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Salus in Caritate

Pintura: Louisa Hammond. Angelica Kauffman (austríaca de origem suíça, 1741–1807). Óleo sobre cobre. The Fitzwilliam Museum. Esta é uma ilustração da Carta XXXIV na obra Emma Corbett, de Samuel Jackson Pratt.






AS Três Vias


Quando nos arredores de Hebron se espalhou a alviçareira notícia do nascimento de S. João Baptista, acorreu todo o vizindário para felicitar o venturoso casal, Joaquim e Anna. Acercavam-se daquele berço e, com a curiosidade natural em tais ocasiões, todos indagavam do futuro daquela criança que tantos prodígios ocasionava ao nascer: Quis puer iste erit — Que virá a ser esta criança?

Senhorita, não sei se o mesmo se terá dado junto ao vosso berço. É de presumir que não; o vosso nascimento, como o meu e os demais, nenhuma particularidade trouxe consigo. Apenas os vizinhos, e de preferência as vizinhas, punham-se a contemplar as minúsculas dimensões do recém-nascido e, para serem agradáveis aos pais, prodigalizavam elogios sem se preocuparem muito com a sinceridade dos mesmos.


Agora, o caso é outro. Passaram os anos, crescestes e, hoje, não há duvidar, muitos perguntam a si mesmos ou aos vossos pais: Mas, enfim, que rumo tomará aquela moça tão distinta? Casará? É tão piedosa, tão recatada... Eu tenho para mim que vá ser freira; aquela piedade na igreja, aquela reserva quanto aos divertimentos profanos bem lhe atraiçoam as intenções... como se, para casar, fosse necessário ser leviana.

 E os pais?

Esses não dizem nada; quiçá nem suspeitam. Creio, porém, que prefeririam vê-la casada.

Como essas pessoas que por vós se interessam e fazem, de vosso respeito, um juízo tão lisonjeiro, também eu ignoro o vosso futuro. Sei que, em todas as donzelas cristãs, há de que fazer grandes e excelentes coisas, quer Deus as escolha exclusivamente para si, como plantinhas humildes e aromáticas de seu jardim — na vida religiosa; quer as destine ao casamento, para fazer delas excelentes esposas e mães de família, de que temos tão grande necessidade nesta hora de deliquescência moral; quer, enfim, as reserve para humildes e devotadas auxiliares, nas paróquias, para a salvação de muitas almas e alívio de muitas misérias físicas e morais do próximo, no mundo.

As que escolhem este último partido, chamam alguns de “solteironas”, e chamo-lhes eu anjos da Providência, se souberem honrar o seu celibato no mundo. Em outro capítulo desta obra, darei a razão da minha divergência.




Muitos pais há que temem ver seus filhos enveredarem pelo primeiro e terceiro destes caminhos e, quando lhes notam piedade um pouco fora do comum, tornam-se apreensivos, fazem todo o empenho para casá-los ou, quando menos, para que fiquem em casa — mas freira ou padre, isso nunca... Tudo o que quiserem, menos padre ou freira.

Com efeito, a maior aspiração dos pais — e notadamente, das mães — e nisto pensam dia e noite, é poderem, mais tarde, embalar os netinhos, com exceção de algumas que também gostam de abraçar os pobres orfãozinhos que não têm outros pais senão os sacerdotes e as religiosas.

Como quer que seja, às mães daquelas que se casam, desejo que Deus lhes conceda muitos anos de vida para que possam embalar os netinhos; mas não devem esquecer que, se o soberano Senhor reservar para si algum dos filhos, não lhes faz injúria alguma — antes, muita honra lhes dá.

A grande questão, porém, aqui — o problema a resolver, antes de mais nada — é este: Qual é a vossa vocação?


O futuro vos inquieta — é natural; nele vistes a vossa felicidade temporal e eterna. Tendes diante de vós três caminhos: o casamento, o celibato no mundo ou o claustro. Trata-se aqui de escolher — e escolher bem e não deveis arriscar-vos por nenhum deles sem madura reflexão. Já pensastes nisso, já refletistes, examinastes e não animas a vos decidir. ‘Se ao menos uma voz do céu me dissesse: casa-te, ou vai para o convento, ou fica onde estás. Porém, nada disso; esses três estados, esses três caminhos vêm a solicitar-me e a assustar-me sucessivamente; enchem-me de angústias, atormentam-me, e eu sofro.’

O casamento não vos sorri. Conheceis talvez lares infelizes, famílias destruídas, esposas enganadas, abandonadas, martirizadas; rapazes levianos, devassos, hipócritas, sem religião, sem moral; moças bonitas, piedosas, ingênuas e inocentes, miseravelmente exploradas, em sua boa-fé; famílias sem moral, onde se ignoram, desprezam e blasfemam os preceitos religiosos.

Esse triste espetáculo vos atemoriza, vos assusta. Ainda assim, porém, o casamento não vos é antipático. Se um rapaz correto se vos apresentasse, dando-vos todas as garantias de vir a ser um bom esposo, estou em que havíeis de proclamar o casamento como o melhor partido a que pode aspirar uma moça.

Mas esse rapaz ideal, onde está? Encontrá-lo-eis? Virá algum dia? Eu não sei. Quer-me parecer até que, se tendes medo ao casamento, é porque o desejais. Note bem: é uma simples suposição minha; não lhe ligueis grande importância. Só vos advirto: não vos caseis unicamente para fazer a vontade aos outros, nem mesmo aos pais. Poderíeis vir a ser muito infeliz. Quem se casa, como quem vai para o convento, deve fazê-lo por vocação, nunca por vontade alheia; o contrário é condenar-se alguém a ser escravo.



Infeliz de vós se vos casardes só para ser agradável a vossos pais. Quando houverdes saboreado as amarguras dessa escravidão, que só acaba com a morte; quando naquele a quem, impelida, vos entregastes, descobrirdes uma criatura essencialmente egoísta; quando, uma após outra, se forem dissipando todas as ilusões da mocidade; quando verificardes que aquele castelo tão bem arquitetado não passa de uma miserável vivenda, onde o enfado e a soledade são os vossos únicos companheiros — ai, então, minha filha, não sei que vos diga... parece-me até que vos estou vendo, debulhada em pranto, a suspirar como se Deus vos houvera abandonado.

É para vos livrar dessa desgraça que torno a repetir-vos: não decidais da vossa vida unicamente para ser agradável aos demais, por maior acatamento que vos mereçam.



Mas prossigamos.



O celibato no mundo não deixa de ter seus atrativos. Ama-se a liberdade, a fraternidade e, quiçá, até mesmo a igualdade. A mulher celibatária no mundo não tem que separar-se dos seus, pode servir a Deus como bem lhe aprouver; pode, à vontade, desvelar-se no alívio das misérias do próximo; sua alma, cheia de zelo e piedade, pode livremente correr para a chama da caridade. Tem, entretanto, contra si aquela palavra envenenada que faz rir a muitos e serve de argumento às mães quando querem afastar as filhas daquela vida intermediária entre o matrimônio e o claustro — aquele nome que vos assusta: “solteirona”.

É incrível o poder dessa palavra malsinada. Se, como muitas solteiras o merecem, lhes chamassem devotas, heroicas, anjos tutelares dos pobres e das boas obras, arrimo de pais velhos, mães dos orfãozinhos — então, não haveria tanto horror a esse estado. Antes, muitas o haviam de abraçar, para não caírem nas garras dos caçadores de dotes.



A vida religiosa tem para vós maiores atrativos, quiçá. Cuidais que lá estareis mais segura, que sereis mais feliz; mas... traz consigo a separação dos entes queridos. Tudo e todos os que vos rodeiam parecem pedir-vos que não enveredeis por esse caminho.

Aliás, se vos inclinais para aquele estado, é talvez apenas porque, no convento, cantastes os que amais e vos amam, ou porque vos pintaram a vida religiosa com belas cores, como se lá houvesse rosas sem espinhos.

Como quer que seja, ainda desorientada, inclinada a perguntar — sem obter resposta: Que farei?

