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Salus in Caritate


Alocução do Papa Pio XII ao Congresso da “União Latina de Alta-costura”[1]

Amados filhos e filhas, promotores e associados da “União Latina de Alta-costura”, Nós cordialmente estendemos a vocês Nossas paternais boas-vindas.
Nós vimos ser necessário vir até aqui para dar testemunho da sua filial devoção e, ao mesmo tempo, buscar os favores do céu para sua União. Desde o seu início, vocês se colocaram sob a proteção d’Aquele cuja glória deve ser o fim de toda atividade humana, até aquelas que são aparentemente profanas, de acordo com o preceito do Apóstolo dos Gentios: “Portanto, quer comais quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus.” (I Cor 10, 31)

Um delicado e complexo problema

Vocês se propõem a examinar do ponto de vista cristão e com intenção cristã um problema que é, por sua vez, delicado e complexo. O seu aspecto moral não pode ser ignorado. O problema da moda, especialmente da moda feminina, é constantemente objeto de atenção e ansiedade por aqueles cujas tarefas são, pela razão de seus deveres da família, na sociedade e na Igreja, preservar as almas das armadilhas da corrupção e proteger toda a comunidade da decadência moral.
É correto e apropriado que suas generosas intenções devam receber Nossa gratidão e a da Igreja, e que sua União, nascida e inspirada por um sólido senso religioso e cívico, receba Nosso fervente desejo para a realização, através de uma inspirada autodisciplina dos desenhistas da moda, da dupla meta expressa nos seus estatutos: melhorar a condição deste importante setor da vida pública, e ajudar a elevar a moda ao nível de um instrumento e expressão de uma bem-intencionada civilidade.
Porque queremos encorajar tão digno empreendimento, Nós, de bom grado, consentimos em seu pedido de que dirijamos nossos pensamentos a vocês, particularmente na formulação própria do problema, e, mais importante que tudo, em seus aspectos morais. Nós também devemos fazer algumas sugestões práticas que podem garantir à União uma reconhecida autoridade neste campo altamente controverso.

I. ASPECTOS GERAIS DA MODA

Seguindo o conselho de uma antiga sabedoria que encontra nos propósitos das coisas tanto o último critério para toda avaliação teórica como a certeza dos princípios morais, será útil recordar tais objetivos que os homens sempre estabeleceram para si mesmos quanto ao que concerne à sua veste.

As três razões para o vestir

Sem dúvida o vestir obedece ao familiar requerimento de higiene, de decência, e de adorno. Estas são três necessidades são tão profundamente enraizadas na natureza que elas não podem ser ignoradas ou negadas sem provocar hostilidade e preconceito. Elas são necessárias hoje como o foram ontem; são encontradas entre quase todos os povos; podem ser vistas em cada estágio da ampla escala na qual a necessidade natural de vestir-se é historicamente e etimologicamente manifestada.
É importante notar a estrita e estreita interdependência que une estas três necessidades, mesmo vindo de três diferentes fontes. A primeira é derivada da natureza física do homem; a segunda da sua natureza espiritual; a terceira da sua natureza psicológica e artística.

… Higiene

Os requerimentos de higiene para o vestir tratam principalmente do clima, de sua variação e de outros fatores externos como possíveis causas de desconforto ou de enfermidade. Da interdependência citada acima se segue que as razões higiênicas – ou antes pretextos – não podem servir para justificar uma deplorável licença, especialmente em público, à parte os casos excepcionais de comprovada necessidade. Mas, mesmo nestes casos, toda alma bem-educada seria incapaz de evitar um sentimento involuntário de confusão, refletido exteriormente pelo natural rubor.
Da mesma forma, uma maneira de vestir que é prejudicial à saúde – e há não poucos exemplos disso na história dos estilos – não pode ser considerada legitimada pelo pretexto da beleza. Por outro lado, a regra comum de decência deve ceder espaço às necessidades de uma cura médica que, mesmo que pareçam violá-la, de fato a respeitam, quando todas as precauções morais são empregadas.

… Decência

Igualmente óbvio como origem e propósito do vestir é o requerimento natural de decência, entendido tanto no sentido amplo, que inclui uma consideração apropriada para a sensibilidade dos outros em face de objetos que são de má aparência, ou, acima de tudo, como defesa da honestidade moral e um escudo contra a sensualidade desordenada.
A estranha opinião que atribui o senso de modéstia a um tipo de educação ou a outro, e até considera a modéstia uma deformação conceptual de uma inocente realidade, um falso produto da civilização, um estímulo à desonestidade e fonte de hipocrisia, não é suportada por nenhuma válida razão. Pelo contrário, ela encontra explícita condenação no repugnante resultado com que são vistos por aqueles que ousam adotar este ponto de vista. Então a solidez do senso comum, manifestada no uso universal, é confirmada.
A decência natural no seu sentido moral estrito, qualquer que seja sua origem, é fundada na tendência inata e mais ou menos consciente de toda pessoa a defender os seus bens físicos de desejos indiscriminados dos outros, de forma que ele os reserve, com prudente escolha das circunstâncias, àqueles sábios objetivos do Criador que Ele mesmo colocou sob a proteção da castidade e da modéstia.
Esta segunda virtude, a modéstia – a própria palavra “modéstia” vem de modus, uma medida ou limite –, provavelmente expressa melhor a função de governar e dominar as paixões, especialmente as paixões sensuais. Ela é o baluarte natural da castidade. É seu baluarte natural, porque modera os atos que estão estreitamente conectados com o próprio objeto da castidade.
A modéstia faz o homem escutar seu alarme, como uma sentinela, desde o momento em que ele adquire o uso da razão, mesmo antes que ele aprenda toda a mensagem e propósito da castidade. A modéstia o acompanha em toda a sua vida e demanda dele que certos atos, que são bons em si mesmos porque são divinamente estabelecidos, devam ser protegidos por um discreto véu de sombra e de silêncio reservado, de modo a conferir o respeito devido à dignidade do seu grande propósito. É justo então que a modéstia, sendo a depositária de tão preciosa possessão, deva reclamar para si mesma uma autoridade prevalecente sobre qualquer outra tendência e todo capricho, e deva presidir à determinação de modas nas roupas.

… E Adorno

E aqui chegamos ao terceiro propósito do vestir, do qual a moda tira sua origem mais diretamente, e que responde a uma necessidade inata, sentida mais pela mulher, de melhorar a beleza e a dignidade da pessoa com os mesmos meios que são capazes de satisfazer aos outros dois objetivos.
Para evitar a restrição do objetivo deste terceiro requerimento à mera beleza física, e, ainda mais, para evitar associar a moda com a luxúria sedutora como sua primeira e única razão, o termo adorno é preferível ao de embelezamento.
A propensão a adornar-se a si mesmo claramente deriva da natureza, e por isso é legítima.
Acima da função da vestimenta que esconde imperfeições físicas, os jovens querem roupas que tenham a atração e o esplendor que cantam os felizes temas da primavera da vida, e que facilitam, em harmonia com as regras da modéstia, os prerrequisitos psicológicos necessários para a formação de novas famílias. Ao mesmo tempo, aqueles com idade madura buscam obter a partir de roupas apropriadas uma aura de dignidade, seriedade e serena felicidade.
Nestes casos em que o objetivo é melhorar a beleza moral da pessoa, o estilo de roupa seria quase como um disfarce para a beleza física na sombra austera do ocultamento, distraindo a atenção dos sentidos, e concentrando a reflexão no espírito.

A linguagem do vestir

Considerado neste amplo aspecto, o vestir tem a sua própria linguagem multiforme e eficaz. Às vezes é uma interpretação espontânea e fiel dos sentimentos e dos costumes; outras vezes o vestir é convencional, manipulado e, por isso, dificilmente sincero.
O vestir expressa alegria e tristeza, autoridade e poder, orgulho e simplicidade, riqueza e pobreza, o sagrado e o profano. A forma específica desta expressão depende da tradição da cultura de um povo particular; ele muda mais lentamente, de forma que instituições, personagens e os sentimentos que os estilos interpretam são mais estáveis.

