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Salus in Caritate

Hugo de São Vitor


OPÚSCULO SOBRE O MODO DE
APRENDER E DE MEDITAR




A humildade é necessária ao que deseja aprender.

A humildade é o princípio do aprendizado, e sobre ela, muita coisa tendo sido escrita, as três seguintes, de modo principal, dizem respeito ao estudante.

A primeira é que não tenha como vil nenhuma ciência e nenhuma escritura.

A segunda é que não se envergonhe de aprender de ninguém.

A terceira é que, quando tiver alcançado a ciência, não despreze aos demais.

Muitos se enganaram por quererem parecer sábios antes do tempo, pois com isto envergonharam-se de aprender dos demais o que ignoravam. Tu, porém meu filho, aprende de todos de boa vontade aquilo que desconheces. Serás mais sábio do que todos, se quiseres aprender de todos. Nenhuma ciência, portanto, tenhas como vil, porque toda ciência é boa. Nenhuma Escritura, ou pelo menos, nenhuma Lei desprezes, se estiver à disposição. Se nada lucrares, também nada terás perdido. Diz, de fato, o Apóstolo:

"Omnia legentes,
quae bona sunt tenentes".
I Tess. 5

O bom estudante deve ser humilde e manso, inteiramente alheio aos cuidados do mundo e às tentações dos prazeres, e solícito em aprender de boa vontade de todos. Nunca presuma de sua ciência; não queira parecer douto, mas sê-lo; busque os ditos dos sábios, e procure ardentemente ter sempre os seus vultos diante dos olhos da mente, como um espelho.

Três coisas necessárias ao estudante.

Três coisas são necessárias ao estudante: a natureza, o exercício e a disciplina.

Na natureza, que facilmente perceba o que foi ouvido e firmemente retenha o percebido.

No exercício, que cultive o senso natural pelo trabalho e diligência.

Na disciplina, que vivendo louvavelmente, componha os costumes com a ciência.

Prime pelo engenho e pela memória.

Os que se dedicam ao estudo devem primar simultâneamente pelo engenho e pela memória, ambos os quais em todo estudo estão de tal modo unidos entre si que, faltando um, o outro não poderá conduzir ninguém à perfeição, assim como de nada aproveitam os lucros onde faltam os vigilantes, e em vão se fortificam os tesouros quando não se tem o que neles guardar.

O engenho é um certo vigor naturalmente existente na alma, importante em si mesmo.

A memória é a firmíssima percepção das coisas, das palavras, das sentenças e dos significados por parte da alma ou da mente.

O que o engenho encontra, a memória custodia.

O engenho provém da natureza, é auxiliado pelo uso, é embotado pelo trabalho imoderado e aguçado pelo exercício moderado.

A memória é principalmente ajudada e fortificada pelo exercício de reter e de meditar assiduamente.

A leitura e a meditação.

Duas coisas há que exercitam o engenho: a leitura e a meditação.

Na leitura, mediante regras e preceitos, somos instruídos pelas coisas que estão escritas. A leitura é também uma investigação do sentido por uma alma disciplinada.

Há três gêneros de leitura: a do docente, a do discípulo e a do que examina por si mesmo. Dizemos, de fato: "Leio o livro para o discípulo", "leio o livro pelo mestre", ou simplesmente "leio o livro".

A meditação.

A meditação é uma cogitação frequente com conselho, que investiga prudentemente a causa e a origem, o modo e a utilidade de cada coisa.

A meditação toma o seu princípio da leitura, todavia não se realiza por nenhuma das regras ou dos preceitos da leitura. Na meditação, de fato, nos deleitamos discorrendo como que por um espaço aberto, no qual dirigimos a vista para a verdade a ser contemplada, admirando ora esta, ora aquelas causas das coisas, ora também penetrando no que nelas há de profundo, nada deixando de duvidoso ou de obscuro.

O princípio da doutrina, portanto, está na leitura; a sua consumação, na meditação.

Quem aprender a amá-la com familiaridade e a ela se dedicar frequentemente tornará a vida imensamente agradável e terá na tribulação a maior das consolações. A meditação é o que mais do que todas as coisas segrega a alma do estrépito dos atos terrenos; pela doçura de sua tranquilidade já nesta vida nos oferece de algum modo um gosto antecipado da eterna; fazendo-nos buscar e inteligir, pelas coisas que foram feitas, àquele que as fez, ensina a alma pela ciência e a aprofunda na alegria, fazendo com que nela encontre o maior dos deleites.

Três gêneros de meditação.

Três são os gêneros de meditação. O primeiro consiste no exame dos costumes, o segundo na indagação dos mandamentos, o terceiro na investigação das obras divinas.

Nos costumes a meditação examina os vícios e as virtudes. Nos mandamentos divinos, os que preceituam, os que prometem, os que ameaçam.

Nas obras de Deus, as em que Ele cria pela potência, as em que modera pela sabedoria, as em que coopera pela graça, as quais todas tanto mais alguém conhecerá o quanto sejam dignas de admiração quanto mais atentamente tiver se habituado em meditar as maravilhas de Deus.

Do confiar à memória aquilo que aprendemos.

A memória custodia, recolhendo-as, as coisas que o engenho investiga e encontra.

Importa que as coisas que dividimos ao aprender as recolhamos confiando-as à memória: recolher é reduzir a uma certa breve e suscinta suma as coisas das quais mais extensamente se escreveu ou se disputou, o que foi chamado pelos antigos de epílogo, isto é, uma breve recapitulação do que foi dito.

A memória do homem se regozija na brevidade, e se se divide em muitas coisas, torna-se menor em cada uma delas.

Devemos, portanto, em todo estudo ou doutrina recolher algo certo e breve, que guardemos na arca da memória, de onde posteriormente, sendo necessário, as possamos retirar. Será também necessário revolvê-las frequentemente chamando-as, para que não envelheçam pela longa interrupção, do ventre da memória ao paladar.

As três visões da alma racional. Diferença entre
meditação e contemplação.

Três são as visões da alma racional: o pensamento, a meditação e a contemplação.

O pensamento ocorre quando a mente é tocada transitoriamente pela noção das coisas, quando a própria coisa se apresenta subitamente à alma pela sua imagem, seja entrando pelo sentido, seja surgindo da memória.

A meditação é um assíduo e sagaz reconduzir do pensamento em que nos esforçamos por explicar algo obscuro ou procuramos penetrar no que é oculto.

A contemplação é uma visão livre e perspicaz da alma de coisas amplamente esparsas.

Entre a meditação e a contemplação o que parece ser relevante é que a meditação é sempre das coisas ocultas à nossa inteligência; a contemplação, porém é de coisas que segundo a sua natureza ou segundo a nossa capacidade são manifestas; e que a meditação sempre se ocupa em buscar alguma coisa única, enquanto que a contemplação se estende à compreensão de muitas ou também de todas as coisas.

A meditação é, portanto, um certo vagar curioso da mente, um investigar sagaz do obscuro, um desatar do que é intrincado. A contemplação é aquela vivacidade da inteligência que, possuindo todas as coisas, as abarca em uma visão plenamente manifesta, e isto de tal maneira que aquilo que a meditação busca, a contemplação possui.

Dois gêneros de contemplação.

Há, porém, dois gêneros de contemplação. Um deles, que é o primeiro e que pertence aos principiantes, consiste na consideração das criaturas. O outro, que é o último e que pertence aos perfeitos, consiste na contemplação do Criador.

No livro dos Provérbios, Salomão principiou como que meditando; no Eclesiastes elevou-se ao primeiro grau da contemplação; finalmente, no Cântico dos Cânticos transportou-se ao supremo.

Para que, portanto, possamos distinguir estas três coisas pelos seus próprios nomes, diremos que a primeira é meditação; a segunda, especulação; a terceira, contemplação.

Na meditação a perturbação das paixões carnais, surgindo importunamente, obscurece a mente inflamada por uma piedosa devoção; na especulação a novidade da insólita visão a levanta à admiração; na contemplação o gosto de uma extraordinária doçura a transforma toda em alegria e contentamento.

Portanto, na meditação temos solicitude; na especulação, admiração; na contemplação, doçura.

Três partes da exposição.

A exposição contém três partes: a letra, o sentido e a sentença. A letra é a correta ordenação das palavras, a qual também chamamos de construção. O sentido é um delineamento simples e adequado que a letra tem diante de si como um primeiro semblante. A sentença é uma mais profunda inteligência, a qual não pode ser encontrada senão pela exposição ou interpretação. Para que uma exposição se torne perfeita requerem-se, nesta ordem, primeiro a letra, depois o sentido e posteriormente a sentença.

