensadores como Erasmo de Roterdã e Thomas More, o humanismo cristão propõe uma renovação espiritual e intelectual da sociedade, conciliando fé e cultura, religião e ética. Ao contrário do humanismo antropocêntrico do Renascimento, que colocava o homem no centro do universo, o humanismo cristão é teocêntrico: parte da revelação divina para afirmar a centralidade da pessoa como ser relacional, vocacionado ao bem comum e à transcendência. Essa perspectiva influenciou profundamente a educação, a política e a arte europeias, também é uma das nascentes do personalismo.


A escolha de Filoteia como objeto de estudo literário se justifica pela riqueza de sua linguagem, pela estrutura narrativa que combina instrução e educação emocional, e pela relevância cultural da obra como documento histórico e artístico. Em um momento em que a literatura espiritual é frequentemente relegada ao campo exclusivo da teologia, este trabalho propõe uma abordagem que valoriza sua dimensão estética, filosófica e crítica.




2- CONTEXTO HISTÓRICO E TEOLÓGICO


São Francisco de Sales nasceu em 21 de agosto de 1567, no castelo de Sales, na região da Sabóia, atual França. Proveniente de uma família nobre, recebeu formação humanista e religiosa desde cedo, estudando retórica, filosofia e teologia em Paris e Pádua. Em 1593, foi ordenado sacerdote e, posteriormente, nomeado bispo de Genebra, em 1602. Sua atuação pastoral foi marcada pela mansidão, pela pedagogia espiritual e pela defesa da fé católica diante dos desafios impostos pela Reforma Protestante.

O século XVII foi um período de intensas transformações religiosas na Europa. A Reforma Protestante, iniciada no século anterior, provocou rupturas profundas na cristandade ocidental, levando à consolidação de diversas confissões religiosas. Em resposta, a Igreja Católica promoveu a chamada Contra-Reforma, tendo o Concílio de Trento (1545–1563) como marco regulador da doutrina, da liturgia e da disciplina eclesiástica. Nesse contexto, surgiram figuras como São Francisco de Sales, que buscaram não apenas reafirmar os dogmas católicos, mas também renovar a espiritualidade cristã por meio de uma abordagem mais acessível, afetiva e voltada ao cotidiano dos fiéis.

O Barroco europeu, desenvolvido entre o final do século XVI e meados do século XVIII, constituiu um movimento artístico e cultural profundamente influenciado pelas tensões religiosas da época, especialmente pela Reforma Protestante e pela Contrarreforma Católica. A Reforma, iniciada por Martinho Lutero em 1517, promoveu uma ruptura com a autoridade da Igreja de Roma, defendendo a centralidade das Escrituras e a salvação pela fé. Em resposta, a Igreja Católica intensificou sua ação pastoral e doutrinária por meio da Contrarreforma, consolidada pelo Concílio de Trento (1545–1563), que reafirmou os dogmas católicos e incentivou o uso da arte como instrumento de catequese e persuasão. Nesse contexto, o Barroco tornou-se uma linguagem estética marcada pelo contraste, pela dramaticidade e pela busca de transcendência. Na pintura, destacaram-se artistas como Caravaggio, com seu uso expressivo do claro-escuro; Peter Paul Rubens, conhecido por suas composições dinâmicas e exuberantes; e Diego Velázquez, cuja obra revela profundidade psicológica e refinamento técnico. Na literatura, autores como Miguel de Cervantes, com Dom Quixote, e Francisco de Quevedo, com sua poesia conceptista, exploraram as ambiguidades da condição humana e os conflitos entre aparência e essência. O Barroco, portanto, não se limitou à ornamentação visual, mas expressou uma resposta cultural complexa às crises espirituais, filosóficas e sociais de seu tempo.

A obra Filoteia: Introdução à Vida Devota, publicada em 1609, insere-se nesse cenário como um manual de espiritualidade voltado ao público leigo. Seu propósito não é apenas instruir sobre práticas religiosas, mas oferecer um caminho de santidade possível para pessoas inseridas na vida secular. Ao dirigir-se à “Filoteia” — termo derivado do grego philo, que significa “amor”, e theos, que significa “Deus” — o autor propõe uma espiritualidade acessível e integrada à vida cotidiana. Assim, Filoteia pode ser traduzido como “a alma que ama a Deus” ou “amada por Deus”. A obra se destaca por sua linguagem clara, estilo elegante e estrutura pedagógica, dialogando com a filosofia moral, a estética barroca e a crítica cultural de seu tempo.



3- ESTRUTURA E CONTEÚDO DA OBRA


A primeira parte trata da purificação da alma, com exercícios espirituais voltados ao arrependimento e à confissão. 

A segunda parte aborda práticas devocionais, como a oração, a meditação e a participação nos sacramentos. 

A terceira parte é dedicada ao cultivo das virtudes, como a humildade, a paciência e a caridade, apresentadas como fundamentos da vida devota. 

A quarta parte oferece conselhos para enfrentar tentações e manter a constância espiritual. 

Por fim, a quinta parte orienta o leitor sobre a renovação dos propósitos e a perseverança na vida devota.




CONCLUSÃO


A análise da obra Filoteia: Introdução à Vida Devota, de São Francisco de Sales, evidencia sua relevância não apenas no campo religioso, mas também nos estudos literários, filosóficos e culturais. Ao propor uma espiritualidade acessível e integrada ao cotidiano, o autor dialoga com os valores do humanismo cristão e com a estética barroca, oferecendo uma visão ética e afetiva da vida devota. A estrutura pedagógica, a linguagem pastoral e a valorização da santidade no mundo secular tornam a obra atual e significativa para o leitor contemporâneo, reafirmando seu valor como patrimônio literário e cultural.