A natureza da “moda”

A moda – uma antiga arte de origem incerta, que se torna complexa pelos fatores psicológicos e sociais envolvidos – dedica-se expressamente a melhorar a beleza física. Neste momento, a moda alcançou indisputável importância na vida pública, seja como uma expressão estética dos costumes, seja como uma interpretação de uma demanda pública e um ponto central de substanciais interesses econômicos.
Uma profunda observação do fenômeno da moda revelará que ele não é somente extravagante na sua forma, mas também o ponto de união de diferentes fatores psicológicos e morais como gosto pela beleza, sede pela novidade, afirmação da personalidade e intolerância da monotonia, não menos que luxúria, ambição e vaidade.
A moda é de fato elegância, condicionada, no entanto, pela constante mudança, de tal forma que sua própria instabilidade garante uma constante e distintiva mudança do que está na moda, que agora se tornou sazonal – mudanças que são lentas nas linhas básicas, mas extremamente rápidas em variações secundárias – e parece ser um desejo de superar o passado. Isto ainda é facilitado pelo frenético caráter da era presente, que tem tremenda capacidade de destruir, em curto período de tempo, tudo o que tenha como objetivo satisfazer a fantasia e os sentidos.
É compreensível que novas gerações projetem seu próprio futuro – um sonho diferente e melhor que os de seus pais – sentindo a necessidade de desapegar-se daquelas formas, não apenas nas roupas, mas também nos objetos e ornamentos, que obviamente lembram um estilo de vida que elas desejam superar. Mas a extrema instabilidade dos estilos dos dias atuais é determinada acima de tudo pelo querer dos fabricantes e guias, que têm à sua disposição tais meios, desconhecidos no passado, como uma enorme e variada produção têxtil, a fertilidade inventiva dos desenhistas de moda, e um meio fácil de “lançar” modas na imprensa, nos cinemas, na televisão, e nas exposições e shows de moda.
A rapidez da mudança é estimulada ainda por um tipo de silenciosa competição, não realmente nova, entre a “elite” que deseja afirmar a sua própria personalidade com formas originais de roupas, e o público, que imediatamente converte isso para o seu uso com mais ou menos boas imitações. E não se pode de deixar de olhar outra sutil e decadente razão, isto é, o esforço de tais “estilistas” que jogam com o fator de sedução de forma a assegurar sucesso em suas “criações”, estando bem conscientes do efeito que a surpresa e novidade constantemente repetidas criam.

A economia da moda

É outra característica da moda atual que, mesmo permanecendo principalmente como um fato estético, ela também se tornou um elemento econômico de imensa proporção. As poucas lojas de moda estabelecidas que uma vez ditaram indisputadas regras de elegância desta ou daquela metrópole da cultura europeia foram agora substituídas por um número de organizações financeiramente poderosas que, enquanto suprem a demanda de roupas, também formam gostos populares e constantemente trabalham para promover uma crescente demanda para seus próprios mercados.
As razões para esta transformação devem ser encontradas, antes de tudo, na chamada “democratização” da moda através da qual um crescente número de indivíduos cai sob o feitiço da elegância, e, em segundo lugar, no progresso técnico que tornou possível a produção em massa de estilos que seriam caros mas que agora se tornaram fáceis de adquirir no chamado “mercado-pronto” (prêt-à-porter).
Assim nasceu o mundo da moda, um mundo que inclui artistas e artesãos, fabricantes e comerciantes, editores e críticos, bem como uma classe inteira de humildes trabalhadores que obtêm seus salários da moda.

Desenhista de Moda

Mesmo que o fator econômico seja a força motriz desta atividade, sua alma é sempre o “estilista”, a pessoa que através de uma hábil escolha de material, cor, corte, linha e ornamentos de acessórios gera vida a um novo e expressivo estilo que agrada ao público. É desnecessário listar as dificuldades desta arte, fruto da habilidade e de talento e, ainda mais, da sensibilidade ao gosto do momento.
Um estilo destinado a certo sucesso adquire a importância de uma invenção. É envolto por um sigilo enquanto espera para ser “lançado”. Uma vez no mercado, gera uma subida nos preços, enquanto a mídia lhe dá ampla publicidade, quase como se fosse um evento de importância nacional.
A influência dos desenhistas de moda é tão forte que a indústria têxtil deixa sua produção ser guiada por eles, tanto na quantidade como na qualidade. A sua influência social é igualmente grande na interpretação dos costumes do público, porque, se a moda foi no passado a expressão externa do uso de um povo, hoje ela o é ainda mais – desde quando este fenômeno da moda começou a ser resultado de reflexão e estudo.

“Alta-costura”

Mas a formação de gostos e preferências das pessoas e a orientação da sociedade em direção a sérios ou decadentes hábitos não depende apenas dos desenhistas da moda. Também depende de toda a complexa organização da indústria da moda, especialmente das casas de produção e dos críticos daquele mais refinado setor, que encontra seus clientes nas classes mais altas e toma o nome de “alta-costura”, como que para designar a fonte da corrente que as pessoas futuramente seguirão quase que cegamente, aparentemente como uma mágica compulsão.
Agora, já que tantos valores estão envolvidos nisso e às vezes ameaçados por estilos, como Nós temos rapidamente apresentado, parece ser providencial que as pessoas que entrem neste campo devam ter recebido uma preparação técnica e cristã e que desejem ajudar a libertar os estilos daquelas tendências que não são recomendáveis.
Estas são as pessoas que veem nos estilos a arte de saber vestir-se, cujo objetivo é certamente, ainda que apenas parcialmente, melhorar a beleza do corpo, mas com tal moderação que o corpo, a obra-prima da criação, não será obscurecido, mas, ao contrário, nas palavras do Príncipe dos Apóstolos, será exaltado na “pureza incorruptível de um espírito suave e pacífico, o que é tão precioso aos olhos de Deus.” (I Pd 3, 4)

II. O PROBLEMA MORAL DA MODA E SUAS SOLUÇÕES

O problema da moda consiste numa reconciliação harmoniosa da ornamentação exterior da pessoa com o interior de “um espírito suave e pacífico”.
No entanto, algumas pessoas se perguntam se realmente existe um problema moral num fato exterior, contingente e relativo como a moda. E, presumindo que exista, elas se perguntam em que termos este problema deve ser estabelecido e de acordo com que princípios deve ser resolvido.
Este não é o lugar para protestar longamente contra as insistentes tentativas de muitos contemporâneos de separar as atividades exteriores do homem do campo moral, como se pertencessem a dois diferentes universos, como se o homem não fosse o sujeito e o objeto do campo moral e, portanto, responsável diante do regulador absoluto de todas as coisas.
É bem verdade que os estilos, como a arte, a ciência, a política e outras atividades chamadas profanas, seguem as suas próprias regras para alcançar os seus fins imediatos a que se propõem. No entanto, seu sujeito é invariavelmente o homem, que não pode prescindir de dirigir suas atividades a seu último e supremo fim.
Existe, então, o problema moral dos estilos, não somente na medida em que digam respeito a uma atividade humana genérica, mas principalmente na medida em que esta atividade seja levada a cabo num campo comum, ou pelo menos bem próximo, de evidentes valores morais. O problema é especialmente grande, já que os objetivos dos estilos – objetivos que em si mesmo são bons – são facilmente torcidos pela perversa tendência de uma natureza humana que devido ao pecado é uma natureza caída, e por isso a moda pode ser transformada em ocasião de pecado e de escândalo.

Severidade Eclesiástica

Esta inclinação de uma natureza corrupta para abusar das modas levou frequentemente a tradição eclesiástica a tratar a moda com suspeitoso e severo julgamento, como é expresso com intensa firmeza por notáveis escritores sagrados e por missionários zelosos, até ao ponto de “queimar objetos vãos”, o que, de acordo com o uso e a austeridade daqueles tempos, era estimado como eloquência efetiva pelo povo.
A partir destas manifestações de severidade, que basicamente mostram o cuidado materno da Igreja com o bem das almas e com os valores morais da civilização, não se pode argumentar, no entanto, que o Cristianismo demande quase que a renúncia do respeito e do cuidado pelo físico da pessoa e por seu decoro externo. Qualquer um que chegasse a esta conclusão estaria esquecendo o que o Apóstolo dos Gentios escreveu: “Do mesmo modo, quero que as mulheres usem traje honesto, ataviando-se com modéstia e sobriedade” (I Tim 2, 9).

A Atitude Positiva da Igreja

A Igreja, pelo contrário, não censura ou condena estilos quando eles são criados para o próprio decoro e ornamentação do corpo, mas ela jamais falha em advertir os fiéis contra serem facilmente arrastados por eles.
Esta atitude positiva da Igreja deriva de razões bem mais altas que a mera estética ou considerações hedonistas que foram assumidas por um renovado paganismo. A Igreja sabe e ensina que o corpo humano, que é a obra-prima de Deus no mundo visível, e que foi colocado a serviço da alma, foi elevado pelo Divino Redentor ao nível de templo e de instrumento do Espírito Santo, e como tal deve ser respeitado. Portanto, a beleza do corpo deve não ser exaltada como um fim em si mesmo, e muito menos como um disfarce que manche a dignidade de que foi dotado.

