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Salus in Caritate

Seja um Educando

Hugo de São Vitor


OPÚSCULO SOBRE O MODO DE
APRENDER E DE MEDITAR




A humildade é necessária ao que deseja aprender.

A humildade é o princípio do aprendizado, e sobre ela, muita coisa tendo sido escrita, as três seguintes, de modo principal, dizem respeito ao estudante.

A primeira é que não tenha como vil nenhuma ciência e nenhuma escritura.

A segunda é que não se envergonhe de aprender de ninguém.

A terceira é que, quando tiver alcançado a ciência, não despreze aos demais.

Muitos se enganaram por quererem parecer sábios antes do tempo, pois com isto envergonharam-se de aprender dos demais o que ignoravam. Tu, porém meu filho, aprende de todos de boa vontade aquilo que desconheces. Serás mais sábio do que todos, se quiseres aprender de todos. Nenhuma ciência, portanto, tenhas como vil, porque toda ciência é boa. Nenhuma Escritura, ou pelo menos, nenhuma Lei desprezes, se estiver à disposição. Se nada lucrares, também nada terás perdido. Diz, de fato, o Apóstolo:

"Omnia legentes,
quae bona sunt tenentes".
I Tess. 5

O bom estudante deve ser humilde e manso, inteiramente alheio aos cuidados do mundo e às tentações dos prazeres, e solícito em aprender de boa vontade de todos. Nunca presuma de sua ciência; não queira parecer douto, mas sê-lo; busque os ditos dos sábios, e procure ardentemente ter sempre os seus vultos diante dos olhos da mente, como um espelho.

Três coisas necessárias ao estudante.

Três coisas são necessárias ao estudante: a natureza, o exercício e a disciplina.

Na natureza, que facilmente perceba o que foi ouvido e firmemente retenha o percebido.

No exercício, que cultive o senso natural pelo trabalho e diligência.

Na disciplina, que vivendo louvavelmente, componha os costumes com a ciência.

Prime pelo engenho e pela memória.

Os que se dedicam ao estudo devem primar simultâneamente pelo engenho e pela memória, ambos os quais em todo estudo estão de tal modo unidos entre si que, faltando um, o outro não poderá conduzir ninguém à perfeição, assim como de nada aproveitam os lucros onde faltam os vigilantes, e em vão se fortificam os tesouros quando não se tem o que neles guardar.

O engenho é um certo vigor naturalmente existente na alma, importante em si mesmo.

A memória é a firmíssima percepção das coisas, das palavras, das sentenças e dos significados por parte da alma ou da mente.

O que o engenho encontra, a memória custodia.

O engenho provém da natureza, é auxiliado pelo uso, é embotado pelo trabalho imoderado e aguçado pelo exercício moderado.

A memória é principalmente ajudada e fortificada pelo exercício de reter e de meditar assiduamente.

A leitura e a meditação.

Duas coisas há que exercitam o engenho: a leitura e a meditação.

Na leitura, mediante regras e preceitos, somos instruídos pelas coisas que estão escritas. A leitura é também uma investigação do sentido por uma alma disciplinada.

Há três gêneros de leitura: a do docente, a do discípulo e a do que examina por si mesmo. Dizemos, de fato: "Leio o livro para o discípulo", "leio o livro pelo mestre", ou simplesmente "leio o livro".

A meditação.

A meditação é uma cogitação frequente com conselho, que investiga prudentemente a causa e a origem, o modo e a utilidade de cada coisa.

A meditação toma o seu princípio da leitura, todavia não se realiza por nenhuma das regras ou dos preceitos da leitura. Na meditação, de fato, nos deleitamos discorrendo como que por um espaço aberto, no qual dirigimos a vista para a verdade a ser contemplada, admirando ora esta, ora aquelas causas das coisas, ora também penetrando no que nelas há de profundo, nada deixando de duvidoso ou de obscuro.

O princípio da doutrina, portanto, está na leitura; a sua consumação, na meditação.

Quem aprender a amá-la com familiaridade e a ela se dedicar frequentemente tornará a vida imensamente agradável e terá na tribulação a maior das consolações. A meditação é o que mais do que todas as coisas segrega a alma do estrépito dos atos terrenos; pela doçura de sua tranquilidade já nesta vida nos oferece de algum modo um gosto antecipado da eterna; fazendo-nos buscar e inteligir, pelas coisas que foram feitas, àquele que as fez, ensina a alma pela ciência e a aprofunda na alegria, fazendo com que nela encontre o maior dos deleites.

Três gêneros de meditação.

Três são os gêneros de meditação. O primeiro consiste no exame dos costumes, o segundo na indagação dos mandamentos, o terceiro na investigação das obras divinas.

Nos costumes a meditação examina os vícios e as virtudes. Nos mandamentos divinos, os que preceituam, os que prometem, os que ameaçam.

Nas obras de Deus, as em que Ele cria pela potência, as em que modera pela sabedoria, as em que coopera pela graça, as quais todas tanto mais alguém conhecerá o quanto sejam dignas de admiração quanto mais atentamente tiver se habituado em meditar as maravilhas de Deus.

Do confiar à memória aquilo que aprendemos.

A memória custodia, recolhendo-as, as coisas que o engenho investiga e encontra.

Importa que as coisas que dividimos ao aprender as recolhamos confiando-as à memória: recolher é reduzir a uma certa breve e suscinta suma as coisas das quais mais extensamente se escreveu ou se disputou, o que foi chamado pelos antigos de epílogo, isto é, uma breve recapitulação do que foi dito.

A memória do homem se regozija na brevidade, e se se divide em muitas coisas, torna-se menor em cada uma delas.

Devemos, portanto, em todo estudo ou doutrina recolher algo certo e breve, que guardemos na arca da memória, de onde posteriormente, sendo necessário, as possamos retirar. Será também necessário revolvê-las frequentemente chamando-as, para que não envelheçam pela longa interrupção, do ventre da memória ao paladar.

As três visões da alma racional. Diferença entre
meditação e contemplação.

Três são as visões da alma racional: o pensamento, a meditação e a contemplação.

O pensamento ocorre quando a mente é tocada transitoriamente pela noção das coisas, quando a própria coisa se apresenta subitamente à alma pela sua imagem, seja entrando pelo sentido, seja surgindo da memória.

A meditação é um assíduo e sagaz reconduzir do pensamento em que nos esforçamos por explicar algo obscuro ou procuramos penetrar no que é oculto.

A contemplação é uma visão livre e perspicaz da alma de coisas amplamente esparsas.

Entre a meditação e a contemplação o que parece ser relevante é que a meditação é sempre das coisas ocultas à nossa inteligência; a contemplação, porém é de coisas que segundo a sua natureza ou segundo a nossa capacidade são manifestas; e que a meditação sempre se ocupa em buscar alguma coisa única, enquanto que a contemplação se estende à compreensão de muitas ou também de todas as coisas.

A meditação é, portanto, um certo vagar curioso da mente, um investigar sagaz do obscuro, um desatar do que é intrincado. A contemplação é aquela vivacidade da inteligência que, possuindo todas as coisas, as abarca em uma visão plenamente manifesta, e isto de tal maneira que aquilo que a meditação busca, a contemplação possui.

Dois gêneros de contemplação.

Há, porém, dois gêneros de contemplação. Um deles, que é o primeiro e que pertence aos principiantes, consiste na consideração das criaturas. O outro, que é o último e que pertence aos perfeitos, consiste na contemplação do Criador.

No livro dos Provérbios, Salomão principiou como que meditando; no Eclesiastes elevou-se ao primeiro grau da contemplação; finalmente, no Cântico dos Cânticos transportou-se ao supremo.

Para que, portanto, possamos distinguir estas três coisas pelos seus próprios nomes, diremos que a primeira é meditação; a segunda, especulação; a terceira, contemplação.

Na meditação a perturbação das paixões carnais, surgindo importunamente, obscurece a mente inflamada por uma piedosa devoção; na especulação a novidade da insólita visão a levanta à admiração; na contemplação o gosto de uma extraordinária doçura a transforma toda em alegria e contentamento.

Portanto, na meditação temos solicitude; na especulação, admiração; na contemplação, doçura.

Três partes da exposição.

A exposição contém três partes: a letra, o sentido e a sentença. A letra é a correta ordenação das palavras, a qual também chamamos de construção. O sentido é um delineamento simples e adequado que a letra tem diante de si como um primeiro semblante. A sentença é uma mais profunda inteligência, a qual não pode ser encontrada senão pela exposição ou interpretação. Para que uma exposição se torne perfeita requerem-se, nesta ordem, primeiro a letra, depois o sentido e posteriormente a sentença.

Os três gêneros de vaidades.

Três são os gêneros de vaidades. O primeiro é a vaidade da mutabilidade, que está em todas as coisas caducas por sua condição. O segundo é a vaidade da curiosidade ou da cobiça, que está na mente dos homens pelo amor desordenado das coisas transitórias e vãs. O terceiro é a vaidade da mortalidade, que está nos corpos humanos pela penalidade.