Os três gêneros de vaidades.

Três são os gêneros de vaidades. O primeiro é a vaidade da mutabilidade, que está em todas as coisas caducas por sua condição. O segundo é a vaidade da curiosidade ou da cobiça, que está na mente dos homens pelo amor desordenado das coisas transitórias e vãs. O terceiro é a vaidade da mortalidade, que está nos corpos humanos pela penalidade.

As obrigações da eloquência.

Disse Agostinho, famoso por sua eloqüência, e o disse com verdade, que o homem eloqüente deve aprender a falar de tal modo que ensine, que deleite e que submeta. A isto acrescentou que o ensinar pertence à necessidade, o deleitar à suavidade e o submeter à vitória.

Destas três coisas, a que foi colocada em primeiro lugar, isto é, a necessidade de ensinar, é constituída pelas coisas que dizemos, as outras duas pelo modo como as dizemos.

Quem, portanto, se esforça no falar em persuadir o que é bom, não despreze nenhuma destas coisas: ensine, deleite e submeta, orando e agindo para que seja ouvido inteligentemente, de boa vontade e obedientemente. Se assim o fizer, ainda que o assentimento do ouvinte não o siga, se o fizer apropriada e convenientemente, não sem mérito poderá ser dito eloqüente.

O mesmo Agostinho parece ter querido que ao ensino, ao deleite e à submissão também pertençam outras três coisas, ao dizer, de modo semelhante:

"Será eloqüente aquele que puder
dizer o pequeno com humildade,
o moderado com moderação,
o grande com elevação".

Quem deseja conhecer e ensinar aprenda, portanto, quanto há para se ensinar e adquira a faculdade de dizê-las como convém a um homem de Igreja. Quem, na verdade, querendo ensinar, às vezes não é entendido, não julgue ainda ter dito o que deseja àquele a quem quer ensinar, porque, mesmo que tenha dito o que ele próprio entendeu, ainda não foi considerado como tendo-o dito àquele por quem não foi entendido. Se, porém, foi entendido, de qualquer modo que o tenha dito, o disse.

Deve, portanto, o doutor das divinas Escrituras ser defensor da reta fé, debelador do erro, e ensinar o bem; e neste trabalho de pregação conciliar os adversos, levantar os indolentes, declarar aos ignorantes o que devem agir e o que devem esperar. Onde tiver encontrado, ou ele próprio os tiver feito, homens benévolos, atentos e dóceis, há de completar o restante conforme a causa o exija. Se os que ouvem devem ser ensinados, seja-o feito por meio de narração; se, todavia, necessitar que aquilo de que trata seja claramente conhecido, para que as coisas que são duvidosas se tornem certas, raciocine através dos documentos utilizados.


Hugo de São Vitor

OPÚSCULO SOBRE A ARTE DE
DE MEDITAR



I

OS TRÊS GÊNEROS DE MEDITAÇÃO



A meditação é a cogitação freqüente, que investiga o modo, a causa e a razão de cada coisa.

No modo, investiga o que é; na causa, por que é; na razão, como é.

Os seus gêneros são três: o primeiro é sobre as criaturas, o segundo sobre as escrituras, e o último sobre os costumes.

A meditação das criaturas surge da admiração; a meditação das escrituras, da leitura; a meditação dos costumes da circunspecção, do atento exame dos afetos, pensamentos e obras humanas.



II

A MEDITAÇÃO DAS CRIATURAS



Na meditação das criaturas a admiração gera a questão, a questão gera a investigação, a investigação a descoberta.

A admiração considera a disposição, a questão busca a causa e a investigação, a razão.

Admiramos a disposição quando consideramos a diferença entre o céu, onde tudo é igual, e a terra, onde existe o alto e o baixo.

Daqui passamos a questionar a causa, que é a terra ter sido feita para a vida terrena, enquanto que o céu para a vida celeste.

A investigação, finalmente, buscará a razão, descobrindo-a ao encontrar que tal como é a terra, tal é a vida terrena; e tal como é o céu, tal é a vida celeste.



III

A MEDITAÇÃO DAS ESCRITURAS



Na meditação sobre as Escrituras, a consideração deve ser realizada do seguinte modo.

A meditação inicia-se com a leitura: ela é que ministra a matéria para se conhecer a verdade. Segue-se-lhe a meditação, que a une. A esta se acrescentarão a oração, que a eleva; a operação, que a compõe; e a contemplação, que nela exulta. Nossa intenção agora é tratar apenas da meditação.

Nas Escrituras a meditação versa sobre como importa conhecer. Tomemos um exemplo. Está escrito:

"Desvia-te do mal, e faze o bem".
Salmo 36

À leitura sobrevém a meditação. Por que disse primeiro "desvia- te do mal" e depois "faze o bem"? A causa é porque, a não ser que os males sejam primeiro removidos, os bens não podem vir. A razão, assim como primeiro se erradicam as más sementes, depois as boas são plantadas. E também, por que disse: "Desvia-te do mal"? Porque ocorrem no caminho.

Disse também "desvia-te", porque onde pela fortaleza não podemos resistir, pelo conselho e pela razão escapamos desviando-nos.

Desviamo-nos também do mal evitando a matéria do pecado, como por exempo, por causa da soberba, evitando-se as riquezas; por causa da incontinência, a abundância; por causa da concupiscência, a inclinação da carne; por causa da inveja e do litígio, o amor da posse. Isto é desviar-se.

Do mesmo modo, se nos é dado o preceito de nos desviarmos de todo o mal, também somos ordenados a que façamos todo o bem. Aquele que não se desvia de todo o mal é réu; assim é réu também aquele que não faz o bem. Mas, se é assim, quem não é réu? Somos, portanto, ordenados a que nos desviemos de todo o mal. Quanto aos bens, porém, há alguns que são necessários; outros, voluntários. São bens necessários aqueles contidos nos preceitos e no voto; quanto aos restantes, se algo for feito, recompensar-se-á; se nada, não serão imputados.

A meditação sobre uma coisa lida deve versar também sobre como são as coisas que são sabidas, por que o são e como devem ser feitas. A meditação deve ser uma reflexão do conselho sobre como se realizam as coisas que são sabidas, porque inutilmente serão sabidas se não forem realizadas.

Três considerações a serem feitas na meditação sobre as Escrituras

Na meditação acerca de uma leitura devem se fazer três considerações: segundo a história, segundo a alegoria, e segundo a tropologia.

A consideração é segundo a história quando buscamos a razão das coisas que se fizeram, ou as admiramos em sua perfeição de acordo com os tempos, os lugares ou os modos convenientes com que se realizaram. A consideração dos julgamentos divinos exercita quem medita que em nenhum tempo faltou o que foi reto e justo, em todos os quais foi feito o que importava e foi recompensado o que foi justo.

A consideração é segundo a alegoria quando a meditação se ocupa sobre as disposições dos fatos passados, considerando- lhes a significação dos futuros. Considera também a admirável razão e providência com que foram adaptados à inteligência e à forma da fé a ser edificada.

Na tropologia a meditação se ocupa do fruto que podem trazer as coisas que foram ditas, indagando o que insinuam que se deve fazer, ou o que ensinam que deva ser evitado; o que a leitura da escritura propõe para ser aprendido, o que para ser exortado, o que para consolar, o que para se temer, o que para iluminar o vigor da inteligência, o que para alimentar o afeto, e qual a forma de viver para o caminho da virtude.



IV

A MEDITAÇÃO SOBRE OS COSTUMES



A meditação sobre os costumes deve ter por objeto os afetos, os pensamentos e as obras.

Os afetos

Deve-se considerar nos afetos que sejam retos e sinceros, isto é, orientados para aquilo que devem sê-lo e segundo o modo com que devem sê-lo.

Amar aquilo que não se deve é mau, e semelhantemente amar de um modo indevido aquilo que deve ser amado também é mau: o bom afeto existe quando se dirige para aquilo que é devido e segundo o modo com que é devido.

Amnon amou a irmã, e este era um afeto a algo que era devido, mas porque amou mal, não o era segundo o modo como era devido.

O afeto pode ser dirigido àquilo a que é devido e não ser do modo devido; nunca, porém, poderá sê-lo do modo devido se não for dirigido àquilo a que é devido.