Avaliação Moral da indumentária

Falando em termos concretos, não se pode negar que junto com estilos decorosos existem também modas imodestas que criam confusão em mentes bem formadas e podem ser incentivos para o mal. É quase sempre difícil indicar com normas universais a linha divisória entre o decoro e a imodéstia, porque a avaliação moral da veste depende de muitos fatores. No entanto, o chamado relativismo da moda a respeito de tempo, lugares, pessoas e educação não é uma razão válida para renunciar a priori a um julgamento moral nesta ou naquela moda que, agora, viola o limite normal da decência.
O senso de decência, quase sem ser consultado nesta matéria, dá uma advertência imediata se a imodéstia, sedução, idolatria da matéria e luxúria, ou qualquer frivolidade, são ocultadas. E se os fabricantes de modas imodestas são peritos no tráfico da perversão, misturando-a num vestuário de elementos estéticos que são bons em si mesmo, a sensualidade humana é desafortunadamente ainda mais hábil em descobri-la e está pronta para cair sob seu feitiço.
Aqui como em todo lugar, uma maior sensibilidade a esta advertência contra as armadilhas do mal, longe de ser motivo para criticar aqueles que a possuem, como se fosse um sinal de depravação interior, é geralmente uma marca de uma alma reta e de uma vigilância sobre as paixões.
Mas não importa quão ampla e variável seja a moral relativa das modas: sempre haverá uma norma absoluta para guardar depois de ter escutado a admoestação da consciência advertindo ao se aproximar o perigo: um estilo jamais deve ser ocasião próxima de pecado.[2]

O Elemento da Intenção

Entre os elementos objetivos que concorrem para fazer que um estilo seja imodesto, está em primeiro e principal lugar a má intenção de seus fabricantes. Onde existe uma busca de criar ideias e sensações impuras através da moda, está presente uma técnica de disfarçada malícia. Eles sabem, entre outras coisas, que o atrevimento nestas matérias não pode ser levado além de certos limites, mas eles também sabem que o efeito desejado está próximo destes limites, e que uma hábil combinação de elementos sérios e artísticos com outros que são menos dignos é altamente adequada para capturar a fantasia e os sentidos. E eles se dão conta de que uma moda assim planejada será aceita por clientes que buscam tais efeitos, mas de que isso não comprometerá, ao menos em sua opinião, o bom nome das clientes honrados.
Toda restauração da decência deve então começar com a intenção daqueles desenhistas e daqueles que vestem suas roupas. Em ambos deve haver um despertar de suas consciências bem como de sua responsabilidade pelas trágicas consequências que podem resultar de roupas que são demasiadamente ousadas, especialmente se vestidas em público.

Imodéstia

Basicamente a imoralidade de alguns estilos depende em grande parto do excesso da imodéstia ou do luxo. Um excesso de imodéstia em moda envolve, na prática, o corte do vestuário. O vestuário não deve ser avaliado segundo a estimação de uma decadente ou corrupta sociedade, mas de acordo com as aspirações de uma sociedade que premia a dignidade e a seriedade da sua veste pública.
Geralmente é dito quase com passiva resignação que a moda reflete os costumes do povo. Seria mais exato dizer – e muito mais útil dizer – que ela expressa a decisão e a direção moral que uma nação tenciona tomar: ou ser naufragada na licenciosidade ou manter-se a si mesma num nível a que foi elevada pela religião e pela civilização.

Luxo

Não menos afortunadamente, mas em outra área, existem os excessos de estilos quando lhes é designada a tarefa de satisfazer a sede de luxo. O pequeno mérito que o luxo tem como fonte de trabalho é quase anulado pela grave desordem que deriva dela na vida privada e pública. Pondo de lado a dissipação da riqueza, que o luxo excessivo exige dos seus adoradores – que mais provavelmente terminarão sendo devorados por ele –, o luxo sempre insulta a integridade daqueles que vivem do seu próprio trabalho, e expõem a pobreza ao cinismo, seja ostentando fáceis ganhos, seja criando suspeita sobre a maneira de viver daqueles que vivem ao seu redor. Onde a consciência moral não modera o uso das riquezas, mesmo que sejam honestamente adquiridas, ou uma barreira medonha se colocará entre as classes ou toda a sociedade ficará à deriva, exausta pela corrida em direção a uma utopia de felicidade material.
Indicando o dano que uma falta de controle nos estilos pode fazer a indivíduos e à sociedade, Nós não tentamos sugerir que a força expansiva ou o gênio criativo dos desenhistas de moda devam ser reprimidos, nem que a moda deva ser reduzida a formas inalteráveis, à monotonia ou a uma triste severidade.

Três princípios básicos:

Para tal, alguns poucos princípios devem ser postos como base para resolver o problema moral dos estilos; a partir deles, normas mais concretas podem ser facilmente tiradas.

… a influência dos estilos

O primeiro é não minimizar a importância da influência de um estilo para o bem ou para o mal. A linguagem da veste, como Nós já dissemos, é mais efetiva quando é mais comum e é entendida por todos. Talvez se diga que a sociedade fala através da roupa que se veste. Através das roupas ela revela suas secretas aspirações e as usa, pelo menos em parte, para construir ou destruir o futuro.
Mas o cristão, seja ele o criador ou o cliente, deve ser cuidadoso para não subestimar os perigos e ruínas espirituais espalhados pelas modas imodestas, especialmente aquelas vestidas em público, por causa da continuidade que deve existir entre aquele que prega e aquele que pratica, até no sentido externo. Ele se recordará da suprema pureza que o Redentor exige de Seus discípulos até nos olhares e nos pensamentos. E se recordará da severidade que Deus mostra para com aqueles que causam escândalo.
Devemos lembrar nesta matéria as fortes palavras do profeta Isaías, em que foi predita a infâmia que sucederia na cidade santa de Sião por causa da imodéstia das suas filhas (Cf. Isaías 3, 16-24). E também devem lembrar-se aquelas outras palavras com que o maior de todos os poetas italianos expressou em termos veementes seus sentimentos de indignação pela imodéstia rastejante na sua cidade (cf. Dante, Purgatório, 23, 94-108).

… controle

O segundo princípio é que o estilo deve ser direcionado e controlado em vez de ser abandonado ao capricho e reduzido a serviço vil. Isso se aplica aos fabricantes de estilos – desenhistas e críticos; a consciência exige que eles não se submetam cegamente aos gostos depravados que são manifestados pela sociedade, ou por uma parte dela, e nem sempre a parte mais discernida em sabedoria. Mas também se aplica a indivíduos, cuja dignidade exige deles que sejam libertos com livre e iluminada consciência da imposição de gostos predeterminados, especialmente gostos discutíveis no campo moral.
Controlar os estilos também significa reagir firmemente contra costumes que são contrários às melhores tradições. O controle sobre a moda não contradiz mas, pelo contrário, confirma o ditado que afirma que “a moda não nasce fora nem contra a sociedade”, dado que a pessoa atribui à sociedade – como deveria ser – conscientemente e autonomamente dirigindo-se a si mesmo.

… e moderação

O terceiro princípio, ainda mais concreto, é o respeito à “medida”, ou melhor, à moderação em todo o campo de estilos. Assim como o excesso é a principal causa de seus defeitos, assim a moderação preservará o seu valor.
A moderação, acima de tudo, deve oferecer um padrão pelo qual regula, a todo custo, a gula do luxo, da ambição e dos caprichos. Os estilistas, e especialmente os desenhistas, devem deixar-se guiar pela moderação ao desenhar o corte ou a linha de uma veste e na seleção de seus ornamentos, convencidos de que a sobriedade é a qualidade mais fina da arte.
Longe de querer um retorno a formas antiquadas – apesar de que estas com frequência reaparecem nas modas como novidade – mas confirmando o valor perene da sobriedade, Nós gostaríamos de convidar os artistas de hoje a fixar-se por um momento em certas figuras femininas nas obras de artes clássicas que possuem indisputável valor estético. Aqui a roupa, marcada pela decência cristã, é o ornamento digno de pessoas cuja beleza é combinada como um único triunfo de admirável dignidade.

III. SUGESTÕES ESPECÍFICAS PARA OS PROMOTORES
E ASSOCIADOS DA “UNIÃO”.

E agora daremos algumas sugestões específicas a vocês, amados filhos e filhas, promotores e associados da “União Latina de Alta-costura.”
Parece-nos que a própria palavra “latina”, que vocês desejaram para designar sua associação, indica não somente uma geográfica região, mas acima de tudo a meta ideal de sua atividade. De fato, este termo “latina”, que é tão rico em profundo significado, parece expressar, entre outras coisas, uma viva sensibilidade e respeito pelos valores da civilização.
O termo parece expressar ao mesmo tempo um sentido de moderação, de equilíbrio e de concretude; qualidades que são todas necessárias aos componentes de sua União. Agradou-Nos ver que todas estas características inspiraram o propósito de seus estatutos, o qual vocês cordialmente submeteram a Nós. Nós notamos que estes estatutos derivam de um completo panorama do complexo problema da moda, mas especialmente da sua firme persuasão da responsabilidade moral da moda.
Seu programa é, portanto, tão amplo como o problema, já que inclui todos os setores determinantes da moda: o grupo feminino direto, com a intenção de guiá-los na formação de seus gostos e nas escolhas das roupas; as casas que são as “criadoras da moda” e a indústria têxtil; que por comum acordo todos possam adaptar seus esforços aos princípios saudáveis da União. E sendo a União composta por organizações que não são meros espectadores mas participantes – Nós podemos dizer atores no teatro da moda – seu programa também lida com o aspecto econômico da moda, tornado mais difícil agora pelas futuras mudanças na produção e pela unificação dos mercados europeus.