¹Ana Paula Barros


Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).


Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.


Totus Tuus, Maria (2015)






Masaccio, Crocifissione, 1426. Tempera su tavola, 83 x 63 cm. Cimàsa del Polìttico di Pisa. Napoli, Museo di Capodimonte.


A arte utiliza uma linguagem não verbal eficaz, muitas vezes imediatamente comunicativa, cujos códigos se desenvolveram ao longo do tempo. Os personagens que animam pinturas e esculturas são obviamente silenciosos, mas ainda se dirigem ao observador "falando" através da linguagem corporal. Palavras não ditas são efetivamente substituídas por gestos, poses e expressões.


Cimabue, Crocifisso di San Domenico, 1270 ca. Particolare di Maria dolente. Tempera su tavola. Arezzo, Chiesa di San Domenico.




A casuística dos gestos é muito ampla: há gestos que ainda hoje são imediatamente compreensíveis e comunicativos, e outros que o eram para o público a quem as obras outrora se dirigiam, mas que para nós, contemporâneos, podem parecer misteriosos, curiosos ou até engraçados. No entanto, reconhecer seu verdadeiro significado é essencial para uma compreensão correta e completa de uma obra. 

Na arte, duas categorias principais de gestos podem ser identificadas: os descritivos, que têm caráter predominantemente ilustrativo e indicam uma ação ou declaram o papel social de um personagem; e os expressivos, que revelam sentimentos, emoções e humores. Estes últimos, codificados por uma longa tradição iconográfica, envolvem principalmente braços, mãos e pernas.

Por exemplo, o gesto dos braços estendidos, para cima ou para trás, equivale a um grito de partir o coração, a mais alta expressão de dor e desespero. Nas crucificações, nos enlutados e nos depoimentos há uma explosão incontrolável de angústia, bastante típica das figuras femininas e, em particular, de Maria Madalena, e contrasta com a dor muda, mas dilacerante, de Nossa Senhora.

Pelo contrário, o gesto do braço direito dobrado e apoiado no corpo, com a palma da mão voltada para fora, simboliza a submissão à vontade superior de Deus e indica a aceitação de uma realidade dolorosa. Já os braços cruzados simbolizam um estado de inatividade, típico de quem presencia a manifestação de uma ação sem participar ativamente dela. Quando os anjos que cercam Nossa Senhora estão nessa postura, o gesto denota um estado de espírito de adoração e contemplação.

O gesto mais comum na história da arte, no entanto, é levar a mão ao rosto, típico dos enlutados, expressão de uma dor profunda, mas controlada, com dignidade. Não é um gesto de desespero, não é sintomático de uma paixão forte, mas transitória; pelo contrário, indica sofrimento duradouro, que não pode ser aliviado com o tempo. É típico de Nossa Senhora e João Evangelista que testemunham impotentes a crucificação de Cristo.



Baseado no artigo: L’importanza dei gesti nell'arte por Giuseppe Nifosì Pubblicato in L’età gotica.



Para aprofundamento: Revista Digital Salutaris: Educação Estética, Arte & Patrimônio 
Para aprofundamento: Educa-te: Paideia Cristã 






Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia, Graça & Beleza.


"Quem deitar fora as espécies consagradas ou as subtrair ou retiver para fim sacrílego incorre em excomunhão "latae sententia" e reservada à Sé Apostólica" (CIC 1367).


Muitos católicos desconhecem a imensidão de sacrilégios cometidos contra o Santíssimo Corpo do Senhor, sacrilégios que se multiplicam imensamente e nos levam a nos posicionarmos em defesa do Santíssimo Corpo do Senhor.

Todos sabemos que existem duas formas de comunhão, atualmente, no que se refere ao rito romano: na boca e na mão. A orientação da Igreja sempre foi que os fiéis comungassem na boca, mas em alguns países a conferencia episcopal permitiu a comunhão na mão como na Itália, Espanha e Brasil, assim como permitiu ministros da Eucaristia. 

Desde então os fiéis, nesses países, podem escolher a forma de comungar.

"Não é lícito negar a sagrada Comunhão a um fiel, por exemplo, só pelo fato de querer receber a Eucaristia ajoelhado ou de pé" (Redemptionis Sacramentum, 91).


No entanto, vemos, como já dito, uma multiplicação absurda de ofensas e sacrilégios a Santíssima Eucaristia. Os sacrilégios a Jesus Eucarístico podem ser feitos quando um padre celebra a Missa com a intenção sacrílega, a profanação de um sacrário ou uma falsa comunhão, ou seja, o individuo finge comungar e leva o Corpo de Cristo para profaná-Lo.

Qualquer alma cristã, devidamente amante de Jesus Eucarístico sente uma dor imensa diante de qualquer uma dessas possibilidades. Nada pode ofender mais o Coração de Jesus que a profanação do Seu Santíssimo Corpo deixado como alimento para os membros da Igreja.

Você deve estar a se perguntar como seria possível alguém roubar e profanar o Corpo do Senhor, não é mesmo?


É uma realidade, o Corpo Santíssimo do Senhor, diante do qual todo o joelho deve se dobrar no Céu, na Terra e nos Infernos é usado em ritos satânicos, em rituais de magia negra e também é levada "para casa" como uma espécie de amuleto, ou como uma fonte de "energias', ou como um "purificador de energias da casa", além das comunhões em que o fiel esta longe da graça ou ainda os que comungam sem crer, enfim profanações diversas e sem fim, espinhos no Coração do Amado Jesus que já esta muito ofendido.

