Ética da Virtude em Aristóteles: Como Posso Ser uma Pessoa Melhor?
O que é Ética da Virtude?
Nas filosofias da ética da virtude, a preocupação é desenvolver-se como uma boa pessoa, ser uma pessoa melhor. Essa decisão cria uma teia balizadora de outras decisões. Por exemplo, diante da oportunidade de fazer uma doação para uma instituição de caridade, um deontologista (que estuda deveres, obrigações e regras de conduta) perguntaria se existe um dever moral que o obrigue a doar. Já um utilitarista avaliaria se a doação produziria melhores consequências (materiais e/ou espirituais) do que a sua ausência. O eticista da virtude, por sua vez, refletiria se essa é a atitude que uma pessoa virtuosa tomaria; simplesmente perguntaria: "É o certo?".
O mesmo raciocínio se aplica a situações em que é necessário decidir entre mentir ou dizer a verdade. Em vez de se concentrar exclusivamente em regras ou consequências, a ética da virtude busca responder à seguinte questão: que tipo de pessoa desejo ser? Uma pessoa honesta ou desonesta? Nessa perspectiva, características como honestidade, confiabilidade, generosidade e outras virtudes associadas a uma vida boa são os balizadores de maior importância. Interessantemente, embora muitos discordem, seguir as regras é também considerado por um eticista da virtude, já que as regras, em sua maioria, são feitas para gerar a ordem e a harmonia da boa orientação. Este ponto é de especial importância, uma vez que, sem balizadores estáveis e direções claras, a virtude passa a ser algo dito e não praticado. Pode também passar a ser uma falsa bondade, que, na verdade, permite erros, injustiças e vícios, sendo falsa justamente por incentivar o que é errado, enquanto a bondade verdadeira semeia o encorajamento de atos honestos, corretos e justos.
Um elemento comum entre as diversas correntes da ética da virtude é a valorização do cultivo de qualidades morais como caminho para promover a felicidade e o florescimento humano. Atualmente, muitas organizações incorporam essa abordagem à sua cultura institucional, frequentemente por meio de declarações de valores que orientam suas práticas e decisões (ou ao menos deveriam orientar).
A ética da virtude estabelece uma relação estreita entre bondade e sabedoria. Ser virtuoso significa saber como tomar decisões éticas em cada situação, tomando como terreno firme as diretrizes do Santo Evangelho e as boas direções dos Doutores da Igreja. Portanto, não seriam decisões feitas a esmo ou guiadas pela emoção, mas baseadas em um histórico de ações tomadas pelos sábios.
Para tanto, é imperativo o desenvolvimento da sabedoria e do caráter moral, capacidades que permitem às pessoas internalizar princípios éticos fundamentais e aplicá-los adequadamente em contextos concretos. Note que, dentro desta forma de educação, os princípios éticos se tornam parte da pessoa a ponto de ela não fazer coisas erradas simplesmente porque é errado e fazer as coisas certas simplesmente porque é o certo. Nessa visão, os princípios éticos são compreendidos como aspectos inerentes da realidade, passíveis de serem descobertos por meio da reflexão racional e de uma vida disciplinada. Algumas versões da ética da virtude vinculam esses princípios a Deus, enquanto outras não. O que une suas diferentes formas é a ênfase na educação moral, no desenvolvimento do discernimento ético, da sabedoria prática e do caráter, sob a convicção de que pessoas virtuosas tendem a realizar ações virtuosas.
Cabe aqui salientar a importância de discursos encorajadores da virtude, ou seja, do bom, do belo e do justo durante o processo educacional (de todas as idades) realizado nas escolas, grupos eclesiásticos, homilias e sermões. Este discurso busca encorajar os que estão procurando ser pessoas melhores, que querem ser bons e santos. Encorajar o desejo de ser bom é um ato que parte do princípio de que a pessoa quer melhorar e deseja remediar seus defeitos e abandonar seus pecados. Todos os que possuem a palavra ou alcance têm um forte dever de encorajamento.
Aristóteles sobre Excelência e Florescimento Humano
O filósofo grego Aristóteles (384–322 a.C.) acreditava que, para compreender plenamente algo, é necessário entender sua natureza e sua função própria. Ele também sustentava que tudo possui um fim ou propósito natural para o qual tende. Uma semente, por exemplo, desenvolve-se até tornar-se uma árvore porque esse é o objetivo inscrito em sua própria natureza. Os seres e objetos realizam suas funções não por escolha consciente, mas porque essa realização corresponde ao que eles são.