As obrigações da eloquência.

Disse Agostinho, famoso por sua eloqüência, e o disse com verdade, que o homem eloqüente deve aprender a falar de tal modo que ensine, que deleite e que submeta. A isto acrescentou que o ensinar pertence à necessidade, o deleitar à suavidade e o submeter à vitória.

Destas três coisas, a que foi colocada em primeiro lugar, isto é, a necessidade de ensinar, é constituída pelas coisas que dizemos, as outras duas pelo modo como as dizemos.

Quem, portanto, se esforça no falar em persuadir o que é bom, não despreze nenhuma destas coisas: ensine, deleite e submeta, orando e agindo para que seja ouvido inteligentemente, de boa vontade e obedientemente. Se assim o fizer, ainda que o assentimento do ouvinte não o siga, se o fizer apropriada e convenientemente, não sem mérito poderá ser dito eloqüente.

O mesmo Agostinho parece ter querido que ao ensino, ao deleite e à submissão também pertençam outras três coisas, ao dizer, de modo semelhante:

"Será eloqüente aquele que puder
dizer o pequeno com humildade,
o moderado com moderação,
o grande com elevação".

Quem deseja conhecer e ensinar aprenda, portanto, quanto há para se ensinar e adquira a faculdade de dizê-las como convém a um homem de Igreja. Quem, na verdade, querendo ensinar, às vezes não é entendido, não julgue ainda ter dito o que deseja àquele a quem quer ensinar, porque, mesmo que tenha dito o que ele próprio entendeu, ainda não foi considerado como tendo-o dito àquele por quem não foi entendido. Se, porém, foi entendido, de qualquer modo que o tenha dito, o disse.

Deve, portanto, o doutor das divinas Escrituras ser defensor da reta fé, debelador do erro, e ensinar o bem; e neste trabalho de pregação conciliar os adversos, levantar os indolentes, declarar aos ignorantes o que devem agir e o que devem esperar. Onde tiver encontrado, ou ele próprio os tiver feito, homens benévolos, atentos e dóceis, há de completar o restante conforme a causa o exija. Se os que ouvem devem ser ensinados, seja-o feito por meio de narração; se, todavia, necessitar que aquilo de que trata seja claramente conhecido, para que as coisas que são duvidosas se tornem certas, raciocine através dos documentos utilizados.


Hugo de São Vitor

OPÚSCULO SOBRE A ARTE DE
DE MEDITAR



I

OS TRÊS GÊNEROS DE MEDITAÇÃO



A meditação é a cogitação freqüente, que investiga o modo, a causa e a razão de cada coisa.

No modo, investiga o que é; na causa, por que é; na razão, como é.

Os seus gêneros são três: o primeiro é sobre as criaturas, o segundo sobre as escrituras, e o último sobre os costumes.

A meditação das criaturas surge da admiração; a meditação das escrituras, da leitura; a meditação dos costumes da circunspecção, do atento exame dos afetos, pensamentos e obras humanas.



II

A MEDITAÇÃO DAS CRIATURAS



Na meditação das criaturas a admiração gera a questão, a questão gera a investigação, a investigação a descoberta.

A admiração considera a disposição, a questão busca a causa e a investigação, a razão.

Admiramos a disposição quando consideramos a diferença entre o céu, onde tudo é igual, e a terra, onde existe o alto e o baixo.

Daqui passamos a questionar a causa, que é a terra ter sido feita para a vida terrena, enquanto que o céu para a vida celeste.

A investigação, finalmente, buscará a razão, descobrindo-a ao encontrar que tal como é a terra, tal é a vida terrena; e tal como é o céu, tal é a vida celeste.



III

A MEDITAÇÃO DAS ESCRITURAS



Na meditação sobre as Escrituras, a consideração deve ser realizada do seguinte modo.

A meditação inicia-se com a leitura: ela é que ministra a matéria para se conhecer a verdade. Segue-se-lhe a meditação, que a une. A esta se acrescentarão a oração, que a eleva; a operação, que a compõe; e a contemplação, que nela exulta. Nossa intenção agora é tratar apenas da meditação.

Nas Escrituras a meditação versa sobre como importa conhecer. Tomemos um exemplo. Está escrito:

"Desvia-te do mal, e faze o bem".
Salmo 36

À leitura sobrevém a meditação. Por que disse primeiro "desvia- te do mal" e depois "faze o bem"? A causa é porque, a não ser que os males sejam primeiro removidos, os bens não podem vir. A razão, assim como primeiro se erradicam as más sementes, depois as boas são plantadas. E também, por que disse: "Desvia-te do mal"? Porque ocorrem no caminho.

Disse também "desvia-te", porque onde pela fortaleza não podemos resistir, pelo conselho e pela razão escapamos desviando-nos.

Desviamo-nos também do mal evitando a matéria do pecado, como por exempo, por causa da soberba, evitando-se as riquezas; por causa da incontinência, a abundância; por causa da concupiscência, a inclinação da carne; por causa da inveja e do litígio, o amor da posse. Isto é desviar-se.

Do mesmo modo, se nos é dado o preceito de nos desviarmos de todo o mal, também somos ordenados a que façamos todo o bem. Aquele que não se desvia de todo o mal é réu; assim é réu também aquele que não faz o bem. Mas, se é assim, quem não é réu? Somos, portanto, ordenados a que nos desviemos de todo o mal. Quanto aos bens, porém, há alguns que são necessários; outros, voluntários. São bens necessários aqueles contidos nos preceitos e no voto; quanto aos restantes, se algo for feito, recompensar-se-á; se nada, não serão imputados.

A meditação sobre uma coisa lida deve versar também sobre como são as coisas que são sabidas, por que o são e como devem ser feitas. A meditação deve ser uma reflexão do conselho sobre como se realizam as coisas que são sabidas, porque inutilmente serão sabidas se não forem realizadas.

Três considerações a serem feitas na meditação sobre as Escrituras

Na meditação acerca de uma leitura devem se fazer três considerações: segundo a história, segundo a alegoria, e segundo a tropologia.

A consideração é segundo a história quando buscamos a razão das coisas que se fizeram, ou as admiramos em sua perfeição de acordo com os tempos, os lugares ou os modos convenientes com que se realizaram. A consideração dos julgamentos divinos exercita quem medita que em nenhum tempo faltou o que foi reto e justo, em todos os quais foi feito o que importava e foi recompensado o que foi justo.

A consideração é segundo a alegoria quando a meditação se ocupa sobre as disposições dos fatos passados, considerando- lhes a significação dos futuros. Considera também a admirável razão e providência com que foram adaptados à inteligência e à forma da fé a ser edificada.

Na tropologia a meditação se ocupa do fruto que podem trazer as coisas que foram ditas, indagando o que insinuam que se deve fazer, ou o que ensinam que deva ser evitado; o que a leitura da escritura propõe para ser aprendido, o que para ser exortado, o que para consolar, o que para se temer, o que para iluminar o vigor da inteligência, o que para alimentar o afeto, e qual a forma de viver para o caminho da virtude.



IV

A MEDITAÇÃO SOBRE OS COSTUMES



A meditação sobre os costumes deve ter por objeto os afetos, os pensamentos e as obras.

Os afetos

Deve-se considerar nos afetos que sejam retos e sinceros, isto é, orientados para aquilo que devem sê-lo e segundo o modo com que devem sê-lo.

Amar aquilo que não se deve é mau, e semelhantemente amar de um modo indevido aquilo que deve ser amado também é mau: o bom afeto existe quando se dirige para aquilo que é devido e segundo o modo com que é devido.

Amnon amou a irmã, e este era um afeto a algo que era devido, mas porque amou mal, não o era segundo o modo como era devido.

O afeto pode ser dirigido àquilo a que é devido e não ser do modo devido; nunca, porém, poderá sê-lo do modo devido se não for dirigido àquilo a que é devido.

O afeto é reto segundo se dirija ao que é devido, e é sincero segundo seja do modo devido.

Os pensamentos

Nos pensamentos deve-se considerar que sejam puros e ordenados.

São puros quando nem são gerados de maus afetos, nem geram maus afetos.

São ordenados quando advém racionalmente, isto é, no seu tempo. De fato, no tempo que não é o seu, mesmo o pensar no que é bom não é sem vício; como na leitura pensar na oração, e na oração pensar na leitura.

As obras

Nas obras deve-se considerar primeiro que sejam feitas com boa intenção.

A boa intenção é a que é simples e reta.

É simples a que é sem malícia.

É reta a que é sem ignorância.

A intenção que é sem malícia possui zelo. Mas a que é por ignorância e não é segundo a ciência, só por causa disso já não possui zelo.

Assim, importa que a inteção seja reta pela discrição, e simples pela benignidade.

Ademais, além da boa intenção deve-se considerar também nas obras que sejam conduzidas desde a reta intenção concebida até ao seu fim por um perseverante fervor, de tal modo que nem a perseverança se entorpeça, nem o amor se arrefeça.



