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Salus in Caritate

Seja um Educando

No século XVI, o Discurso sobre as Imagens Sagradas e Profanas, do Cardeal Gabriele Paleotti, emergiu como uma referência inigualável, sendo chamado de "Catecismo das imagens" entre os católicos. Sua abordagem fundamentava o uso das imagens como instrumentos pedagógicos, capazes de transmitir a fé por meio da pregação silenciosa (muta predicatio). O contemporâneo de Paleotti, São Carlos Borromeu, foi o responsável por transformar essas ideias em ação. Seu compromisso com a "transformação da vida cristã através da visão" e as "regras não verbais da linguagem" redefiniram as representações da Virgem Maria nos séculos XVI e XVII.

Padre Coma dos Canais de Santiago, em seu trabalho Via Pulchritudinis: Respuesta de la Iglesia a la Crisis Contemporánea (2012), afirma: "O primeiro desejo do homem contemporâneo, ao contrário do que muitos teólogos dizem, é sair da cacofonia, do barulho, e buscar, com calma, a verdade. No início, ele tateia e não sabe exatamente onde procurar, mas esse instinto de busca pela verdade está sempre presente. Por outro lado, a feiúra está em toda parte. E não falamos apenas de um conceito estético. Existe uma moda direcionada ao feio, ao mau gosto e ao vulgar, promovida pela publicidade e por esferas influentes da sociedade que procuram conferir um valor intrínseco a tudo o que é feio e imundo (cf. Pontifício Conselho para a Cultura, 2008, p. 44-45).

A moda impôs roupas de fábrica gastas e desbotadas; a arquitetura trouxe o concreto armado, cores sombrias ou tons que “gritam” aos olhos; a propaganda disseminou o 'caos visual' em diversas correntes. A explosão dos movimentos de protesto e contracultura de 1968 e toda a manipulação midiática envolvendo filmes, fotos e notícias sobre o festival de Woodstock de 1969 buscaram posicionar a beleza como mero 'preconceito'. Na verdade, essas iniciativas pretendiam antecipar uma nova antropologia baseada em Marcuse, afirmando que o gosto por certos padrões de beleza, comportamento e vestimenta seriam meras imposições sociais das quais o homem precisaria libertar-se por meio da 'espontaneidade'. Assim, o feio e o belo seriam considerados apenas 'convenções', algo a ser deixado de lado.

Mas será que toda essa visão tem consequências práticas para nossa verdadeira união com o Criador? Von Balthasar, citado por Bento XVI (2009b), explicou que, quando alguém se contorce diante da simples menção da palavra beleza, 'podemos garantir que, aberta ou tacitamente, essa pessoa já não é mais capaz de rezar e, em breve, nem mesmo será capaz de amar'. Guardini (1933) foi além ao afirmar que quem aspira a viver dentro da beleza não pode querer ou buscar nada que não seja bom e verdadeiro (p. 172-173). Portanto, reduzir a beleza a um simples prazer sensorial seria privá-la de seu valor supremo e transcendente.

Diante disso, podemos perceber que o mundo atual sofre de uma carência de beleza. O homem contemporâneo, perdido, busca algo que não conhece, mas fica deslumbrado com o que é positivamente belo. O fenômeno das vanguardas históricas, iniciado no século XX, que perdurou até a Segunda Guerra Mundial e continua influente até os dias atuais, trouxe à arte e aos artistas enorme destaque, promovendo novas atitudes e formas – muitas vezes revolucionárias – à cultura contemporânea. No entanto, essas mudanças frequentemente estabeleceram incompatibilidades entre cultura e Evangelho, entre arte e fé, contribuindo para o processo de descristianização e impactando o empobrecimento da arte e da cultura.

O atual Papa está plenamente ciente desse fenômeno. Em diversos escritos, ele incentiva os católicos a buscar soluções para superar a ruptura entre o Evangelho e a cultura, descrita por Paulo VI (1975) como o 'drama do nosso tempo'. Com essa mentalidade, foi escrita a Carta aos Artistas, de Papa João Paulo II, que não se dirige apenas aos crentes, mas 'àqueles que, com apaixonada dedicação, procuram novas epifanias de beleza para oferecê-las ao mundo' (Berrizbeitia, 2008, s.d.).

Nesta carta, datada de 4 de abril de 1999, pouco antes do início do terceiro milênio, com seus desafios, o Papa retomou a frase de Dostoiévski: 'A beleza salvará o mundo', destacando a necessidade da beleza para evitar o desespero, pois nada como a beleza traz tanta alegria ao coração humano. 'É o fruto precioso que resiste à usura do tempo, que une gerações e as faz comunicar com admiração' (João Paulo II, 1999).

No documento, o Papa explica a crise moderna e pós-moderna. Apesar de a época moderna ter produzido muitas obras culturais, também afirmou um humanismo ausente de Deus, muitas vezes em oposição a Ele. Isso gerou uma separação entre arte e fé e o desinteresse de muitos artistas por temas religiosos. Junto ao humanismo cristão, foi-se consolidando gradualmente um humanismo caracterizado pela ausência ou oposição a Deus. Esse contexto levou à separação entre arte e fé, refletindo no menor interesse por temas religiosos por parte de muitos artistas.