Sossega, minha filha: sereis o que Deus aprovar. E, enquanto Deus não se manifestar, enquanto não chegar a hora feliz, não vos fieis no que haveis de fazer.

Orai. O momento mais propício é o da santa missa e da sagrada comunhão. Aproveitai esses momentos para oferecer a Deus a vossa vida, pedindo-lhe que vos aceite ao seu serviço, quando e como Ele melhor o entender e o julgar útil para sua glória e vossa felicidade eterna — duplo fim que nunca deveis perder de vista.

2º — Escolhei um bom guia ou diretor espiritual e exponde-lhe, com ingênua sinceridade também, as vossas aspirações, dúvidas e temores, inclinações e perplexidades. Cedei-lhe o lema de vossa alma e averiguai se entre os escolhidos da vida: confiai-vos à sua prudência e piedade.

3º — Não vos deixeis influenciar demasiadamente por pessoas estranhas à vossa missão, mais interessadas do que pensais, quer essa influência provenha de uma mãe, quer de uma amiga casada ou religiosa. Sede senhora de vós mesma e não tomeis nunca uma resolução definitiva só para ser agradável a outros.

4º — Refleti seriamente e, para que o possais fazer com pleno conhecimento de causa, lede algum bom livro que vos instrua convenientemente sobre os três estados a que pode aspirar uma moça. Deixastes há pouco o colégio e vindes com um grande sortimento de prêmios. Suponho que as vossas preceptoras vos terão dado algum livro que vos sirva de guia e vos ilumine a inteligência, na escolha do vosso futuro. Assim o suponho, pois não posso crer que elas julguem do valor de um livro pela encadernação mais ou menos rica, mas pelo conteúdo. Não creio que vos hajam atraído ao torvelinho do mundo, cegas e inconscientes, ignorando tudo quanto uma moça deve saber para que possa defender-se das astúcias diabólicas que, lá fora, as esperam.

Mas, se não vos deram esse livro, peço ao vosso diretor e suppri, vós mesma, essa lacuna — esse esquecimento imperdoável de vossas preceptoras, que preferiram dar-vos livros insípidos, artisticamente encadernados, que nunca abris... e fazeis bem.




5º — Esperai com paciência e sofrei resignadas, em silêncio.


Não confieis as vossas mágoas senão a Nosso Senhor, à Santíssima Virgem e ao vosso diretor espiritual. A vossa cruz é pesada e não me admira que, por vezes, vos arranque lágrimas. Carregai-a com resignação, fazendo a vontade de Deus, para merecerdes a graça de seguir generosamente a Nosso Senhor Jesus Cristo.


Sim, se é vontade de Deus que vos santifiqueis — que vos salveis desse modo — dizei de todo o coração: Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa palavra. Umas conquistam o céu trabalhando; outras, gemendo enfermas no fundo de uma cama; outras, como esposas e mães dedicadas; e ainda outras, como religiosas, em um convento. Vós, minha filha, santificai-vos esperando com paciência e repetindo muitas vezes:

Senhor, não se faça a minha vontade, mas a vossa.

Assim seja, não é, minha filha?

Pobre alma aflita, tende coragem e ânimo; amanhã o sol aparecerá mais claro, dissipar-se-ão as nuvens, ou serão, quando menos, mais transparentes, permitindo-vos contemplar o céu.


NYSTER, J. Quando eu for moça. Porto Alegre: Centro da Boa Imprensa, 1925.

Escrito como pseudônimo. É possível que se trate de um sacerdote, educador ou escritor católico da primeira metade do século XX, vinculado ao movimento de imprensa católica no Brasil — especialmente considerando o estilo da obra, seu conteúdo formativo e a editora responsável (Centro da Boa Imprensa, ligada à Arquidiocese de Porto Alegre).





Orientação da Preceptora

Segue a lista de livros úteis, que devem ser lidos obrigatoriamente (independentemente da sua inclinação pessoal para uma das três vias vocacionais) antes da decisão:


AGOSTINHO, Santo. Dos bens do matrimônio; Da santa virgindade; Dos bens da viuvez: cartas a Proba e a Juliana. Tradução de Gelson Silva. São Paulo: Paulus, 2001. (Coleção Patrística, v. 16). Disponível aqui.


AGOSTINHO, Santo. A virgindade consagrada. Tradução do original latino De sancta virginitate por Nair de Assis Oliveira. São Paulo: Edições Paulinas, 1990. ISBN 85-05-01119-8. Disponível aqui.


BARROS, Ana Paula. Consagrados: sobre o celibato leigo. [S.l.]: Salus in Caritate, 2021. Disponível em: Consagrados: sobre o Celibato Leigo – Salus in Caritate. Disponível aqui. 


CHAVEUT, Maria Luiza. A virgem cristã na família e no mundo. [S.l.]: [s.n.], 1927. > Obra rara sobre celibato leigo feminino. Recomendável consultar bibliotecas especializadas ou acervos digitais católicos.


Professora Ana Paula Barros






São Jerônimo e o Anjo. Ribera, 1626.



Compêndio de Teologia Ascética e Mística de Adolphe Tanquerey - Estrutura Literária e Formação Espiritual na Tradição Cristã

Professora Ana Paula Barros¹



1 – Introdução

A produção literária de cunho espiritual no período do Renascimento e da Idade Moderna caracteriza-se pela elaboração de tratados voltados à orientação do fiel na busca da perfeição cristã. Nesse escopo, Ascética e Mística constitui uma síntese de reflexão teológica e prática moral.

Sua linguagem possui uma estrutura pedagógica. A clareza expositiva da obra favorece sua recepção como instrumento formativo, o que contribui para sua relevância acadêmica e pastoral.

Nesse sentido, a complementaridade entre ascese e mística – conforme destaca Garrigou-Lagrange ao afirmar que “a ascese prepara o terreno, a mística é a flor que desabrocha” – estrutura a proposta do tratado. A obra será analisada a partir de duas dimensões principais: os aspectos estilísticos da escrita e os princípios pedagógicos da leitura espiritual.




2 – O Estilo Literário




A obra Ascética e Mística insere-se em uma tradição literária que, entre os séculos XVI e XVIII, apresenta uma linguagem marcada por clareza expositiva e pedagógica. Destaca-se, ainda, pelo uso da linguagem mística. Conforme Velasco (2000), essa linguagem emerge da experiência e busca expressar o inefável por meio de imagens discursivas. Nesse sentido, expressões como “noite dos sentidos” e “matrimônio espiritual” não apenas ilustram estados espirituais, mas funcionam como mediações entre o divino e a mente do leitor. O símbolo, segundo Le Fort (1953), ao contrário do conceito abstrato, preserva a densidade do mistério e favorece a abertura à transcendência.

Por fim, a obra adota estratégias retóricas que asseguram sua conformidade com os parâmetros doutrinários da época. Timoner (2013) destaca que os autores místicos frequentemente recorriam a construções discursivas que legitimavam suas exposições diante da autoridade eclesiástica, mantendo a fidelidade teológica durante a narração de acontecimentos espirituais.


“A linguagem mística é subversiva por natureza, pois expressa um conhecimento individual do divino” (TIMONER, 2013, p. 82).


3 – Estrutura Temática da Obra


A leitura espiritual pode ser compreendida como uma “prática de si”, na medida em que opera como um exercício. Nesse contexto, o texto sagrado ou doutrinal deixa de ser apenas objeto de decodificação e passa a atuar como mediador de um processo formativo contínuo.

A leitura espiritual, desse modo, configura-se como um processo dialético entre texto e leitor, no qual o conteúdo doutrinal é assimilado não apenas como conhecimento, mas como princípio ativo e efetivo de mudança interior.

A obra Ascética e Mística apresenta uma organização sistemática que reflete a tradição da teologia espiritual clássica. Sua estrutura é dividida em dois grandes blocos doutrinários — a teologia ascética (teologia sobre a firme disciplina) e a teologia mística (teologia do indecifrável) —, os quais se desdobram em capítulos temáticos que acompanham o desenvolvimento progressivo da vida interior.