V

OUTROS REQUISITOS DA
MEDITAÇÃO SOBRE OS COSTUMES



A meditação sobre os costumes deve discorrer, ademais, por duas considerações, que são a externa e a interna. A consideração externa é a consideração quanto à forma; a consideração interna é a consideração quanto à consciência.

Na consideração externa, devemos examinar o que é decente e o que é conveniente.

A decência deve ser considerada pelo exemplo dado em relação ao próximo. A conveniência deve ser considerada pelo mérito em relação a nós.

Na consideração interna, quanto à consciência, devemos examinar se a consciência é pura e se não possa ser acusada tanto pelo torpor no bem como pela presunção no mal. A consciência é pura quando nem é acusada do passado, nem se regozija injustamento do presente.

A origem e a tendência de todos os movimentos do coração.

A meditação sobre os costumes deve exercer também sua consideração no sentido de depreender todos os movimentos que se originam no coração, de onde vêm e para onde tendem.

Deve examinar de onde vêm segundo a origem, e para onde tendem segundo o fim: todo movimento é proveniente de algo e se dirige para algo.

Os movimentos do coração, porém, às vezes têm uma origem manifesta, outras vezes oculta. Os que a têm manifesta, ainda às vezes a têm manifestamente boa, outras vezes manifestamente má.

A origem que é manifestamente boa é de Deus; a que é, porém, manifestamente má é do demônio ou da carne. Todas as sugestões e todas as aspirações que invisivelmente advêm ao coração procedem destes três autores.

As coisas ocultas às vezes são boas e ocultas, outras vezes màs e dúbias. As que são boas são de Deus; as que são más, do demônio ou da carne.

O que é manifesto, seja bom ou seja mau, é julgado pela sua primeira origem. O que, entretanto, é dúbio em sua origem, é provado pelo fim. O fim manifesta o que no princípio se encobria; por causa disto, quem não pode julgar os seus movimentos pelo princípio, investigue o fim e a consumação.

As coisas, portanto, que são dúbias ou incertas são bens ou males ocultos. As que são males, conforme foi dito, são do demônio ou da carne. Elas não se distinguem pelo fato de serem más; distinguem-se pelo fato de que as da carne freqüentemente surgem por causa de uma necessidade, enquanto as do demônio o fazem sem uma razão, pois aquilo que é sugerido pelo demônio, assim como é alheio ao homem, assim freqüentemente é alheio à razão humana. As obras do demônio se discernem, pois, por serem estranhas ao homem e alheios à razão humana, enquanto que as da carne e as suas sugestões freqüentemente têm uma necessidade precedente como causa; ultrapassando, porém, o modo e a necessidade, crescem até à superfluidade.

O discernimento entre o bem e o mal, e dos bens entre si.

A meditação dos costumes também deve exercer-se pelos três julgamentos seguintes.

O primeiro é o que julga entre o dia e a noite.

O segundo é o que julga entre o dia e o dia.

O terceiro é o que julga o dia todo.

Julgar entre o dia e a noite é dividir as coisas más das boas.

Julgar entre o dia e o dia é ter o discernimento entre o bom e o melhor.

Julgar o dia todo é avaliar cada um dos bens singulares pelo seu mérito.

O fim e a direção de todos os trabalhos.

A meditação dos costumes deve também considerar o fim e a direção de todos os trabalhos.

O fim é aquilo ao qual se tende.

A direção, aquilo através do qual mais facilmente se chega.

Tudo aquilo que tende a algum fim a ele se dirige segundo algum caminho próprio, e aquilo que prossegue do modo mais direto, mais rapidamente chega. Há alguns bens nos quais há muito para se mover e pouco para se promover. Outros, com pequeno trabalho produzem grande fruto.

Estes, portanto, que mais aproveitam, devem ser discernidos e mais escolhidos: são os melhores, e importa julgar todo trabalho segundo o seu fruto.

Muitos, não possuindo este discernimento, trabalharam muito e progrediram pouco, já que puseram seus olhos apenas externamente na beleza da obra, e não internamente no fruto da virtude. Gabaram-se mais em fazer grandes coisas do que exercitar o que é útil, e amaram mais aquilo em que pudessem ser vistos, do que aquilo em que pudessem se emendar.

O discernimento dos graus das obrigações

A meditação dos costumes deve considerar sempre em primeiro lugar as coisas que são devidas, seja pelo preceito, seja pelo voto, e julgá-las como as primeiras a serem feitas. Estas obras, se feitas, possuem mérito; se não feitas, geram reato. Devem, portanto, ser feitas em primeiro lugar, e não podem ser deixadas sem culpa.

Depois destas, se lhe são acrescentadas outras por um exercício voluntário, isto deverá ser feito de tal maneira que não seja impedido o que é devido.

Há quem queira o que não deve, não querendo o que deve; outros, ainda, querendo o que devem, todavia colocam impedimentos voluntários querendo o que não devem.

O evitar a aflição e a ocupação

A meditação dos costumes deve considerar também evitar-se na boa ação principalmente os dois males da aflição e da ocupação.

A aflição gera a amargura, a ocupação gera a dissipação. Pela aflição, amarga-se a doçura da mente; pela ocupação, dissipa-se a sua tranquilidade.

A aflição surge quando a impaciência nos queima com coisas impossíveis. A ocupação, quando a impaciência nos agita com coisas possíveis.

Para que a alma não se amargure, sustente pacientemente a sua impossibilidade; para que não se ocupe erroneamente, não estenda suas possibilidades além da sua medida.

O julgamento da forma correta de viver

A meditação dos costumes deve julgar também a forma de viver, provando não ser bom apetecer impacientemente as coisas que não se fazem, nem aborrecer-se tolamente com as que se fazem.

Quem sempre apetece o que não faz e aborrece o que faz, nem frui o que lhe é presente, nem se sacia do que lhe é futuro. Abandona o iniciado antes da consumação, e toma antes do tempo o que deve ser iniciado.

Portanto, é bom contentar-se com o seu bem e aumentar os bens presentes com os bens supervenientes, sem desprezá-los pelos futuros.

A troca dos bens pertence à leviandade; o exercício, porém, à virtude: aqueles que desprezam os velhos pelos novos e aqueles que sobem dos inferiores aos superiores correm por caminhos muito diversos. Aquele que busca a mudança é tão fastidioso como é aplicado aquele que apetece o aperfeiçoamento.

Caminha, portanto, retissimamente aquele que é de tal maneira fervoroso para o melhor que não se aborrece no bem, mas sustenta o anterior até que no devido tempo alcance o posterior.


Hugo de São Vitor: Opúsculo sobre o modo de Aprender e de Meditar. (cristianismo.org.br)






Pintura: Louisa Hammond. Angelica Kauffman (austríaca de origem suíça, 1741–1807). Óleo sobre cobre. The Fitzwilliam Museum. Esta é uma ilustração da Carta XXXIV na obra Emma Corbett, de Samuel Jackson Pratt.






AS Três Vias


Quando nos arredores de Hebron se espalhou a alviçareira notícia do nascimento de S. João Baptista, acorreu todo o vizindário para felicitar o venturoso casal, Joaquim e Anna. Acercavam-se daquele berço e, com a curiosidade natural em tais ocasiões, todos indagavam do futuro daquela criança que tantos prodígios ocasionava ao nascer: Quis puer iste erit — Que virá a ser esta criança?

Senhorita, não sei se o mesmo se terá dado junto ao vosso berço. É de presumir que não; o vosso nascimento, como o meu e os demais, nenhuma particularidade trouxe consigo. Apenas os vizinhos, e de preferência as vizinhas, punham-se a contemplar as minúsculas dimensões do recém-nascido e, para serem agradáveis aos pais, prodigalizavam elogios sem se preocuparem muito com a sinceridade dos mesmos.


Agora, o caso é outro. Passaram os anos, crescestes e, hoje, não há duvidar, muitos perguntam a si mesmos ou aos vossos pais: Mas, enfim, que rumo tomará aquela moça tão distinta? Casará? É tão piedosa, tão recatada... Eu tenho para mim que vá ser freira; aquela piedade na igreja, aquela reserva quanto aos divertimentos profanos bem lhe atraiçoam as intenções... como se, para casar, fosse necessário ser leviana.

 E os pais?

Esses não dizem nada; quiçá nem suspeitam. Creio, porém, que prefeririam vê-la casada.

Como essas pessoas que por vós se interessam e fazem, de vosso respeito, um juízo tão lisonjeiro, também eu ignoro o vosso futuro. Sei que, em todas as donzelas cristãs, há de que fazer grandes e excelentes coisas, quer Deus as escolha exclusivamente para si, como plantinhas humildes e aromáticas de seu jardim — na vida religiosa; quer as destine ao casamento, para fazer delas excelentes esposas e mães de família, de que temos tão grande necessidade nesta hora de deliquescência moral; quer, enfim, as reserve para humildes e devotadas auxiliares, nas paróquias, para a salvação de muitas almas e alívio de muitas misérias físicas e morais do próximo, no mundo.