O afeto é reto segundo se dirija ao que é devido, e é sincero segundo seja do modo devido.

Os pensamentos

Nos pensamentos deve-se considerar que sejam puros e ordenados.

São puros quando nem são gerados de maus afetos, nem geram maus afetos.

São ordenados quando advém racionalmente, isto é, no seu tempo. De fato, no tempo que não é o seu, mesmo o pensar no que é bom não é sem vício; como na leitura pensar na oração, e na oração pensar na leitura.

As obras

Nas obras deve-se considerar primeiro que sejam feitas com boa intenção.

A boa intenção é a que é simples e reta.

É simples a que é sem malícia.

É reta a que é sem ignorância.

A intenção que é sem malícia possui zelo. Mas a que é por ignorância e não é segundo a ciência, só por causa disso já não possui zelo.

Assim, importa que a inteção seja reta pela discrição, e simples pela benignidade.

Ademais, além da boa intenção deve-se considerar também nas obras que sejam conduzidas desde a reta intenção concebida até ao seu fim por um perseverante fervor, de tal modo que nem a perseverança se entorpeça, nem o amor se arrefeça.



V

OUTROS REQUISITOS DA
MEDITAÇÃO SOBRE OS COSTUMES



A meditação sobre os costumes deve discorrer, ademais, por duas considerações, que são a externa e a interna. A consideração externa é a consideração quanto à forma; a consideração interna é a consideração quanto à consciência.

Na consideração externa, devemos examinar o que é decente e o que é conveniente.

A decência deve ser considerada pelo exemplo dado em relação ao próximo. A conveniência deve ser considerada pelo mérito em relação a nós.

Na consideração interna, quanto à consciência, devemos examinar se a consciência é pura e se não possa ser acusada tanto pelo torpor no bem como pela presunção no mal. A consciência é pura quando nem é acusada do passado, nem se regozija injustamento do presente.

A origem e a tendência de todos os movimentos do coração.

A meditação sobre os costumes deve exercer também sua consideração no sentido de depreender todos os movimentos que se originam no coração, de onde vêm e para onde tendem.

Deve examinar de onde vêm segundo a origem, e para onde tendem segundo o fim: todo movimento é proveniente de algo e se dirige para algo.

Os movimentos do coração, porém, às vezes têm uma origem manifesta, outras vezes oculta. Os que a têm manifesta, ainda às vezes a têm manifestamente boa, outras vezes manifestamente má.

A origem que é manifestamente boa é de Deus; a que é, porém, manifestamente má é do demônio ou da carne. Todas as sugestões e todas as aspirações que invisivelmente advêm ao coração procedem destes três autores.

As coisas ocultas às vezes são boas e ocultas, outras vezes màs e dúbias. As que são boas são de Deus; as que são más, do demônio ou da carne.

O que é manifesto, seja bom ou seja mau, é julgado pela sua primeira origem. O que, entretanto, é dúbio em sua origem, é provado pelo fim. O fim manifesta o que no princípio se encobria; por causa disto, quem não pode julgar os seus movimentos pelo princípio, investigue o fim e a consumação.

As coisas, portanto, que são dúbias ou incertas são bens ou males ocultos. As que são males, conforme foi dito, são do demônio ou da carne. Elas não se distinguem pelo fato de serem más; distinguem-se pelo fato de que as da carne freqüentemente surgem por causa de uma necessidade, enquanto as do demônio o fazem sem uma razão, pois aquilo que é sugerido pelo demônio, assim como é alheio ao homem, assim freqüentemente é alheio à razão humana. As obras do demônio se discernem, pois, por serem estranhas ao homem e alheios à razão humana, enquanto que as da carne e as suas sugestões freqüentemente têm uma necessidade precedente como causa; ultrapassando, porém, o modo e a necessidade, crescem até à superfluidade.

O discernimento entre o bem e o mal, e dos bens entre si.

A meditação dos costumes também deve exercer-se pelos três julgamentos seguintes.

O primeiro é o que julga entre o dia e a noite.

O segundo é o que julga entre o dia e o dia.

O terceiro é o que julga o dia todo.

Julgar entre o dia e a noite é dividir as coisas más das boas.

Julgar entre o dia e o dia é ter o discernimento entre o bom e o melhor.

Julgar o dia todo é avaliar cada um dos bens singulares pelo seu mérito.

O fim e a direção de todos os trabalhos.

A meditação dos costumes deve também considerar o fim e a direção de todos os trabalhos.

O fim é aquilo ao qual se tende.

A direção, aquilo através do qual mais facilmente se chega.

Tudo aquilo que tende a algum fim a ele se dirige segundo algum caminho próprio, e aquilo que prossegue do modo mais direto, mais rapidamente chega. Há alguns bens nos quais há muito para se mover e pouco para se promover. Outros, com pequeno trabalho produzem grande fruto.

Estes, portanto, que mais aproveitam, devem ser discernidos e mais escolhidos: são os melhores, e importa julgar todo trabalho segundo o seu fruto.

Muitos, não possuindo este discernimento, trabalharam muito e progrediram pouco, já que puseram seus olhos apenas externamente na beleza da obra, e não internamente no fruto da virtude. Gabaram-se mais em fazer grandes coisas do que exercitar o que é útil, e amaram mais aquilo em que pudessem ser vistos, do que aquilo em que pudessem se emendar.

O discernimento dos graus das obrigações

A meditação dos costumes deve considerar sempre em primeiro lugar as coisas que são devidas, seja pelo preceito, seja pelo voto, e julgá-las como as primeiras a serem feitas. Estas obras, se feitas, possuem mérito; se não feitas, geram reato. Devem, portanto, ser feitas em primeiro lugar, e não podem ser deixadas sem culpa.

Depois destas, se lhe são acrescentadas outras por um exercício voluntário, isto deverá ser feito de tal maneira que não seja impedido o que é devido.

Há quem queira o que não deve, não querendo o que deve; outros, ainda, querendo o que devem, todavia colocam impedimentos voluntários querendo o que não devem.

O evitar a aflição e a ocupação

A meditação dos costumes deve considerar também evitar-se na boa ação principalmente os dois males da aflição e da ocupação.

A aflição gera a amargura, a ocupação gera a dissipação. Pela aflição, amarga-se a doçura da mente; pela ocupação, dissipa-se a sua tranquilidade.

A aflição surge quando a impaciência nos queima com coisas impossíveis. A ocupação, quando a impaciência nos agita com coisas possíveis.

Para que a alma não se amargure, sustente pacientemente a sua impossibilidade; para que não se ocupe erroneamente, não estenda suas possibilidades além da sua medida.

O julgamento da forma correta de viver

A meditação dos costumes deve julgar também a forma de viver, provando não ser bom apetecer impacientemente as coisas que não se fazem, nem aborrecer-se tolamente com as que se fazem.

Quem sempre apetece o que não faz e aborrece o que faz, nem frui o que lhe é presente, nem se sacia do que lhe é futuro. Abandona o iniciado antes da consumação, e toma antes do tempo o que deve ser iniciado.

Portanto, é bom contentar-se com o seu bem e aumentar os bens presentes com os bens supervenientes, sem desprezá-los pelos futuros.

A troca dos bens pertence à leviandade; o exercício, porém, à virtude: aqueles que desprezam os velhos pelos novos e aqueles que sobem dos inferiores aos superiores correm por caminhos muito diversos. Aquele que busca a mudança é tão fastidioso como é aplicado aquele que apetece o aperfeiçoamento.

Caminha, portanto, retissimamente aquele que é de tal maneira fervoroso para o melhor que não se aborrece no bem, mas sustenta o anterior até que no devido tempo alcance o posterior.


Hugo de São Vitor: Opúsculo sobre o modo de Aprender e de Meditar. (cristianismo.org.br)









No céu Francisco fulgura, 
cheio de glória e de luz, 
trazendo em seu corpo as chagas, 
sinais de Cristo e da Cruz. 

Seguindo o Cristo na terra, 
pobre de Cristo se faz, 
na cruz com Cristo pregado, 
torna-se arauto da paz. 

Pelo martírio ansiando, 
tomou a cruz do Senhor: 
do que beijou no leproso 
contempla agora o esplendor. 

Despindo as vestes na praça, 
seu pai na terra esqueceu; 
reza melhor o Pai-nosso, 
junta tesouros no céu. 