Para a Igreja, a arte é essencial como veículo de transmissão da mensagem de Cristo, fascinando com o mundo espiritual, o invisível e o próprio Deus. A arte possui a capacidade de traduzir essa mensagem em cores, formas e sons, preservando seu valor e mistério transcendentes. E não se trata de qualquer beleza, mas da 'beleza que salva'. A beleza é a chave do mistério e um convite ao transcendente. Ela convida à contemplação da vida e ao sonho do futuro. A beleza criada não sacia completamente, despertando aquela nostalgia de Deus que Santo Agostinho interpretou de maneira incomparável: 'Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei!' (Confissões, L. X, cap. 27, 38).

Vinte anos antes, o próprio João Paulo II (1979), ao refletir sobre a mesma 'inquietação' de Santo Agostinho em sua busca por Deus, lembrou que o mesmo movimento pulsa nas profundezas do homem: 'a busca da verdade, a necessidade insaciável do bem, a fome de liberdade, a nostalgia do belo.' Essa inquietação encontra na beleza mistério, deslumbramento e estupor, que respondem ao desejo humano de ser plenamente satisfeito."








Muitas pessoas, ao se converterem, demonstram certo desconforto diante das imagens dos santos, comentando, por vezes, que “eles estão sempre sérios”. Contudo, acredito que, se pudéssemos enxergar o que os santos vivenciaram em suas visões e missões, compreenderíamos a profundidade dessa seriedade. Esses homens e mulheres santos contemplaram a gravidade da existência humana e entenderam, com nitidez, o quanto é decisivo viver bem, ou seja, viver virtuosamente.

Tome como exemplo as crianças de Fátima. Apesar de sua tenra idade, tiveram um encontro direto com realidades espirituais que muitos adultos sequer ousam imaginar. Viram, com clareza, como a vida é um campo de escolhas que determinam o destino eterno das almas. Mesmo desacreditadas por muitos, esforçaram-se para viver de acordo com o que lhes foi revelado. A mensagem de Nossa Senhora de Fátima é, em essência, um chamado à paz, ao fim das guerras, à conversão, e à reflexão sobre os frutos da ganância e dos erros humanos. Ela nos alerta para as consequências eternas do pecado, verdades que, infelizmente, muitos preferem evitar nas catequeses.

Nossa Senhora, entretanto, como Mãe amorosa de todos, não apenas fala, mas também ensina e mostra. É ela quem, com coragem maternal, revelou o inferno a essas pequenas crianças. Contudo, ao fazê-lo, concedeu-lhes a graça necessária para suportar tal visão e transformá-la em um novo modo de enxergar a vida. Essa experiência despertou nelas uma seriedade diante da salvação e da danação que, muitas vezes, falta até mesmo aos adultos.

Essas crianças, com sua pureza e entrega, tornam-se, em si mesmas, um ensinamento vivo. A reação delas à mensagem de Fátima exemplifica a postura que todos nós deveríamos adotar: pureza de coração e seriedade de conduta.




Este ano que se inicia é um Jubileu, marcando o centenário das Aparições em Fátima. Como é sabido, as aparições em Fátima representam um apelo divino, vindo de Jesus por intermédio da Santíssima Virgem Maria. Assim, torna-se oportuno revisitar os principais pontos desse chamado celestial:

  1. Em todas as seis aparições, Maria Santíssima solicita a recitação diária do Santo Terço, destacando sua importância como prática devocional indispensável.
  2. Ela revela o desejo profundo do Coração de Jesus: “Meu Filho quer estabelecer no mundo a Devoção ao Meu Imaculado Coração. A quem a abraçar prometo a salvação, e essas almas serão queridas de Deus, como flores postas por mim a adornar o Seu trono.”
  3. Por fim, Maria aponta a necessidade de almas que se sacrifiquem pelos pecadores, exortando: “Sacrificai-vos pelos pecadores.” E, para enfatizar a urgência desse pedido, apresenta aos pastorinhos a realidade aterradora do inferno: “Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao Meu Imaculado Coração. Se fizerem o que eu vos disser, muitas almas se salvarão e haverá paz...”

Dessa forma, Maria nos confia uma grande responsabilidade, reafirmando: “Se fizerem o que vos digo...” Em outras palavras, cabe a nós tomar a iniciativa. Como nos ensina Santa Faustina: “No final, a decisão é sempre nossa.”

É evidente que os pedidos da Mãe Santíssima, para evitar que a justiça divina se manifestasse, não foram plenamente atendidos. O comunismo se espalhou, e a Igreja sofreu – e ainda sofre – perseguições severas. Contudo, Maria nos conforta com sua promessa final: “Por fim, o Meu Imaculado Coração Triunfará.” Ao dizer “Por fim”, Ela nos adverte que haverá desafios e provações ao longo do caminho, mas a Vontade do Senhor se cumprirá.