Diante de roubos mediante falsas comunhões cabe aos fiéis, aos ministros e aos padres orientar o maior número de pessoas e passar a orientação da Igreja:

“Se houver perigo de profanação, NÃO se distribua aos fiéis a Comunhão na mão”. (Redemptionis Sacramentum 92).


Ou seja, diante de tantas profanações explicitas, hóstias consagradas vendidas pela internet, pessoas colocando partículas consagradas em saquinhos como lembrancinhas zen ou em cultos protestantes e diversas profanações em missas satânicas em que se pisoteia o Corpo Santíssimo do Senhor ou ainda outras profanações horrendas, como passar a hóstia consagra no corpo nu de uma mulher, não podemos deixar de fazer o que devemos fazer e o que devemos fazer é incentivar a comunhão na boca.

Independente do que eu e você pensamos, se gostamos ou não, se o padre gosta ou não, se é mais demorado ou não, isso não importa! O que importa é zelar pelo Santíssimo Corpo do Senhor, é defende-Lo, honrá-Lo, amá-Lo e isso faz da comunhão na boca uma ação de emergência e de zelo, devemos dificultar a ação desses diversos profanadores e facilitar a identificação dos mesmo pelos ministros da eucaristia, padres e fiéis - sim, fiéis.

Que ninguém se abstenha de deter alguém que sai da fila da comunhão com Jesus na mão sem comungar ou que coloca o Corpo do Senhor no bolso, na bolsa ou o fecha na mão como uma bolacha trakinas.

Nenhum católico pode se calar ou ficar a olhar sem fazer nada diante de tanta cara de pau satânica.

Que sejamos consumidos de zelo Eucarístico!

Paz e Bem!
Ana Paula Barros
"Enchi-me de zelo pela minha Mãe Imaculada e Ela me livrou de todas as tribulações"

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Nós pensamos mais do que respiramos, e em uma única respiração surgem inúmeros pensamentos. Muitas vezes, nós mulheres somos mestras em inventar, aumentar ou criar coisas “dentro da nossa cabeça” (mais sobre isso aqui). É importante lembrar que a mente é um território de batalhas constantes e que tudo o que pensamos repercute em nossa vida e até mesmo em nossa saúde. A mente não distingue plenamente realidade de imaginação: basta assistir a um filme de terror ou ler uma história horrenda para sentir medo, mesmo sabendo que é “mentira”.

Nossos pensamentos são a melodia da vida interior e se alimentam do que lemos, ouvimos e do meio em que vivemos. Por isso, se desejamos mudar o padrão dos pensamentos, torná-los menos cansativos e mais fecundos, precisamos transformar o ambiente ao nosso redor: o que consumimos, o que assistimos e até mesmo com quem conversamos. Na tradição da educação clássica católica, esse cuidado é parte da formação integral, pois não basta aprender conteúdos; é preciso cultivar virtudes. Uma dama não desperdiça tempo com atividades que não produzem frutos bons, que não honram a Deus nem edificam os que estão à sua volta. O primeiro passo é uma verdadeira faxina interior e exterior: afastar livros, filmes, novelas e hábitos que alimentam pensamentos ruins, desordenados ou inúteis.

Os Padres do Deserto ensinaram que os pensamentos podem vir de três fontes: de nós mesmos, de Deus ou do demônio. O que vem de Deus é sempre bom; o que vem de nós pode ser confuso; e o que vem do demônio muitas vezes se apresenta como aparentemente bom, mas leva à morte da alma. Por isso, o dom do discernimento dos espíritos foi considerado essencial na educação espiritual e continua sendo central na formação católica clássica: sem ele, não se vence a batalha interior.

Essa batalha se desenvolve em quatro estágios. Primeiro, a infecção: o pensamento surge como uma ideia, mas não somos culpados por recebê-lo. Depois, a luta: o pensamento retorna insistentemente como tentação, e resistir é mérito diante de Deus. Em seguida, a combinação: quando começamos a dialogar com a tentação, buscando justificativas ou supostos “bens” em um mal, já há pecado venial. Por fim, o consentimento: quando o pensamento se torna ato. Todo pecado nasce primeiro na mente, e por isso Jesus advertiu: “Quem olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério em seu coração” (Mt 5,28). São João reforça: “Todo aquele que odeia o seu irmão é um assassino” (1Jo 3,15).

A educação clássica católica sempre entendeu que formar a mente é formar a alma. Para bem aprender retórica, lógica ou filosofia; é preciso vigiar os pensamentos e cultivar virtudes. Como diz Cristo: “Não sejais sepulcros caiados” (Mt 23,27). É necessário limpar o interior para que o exterior também esteja puro (Mt 23,26). Assim, como um vigia que espera a aurora, devemos observar e treinar nossa mente para discernir os pensamentos, rejeitar os maus e acolher os bons. Essa é a verdadeira pedagogia católica: unir razão e fé, disciplina e oração, para que o coração seja educado junto com a inteligência.



professora Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025). 
















Julian Marías, filósofo espanhol, observou que a interação entre homem e mulher sofreu uma transformação radical ao longo das décadas. Se antes o contato era distante, quase furtivo — um olhar rápido entre divisórias, um encontro breve na missa ou a alegria contida ao receber um bilhete —, com o advento das guerras mundiais e a reorganização social, a convivência se tornou aberta e cotidiana: nas ruas, nas escolas, nas universidades. Nunca houve tanta oportunidade para a amizade. E, contudo, contraditoriamente, nunca houve tanto desencantamento.