Tendo de Cristo a pureza, 
mais do que o sol reluzia, 
e, como o sol à irmã lua, 
Clara em seu rastro atraía. 

Ao Pai e ao Espírito glória 
e ao que nasceu em Belém. 
Deus trino a todos conceda 
os dons da cruz: Paz e Bem.
(Liturgia das Horas: Laudes)



Primeira Carta aos Fiéis 

Exortação aos irmãos e às irmãs sobre a penitência


Em nome do Senhor!


Capítulo 1

Dos que fazem penitência


1.Todos os que amam o Senhor com todo o coração, com toda a alma e a mente, com toda a força (cfr. Mc 22,39) e amam seus próximos como a si mesmos (cfr. Mt 22,39),

2.e odeiam seus corpos com os vícios e pecados,

3.e recebem o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo,

4 e fazem frutos dignos de penitência:

5.Oh! como são bem-aventurados e benditos, eles e elas, enquanto fazem essas coisas e nelas perseveram,

6.porque des-cansará sobre eles o espírito do Senhor (cfr. Is 11, 2) e neles fará sua casa e morada (cfr. Jo 14, 23),

7.e são filhos do Pai celeste (cfr. Mt 5,45), cujas obras fazem, e são esposos, irmãos e mães de nosso Senhor Jesus Cristo (cfr. Mt. 12, 50).

8.Somos esposos, quando pelo Espírito Santo une-se a alma fiel a nosso Senhor Jesus Cristo.

9.Somos seus irmãos quando fazemos a vontade do Pai que está nos céus (Mt 12, 50).

10.Mães, quando o levamos em nosso coração e em nosso corpo (Cfr. 1Cor 6, 20), pelo amor divino e a consciência pura e sincera; e o damos à luz pela santa operação, que deve iluminar os outros com o exemplo (cfr. Mt 5, 16).

11.Oh! como é glorioso, santo e grande ter nos céus um Pai!

12.Oh! como é santo ter tal esposo: paráclito, belo e admirável!

13.Oh! como é santo e dileto ter tal irmão e filho, agradável, humilde, pacífico, doce, amável e sobre todas as coisas desejável: Nosso Senhor Jesus Cristo! que deu a vida por suas ovelhas (cfr. Jo 10,15) e orou ao Pai dizendo:

14.Pai santo, guarda-os em teu nome (Jo 17, 11), os que me deste no mundo; eram teus e mos deste (Jo 17,6).

15.E as palavras que me deste, lhas dei; e eles as receberam e creram, de verdade, que saí de ti e conheceram que me enviaste (Jo 17,8).

16.Rogo por eles e não pelo mundo (cfr. Jo 17, 9).

17.Bendize-os e santifica-os (Jo 17, 17), e por eles santifico a mim mesmo (Jo 17,19).

18.Não rogo só por eles, mas por aqueles que hão de crer em mim por sua palavra (Jo 17, 20), para que sejam santificados em um (Cfr. Jn 17, 23), como também nós (Jo 17, 11).

19.E quero, Pai, que onde eu estou também eles estejam comigo, para que vejam minha claridade (Jo 17,24) em teu reino (Mt 20,21). Amém.


Capítulo 2

Os que não fazem penitência


1.Mas todos aqueles e aquelas que não vivem em penitência,

2.e não recebem o corpo e o sangue de nosso Senhor Jesus Cristo,

3.e cometem vícios e pecados

4.e que andam atrás da concupiscência má e dos maus desejos de sua carne, e não guardam o que prometeram ao Senhor,

5.e servem corporalmente ao mundo com os desejos carnais e com as preocupações do século e com os cuidados desta vida:

6.presos pelo diabo, de quem são filhos e cujas obras fazem (cfr. Jo 8,41),

7.são cegos, porque não vêem a luz verdadeira, nosso Senhor Jesus Cristo.

8.Não têm a sabedoria espiritual, porque não têm o Filho de Deus, que é a verdadeira sabedoria do Pai,

9.dos quais se diz: Sua sabedoria foi devorada (Ps 106, 27); e malditos os que se afastam de seus mandatos (Ps 118, 21).

10.Vêem e conhecem, sabem e fazem o mal e eles mesmos perdem, sabendo, as almas.

11.Vede, cegos, enganados por vossos inimigos: pela carne, o mundo e o diabo; porque para o corpo é doce fazer o pecado e é amargo fazê-lo servir a Deus;

12.porque todos os vícios e pecados saem e procedem do coração dos homens, como diz o Senhor no Evangelho (cfr. Mc 7, 21).

13.E nada tendes neste século nem no futuro.

14.E calculais que possuís por muito tempo as vaidades deste século, mas estais enganados, porque virá o dia e a hora, em que não pensais, não sabeis e ignorais; adoece o corpo, a morte se aproxima e assim se morre com amarga morte.

15.E onde quer, quando quer, como quer que morra o homem em pecado mortal, sem penitência e satisfação, se pode satisfazer e não satisfaz, o diabo arrebata sua alma de seu corpo com tanta angústia e tribulação, que ninguém pode saber senão quem as sofre.

16.E todos os talentos e poder e ciência e sabedoria (2Par 1, 12), que calculavam ter, deles serão tirados (cfr. Lc 8, 18; Mc, 4, 25).

17.E o deixam aos parentes e amigos e eles tomaram e dividiram sua riqueza e disseram depois: Maldita seja sua alma, porque podia dar-nos e conseguir mais do que conseguiu.

18.Os vermes comem o corpo, e assim perderam corpo e alma neste breve século e irão para o inferno, onde serão atormentados sem fim.

19.A todos a quem chegar esta carta, rogamos, na caridade que é Deus (cfr. 1Jo 4, 16), que recebam benignamente com a-mor divino estas sobreditas odorosas palavras de nosso Senhor Jesus Cristo.

20.E os que não sabem ler, façam com que as leiam muitas vezes;

21.e as guardem consigo com santa operação até o fim, porque são espírito e vida (Jo 6, 64).

22.E os que não fizerem isto, terão que dar conta no dia do juízo (cfr. Mt 12, 30), diante do tribunal de nosso Senhor Jesus Cristo (cfr. Rm 14, 10).

Foi Paulo Sabatier quem publicou pela primeira vez este Escrito, no ano de 1900. Ele o achara no Códice de Volterra. Deu-lhe o nome de Verba vitae et salutis (Palavras de vida e de salvação) e disse que se tratava de um primeiro esboço do Escrito hoje conhecido como Segunda Carta aos Fiéis (que ainda não tinha sido publicado naquele tempo). Lemmens e Boehmer aceitaram o escrito mas disseram que se tratava de um resumo posterior. Esser conseguiu provar que se tratava realmente de uma primeira versão, mais antiga, da outra e lhe deu esse nome de “Carta aos Fiéis - primeira recensão”, corrigindo o título dado por Sabatier. Essa primeira versão, bem de acordo com o que dizem o Anônimo Perusino (41) e a Legenda dos Três Companheiros (60), é escrita no plural, pelos frades, com São Francisco. É um belíssimo e simples documento que fala dos que fazem e dos que não fazem penitência. Na segunda edição da obra de Esser, Grau aproveitou estudos feitos por Pazzelli e mostrou que, de fato, não se trata de uma Carta mas de um “louvor” a Deus pelos que fazem penitência: os que chamamos de Irmãos e Irmãs da Penitência. E que o título de Sabatier estava correto...


Segunda Carta

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.


1.A todos os cristãos religiosos, clérigos e leigos, homens e mulheres, a todos os que moram no mundo inteiro, Frei Francisco, seu servo e súdito: submissão com reverência, paz verdadeira do céu e sincera caridade no Senhor.

2.Como sou servo de todos, a todos estou obrigado a servir e a prestar-lhes em serviço as odorosas palavras de meu Senhor.

3.Por isso, considerando na mente, que, em pessoa, pela enfermidade e debilidade do meu corpo, não poderia visitar a cada um, me propus, por meio desta carta e de mensageiros, anunciar-lhes as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Palavra do Pai, e as palavras do Espírito Santo, que são espírito e vida (Jo 6,64).

4.Esta Palavra do Pai, tão digna, tão santa e gloriosa, foi anunciada pelo altíssimo Pai lá do céu, por meio de seu santo anjo Gabriel, no útero da santa e gloriosa Virgem Maria, de cujo útero recebeu a verdadeira carne de nossa humanidade e fragilidade.

