Agridoce Inventário da Ausência
Sally Swatland. Memórias do Verão (1946)
Existe uma estranha forma de ausência.
É comum que, em meio a tantas coisas, exista a confusão entre visibilidade e influência. Mas não são a mesma coisa. Como exemplo, veja só a princesa, filha do Rei da Espanha, que estuda em uma escola sem celular, nos três períodos, e cursa filosofia até o décimo segundo ano da grade escolar, ou seja, do começo ao fim do percurso acadêmico. Enquanto isso, os filhos dos trabalhadores comuns estão abraçados ao celular, apaixonadamente. O que isso significa? Que alguém está enriquecendo, mas também que alguns têm educação para comandar e outros para se dedicar a tarefas mecanizadas, estupidificados desde pequenos.
Veja bem, você nunca se perguntou por que raios as redes sociais são gratuitas? Bem, na maioria dos casos, se você não está pagando por algo, é porque você é o produto. Um produto não precisa de uma mente desperta; neste caso, é melhor que esteja ausente.
Existe um debate público acontecendo na Europa neste momento, e estou cada dia mais impressionada com o silêncio brasileiro. Simplesmente ninguém toca no assunto com medo de perder seu espaço online. Enquanto na Europa isso é debatido em programas de TV, em debates online e em grupos de pesquisa. Eles não aceitam bem a massificação sem ao menos uma boa discussão. O interessante é que eles não são os maiores usuários do planeta e, mesmo assim, consideram o debate importante.
Cultura de massa. Com a dinâmica das redes sociais, sua propensão ao mecânico e ao vício, é fácil notar que é um instrumento de massificação e que, portanto, alguém está comandando de alguma forma (nem sempre ordenada) para colher os frutos. Certamente, não será a princesa espanhola e sua filosofia em dia, antes fosse.
Nós corremos o risco de, como nação, pagar caro por essa ausência coletiva gerada pela presença desenfreada numa realidade que certamente não terá os efeitos da realidade paralela do Matrix. Talvez estejamos em um buraco de ausência coletiva tão obscuro que não nos permite nem mesmo gritar de espanto, já que o país está acostumado à cultura de massa. É tristemente espantoso.
Por outro lado, o tempo bem gasto — que grande conquista — é um presente que alivia o coração e faz os talentos renderem. Às vezes me pego pensando em como era a vida sem nada disso, embora seja uma graça poder escrever e ser lida em outros estados e países.
Agridoce.
Mas ainda há só doçura no silêncio da madrugada, nos pássaros matinais, no vento frio da manhã, na quietude que abre para a verdadeira influência, aquela que olha em volta com compaixão e desejo de justiça no coração. Todos caminhando, tantos perdidos em si mesmos mais que no mundo.
Agridoce.
Retirado de Newsletter "Quietos sobre a Terra" - Agridoce Inventário da Ausência. Publicado em 28 de abril de 2025. Receba se inscrevendo em: Newsletter Quietos sobre a Terra - Salus in Caritate
Professora Ana Paula Barros
Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).
Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.
Totus Tuus, Maria (2015)

1 comments
Muito bom ter uma professora como a senhora para nos motivar a verdadeiramente buscar o que é bom, belo e verdadeiro.
ResponderExcluirOlá, Paz e Bem! Que bom tê-lo por aqui! Agradeço por deixar sua partilha.