A formação do gosto

Uma das indispensáveis condições para alcançar os objetivos de sua União descansa na formação de sólidos gostos do público. Esta é de fato uma tarefa difícil, à qual às vezes se opõem esforços premeditados, e que requer de vocês muita inteligência, grande tato e grande paciência. A despeito de tudo, encarem-na com um espírito corajoso. Vocês certamente encontrarão fortes aliados, antes de tudo, entre as excelentes famílias cristãs que ainda são encontradas em grande número na sua terra nativa.
É claro que sua ação nesta direção deve ter como meta ganhar para sua causa especialmente aqueles que controlam a opinião pública através da imprensa e outros meios informativos. As pessoas querem ser guiadas no estilo mais do que em qualquer outra atividade. Não é que elas não tenham senso crítico nesta matéria de estética ou de propriedade, mas é que, às vezes dóceis e outra vezes preguiçosas demais para fazer uso desta sua faculdade, elas aceitam a primeira coisa que lhes são oferecidas e só mais tarde se dão conta de quão medíocres ou indecorosas certas modas são.
É necessário então que suas ações sejam oportunas. Entre todos, as celebridades são aquelas que neste momento estão guiando com grande efetividade os gostos do público, e especialmente as do mundo do teatro e dos filmes ocupam posição preeminente. Na mesma medida em que as responsabilidades delas são grandes, na mesma medida seu querer será frutífero se trouxer de volta pelo menos algumas delas para esta boa causa.

Problemas estéticos e morais

Um traço distintivo de sua União parece repousar no cuidadoso estudo do problema moral e estético das modas, conduzidos por encontros periódicos, como o presente congresso, que cada vez mais têm caráter internacional, persuadidos como vocês estão de que a moda do futuro terá um caráter unificador nos continentes individuais. Trabalhem vocês mesmos, então, para trazer a estes congressos a contribuição cristã de sua inteligência e talentos, com tal sabedoria persuasiva que ninguém seja capaz de suspeitar de preconceito no seu próprio interesse ou da fraqueza do seu compromisso.
A sólida consistência dos seus princípios será colocada à prova pelo chamado espírito moderno, que não consegue sofrer resistência. E será tentado pela mesma indiferença de muitos em face da consideração moral dos estilos, o que é o mais insidioso sofisma repetidamente usado para justificar a imodéstia e parece ser igual em todo lugar. Um destes ressuscita o antigo ditado que diz ab assuetis non fit passio (“As paixões não se levantam em face das coisas a que estamos acostumados”) de forma a marcar como “old-fashioned” (fora da moda) a revolta de pessoas honestas contras modas excessivamente ousadas. Será preciso mostrar quão fora de lugar este antigo ditado está nesta questão?
Quando falamos dos limites absolutos por defender diante do relativismo dos estilos, Nós mencionamos o infundado caráter de outra opinião falaz, de acordo com a qual a modéstia já não é apropriada na era contemporânea, que se tornou agora livre de todos esses inúteis e ruinosos escrúpulos.
Certamente pode conceder-se que existem diferentes degraus de moralidade pública de acordo com o tempo, a natureza e as condições da civilização das pessoas individuais. Mas isso não invalida a obrigação de lutar por um ideal de perfeição e não é razão suficiente para renunciar ao alto degrau de moralidade que já foi alcançado, e que se manifesta precisamente na grande sensibilidade pela qual as consciências reconhecem o mal e suas armadilhas.

Um combate mortal

Que sua União, então, se comprometa com este combate, cujo objetivo é assegurar um nível ainda mais alto de moralidade, digno de todas as tradições cristãs, nos costumes públicos de sua nação. Não é à toa que seu trabalho, que luta por introduzir estilos morais, é chamado uma “batalha”. Qualquer empreendimento que tente devolver ao espírito o seu domínio sobre a matéria encontra a batalha da mesma forma.
Considerando cada batalha em particular, pode-se ver que há indivíduos e significativos episódios na amarga e eterna luta que todos que estão chamados à liberdade no espírito de Deus devem sofrer nesta vida. O Apóstolo dos Gentios descreve com inspirada exatidão a linha de frente e as forças opositoras deste combate: “Porque os desejos da carne se opõem aos do Espírito, e estes aos da carne; pois são contrários uns aos outros. É por isso que não fazeis o que quereríeis” (Gal 5, 17). Listando as obras da carne num triste inventário da herança do pecado original, ele inclui entre elas a impureza, à qual ele opõe a modéstia como um fruto do Espírito Santo.
Ocupem-se disso generosamente e com confiança, sem permitir jamais que vocês sejam enlaçados por esta timidez que fez o numericamente pequeno – mas heroico exército – do grande Judas Macabeus dizer: “Como poderemos enfrentar tamanho exército, se somos tão poucos, tanto mais que nos sentimos fracos, porque hoje nada comemos?” (I Mac 3, 17). Que a mesma resposta dada pelo grande campeão de Deus e da pátria encoraje vocês: “Porque a vitória no combate não depende do número, mas da força que desce do céu” (Ibid., 19).
Com esta celestial garantia em mente, Nós nos despedimos de vocês, amados filhos e filhas. E Nós elevamos Nossas súplicas ao Onipotente para que Ele se digne derramar Sua assistência sobre sua União, e Suas graças sobre cada um de vocês, sobre suas famílias, e em particular sobre os humildes trabalhadores da moda. Como um sinal destes favores que Nós lhes desejamos a vocês, Nós cordialmente lhes concedemos a vocês Nossa paternal Bênção Apostólica.


Fontes:
[1]S.S. PIO XII, 8 DE NOVEMBRO DE 1957. ORIGINAL NO “THE POPE SPEAKS VOL. IV, NO. 3, – PP. 273-285”. VERSÃO ON LINE NO SITETTP://WWW.STTHOMAS.EDU/CATHSTUDIES/CST/PUBLICATIONS/PIUSXII.HTML. TRADUÇÃO DE JULIE MARIA/REVISÃO IGOR BARBOSA.
[2] CF. HANDBOOK OF MODESTY PARA UM ESTUDO DETALHADA SOBRE A MODÉSTIA EMHTTP://WWW.SLIDESHARE.NET/JULIEMARIA/HANDBOOK-OF-MODESTY (N.T)
Sabemos que certas modas de vestir, que entram hoje em uso entre as mulheres, são danosas ao bem da sociedade como aquelas que provocam o mal e de outro lado nos enchem de assombro e estupor ao ver que quem proporciona o veneno parece desconhecer a ação maléfica, como quem incendeia a casa parece ignorar a força destruidora do fogo.

Somente a suposição de tal ignorância possibilita a explicação desta deplorável extensão que a moda tomou hoje em dia, tão contrária àquela modéstia que deveria ser o ornamento mais belo da mulher cristã; sem a supra dita ignorância, parece-nos que nenhuma mulher teria podido chegar ao excesso de usar vestidos indecentes, até ao aproximar-se dos lugares sagrados, ou apresentar-se diante de mestres da moral cristã.

Oh! Com que satisfação entendemos que as aderentes da União Feminina Católica escreveram no programa o propósito de mostrar-se honestas também na maneira de vestir. Fazendo isso, sentindo seguir um dever de não dar escândalo, mas de dar exemplo aos outros, demonstrarão ter compreendido que a missão delas no mundo foi alastrando-se e devem dar o bom exemplo, não somente dentro das paredes domésticas, mas também no meio das ruas publicas e nas praças.

Nós gostaríamos que as mulheres católicas sentissem, além da obrigação individual, o dever social e nós gostaríamos que as mulheres católicas hoje aqui reunidas diante de nós se unissem para combater as modas indecentes não somente entre elas, mas que esse trabalho possa alcançar pessoas e famílias.

Seria supérfluo dizer que uma boa mãe não deve permitir que as filhas cedam às falsas exigências de uma moda não muito apropriada, e quanto mais elevado for o lugar que essa ocupa, tanto menos deve tolerar que quem vai visitá-la ouse ofender a modéstia com a indecente maneira de vestir. Uma advertência impediria no futuro a audaz impertinência de transgredir os direitos de hospitalidade.

Trechos do discurso do Papa Bento XV, onde ele fala sobre moda, vestuário e modéstia em 22 de outubro de 1919.


Foi dito frequentemente que entre os seres vivos o homem é um dos mais fracos, um desses que são muito privados de proteção natural. Mas Deus lhe deu inteligência que o permite compensar essa deficiência pelo exercício da indústria. Depende então de vós completar, como quem diz, o trabalho do Criador, fornecendo a suas criaturas da mesma categoria a roupa da qual elas precisam. Cristo, fazendo um dia Seus discípulos admirarem o traje delicado de uma flor simples dos campos, falou-lhes: “Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles.” (cf. Mt 6, 29)

Se, então, as plantas e animais são formados em cores maravilhosas que atraem o olhar e compelem à admiração, não pode o homem, a este respeito, imitar o Divino Artista? Indubitavelmente ele busca, acima de tudo, proteger-se das inclemências do tempo, mas, assim que seja possível se libertar da rotina da vida diária, ele se esforça para se distinguir no estilo do seu vestuário por algum traço pessoal e característico.