No romantismo, o encantamento era levado ao extremo. A mulher era vista como figura angelical, idealizada em sua palidez, brancura ou morenice, como faz o protagonista volúvel de A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, o primeiro romancista brasileiro. Hoje, em contraste, o que domina é a sexualidade. Freud e seus discípulos deram à sensualidade um peso quase absoluto, e com isso a amizade parece ter sido sacrificada. A aproximação entre homem e mulher, em muitos casos, é reduzida a um movimento instintivo, quase animal, voltado ao acasalamento, mesmo nos meios cristãos. É uma interação empobrecida, desumana.

Não surpreende, portanto, que alguns defendam que não existe amizade entre homem e mulher. Mas essa premissa se desfaz diante da vida dos santos e da própria tradição bíblica. Segundo a Bíblia, Adão e Eva foram criados em estado de inocência e pureza: viviam nus e não se envergonhavam, tinham inteligência infusa, não morriam nem adoeciam e possuíam o domínio das paixões pela razão. O Talmude e os Midrashim, da tradição judaica, descrevem Adão como portador de uma luz espiritual intensa visível de longa distancia, e Eva igualmente sem mácula antes da queda, também revestida de “luz de glória” (kotnot or). O Tanya, obra central do judaísmo chassídico, interpreta Adão e Eva como representantes da alma em estado de pureza original, sem inclinação ao mal. Essa pureza, porém, não era definitiva: estava em prova e foi perdida com o pecado. Assim, o plano original de Deus era um casal em pureza, que deveria passar por provação e ser elevado à vida celeste. A pureza é o estado da nossa alma na forma original, criada por Deus, antes da queda da humanidade.


No Antigo Testamento encontramos Débora e Baraque, que cooperaram na liderança de Israel contra Sísera. Após Cristo, surgem amizades santas que edificaram a Igreja: São Jerônimo e Santa Paula de Roma, Santa Teresa e São João da Cruz, São Francisco e Santa Clara, Dom Bosco e Santa Maria Mazzarello, São Francisco de Sales e Santa Joana de Chantal. Essas amizades existiram e geraram frutos espirituais imensos.



O problema, portanto, não está na impossibilidade da existência da amizade entre homem e mulher, mas em nossa mediocridade como humanidade caída, ferida e luxuriosa. É a incastidade, os pensamentos mundanos, o coração volúvel, a falta de fortaleza e a incredulidade na graça de Deus que nos impedem de viver amizades puras entre homem e mulher. Mesmo entre cristãos essa interação foi reduzida a uma só palavra: coito, tal e qual um animal. A graça redentora, porém, mostra que é possível restaurar a pureza nos relacionamentos e antecipar, já nesta vida, algo do convívio celeste. Talvez o mínimo de honestidade que se possa exigir seja reconhecer: a amizade entre homem e mulher existe, os santos estão aí para provar. Quem não consegue vivê-la deve dizer: a amizade existe, eu é que não consigo porque sou incrédulo, incasto, prisioneiro de pensamentos impuros, mas existe. 


Negar a existência da possibilidade dessa amizade é negar a própria obra da Graça, o poder da Graça.




professora Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025). 



Esta formação é complementar a duas anteriores, que para melhor assimilação, sugiro que sejam lidas antes: Qual a minha missão? (aqui) e Sentindo-se no lugar errado? (aqui.)

segredos de Deus

Um grande problema feminino é o das mulheres solteiras, referimos-nos àquelas que, embora com vocação matrimonial, não chegam a casar-se. Como não o conseguem, perguntam-se: para que estamos nós no mundo? Que lhes responderia?


Para que estamos nós no mundo? Para amar a Deus com todo o nosso coração e com toda a nossa alma, e para estender esse amor a todas as criaturas. Ou será que isso parece pouco? Deus não deixa nenhuma alma abandonada a um destino cego; para todas tem um desígnio, a todas chama com uma vocação pessoalíssima, intransferível.

O matrimônio é caminho divino, é vocação. Mas não é o único caminho, nem a única vocação. Os planos de Deus para cada mulher não estão necessariamente ligados ao matrimônio. Têm vocação e não chegam a casar-se? Em algum caso, talvez seja assim: ou, quem sabe, talvez tenha sido o egoísmo ou o amor próprio que impediu que esse chamado de Deus se cumprisse. Mas, outras vezes, a maioria mesmo, isso pode ser sinal de que o Senhor não lhes deu matrimonial. Sim, gostam de crianças, sente que seriam boas mães, que entregariam seu coração fielmente ao seu marido e aos filhos. Mas isso é normal em todas as mulheres, também naquelas que, por vocação divina, não se casam - podendo fazê-lo -, para se ocuparem no serviço de Deus e das almas. 

Não se casaram. Pois bem: que continuem, como até agora, amando a vontade de Deus, vivendo na intimidade desse Coração amabilíssimo de Jesus que não abandona ninguém, que é sempre fiel, que vai olhando por nós ao longo desta vida, para se dar a nós desde agora e para sempre.

Além disso, a mulher pode cumprir a sua missão - como mulher, com todas as suas características femininas (mais sobre aqui e aqui), incluindo as características afetivas da maternidade - em círculos diferentes da própria família: em outras famílias, na escola, em obras assistenciais, em mil lugares. A sociedade é, às vezes, muito dura - com grande injustiça - para com aquelas que chamam "solteironas". Mas há mulheres solteiras que difundem à sua volta alegria, paz, eficácia, que sabem entregar-se nobremente ao serviço dos outros  e a ser mães, em profundidade espiritual, com mais realidade do que muitas que são mães apenas fisiologicamente. 