As que escolhem este último partido, chamam alguns de “solteironas”, e chamo-lhes eu anjos da Providência, se souberem honrar o seu celibato no mundo. Em outro capítulo desta obra, darei a razão da minha divergência.




Muitos pais há que temem ver seus filhos enveredarem pelo primeiro e terceiro destes caminhos e, quando lhes notam piedade um pouco fora do comum, tornam-se apreensivos, fazem todo o empenho para casá-los ou, quando menos, para que fiquem em casa — mas freira ou padre, isso nunca... Tudo o que quiserem, menos padre ou freira.

Com efeito, a maior aspiração dos pais — e notadamente, das mães — e nisto pensam dia e noite, é poderem, mais tarde, embalar os netinhos, com exceção de algumas que também gostam de abraçar os pobres orfãozinhos que não têm outros pais senão os sacerdotes e as religiosas.

Como quer que seja, às mães daquelas que se casam, desejo que Deus lhes conceda muitos anos de vida para que possam embalar os netinhos; mas não devem esquecer que, se o soberano Senhor reservar para si algum dos filhos, não lhes faz injúria alguma — antes, muita honra lhes dá.

A grande questão, porém, aqui — o problema a resolver, antes de mais nada — é este: Qual é a vossa vocação?


O futuro vos inquieta — é natural; nele vistes a vossa felicidade temporal e eterna. Tendes diante de vós três caminhos: o casamento, o celibato no mundo ou o claustro. Trata-se aqui de escolher — e escolher bem e não deveis arriscar-vos por nenhum deles sem madura reflexão. Já pensastes nisso, já refletistes, examinastes e não animas a vos decidir. ‘Se ao menos uma voz do céu me dissesse: casa-te, ou vai para o convento, ou fica onde estás. Porém, nada disso; esses três estados, esses três caminhos vêm a solicitar-me e a assustar-me sucessivamente; enchem-me de angústias, atormentam-me, e eu sofro.’

O casamento não vos sorri. Conheceis talvez lares infelizes, famílias destruídas, esposas enganadas, abandonadas, martirizadas; rapazes levianos, devassos, hipócritas, sem religião, sem moral; moças bonitas, piedosas, ingênuas e inocentes, miseravelmente exploradas, em sua boa-fé; famílias sem moral, onde se ignoram, desprezam e blasfemam os preceitos religiosos.

Esse triste espetáculo vos atemoriza, vos assusta. Ainda assim, porém, o casamento não vos é antipático. Se um rapaz correto se vos apresentasse, dando-vos todas as garantias de vir a ser um bom esposo, estou em que havíeis de proclamar o casamento como o melhor partido a que pode aspirar uma moça.

Mas esse rapaz ideal, onde está? Encontrá-lo-eis? Virá algum dia? Eu não sei. Quer-me parecer até que, se tendes medo ao casamento, é porque o desejais. Note bem: é uma simples suposição minha; não lhe ligueis grande importância. Só vos advirto: não vos caseis unicamente para fazer a vontade aos outros, nem mesmo aos pais. Poderíeis vir a ser muito infeliz. Quem se casa, como quem vai para o convento, deve fazê-lo por vocação, nunca por vontade alheia; o contrário é condenar-se alguém a ser escravo.



Infeliz de vós se vos casardes só para ser agradável a vossos pais. Quando houverdes saboreado as amarguras dessa escravidão, que só acaba com a morte; quando naquele a quem, impelida, vos entregastes, descobrirdes uma criatura essencialmente egoísta; quando, uma após outra, se forem dissipando todas as ilusões da mocidade; quando verificardes que aquele castelo tão bem arquitetado não passa de uma miserável vivenda, onde o enfado e a soledade são os vossos únicos companheiros — ai, então, minha filha, não sei que vos diga... parece-me até que vos estou vendo, debulhada em pranto, a suspirar como se Deus vos houvera abandonado.

É para vos livrar dessa desgraça que torno a repetir-vos: não decidais da vossa vida unicamente para ser agradável aos demais, por maior acatamento que vos mereçam.



Mas prossigamos.



O celibato no mundo não deixa de ter seus atrativos. Ama-se a liberdade, a fraternidade e, quiçá, até mesmo a igualdade. A mulher celibatária no mundo não tem que separar-se dos seus, pode servir a Deus como bem lhe aprouver; pode, à vontade, desvelar-se no alívio das misérias do próximo; sua alma, cheia de zelo e piedade, pode livremente correr para a chama da caridade. Tem, entretanto, contra si aquela palavra envenenada que faz rir a muitos e serve de argumento às mães quando querem afastar as filhas daquela vida intermediária entre o matrimônio e o claustro — aquele nome que vos assusta: “solteirona”.

É incrível o poder dessa palavra malsinada. Se, como muitas solteiras o merecem, lhes chamassem devotas, heroicas, anjos tutelares dos pobres e das boas obras, arrimo de pais velhos, mães dos orfãozinhos — então, não haveria tanto horror a esse estado. Antes, muitas o haviam de abraçar, para não caírem nas garras dos caçadores de dotes.



A vida religiosa tem para vós maiores atrativos, quiçá. Cuidais que lá estareis mais segura, que sereis mais feliz; mas... traz consigo a separação dos entes queridos. Tudo e todos os que vos rodeiam parecem pedir-vos que não enveredeis por esse caminho.

Aliás, se vos inclinais para aquele estado, é talvez apenas porque, no convento, cantastes os que amais e vos amam, ou porque vos pintaram a vida religiosa com belas cores, como se lá houvesse rosas sem espinhos.

Como quer que seja, ainda desorientada, inclinada a perguntar — sem obter resposta: Que farei?

Sossega, minha filha: sereis o que Deus aprovar. E, enquanto Deus não se manifestar, enquanto não chegar a hora feliz, não vos fieis no que haveis de fazer.

Orai. O momento mais propício é o da santa missa e da sagrada comunhão. Aproveitai esses momentos para oferecer a Deus a vossa vida, pedindo-lhe que vos aceite ao seu serviço, quando e como Ele melhor o entender e o julgar útil para sua glória e vossa felicidade eterna — duplo fim que nunca deveis perder de vista.

2º — Escolhei um bom guia ou diretor espiritual e exponde-lhe, com ingênua sinceridade também, as vossas aspirações, dúvidas e temores, inclinações e perplexidades. Cedei-lhe o lema de vossa alma e averiguai se entre os escolhidos da vida: confiai-vos à sua prudência e piedade.

3º — Não vos deixeis influenciar demasiadamente por pessoas estranhas à vossa missão, mais interessadas do que pensais, quer essa influência provenha de uma mãe, quer de uma amiga casada ou religiosa. Sede senhora de vós mesma e não tomeis nunca uma resolução definitiva só para ser agradável a outros.

4º — Refleti seriamente e, para que o possais fazer com pleno conhecimento de causa, lede algum bom livro que vos instrua convenientemente sobre os três estados a que pode aspirar uma moça. Deixastes há pouco o colégio e vindes com um grande sortimento de prêmios. Suponho que as vossas preceptoras vos terão dado algum livro que vos sirva de guia e vos ilumine a inteligência, na escolha do vosso futuro. Assim o suponho, pois não posso crer que elas julguem do valor de um livro pela encadernação mais ou menos rica, mas pelo conteúdo. Não creio que vos hajam atraído ao torvelinho do mundo, cegas e inconscientes, ignorando tudo quanto uma moça deve saber para que possa defender-se das astúcias diabólicas que, lá fora, as esperam.

Mas, se não vos deram esse livro, peço ao vosso diretor e suppri, vós mesma, essa lacuna — esse esquecimento imperdoável de vossas preceptoras, que preferiram dar-vos livros insípidos, artisticamente encadernados, que nunca abris... e fazeis bem.




5º — Esperai com paciência e sofrei resignadas, em silêncio.


Não confieis as vossas mágoas senão a Nosso Senhor, à Santíssima Virgem e ao vosso diretor espiritual. A vossa cruz é pesada e não me admira que, por vezes, vos arranque lágrimas. Carregai-a com resignação, fazendo a vontade de Deus, para merecerdes a graça de seguir generosamente a Nosso Senhor Jesus Cristo.


Sim, se é vontade de Deus que vos santifiqueis — que vos salveis desse modo — dizei de todo o coração: Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa palavra. Umas conquistam o céu trabalhando; outras, gemendo enfermas no fundo de uma cama; outras, como esposas e mães dedicadas; e ainda outras, como religiosas, em um convento. Vós, minha filha, santificai-vos esperando com paciência e repetindo muitas vezes:

Senhor, não se faça a minha vontade, mas a vossa.

Assim seja, não é, minha filha?