3.1 – Parte I: Teologia Ascética


A seção sobre ascética compreende os fundamentos da vida espiritual e os meios ordinários de santificação. Os capítulos estão organizados de forma a conduzir o leitor desde a conversão inicial até a maturidade nas virtudes cristãs. Os principais temas abordados incluem:

  • Fundamentos da vida espiritual: natureza da graça, finalidade da vida cristã, papel da vontade e da liberdade.
  • Combate espiritual: luta contra o pecado, domínio das paixões, tentação e vigilância.
  • Prática das virtudes: fé, esperança, caridade, humildade, obediência, mortificação e pureza de intenção.
  • Meios de santificação: oração vocal e mental, exame de consciência, direção espiritual e frequência aos sacramentos.

Essa parte da obra tem caráter formativo-pedagógico, sendo destinada à purificação da alma e à conformação da vontade aos princípios evangélicos.




3.2 – Parte II: Teologia Mística



A seção sobre mística trata das etapas superiores da vida espiritual, caracterizadas pela ação direta da graça e pela experiência da união com Deus. Os capítulos abordam:

  • Graças místicas: contemplação infusa, dons do Espírito Santo, consolações e aridezes espirituais.
  • Fenômenos extraordinários: êxtases, visões, locuções interiores, discernimento dos espíritos.
  • União: estado de perfeição, abandono à vontade divina, vida em Deus.

Essa parte da obra exige maior maturidade espiritual e teológica, pois trata de experiências que ultrapassam a capacidade discursiva e requerem discernimento e o acompanhamento de um diretor espiritual.



3.3 – Considerações Didáticas


A divisão temática da obra permite sua utilização tanto em contextos formativos (seminários, noviciados, cursos) quanto em estudos acadêmicos de teologia e literatura religiosa. A progressão dos capítulos visa conduzir o leitor da disciplina ascética à contemplação mística, ao menos no conhecimento teórico, respeitando o ritmo da graça e a liberdade interior, no nível prático.

A liberdade interior corresponde à capacidade do sujeito de pensar e agir de forma coerente, sem submissão a pressões externas ou condicionamentos sociais. Constitui-se como um estado de autonomia psíquica, em que o indivíduo identifica e supera limitações internas, como medos, impulsos ou vícios. Essa liberdade depende do desenvolvimento da consciência, da autorreflexão e do autoconhecimento. Epicteto e Viktor Frankl evidenciam que, mesmo sob coerções severas, o ser humano mantém a faculdade de decidir sua postura diante dos fatos. Portanto, a liberdade interior, que também pode ser nomeada como independência intelectual, é um componente de radical importância no que tange ao caminho ascético-místico.



4 – Considerações Finais



A obra Ascética e Mística é um manual de teologia espiritual estruturado em duas partes complementares: a disciplina espiritual e a união mística com Deus. Sua contribuição se dá na sistematização clara e didática dos percursos da vida espiritual, com base em fundamentos doutrinários da tradição cristã.

O estilo adotado, marcado por clareza expositiva e uso controlado de simbolismo teológico, favorece a leitura educacional. O texto mantém alinhamento com tratados clássicos da espiritualidade, como os de São João da Cruz e Fray Luis de León, ao mesmo tempo que apresenta organização e linguagem adequadas à formação pastoral e acadêmica.

A articulação entre ascese e mística, ou seja, entre firme disciplina e união mística, entre educação do corpo e elevação espiritual, representa o eixo da proposta espiritual desenvolvida na obra, contribuindo para sua permanência como referência nos estudos teológicos e literários.

A citação de Karl Rahner — “o cristão do futuro será um místico ou não será cristão” — reforça o valor da obra, independentemente da linha teológica e pastoral (moderna ou tradicional) adotada pelos mais variados grupos dentro do catolicismo.





Referências:


EPICTETO. Manual de Epicteto. 

FRANKL, Viktor Emil. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes, 2008.

GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. As três idades da vida interior: prelúdio da vida eterna. São Paulo: Cultor de Livros, 2013.

LE FORT, Gertrud von. A mulher eterna. Tradução de Emérico da Gama. Rio de Janeiro: Agir, 1953.

RAHNER, Karl. O cristão do futuro será um místico ou não será cristão. In: ____. Espiritualidade e liberdade. São Paulo: Paulus, 2005.

TIMONER, Gerard Francisco. A linguagem mística como subversão: entre o inefável e o simbólico. In: Mística e Teologia: desafios contemporâneos e contribuições. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2013. p. 78–83.

VELASCO, Juan Martín. El fenómeno místico: estudio comparado. Madrid: Trotta, 2000.






¹Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)





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Acervo Digital Salus: Mapas Mentais das Moradas do Castelo Interior




















Quais são os meios imediatos de adquirir e de conservar a autoridade? São seis os princípios:

1º – É preciso falar pouco. 
2º – É preciso usar de autoridade com discrição. 
3º – É preciso ser claro. 
4º – É preciso tomar a sério o que se diz. 
5º – É preciso exigir uma obediência imediata. 
6º – É preciso manter a firmeza até ao fim.


Qual o sentido desta fórmula: é preciso falar pouco? 
É preciso intervir raramente.

Seria, com efeito, desastroso não permitir e não deixar passar nada. Alguns pais falam sem descanso, tanto para mandar quanto para proibir ou aconselhar:

– Pedro, tem cuidado, não caias. 
– Olha bem. 
– Olha para a frente.
 – Não vás tão depressa.
 – Aí vem um carro. Etc.

A criança acaba por não prestar atenção às recomendações que se lhe fazem. Os próprios pais não dão importância ao que dizem e, quando querem fazer valer sua autoridade, compreendem que esta está irremediavelmente perdida.



2º – É preciso usar da autoridade com discrição

"Todo o excesso é um erro. Eis uma afirmação que se faz a cada passo, e cujo sentido nunca se põe em prática." (La Fontaine)

O que é preciso fazer para praticar a discrição no exercício da autoridade? 

1º – É preciso que a autoridade intervenha raras vezes.

“É preciso mandar poucas vezes, mas formalmente, a fim de deixar à criança, sem risco para ela e sem perigo para a autoridade dos pais, o máximo de liberdade possível. Afrouxam-se as rédeas ao cavalo quando se sabe que se pode segurar a tempo, ao passar ao longo dos precipícios do caminho; não se tem constantemente preso, nem sob a ameaça do látego, o cão fiel, acostumado a obedecer à voz do dono.” (F. Nicolay, ob. cit., p. 142)

2º – É preciso não empregar a autoridade senão com conhecimento de causa: quer dizer, em casos que valham a pena e em ordens cuja sensatez e oportunidade sejam indiscutíveis.

É uma situação lamentável, difícil e geralmente sem saída honrosa a de alguns pais obrigados, pela imprudência, a recuar, se quiserem ser razoáveis, ou a comprometer-se seriamente por bagatelas ou erros, se quiserem salvaguardar sua autoridade.



3º – É preciso ser claro

Em que sentido se deve tomar esta recomendação? Em dois sentidos:

1º – Quando se ordena, é absolutamente necessário saber claramente o que se quer.
2º – Quando se ordena, é indispensável exprimir a vontade em termos claros, que não deem margem a equívocos nem erros de interpretação. Muitas vezes, num grupo de crianças, a obediência não é pronta nem rigorosa porque as ordens não foram claras: elas não compreenderam.
4º – É preciso tomar a sério aquilo que se diz.


Há, então, pais que não tomam a sério aquilo que dizem? Pode ser que o tomem a sério, mas um certo número deles não o demonstra.

Ordenam e ameaçam de tal forma que nem eles próprios, nem – com mais razão – as crianças, prestam atenção às ordens dadas; e assim, não se dá importância ao que se diz, promete ou ameaça.

Fala-se com aquele tom de indiferença usado ao cumprimentar alguém casualmente: 
– "Como tem passado?" Pensa-se tão pouco no que se diz que, se a pessoa cumprimentada tivesse estado doente, julgar-se-ia indelicado não ter perguntado por sua saúde.