Aplicando essa ideia ao ser humano, Aristóteles afirmava que nosso propósito fundamental é alcançar a eudaimonia, termo geralmente traduzido como “florescimento humano” ou “vida plena”. A eudaimonia é um estado duradouro de realização e bem-estar. Não se trata de ter um dia feliz, mas de viver uma vida feliz. Como afirmava Aristóteles, assim como uma única andorinha não faz o verão, um único dia não é suficiente para tornar alguém verdadeiramente feliz.
Segundo essa concepção, todas as atividades humanas têm como objetivo final a eudaimonia. Trabalhamos para obter recursos, construímos lares e fazemos sacrifícios presentes em busca de benefícios futuros porque, em última instância, desejamos viver bem. A eudaimonia representa, portanto, o telos, ou finalidade última, da existência humana.
Florescer como ser humano significa agir de maneira que permita à nossa natureza alcançar sua forma mais excelente. Para Aristóteles, esse estado só pode ser alcançado por meio de uma vida virtuosa, guiada tanto pela phrónesis (sabedoria prática) quanto pela areté (excelência ou virtude).
Na Ética a Nicômaco, Aristóteles define o bem humano como a atividade da alma em conformidade com a virtude. Em suas palavras:
"Consideramos a atividade própria do ser humano como uma forma de vida, e essa vida consiste em uma atividade da alma orientada pela razão. Se a atividade característica de uma boa pessoa é desempenhar essa função de maneira excelente e nobre, então o bem humano consiste na atividade da alma realizada de acordo com a virtude."
Dessa forma, a principal exigência ética é o desenvolvimento de um caráter excelente e sábio. Quando o caráter é moldado pela virtude, boas ações surgem naturalmente, conduzindo a uma vida realizada. Ações virtuosas são expressão de uma pessoa virtuosa; por isso, é de suma importância buscar ser uma pessoa melhor, ser virtuoso. Considerando que ações virtuosas são feitas por pessoas virtuosas, grave é o erro dos que semeiam discursos de desconfiança, desencorajamento e deboche velado ou escrachado aos que desejam tomar boas decisões, escolher o melhor e ser uma pessoa melhor em atos concretos sociais, pessoais e espirituais. Gravíssimo erro, fonte mesma da injustiça, da depravação e do mal no mundo. Querer ser melhor não é um erro; é uma dádiva.
Para Aristóteles, a ética é uma ciência fundamentada em princípios racionais e objetivos, que podem ser conhecidos pela razão. Questões como “o que é uma boa ação” ou “o que torna alguém uma boa pessoa” possuem respostas que podem ser compreendidas objetivamente. O desenvolvimento da virtude, portanto, deve caminhar lado a lado com o desenvolvimento da racionalidade. Assim, quanto mais interesse a pessoa tem em conhecer os portais de conhecimento na literatura, na arte, na filosofia e na teologia, melhor; mais exercícios intelectuais fará, mais sua mente se desembotará, mais sua faculdade da vontade terá alimento para ser forte e firme no que é bom, belo e justo. E todos os discursos dos que têm vocação e autoridade devem semear encorajamento para esse processo, luzes no caminho.
Aristóteles compreendia a alma humana como composta por três dimensões: a nutritiva, responsável pela nutrição e crescimento; a sensível e apetitiva, relacionada às percepções, emoções e desejos; e a racional, ligada ao pensamento e ao julgamento. Embora todas sejam essenciais, a razão ocupa a posição mais elevada, devendo orientar e disciplinar desejos e impulsos. A pessoa virtuosa é justamente aquela cuja alma alcançou estabilidade suficiente para ser guiada pela razão, em vez de ser dominada pelos apetites. É por isso que um conjunto de pessoas fortemente virtuosas se torna válvula motriz de virtude social. Se não existe virtude no campo social, é porque a força da virtude pessoal está fraca; se a virtude pessoal está fraca, é porque os que deveriam semear discursos de encorajamento (professores, padres, poetas, escritores e artistas) não estão cumprindo seu dever imediato de encorajamento da prática virtuosa, provavelmente estão discursando o contrário.