Pobre alma aflita, tende coragem e ânimo; amanhã o sol aparecerá mais claro, dissipar-se-ão as nuvens, ou serão, quando menos, mais transparentes, permitindo-vos contemplar o céu.


NYSTER, J. Quando eu for moça. Porto Alegre: Centro da Boa Imprensa, 1925.

Escrito como pseudônimo. É possível que se trate de um sacerdote, educador ou escritor católico da primeira metade do século XX, vinculado ao movimento de imprensa católica no Brasil — especialmente considerando o estilo da obra, seu conteúdo formativo e a editora responsável (Centro da Boa Imprensa, ligada à Arquidiocese de Porto Alegre).





Orientação da Preceptora

Segue a lista de livros úteis, que devem ser lidos obrigatoriamente (independentemente da sua inclinação pessoal para uma das três vias vocacionais) antes da decisão:


AGOSTINHO, Santo. Dos bens do matrimônio; Da santa virgindade; Dos bens da viuvez: cartas a Proba e a Juliana. Tradução de Gelson Silva. São Paulo: Paulus, 2001. (Coleção Patrística, v. 16). Disponível aqui.


AGOSTINHO, Santo. A virgindade consagrada. Tradução do original latino De sancta virginitate por Nair de Assis Oliveira. São Paulo: Edições Paulinas, 1990. ISBN 85-05-01119-8. Disponível aqui.


BARROS, Ana Paula. Consagrados: sobre o celibato leigo. [S.l.]: Salus in Caritate, 2021. Disponível em: Consagrados: sobre o Celibato Leigo – Salus in Caritate. Disponível aqui. 


CHAVEUT, Maria Luiza. A virgem cristã na família e no mundo. [S.l.]: [s.n.], 1927. > Obra rara sobre celibato leigo feminino. Recomendável consultar bibliotecas especializadas ou acervos digitais católicos.


Professora Ana Paula Barros






São Jerônimo e o Anjo. Ribera, 1626.



Compêndio de Teologia Ascética e Mística de Adolphe Tanquerey - Estrutura Literária e Formação Espiritual na Tradição Cristã

Professora Ana Paula Barros¹



1 – Introdução

A produção literária de cunho espiritual no período do Renascimento e da Idade Moderna caracteriza-se pela elaboração de tratados voltados à orientação do fiel na busca da perfeição cristã. Nesse escopo, Ascética e Mística constitui uma síntese de reflexão teológica e prática moral.

Sua linguagem possui uma estrutura pedagógica. A clareza expositiva da obra favorece sua recepção como instrumento formativo, o que contribui para sua relevância acadêmica e pastoral.

Nesse sentido, a complementaridade entre ascese e mística – conforme destaca Garrigou-Lagrange ao afirmar que “a ascese prepara o terreno, a mística é a flor que desabrocha” – estrutura a proposta do tratado. A obra será analisada a partir de duas dimensões principais: os aspectos estilísticos da escrita e os princípios pedagógicos da leitura espiritual.




2 – O Estilo Literário




A obra Ascética e Mística insere-se em uma tradição literária que, entre os séculos XVI e XVIII, apresenta uma linguagem marcada por clareza expositiva e pedagógica. Destaca-se, ainda, pelo uso da linguagem mística. Conforme Velasco (2000), essa linguagem emerge da experiência e busca expressar o inefável por meio de imagens discursivas. Nesse sentido, expressões como “noite dos sentidos” e “matrimônio espiritual” não apenas ilustram estados espirituais, mas funcionam como mediações entre o divino e a mente do leitor. O símbolo, segundo Le Fort (1953), ao contrário do conceito abstrato, preserva a densidade do mistério e favorece a abertura à transcendência.

Por fim, a obra adota estratégias retóricas que asseguram sua conformidade com os parâmetros doutrinários da época. Timoner (2013) destaca que os autores místicos frequentemente recorriam a construções discursivas que legitimavam suas exposições diante da autoridade eclesiástica, mantendo a fidelidade teológica durante a narração de acontecimentos espirituais.


“A linguagem mística é subversiva por natureza, pois expressa um conhecimento individual do divino” (TIMONER, 2013, p. 82).


3 – Estrutura Temática da Obra


A leitura espiritual pode ser compreendida como uma “prática de si”, na medida em que opera como um exercício. Nesse contexto, o texto sagrado ou doutrinal deixa de ser apenas objeto de decodificação e passa a atuar como mediador de um processo formativo contínuo.

A leitura espiritual, desse modo, configura-se como um processo dialético entre texto e leitor, no qual o conteúdo doutrinal é assimilado não apenas como conhecimento, mas como princípio ativo e efetivo de mudança interior.

A obra Ascética e Mística apresenta uma organização sistemática que reflete a tradição da teologia espiritual clássica. Sua estrutura é dividida em dois grandes blocos doutrinários — a teologia ascética (teologia sobre a firme disciplina) e a teologia mística (teologia do indecifrável) —, os quais se desdobram em capítulos temáticos que acompanham o desenvolvimento progressivo da vida interior.



Parte I: Teologia Ascética


A seção sobre ascética compreende os fundamentos da vida espiritual e os meios ordinários de santificação. Os capítulos estão organizados de forma a conduzir o leitor desde a conversão inicial até a maturidade nas virtudes cristãs. Os principais temas abordados incluem:

  • Fundamentos da vida espiritual: natureza da graça, finalidade da vida cristã, papel da vontade e da liberdade.
  • Combate espiritual: luta contra o pecado, domínio das paixões, tentação e vigilância.
  • Prática das virtudes: fé, esperança, caridade, humildade, obediência, mortificação e pureza de intenção.
  • Meios de santificação: oração vocal e mental, exame de consciência, direção espiritual e frequência aos sacramentos.

Essa parte da obra tem caráter formativo-pedagógico, sendo destinada à purificação da alma e à conformação da vontade aos princípios evangélicos.




Parte II: Teologia Mística



A seção sobre mística trata das etapas superiores da vida espiritual, caracterizadas pela ação direta da graça e pela experiência da união com Deus. Os capítulos abordam:

  • Graças místicas: contemplação infusa, dons do Espírito Santo, consolações e aridezes espirituais.
  • Fenômenos extraordinários: êxtases, visões, locuções interiores, discernimento dos espíritos.
  • União: estado de perfeição, abandono à vontade divina, vida em Deus.

Essa parte da obra exige maior maturidade espiritual e teológica, pois trata de experiências que ultrapassam a capacidade discursiva e requerem discernimento e o acompanhamento de um diretor espiritual.



Considerações Didáticas


A divisão temática da obra permite sua utilização tanto em contextos formativos (seminários, noviciados, cursos) quanto em estudos acadêmicos de teologia e literatura religiosa. A progressão dos capítulos visa conduzir o leitor da disciplina ascética à contemplação mística, ao menos no conhecimento teórico, respeitando o ritmo da graça e a liberdade interior, no nível prático.

A liberdade interior corresponde à capacidade do sujeito de pensar e agir de forma coerente, sem submissão a pressões externas ou condicionamentos sociais. Constitui-se como um estado de autonomia psíquica, em que o indivíduo identifica e supera limitações internas, como medos, impulsos ou vícios. Essa liberdade depende do desenvolvimento da consciência, da autorreflexão e do autoconhecimento. Epicteto e Viktor Frankl evidenciam que, mesmo sob coerções severas, o ser humano mantém a faculdade de decidir sua postura diante dos fatos. Portanto, a liberdade interior, que também pode ser nomeada como independência intelectual, é um componente de radical importância no que tange ao caminho ascético-místico.



4 – Considerações Finais



A obra Ascética e Mística é um manual de teologia espiritual estruturado em duas partes complementares: a disciplina espiritual e a união mística com Deus. Sua contribuição se dá na sistematização clara e didática dos percursos da vida espiritual, com base em fundamentos doutrinários da tradição cristã.

O estilo adotado, marcado por clareza expositiva e uso controlado de simbolismo teológico, favorece a leitura educacional. O texto mantém alinhamento com tratados clássicos da espiritualidade, como os de São João da Cruz e Fray Luis de León, ao mesmo tempo que apresenta organização e linguagem adequadas à formação pastoral e acadêmica.

A articulação entre ascese e mística, ou seja, entre firme disciplina e união mística, entre educação do corpo e elevação espiritual, representa o eixo da proposta espiritual desenvolvida na obra, contribuindo para sua permanência como referência nos estudos teológicos e literários.

A citação de Karl Rahner — “o cristão do futuro será um místico ou não será cristão” — reforça o valor da obra, independentemente da linha teológica e pastoral (moderna ou tradicional) adotada pelos mais variados grupos dentro do catolicismo.





Referências:


EPICTETO. Manual de Epicteto. 

FRANKL, Viktor Emil. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes, 2008.

GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. As três idades da vida interior: prelúdio da vida eterna. São Paulo: Cultor de Livros, 2013.

LE FORT, Gertrud von. A mulher eterna. Tradução de Emérico da Gama. Rio de Janeiro: Agir, 1953.