5º – É preciso exigir uma obediência imediata

O que se deve pensar da obediência demorada? 
A obediência que obriga à repetição da ordem já não é obediência; deve ser tratada como desobediência.

Quantos pais, entretanto, resignam-se a repetir duas, três ou mais vezes as ordens que dão aos filhos. E, acompanhando as repetições com as palavras “imediatamente” e “depressa”, não percebem – ou não querem perceber – que estão em contradição consigo próprios, perdendo a autoridade.

É verdade que há nisso uma aparência de vantagem: pois, sendo a obediência à quinta intimação considerada ainda uma obediência imediata, não há motivo para castigo. Mas é pura ilusão: falta-lhe uma qualidade essencial – a prontidão.

Tiago é mal mandado e choraminga constantemente. A mãe, agastada: 
– "Se não te calas num minuto, comerás sobremesa no prato de sopa!" (É o castigo que Tiago mais teme.) 
– "Não me ouviste?" 
– "Sim, mas sei bem quanto é um minuto, e que posso chorar ainda mais um bocado..."


Esse exemplo, absolutamente autêntico, mostra que as crianças abusam da fraqueza dos pais.

Que outro inconveniente há na obediência que discute? 
É ainda mais grave do que a obediência demorada. É o vício da educação sentimental:

– Luís, leva tua capa.
 – Não vale a pena, mamãe.
 – Olha: o céu está se nublando; o vento sopra de oeste; o barômetro baixa; faz o que te digo. 
– Mamãe, tenho certeza de que não chove.
– Na quinta-feira, foste ver teu tio sem capa; choveu, e voltaste todo molhado.
 – Sim, mas no domingo a mamãe me obrigou a levá-la, e o tempo estava lindíssimo.

E se a mãe, por fim, se impõe:

– "Sabes que me mortificas com as tuas reflexões? Leva a capa, que mando eu."

Para quê todas as divagações meteorológicas? (Nicolay, ob. cit., p. 170)




6º – É preciso ir até ao fim

Como proceder praticamente para tirar proveito deste conselho? Nunca se devem fazer concessões ou transigir. A criança deve saber, sem sombra de dúvida, que aquilo que foi ordenado deve ser cumprido sempre, custe o que custar.

Qual é a importância desta firmeza? É capital. O sistema das concessões compromete ou arruína a autoridade.

Se uma recusa não for definitiva, se um “não” puder tornar-se um “sim”, a criança empregará todos os meios – até os mais violentos – para apressar a submissão do pai ou da mãe.

Que ninguém se iluda. Não se trata de brinquedos ou guloseimas. Trata-se, acima de tudo, da própria autoridade dos pais. É sobre isso que a luta se trava nos pequenos incidentes da vida cotidiana.

Se os pais cedem, caminham para a impotência. A criança se encorajará a cada concessão conquistada. Se forem firmes, se domarem a criança e a constrangerem com resolução, manterão sua autoridade e serão obedecidos.

Qual é o risco dessa firmeza? 
1º – São as lágrimas e os arrufos. Mas é preciso não ceder nunca.

 “Não se receiem as lágrimas nem as cóleras das crianças. Conheceis o provérbio inglês: ‘Ventos de março e chuvas de abril trazem flores de maio’. E eu acrescentarei que as flores de maio trazem os frutos de setembro.”  (Mademoiselle Thérèse Alphonse Karr).

2º – São também as meiguices. A criança percebe que a mãe é sensível a beijos, abraços, palavras carinhosas… Usa disso como moeda de troca pela sua independência. E nisso encontra, como a própria mãe, uma satisfação de afeto e delicadeza.


*Mademoiselle Thérèse Alphonse Karr, leiga celibatária, foi uma escritora francesa do século XIX, ativa por volta de 1835 a 1897. Ela é conhecida principalmente por sua obra Contre un proverbe, publicada em 1865 e obra Dieu et ses dons: cours d'instructions religieuses offert à la jeunesse (“Deus e seus dons: curso de instruções religiosas oferecido à juventude”, publicada em 1864. O conteúdo do livro é voltado à formação religiosa cristã de jovens, com forte ênfase na doutrina católica.




BETHLÉEM, René de. Catecismo da educação. 1. ed. São Paulo: Castela, 2023.


Abade René Bethléem, um sacerdote católico francês nascido em 1850 e falecido em 1950. Ele foi ordenado padre em 1895, na Diocese de Lille, e é conhecido por sua atuação como educador e autor de obras religiosas voltadas à formação moral e pedagógica da juventude

Saúde Mental


Texto original de 2015

É assustador os dados atuais da OMS sobre depressão, 20% da população mundial sofrerá da dor mais profunda do ser humano, querido leitor, estamos falando de 1,4 BILHÕES de pessoas. Preocupante, não? E se eu disser que 80% da humanidade, independente da idade, sofre da Síndrome do Pensamento Acelerado, a SPA* (irônico a sigla ser o nome do local que usamos para relaxar).   

Essa Síndrome, como o nome diz, trata-se de um conjunto de sinais e sintomas como: dor de cabeça e musculares, cansaço ao acordar, falta de memória e atenção, irritabilidade, intolerância a situações contrárias, sofrer por antecipação (a chamada ansiedade).

Na verdade essa Síndrome é a alteração do processo de formação do pensamento que leva-nos a viver em outros momentos fora da realidade, do agora e ainda nos deixa presentes incômodos e inconvenientes em forma de sintomas corporais.      

Mas o que tem a Depressão a ver com essa tal Síndrome do Pensamento Acelerado? 


Estão ligadas, porque a segunda antecede a primeira, mas também as encontramos juntas.

Muitos ainda não acreditam que isso é uma realidade, que existem adolescentes sofrendo quietos de uma Síndrome, você iria se espantar se perguntasse a eles se sentem os sintomas acima. Precisamos parar de acreditar que crianças e adolescentes não tem problemas e portanto não precisam se preocupar com nada, logo não podem ter nada disso. Nós vivemos num mundo turbulento que nos faz ensinar a uma criança a mexer num tablet, no note, mas não as não ensinamos a se tornarem pessoas preparadas emocionalmente. 

Não é difícil encontrar pessoas bem sucedidas que não sabem lidar com as pessoas, com as próprias emoções e as emoções do outro. Que não possuem uma base emocional verdadeira, que conta com aprendizados vindos das falhas. Acredito que todos somos treinados a ser um sucesso em tudo e isso é bom, mas e quando vem o fracasso, quando não dá certo, quando não concordam contigo, quando chega o problema? O que é feito de verdade? Não me refiro aqui a essa filosofia capitalista de que temos que lutar, fincar pé, ir a todo custo... me refiro às emoções, porque embora essas atitudes sejam propagadas como boas, na verdade, não podemos afirmar isso, retroceder também pode ser bom, parar também.

Nossas atitudes, nossa falta de inteligência emocional está adoecendo a todos nós, a sociedade toda padece desse mal: do descontrole das emoções, do turbilhão de pensamentos inúteis e infrutíferos, da falta de repouso e ainda acham isso normal, como se fosse um status. Incrivelmente temos um pensamento, inconsciente acredito, que nos diz que ser assim, cheio de sintomas que demonstram que você é mil por hora, é símbolo de status, é cool, é chique. Pois é, realmente é preocupante, somos vitimas de uma epidemia que não detectamos, que não agimos contra, que está levando a todos.

Pense nisso e se analise, não podemos deixar de passar esse filtro em nós. É preciso, de forma urgente, mudarmos isso no mundo e devemos começar analisando e conhecendo a nós mesmos.



Fonte de embasamento:

*Cury, A., Ansiedade. Ed Saraiva.



 


















Livro A Mulher Eterna

Segundo Santo Afonso Maria de Ligório, a comunhão espiritual: “consiste no desejo de receber a Jesus Sacramentado e em dar-lhe um amoroso abraço, como se já o tivéssemos recebido”.

“Oh, Jesus meu, creio que estais presente no Santíssimo Sacramento, te amo sobre todas as coisas e desejo receber-Te em minha alma. Já que agora não posso fazê-lo sacramentalmente, venha ao menos espiritualmente a meu coração. Como se já tivesse recebido, te abraço e me uno todo a Ti, não permitais, Senhor, que volte jamais a abandonar-te. Amém”.