É algo que reforçamos na oração do Pai Nosso: “Seja feita a Vossa Vontade, assim na terra como no céu.” E, em Fátima, essa Vontade foi detalhadamente revelada: Deus deseja que a Devoção ao Imaculado Coração de Sua Santa Mãe seja estabelecida em todo o mundo.





O que significa esta devoção?

Para compreendê-la, é preciso refletir sobre as palavras de Irmã Lúcia. Quando questionada, ela explicou que se trata de uma entrega total.

E como se vive essa entrega total? Como se pratica a Devoção ao Imaculado Coração de Maria, tão desejada pelo Senhor?

São Luís Maria Grignion de Montfort, em seu Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 217, expressa esse ideal com sublime inspiração:

“Ah! Quando virá o tempo feliz em que a divina Maria será estabelecida como senhora e soberana nos corações, para submetê-los plenamente ao império de seu grande e único Jesus? Quando virá esse tempo feliz, esse século de Maria, em que muitas almas escolhidas, obtidas do Altíssimo por Maria, se perderão no abismo de seu interior e se tornarão cópias vivas de Maria, para amar e glorificar a Jesus Cristo? Esse tempo somente virá quando se conhecer e praticar a devoção que ensino: ‘Para que venha a nós o Vosso Reino, Senhor, venha a nós o Reino de Maria.’”

A consagração pelo método de Montfort é um ato de doação total. Este é um ponto de singular importância, onde reside a maior graça dessa Consagração.

Nós, católicos, somos herdeiros da espiritualidade apostólica e, como ensina São Tiago, cremos que “a fé sem obras é morta.” Para nós, a salvação e a santificação passam pela prática de boas obras, unindo fé e caridade.

Neste contexto, cada um de nós possui um “tesouro espiritual” composto pelo valor de nossas boas obras. Parte desse tesouro é aplicada para nossa própria salvação; a outra parte, podemos doar. Esse é o cerne da grande responsabilidade que Deus nos confiou: mediante a doação de nossas riquezas espirituais, muitas almas podem ser salvas.


“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos.”



Ao se consagrar, realiza-se uma obra de caridade espiritual contínua. Mesmo que a pessoa se esqueça, suas boas obras – passadas, presentes e futuras – são oferecidas para a salvação de pecadores, para o alívio das almas no purgatório e, acima de tudo, para a maior glória de Deus.

Deus nos chama à santidade, pois somente o que é santo permanece diante de Seu trono. Ser santo é fazer a Vontade de Deus, mas a escolha de corresponder a esse chamado é sempre nossa.

Você aceita a Vontade do Senhor em estabelecer no mundo a Devoção ao Imaculado Coração de Maria, entregando-se totalmente a Maria e dedicando suas boas obras pela salvação de muitas almas?

A pergunta que muitos fazem: seria isso realmente necessário? A resposta é clara. Em um mundo dominado pela cultura do pecado – que tenta nos convencer de que o pecado é bom ou, pior, que não existe pecado –, incontáveis almas estão se perdendo.

Mas nós podemos ajudá-las, doando o valor de nossas boas obras. Que grande misericórdia Deus nos concede, permitindo-nos cooperar com a salvação das almas! Que alegria saber que nossas boas obras não apenas glorificam ao Senhor, mas também trazem alívio ao Seu Coração ferido. E são, mesmo que imperfeitas, melhoradas pela ação de purificação que a Santa Virgem faz. 

E então? Você aceita o chamado de Deus para estabelecer no mundo a Devoção ao Imaculado Coração de Maria e se entregar inteiramente a Ela, contribuindo para a salvação de inúmeras almas? É uma forma simples, ao alcance de todos, que não exige nada mais do que querer, querer verdadeiramente. 





Acervo Digital Salus: Plano de Vida Espiritual: Cultivo

Sedes Sapientiae: Cronogramas para a Total Consagração à Santíssima Virgem Maria 

Testemunhos sobre a Total Consagração a Jesus por Maria 

Sedes Sapientiae: A Virgem Maria e a Dedicação ao Estudo e à Educação 

A Devoção Mariana e a Teologia Educacional 

Literato Católico 

Livros de Ana Paula Barros 





Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)

A Coroação da Virgem (tondo), c.1395 (óleo sobre madeira) · Fra Angelico
Museo di San Marco, Florence, Italy (mais na Revista Salutaris)





"Quando virá esse tempo feliz, esse século de Maria, onde muitas almas escolhidas, obtidas do Altíssimo por Maria, se perderão no abismo de seu interior e se tornarão cópias vivas de Maria, para amar e glorificar a Jesus Cristo? Esse tempo somente virá quando se conhecer e praticar a devoção que ensino: ‘Para que venha a nós o Vosso Reino, Senhor, venha a nós o Reino de Maria.’" (São Luís Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 217).




Para os seres dotados de conhecimento, a atenção é como o sol. Quando não prestamos atenção, é como se caminhássemos através de uma noite escura por entre valiosíssimos tesouros de beleza, bondade, ciência..., sem percebê-los nem nos apossarmos deles.

Com a atenção, esta luz espiritual que é nossa pessoa, enquanto capaz de conhecer as coisas, se volta para um objeto ou tesouro, ou para um conjunto de qualidades ou objetos, ilumina-os, apodera-se deles através da mente e os arquiva na memória.