RAHNER, Karl. O cristão do futuro será um místico ou não será cristão. In: ____. Espiritualidade e liberdade. São Paulo: Paulus, 2005.

TIMONER, Gerard Francisco. A linguagem mística como subversão: entre o inefável e o simbólico. In: Mística e Teologia: desafios contemporâneos e contribuições. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2013. p. 78–83.

VELASCO, Juan Martín. El fenómeno místico: estudio comparado. Madrid: Trotta, 2000.






¹Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)





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Acervo Digital Salus: Mapas Mentais das Moradas do Castelo Interior




















Quais são os meios imediatos de adquirir e de conservar a autoridade? São seis os princípios:

1º – É preciso falar pouco. 
2º – É preciso usar de autoridade com discrição. 
3º – É preciso ser claro. 
4º – É preciso tomar a sério o que se diz. 
5º – É preciso exigir uma obediência imediata. 
6º – É preciso manter a firmeza até ao fim.


Qual o sentido desta fórmula: é preciso falar pouco? 
É preciso intervir raramente.

Seria, com efeito, desastroso não permitir e não deixar passar nada. Alguns pais falam sem descanso, tanto para mandar quanto para proibir ou aconselhar:

– Pedro, tem cuidado, não caias. 
– Olha bem. 
– Olha para a frente.
 – Não vás tão depressa.
 – Aí vem um carro. Etc.

A criança acaba por não prestar atenção às recomendações que se lhe fazem. Os próprios pais não dão importância ao que dizem e, quando querem fazer valer sua autoridade, compreendem que esta está irremediavelmente perdida.



2º – É preciso usar da autoridade com discrição

"Todo o excesso é um erro. Eis uma afirmação que se faz a cada passo, e cujo sentido nunca se põe em prática." (La Fontaine)

O que é preciso fazer para praticar a discrição no exercício da autoridade? 

1º – É preciso que a autoridade intervenha raras vezes.

“É preciso mandar poucas vezes, mas formalmente, a fim de deixar à criança, sem risco para ela e sem perigo para a autoridade dos pais, o máximo de liberdade possível. Afrouxam-se as rédeas ao cavalo quando se sabe que se pode segurar a tempo, ao passar ao longo dos precipícios do caminho; não se tem constantemente preso, nem sob a ameaça do látego, o cão fiel, acostumado a obedecer à voz do dono.” (F. Nicolay, ob. cit., p. 142)

2º – É preciso não empregar a autoridade senão com conhecimento de causa: quer dizer, em casos que valham a pena e em ordens cuja sensatez e oportunidade sejam indiscutíveis.

É uma situação lamentável, difícil e geralmente sem saída honrosa a de alguns pais obrigados, pela imprudência, a recuar, se quiserem ser razoáveis, ou a comprometer-se seriamente por bagatelas ou erros, se quiserem salvaguardar sua autoridade.



3º – É preciso ser claro

Em que sentido se deve tomar esta recomendação? Em dois sentidos:

1º – Quando se ordena, é absolutamente necessário saber claramente o que se quer.
2º – Quando se ordena, é indispensável exprimir a vontade em termos claros, que não deem margem a equívocos nem erros de interpretação. Muitas vezes, num grupo de crianças, a obediência não é pronta nem rigorosa porque as ordens não foram claras: elas não compreenderam.
4º – É preciso tomar a sério aquilo que se diz.


Há, então, pais que não tomam a sério aquilo que dizem? Pode ser que o tomem a sério, mas um certo número deles não o demonstra.

Ordenam e ameaçam de tal forma que nem eles próprios, nem – com mais razão – as crianças, prestam atenção às ordens dadas; e assim, não se dá importância ao que se diz, promete ou ameaça.

Fala-se com aquele tom de indiferença usado ao cumprimentar alguém casualmente: 
– "Como tem passado?" Pensa-se tão pouco no que se diz que, se a pessoa cumprimentada tivesse estado doente, julgar-se-ia indelicado não ter perguntado por sua saúde.



5º – É preciso exigir uma obediência imediata

O que se deve pensar da obediência demorada? 
A obediência que obriga à repetição da ordem já não é obediência; deve ser tratada como desobediência.

Quantos pais, entretanto, resignam-se a repetir duas, três ou mais vezes as ordens que dão aos filhos. E, acompanhando as repetições com as palavras “imediatamente” e “depressa”, não percebem – ou não querem perceber – que estão em contradição consigo próprios, perdendo a autoridade.

É verdade que há nisso uma aparência de vantagem: pois, sendo a obediência à quinta intimação considerada ainda uma obediência imediata, não há motivo para castigo. Mas é pura ilusão: falta-lhe uma qualidade essencial – a prontidão.

Tiago é mal mandado e choraminga constantemente. A mãe, agastada: 
– "Se não te calas num minuto, comerás sobremesa no prato de sopa!" (É o castigo que Tiago mais teme.) 
– "Não me ouviste?" 
– "Sim, mas sei bem quanto é um minuto, e que posso chorar ainda mais um bocado..."


Esse exemplo, absolutamente autêntico, mostra que as crianças abusam da fraqueza dos pais.

Que outro inconveniente há na obediência que discute? 
É ainda mais grave do que a obediência demorada. É o vício da educação sentimental:

– Luís, leva tua capa.
 – Não vale a pena, mamãe.
 – Olha: o céu está se nublando; o vento sopra de oeste; o barômetro baixa; faz o que te digo. 
– Mamãe, tenho certeza de que não chove.
– Na quinta-feira, foste ver teu tio sem capa; choveu, e voltaste todo molhado.
 – Sim, mas no domingo a mamãe me obrigou a levá-la, e o tempo estava lindíssimo.

E se a mãe, por fim, se impõe:

– "Sabes que me mortificas com as tuas reflexões? Leva a capa, que mando eu."

Para quê todas as divagações meteorológicas? (Nicolay, ob. cit., p. 170)




6º – É preciso ir até ao fim

Como proceder praticamente para tirar proveito deste conselho? Nunca se devem fazer concessões ou transigir. A criança deve saber, sem sombra de dúvida, que aquilo que foi ordenado deve ser cumprido sempre, custe o que custar.

Qual é a importância desta firmeza? É capital. O sistema das concessões compromete ou arruína a autoridade.

Se uma recusa não for definitiva, se um “não” puder tornar-se um “sim”, a criança empregará todos os meios – até os mais violentos – para apressar a submissão do pai ou da mãe.

Que ninguém se iluda. Não se trata de brinquedos ou guloseimas. Trata-se, acima de tudo, da própria autoridade dos pais. É sobre isso que a luta se trava nos pequenos incidentes da vida cotidiana.

Se os pais cedem, caminham para a impotência. A criança se encorajará a cada concessão conquistada. Se forem firmes, se domarem a criança e a constrangerem com resolução, manterão sua autoridade e serão obedecidos.

Qual é o risco dessa firmeza? 
1º – São as lágrimas e os arrufos. Mas é preciso não ceder nunca.

 “Não se receiem as lágrimas nem as cóleras das crianças. Conheceis o provérbio inglês: ‘Ventos de março e chuvas de abril trazem flores de maio’. E eu acrescentarei que as flores de maio trazem os frutos de setembro.”  (Mademoiselle Thérèse Alphonse Karr).

2º – São também as meiguices. A criança percebe que a mãe é sensível a beijos, abraços, palavras carinhosas… Usa disso como moeda de troca pela sua independência. E nisso encontra, como a própria mãe, uma satisfação de afeto e delicadeza.


*Mademoiselle Thérèse Alphonse Karr, leiga celibatária, foi uma escritora francesa do século XIX, ativa por volta de 1835 a 1897. Ela é conhecida principalmente por sua obra Contre un proverbe, publicada em 1865 e obra Dieu et ses dons: cours d'instructions religieuses offert à la jeunesse (“Deus e seus dons: curso de instruções religiosas oferecido à juventude”, publicada em 1864. O conteúdo do livro é voltado à formação religiosa cristã de jovens, com forte ênfase na doutrina católica.




BETHLÉEM, René de. Catecismo da educação. 1. ed. São Paulo: Castela, 2023.


Abade René Bethléem, um sacerdote católico francês nascido em 1850 e falecido em 1950. Ele foi ordenado padre em 1895, na Diocese de Lille, e é conhecido por sua atuação como educador e autor de obras religiosas voltadas à formação moral e pedagógica da juventude

Saúde Mental


Texto original de 2015

É assustador os dados atuais da OMS sobre depressão, 20% da população mundial sofrerá da dor mais profunda do ser humano, querido leitor, estamos falando de 1,4 BILHÕES de pessoas. Preocupante, não? E se eu disser que 80% da humanidade, independente da idade, sofre da Síndrome do Pensamento Acelerado, a SPA* (irônico a sigla ser o nome do local que usamos para relaxar).   