Mas também é possível realizar:

– um ato de Fé na Eucaristia (creio que estas presente na Eucaristia);
– um ato de amor (Te amo sobre todas as coisas);
– um ato de desejo (desejo receber-Te em minha alma);
– Por fim, um pedido: (venha espiritualmente a meu coração, permanece em mim e faça que nunca Te abandone).

“A Igreja vive da Eucaristia” e sem ela não pode existir. De forma real ou virtual, devemos comungar sempre com o Senhor. A Eucaristia foi feita para os cristãos e os cristãos para a Eucaristia.
Um pagão como o centurião romano (Mt 8, 5-17) viveu a experiência da comunhão espiritual quando disse: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa mas dizei uma só palavra…”. A comunhão com o Messias, através de um ato de fé, de esperança e de amor, obteve sua conversão e a cura de seu servo."
São João Paulo II














"Faltando autoridade e respeito, já não há educação possível." (Mgr. Dupanloup, Da Educação, t. II, p. 249)

"Depois de longo estudo e de uma laboriosa experiência, indaguei, por meio de uma reflexão mais profunda, quais eram as duas coisas fundamentais na educação e descobri que essas duas coisas são: a autoridade e o respeito." (Ibid., t. I, p. 1)




A AUTORIDADE

Que veremos nesta seção relativa à autoridade? Veremos que todos aqueles que são responsáveis pela educação:

1º – Gozam do direito de mandar e de ser obedecidos;
2º – Têm o dever de exercer esse direito, porque é necessário ao cumprimento de todas as suas obrigações; 
3º – São obrigados a adquirir a ciência prática dos princípios que regulam o exercício desse direito e o cumprimento desse dever.






A autoridade é um direito

"O princípio da autoridade é a base de toda a sociedade bem organizada." (Imbert de Saint-Amand, A Corte de Luís XIV (Mame), p. 58)


Qual é a origem desse direito? Procuremo-la na própria etimologia da palavra autoridade. Autoridade (em latim: auctoritas) vem do substantivo (em latim: auctor). A autoridade é, portanto, uma prerrogativa de autor.

Há alguma autoridade legítima que possa ter outra origem? Não, porque a uma outra autoridade que não fosse a do autor poderiam dizer:

"Quem é o senhor? Não o conheço; não lhe devo nada; devo tudo Àquele que me fez; mas nada devo senão a Ele e àqueles que O representam." (Mgr. Dupanloup, Da Educação, t. II, p. 14)


Pelo contrário, ao seu autor responde-se naturalmente:

"És Vós? Aqui estou eu. Vós fizestes-me aquilo que eu sou; acaba a Vossa obra; ordena: eu obedeço." (Ibid.)

Quais são os benefícios desse direito? 

1º – Deus, em primeiro lugar. Ele é o autor necessário e universal; tem, portanto, uma autoridade plena e pessoal sobre todas as coisas. É por isso que todas as criaturas se voltam para Deus para Lhe dizer: "Aqui estamos. Adsumus" (Jó XXXVIII, 35). O próprio homem, o rei da criação, se aproxima do Criador e diz-Lhe: "Tuus sum ego; eu sou Vosso" (Salmo CXVIII, 94). — "Deus meus es tu: in manibus tuis sortes meae. Vós sois o meu Deus; os meus destinos estão nas Vossas mãos." (Salmo XXX, 15)

2º – Os pais, em segundo lugar. Deus fez mais que comunicar-lhes Sua autoridade; deu-lhes algo da própria fonte de toda a autoridade, constituindo-os autores da vida de seus filhos e autores da sua educação, que é como a segunda criação da sua alma. Por isso, os pais são os preceptores naturais, necessários e providenciais de seus filhos.

3º – Todos aqueles em quem Deus e os pais delegaram uma parte da sua autoridade. Os preceptores secundários não têm nenhum direito natural: só o pai e a mãe os podem associar à obra da educação. Não há poder humano que possa impor um preceptor à criança contra a vontade do pai e da mãe; haveria, nesse constrangimento, algo que ofenderia a natureza.

Estes princípios são importantes? Mgr. Dupanloup, o grande educador, considerava-os como tais. Eis o que dizia e repetia às crianças que educava:

"Foi dos vossos pais e de Deus que recebi o direito de vos educar; mas este direito receberam-no os vossos pais de Deus e de Deus somente. A nossa autoridade sobre vós é passageira; dentro em breve, apenas nos ficará a do nosso afeto e do vosso reconhecimento, ao passo que a autoridade dos vossos pais é inalienável. Nós podemos deixar de nos consagrar à vossa educação; mas eles devem ensinar-vos até os derradeiros dias, e vós devereis ouvi-los sempre com respeito, até o fim.

Numa palavra, aqui mesmo, em todo o curso da vossa educação, os vossos pais são os primeiros educadores; e, se receberdes com docilidade os nossos ensinamentos, os vossos pais serão sempre, em toda a vossa vida, os vossos preceptores mais venerados e mais queridos.

Foi por estar tão convencido destes princípios que, um dia, julguei do meu dever expulsar do Seminário Pequeno de Paris um jovem de quem era amigo e que sempre me estimava e respeitava, mas que, no mesmo ano, faltou duas vezes, e gravemente, ao respeito à sua mãe. Não o podendo corrigir, não me julguei no direito de continuar a sua educação." (Mgr. Dupanloup, Da Educação, t. II, p. 164)


Qual é a extensão desse direito? Em Deus, esse direito é absoluto; apenas tem por limites os atributos divinos. Mas, para as criaturas, este direito — emprestado em sua origem — é limitado em seu exercício: é circunscrito pela lei de Deus e pelos ditames da verdadeira razão.

Qual é o dever correlativo desse direito? É a obrigação de submissão e obediência por parte daqueles sobre quem esse direito se exerce legitimamente.





A autoridade é uma ciência


Por que se pode dizer que a autoridade é uma ciência? 

Porque o exercício do direito e o cumprimento do dever da autoridade exigem o conhecimento (a ciência) e o respeito de um certo número de princípios. Uns são remotos, outros imediatos: examiná-los-emos sucessivamente.



Os princípios remotos


Quais são os princípios remotos a que está ligada a autoridade? São cinco:

1º - É preciso começar a exercê-la muito cedo. 
2º - É preciso que os pais sejam os primeiros a respeitar a fonte de toda a autoridade: Deus. 
3º - É preciso que os pais apoiem sua autoridade em Deus. 
4º - É preciso que os pais mostrem em tudo um procedimento digno e nobre. 
5º - É preciso que os pais evitem tudo que os possa colocar no mesmo pé de igualdade com os filhos.



1º - É preciso começar muito cedo

"Curva a cabeça de teu filho na sua mocidade" (Eccli.)

Por que é preciso que os pais afirmem muito cedo sua autoridade? 
Porque a experiência ensina que “se a criança não for dominada dos três aos quatro anos, é quase certo que nunca o será.” (F. Nicolay, As Crianças Mal Educadas, p. 140)

Que sucederá se os pais se descuidarem na afirmação da autoridade logo nos primeiros anos dos filhos? A criança cresce: sua independência desenvolve-se com ela; as insubmissões são frequentes; tornam-se escandalosas; sua arrogância é uma vergonha; os pais abrem enfim os olhos e decidem reagir. É muito tarde.

Se o pai e a mãe quiserem usar de rigor, encontram em face deles tal obstinação de resistência que, com receio das consequências, renunciam à luta. Se, apesar de tudo, quiserem impor-se pela força, a criança irrita-se, revolta-se interiormente, procura a causa daquela mudança de atitude, maldiz o lar onde é castigada depois de ter sido mimada: não aceita, nunca aceitará a autoridade.