Quanto mais nobre e útil for o objeto, quanto mais poderosa for a inteligência que o ilumina e quanto mais profunda e detidamente nele se fixar, tanto maior será o enriquecimento e a satisfação intelectual.

Graças à atenção bem dirigida, os sábios realizaram suas descobertas, os artistas suas obras-primas, os industriais e comerciantes suas fortunas e os santos sua perfeição.

Prestar atenção ou atender é “interessar-se de fato por alguma coisa”; pressupõe disposição física (olhos abertos, uma certa tensão muscular etc.) e preparação mental, ou estar à espera de algo. É dar-se conta do que vemos, sentimos, ouvimos ou lemos. Implica também seleção: dentre as inúmeras impressões externas (cores, sons, objetos etc.) ou reclamos internos (necessidades, instintos, inclinações) que a cada instante batem à porta da consciência, quando atendemos, selecionamos algo que nos interessa, abrimos-lhe a porta e o introduzimos no mais íntimo de nosso ser, no centro de nossa consciência.

Há uma atenção espontânea. A que nasce, por exemplo, quando uma súbita detonação ou um grande resplendor nos tiram de nossos pensamentos e nos atraem a si ou quando alguma coisa agradável ou interessante nos prende sem esforço nosso. Esta espécie de atenção é a que predomina nas crianças. Devemos desenvolvê-la fomentando o interesse e o entusiasmo.

Há também a atenção voluntária, que exige algum esforço, porque supõe conflito com outros estímulos que nos atraem em sentido diverso. Devido a esse esforço, se a atenção voluntária se prolonga demasiado, pode provocar enfado ou cansaço; se, porém, for educada convenientemente, produz o hábito da atenção tranquila.

A atenção habitual, na qual cessou o conflito e o esforço foi reduzido ao mínimo, é a atenção eficiente de que vamos tratar e que devemos visar em todos os nossos trabalhos.

Compreende a mente, que se concentra em uma só coisa ou ideia, sem distrações a interrompê-la, nem ideias parasitas a obsesssioná-la.

É ajudada por sentimentos positivos de paz, confiança e alegria que geram interesse.

É robustecida pelas emoções positivas que levam ao entusiasmo. Contudo, é dificultada pelos sentimentos negativos: desânimo, temor, tédio.

Pressupõe uma vontade razoável de aprender, conforme as possibilidades, excluindo a vontade impulsiva que quer mais ou melhor, e mais depressa do que convém.

Precisa do apoio dos músculos no estado normal ou em leve tensão; prejudica-a a tensão insuficiente que há no estado de sonolência ou a tensão excessiva que se verifica no estado de nervosismo.

Apoia-se especialmente em olhos mansos, flexíveis e que piscam com frequência, evitando os olhos duros e imóveis.

Nutre-se de sangue rico e abundante no cérebro, bem como de respiração ativada, evitando a excessivamente acelerada.

Quando a atenção reúne todas estas condições e não se prolonga demais e quando, graças ao hábito, tudo se torna natural e espontâneo, então o trabalhador intelectual terá eficiência máxima, sem perigo de cansaço.

Nosso modo de prestar atenção pode ser meramente receptor: é o que existe quando queremos inteirar-nos de algum assunto ou quando conhecemos ou percebemos objetos, sons, acontecimentos, ideias etc. sem acrescentar nada de pessoal. Nela aumentam levemente a respiração, a circulação e a tensão muscular.

Costuma fluir suave e continuada, como a tranquila corrente de um regato, com pouca possibilidade de cansaço, a não ser por excesso de duração. É às vezes explosiva ou espasmódica como impetuoso manancial que jorra aos borbotões, e então a possibilidade de cansaço é maior. Por meio desta atenção receptora reunimos os materiais do saber.

Há outra atenção reflexa, elaboradora ou criadora, discursiva: é a que temos quando, não satisfeitos de apenas inteirar-nos de algo, o relacionamos com outros conhecimentos, associando-os entre si, classificando-os e dando-lhes unidade, ou dissociando-os, tirando conclusões e criando novos conhecimentos.

Então a possibilidade de cansaço é menos remota, pois também são mais acentuadas a tensão muscular, a respiração e o afluxo de sangue no cérebro.

Por meio da atenção criadora construímos “o palácio da sabedoria”.

Finalmente, destas duas atenções convenientemente repetidas, ou da marca que deixam, se beneficia a memória, a qual retém e reproduz o que se armazenou: vale dizer, conserva o “palácio”. 

Passemos ao estudo destas três atividades mentais e das leis ou normas que lhes dão maior rendimento.





ATENÇÃO RECEPTORA

A atenção receptora pode ser:

Concentrada: quando se fixa em um objeto ou ideia, com exclusão de qualquer outra; quando na consciência não há outro objeto; quando toda a capacidade de conhecer está centralizada em uma só consideração.

Esta atenção é a que produz verdadeira eficiência e satisfação. É a raiz de nossa grandeza.