Essa Síndrome, como o nome diz, trata-se de um conjunto de sinais e sintomas como: dor de cabeça e musculares, cansaço ao acordar, falta de memória e atenção, irritabilidade, intolerância a situações contrárias, sofrer por antecipação (a chamada ansiedade).

Na verdade essa Síndrome é a alteração do processo de formação do pensamento que leva-nos a viver em outros momentos fora da realidade, do agora e ainda nos deixa presentes incômodos e inconvenientes em forma de sintomas corporais.      

Mas o que tem a Depressão a ver com essa tal Síndrome do Pensamento Acelerado? 


Estão ligadas, porque a segunda antecede a primeira, mas também as encontramos juntas.

Muitos ainda não acreditam que isso é uma realidade, que existem adolescentes sofrendo quietos de uma Síndrome, você iria se espantar se perguntasse a eles se sentem os sintomas acima. Precisamos parar de acreditar que crianças e adolescentes não tem problemas e portanto não precisam se preocupar com nada, logo não podem ter nada disso. Nós vivemos num mundo turbulento que nos faz ensinar a uma criança a mexer num tablet, no note, mas não as não ensinamos a se tornarem pessoas preparadas emocionalmente. 

Não é difícil encontrar pessoas bem sucedidas que não sabem lidar com as pessoas, com as próprias emoções e as emoções do outro. Que não possuem uma base emocional verdadeira, que conta com aprendizados vindos das falhas. Acredito que todos somos treinados a ser um sucesso em tudo e isso é bom, mas e quando vem o fracasso, quando não dá certo, quando não concordam contigo, quando chega o problema? O que é feito de verdade? Não me refiro aqui a essa filosofia capitalista de que temos que lutar, fincar pé, ir a todo custo... me refiro às emoções, porque embora essas atitudes sejam propagadas como boas, na verdade, não podemos afirmar isso, retroceder também pode ser bom, parar também.

Nossas atitudes, nossa falta de inteligência emocional está adoecendo a todos nós, a sociedade toda padece desse mal: do descontrole das emoções, do turbilhão de pensamentos inúteis e infrutíferos, da falta de repouso e ainda acham isso normal, como se fosse um status. Incrivelmente temos um pensamento, inconsciente acredito, que nos diz que ser assim, cheio de sintomas que demonstram que você é mil por hora, é símbolo de status, é cool, é chique. Pois é, realmente é preocupante, somos vitimas de uma epidemia que não detectamos, que não agimos contra, que está levando a todos.

Pense nisso e se analise, não podemos deixar de passar esse filtro em nós. É preciso, de forma urgente, mudarmos isso no mundo e devemos começar analisando e conhecendo a nós mesmos.



Fonte de embasamento:

*Cury, A., Ansiedade. Ed Saraiva.



 


















Livro A Mulher Eterna

Segundo Santo Afonso Maria de Ligório, a comunhão espiritual: “consiste no desejo de receber a Jesus Sacramentado e em dar-lhe um amoroso abraço, como se já o tivéssemos recebido”.

“Oh, Jesus meu, creio que estais presente no Santíssimo Sacramento, te amo sobre todas as coisas e desejo receber-Te em minha alma. Já que agora não posso fazê-lo sacramentalmente, venha ao menos espiritualmente a meu coração. Como se já tivesse recebido, te abraço e me uno todo a Ti, não permitais, Senhor, que volte jamais a abandonar-te. Amém”.


Mas também é possível realizar:

– um ato de Fé na Eucaristia (creio que estas presente na Eucaristia);
– um ato de amor (Te amo sobre todas as coisas);
– um ato de desejo (desejo receber-Te em minha alma);
– Por fim, um pedido: (venha espiritualmente a meu coração, permanece em mim e faça que nunca Te abandone).

“A Igreja vive da Eucaristia” e sem ela não pode existir. De forma real ou virtual, devemos comungar sempre com o Senhor. A Eucaristia foi feita para os cristãos e os cristãos para a Eucaristia.
Um pagão como o centurião romano (Mt 8, 5-17) viveu a experiência da comunhão espiritual quando disse: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa mas dizei uma só palavra…”. A comunhão com o Messias, através de um ato de fé, de esperança e de amor, obteve sua conversão e a cura de seu servo."
São João Paulo II














"Faltando autoridade e respeito, já não há educação possível." (Mgr. Dupanloup, Da Educação, t. II, p. 249)

"Depois de longo estudo e de uma laboriosa experiência, indaguei, por meio de uma reflexão mais profunda, quais eram as duas coisas fundamentais na educação e descobri que essas duas coisas são: a autoridade e o respeito." (Ibid., t. I, p. 1)




A AUTORIDADE

Que veremos nesta seção relativa à autoridade? Veremos que todos aqueles que são responsáveis pela educação:

1º – Gozam do direito de mandar e de ser obedecidos;
2º – Têm o dever de exercer esse direito, porque é necessário ao cumprimento de todas as suas obrigações; 
3º – São obrigados a adquirir a ciência prática dos princípios que regulam o exercício desse direito e o cumprimento desse dever.






A autoridade é um direito

"O princípio da autoridade é a base de toda a sociedade bem organizada." (Imbert de Saint-Amand, A Corte de Luís XIV (Mame), p. 58)


Qual é a origem desse direito? Procuremo-la na própria etimologia da palavra autoridade. Autoridade (em latim: auctoritas) vem do substantivo (em latim: auctor). A autoridade é, portanto, uma prerrogativa de autor.

Há alguma autoridade legítima que possa ter outra origem? Não, porque a uma outra autoridade que não fosse a do autor poderiam dizer:

"Quem é o senhor? Não o conheço; não lhe devo nada; devo tudo Àquele que me fez; mas nada devo senão a Ele e àqueles que O representam." (Mgr. Dupanloup, Da Educação, t. II, p. 14)


Pelo contrário, ao seu autor responde-se naturalmente:

"És Vós? Aqui estou eu. Vós fizestes-me aquilo que eu sou; acaba a Vossa obra; ordena: eu obedeço." (Ibid.)

Quais são os benefícios desse direito? 

1º – Deus, em primeiro lugar. Ele é o autor necessário e universal; tem, portanto, uma autoridade plena e pessoal sobre todas as coisas. É por isso que todas as criaturas se voltam para Deus para Lhe dizer: "Aqui estamos. Adsumus" (Jó XXXVIII, 35). O próprio homem, o rei da criação, se aproxima do Criador e diz-Lhe: "Tuus sum ego; eu sou Vosso" (Salmo CXVIII, 94). — "Deus meus es tu: in manibus tuis sortes meae. Vós sois o meu Deus; os meus destinos estão nas Vossas mãos." (Salmo XXX, 15)

2º – Os pais, em segundo lugar. Deus fez mais que comunicar-lhes Sua autoridade; deu-lhes algo da própria fonte de toda a autoridade, constituindo-os autores da vida de seus filhos e autores da sua educação, que é como a segunda criação da sua alma. Por isso, os pais são os preceptores naturais, necessários e providenciais de seus filhos.

3º – Todos aqueles em quem Deus e os pais delegaram uma parte da sua autoridade. Os preceptores secundários não têm nenhum direito natural: só o pai e a mãe os podem associar à obra da educação. Não há poder humano que possa impor um preceptor à criança contra a vontade do pai e da mãe; haveria, nesse constrangimento, algo que ofenderia a natureza.

Estes princípios são importantes? Mgr. Dupanloup, o grande educador, considerava-os como tais. Eis o que dizia e repetia às crianças que educava:

"Foi dos vossos pais e de Deus que recebi o direito de vos educar; mas este direito receberam-no os vossos pais de Deus e de Deus somente. A nossa autoridade sobre vós é passageira; dentro em breve, apenas nos ficará a do nosso afeto e do vosso reconhecimento, ao passo que a autoridade dos vossos pais é inalienável. Nós podemos deixar de nos consagrar à vossa educação; mas eles devem ensinar-vos até os derradeiros dias, e vós devereis ouvi-los sempre com respeito, até o fim.

Numa palavra, aqui mesmo, em todo o curso da vossa educação, os vossos pais são os primeiros educadores; e, se receberdes com docilidade os nossos ensinamentos, os vossos pais serão sempre, em toda a vossa vida, os vossos preceptores mais venerados e mais queridos.

Foi por estar tão convencido destes princípios que, um dia, julguei do meu dever expulsar do Seminário Pequeno de Paris um jovem de quem era amigo e que sempre me estimava e respeitava, mas que, no mesmo ano, faltou duas vezes, e gravemente, ao respeito à sua mãe. Não o podendo corrigir, não me julguei no direito de continuar a sua educação." (Mgr. Dupanloup, Da Educação, t. II, p. 164)


Qual é a extensão desse direito? Em Deus, esse direito é absoluto; apenas tem por limites os atributos divinos. Mas, para as criaturas, este direito — emprestado em sua origem — é limitado em seu exercício: é circunscrito pela lei de Deus e pelos ditames da verdadeira razão.