Para refletir com amor. Esse texto tem a intenção de nos despertar a missão real da mulher, que é inerente a nós e pode ser executada no estado que Deus nos coloca hoje. Tem a intenção de despertar as mulheres para que não esperem o que acreditam ser o estado adequado para trabalhar e colocar em prática suas habilidades femininas. O estado adequado, o tempo favorável é o que o Senhor nos coloca, hoje. Não tenho a intenção de dizer se você irá casar-se ou não, isso é com o Senhor. O fato é que o tempo vivido hoje, é o tempo que hoje esta reservado para viver sua feminilidade e trabalhar espalhando-a com alegria pelo mundo. Não é o tempo para se angustiar com o que não esta acontecendo, é tempo de viver o feminino no que acontece, no hoje.

São Josemaria Escrivá
Revista Feminina Telva

Paz e bem,
Abraços,
Ana Paula Barros
Olá, paz e bem

Hoje iniciamos um pequeno ciclo de formação com São José Maria Escrivá, em que ele responde questões importantes sobre a mulher, o lar e o trabalho. Como hoje ainda sentimos as sequelas do movimento feminista, acredito que será útil partilhar essa formação, para mostrar a visão da Igreja sobre a mulher, as motivação que a mesma da as mulheres, a importância da vocação feminina e principalmente o reconhecimento da extensão da mesma. 

Tenho notado em conversas com algumas meninas, moças e mulheres que, provavelmente devido ao feminismo que entrou nos lares e na formação escolar, existe uma confusão e uma inquietação sobre a missão e a vocação de ser mulher. Isso sendo ampliado para a relação da mulher com o lar, a família e o trabalho, transparecendo que são coisas contrárias e inimigas. Lembrando que essa formação vale para homens e mulheres casadas ou solteiras.

destino último da mulher


Monsenhor, é cada vez maior a presença da mulher na vida social, para além do âmbito familiar em que ela até agora se movia quase que exclusivamente. Que lhe parece esta evolução? E quais são, em seu entender, as características gerais que a mulher deve vir a ter para cumprir sua missão?


Em primeiro lugar, parece-me oportuno não contrapor esses dois âmbitos que acaba de referir. Tanto como a vida do homem, ainda que com matizes muito peculiares, o lar e a família ocuparão sempre um lugar central na vida da mulher: é evidente que a dedicação aos afazeres familiares representa uma grande função humana e cristã. Isso, porém, não exclui a possibilidade de uma ocupação em outros trabalhos profissionais - o do lar também o é-, qualquer dos oficios e empregos nobres há na sociedade em que se vive. Logo se vê o que se quer dizer quando se equaciona o problema assim; contudo, eu penso que insistir na contra-posição sistemática - mudando apenas a tônica- levaria facilmente, do ponto de vista social, a um equivoco maior do que aquele que se tenta corrigir, pois seria mais grave que a mulher abandonasse o seu trabalho em casa.



No plano pessoal, também não se pode afirmar unilateralmente que a mulher só fora do lar alcança sua perfeição, como se o tempo dedicado à família fosse um tempo roubado ao desenvolvimento e à maturidade da sua personalidade. O lar - seja qual for, porque a mulher solteira deve ter um lar- é um âmbito particularmente propicio ao desenvolvimento da personalidade. A atenção prestada à família será sempre para a mulher a sua maior dignidade: no cuidado com o marido e os filhos ou, para falar em termos mais gerais, no trabalho com que procura criar em torno de si um ambiente acolhedor e formativo, a mulher realiza o que há de mais insubstituível em sua missão e, por conseguinte, pode atingir aí sua perfeição pessoal.

Como acabo de dizer, isso não se opõe à participação em outros aspectos da vida social e mesmo da politica, por exemplo. também nesses setores pode a mulher dar uma valiosa contribuição, como pessoa, e sempre com as peculiaridades de sua condição feminina; e assim o fará na medida em que estiver humana e profissionalmente preparada. É claro que tanto a família quanto a sociedade necessitam dessa contribuição especial, que não é de modo algum secundária.

Desenvolvimento, maturidade, emancipação da mulher, não devem significar uma pretensão de igualdade - de uniformidade - com o homem, uma imitação do modo de atuar masculino: isso seria um logro, seria uma perda para a mulher; não porque ela seja mais, mas porque é diferente. Num plano essencial - que deve ser objeto de reconhecimento jurídico, tanto no direito direito civil como eclesiástico -, aí, sim, pode-se falar de igualdade de direitos, porque a mulher tem, exatamente como o homem, a dignidade de pessoa e filha de Deus. Mas, a partir dessa igualdade fundamental, cada um deve atingir o que lhe é próprio; e, neste plano, dizer emancipação é o mesmo que dizer possibilidade real de desenvolver plenamente as virtualidades próprias: as que tem em sua singularidade e as que tem como mulher. A igualdade perante o direito, a igualdade de oportunidades em face da lei, não suprime, antes pressupõe e promove essa diversidade, que é riqueza para todos.

A mulher esta destinada a levar a família, à sociedade civil, à Igreja, algo de característico, que lhe é próprio e que só ela pode dar: sua delicada ternura, sua generosidade incansável, seu amor pelo concreto, sua agudeza de engenho, seu capacidade de intuição, sua piedade profunda e simples, sua tenacidade...A feminilidade não é autêntica se não reconhece a formosura dessa contribuição insubstituível, e se não a insere na própria vida.