Além disso, o vestuário expressa visivelmente e de um modo permanente a posição de uma pessoa. Isso varia de acordo com sexo, idade e função social. E mostra a ligação do indivíduo com certas classes sociais e dentro destes grupos, o que lhe confere um status especial.

Especialmente as roupas formais têm o objetivo de tornar visível – através da riqueza do material e da costura impecável – a excelência daquele que as usa. Além desse aspecto utilitário óbvio, sua profissão tem um caráter verdadeiramente estético que garante sua originalidade e demandas além da habilidade manual, o uso dos dons da mente.

Essa é a razão pela qual a arte do alfaiate essencialmente escapa da mecanização. Sem dúvida, é também necessário assegurar até mesmo aqui uma produção intensiva que cumpre as necessidades diárias dos maiores números. Mas o lugar de honra sempre permanecerá com o trabalho incomum, no qual o artesão explora ao máximo as qualidades dos materiais utilizados e emprega todos seus recursos para realizar o ideal que ele concebeu.

É característico de uma arte buscar constantemente se renovar, inventar formas incessantemente novas e enfatizar outros tons. É indubitavelmente necessário satisfazer os desejos do comprador, mas o produtor tentará chamar a atenção e solicitar o interesse dele pela beleza e sutileza do seu trabalho. Esse esforço é completamente justificável.

Mas, por outro lado, o espírito materialista que inspira tão grande parte da civilização atual não poupou o campo da moda. Muito frequentemente é visto nesse campo um luxo provocante, que ignora toda a vergonha, só desejando lisonjear a vaidade e o orgulho. Em vez de elevar e enobrecer a pessoa humana, às vezes o vestuário tende a degradá-la e humilhá-la.

Mesmo se vós não fordes responsáveis por essas manifestações lamentáveis, não podeis permanecer indiferentes a elas. Longe de manter a já muito forte inclinação para a imodéstia, sempre tende o cuidado de respeitar as normas da decência e do bom gosto, de uma elegância sensatamente entendida e perfeitamente honesta. Em resumo, em vez de seguir a corrente materialista que está desviando tantas pessoas hoje, deliberadamente ponde-vos ao serviço de fins espirituais. Não é possível dividir a vida humana, fixar certas esferas nas quais a moralidade não tem nenhuma palavra a dizer. As roupas expressam de modo muito evidente as tendências e gostos que uma determinada pessoa pode vir a desenvolver no sentido de escapar de certas regras bem claras, as quais ultrapassam e governam o simples ponto de vista estético.

Se é necessário condenar a ostentação vã, é completamente normal para o homem tentar enriquecer pelo brilho exterior de suas das roupas as extraordinárias ocorrências da vida e através delas mostrar os seus sentimentos de alegria, orgulho ou mesmo tristeza. O vestuário branco de uma criança na manhã de sua Primeira Comunhão, o de uma jovem mulher no dia do seu matrimônio, não simbolizam o esplendor totalmente imaterial de uma alma que está oferecendo o melhor de si mesma?

Além disso, e de acordo com a parábola do Evangelho, a entrada no Reino de Céu não está reservada somente para quem usar o misterioso vestuário de casamento que Deus requer dos que Ele chama, isto é, uma consciência clara e pura, cujas faltas foram apagadas pela Divina Graça que os transforma e os torna merecedores de aparecer diante de Deus? Não há aqui um ideal moral magnífico para a sua profissão?

Vocês trabalham imediatamente a serviço da pessoa humana, elevada por Deus a uma dignidade incomparável quando, pela Encarnação, Ele se tornou um membro da humanidade. Na mais humilde de suas queridas criaturas brilha a imagem do Filho de Deus. Assim como as mãos maternas da Virgem Santíssima se ocuparam para fazer as roupas de Cristo – talvez até mesmo aquele traje pelo qual no Calvário foram lançadas sortes por soldados desavisados do significado dos seus atos – assim é a Deus quem vós continuais vestindo nos homens de hoje. Isso não é questão de puro simbolismo.

Em uma das passagens mais solenes do Evangelho, o anúncio do juízo final, Cristo aludiu expressamente a esse trabalho de caridade: “Vinde, tomai posse do Reino que vos está preparado”, Ele disse aos Seus eleitos, “porque Eu estava nu e Me vestistes”. E acrescentou, “todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.” (cf. Mt 25, 34.36.40)

Essa passagem do Evangelho confirma-vos, cavalheiros, uma promessa magnífica e uma grande consolação. Apesar das dificuldades que impedem o exercício de vossa atividade profissional, não diminuais seus objetivos para a única questão do ganho temporal. Sabei permanecer sempre atentos ao profundo significado de vosso trabalho e de sua finalidade humana. Longe de impedir seu exercício, esse ideal vos ajudará salvaguardando sua dignidade e vos fará ter um justo orgulho da nobreza de vossa tarefa.

Alocução do Papa Pio XII aos Delegados do Sexto Congresso Internacional de Alta Costura (Modificação dos métodos antigos de trabalho – As repercussões nas profissões), 10 de setembro de 1954. “Papal Teaching, The Woman in the Modern World”, St. Paul Editions (1958)

S.S. Pio XII
Alocução às Meninas da Ação Católica,
6 de outubro de 1940.[1]

(Esta é a hora da juventude católica)
Se amanhã o mundo não desejar permanecer para sempre enterrado na sombra da morte, ele terá que se ocupar em reparar as suas perdas, reconstruir as ruínas. Nesse momento você deve colaborar, Juventude Católica! E que maravilhosos empreendimentos aguardam a sua colaboração! Para reconstruir a sociedade sobre uma base cristã; para pôr em estima e honra o Evangelho e sua moral; para renovar a vida da família, restaurando ao matrimônio a sua coroa – sua dignidade sacramental, e ao marido e à mulher o sentido de suas obrigações e a consciência de sua responsabilidade; para estabelecer em toda a sociedade a noção genuína da autoridade, da obediência, do respeito pela lei, dos direitos e deveres recíprocos do homem. Esse é o seu amanhã.
Uma de suas grandes tarefas será a de ensinar a doutrina de Cristo. O mundo é dominado hoje em grande parte pelo “laicismo”: a tentativa do homem de agir sem Deus. É uma iniciativa vã e ímpia, que assume diferentes aspectos e títulos de acordo com a variedade de tempo e lugar: indiferença, descuido, desprezo, revolta, ódio. Este último, o mais perverso de todos, felizmente, não é freqüentemente encontrado em famílias nutridas pelo cristianismo há séculos, mas muitas vezes o desenvolvimento, o progresso, a difusão da ciência e das máquinas e os progressos no bem-estar material causaram em muitas pessoas uma crescente indiferença para com Deus e para com as coisas divinas. Os homens acreditam que dependem menos diretamente de Deus, agora que ganharam para si um padrão mais elevado de bem-estar material aqui embaixo. Eles ingratamente esquecem que tudo o que temos é um dom de Deus: quer se trate das forças da natureza que eles aproveitam, quer das suas próprias faculdades intelectuais e físicas — precisamente os instrumentos de seu sucesso e de suas vitórias.
Em outras épocas — não em si totalmente imune de falhas e erros — uma fé religiosa penetrava e invadia o conjunto da sociedade, especialmente a vida familiar, sendo as paredes adornadas com o crucifixo e imagens piedosas. A literatura e a arte da casa eram baseadas na Bíblia. As cidades, vilas, montanhas, nascentes levavam os nomes dos santos, ao longo das vias na zona rural e em cruzamentos, o viajante contemplava a imagem de Cristo crucificado e de Sua Mãe Santíssima. Parecia que tudo, o próprio ar, falava de Nosso Senhor, porque os homens viviam em contato estreito com Deus, viviam conscientes de sua presença universal e de seu poder soberano. O sino da igreja os acordava, convidava-os para o sacrifício divino; a oração do Angelus três vezes ao dia, para as funções de sagrado; governava a rotina diária de trabalho, assim como o sacerdote assegurava que o trabalho fosse bem feito. Cada família de então possuía um catecismo, uma história da Bíblia, muitas vezes, também, a vida dos santos para cada dia do ano. Mas quantas casas existem hoje, mais ou menos desordenadas com várias publicações, com romances e contos, mas com a falta daqueles livros! Quantos pais não estão, justamente, ansiosos para garantir que seus filhos aprendam bem as regras de higiene, mas dificilmente prestam todos estes cuidados à sua educação religiosa!