5.O qual, sendo rico (2 Cor 8,9) sobre todas as coisas, quis ele mesmo escolher a pobreza no mundo com a beatíssima Vir-gem, sua mãe.

6.E perto da paixão, celebrou a Páscoa com seus discípulos e tomando o pão, deu graças e o abençoou e partiu, dizendo: Tomai e comei, este é meu corpo (Mt 26,26).

7.E tomando o cálice disse: Este é meu sangue do Novo Testamento, que por vós e por muitos será derramado para remissão dos pecados (Mt 26,27).

8.Depois orou ao Pai dizendo: Pai, se for possível, afaste-se de mim este cálice.

9.E seu suor tornou-se como gotas de sangue que caíam na terra (Lc 22,44).

10.Mas colocou sua vontade na vontade do Pai, dizendo: Pai, faça-se tua vontade (Mt 26,42); não como eu quero, mas como tu (Mt 26,39).

11.A vontade desse Pai foi que seu Filho, bendito e glorioso, que nos deu e nasceu por nós, se oferecesse por seu próprio sangue, como sacrifício e hóstia na ara da cruz;

12.não para si, por quem foram feitas todas as coisas (cfr. Jo 1,3), mas por nossos pecados,

13.deixando-nos exemplo, para que sigamos suas pegadas (cfr. 1Pe 2,21).

14.E quer que todos nos salvemos por ele e o recebamos com coração puro e com nosso corpo casto.

15.Mas são poucos os que querem recebê-lo e ser salvos por ele, embora seu jugo seja suave e sua carga leve (Mt 11,30).

16.Os que não querem provar como é suave o Senhor (cfr. Ps 33,9) e amam as trevas mais do que a luz (Jo 3,19), não querendo cumprir os mandamentos de Deus, são malditos;

17.sobre eles é dito pelo profeta: Malditos os que se afastam de teus mandamentos (Ps 118,21).

18.Mas, oh! como são bem-aventurados e benditos aqueles que amam a Deus e fazem como diz o próprio Senhor no Evangelho: Amarás ao Senhor teu Deus com todo o coração e com toda a mente e a teu próximo como a ti mesmo (Mt 22,37,39).

19.Amemos, pois, a Deus e adoremo-lo com coração puro e mente pura, porque buscando isto sobre todas as coisas, disse: Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade (Jo 4,23).

20.Pois todos os que o adoram, é preciso que o adorem no Espírito da verdade (cfr. Jo 4,24).

21.E digamos-lhe louvores e orações dia e noite (Sl 31,4) dizendo: Pai nosso, que estás nos céus (Mt 6,9), porque é preciso que oremos sempre e não desfaleçamos (Lc 18,1).

22.Devemos certamente confessar ao sacerdote todos nossos pecados; e receba-mos dele o corpo e o sangue de nosso Se-nhor Jesus Cristo.

23.Quem não come sua carne e não bebe seu sangue (cfr. Jo 6,55, 57), não pode entrar no reino de Deus (Jo 3,5).

24.Mas coma e beba dignamente, porque quem recebe indignamente come e bebe sua própria condenação, não distinguindo o corpo do Senhor (1Cor 11,29), isto é, não o discerne.

25.Façamos, além disso, frutos dignos de penitência (Lc 3,8).

26.E amemos o próximo como a nós mesmos (cfr. Mt 22,39).

27.E se alguém não quiser amá-lo como a si mesmo, pelo menos não lhes cause mal, faça o bem.

28.Mas os que receberam o poder de julgar os outros, exerçam o julgamento com misericórdia, como eles mesmos querem obter misericórdia do Senhor.

29.Pois haverá juízo sem misericórdia para aqueles que não fizerem misericórdia (Tg 2,13).

30.Portanto, tenhamos caridade e humildade, e façamos esmolas, porque elas lavam a alma das manchas dos pecados (cfr. Tb 4,11; 12,9).

31.Pois os homens perdem tudo que deixam neste século, mas levam consigo o preço da caridade e as esmolas que fizeram, pelas quais obterão do Senhor prêmio e digna remuneração.

32.Também devemos jejuar e abster-nos dos vícios e pecados (cfr. Sir 3, 32) e do excesso de comidas e bebida, e ser católicos.

33.Também devemos visitar as igrejas freqüentemente e venerar os clérigos e reverenciá-los, não só por eles, se forem pecadores, mas pelo ofício e administração do santíssimo corpo e sangue de Cristo, que sacrificam no altar e recebem e administram aos outros.

34.E saibamos firmemente todos que ninguém pode salvar-se, senão pelas santas palavras e o sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, que os clérigos pronunciam anunciam e administram.

35.E só eles devem administrar e não outros.

36.E especialmente os religiosos, que renunciaram ao século, estão obrigados a fazer mais e maiores coisas, mas sem omitir estas (cfr. Lc 11,42).

37.Devemos ter ódio a nossos corpos com os vícios e pecados, porque diz o Senhor no Evangelho: Todos os males, vícios e pecados saem do coração (Mt 15,18 s.; Mc 7,23).

38.Devemos amar a nossos inimigos e fazer o bem aos que nos têm ódio (cfr. Mt 5,44; Lc 6,27).

39.Devemos observar os preceitos e conselhos de nosso Senhor Jesus Cristo.

40.Devemos também negar a nós mesmos (cfr. Mt 16,24) e por nossos corpos sob o jugo da servidão e da santa obediência, como cada um prometeu ao Senhor.

41.E ninguém tenha que obedecer por obediência a alguém naquilo em que se comete delito ou pecado.

42.Mas aquele a quem foi encomendada a obediência e que é tido como maior, seja como menor (Lc 22, 26) e servo dos outros irmãos.

43.E para com cada um de seus irmãos faça e tenha a misericórdia, que quisera que a ele se fizesse, se estivesse em caso semelhante.

44.E não se irrite contra o irmão pelo delito do ir-mão, mas benigna-mente o admoeste e suporte com toda paciência e humildade.

45.Não devemos ser sábios e prudentes segundo a carne (1Cor 1,26), mas antes devemos ser simples, humildes e puros.

46.E tenhamos nossos corpos em opróbrio e desprezo, porque todos, por nossa culpa, somos miseráveis e podres, hediondos e vermes, como diz o Senhor pelo profeta: Eu sou um verme e não um homem, opróbrio dos homens e desprezo do povo (Sl 21,7).

47.Nunca devemos desejar estar acima dos outros, antes devemos ser servos e submissos a toda humana criatura por Deus (1 Pd 2,13).

48.E todos, eles e elas, enquanto isso fizerem e perseverarem até o fim, descansará sobre eles o Espírito do Senhor (Is 11,2) e fará neles habitação e morada (cfr. Jo 14,23).

49.E serão filhos do Pai celeste (cfr. Mt 5,45), cujas obras fazem.

50.E são esposos, irmãos e mães de nosso Senhor Jesus Cristo (cfr. Mt 12,50).

51.Somos esposos, quando pelo Espírito Santo une-se a alma fiel a Jesus Cristo.

52.Somos certamente irmãos, quando fazemos a vontade de seu Pai, que está no céu (cfr. Mt 12,50);

53.mães, quando o levamos no coração e em nosso corpo (cfr. 1Cor 6,20) pelo amor e a consciência pura e sincera; o damos à luz pela santa operação, que deve iluminar os outros com o exemplo (cfr. Mt 5, 16).

54.Oh! como é glorioso e santo e grande, ter nos céus um Pai!

55.Oh! como é santo, ter um esposo consolador, bonito e admirável!

56.Oh! como é santo e como é querido ter tal irmão e tal filho, agradável, humilde, pacífico, doce, amável e mais desejável do que todas as coisas, que deu a vida por suas ovelhas (cfr. Jo 10,15) e orou ao Pai por nós dizendo: Pai santo, guarda em teu nome, os que me deste (Jo 17,11).

57.Pai, todos os que me deste no mundo, eram teus e os deste a mim (Jo 17,6).

58.E as palavras que me deste, eu lhes dei; e eles as receberam e conheceram verdadeiramente que saí de ti e creram que tu me enviaste (Jo 17,8); rogo por eles e não pelo mundo (cfr. Jo 17,9); abençoa-os e santifica-os (Jo 17,17).

59.E por eles santifico a mim mesmo, para que sejam santificados na (Jo 17,19) unidade, como também nós (Jo 17,11) o somos.

60.E quero, Pai, que onde eu estou também eles estejam comigo, para que vejam minha glória (Jo 17, 24) em teu reino (Mt 20,21).