2º - É preciso que os pais respeitem a fonte de toda a autoridade: Deus

"Que todo o homem seja submisso às autoridades superiores, porque não há poder que não venha de Deus" (S. Paulo, Rom. XIII, 1)

Por que é preciso que os pais respeitem a autoridade? Porque a autoridade é uma: não há a autoridade deste ou daquele; há simplesmente a autoridade; e tudo o que a ofender, seja neste ou naquele superior, enfraquece-a em todos os outros.

E depois, a criança — já tivemos ocasião de notar — é de uma lógica implacável: não se submeterá por muito tempo à autoridade dos pais se eles próprios não se submeterem à autoridade de Deus.

"A autoridade não impõe seu direito quando aqueles que a exercem vivem de maneira diferente da que recomendam aos outros." (Santo Agostinho)



3º - É preciso que os pais apoiem sua autoridade em Deus

"Se o Senhor não edifica a casa, é em vão que trabalham aqueles que a constroem" (Salmo CXXVI)

Por que os pais devem apoiar sua autoridade em Deus? Porque Deus é a única base lógica, imutável e durável da autoridade.

Como farão os pais para convencer a criança da verdade deste ponto de apoio? Evitarão, no exercício da autoridade, toda consideração egoísta ou apaixonada; inspirados sempre na ideia do dever, manifestarão por ele um apreço profundo e afetivo.



4º - É preciso que os pais mostrem em tudo um procedimento digno e nobre

Por que devem os pais demonstrar um procedimento digno e nobre? 

1º - Porque o exercício da autoridade é fácil quando aqueles que são depositários dela merecem estima. Ora, a estima só se obtém pela nobreza, dignidade e virtude. Um domínio de si mesmos, uma firmeza sempre calma, uma atitude virtuosa elevam os pais aos olhos dos filhos, atraem a estima e afirmam a autoridade. Dom Bosco, de Turim, dirigia em passeio, durante um dia, 300 prisioneiros. (J.B. Francesia, Vida de Dom Bosco, p. 158)

2º - Pelo contrário, tudo o que rebaixa o homem — como palavras grosseiras, pragas, excesso na bebida, acessos de cólera etc. — são como pequenos escândalos que fatalmente deprimem a autoridade de quem os comete.

Não há faltas que prejudicam mais gravemente a autoridade dos pais? Podemos apresentar como principais: a mentira e as preferências.

Quais são as formas de mentira, em geral mais abundantes na educação? 
1º - Fazer falsas promessas; 
2º - Iludir a boa-fé; 
3º - Servir-se de flagrantes contradições da verdade. (Nicolay, ob. cit., p. 98 e seg.)

Em que consistem as falsas promessas? 

Em explorar os desejos conhecidos ou supostos da criança, prometendo satisfazê-los se obedecer; e, obtido o resultado, esquecem-se, como por encanto, das promessas feitas… A criança, naturalmente confiante, acaba por se convencer de que zombam dela e abusam da sua credulidade.

Qual é o resultado dessas situações? 

1º - A criança pensa que a mentira não é uma falta, pois sua mãe a emprega constantemente. 
2º - Depois, mais desconfiada por ser sempre enganada, deseja ver o que lhe prometem ou, escandalizada, revolta-se e diz: — “Há quantos anos me prometem recompensas que nunca vejo… Já chega de troça!”

Nada mais insolente — nada mais justo.

Como se ilude a boa-fé da criança? 
Utilizando sua sinceridade para obter docilidade e voltando contra ela própria o ato de boa vontade praticado.

Exemplos: — “Porque fizeste isso muito bem, vou te levar ao cinema.” E leva-se ao dentista.

— “Dá-me teu comboio e verás como o faço manobrar.” E depois: “Agora, não o verás mais!”

Existe algo pior? Sim: servir-se de flagrantes contradições da verdade. Exemplo: para fazer a criança tomar um remédio desagradável — “Oh! não imaginas como isto é bom” — diz a mãe, fingindo provar. A criança, iludida, toma e logo percebe que foi enganada. Isso marca.

Se toma o remédio, pior ainda: à humilhação junta-se a indignação e o desejo de vingança.

Consequências desses métodos odiosos: 

1º - Os pais rebaixam-se a si próprios, fazendo papel de mentirosos.
 2º - Ensinam, com seriedade, a arte de enganar. 
3º - Destruíram, para sempre, a confiança da criança.


São frequentes as preferências? Sim, infelizmente.

Algumas apoiam-se na semelhança física; outras nas qualidades exteriores: graça, inteligência, amabilidade.

Como se manifestam as preferências? 

O preferido tem mais preponderância, é mais acarinhado, poupado de trabalhos, seus desejos são atendidos, defeitos tolerados ou exaltados, é tido como modelo — mesmo sem mérito — e a mãe declara: — “Gosto mais dele que de todos.” — “Vê teu irmão como é bonito, obediente, comportado… É por isso que gosto mais dele. E tu bem o sabes…”

Estragos causados por isso: O preferido torna-se mimado, soberbo, preguiçoso, sensual… Os outros, invejosos e amargurados, desenvolvem ódio.

Sim, ódio. Recordai-vos da história de José, pais e mães imprudentes: foi para vós que essa história se escreveu.


5º - É preciso que os pais evitem tudo o que os coloque no mesmo pé de igualdade com os filhos

"As crianças devem ter por amigos os companheiros, e não os pais e as mães" (Jaubert, Pensamentos)

Por que essa recomendação? 
Porque a igualdade exclui a autoridade.

Liberdades na linguagem, familiaridades, à-vontade nos divertimentos geram igualdade, e isso prejudica a autoridade.


"Adula teu filho, e ele te causará desgostos; brinca com ele e te entristecerás. Não te divirtas a rir com ele: receia que daí venha uma dor e que, por fim, te arrependas." (Eccli. XXX, 9-10)

E quanto aos pensadores de todos os tempos? 

Platão:

"Quando nas famílias domina a igualdade insolente, tudo, até os animais, parece respirar anarquia. O pai teme o filho e este trata o pai como igual. Já não há respeito nem temor. Querem dizer sempre: sou livre." 



E de Bonald:

"Afetos já fora da influência da razão, e uma educação doméstica, mole e sem dignidade, tomaram o lugar das relações de autoridade e submissão entre os pais e os filhos, das quais a geração passada viu, na sua mocidade, os últimos vestígios. Crianças que tinham no espírito ideias de igualdade com seus pais, e no coração, sentimentos de insubordinação contra suas vontades, praticavam o abuso de tratá-los por 'tu' — maneira de falar que, na nossa língua, exprime consciência da sua fraqueza. Não ousavam dominar os filhos pela sua autoridade, aspirando tão somente a serem seus amigos, confidentes e, muitas vezes, cúmplices. Havia, na França, pais, mães, filhos — mas faltava autoridade na família, e a sociedade política foi abalada até os alicerces."




BETHLÉEM, René de. Catecismo da educação. 1. ed. São Paulo: Castela, 2023.


















Quando nos dedicamos à leitura de um livro, uma lição ou uma conferência e, ao mesmo tempo, não conseguimos nos livrar de uma preocupação ou lembrança, de uma paixão ou conflito, ou seja, quando tentamos atender a duas ideias simultaneamente, o rendimento torna-se mínimo e pouco duradouro, enquanto a fadiga atinge o máximo. A luz do entendimento começa a focalizar um tesouro para possuí-lo e desfrutá-lo, mas algum outro objeto, que desperta temor ou uma ideia passional, vai se intrometendo repetidamente, impedindo-nos de usufruir tranquilamente do tesouro em questão.


É como o funcionamento de uma máquina de escrever quando duas teclas são pressionadas ao mesmo tempo: a escrita sai confusa e a máquina se danifica. Da mesma forma, nada esgota mais nosso cérebro do que o esforço simultâneo com ideias parasitas, preocupações e obsessões, ou com agitação e nervosismo. Essa é a principal causa da maioria das exaustões ou esgotamentos nervosos, do “overwork”, como dizem os ingleses. Quinze minutos desse trabalho desordenado cansam mais do que duas horas de perfeita concentração e dificilmente podem ser compensados com um breve descanso. Um dia vivido sob essa tensão não se recupera com uma noite de sono, pois provavelmente teremos dificuldade para conciliá-lo e, ainda que durmamos, o sono será interrompido por sonhos e pesadelos.