Ensinando do catecismo

Nossos venerados predecessores muitas vezes lamentaram publicamente o desconhecimento da doutrina cristã e os graves prejuízos para as almas que resultam disso. Devido a esse fato, a Ação Católica, nunca surda às palavras dos pontífices romanos, considera como uma das suas funções essenciais, bem como a formação religiosa e moral dos seus membros, também a sua preparação para o ensino do catecismo: pois o catecismo é o fundamento do conhecimento Cristão e da vida Cristã. Aquelas jovens moças que hoje ardentemente desejam fundar uma família cristã (e não há muitos entre vós que têm precisamente esse desejo?) devem se preparar e treinar para ser, se não as doutoras da religião, pelo menos as professoras. Mais do que uma de vocês, no futuro, pode perceber que a mulher deve lembrar o seu marido, com infinito tato, sabedoria e paciência, das verdades da fé e dos preceitos do Evangelho. Certamente terá que fazê-lo para seus filhos, em qualquer caso, mas não estará cheia de apreensão ou medo desse dever, se adquiriu experiência e prática em tempo útil, no âmbito da Ação Católica.
Ensinar e instruir uma alma é ao mesmo tempo “dar e receber”, o que corresponde perfeitamente com uma das ambições mais belas do seu sexo e da sua idade. A menina, a mulher que se torna professora da verdade e da bondade dá aos outros algo do tesouro da sua alma e de seu coração, através do seu trabalho falado; ela dá a si mesma para formar uma vida espiritual, da mesma forma como uma mãe dá a si mesma para a constituição física de seu filho, às vezes heroicamente, sacrificando até mesmo sua própria vida.
(Agradecimentos ao linho do altar oferecido pelo movimento.)

Moda e modéstia

Vocês que piedosamente vestem o altar e o sacrário nunca devem esquecer que carregam Deus dentro de si pela habitação da graça em suas almas. Essa presença divina faz não só suas almas, mas também seus corpos, templos sagrados. O apóstolo Paulo escreveu em sua primeira epístola aos Coríntios: “Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo?” Certamente vocês sabem que vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós. E que Ele é dom de Deus para vós, de forma que vós já não vos pertenceis”.[2]
A consciência da habitação divina, da nossa incorporação em Cristo, tem através dos séculos, desenvolvido um respeito religioso para com o corpo em povos dóceis ao espírito do Evangelho. Esse respeito se manifesta no adorno da pessoa humana, no comportamento e na atitude, na fala sabiamente regulamentada e cuidadosamente medida: em uma palavra, modéstia. O mesmo apóstolo, nos primeiros anos da Igreja, desejava que as mulheres usassem o véu nas funções sagradas, e de novo para os Coríntios escreveu: Julgai vós mesmos: é decente que uma mulher reze a Deus sem estar coberta com véu? No entanto, para a mulher é glória ter longa cabeleira, porque os cabelos lhe foram dados como véu”.[3]
Este ano vocês têm dado o primeiro lugar em seus projetos para a “grande cruzada da pureza”, a mesma pureza da qual a modéstia é a salvaguarda. Assim como a natureza colocou em cada criatura o instinto de autopreservação no que diz respeito à vida da criatura e da integridade dos seus membros, assim, a consciência e a graça, que não destroem a natureza, mas a aperfeiçoam, colocam na alma, por assim dizer, um sentido que se torna vigilante contra os perigos que ameaçam a pureza. Essa é uma característica especialmente da jovem cristã. Lemos na “Passio SS. Perpetuae et Felicitatis” — com justiça considerada uma das jóias mais preciosas da literatura cristã primitiva — que, no anfiteatro de Cartago, quando a mártir Vibia Perpétua, jogada para o alto por uma vaca selvagem, caiu no chão, seu primeiro pensamento e ação foi arrumar o vestido de modo a cobrir sua coxa, porque ela estava mais preocupada com a modéstia do que com a dor.[4]
Moda e modéstia devem andar de mãos dadas como duas irmãs, porque ambas as palavras têm a mesma etimologia: elas derivam do latim “modus”, significando a medida certa, e qualquer desvio em uma direção ou outra é considerada não reta, não razoável[5]. Mas a modéstia não é algo apartado da moda. Muitas mulheres, como pobres, tolas criaturas que perdem o instinto de autopreservação e a ideia de perigo, e então jogam-se em incêndios e rios, têm esquecido a modéstia cristã por causa da vaidade e da ambição: caem miseravelmente em perigos que podem significar a morte de sua pureza. Elas entregam-se à tirania da moda, mesmo que a moda seja indecente, de forma a não parecer nem mesmo suspeitarem que isso é inconveniente. Elas perderam o próprio conceito de perigo: elas perderam o instinto de modéstia.
Ajudar essas mulheres infelizes a reconhecer suas obrigações morais será o seu apostolado, a sua cruzada em todo o mundo: “Seja a vossa modéstia conhecida de todos os homens”.[6]

Exemplo

Seu apostolado será realizado, acima de tudo pelo bom exemplo. Será o dever de seu amado Presidente, de seus líderes sábios, ensinar-lhes que antes de vocês colocarem um vestido, vocês devem se perguntar o que Jesus Cristo iria pensar disso; eles vão avisá-las que, antes de aceitar um convite, vocês devem considerar se o seu invisível guardião celestial poderá acompanhá-las, sem cobrir seus olhos com suas asas; eles vão dizer-lhes quais teatros, quais companhias, quais praias evitar; eles vão mostrar a vocês como uma garota pode ser moderna, culta, esportiva, cheia de graça, naturalidade e distinção, sem ceder a todas as vulgaridades de uma moda doentia, mas preservando uma aparência que não tem artificialidades, assim como a alma que essa aparência reflete, um semblante sem sombra, quer interior quer exterior, mas sempre reservado, sincero e franco. Recomendamos, acima de tudo, rezar para a corajosa e ativa defesa de sua pureza. Recomendamos especialmente a devoção à Eucaristia e à Virgem Maria Imaculada, a quem vocês estão consagradas.
Na Eucaristia vocês encontram a Deus, a pureza em si, porque Ele é infinitamente perfeito. Quando Ele se entrega a vocês, — agrada-nos repetir as palavras do profeta — “O trigo dará vigor aos jovens, e o vinho às donzelas”[7]. Nosso Senhor, “que é uma efusão da luz eterna, um espelho sem mácula”[8] purifique suas almas e suas faculdades, seus corpos e seus sentidos. Quanto mais uma criatura se aproxima de Deus, mais se une a Ele, mais pura se torna e mais ela deseja a pureza, mais ela tende para Aquele que é o Ser puro.
Quando o Verbo desejou tornar-se carne e nascer de uma mulher, colocou o seu olhar sobre o mais perfeito ideal de Suas criaturas: uma moça na graça de sua virgindade. Quando essa graça foi unida por um milagre singular à graça da maternidade divina, sua beleza era tão sublime, que os artistas, poetas, santos aspiravam ardentemente, mas sempre em vão, dar-lhe expressão adequada. A Igreja e os seus anjos a saúdam com os títulos de Rainha e Mãe, inúmeros são os títulos com os quais a piedade dos fiéis a coroou como um diadema de um milhar de jóias. Mas de todos esses títulos de glória, um é particularmente caro a ela, e descreve a sua perfeição: a Virgem.
Que essa Virgem das Virgens, Maria, Rainha do Santo Rosário, seja o seu modelo e sua força durante toda sua vida como jovens mulheres católicas e, especialmente, na sua cruzada pela pureza.

[1] Papal Teaching, The Woman in the Modern Word, St. Paul Editions (1958).
[2] I Cor 6, 15.19.
[3] I Cor 11, 13.15.
[4] Cf. Ed Franci de Cavalieri, 1896, p. 142-144.
[5] Horace Sermones, I, 1, 106-107.
[6] Fil 4, 5 N.T. No original “modestia vestra nota sit omnibus hominibus Dominus prope”.
[7] Zac 9, 17.
[8] Sab 7,26.


Tradução: modaemodestia.com.br

Felicitações por ter começado a “Cruzada pela Pureza”

É uma cruzada contra os que minam a moral cristã, contra os perigos que estão criando, no fluxo tranqüilo da boa moral no mundo, poderosas ondas de imoralidade que estão inundando todo o mundo e envolvendo todas as classes sociais. Não é apenas a Igreja que proclama esse perigo existente hoje em toda a parte; mesmo entre os homens que não seguem a fé cristã, aqueles que são mais perspicazes, os mais preocupados com o bem público, têm apontado claramente os perigos terríveis para a ordem social e para o futuro das nações. Os incentivos à impureza, multiplicando-se continuamente, envenenam as bases da vida. E ao mesmo tempo, a atitude indulgente, ou melhor, a atitude negativa de uma parte cada vez maior da opinião pública, tornando-a cega para os mais graves distúrbios morais e relaxa ainda mais as rédeas que mantêm o mal sob controle.
A imoralidade presente é pior do que a de idades precedentes? Seria talvez imprudente afirmar isso, e a pergunta é em todo caso supérflua. Na sua própria época, o autor do Livro de Eclesiastes pôde escrever: “Não digas jamais: Como pode ser que os dias de outrora eram melhores que estes de agora? Porque não é a sabedoria que te inspira esta pergunta. O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol”.[2]

Batalha Cristã

A vida do homem na terra, mesmo na época cristã, permanece sempre uma guerra. Temos que salvar nossas almas e as almas dos nossos irmãos. Hoje, o perigo é certamente maior, porque os meios de excitar as paixões, anteriormente muito restritos, multiplicaram-se enormemente. O progresso na impressão, publicações baratas e luxuosas, fotografia, ilustrações, reproduções artísticas de todas as formas, cores e preços; filmes, espetáculos de variedades e centenas de outros meios apresentam secreta e discretamente as atrações do mal, e as tornam disponíveis a todos — velhos e jovens, mulheres e garotas. Não é verdade que está aí para todo o mundo ver uma moda que é tão exagerada a ponto de dificilmente ser adequada a uma garota cristã? E o cinema não apresenta agora as produções que anteriormente eram apresentadas apenas em locais onde mal se ousava pôr os pés?
Em face de tais perigos, em alguns países, as autoridades públicas têm tomado medidas legislativas ou administrativas para conter a avalanche de imoralidade. Mas essa ação externa vinda até mesmo das autoridades mais poderosas, embora louvável, útil e mesmo necessária, nunca pode por si só trazer os resultados na esfera moral, que são sinceros, fecundos e curadores para a alma. Para curar a alma, um tipo diferente de poder é necessário.