Para cumprir essa missão, a mulher tem de desenvolver sua própria personalidade, sem se deixar levar por um ingênuo espírito de imitação que - em geral - a situaria facilmente num plano de inferioridade, impedindo-lhe a realização das suas possibilidades mais originais. Se se forma bem, com autonomia pessoal, com autenticidade, realizará eficazmente o seu trabalho, a missão para que se sente chamada, seja qual for: sua vida e trabalho serão realmente construtivos e fecundos, cheios de sentimento, quer passe o dia dedicada ao marido e aos filhos, quer se entregue plenamente a outras tarefas, se renunciou ao casamento por alguma razão nobre. Cada uma em seu próprio caminho, sendo fiel a vocação humana e divina, pode realizar e realiza de fato a plenitude da personalidade feminina. Não esqueçamos que Santa Maria, Mãe de Deus e Mãe dos homens, é não somente modelo, mas também a prova do valor transcendente que pode alcançar uma vida aparentemente sem relevo. 

São Josemaria Escrivá
Entrevista a revista feminina Telva, 1968 

Paz e bem,
Abraços,
Ana Paula Barros
Olá, paz e bem

Hoje vamos continuar as formações com São José Maria Escrivá. A primeira formação esta aqui, vocês também pode encontrar outras formações do Damas da Rainha aqui. Sugiro que seja lida antes dessa.

O lugar da mulher


Mas, às vezes, a mulher não tem certeza de se encontrar realmente no lugar que lhe compete e a que é chamada. Muitas vezes, quando faz um trabalho fora de casa, pesam sobre ela as solicitações do lar; e, quando continua dedicando-se em cheio à família, sente-se limitada em suas possibilidades. Que diria o senhor às mulheres que passam por essas contradições?

Esse sentimento, que é muito real, procede frequentemente, mas do que das limitações concretas - que todos temos, por sermos humanos -, da falta de ideais bem determinados, capazes de orientar a vida inteira, ou então de uma inconsciente soberba: às vezes, desejaríamos ser os melhores sob qualquer aspecto e em qualquer nível. E, como isso não é possível, nasce um estado de desorientação e de ansiedade, ou até desânimo e tédio (mais sobre aqui): não se pode estar em toda parte ao mesmo tempo, não se sabe a que se há de atender e não se atende a nada eficazmente. Nessa situação, a alma fica exposta a inveja, a imaginação tende a desatar-se, e a buscar um refúgio na fantasia que, afastando da realidade, acaba adormecendo a vontade (mais sobre aqui). É uma mística do oxalá, feita de sonhos vãos e de falsos idealismos: oxalá não me tivesse casado, oxalá não tivesse essa profissão, oxalá tivesse mais saúde, ou menos anos ou mais tempo!

O remédio - custoso, como tudo que tem valor- está em procurar o verdadeiro centro da vida humana, o que pode dar uma hierarquia, uma ordem e um sentido a tudo: a intimidade com Deus, mediante uma vida interior autêntica. Se, vivendo em Cristo, tivermos nEle o nosso centro, descobriremos o sentido da missão que nos foi confiada, teremos um ideal humano que se torna divino, novos horizontes de esperança se abrirão à nossa vida, e chegaremos a sacrificar com gosto, não já este ou aquele aspecto de nossa atividade, mas a vida inteira, dando-lhe assim, paradoxalmente, seu mais profundo acabamento.

O caso da mulher, que focaliza, não é extraordinário: com outras peculiaridades, muitos homens sentem algo de semelhante algumas vezes. A raiz costuma ser a mesma: falta de ideal profundo, que só se descobre à luz de Deus.

Em todo caso, também é preciso pôr em prática pequenos remédios, que parecem banais, mas que não o são: quando há muitas coisas a fazer, é necessário estabelecer uma ordem, impõe-se organizar a vida. Muitas dificuldades provêm da falta de ordem, da carência deste hábito. Há mulheres que fazem mil coisas, e todas bem, porque organizaram a vida, porque impuseram com fortaleza (mais sobre aqui e aqui) uma ordem à abundância das tarefas. Souberam permanecer em cada momento no que deviam fazer, sem se desvairarem pensando no que viria depois ou no que talvez houvessem podido fazer antes (mais sobre isso aqui), Outras, em contrapartida, vêem-se afobadas pelos muitos afazeres; e, assim afobadas, não fazem nada (mais sobre aqui).

Sempre haverá, decerto, muitas mulheres cuja única ocupação seja dirigir o seu lar. Devo dizer que esta é uma grande ocupação, que vale a pena. Através dessa profissão - porque o é, verdadeira e nobre-, influem positivamente, não só na família, mas também numa multidão de amigos e conhecidos, em pessoas com as quais de um modo ou de outro se relacionam, realizando uma tarefa bem mais extensa, muitas vezes, do que a de outras profissões. Isto, para não falar do que acontece quando põem essa experiência e essa ciência ao serviço de centenas de pessoas, em centros destinados à formação da mulher. Nesta altura convertem-se em professoras do lar, com mais eficácia educativa, diria eu, do muitos catedráticos de universidade. 

São Josemaria Escrivá
Entrevista a revista feminina Telva, 1968 
Paz e bem
Abraços
Ana Paula Barros


De súbito começaram a aparecer dúvidas sobre masturbação na minha caixa de e-mails e nas mensagens das redes sociais. A princípio me perguntei qual seria a razão, já que nunca falei desse tema diretamente, nem em palestras, nem em posts, nem em qualquer outro lugar. Mas logo percebi que isso devia estar relacionado ao fato de eu falar frequentemente sobre castidade, pureza e modéstia.

Atualmente, sobretudo no Brasil, temos nos atentado novamente à virtude esquecida da modéstia. Por consequência, torna-se inevitável falar também da castidade e da pureza. O caminho dessas virtudes leva à purificação da sexualidade e da afetividade, tornando mais claro o conflito para aqueles que se encontram escravos desse vício.