Antes, comparamos a concentração àquele que segue diretamente pela rua, sem se desviar para a direita ou para a esquerda, chegando assim ao destino com maior rapidez e menor cansaço. Podemos também comparar quem trabalha com ideias parasitas ao caminhante que, em sua rota, encontra alguém que o empurra ou o arrasta para outro rumo: desta forma, ou nunca chega ao destino, ou só o consegue com grande atraso e muito esforço.


Tampouco haverá paz ou verdadeira satisfação devido à falta de unidade e plenitude; não se encontrará a alegria do ato perfeito, nem o prazer da concentração tranquila, pois não há tempo suficiente para assimilar plenamente o que se recebe, sentir o enriquecimento intelectual e fixá-lo na mente.


Para compreender melhor o mecanismo da divagação mental e da obsessão, podemos representar nossa mente elaboradora de pensamentos por círculos concêntricos. No centro, está o foco da atenção; nele está o objeto que percebemos com clareza e do qual temos plena consciência — no caso, um livro. Ao mesmo tempo, porém, há outras coisas ou ideias não diretamente focalizadas pela atenção, mas das quais temos alguma consciência. Essas podem ser representadas por círculos concêntricos na faixa periférica da atenção, como os objetos localizados nas extremidades da mesa onde trabalhamos: estão apenas de forma indireta e confusa ao alcance de nossa visão enquanto lemos ou escrevemos. Bastará, no entanto, mover o rosto, e eles passarão a estar direta e claramente em nossa visão.


Em determinado momento, uma única ideia, objeto ou conjunto de coisas pode ocupar o centro de nossa atenção; porém, podem haver várias na faixa periférica:


a) com possibilidade de entrar no foco;


b) com maior probabilidade ou tendência a interessá-lo;


c) com verdadeira urgência de conquistá-lo.


A primeira classe de ideias ou objetos — as que têm possibilidade de entrar no foco, mas sem urgência — são as coisas ou experiências mais recentes ou mais repetidas (r), e as mais próximas ou conexas (c).


A segunda classe, com maior probabilidade e tendência, mas sem muita insistência, refere-se às coisas influenciadas pela afetividade (a), interesse (i), prazer ou desprazer.

A terceira classe é composta pelas coisas que têm pressa de ocupar nossa mente, ou seja, aquelas que mais interessam ao “EU”, os desejos e temores intensos. Quando tais grandes desejos ou temores existem, eles lutam arduamente para ocupar o centro de nossa atenção, assediando (obsidere, em latim — daí a origem de “obsessão”).


Nessa batalha implacável para conquistar o centro da consciência, essas ideias obsessivas frequentemente vencem a vontade, que gostaria de permanecer focada no que se está estudando. Elas tomam nossa mente com tal força que nos dão a impressão de seguirmos duas ideias ao mesmo tempo, criando aparentemente o fenômeno da dupla atenção. Contudo, o mais provável é que ocorra uma alternância extremamente rápida de uma ideia para outra.

Este manual prático, destinado a pessoas normais, não busca solucionar casos de atenção anormal derivados de causas profundas do inconsciente, como compulsões ou obsessões. Para esses casos, recomenda-se a consulta com um especialista.

Dessa forma, para evitar essa atenção obsessiva ou assediada, que tanto prejudica o trabalho mental, é necessário primeiro identificar, depois canalizar e moderar razoavelmente, ou mesmo eliminar, quando necessário, os desejos exagerados que nos impulsionam e os temores excessivos que nos deprimem.


Estas são as duas fontes das ideias parasitas:



1. IDEAL EXAGERADO OU EMULAÇÃO EXCESSIVA



Certo dia, apresentou-se a nós um jovem empregado, queixando-se de cansaço cerebral, nervosismo, desânimo e sono agitado. Ele havia se matriculado em quatro matérias na universidade e assistia, todas as noites, a duas aulas. Corria do escritório para os estudos e de sua casa para a universidade, dormia tarde, levantava-se de madrugada e não se permitia diversões nem esportes.

— Não estará você perseguindo um ideal acima de suas possibilidades? — perguntei-lhe. — Quem aspira a 100 e somente pode alcançar 50, ao insistir em ultrapassar esse limite, só o conseguirá com violência e tensão psíquica e neuromuscular.

Arregalou os olhos, como se tivesse descoberto um mundo novo, e respondeu:

— Exato, Padre. Agora entendo minha situação: não devo pretender tanto em tão pouco tempo.




Deixou duas matérias para o ano seguinte e imediatamente recuperou a paz e a alegria. Vemos com frequência jovens que terminaram seus estudos e querem entrar no seminário. Costumam fazer vários cursos ao mesmo tempo. Facilmente lhes sobrevêm o nervosismo e a afobação no estudo: se não conseguirem vencer rapidamente esses dois inimigos de sua tranquilidade, melhor seria que seguissem o curso normal, sob pena de acabarem com esgotamento nervoso. “O modo mais prático de fazer muito é fazer uma coisa de cada vez”, diz Lord Burleigh.


Estando certa vez em uma sala de espera, vi um livro que muito me interessava. Desejando enriquecer-me com seu conteúdo, para mim utilíssimo, percorri-o com ansiedade e rapidez; resultado: fiquei arrasado.


Por que, às vezes, a leitura do jornal nos cansa? É porque, parecendo-nos perda de tempo utilizá-lo com coisas sem importância e querendo, por outro lado, satisfazer nossa curiosidade com notícias, lemo-lo com ansiedade e pressa. Trabalhamos com duas ideias ao mesmo tempo: a notícia que nos interessa e a preocupação de terminar quanto antes. Nossa atividade psíquica não tem unidade e plenitude; não nos deixa felizes e satisfeitos e não só não melhora nossa mente, mas, pelo contrário, enfraquece-a. Quem assim trabalhasse habitualmente, chegaria com rapidez ao esgotamento.


Tal perigo espreita os jovens entusiastas, animados pelo ideal de formar-se com perfeição ou de realizar grandes feitos, sem atentarem para suas limitações em qualidades e tempo.


Muitos jovens religiosos e leigos fervorosos, deslumbrados pela sublimidade da oração, da virtude, do apostolado ou da santidade, se lançam à sua consecução com tensão e nervosismo.




Desejariam consegui-los num átimo ou à força de murros, esquecidos de que todo crescimento é lento e gradual. Encarregados de determinada tarefa ou empresa, vibram com tal intensidade que não descansam e nem afastam a tarefa do pensamento enquanto não a concluem: não têm sossego durante a atividade.


Costuma ocorrer, nesses casos, uma sutil inversão na hierarquia de valores. Pretendem alcançar o êxito do empreendimento (valor humano limitado) e perdem de vista o valor divino da ação, a qual, sendo da vontade de Deus e cumprimento do dever, possui um valor ilimitado. Entre o homem e o humano de um lado, e Deus e o que é divino de outro, há a mesma diferença que existe entre um centavo e um milhão de cruzeiros novos. É por isso que lhes falta a plenitude de satisfação, que viria da certeza de estarem realizando o ideal da Sabedoria Infinita e, com isso, conquistando um tesouro imenso. Por outro lado, sofrem angústias devido à ânsia e pressa de alcançar o resultado humano, no qual não poderão encontrar plena satisfação, já que tal resultado possui apenas um valor limitado e mínimo, como se fosse apenas um centavo.


O remédio será aumentar as possibilidades ou moderar o ideal, o que não significa, necessariamente, deixar de aspirar a grandes feitos, mas apenas dar tempo ao tempo, evitando agir por impulsos irracionais e sem permitir que ideais utópicos nos ofusquem.


Quem está cumprindo seu dever não tem motivo para se apressar em terminar para dedicar-se a outra coisa, pois está realizando o máximo que pode no momento — o que Deus quer dele. Nenhuma outra ocupação terá mais valor ou será mais gloriosa; no máximo, poderá ser equivalente.