A ética é uma habilidade que se aprende e aperfeiçoa pela prática. Assim como alguém desenvolve competência em matemática ou música por meio do exercício constante, também pode adquirir excelência moral através da repetição de ações virtuosas. Com o tempo, o comportamento ético torna-se um hábito profundamente enraizado, dispensando orientações externas constantes. Faz-se o certo porque é o certo.
Mas como identificar a ação correta em cada situação? Aristóteles responde a essa questão por meio de sua famosa doutrina do meio-termo (que não é a doutrina do mais ou menos moderna).
Segundo ele:
"A virtude é um estado de caráter relacionado à escolha, situado em uma média relativa a nós, determinada pela razão e da forma como a determinaria uma pessoa dotada de sabedoria prática."
Essa definição destaca dois pontos fundamentais. Primeiro, que a virtude se encontra em um ponto intermediário entre extremos. Segundo, que esse ponto intermediário depende das circunstâncias concretas e deve ser identificado pela razão prática.
Portanto, qualquer pessoa racional e prudente, ao analisar adequadamente as circunstâncias, pode reconhecer qual é o curso de ação mais apropriado. A dificuldade de julgamento vem da pouca bagagem de referência e dos discursos atuais (sociais e religiosos) que desencorajam a virtude, o que turva a mente e gera confusão de julgamento. Existem também os discursos que trazem erro de nomeação; por exemplo, usam a palavra "misericórdia" para nomear a permissão de um ato permissivo ou pecaminoso. Esses discursos são muito venenosos, turvam e envenenam a mente, são altamente nocivos, inclusive (e talvez ainda mais) para quem os emite.
De modo geral, a virtude situa-se entre dois extremos prejudiciais: o excesso e a deficiência.
Exemplos de virtudes como meio-termo:
Deficiência (Muito Pouco) Virtude (Meio) Excesso (Demais)
Covardia Coragem Imprudência
Mesquinharia Generosidade Esbanjamento
Falta de confiança Confiança Arrogância
Apatia Calma Irritabilidade
É importante pontuar que, em determinadas circunstâncias, o meio-termo pode estar mais próximo de um dos extremos do que do outro, ou seja, não está necessariamente no meio, mas numa fronteira com um dos extremos e, ainda assim, ser virtude. Por isso, recomendações genéricas como “seja corajoso”, "seja bom", "seja paciente", "seja amoroso" são insuficientes, são inúteis. O grau adequado de coragem, por exemplo, depende da situação enfrentada; assim, pode ora ficar no meio, ora beirar a imprudência e ainda assim ser virtude, como podemos ver na história de muitos santos.
Outro ponto a considerar é a instância pessoal em algumas circunstâncias. Por exemplo, comer em excesso é sempre inadequado, mas aquilo que constitui “excesso” varia de pessoa para pessoa. Saber suas próprias fronteiras de excesso e deficiência é o trabalho prático do virtuoso.
Quanto mais uma pessoa é capaz de identificar e praticar esse equilíbrio, maior é sua phrónesis, ou sabedoria prática. Essa capacidade permite reconhecer quais aspectos de uma situação são moralmente relevantes e determinar a melhor forma de agir.
Para Aristóteles, cada pensamento e cada ação contribuem para a formação de virtudes ou vícios, por isso a importância dos discursos recebidos dos que têm autoridade. Assim, a pessoa verdadeiramente virtuosa:
- Sabe o que está fazendo;
- Escolhe a ação virtuosa por ela mesma;
- Age a partir de um caráter moral consolidado;
- Atua em virtude com gosto e naturalidade, porque é encorajada e mantém esse encorajamento mesmo quando este já não existe mais exteriormente (ou seja, não existe ninguém encorajando);
- Possui independência virtuosa em pensamentos e atos.
Essas características só são possíveis quando a razão governa a alma e orienta os desejos, através da conduta virtuosa encorajada. À medida que a prática da virtude se torna um modo de vida, a pessoa torna-se cada vez mais capaz de agir corretamente de forma espontânea. Para Aristóteles, viver de acordo com a razão e a virtude conduz a uma vida objetivamente boa: produz a felicidade genuína e duradoura que corresponde à plena realização da natureza humana.
Você pode ser melhor. Você pode ser santo.
Referência
GILES, Douglas. How can I be a better person? On virtue ethics. In: MATTHEWS, Nathan; HENDRICKS, Scott (org.). Introduction to Philosophy: Ethics. Montreal: Rebus Community, 2019.
Professora Ana Paula Barros
Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).
Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.
Totus Tuus, Maria (2015)

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