Qual é o dever correlativo desse direito? É a obrigação de submissão e obediência por parte daqueles sobre quem esse direito se exerce legitimamente.





A autoridade é uma ciência


Por que se pode dizer que a autoridade é uma ciência? 

Porque o exercício do direito e o cumprimento do dever da autoridade exigem o conhecimento (a ciência) e o respeito de um certo número de princípios. Uns são remotos, outros imediatos: examiná-los-emos sucessivamente.



Os princípios remotos


Quais são os princípios remotos a que está ligada a autoridade? São cinco:

1º - É preciso começar a exercê-la muito cedo. 
2º - É preciso que os pais sejam os primeiros a respeitar a fonte de toda a autoridade: Deus. 
3º - É preciso que os pais apoiem sua autoridade em Deus. 
4º - É preciso que os pais mostrem em tudo um procedimento digno e nobre. 
5º - É preciso que os pais evitem tudo que os possa colocar no mesmo pé de igualdade com os filhos.



1º - É preciso começar muito cedo

"Curva a cabeça de teu filho na sua mocidade" (Eccli.)

Por que é preciso que os pais afirmem muito cedo sua autoridade? 
Porque a experiência ensina que “se a criança não for dominada dos três aos quatro anos, é quase certo que nunca o será.” (F. Nicolay, As Crianças Mal Educadas, p. 140)

Que sucederá se os pais se descuidarem na afirmação da autoridade logo nos primeiros anos dos filhos? A criança cresce: sua independência desenvolve-se com ela; as insubmissões são frequentes; tornam-se escandalosas; sua arrogância é uma vergonha; os pais abrem enfim os olhos e decidem reagir. É muito tarde.

Se o pai e a mãe quiserem usar de rigor, encontram em face deles tal obstinação de resistência que, com receio das consequências, renunciam à luta. Se, apesar de tudo, quiserem impor-se pela força, a criança irrita-se, revolta-se interiormente, procura a causa daquela mudança de atitude, maldiz o lar onde é castigada depois de ter sido mimada: não aceita, nunca aceitará a autoridade.



2º - É preciso que os pais respeitem a fonte de toda a autoridade: Deus

"Que todo o homem seja submisso às autoridades superiores, porque não há poder que não venha de Deus" (S. Paulo, Rom. XIII, 1)

Por que é preciso que os pais respeitem a autoridade? Porque a autoridade é uma: não há a autoridade deste ou daquele; há simplesmente a autoridade; e tudo o que a ofender, seja neste ou naquele superior, enfraquece-a em todos os outros.

E depois, a criança — já tivemos ocasião de notar — é de uma lógica implacável: não se submeterá por muito tempo à autoridade dos pais se eles próprios não se submeterem à autoridade de Deus.

"A autoridade não impõe seu direito quando aqueles que a exercem vivem de maneira diferente da que recomendam aos outros." (Santo Agostinho)



3º - É preciso que os pais apoiem sua autoridade em Deus

"Se o Senhor não edifica a casa, é em vão que trabalham aqueles que a constroem" (Salmo CXXVI)

Por que os pais devem apoiar sua autoridade em Deus? Porque Deus é a única base lógica, imutável e durável da autoridade.

Como farão os pais para convencer a criança da verdade deste ponto de apoio? Evitarão, no exercício da autoridade, toda consideração egoísta ou apaixonada; inspirados sempre na ideia do dever, manifestarão por ele um apreço profundo e afetivo.



4º - É preciso que os pais mostrem em tudo um procedimento digno e nobre

Por que devem os pais demonstrar um procedimento digno e nobre? 

1º - Porque o exercício da autoridade é fácil quando aqueles que são depositários dela merecem estima. Ora, a estima só se obtém pela nobreza, dignidade e virtude. Um domínio de si mesmos, uma firmeza sempre calma, uma atitude virtuosa elevam os pais aos olhos dos filhos, atraem a estima e afirmam a autoridade. Dom Bosco, de Turim, dirigia em passeio, durante um dia, 300 prisioneiros. (J.B. Francesia, Vida de Dom Bosco, p. 158)

2º - Pelo contrário, tudo o que rebaixa o homem — como palavras grosseiras, pragas, excesso na bebida, acessos de cólera etc. — são como pequenos escândalos que fatalmente deprimem a autoridade de quem os comete.

Não há faltas que prejudicam mais gravemente a autoridade dos pais? Podemos apresentar como principais: a mentira e as preferências.

Quais são as formas de mentira, em geral mais abundantes na educação? 
1º - Fazer falsas promessas; 
2º - Iludir a boa-fé; 
3º - Servir-se de flagrantes contradições da verdade. (Nicolay, ob. cit., p. 98 e seg.)

Em que consistem as falsas promessas? 

Em explorar os desejos conhecidos ou supostos da criança, prometendo satisfazê-los se obedecer; e, obtido o resultado, esquecem-se, como por encanto, das promessas feitas… A criança, naturalmente confiante, acaba por se convencer de que zombam dela e abusam da sua credulidade.

Qual é o resultado dessas situações? 

1º - A criança pensa que a mentira não é uma falta, pois sua mãe a emprega constantemente. 
2º - Depois, mais desconfiada por ser sempre enganada, deseja ver o que lhe prometem ou, escandalizada, revolta-se e diz: — “Há quantos anos me prometem recompensas que nunca vejo… Já chega de troça!”

Nada mais insolente — nada mais justo.

Como se ilude a boa-fé da criança? 
Utilizando sua sinceridade para obter docilidade e voltando contra ela própria o ato de boa vontade praticado.

Exemplos: — “Porque fizeste isso muito bem, vou te levar ao cinema.” E leva-se ao dentista.

— “Dá-me teu comboio e verás como o faço manobrar.” E depois: “Agora, não o verás mais!”

Existe algo pior? Sim: servir-se de flagrantes contradições da verdade. Exemplo: para fazer a criança tomar um remédio desagradável — “Oh! não imaginas como isto é bom” — diz a mãe, fingindo provar. A criança, iludida, toma e logo percebe que foi enganada. Isso marca.

Se toma o remédio, pior ainda: à humilhação junta-se a indignação e o desejo de vingança.

Consequências desses métodos odiosos: 

1º - Os pais rebaixam-se a si próprios, fazendo papel de mentirosos.
 2º - Ensinam, com seriedade, a arte de enganar. 
3º - Destruíram, para sempre, a confiança da criança.


São frequentes as preferências? Sim, infelizmente.

Algumas apoiam-se na semelhança física; outras nas qualidades exteriores: graça, inteligência, amabilidade.

Como se manifestam as preferências? 

O preferido tem mais preponderância, é mais acarinhado, poupado de trabalhos, seus desejos são atendidos, defeitos tolerados ou exaltados, é tido como modelo — mesmo sem mérito — e a mãe declara: — “Gosto mais dele que de todos.” — “Vê teu irmão como é bonito, obediente, comportado… É por isso que gosto mais dele. E tu bem o sabes…”

Estragos causados por isso: O preferido torna-se mimado, soberbo, preguiçoso, sensual… Os outros, invejosos e amargurados, desenvolvem ódio.

Sim, ódio. Recordai-vos da história de José, pais e mães imprudentes: foi para vós que essa história se escreveu.


5º - É preciso que os pais evitem tudo o que os coloque no mesmo pé de igualdade com os filhos

"As crianças devem ter por amigos os companheiros, e não os pais e as mães" (Jaubert, Pensamentos)

Por que essa recomendação? 
Porque a igualdade exclui a autoridade.

Liberdades na linguagem, familiaridades, à-vontade nos divertimentos geram igualdade, e isso prejudica a autoridade.


"Adula teu filho, e ele te causará desgostos; brinca com ele e te entristecerás. Não te divirtas a rir com ele: receia que daí venha uma dor e que, por fim, te arrependas." (Eccli. XXX, 9-10)

E quanto aos pensadores de todos os tempos? 

Platão:

"Quando nas famílias domina a igualdade insolente, tudo, até os animais, parece respirar anarquia. O pai teme o filho e este trata o pai como igual. Já não há respeito nem temor. Querem dizer sempre: sou livre." 



E de Bonald:

"Afetos já fora da influência da razão, e uma educação doméstica, mole e sem dignidade, tomaram o lugar das relações de autoridade e submissão entre os pais e os filhos, das quais a geração passada viu, na sua mocidade, os últimos vestígios. Crianças que tinham no espírito ideias de igualdade com seus pais, e no coração, sentimentos de insubordinação contra suas vontades, praticavam o abuso de tratá-los por 'tu' — maneira de falar que, na nossa língua, exprime consciência da sua fraqueza. Não ousavam dominar os filhos pela sua autoridade, aspirando tão somente a serem seus amigos, confidentes e, muitas vezes, cúmplices. Havia, na França, pais, mães, filhos — mas faltava autoridade na família, e a sociedade política foi abalada até os alicerces."




BETHLÉEM, René de. Catecismo da educação. 1. ed. São Paulo: Castela, 2023.
















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Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)



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