61.Mas àquele que por nós suportou tantas coisas, que nos trouxe e trará tantos bens no futuro, toda cria-tura que há nos céus, na terra, no mar e nos abismos retri-bua louvor, glória, honra e bênção (cfr. Apoc 5,13),

62.porque ele é força e fortaleza nossa, o único bom, o único altíssimo, o único onipotente, admirável, glorioso, o único santo, louvável e bendito pelos infinitos séculos dos séculos. Amém.

63.Mas todos aqueles que não estão em penitência e não recebem o corpo e o sangue de nosso Senhor Jesus Cristo,

64.e operam vícios e pecados, e que andam atrás da má concupiscência e dos maus desejos, e não observam o que prometeram,

65.e servem corporalmente o mundo pelos cuida-dos e preocupações deste século e pelos cuidados desta vida,

66.enganados pelo diabo, de quem são filhos e cujas obras fazem (cfr. Jo 8,41), são cegos, porque não vêm a luz verdadeira, nosso Senhor Jesus Cristo.

67.Não têm a sabedoria espiritual, porque não têm o Filho de Deus em si, que é a verdadeira sabedoria do Pai, e deles se diz: Sua sabedoria foi devorada (Sl 106, 27).

68.Vêem, conhecem, sabem e fazem o mal, e perdem as almas conscientemente.

69.Vêde, cegos, enganados por nossos inimigos, a saber, pela carne, pelo mundo e pelo diabo, que para o corpo é doce fazer o pecado e amargo servir a Deus, porque todos os males, vícios e pecados do coração dos homens saem e procedem (cfr. Mc 7, 21, 23), como diz o Senhor no Evangelho.

70.E nada tendes neste século nem no futuro.

71.Por longo tempo calculais possuir as vaidades deste século. mas estais enganados, porque virá o dia e a hora em que não pensais, e não sabeis e ignorais.

72.Adoece o corpo, aproxima-se a morte, vêm os parentes e amigos dizendo: Dispõe de teus bens.

73.Eis sua mulher, parentes e amigos fingindo chorar.

74.Olha e os vê chorando; é levado por um mau passo; pensa consigo mesmo, e diz: Ponho a alma, o corpo e todas as minhas coisas em vossas mãos.

75.Verdadeiramente amaldiçoado é esse homem, que confia e expõe alma, corpo e todas as suas coisas em tais mãos;

76.por isso, diz o Senhor pelo profeta: Maldito o homem que confia no homem (Jr 17,15).

77.E logo fazem vir o sacerdote; diz-lhe o sacerdote: “Queres receber a penitência de todos teus pecados?”.

78.Responde: “Quero”. “Queres satisfazer como podes com teus bens, pelos pecados e por essas coisas em que defraudaste e enganaste as pessoas?”.

79.Responde: “Não”. E o sacerdote diz: “Por que não?”.

80.“Porque distribuí tudo nas mãos dos parentes e amigos”.

81.E começa a perder a fala e assim morre aquele miserável.

82.Mas saibam todos que, onde quer e como quer que morra o homem em pecado mortal sem satisfação, se podia satisfazer e não satisfez, o diabo arrebata sua alma de seu corpo, com tanta angústia e tribulação, como ninguém pode saber, a não ser quem o sofre.

83.E todos os talentos e poder e ciência, que pensava ter (cfr. Lc 8,18) ser-lhe-ão tirados (Mc 4,25).

84.E deixa-o para os parentes e amigos, e eles tomarão e dividirão sua riqueza e dirão depois: “Maldita seja sua alma, porque podia dar-nos e conseguir mais do que conseguiu,”.

85.Os vermes comem o corpo; e assim perde corpo e alma neste breve século e irá para o inferno, onde será atormentado sem fim.

86.Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

87.Eu, frei Francisco, vosso menor servo, vos rogo e conjuro, na caridade que é Deus (cfr. 1 Jo 4,16), e com a vontade de beijar vossos pés, que deveis receber e pôr em prática e observar estas e as outras palavras de nosso Senhor Jesus Cristo com humildade e caridade.

88.E todos aqueles e aquelas que benignamente as receberem, entenderem e enviarem a outros para exemplo, e se nelas perseverarem até o fim (Mt 24,13), bendiga-os o Pai e o Filho e o Espírito Santo. Amém.


Wadding publicou esta carta dividida em duas, baseando-se em um manuscrito. Mas hoje temos muitos outros manuscritos, inclusive do sec. XIII, que dão o texto como uma única carta. Sua autenticidade é aceita. Talvez se possa situar a primeira recensão por volta de 1212 e esta por volta de 1222. Bem mais longa, esta nos faz pensar em como a Regra primitiva dos Frades Menores foi se transformando na Regra não bulada: na medida em que aumentava o número dos Irmãos e Irmãs da Penitência e em que as dificuldades iam aparecendo, a Carta foi crescendo. É fácil perceber como muitos trechos novos foram colocados para esclarecer quanto aos erros dos cátaros, que deviam influenciar muitos irmãos.


Êxtase de Santa Teresa. Fontebasso, 1800


Castelo Interior: Uma Análise Simbólico-Espiritual da Obra de Santa Teresa

Professora Ana Paula Barros¹




Resumo


O presente estudo propõe uma análise da obra Moradas ou Castelo Interior, de Santa Teresa d’Ávila, a partir de uma abordagem literária e espiritual. Examina-se a construção simbólica da metáfora do castelo como ferramenta narrativa, articulando elementos do maneirismo espanhol. A escrita teresiana, marcada por oralidade controlada, introspecção e densidade simbólica, é compreendida como instrumento de mediação entre experiência mística e linguagem. Além disso, discute-se o itinerário espiritual descrito pela autora em sete moradas sucessivas, que configuram um caminho de purificação, iluminação e união com Deus. A obra se consolida, assim, como síntese de doutrina e elaboração estética, contribuindo de forma duradoura para a tradição literária e espiritual do Ocidente.


Palavras-chave: Santa Teresa d’Ávila, estilo literário, maneirismo, Siglo de Oro, prosa mística




1. Introdução


A obra Moradas ou Castelo Interior, escrita por Santa Teresa de Jesus em 1577, constitui-se como um dos marcos mais expressivos da literatura mística ocidental. Redigida por orientação de seus superiores religiosos, a obra ultrapassa os limites do tratado espiritual ao apresentar uma construção simbólica e narrativa de notável complexidade. A metáfora do castelo — com suas sete moradas — não apenas estrutura o conteúdo espiritual, mas também estabelece uma arquitetura literária que articula introspecção, pedagogia e elaboração estética. Esta pesquisa propõe uma leitura que privilegia os aspectos formais e simbólicos da obra, inserindo-a no contexto do maneirismo espanhol e da tradição literária do Siglo de Oro, sem desconsiderar sua dimensão espiritual e teológica.




2. Contexto estético: o maneirismo e o Siglo de Oro

Inserida no período do Siglo de Oro, Moradas ou Castelo Interior reflete as tensões e os refinamentos formais característicos do maneirismo espanhol, corrente estética que sucede o classicismo renascentista e antecipa o barroco. Esse período é marcado por uma intensificação da subjetividade, pela valorização da linguagem simbólica e pela busca de expressar o inefável por meio de imagens elaboradas. Santa Teresa, embora não se proponha como escritora literária no sentido estrito, demonstra pleno domínio das estratégias discursivas de sua época. Como observa Alonso (2005), “a linguagem teresiana é simultaneamente espontânea e elaborada, marcada por uma oralidade controlada que simula naturalidade, mas revela domínio retórico” e também “a escrita de Teresa é uma forma de resistência estética e espiritual, que transforma a experiência interior em linguagem simbólica e pedagógica”. Sua obra, portanto, deve ser compreendida como parte integrante da produção literária do século XVI, enriquecendo o acervo cultural de seu tempo, acompanhada por autores como São João da Cruz, Fray Luis de León e Miguel de Cervantes.



3. A metáfora do castelo: estrutura simbólica e narrativa

A imagem do castelo de cristal, apresentada logo no início da obra, constitui o eixo simbólico e estrutural de Moradas ou Castelo Interior. Cada uma das sete moradas representa um estágio da alma em seu processo de interiorização e aproximação de Deus. Essa metáfora cumpre uma função tripla: organiza a narrativa em níveis progressivos, simboliza a dignidade e a complexidade da alma humana e atua como recurso pedagógico que facilita a visualização do itinerário espiritual. Santa Teresa escreve: “Consideremos nossa alma como um castelo feito de um só diamante ou de um cristal muito claro, no qual há muitos aposentos, assim como no céu há muitas moradas” (Primeiras Moradas, cap. 1).

