Política Eclesiástica III - Responsabilidade e Comportamento
Borgognone, 1510
“Suscitou-se também entre eles uma discussão sobre qual deles deveria ser considerado o maior. Jesus lhes disse: Os reis das nações dominam sobre elas, e os que exercem autoridade são chamados benfeitores. Mas vós não deveis ser assim; ao contrário, o maior entre vós seja como o menor, e aquele que governa seja como quem serve.” (Lc 22,24-26)
Política Eclesiástica - ponto 3
Professora Ana Paula Barros¹
A atuação do clero sempre esteve, obviamente, fortemente ligada à estrutura monárquica da Igreja, e essa estrutura é, em si, uma proteção oferecida pelo Senhor em relação à responsabilidade. Acostumados à dinâmica democrática, facilmente nos deixamos levar por afirmações de que os leigos teriam responsabilidade sobre a conduta sacerdotal. Isso, no entanto, é falso. O sacerdote, como detentor de autoridade, é o único responsável pelas escolhas que faz, e essa responsabilidade é compartilhada com os demais membros do clero e, sobretudo, com o bispo. Bispo significa “inspetor” (epískopos literalmente significa “aquele que vigia de cima”), e por isso, se um padre comete erros no ensino da doutrina, erros administrativos ou erros de conduta, a responsabilidade recai sobre ele, sobre os padres que sabem e nada fazem, e principalmente sobre o bispo, que sabendo, permanece inerte.
Em outros momentos já destaquei que o aumento das denúncias no cenário eclesiástico decorre, sobretudo, da ausência de supervisão episcopal sobre os padres. No entanto, essas denuncias tem sido frequentemente interpretadas como desobediência. A raiz está em um traço recorrente no pensamento clerical a respeito da forma como o clero se relaciona com os leigos. De modo geral, os padres não demonstram interesse em leigos que pensam, e a obediência hoje propagada é muitas vezes entendida como deixar o cérebro cair para fora da cabeça. O próprio clero reflete pouco sobre sua condição e sobre se está agindo de forma equivocada, e por isso não é surpresa que se incomodem quando são confrontados. Essa reação nasce do mesmo incômodo que muitos nutrem diante do estudo, ainda que se considerem estudiosos. Dez anos de formação não são muito para quem se dedica à vida intelectual, mas muitos acreditam ser o suprassumo do saber. A ideia de que os leigos são ignorantes é facilmente rastreável nos discursos sacerdotais, e raramente se cogita que alguém nos bancos da igreja possa ter uma formação tão sólida quanto a deles.
Claro que isso tem motivos históricos: durante muito tempo o clero foi, de fato, o grupo de estudiosos da sociedade, aqueles que ensinavam inclusive as matérias que hoje aprendemos na escola e na universidade. Havia um número muito reduzido de leigos que conseguiam ascender na hierarquia dos estudos. Mas hoje a realidade é outra. Em qualquer bairro, seja central ou periférico, é possível encontrar um número expressivo de pessoas universitárias, formadas ou em preparação nos cursinhos. Essa postura distancia os sacerdotes da realidade atual, mas também os impede de reconhecer a riqueza intelectual presente nas comunidades que servem.
Assim, a dinâmica entre padres e leigos, especialmente no Brasil, é uma dinâmica operária, voltada para buscar mão de obra que mantenha os trabalhos funcionando. Não há espaço para contribuição intelectual de fato, e isso é mal visto pelo clero. É comum encontrar padres que, ao ouvir algum pensamento mais elaborado, respondem com ironias como “bispo”, “é padre”, “tá achando que é o papa”. Eles tem dificuldades sérias com isso. No entanto, Nosso Senhor Jesus salvou pessoas: entes racionais, pessoas com cérebro, pessoas que pensam.
Esse ponto nos leva a outra mazela: a resistência em refletir sobre frases comuns no meio eclesiástico, como “quem obedece nunca erra”, “tal padre caiu porque o povo não rezou por ele”, ou “prefiro errar com o padre do que acertar sem ele”. É importante salientar que a obediência é valiosa, pois grupos que não prezam por nenhuma hierarquia facilmente se veem com indivíduos que não seguem orientações espirituais. Contudo, é igualmente importante lembrar que a obediência só se dá quando a ordem está alinhada com os mandamentos e com o Evangelho. Obrigar o "obedecer por obedecer" é prática ligada a disputas de poder, a testes de obediência cega, ao desejo de ser obedecido apenas por ser obedecido. Não tem relação com a reta Doutrina e o Evangelho. Infelizmente isso é muito comum no clero, mais do que se imagina.