Distraída: é uma ideia interrompida. É como se lançássemos um foco de luz sobre um objeto e de repente o foco se desviasse e nos deixasse no escuro, sem podermos iluminar perfeitamente o objeto.

Obsessionada por ideias parasitas que não desejaríamos ter. Coisas que aborrecem ou fantasmas temidos se interrompem entre a lâmpada e o objeto para impedir que gozemos o prazer do que queremos contemplar.

É a causa principal do cansaço.






ATENÇÃO CONCENTRADA

Temos atenção concentrada quando acompanhamos uma ideia com exclusão de qualquer outra, ou seja, quando a consciência se ocupa exclusivamente do que lemos, observamos ou escutamos, sem percebermos outra coisa.

É todo nosso ser que se debruça sobre o acontecimento ou ideia, atraído por eles, ou que é levado por sua própria inclinação ou vontade. É o hábito de atender sem esforço — adquirido através de atos reiterados de atenção voluntária — que se põe em atividade. É a luz do conhecimento que se acende e focaliza algo concreto; ou melhor, é toda nossa pessoa que, abandonando a semiobscuridade ou a inação, se ilumina, se ativa e se volta para um objeto ou conjunto de objetos, deles se apossando ou assimilando-os.

É tomarmos a rua reta que nos leva a um determinado ponto, sem nos desviarmos pelas ruas transversais, mesmo que ofereçam muitas atrações. Chegaremos mais rapidamente e quase sem cansaço.

Assim também, aquele que, ao estudar um livro ou um assunto qualquer, nele se absorve totalmente, esquecendo-se de tudo que o circunda, de si mesmo, de seus problemas, do funcionamento do corpo e da mente, chegará facilmente a resultados surpreendentes.

É o que acontecia com o historiador Macauley que, lendo pelas ruas, repetia de cor a página lida; com certo filósofo que, ao discutir ao ar livre sua tese favorita, continuou embebido na disputa, sem perceber a chuva que começou a cair; finalmente, é o que também acontece com as crianças que, absorvidas em seu jogo, correm atrás da bola, sem perceber o carro que as atropela.


Em outras palavras: rendimento máximo com cansaço mínimo.

Do desgaste de uma ou mais horas de perfeita concentração, sem pressa ou ansiedade, recuperamo-nos com alguns minutos de suave repouso da mente, por meio do relaxamento dos músculos faciais ou oculares, ou por meio de sensações conscientes, mudança de ocupação e exercícios físicos.

Um dia deste trabalho mental ordenado se refaz com uma noite bem dormida, podendo-se deste modo continuar por meses e anos, sem perigo de esgotamento. Pois então, em vez de destruirmos a natureza, violentando suas leis sábias, nós a fortalecemos respeitando tais leis.

Não se pense que este trabalho continuado produza aborrecimento ou tédio; muito pelo contrário. A unidade da mente concentrada e o enriquecimento intelectual resultante são fontes de verdadeira satisfação. “A alegria, diz Aristóteles, é consequência de todo ato perfeito.”

A base da grandeza humana de Napoleão Bonaparte foi sua grande concentração mental. Conta-se que ele, quando estudava um problema, se absorvia de tal modo que parecia não ter outra coisa a fazer. Resolvido um problema, passava a outro, esquecendo-se do anterior e do seguinte. Com este sistema, conseguia trabalhar mentalmente até dezesseis horas por dia.

Esta capacidade de deixar de lado qualquer outro assunto e poder concentrar-se no que se quer é a raiz da grandeza do homem.

Poderíamos sintetizar seu valor da seguinte maneira:

Talento + CONCENTRAÇÃO = Êxito do Caráter + Santidade


Aplicada ao estudo ou negócio, se manifesta em talento, ciência, ampliação de horizontes, visão de oportunidades, solução de problemas.

Quando se tem que tomar uma decisão, a atenção concentrada permite que se veja com nitidez o objetivo, os motivos para querê-lo e os meios para alcançá-lo.

Noutras palavras, nos dá caráter, força e constância de vontade.

Na vida de oração e santidade, a concentração se converte em luzes espirituais que nos afeiçoam à virtude e em força sobrenatural para praticá-la.



Como melhorar a concentração

Uma vez considerada como principal fator de eficiência, saúde e felicidade, tudo o que dissermos mais adiante ajudará a melhorá-la: o afastamento das causas de divagação e obsessão; o despertar do interesse e entusiasmo, como explicaremos na vida afetiva; a ajuda do ato eficaz da vontade; a melhoria do funcionamento orgânico neuromuscular, sanguíneo e respiratório; a formação do hábito da atenção perfeita, que estabiliza a concentração e evita o cansaço.

Como exercícios científicos para reeducar a concentração, recomendamos as sensações conscientes que, além de nos proporcionar descanso e alegria, reforçam a atenção estática; os exercícios do Dr. Vittoz, como os descrevemos, com os quais se reeduca a atenção sucessiva ou em movimento; o desenvolvimento do espírito de observação, usando, por exemplo, o seguinte exercício: fixar a atenção durante um minuto em algum edifício, sala, pessoas, ações, ruídos etc. Repetindo o exercício por alguns dias, veremos que iremos captando detalhes e facetas que da primeira vez nos escaparam.