A progressão pelas moradas — da conversão inicial à união — pode ser lida como uma narrativa de formação espiritual, que se desdobra em três grandes movimentos: purificação, iluminação e união. Essa estrutura tripartida encontra eco em outras tradições literárias e filosóficas.

Na Divina Comédia, de Dante Alighieri, escrita no século XIV, a jornada do protagonista também se dá em três etapas: Inferno (purificação pelo reconhecimento do pecado), Purgatório (iluminação por meio da penitência) e Paraíso (união com o divino). Assim como Santa Teresa, Dante utiliza uma arquitetura simbólica — círculos, terraços e esferas — para representar o progresso da alma. Ambos os autores constroem uma topografia espiritual, em que o espaço é metáfora do estado interior. A montanha do Purgatório, por exemplo, corresponde à purificante ascensão moral e espiritual, tal como o avanço pelas moradas no castelo interior.

Já na tradição confucionista, embora não haja uma estrutura alegórica semelhante, encontramos a ideia de autocultivo progressivo da alma por meio da prática da virtude, da retificação do caráter e da harmonia com o Tao (道). Confúcio afirma: “Aquele que vence a si mesmo e retorna ao ritual é um homem de virtude” (Analectos, 12.1). A jornada interior, nesse caso, é ética e relacional, mas também culmina em uma forma de união: a integração do indivíduo com a ordem moral do cosmos. Assim como Santa Teresa propõe a oração como porta do castelo, Confúcio propõe o estudo e a prática do li (禮, rito) como caminho para a perfeição.

Portanto, a metáfora do castelo em Santa Teresa d’Ávila não apenas estrutura a obra, mas a insere em uma tradição universal de itinerários espirituais, nos quais a alma, por meio da disciplina, da contemplação e da transformação interior, busca retornar à sua origem divina. A originalidade da Santa Madre está em articular essa jornada com uma linguagem acessível e uma arquitetura simbólica que permanece viva na tradição mística e literária ocidental.



4. Estilo literário: oralidade, introspecção e retórica

O estilo de Santa Teresa em Moradas aponta uma maturidade literária. A oralidade simulada — característica marcante de sua prosa — é utilizada como estratégia de aproximação com o leitor, especialmente com as religiosas a quem a obra se dirige. No entanto, essa oralidade é cuidadosamente construída, articulando pausas, interpelações e digressões que conferem ritmo e naturalidade ao texto. A introspecção é outro traço distintivo: a autora escreve a partir da experiência vivida, o que confere singularidade e autoridade ao discurso. Além disso, o uso recorrente de metáforas, analogias e hipérboles mostra um domínio retórico que aproxima sua escrita da tradição alegórica medieval. Em diversos momentos, a autora reconhece os limites da linguagem diante da experiência mística: “Não sei como explicar isto melhor; quem o tiver experimentado entenderá” (Sextas Moradas, cap. 4). Essa tensão, que decorre da narração do indescritível, constitui um dos desafios centrais da escrita mística e é enfrentada por Santa Teresa com notável maestria literária. Pois, se são mestres das letras os que narram o descritível, muito mais o são os que narram o indescritível.


5. A leitura espiritual: itinerário da alma e pedagogia mística


Sob a perspectiva espiritual, Moradas ou Castelo Interior configura-se como um itinerário da alma rumo à união com Deus. As sete moradas representam estágios sucessivos de aprofundamento na vida interior, que vão desde a conversão inicial até a plena habitação divina. A progressão é marcada por um movimento de interiorização crescente, em que os sentidos são purificados. A Santa Madre afirma: “A porta deste castelo é a oração e a meditação” (Primeiras Moradas, cap. 1), indicando que o acesso à vida interior depende de um esforço consciente de recolhimento.

A seguir, apresenta-se uma descrição sintética e progressiva das sete moradas:

  • Primeiras Moradas: Representam o início da vida espiritual. A alma começa a despertar para a presença de Deus, mas ainda está cercada por distrações, tentações e apegos mundanos. É o estágio da conversão e do autoconhecimento. Santa Teresa escreve: “É grande lástima e causa de grande vergonha que, por nossa culpa, não entendamos a nós mesmos nem saibamos quem somos”.

  • Segundas Moradas: A alma persevera na oração e começa a escutar os chamados de Deus com mais atenção. No entanto, enfrenta intensas lutas interiores e tentações. É uma etapa de combate espiritual, em que se exige firmeza e discernimento.

  • Terceiras Moradas: A alma já pratica as virtudes com constância e vive com retidão. No entanto, ainda há risco de estagnação espiritual e de orgulho sutil. A Santa Madre adverte: “Não há segurança nesta vida, por mais elevado que seja o estado da alma”.

  • Quartas Moradas: Marca-se a transição entre a vida ascética e a vida mística. A alma começa a experimentar os primeiros toques sobrenaturais da graça, como a oração de recolhimento e os “gostos espirituais”. É uma etapa de consolação interior, mas também de vigilância.

  • Quintas Moradas: A alma entra na oração de união, em que a vontade se conforma plenamente à de Deus. Santa Teresa compara essa união à seda produzida pelo bicho-da-seda, que morre para dar lugar à borboleta: “A alma já não vive em si, mas em Deus”. 

  • Sextas Moradas: A alma passa por purificações intensas, sofrimentos interiores e provações místicas. Apesar da dor, há uma consciência clara da presença de Deus. Santa Teresa descreve visões, êxtases e feridas de amor divino, mas insiste que o verdadeiro sinal de progresso é o crescimento na humildade e no amor ao próximo.

  • Sétimas Moradas: Representam a união, em que a alma habita plenamente em Deus e Deus nela. É o cume da vida espiritual, caracterizado por paz, liberdade interior e fecundidade apostólica. 

A pedagogia mística de Santa Teresa, portanto, não se limita à descrição de estados espirituais de forma alegórica, mas propõe um caminho concreto. A obra convida o leitor a trilhar esse percurso com coragem, humildade e confiança, reconhecendo que “não está o jogo em pensar muito, mas em amar muito” (Quintas Moradas, cap. 4).





6. Considerações finais

Moradas ou Castelo Interior destaca-se pela maneira original com que Santa Teresa d’Ávila representa o caminho espiritual da alma. Por meio da metáfora do castelo, a autora constrói uma imagem concreta da interioridade, afastando-se de modelos teóricos abstratos e valorizando experiências sensíveis, linguagem simbólica e expressão acessível. Mais do que descrever uma trajetória mística, Santa Teresa transforma a escrita em prática de contemplação: a narrativa acompanha, em ritmo e forma, o próprio movimento da alma buscadora do divino. Ao afirmar o interior da alma como espaço legítimo de conhecimento e comunhão com Deus, a obra efetiva uma contribuição duradoura à cultura espiritual e literária do Ocidente.





Referências Bibliográficas

D’Ávila, T. Moradas ou Castelo Interior. São Paulo: Edições Loyola, 2012.
Alonso, M. Literatura y mística en el Siglo de Oro. Madrid: Ediciones Cátedra, 2005.
Blecua, A. Prosa española del Siglo de Oro. Madrid: Castalia, 1992.
Rico, F. Historia y crítica de la literatura española. Barcelona: Crítica, 1980.



Outros artigos sobre o tema:

Literatura Clássica Católica| Caminho da Perfeição: Uma Leitura Estético-Histórica no Contexto do Maneirismo Espanhol 

Literatura Clássica Católica: Estudo Histórico-Espiritual da Obra Castelo Interior, de Santa Teresa de Ávila 

Acervo Digital Salus: Mapas Mentais das Moradas do Castelo Interior




¹Ana Paula Barros


Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).


Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.


Totus Tuus, Maria (2015)






Caminho da Perfeição: Uma Leitura Estético-Histórica no Contexto do Maneirismo Espanhol

Professora Ana Paula Barros¹




Resumo


Este artigo propõe uma análise literária da obra Caminho da Perfeição, de Santa Teresa d’Ávila, a partir de uma perspectiva que privilegia seus aspectos formais, estilísticos e históricos. Embora tradicionalmente lida como texto piedoso e místico, a obra apresenta um arranjo literário sofisticado, inserido no contexto do maneirismo espanhol e do chamado Siglo de Oro. Através de uma leitura descritiva e interpretativa, busca-se compreender como a linguagem, a estrutura e os recursos retóricos empregados por Santa Teresa constroem uma prosa singular, que articula oralidade, introspecção e pedagogia espiritual com notável densidade estética.