Não é difícil compreender: se o padre ensina segundo os mandamentos e o Evangelho verdadeiro, não ficará bravo se alguém disser que irá desobedecer quem ensine o contrário. Pelo contrário, ficará aliviado em ver que seus anos de vida não foram gastos em vão. Agora, se o ensino é contrário aos mandamentos e ao Evangelho, ainda assim deseja ser obedecido? Não seria pedir demais? Em tal caso, é dever cristão desobedecer.
Novamente, não é difícil entender, na verdade, é algo evidente.
Portanto, para finalizar podemos concluir:
Se um padre permite algo errado em sua igreja, essa responsabilidade é do padre, pois a autoridade assume a responsabilidade. O leigo, por não ser autoridade, não tem responsabilidade sobre as decisões clericais. Quem é responsável é o padre, os outros padres que se calaram tendo autoridade e o bispo que não exerceu a função de inspecionar, advertir e corrigir o clero.
Em segundo lugar, é importante lembrar que muitas práticas clericais vêm de uma postura obstinada do clero em não refletir sobre si mesmos e sua atuação como grupo. A resposta dos padres em geral é de autoproteção e autopreservação: protegem o próprio pescoço e o do colega de forma instantânea e automática. Por isso, qualquer assunto em relação à atuação clerical é logo rechaçado, suprimido, na prática conhecida como “afastar para calar”. Daí vem o costume tão enraizado no clero brasileiro de usar o altar e o supremo poder do microfone para os mais diversos usos negativos, raramente para o encorajamento da virtude.
Tenho insistido em refletir sobre os aspectos comportamentais porque o clero, pela história da Igreja, sempre teve que lutar contra a tentação* do poder, do apego aos privilégios e ao cargo (Lc 22,24-26; Mt 20,20-21; Mt 16,22-23; Mt 16,22-23). Hoje não é diferente: muito do que vemos em relação as reações clericais é resultado disso e não de uma defesa do Evangelho para o bem espiritual do povo. É importante que isso seja apontado repetidamente, apesar da reação clerical obstinadamente negativa.
Essa exigência de uma subserviência diante de erros reais e inaceitáveis lembra muito a fala dos soldados nazistas quando questionados em julgamento sobre o motivo de não terem feito nada diante de tanta atrocidade: “estávamos obedecendo ordens” (Julgamentos de Nuremberg, 1945–1946). Existe um momento crucial na atuação moral em que essa frase não funciona como desculpa. Há um momento em que a obediência cega é, em si, uma tragédia. Por isso insisto, como professora, em tocar nesse assunto nas aulas e em qualquer oportunidade: essa semente é perigosa. Se alguém (qualquer autoridade cívica, religiosa ou pessoal) te pede uma obediência que exige que você desligue a consciência e anule a reflexão, cuidado, há algo muito estranho nessa obediência. Nosso Senhor falou, salvou e remiu seres racionais, pessoas com alma, coração e cérebro. Pessoas que pensam. E em nenhum momento Ele pediu para abrirmos mão de pensar; pelo contrário, Ele instigava o pensamento e a reflexão.
E isso, inclusive, é traço nosso, um traço muito católico.
*A saber: a tentação do clero é o poder, o apego aos privilégios e ao cargo; dos leigos, o apego à vida mundana sem conversão verdadeira; e dos religiosos, o não cumprimento das normas da ordem com dedicação.
"A Igreja é Santa: porque Jesus Cristo, seu Fundador, é Santo; Santo é o Espírito que vivifica; Santa a sua Doutrina; Santos os seus Sacramentos; Santos são muitos dos seus membros." - Catecismo Essencial, 1987
¹Ana Paula Barros
Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).
Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.
Totus Tuus, Maria (2015)

6 comments
Eita, falou tudo e mais um pouco 👏👏😍
ResponderExcluir<3
ExcluirBom dia, Ana! Salve Maria! Ótimo texto. Também sinto falta disto que vc citou, em todos os movimentos e especialmente na RCC. Sou nova no blog e já tenho me alimentado muito espiritualmente do conteúdo dele, te agradeço pelo seu sim. Estarei em oração por vc e seu apostolado. Paz e bem!
ResponderExcluirBom dia, Ana Paula! Salve Maria! Ótimo seu texto e muito pertinente. Sinto falta da presença de Nossa Senhora, e toda espiritualidade que a envolve, em muitos movimentos da Igreja e especialmente na RCC. Sou nova no seu blog, não conheço tudo ainda, mas já me alimento muito espiritualmente com o que vi por aqui. Te agradeço pelo seu sim. Estarei em oração por você e seu apostolado.