Quatro períodos ou fases

A concentração não nasce de repente. Costuma haver um primeiro período de ajustamento no qual os nervos e músculos, possivelmente sobreexcitados, se vão adaptando ao novo trabalho, e a mente, postos de lado outros pensamentos, vai penetrando no que lhe está presente. Varia muito a rapidez na adaptação e penetração na nova concentração. Segundo Wiersma, é menor nos melancólicos e excêntricos; talvez porque as ideias ou imagens que precederam tendem a permanecer neles por mais tempo que nos tipos normais.

Para facilitar esta adaptação, é necessário repelir o que nos pode distrair:

a) Fora de nós: acumulação de papéis ou objetos sobre a mesa ou no quarto;

b) Dentro de nós: multiplicidade de problemas que temos que resolver, ou ações em perspectiva ou ideais que pretendemos realizar. Ataquemos uma coisa depois de outra: quem muito abarca pouco aperta.

Segue-se o período de aquecimento progressivo ou aprofundamento da atenção, no qual, uma vez vencido o torpor inicial e adaptados os nervos e músculos — “facilitação reflexa sináptica e tensional”, como diria Mira y López — a mente se abstrai cada vez mais, entra de cheio no assunto e nele mergulha. Esta abstração com relação aos demais objetos e a profunda consideração do assunto escolhido possuem graus e, de acordo com os mesmos, maior ou menor serão a eficiência e o prazer intelectual.




Seu extraordinário talento emparelhava com a profundidade de concentração.

Muitos são capazes de manter esta concentração durante uma ou várias horas, através apenas de uma decisão geral de atender a determinado assunto. Os enfermos ou esgotados, os inconstantes e inconsiderados e as crianças, pelo contrário, são menos firmes na atenção e têm que renovar a decisão e o interesse com frequência. Mais tarde explicaremos como a interrupção periódica do trabalho pode ser útil também às pessoas normais e sadias e, se houver tensão, mais amiudadamente, a fim de acalmá-las. Desta maneira, se consegue que o estado de prefadiga tarde a aparecer. Com isto também se consegue o retardamento do terceiro período. O terceiro período é o de saturação ou “nivelamento” entre aquecimento e cansaço, no qual a atenção arrefece, a evocação de lembranças antigas se torna mais difícil, a combinação de ideias e a elaboração de conclusões e sínteses exige maior esforço e o cansaço começa a se fazer sentir. Isto costuma dar-se mais ou menos após duas horas de atenção continuada; contudo, alguns indivíduos conseguem prolongar a atenção por mais tempo; também sucede que a mesma pessoa a possa manter com relação a determinadas matérias e a outras não.

Já Santo Inácio de Loyola, em 1550, aconselhava seus estudantes a não ultrapassar habitualmente duas horas seguidas de estudo sem fazerem uma breve interrupção.

Os psicólogos modernos inclinam-se a aceitar esta norma; alguns, porém, reconhecendo que a juventude estudiosa das grandes cidades costuma viver um clima de superexcitação, acham que ela deveria encurtar este período de aplicação séria ao estudo. É possível que as células cerebrais tenham já esgotado em duas horas suas reservas de energia e nos peçam alguns minutos para se recuperarem. Ajudemo-las mudando de ocupação ou de postura, ativemos os músculos inativos, a respiração, a circulação do sangue. Se não o fizermos oportunamente, chegaremos rapidamente ao quarto período, que é o de cansaço, no qual o aproveitamento decai progressivamente e o aborrecimento, o desinteresse e até mesmo a inibição aumentam, ou então o nervosismo, juntamente com o incômodo causado pelo esforço.




Prática

Entregue-se ao trabalho com plena determinação e confiança. Coordene o corpo e o espírito: não tome nem uma postura tão violenta e incômoda que, ao causar cansaço ou dor, produza a distração, nem tão comodista que faça afrouxar os músculos até provocar sonolência.

Tenha sempre algum motivo ou fim concreto. Diga, por exemplo: “Quero aprender o que diz este artigo ou capítulo sobre...; quero enriquecer-me com estas ideias; serão úteis para tal fim.” Este desejo e pretensão, posto que signifiquem muito para você e que se realizem em pouco tempo, poderão sustentar sua atenção. Se esta tiver que prolongar-se demasiado, aquele propósito seria insuficiente ou ineficaz, a não ser que a pessoa o faça por partes, fixando seu objetivo em cada parágrafo ou capítulo, porque então a vontade, sentindo sua utilidade e possibilidade, se aferrará a ele e comandará a atenção.

É o que fazemos quando, de lápis em punho, vamos resumindo um parágrafo após outro, ou sublinhando o que nos parece interessante para nossa finalidade.

Uma vez desencadeado este mecanismo, a concentração se produzirá por si — como o sono, sem esforço — sem ter que forçá-la: basta entregar-se ao trabalho em circunstâncias favoráveis. A música, o assobio, a mastigação (chicletes, por exemplo) ajudam a alguns, mas atrapalham a outros. Acostume-se a resistir à curiosidade de saber outras coisas ou o que se passa ao redor. Por outro lado, procure que a ocupação atual desperte em seu espírito interesse e entusiasmo. 