O dever da Ação Católica

A Igreja deve trabalhar pela alma, e da mesma forma a Ação Católica, a sua ação, a serviço da Igreja, em união íntima e sob a direção da Hierarquia, lutando contra os perigos da imoralidade, lutando em qualquer campo que esteja aberto para você: no campo da moda e do vestuário, da saúde e do esporte, no domínio das relações sociais e de entretenimento, suas armas serão a sua palavra, o seu exemplo, a sua cortesia e seu comportamento; armas que põe ante os outros um padrão de ações, que são uma honra para você e sua atividade, e tornam este mesmo padrão possível e louvável para eles.
Não temos a intenção de pintar o triste retrato, apenas muito familiar, dos exageros que você percebe sobre si: vestidos que dificilmente são suficientes para cobrir a pessoa, ou outros que parecem concebidos para enfatizar aquilo que deveria esconder; esportes que são realizados com tais vestuários, tanto exibicionismo e em tais companhias que são irreconciliáveis até mesmo com o padrão menos exigente da modéstia; danças, filmes, peças teatrais, publicações, ilustrações, decoração a partir do qual o desejo louco de entretenimento e prazer produz graves perigos. Ao contrário, nós temos o desejo de trazer à mente mais uma vez os princípios cristãos que iluminem suas decisões nesses assuntos, seus passos e guia de conduta, e inspirem e sustentem sua guerra do espírito.
É realmente uma guerra. A pureza das almas que vivem em estado de graça sobrenatural não é preservada, nem será preservada, sem luta. Felizes são vocês que têm recebido em suas famílias na aurora da vida, do berço, uma vida mais elevada, vida divina, através do batismo. Quando você era bebê não tinha que batalhar, inconsciente de tal grande dom e de tal felicidade — como fazem as almas mais maduras, mas menos afortunadas do que você — para ganhar um tão grande bem: mas você também deve lutar para preservá-lo.
Embora o pecado original tenha sido limpo de suas almas pela ação purificadora da graça santificante que as reconciliou com Deus, tornando vocês filhas adotadas e herdeiras do céu, deixou em vocês uma forma triste da herança de Adão: um desequilíbrio interior, um conflito, que até mesmo o grande apóstolo Paulo sentia. Quando o homem interior alegrou-se na lei de Deus, sentiu outra lei, a lei do pecado nos seus membros, a lei das paixões e das inclinações desordenadas, nunca inteiramente sujeitadas, com a qual o anjo de Satanás trabalha, ajudado pela carne e pelo mundo, para seduzir as almas. Essa é a guerra do espírito e da carne, tão abertamente atestada na revelação, que (se excetuarmos só a Virgem Maria) é inútil pensar que pode haver uma vida humana sem o devido cuidado e luta.
Não se engane, considerando a sua alma insensível à tentação, invencível a atrações e perigos. É verdade que o hábito pode tornar uma alma menos impressionável, sobretudo no caso de uma cujos poderes são absorvidos e totalmente ocupados no exercício de alguma atividade intelectual superior ou profissional. Mas imaginar que todas as almas, tão propensas ao sentimento, podem tornar-se insensíveis às incitações provenientes de imagens que, coloridas pela sedução do prazer, chamam e prendem a atenção, seria supor e julgar que a cooperação no mal que os convites insidiosos encontram no instinto da natureza decaída e desordenada poderiam cessar ou diminuir.

O objetivo de ação comum

Essa luta inevitável você aceita com coragem e espírito cristão. O objetivo da ação comum não pode ser a eliminação total desse combate, mas deve ter por objetivo assegurar que esse necessário conflito espiritual não se torne mais difícil e perigoso para as almas pelas circunstâncias extrínsecas e pela atmosfera em que os corações que sofrem seus ataques devem resistir e lutar.  Nos campos de batalha da Igreja, onde a virtude se opõe ao vício, você encontrará sempre os personagens heróicos novos intrépidos, moldados por Deus: esses, sustentados pela graça, não se abalam nem caem, não importa o quão fortes sejam os golpes; eles podem abertamente conservar-se incorruptos e puros no meio da sujeira que os cerca; eles são, por assim dizer, o fermento no grão bom, e um renascimento para o maior número de almas – esses, também, redimidos pelo sangue de Cristo, que constituem as massas. O objetivo, então, do seu combate deve ser o de tornar menos árdua para os homens de boa vontade a conquista do grau de pureza cristã, a condição de salvação: para garantir que as tentações que surgem do ambiente não excedam os limites da resistência que, com a graça divina, a vitalidade medíocre de muitas almas possa se opor a elas.
Para realizar objetivo tão santo e virtuoso, deve-se agir de acordo com os grupos e correntes de idéias: uma tarefa na qual uma ação conjunta pode operar com grande efeito. Desde que a união faz a força, apenas um grupo compacto, tão numeroso quanto possível, de espíritos cristãos resolutos e não tímidos, será capaz de, sempre que a sua consciência exige, de lançar fora o jugo de certos ambientes sociais, de se libertar da tirania – hoje mais forte do que nunca – de modas de todo tipo: a moda no vestir, a moda no comportamento e nas relações da vida.

Moderação e bom gosto

O movimento da moda em si não é algo mau. Ele flui espontaneamente da natureza social do homem, de acordo com um impulso que o inclina a manter-se em harmonia com seus semelhantes, e com o modo de agir das pessoas entre os quais ele vive. Deus não lhe pede para viver fora do seu tempo, tão descuidado das exigências de forma a tornar-vos ridículos, vestindo-se de maneira oposta ao gosto comum e práticas de seus contemporâneos, sem considerar o que agrada a todos eles.
Por isso mesmo o angélico Santo Tomás afirma que, nas coisas externas que o homem usa, não há mal. Mas o mal vem do homem, que faz uso dessas coisas sem moderação, ou de modo contrário ao uso comum no seu ambiente, tornando-se estranhamente em discórdia para com os outros. Ou então, usando as coisas de acordo com o uso comum, mas na verdade com afeição exagerada, através do uso de muitas roupas pelo orgulho de estar na moda ou pelo prazer, ou analisadas com um cuidado exagerado, quando apenas humildade e simplicidade teriam sido suficientes para garantir o decoro necessário.
E o mesmo santo Doutor vai tão longe e diz que o ornamento da pessoa do sexo feminino pode ser um ato meritório da virtude, quando estiver em conformidade com o estado, a posição da pessoa, e se é feito com boas intenções, e quando as mulheres usam ornamentos que são decentes de acordo com sua posição e sua dignidade, quando eles são governados de acordo com os costumes de seu país. Então ornamentar a si mesmo também se torna um ato da virtude da modéstia, que influencia o modo de andar e de se portar, o modo de vestir, todos os movimentos externos.
Mesmo seguindo a moda, a virtude está no meio. Aquilo que Deus pede é recordar sempre que a moda não é, nem pode ser a regra suprema da conduta; que acima da moda e de suas exigências existem leis mais altas e imperiosas, princípios superiores e imutáveis, que em nenhum caso podem ser sacrificados ao talante do prazer ou do capricho, e diante dos quais o ídolo da moda deve saber inclinar a sua fugaz onipotência. Esses princípios foram proclamados por Deus, pela Igreja, pelos santos e pelas santas, pela razão e pela moral cristãs, assinalados limites, além dos quais não florescem lírios e rosas, nem pairam nuvens de perfumes da pureza, da modéstia, do decoro e da honra feminina, mas aspira-se e domina um ar malsão de leviandade, de linguagem dúbia, de vaidade audaz, de vanglória, não menos de espírito que de traje. São aqueles princípios que Santo Tomás mostra para o ornamento feminino e recorda, quando ensina qual deve ser a ordem de nossa caridade, de nossas afeições: o bem da própria alma deve preceder o do nosso corpo, e à vantagem de nosso próprio corpo devemos preferir o bem da alma de nosso próximo. Não se vê, portanto, que há um limite que nenhuma idealizadora de modas pode fazer ultrapassar, a saber, aquele além do qual a moda se torna mãe de ruína para a alma própria e dos outros?