Vivemos em uma sociedade que enaltece a luxúria e a imodéstia. Não podemos esquecer que o Brasil é representado por uma festa como o “Carnaval”, em que pessoas desfilam sem pudor em espetáculos caros e eufóricos. Essa exaltação da lascividade perverteu nosso povo e enfraqueceu a vivência de um catolicismo autêntico. A luxúria, uma das portas da corrupção, não apenas está aberta em nossa sociedade, mas tornou-se uma marca cultural.

Por isso, toda luta contra a luxúria, através da vivência da modéstia, da castidade e da pureza, enfrentará grandes percalços. Os Padres do Deserto já alertavam sobre o demônio da luxúria:



“O demônio da luxúria força a desejar outros corpos. Ele ataca cruelmente os que praticam a continência, para que a abandonem, já que não leva a nada. Enlameia a alma e a seduz a ações vergonhosas. Fá-la pronunciar certas palavras e tornar a ouvi-las, como se o objetivo estivesse visível e presente.” ( Evágrio Pôntico)



Segundo os monges, esse demônio age através da fantasia e da ilusão. Avaliando isso, percebemos o tamanho da escravidão de quem vive alimentado por tais pensamentos, assim como de um povo que os transforma em entretenimento cultural. Essa escravidão e alienação se estendem a diversas áreas da sociedade e são nutridas por comportamentos como fornicação, masturbação e relações sexuais desordenadas.

A educação clássica católica ensina que a formação da mente e da vontade é inseparável da formação moral. Por isso, compreender o território desse combate é de importância radical. Sem a graça, a pureza é impossível. 

A batalha se vence na mente. Antes da ação, a imaginação conduz à luxúria. É preciso cortar pela raiz, eliminando pornografia, programas inúteis e hábitos solitários, substituindo-os por amizades e práticas saudáveis. Cada vitória aumenta a confiança. Resistir fortalece a alma e enfraquece a tentação.


A Tradição Católica sempre valorizou:

  • Jejum, como mortificação e caminho de humildade.
  • Disciplina, regulando horários de sono, alimentação e hábitos.
  • Prudência, evitando estímulos que alimentem a imaginação.
  • Confissão clara, inclusive dos pensamentos, pois a queda começa na mente.
  • Comunhão frequente, mesmo que seja necessário confessar-se muitas vezes.
  • Adoração eucarística, visitando o sacrário com constância.



Essas práticas são parte da pedagogia clássica católica, que une a ascese, a disciplina e os sacramentos para formar não apenas intelectos, mas corações virtuosos, que segundo o prisma tradicional também significa mentes fortes.





professora Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025). 






O Papa Bento XVI publicou na constituição apostólica Porta Fidei:

«Este catecismo dará um contributo muito importante à obra de renovação de toda a vida eclesial (...). Declaro-o norma segura para o ensino da fé e, por isso, instrumento válido e legítimo ao serviço da comunhão eclesial» (João Paulo II, Const. ap. Fidei depositum (11 de Outubro de 1992): AAS 86 (1994), 115 e 117).

É precisamente nesta linha que o Ano da Fé deverá exprimir um esforço generalizado em prol da redescoberta e do estudo dos conteúdos fundamentais da fé, que têm no Catecismo da Igreja Católica a sua síntese sistemática e orgânica. Nele, de facto, sobressai a riqueza de doutrina que a Igreja acolheu, guardou e ofereceu durante os seus dois mil anos de história. Desde a Sagrada Escritura aos Padres da Igreja, desde os Mestres de teologia aos Santos que atravessaram os séculos, o Catecismo oferece uma memória permanente dos inúmeros modos em que a Igreja meditou sobre a fé e progrediu na doutrina para dar certeza aos crentes na sua vida de fé.

Na sua própria estrutura, o Catecismo da Igreja Católica apresenta o desenvolvimento da fé até chegar aos grandes temas da vida diária. Repassando as páginas, descobre-se que o que ali se apresenta não é uma teoria, mas o encontro com uma Pessoa que vive na Igreja. Na verdade, a seguir à profissão de fé, vem a explicação da vida sacramental, na qual Cristo está presente e operante, continuando a construir a sua Igreja. Sem a liturgia e os sacramentos, a profissão de fé não seria eficaz, porque faltaria a graça que sustenta o testemunho dos cristãos. Na mesma linha, a doutrina do Catecismo sobre a vida moral adquire todo o seu significado, se for colocada em relação com a fé, a liturgia e a oração.




Parte I:



Parte II:




Parte III: Como se comportar na Santa Missa






Parte IV: Piedoso Uso do Véu



Parte V: Os Mandamentos de Deus e da Igreja




Parte VI: Quando satanás triunfa, avança e zomba de uma alma. 



Parte VII: A cura da culpa e da pena pelo pecado.



Parte VIII: Oração e Penitência










O trabalho é a vocação inicial do homem, é uma bênção de Deus, e enganam-se lamentavelmente os que o consideram um castigo. O Senhor, o melhor dos pais, colocou o primeiro homem no paraíso, "ut operaretur" - para que trabalhasse. (Sulco, 482)




Nos dias atuais, é cada vez mais comum observar trabalhos profissionais realizados com descuido, desatenção e falta de compromisso. Seja em um atendimento apressado, em um serviço mal executado ou em tarefas feitas apenas para “cumprir tabela”, percebe-se uma crise de qualidade que afeta diretamente a confiança entre as pessoas e a dignidade do próprio trabalho. Essa realidade não está ligada à ausência de produtos sofisticados ou luxuosos, mas ao simples fato de não se fazer o trabalho corretamente, de não oferecer o mínimo de atenção e consideração às pessoas que dele dependem.