Aqui está, provavelmente, uma das causas dos desequilíbrios nervosos de pessoas consagradas a Deus. Inverteram inconscientemente a hierarquia de valores, pelo menos na maneira de sentir e agir.


A segurança e plenitude de sua personalidade, que no noviciado se baseava em sentirem-se amados por Deus e na plena realização do ideal divino, pouco a pouco foi perdendo sua força, e eles começaram a comprazer-se e apoiar-se no êxito humano. Quando, finalmente, este fracassou, devido à enfermidade, velhice ou circunstâncias adversas, também a personalidade desmoronou.


Um professor universitário norte-americano, diante de uma verdadeira montanha de composições que devia corrigir, sentia-se atrapalhado pela interminável tarefa e logo se deixava dominar pela pressa e, em consequência, pelo cansaço. Hoje coloca as composições de modo que não as possa ver e vai tirando uma de cada vez, sem nunca olhar as que restam, e corrige cada uma com tranquilidade, como se nada mais tivesse que fazer. Desse modo, termina a empreitada com naturalidade e sem fadiga.


Aquele que, ao iniciar a leitura de um livro, está com o pensamento nos capítulos que ainda faltam, ou que, ao escrever uma carta, se lembra das outras a que ainda tem que responder, corre o perigo de trabalhar sob a pressão de duas ideias simultâneas e, portanto, com nervosismo e cansaço.


Alguns, quando se apercebem de tal pressa ao ler ou escrever, decidem não fazer nenhuma outra coisa durante um espaço de tempo maior do que o necessário para aquela ocupação, freando automaticamente a pressa, quando a decisão foi sincera; outros cobrem as linhas que se seguem e vão descobrindo-as pouco a pouco; outros ainda, atacando também a raiz orgânica desse nervosismo, relaxam mais os músculos dos olhos e da fronte, diminuindo a tensão muscular.




2. PAIXÃO DESENFREADA 



Certo aluno do Colégio de Belém, de Havana, obtinha, a cada ano, as melhores notas da classe e o primeiro prêmio. Seu pai, que não entendia de educação, para recompensar tamanha aplicação, ao completar o filho quinze anos, deu-lhe, durante as férias, toda sorte de oportunidades para divertir-se. O rapaz aproveitou-as. Quando se reiniciou o curso seguinte, passou a ser um dos últimos da classe. Seus olhos vagueavam pela sala, e os professores procuravam estimulá-lo:


— Não se sente envergonhado, você, que era sempre o primeiro? Estude, trabalhe!


Ele se calava. Até que um dia, quando o incentivavam de novo, rompeu em pranto:


— Padre, disse, vivi durante as férias como um animal e agora não posso pensar em outras coisas.


Perdera a concentração devido ao vício impuro.


Quantos universitários, ao relembrar a antiga lucidez mental e a tenacidade da memória e compará-la com a atual deficiência, confiaram-nos, com lágrimas nos olhos, que tal lhes aconteceu em consequência de excessos sexuais que se transformaram em hábitos!


Com razão diz o profundo e poético Gar-Mar: “Queres possuir entendimento de anjo? Pede primeiro ao céu coração de anjo. Quando o coração é puro como o cristal, os olhos se tornam mais transparentes. Nada desanuvia tanto o entendimento como o perfume dos lírios.”


Não é sem razão que o maior e mais profundo pensador da humanidade foi também denominado, graças à sua pureza, “Anjo das Escolas”.



Tampouco poderá deixar de se cumprir a palavra da Sabedoria Infinita: “Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus” (Verdade Absoluta).

A moderna endocrinologia ensina que os valiosos elementos elaborados pelas glândulas sexuais são reabsorvidos quando o homem é continente: há reabsorção de 20% de cálcio, 30% de fósforo, além de potássio, magnésio, espermina e colesterina, que atuam beneficamente sobre o sistema nervoso.

O célebre intelectual e político brasileiro Ruy Barbosa atribuía a lucidez de sua inteligência à continência que praticou durante toda a vida.




3- Ideias parasitas depressivas




Se as ideias parasitas impulsivas impedem que nos concentremos, muito maior violência costumam ter as depressivas, como temor, preocupação, insegurança, dúvida angustiante, etc., seja uma tendência vaga de insegurança ou algo concreto, como a perda da saúde, da fortuna, da fama, da vida, ou, pior ainda, algum mal transcendente e eterno, com ou sem fundamento.

Em todos esses casos, será muito difícil concentrar-se enquanto não solucionarmos nossos problemas ou conflitos ou, quando tais problemas são insolúveis, enquanto não atenuarmos a importância exagerada que lhes empresta nossa afetividade. Avaliados em sua justa medida, é preciso aceitá-los plenamente, encontrando felicidade apesar da realidade penosa — que não parecerá tão penosa após racionalização e aceitação.

Em certa capital centro-americana, um estudante nos pediu conselho por não conseguir reter quase nada do que ouvia nas aulas nos últimos seis meses, apesar de anteriormente possuir boa memória. Ele acabou abandonando a universidade. Havia sido impressionado por um amigo preocupado com uma pequena deformidade no rosto. Pouco depois, começou a acreditar que seu riso tinha algo de anormal e essa ideia o assaltava continuamente.

Após dois meses de tratamento, conseguiu superar essa obsessão e recobrou o poder de concentração e a memória, podendo retomar os estudos.

Ele trouxe, então, sua irmã, que havia obtido nota zero na última prova escrita, apesar de saber a lição perfeitamente. Supondo que ela também tivesse insegurança e temor, constatamos que, desde a infância, ela havia testemunhado cenas de violência do pai descontrolado contra a mãe bondosa. De fato, sua insegurança era tão intensa que, ao entrar na sala de exame e ver o ponto escolhido, o medo a dominou e bloqueou sua memória, impedindo-a de lembrar e escrever o que sabia.

Expliquei-lhe como vencer esse sentimento de insegurança, colocando no subconsciente o sentimento contrário, conforme descrito no livro “Controle Cerebral e Emocional”. Ajudei-a a associar a vivência de segurança à do exame que a preocupava. Meses depois, seu irmão me trouxe a notícia esperada: ela havia obtido as melhores notas no exame seguinte.

Quando a insegurança sobre coisas temporais se transforma em obsessão angustiante, pode ser útil consultar um psiquiatra católico, bom católico e bem formado, pois tal estado pode ter origem oculta no subconsciente. Muitas vezes, sua causa está na falta de fé ou na supervalorização do que é terreno, que perde a ordem correta ao ser separado do celestial e eterno.

Sem segurança nos problemas mais cruciais do homem, como sua origem e destino, falta uma base sólida às demais seguranças.

Um retorno aos valores transcendentais, com alguns dias de retiro e meditação sobre esses valores, será o melhor remédio [ver o Livro Meu Retiro].

O psiquiatra Dr. Viktor Frankl [livros aqui], israelita, presidente da Sociedade de Psiquiatria da Áustria e discípulo de Allers, concluiu, após acuradas experiências, que a terça parte das neuroses nos homens modernos resulta da repressão, não do instinto sexual, mas da tendência ao divino e ao destino supremo. Quando perdemos o foco ou suprimimos a visão do que é eterno e divino, o que é humano e temporal assume proporções exageradas.

Se a insegurança transcendente vem de algo que pesa sobre nossa consciência moral, nenhum paliativo ou tentativa de silenciar essa voz interna será eficaz. É necessário enfrentar o problema o quanto antes, reconciliando-se com Deus [no Sacramento da Reconciliação].

A dúvida intelectual em matéria transcendente, como religião, também pode perturbar a paz e profundidade de nossa concentração. É essencial resolvê-la rapidamente, consultando especialistas ou estudando em fontes confiáveis. Já o escrúpulo, outra dúvida obsessiva que às vezes aflige pessoas virtuosas, deve ser tratado com presteza e auxílio combinado de psiquiatria e direção espiritual. (Veja-se “Controle Cerebral e Emocional”.)


Reverendo Narciso Irala, S. J.







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Para aprofundamento: Livro A Mulher Católica: Graça & Beleza (Ana Paula Barros) 



Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia, Graça & Beleza.


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Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

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