O sacrifício exige

Algumas jovens dirão talvez que uma determinada forma de vestuário é mais cômoda, e também mais higiênica; mas, se constitui para a saúde da alma um perigo grave e próximo, não é certamente higiênica para o espírito: tem-se o dever de renunciar. A salvação da alma fez heroínas mártires como Inês e Cecília, em meio dos tormentos e lacerações de seus corpos virginais: e não irão vocês, suas irmãs na fé, no amor de Cristo, na estima para virtude, encontrar no fundo de seus corações a coragem e força para sacrificar um pouco do bem-estar — uma vantagem física, se vocês preferem – para conservar segura e pura a vida de suas almas?
E se, por um simples prazer próprio, não se tem o direito de colocar em perigo a saúde física dos outros, não é talvez ainda menos lícito comprometer a saúde, até a própria vida de suas almas? E, se como dizem algumas mulheres, uma moda ousada não deixa nelas impressão alguma, o que sabem elas da impressão que deixarão nos outros? Quem lhes assegura que outros não tirarão disto um incentivo para o mal? Vocês não conhecem bem a fragilidade humana, nem de que sangue de corrupção sangram as feridas deixadas na natureza humana pela culpa de Adão com a ignorância no intelecto, com a malícia na vontade, com a ânsia do prazer e a debilidade para o bem, árduo nas paixões dos sentidos a tal ponto que o homem, como cera amoldável ao mal, “vê o melhor e o aprova, e ao pior se apega”[3], por causa daquele peso que sempre, como chumbo, o arrasta para o fundo. Ó, quão verdade seria se algumas mães cristãs suspeitassem as tentações e quedas que causam aos outros com seus modelos de vestidos e familiaridades em seus comportamentos, que elas inconscientemente consideram de pouca importância: estariam chocadas pela responsabilidade que é sua!
Ao que Nós não duvidamos de acrescentar: oh, mães cristãs, se soubésseis que futuro de perigos e íntimos desgostos, de dúvidas e irreprimível rubor preparais para vossas filhas e filhos, com imprudência em acostumá-los a viver parcamente vestidos, fazendo deles desaparecer o sentido natural da modéstia, vós mesmas enrubesceríeis, e vos horrorizaríeis pela vergonha que causais a vós mesmas e o dano que fazeis aos filhos que vos foram confiados pelo céu, para que crescessem cristãmente. E aquilo que dizemos para as mães, repetimo-lo a não poucas senhoras crentes, e mesmo piedosas, que aceitam seguir esta ou aquela moda arrojada, e com o seu exemplo fazem cair as últimas hesitações que retêm uma turba de suas irmãs que estão longe daquela moda, a qual poderá tornar-se para elas fonte de ruína espiritual. Enquanto certos modos provocantes de vestir permanecem como triste privilégio de mulheres de reputação duvidosa e são quase um sinal que as faz reconhecer, não se ousará, pois, usá-los para si; mas no dia em que aparecerem como ornamentos de pessoas acima de quaisquer suspeita, não se duvidará mais de seguir tal corrente, corrente que arrastará talvez para dolorosas quedas”.
(Exortação a um combate inteligente e corajoso)

[1] Alocução 22 maio 1941. Papal Teaching, The Woman in the Modern Word, St. Paul Editions (1958).
[2] Eclesiastes 7, 10; 1, 9.[3] Rm 7, 19.

Detalhe: Michelangelo Merisi da Caravaggio






Ponto I


Sabes? Desejo revelar-te um segredo… 
Sabes? És imortal! 
Não acreditas, percebo, neste segredo. 
Mas saiba que é verdade, tu possuis uma alma imortal. 
Contudo, deves também conhecer a outra parte do segredo, 
O pecado é para ela um veneno fatal, 
Se o tomar e não se remediar,
 jamais contemplará o Reino Celestial.



O homem é um ser composto de espírito e matéria que, de algum modo, condensa os mundos espiritual e material.

O espírito do homem denomina-se alma.

As plantas e os animais, que também são seres corpóreos, possuem alma; a diferença reside no fato de que a alma das plantas é vegetativa e a dos animais, vegetativa e sensitiva. Já a alma humana, além dessas duas faculdades, possui também a faculdade da inteligência.

A alma humana também exerce sua função própria independentemente do corpo, já que o objeto do entendimento buscado pela inteligência é o imaterial, e dessa verdade podemos concluir que a alma é imortal, pois se é independente do corpo no obrar, forçosamente o há de sê-lo no existir.

Assim, o corpo perece sem a alma, mas a alma existe ainda que sem o corpo, é eterna.

Portanto, a alma só se une ao corpo para formar um todo harmônico chamado homem. E a união da alma ao corpo não é acidental, não ocorre ao acaso.

A alma confere ao corpo todas as perfeições que possui: o existir, o viver e o sentir, reservando para si, unicamente, o ato de entender.

Quem entende é a alma, e a alma é imortal.




“O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo é entendimento.” (Provérbios 9, 10)

Respondeu Jesus: “Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento.” (São Mateus 22, 37)

“Se o nosso Evangelho ainda estiver encoberto, está encoberto para aqueles que se perdem, para os incrédulos, cujas inteligências o deus deste mundo obcecou a tal ponto que não percebem a luz do Evangelho, onde resplandece a glória de Cristo, que é a imagem de Deus.” (II Coríntios 4, 4)





Ponto II


Senhor, prepara a minha alma, Minha alma, aceita ser um santuário.
Senhor, prepara minha alma para ser teu santuário. Minha alma, aceita ser pura, verdadeira e santa.
Senhor, prepara a minha alma para ser um santuário, Puro, Santo e Verdadeiro.


O corpo vive das potências vegetativas, que são três: o poder de nutrição, o de crescimento e o de reprodução.

E sente por virtude das potências sensitivas, que se dividem em duas classes: cognoscitiva e afetiva.



Das cognoscitivas:

Cognoscitivas (com sentidos exteriores), que são cinco sentidos.
Cognoscitivas sensíveis (sem órgão externo), que são o senso comum, a imaginação, o instinto e a memória.

O homem possui também outra faculdade cognoscitiva chamada de inteligência ou razão, que são uma só potência; no entanto, tem dois nomes, pois há verdades que o entendimento compreende de um só golpe e outras que necessitam de raciocínio.

O homem possui assim a capacidade de discorrer (entender pelo raciocínio), tal habilidade é uma perfeição do homem em relação a outros seres, pois pode chegar à verdade por esse meio. E imperfeição, comparado a Deus e aos anjos, pois pode ainda cair no erro.

A verdade é o conhecimento do que existe.

A ignorância é a carência de conhecimento sobre algo.

O erro é atribuir existência ao que não a teve ou tem.

A verdade pode ser conhecida a partir da idade da razão, 7 anos. No entanto, não é possível, mesmo por investigação, adquirir o conhecimento de todas as verdades; mas poderá conhecer naturalmente as coisas sensíveis e as verdades que deste conhecimento se derivam.




Das afetivas: o Livre Arbítrio

As faculdades afetivas são o poder que o homem tem de propender para o que as faculdades cognoscitivas lhe apresentam como bom e de fugir do que como mau lhe põem diante dos olhos.

Existem duas classes de faculdades afetivas: o apetite sensitivo e a vontade (que é um apetite, mas mais nobre e espiritual) e, portanto, mais perfeito.

Baseado no Catecismo da Suma Teológica de São Tomás de Aquino, Doutor da Igreja.




“O coração do homem dispõe o seu caminho, mas é o Senhor que dirige seus passos.” (Provérbios 16, 9)

“Tomo hoje por testemunhas o céu e a terra contra vós: ponho diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas com a tua posteridade, amando o Senhor, teu Deus, obedecendo à sua voz e permanecendo unido a ele. Porque esta é a tua vida e a longevidade dos teus dias na terra que o Senhor jurou dar a Abraão, Isaac e Jacó, teus pais.” (Deuteronômio 30, 19-20)

“Porém, se vos desagrada servir o Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: se aos deuses, a quem serviram os vossos pais além do rio, se aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais. Porque, quanto a mim, eu e minha casa serviremos o Senhor.” (Josué 24, 15)

Deus “retribuirá a cada um conforme o seu procedimento”. Ele dará vida eterna aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade. Mas haverá ira e indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça. Haverá tribulação e angústia para todo ser humano que pratica o mal: primeiro para o judeu, depois para o grego; mas glória, honra e paz para todo o que pratica o bem: primeiro para o judeu, depois para o grego. Pois em Deus não há parcialidade. (Romanos 2, 6-11)

“…voltem a si, uma vez livres dos laços do demônio, que os mantém cativos e submetidos aos seus caprichos.” (2 Timóteo 2, 26)

“Tudo é permitido, mas nem tudo é oportuno. Tudo é permitido, mas nem tudo edifica.” (1 Coríntios 10, 23)

“Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não abuseis, porém, da liberdade como pretexto para prazeres carnais. Pelo contrário, fazei-vos servos uns dos outros pela caridade.” (Gálatas 5, 13)



Baseado no Catecismo da Suma Teológica de São Tomás de Aquino.


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Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

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