O cristianismo, porém, oferece uma visão diferente. Para São Paulo, o trabalho deve ser feito “de todo o coração, como para o Senhor e não para os homens” (Cl 3,23). Isso significa que cada tarefa, por mais simples que seja, pode ser expressão de amor, responsabilidade e fé. O trabalho bem feito não é apenas uma questão de eficiência, mas também de testemunho: mostra respeito por quem recebe o serviço e por quem o realiza. Lembro-me claramente de escutar, aos 15 anos, um catequista de crisma ensinar que o cristão deve ser o melhor naquilo que faz: se trabalhar em uma empresa, deve ser o melhor; se for professor, o melhor; se for lixeiro, que seja o melhor — e isso já é um testemunho. É estranho que, em um país de tradição cristã, tenhamos tantos trabalhos mal feitos.



Estudo, trabalho: deveres ineludíveis para todo o cristão; meios para nos defendermos dos inimigos da Igreja e para atrairmos - com o nosso prestígio profissional - tantas outras almas que, sendo boas, lutam isoladamente. São arma fundamentalíssima para quem queira ser apóstolo no meio do mundo. (Sulco, 483)



Não se pode santificar um trabalho que humanamente seja um “lixo”, porque não devemos oferecer a Deus tarefas mal feitas. (Sulco, 493)



São Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei, insistia que o trabalho cotidiano é caminho de santidade. Para ele, não existem tarefas pequenas ou insignificantes; qualquer atividade, quando realizada com dedicação, pode ser oferecida a Deus. O trabalho mal feito, ao contrário, é sinal de desleixo e falta de amor. Escrivá afirmava que a santificação da vida ordinária passa justamente pelo esforço de fazer bem aquilo que nos cabe, seja atender um cliente com atenção, limpar um espaço com cuidado ou conduzir uma reunião com responsabilidade.




O heroísmo do trabalho está em “acabar” cada tarefa. (Sulco, 488)

Tu também tens uma vocação profissional que te “aguilhoa”. - Pois bem, esse “aguilhão” é o anzol para pescar homens. Retifica, portanto, a intenção, e não deixes de adquirir todo o prestígio profissional possível, a serviço de Deus e das almas. O Senhor conta também com “isso”. (Sulco, 491)






Assim, quando vemos serviços prestados com desatenção, maus atendimentos ou trabalhos mal executados, não estamos diante apenas de falhas técnicas, mas de uma crise de valores. A mediocridade nasce quando se busca apenas cumprir o mínimo sem colocar o coração naquilo que se faz. Recuperar a visão cristã do trabalho significa compreender que cada tarefa é oportunidade de servir, crescer e santificar-se. Não se trata de oferecer luxo ou requinte, mas de realizar o trabalho de forma correta, minimamente bem feita, com atenção às pessoas e respeito por sua dignidade. Trabalhar mal é negar essa dimensão maior; trabalhar bem é transformar o cotidiano em oração.




Perguntaste o que é podias oferecer ao Senhor. - Não preciso pensar a minha resposta: as coisas de sempre, mas melhor acabadas, com um arremate de amor, que te leve a pensar mais nEle e menos em ti. (Sulco, 495)

Trabalhemos, e trabalhemos muito e bem, sem esquecer que a nossa melhor arma é a oração. Por isso, não me canso de repetir que temos que ser almas contemplativas no meio do mundo, que procuram converter o seu trabalho em oração. (Sulco, 497)


Coloca na tua mesa de trabalho, no teu quarto, na tua carteira…, uma imagem de Nossa Senhora, e dirige-lhe o olhar ao começares a tua tarefa, enquanto a realizas e ao terminá-la. Ela te alcançará - garanto! - a força necessária para fazeres, da tua ocupação, um diálogo amoroso com Deus. (Sulco, 531)







Checklist do Trabalho Cristão Bem Feito


  • Fazer cada tarefa com atenção e cuidado, evitando o desleixo.
  • Não buscar apenas “cumprir tabela”, mas entregar o melhor possível.
  • Lembrar que o trabalho é serviço às pessoas, não apenas obrigação.
  • Considerar quem será beneficiado pelo trabalho e respeitar sua dignidade.
  • Trabalhar como quem oferece a tarefa a Deus, mesmo nas atividades simples.
  • Transformar o cotidiano em oração através do esforço bem feito.
  • Não se trata de oferecer luxo ou sofisticação, mas de fazer corretamente o que deve ser feito.
  • O mínimo bem feito já é testemunho cristão.
  • Tratar clientes, colegas e superiores com respeito e cordialidade.
  • Ouvir com paciência e atender com verdadeira consideração.
  • Manter disciplina e regularidade no trabalho, sem se deixar levar pela preguiça.
  • Buscar sempre melhorar, evitando a mediocridade.
  • Realizar o trabalho com alegria, mostrando que o cristão santifica-se no cotidiano.
  • Ser exemplo de dedicação, seja qual for a profissão: professor, médico, lixeiro ou empresário.
  • Cumprir prazos e compromissos com seriedade.
  • Negar atalhos desonestos ou soluções que prejudiquem os outros.





Indicações de Leitura


ESCRIVÁ, Josemaria: Caminho. São Paulo: Quadrante, 2002. Disponível em: https://amzn.to/3LDIzpz
ESCRIVÁ, Josemaria: Sulco. São Paulo: Quadrante, 2002. Disponível em: https://amzn.to/482FqXW
ESCRIVÁ, Josemaria: Forja. São Paulo: Quadrante, 2002. Disponível em: https://amzn.to/49lwsHA
BARROS, Ana Paula; BUDNICK, Mary Ann: Cultivo: Plano de vida espiritual. São Paulo: Salus in Caritate, 2024. Disponível em: https://amzn.to/4oIBcMc









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Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)




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