Palavras-chave: Santa Teresa d’Ávila, estilo literário, maneirismo, Siglo de Oro, prosa mística, oralidade.




1. Introdução

A obra Caminho da Perfeição, escrita por Santa Teresa de Jesus por volta de 1566, é frequentemente abordada sob o viés da espiritualidade cristã e da teologia mística. No entanto, sua relevância ultrapassa o campo religioso, inserindo-se no panorama literário do século XVI espanhol. Esta pesquisa propõe uma leitura que valoriza a dimensão estética da obra, considerando sua inserção no contexto do maneirismo e sua contribuição para a prosa confessional e didática da época. A análise parte do princípio de que a linguagem de Santa Teresa, embora marcada pela naturalidade, é também portadora de estratégias retóricas e estilísticas que a aproximam das grandes obras do Siglo de Oro.


O Siglo de Oro (Século de Ouro) foi um período de esplendor cultural e artístico na Espanha, que se estendeu aproximadamente do final do século XV até o final do século XVII. Marcado por uma intensa produção literária, teatral e pictórica, esse período abrange tanto o Renascimento quanto o Barroco, refletindo as tensões entre o ideal clássico e a espiritualidade contrarreformista. A literatura do Siglo de Oro destacou-se pela sofisticação formal, pela riqueza simbólica e pela emergência de gêneros como o romance picaresco, a poesia gongorina e o teatro popular de Lope de Vega. Autores como Miguel de Cervantes, Luis de Góngora, Francisco de Quevedo, Calderón de la Barca e Santa Teresa d’Ávila foram expoentes dessa era, que consolidou a língua castelhana como veículo de expressão artística e filosófica de alcance internacional




2. Contexto histórico-literário: o maneirismo e o Siglo de Oro


O século XVI espanhol é marcado por intensas transformações culturais, políticas e religiosas. No campo literário, esse período é conhecido como Siglo de Oro, caracterizado pela produção de obras que combinam erudição humanista, religiosidade e experimentação formal. O maneirismo, corrente artística que sucede o classicismo renascentista, manifesta-se na literatura por meio da complexidade sintática, da introspecção psicológica e da tensão entre forma e conteúdo.

Santa Teresa, embora não se identifique diretamente com os cânones literários de sua época, compartilha com os autores maneiristas o gosto pela metáfora, pela digressão e pela construção de uma voz subjetiva. Sua escrita, como observa Alonso (2005), “é simultaneamente espontânea e elaborada, marcada por uma oralidade controlada que simula naturalidade, mas mostra domínio retórico”.




3. Estrutura e organização discursiva da obra

A obra Caminho da Perfeição é composta por um prólogo e 42 capítulos, organizados de forma progressiva. A estrutura pode ser dividida em três grandes blocos:

Capítulos 1–15: instruções sobre a vida comunitária, com ênfase na humildade, caridade e desapego;
Capítulos 16–26: desenvolvimento da doutrina da oração mental e do recolhimento interior;
Capítulos 27–42: comentário místico e simbólico à oração do Pai-Nosso.


A organização da obra não segue um rigor lógico-dedutivo, mas sim uma lógica afetiva e experiencial. Santa Teresa escreve como quem conversa, e não como quem sistematiza. Essa característica confere à obra um caráter híbrido entre tratado espiritual, confissão autobiográfica e ensaio pedagógico.




4. Estilo literário: oralidade, afetividade e construção da voz

O estilo de Santa Teresa é um dos elementos mais notáveis da obra. Sua prosa é marcada por:


Oralidade simulada: Santa Teresa escreve como se estivesse falando diretamente com suas irmãs. Frases como “Não vos assusteis, filhas, se vos digo que a oração é caminho estreito” (Cap. 21) mostram um estilo de escrita de aproximação com o leitor.

Afetividade e empatia: o tom é maternal, acolhedor, mas também exigente. A autora não hesita em corrigir, advertir e exortar.

Digressões e retomadas: a linearidade é frequentemente interrompida por reflexões pessoais, exclamações e orações espontâneas.

Metáforas e analogias: a linguagem figurada é abundante. A oração, por exemplo, é comparada a um jardim, a uma fonte, a um caminho: “A alma que reza é como um jardim regado por dentro” (Cap. 19).

Esses elementos conferem à obra um caráter literário que ultrapassa sua função doutrinária. Como observa Blecua (1992), “a escrita de Teresa é uma forma de presença: ela se faz ouvir, ver e sentir por meio das palavras”.




5. A metáfora do caminho: construção simbólica e narrativa


O título da obra já anuncia sua principal metáfora: o caminho. Trata-se de uma imagem recorrente na tradição bíblica e mística, mas que, em Santa Teresa, adquire contornos literários específicos. O caminho é, ao mesmo tempo, itinerário espiritual, narrativa de formação e estrutura simbólica da obra.


No capítulo 21, a Santa Madre escreve: “Importa muito ter uma grande e muito determinada determinação de não parar até chegar a ele, venha o que vier, suceda o que suceder, trabalhe-se o que se trabalhar, murmure quem murmurar, quer lá se chegue, quer se morra no caminho”. Essa passagem  articula perseverança, drama, gravidade e força interior necessários no Caminho, nome que também remete ao nome dado ao cristianismo nos primeiros séculos da Igreja. .





6. A Leitura Espiritual de Caminho da Perfeição


Caminho da Perfeição está profundamente enraizada na tradição mística cristã. Santa Teresa d’Ávila não apenas instrui, mas conduz o leitor — ou melhor, o orante — por um itinerário formativo. A oração, nesse contexto é um caminho de autoconhecimento e de união com Deus.

A autora insiste na centralidade da oração mental, que define como “tratar de amizade, estando muitas vezes tratando a sós com quem sabemos que nos ama” (Cap. 8). Essa definição mostra a dimensão relacional da espiritualidade teresiana: a alma é chamada a um diálogo íntimo com o Divino, sustentado pela confiança e pela perseverança.

Outro eixo da leitura espiritual é a prática das virtudes, especialmente a humildade, o desapego e o amor fraterno. A Santa Madre afirma que “a humildade é a base de todas as virtudes” (Cap. 4), e sem ela não há progresso na vida espiritual. O caminho da perfeição, portanto, não é feito de êxtases ou visões extraordinárias, mas de pequenos atos cotidianos de entrega e renúncia.

A obra também propõe uma interpretação contemplativa do Pai-Nosso, nos capítulos finais. Cada petição da oração é desdobrada em meditações que expressam o anseio de conformar a vontade humana à vontade divina. Como escreve a autora: “Se quisermos que o Senhor nos ouça, é necessário que nos conformemos com sua vontade” (Cap. 32).



7. Considerações finais


A leitura de Caminho da Perfeição sob a ótica dos estudos literários permite reconhecer em Santa Teresa d’Ávila uma autora de estilo singular, cuja escrita combina oralidade, introspecção e sofisticação. Sua obra dialoga com as correntes literárias de seu tempo e contribui para a consolidação de uma prosa confessional no contexto do Siglo de Oro. Ao transformar a experiência mística em linguagem, Santa Teresa inaugura, no período conturbado da contrarreforma, uma forma de literatura que é, ao mesmo tempo, testemunho, ensinamento e arte.






Referências Bibliográficas

D’Ávila, T. Caminho da Perfeição. Tradução de A. Ribeiro. São Paulo: Edições Loyola, 2011.
Alonso, M. Literatura y mística en el Siglo de Oro. Madrid: Ediciones Cátedra, 2005.
Blecua, A. Prosa española del Siglo de Oro. Madrid: Castalia, 1992.
Rico, F. Historia y crítica de la literatura española. Barcelona: Crítica, 1980.



Outros artigos sobre o tema:

Literatura Clássica Católica| Castelo Interior: Uma Análise Simbólico-Espiritual da Obra de Santa Teresa 

Literatura Clássica Católica: Estudo Histórico-Espiritual da Obra Castelo Interior, de Santa Teresa de Ávila 

Acervo Digital Salus: Mapas Mentais das Moradas do Castelo Interior




¹Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

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Ana Paula Barros

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