ResponderExcluirPaz e bem! Muito obrigada.
E depois da pipoca? Que sede que dá...(Ou “Resposta ao artigo ‘Não seja uma pipoquinha de Jesus’”, do blog Salus In Caritate):
ResponderExcluirOlá, paz e bem!
Eu fui uma pipoquinha de Jesus! Na minha adolescência conheci a RCC e me encantei com o movimento. O que quero dizer é que me encantei com Deus que consegui encontrar ali. Eu vinha de uma vivência de grupo de jovens e lembro que quando estive em um retiro da RCC pensei “como Deus é próximo, eu nunca tinha sentido ele assim antes!” Por alguns bons anos participei ainda do grupo de jovens e da RCC. Com 18 anos optei pela RCC, pois fazia muito sentido para mim. Eu percebia ali uma vivência muito real da proposta do evangelho e isso me atraiu, sem dúvida.
Participei da RCC por 10 anos. Não tenho arrependimentos. Percebo que, ao menos no grupo onde estive, havia um real e verdadeiro desejo de Deus, de Sua santidade. Nós queríamos evangelizar o fazer o nome d’Ele conhecido e amado. Eu cantei por amor a Nosso Senhor em muitos retiros, em várias cidades e casas. Foi por amor a Ele. Eu era tipicamente a pessoa da RCC, inclusive andava com o terço no bolso e o crucifixo para fora (risos). Foi um período maravilhoso e que me “salvou” de tantas burradas que poderia ter feito na minha adolescência e juventude. Com 28 anos saí do grupo que participava. Como foi difícil essa “separação”, confesso que fiquei sem norte. Então foram mais 10 anos indo à missa e sem nenhum grupo, mas com desejo, fome e sede de Deus! Uma sede que eu não sabia como saciar, pois eu não estava mais confortável com a RCC, mas também não sabia para onde ir. Minha tia, que é protestante, me convidou diversas vezes para ir ao culto, mas eu sabia que eu era católica. (Ela me convidou tantas vezes que cheguei a sonhar com São João Paulo II com uma capelinha de N. Sra. nas mãos e rezando o terço. Ali tive certeza de que não tinha nada a ver comigo, pois sou católica mesmo e amo essa Igreja maravilhosa, a única fundada por Nosso Senhor). Além da missa eu assistia alguns programas da Canção Nova e Deus me alimentou também por meio da Canção Nova.
Então cheguei neste ponto em que deixei de ser “pipoca de Jesus” e estava com sede! Eu devo dizer que rezei muito pedindo uma orientação do que fazer. Hoje, olhando para trás percebo que tive que fazer como aquela pessoa da parábola que teve que insistir muito para ganhar o que queria. Todos esses anos ora eu rezava ora eu retrocedia, ora eu rezava ora desanimava... Rezava e buscava, mas sem encontrar. Apesar de toda a minha inconsistência na oração eu seguia rezando. Então, de forma muito sutil e discreta, delicada e gentil, Nossa Senhora me buscou através do Tratado da Verdadeira Devoção de São Luís Maria G. de Monfort.
Hoje, continuo sem nenhum grupo ou movimento, mas ela me “encaixou” na Igreja de novo. Já escrevi isso antes e repito sem medo de ofender ninguém: estar na RCC foi maravilhoso, mas, para mim, foi apenas como estar no hall de entrada da Igreja. O hall de entrada é o saguão, o primeiro lugar quando se entra em um prédio ou casa. Depois do hall tem toda a casa para se conhecer, para se apreciar e se abrigar. Nessa minha analogia a “casa” é a Igreja Católica. De forma que Nosso Senhor tem matado minha sede d’Ele através dela, de sua Mãe Santíssima (e não é ela que sempre percebe quando falta o vinho?). E como tem sido bom, como tem sido rico descobrir essa Igreja Católica com toda sua história, com o exemplo dos santos, com o sermões de tantos padres santos e dos papas. Logo, é como eu disse no início... Depois da pipoca, sempre dá sede e Jesus mandou que quem tiver sede vá até Ele beber de uma Água Viva! Mesmo as pipoquinhas de Jesus, se buscarem a Verdade, encontrarão essa Água Viva! Basta atravessar o hall, pois a Água Viva está dentro da casa, dentro da Igreja Católica!
Que lindo testemunho :)
ExcluirOlá, Paz e Bem! Que bom tê-lo por aqui! Agradeço por deixar sua partilha.