Comece com ânimo, mesmo que a princípio não sinta gosto nem progresso. Se, devido à fraqueza ou cansaço, a pessoa não pode concentrar-se em várias páginas de leitura ou em meia hora de dissertação, exercite-se várias vezes por dia em concentrar-se deveras; mas, sem tensão, em períodos curtos. Seu único escopo seja seguir a ideia e não propriamente evitar as distrações. Se estas sobrevierem, procure voltar novamente à ideia. Prestando bem atenção a meia página ou durante dez minutos de dissertação em cada exercício e continuando a exercitar-se várias vezes por dia, sempre por alguns minutos mais, rapidamente se conseguirá a concentração normal. Serão úteis para isso os exercícios das páginas 43 e ss..

Quando a pessoa se sente preocupada com o que tem que ultimar sem demora, deve dizer a si mesma: “Sim, são assuntos importantes, mas podem esperar; atacá-los-ei daqui a pouco.”





Concentração na oração

No estudo ou trabalho mental natural, dois elementos estabelecem a medida de nossa felicidade intelectiva: o interesse que o objeto ou verdade descoberta desperta em nós e a clareza com que a vemos. É o que se passa na obscuridade de uma caverna cheia de tesouros, quando se acende a luz que os revela: nossa alegria aumenta na proporção da importância ou beleza do tesouro que iluminamos e da clareza e morosidade com que o percebemos. Na oração ou trabalho mental sobrenatural, estes dois elementos atingem proporções ilimitadas, pois o objeto ao qual dirigimos a atenção é Deus, tesouro infinito, verdade e beleza totais, ou alguma coisa relacionada com Ele e a luz da sabedoria infinita se junta ao foco limitado do entendimento humano.

Quando estudamos, lemos ou pensamos sem plena concentração, não conseguimos eficiência nem satisfação verdadeira; com muito maior razão, quando tratamos com o Ser Infinito na oração, sem plena atenção, não poderemos dar um passo, nem gozar de suas delícias insuspeitadas.

A vida de Deus em nós se manifesta com frequência em jorros de luz sobrenatural, ondas de satisfação sobre-humana, antegozo do céu, íntima aproximação à Divindade... São luzes ou inspirações, fulgores luminosos que de súbito nos fazem ver horizontes e tesouros inesperados com uma clareza e evidência quase intuitivas. São os sentimentos e consolações espirituais que com frequência os santos experimentam e até mesmo os cristãos de boa vontade quando se entregam ao Retiro Espiritual ou se recolhem com sinceridade em oração. Consolações e luzes sobrenaturais que superam a todas as alegrias mundanas e que só podem ser saboreadas por quem as experimenta. São impulsos ou estímulos para a vontade que geram maior capacidade para realizar coisas difíceis.

Poderíamos reduzir tudo na seguinte fórmula matemática:

E + G = 1.000.000 RCD =

F + D = 0

RCD = Resultado da concentração nas coisas divinas; EG = Eficiência e gozo (ilimitados); FD = Fadiga e desgosto (nulos).




Poderíamos também apresentar outra equação:

Oração atenta — Raiz de toda santidade

Contudo, tais consolações sobre-humanas, tais cintilações divinas passam despercebidas à alma pouco recolhida. Também Deus por vezes não as concede, quando prevê que a dissipação interior da pessoa não lhe permitirá sequer notá-las ou apreciá-las.

Se nos decidíssemos a falar com Deus com todo nosso ser! Se nos aplicássemos com toda atenção ao que dizemos, mesmo na mais breve oração vocal! Se escutássemos o que Ele nos quer dizer na intimidade da oração! Deus só fala ordinariamente no mais íntimo do ser e só O sentiremos através da perfeita concentração.

Na oração, do mesmo modo que no estudo, a concentração não costuma dar-se de repente. O primeiro período de “ajustamento” muscular e mental é, no caso, mais necessário, pois quando oramos nos elevamos acima do visível, do temporal e do humano, a fim de penetrarmos no céu, para falar com o Infinito e descobrir tesouros sobre-humanos. Para se conseguir este “ajustamento” Santo Inácio recomenda que, uma vez no local da oração, elevemos o pensamento ao alto pelo tempo de um “Pai-nosso”, concentrando-nos na certeza de que Deus está ali presente e nos contempla e prestando-lhe uma homenagem, mesmo externa, de reverência.

Nas orações breves durante o dia consegue-se o mesmo resultado fazendo com sinceridade e respeito o Sinal da Cruz; com isto, nos colocamos imediatamente na presença da Santíssima Trindade e nos unimos a Ela. Por falta deste “ajustamento”, muitos nem sequer começam a rezar deveras e muito menos mergulhar na oração.

