Magnífica humanidade I

by - segunda-feira, maio 25, 2026






Magnífica humanidade I

Professora Ana Paula Barros¹




O Papa Leão, com sua habitual calma, surpreendeu na escolha de seu nome e, agora, na escolha do nome de sua primeira encíclica, muito adequado ao momento e ao propósito da carta.


Definição: Uma carta encíclica é um documento oficial escrito pelo Papa e dirigido aos bispos, ao clero e aos fiéis católicos, tratando de temas doutrinários, morais ou sociais de grande relevância para a Igreja e para o mundo.


O texto apresenta, a princípio, uma introdução com o pedido de harmonia, muito característico do clero. O que chama a atenção, no entanto, é o trabalho de “colocar os pingos nos is” desenvolvido no primeiro capítulo. De modo geral, mas de forma muito especial no clero brasileiro, há uma certa falta de cuidado com definições: as palavras são proferidas nos discursos sem muita clareza sobre o que exatamente significam — amor, paz, harmonia, obediência, concórdia — tudo é dito um tanto a esmo. Por isso, chama a atenção esse cuidado, que certamente passará despercebido por alguns, em definir algumas coisas no meio do texto.



A escrita do Santo Padre é muito calma e cortês. Define enquanto trata de um assunto mais geral. Começa por “magistério”. Na estrutura do texto, utiliza expressões como “magistério recente”, “meus predecessores” (comum em encíclicas) e “os Papas”. Você pode pensar que isso é uma obviedade, mas afirmo que não. Se tiver a coragem de perguntar a um padre brasileiro o que é o “magistério”, ele dirá, como quase todos dizem, que são o Papa e os bispos. E, se perguntar “quais?”, responderá: “os de agora”.

Na mentalidade brasileira, existe certa ruptura entre o que foi e o que é. Claro que esse raciocínio não se sustenta, já que o Papa da época já não está, morreu. Portanto, magistério é o conjunto do todo. Parece evidente, e é, mas na prática eclesiástica não é tão evidente assim. Por isso, é uma grata observação a feita pelo Papa Leão, ao mencionar “os Papas”. Ele o faz dentro de uma digressão histórica sobre a doutrina social da Igreja e certamente corre o risco de passar despercebido.




Outro aspecto importante é o cuidado que ele teve em esclarecer querelas durante a digressão, muito refinado o Santo Padre. A primeira é em relação a tempo x espaço. Nesse momento, parece que ele vai repetir aquele discurso que já conhecemos, com uma dose daquele ecumenismo que nos faz perder o catolicismo. Mas ele afirma que, na verdade, tempo x espaço tem relação com estar nesses meios para semear o Evangelho, que, com o tempo, não necessariamente espaço numérico, dará fruto. Um esclarecimento muito sutil, mas muito oportuno, pois cria o terreno para o próximo tópico: o diálogo.

Essa palavra causa-nos certo calafrio, já que, nos meios eclesiásticos, também vem acompanhada daquela nota ácida de perdermos a catolicidade e sermos um outro, ou outros, numa vivência eclesiástica do movimento antropofágico brasileiro, fazendo com que os católicos se tornem, cada um, um Abaporu — corpo grande e rosto de uva passa (identidade pequena ou sem identidade). Mas o Papa explica que o diálogo serve para fermentar a massa no Evangelho, já que nós somos o fermento da sociedade. Veja só, meus caros, como uma definição muda tudo. Haverá aqueles que dirão: “mas já estava implícito nos textos anteriores”. Não estava, e esse é o problema. Mas, sem rompantes positivos nem negativos, continuemos.




Depois, Sua Santidade descreve a variedade de prismas na aplicação do Evangelho e, para isso, utiliza a imagem de um poliedro, uma figura geométrica. O Papa é professor de matemática, como sabemos, e apenas um professor de matemática colocaria um poliedro como exemplo, como todos sabemos. “Verdade única e simultaneamente multifacetada”. Veja que ele cuida para falar “única” e, em seguida, usa “simultânea” e “multifacetada”. Ou seja, existe a possibilidade de ver uma faceta e não o todo (todos sabemos que de fato é assim), mas ele não emprega as palavras “múltipla”, “multifragmentada”, “plural”, “diversa” (estas só são usadas quando se trata da realidade social). Mais uma definição sutil e muito bem empregada.

Mais adiante, ao relatar a ação do magistério, relembra o pedido dos antecessores por atenção a um julgamento ético e não apenas técnico. Por fim, ao concluir o primeiro capítulo, passa a apresentar, também de forma muito sutil, a definição dessa palavra que nos causa calafrios: “sinodalidade”. É uma palavra que, se você tiver coragem de perguntar a um padre brasileiro o significado, perceberá que cada um responde uma coisa. Logo, é um termo que paira sobre nós, até mesmo uma suposta direção que, no entanto, não tem definição clara. O Papa, caridosamente, nos dá esse pingo no i: “caminhar em conjunto”. De todas as definições, essa é a mais aceitável, acredite em mim.

No entanto, como não posso deixar de apontar, muito desse “caminhar em conjunto” depende de uma mudança comportamental do clero. Ao menos, existe uma pequena luz de que essa abertura para contribuições intelectuais católicas não clericais seja verdadeira, apesar da necessidade evidente de uma mudança comportamental para que se torne real (inclusive na elaboração das referências dos textos publicados).




A filosofia é serva da teologia, no sentido de preparar as reflexões para a atuação dos teólogos. Por isso, a importância dessa temática, ainda que incômoda.

“A verdade é um bem a partilhar.” Aqui está colocada uma distinção que me parece muito ajustada (foi empregada para ajustar): um bem que se partilha é, antes, um bem já possuído. Não se partilha o que não se possui. O Papa, então, parte da premissa de que já temos a verdade como um bem. Não precisamos bradar a esse respeito, mas escolher uma postura de quem possui e deseja partilhar o que tem, e ainda ser rico.

Algo nessa frase me recorda a postura de pessoas muito ricas. Talvez você conheça alguma. Elas falam baixo, pouco, porque já possuem; não precisam impor nada, justamente porque já possuem. O resultado é que todos na mesa de reunião esperam que elas falem, esperam que elas façam, e então falam e fazem igual.



Continuamos na parte 2.




A saber:

  • A frase "a filosofia é serva da teologia" é atribuída a São Pedro Damião, Doutor da Igreja, e foi trabalhada por São Tomás de Aquino, Doutor Comum da Igreja.
  • Abaporu é um quadro de Tarsila do Amaral.
  • Movimento antropofágico brasileiro: foi um movimento artístico e cultural iniciado em 1928, com o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade. Defendia a ideia de "devorar" culturalmente influências estrangeiras para recriá-las.



¹Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)

You May Also Like

0 comments

Olá, Paz e Bem! Que bom tê-lo por aqui! Agradeço por deixar sua partilha.