O segundo período consiste em desprender-se completamente da terra, penetrar de verdade no céu e entrar com recolhimento progressivo na intimidade com Deus; compreende vários graus, até se chegar a libertar das coisas sensíveis e sentir a Deus no nível mais profundo de nossa alma. Deus só fala no mais íntimo de nós mesmos e, como Ele deseja comunicar-se com suas criaturas, bem depressa o sentiremos, se empregarmos com diligência os meios humanos e atrairmos, pela humildade e confiança, sua ajuda divina. Verifiquei isto entre as crianças recém-convertidas de minha escola na China: quando, de olhos cerrados e mãos postas, se esforçavam para pensar no que rezavam, muitas delas sentiam tais consolações, que já nada mais desejavam que conservar esta felicidade por toda a vida e, para tal conseguirem, decidiram-se a abraçar a vida sacerdotal.

A dificuldade compreensível de se conversar com Deus, espírito invisível, tem fácil solução depois que Ele quis fazer-se homem. Agora podemos representá-lo como menino ou adulto, a rezar ou a trabalhar; podemos contemplá-lo quando se alimenta ou quando sofre.

Neste particular, mais do que no estudo, há graus de abstração das coisas sensíveis e concentração em Deus; conforme a profundidade da atenção, serão nossa aproximação com Deus, a participação de seus dons e o gozo espiritual. Por outras palavras, a uma concentração maior corresponde maior santidade, porque Deus, que não se deixa vencer pela generosidade dos homens, ordinariamente, recompensa desta maneira nosso esforço.

Esta concentração pode prolongar-se indefinidamente quando Deus faz jorrar sua luz; assim sucedeu com São Francisco de Assis, o qual, começando sua oração ao anoitecer, pela manhã se queixava do sol, porque viera tão rapidamente privá-lo das delícias da contemplação.

Contudo, façamos uma interrupção quando sentirmos ameaça de fadiga ou desgaste que poderia sobrevir, não da oração em si mesma, mas da inquietação de nossa mente, ou da tensão, principalmente nos olhos, ou finalmente de uma postura incômoda prolongada.







RESUMO PRÁTICO

AUXÍLIOS PARA A CONCENTRAÇÃO

  • Apreciá-la como raiz do talento e da grandeza
  • Afastar obstáculos: ruídos, pessoas
  • Suscitar interesse e entusiasmo
  • Querer a concentração, sem duvidar de sua possibilidade
  • Facilitá-la sublinhando ou resumindo
  • Começar com decisão e em local recolhido
  • Procurar a profundidade
  • Aproveitar o calor
  • Interromper aos primeiros sintomas de fadiga
  • Melhorar a função neuro-muscular, respiratória e sanguínea
  • Meio principal: vencer a divagação e obsessão, como se explicará nos capítulos seguintes.


Texto do Reverendo Narciso Irala






Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: "Modéstia", "Graça & Beleza".




Todo conhecimento nos enriquece: apropriamo-nos do que aprendemos (Aprehendere, em latim, significa agarrar, apreender). Encontramos nisso grande satisfação. Por isso é que gostamos de viajar; as viagens nos fazem conhecer o mundo e os homens. Interessamo-nos pelas notícias, sobretudo pelas que têm alguma relação conosco ou são muito importantes. Apreciamos o cinema e as novelas porque julgamos ver nelas a realidade, apesar de sabermos que não passam de ficções, ou porque nelas descobrimos o gênio e a arte do autor. Sentimos imenso prazer quando entendemos leis importantes das ciências ou as causas últimas dos seres na filosofia.

Quem, porém, sente a plenitude da satisfação intelectual é o inventor que descobre algo que poderá aumentar a felicidade da humanidade e o santo ou homem que crê, a quem Deus comunica, na oração, luzes extraordinárias que os fazem vislumbrar realidades infinitas. Todos temos ânsia de saber; a curiosidade estimula a todos; nosso entendimento, de capacidade ilimitada, é um apaixonado pela verdade; mas essa paixão jamais será saciada neste mundo: só a Verdade Absoluta, no céu, poderá nos satisfazer completamente. Conta-se que um grande cientista e pensador respondeu a quem lhe perguntava se cria no céu: “Creio na felicidade intelectiva. Senti muitas vezes o prazer profundo de saber de novas e importantes leis naturais que eu antes desconhecia e de descobrir algumas que eram desconhecidas dos demais. O que mais desejo é continuar gozando cada vez mais desse prazer, mas a limitação da minha inteligência, do tempo e da minha resistência física é um empecilho intransponível. Creio que deve haver um estado em que possamos satisfazer essa necessidade de conhecer toda a verdade, com absoluta certeza e sem esforço algum.”

Nosso desejo seria aproximar o mais possível os leitores dessa meta, que a fé garante aos fiéis para a vida futura, explicando-lhes de modo mais singelo e claro os fatores psíquicos (psique = alma) e somáticos (soma = corpo) que lhes causam eficiência ou cansaço em seu trabalho mental. A água cristalina do saber, capaz de saciar nossa sede de felicidade intelectiva, vem até nós através de quatro canais ou, se se preferir, é a resultante de quatro vidas ou atividades vitais: a intelectiva, a volitiva, a afetiva e a orgânica.

Quando as quatro trabalham ordenadamente, concentrando seus esforços na mesma direção, a eficiência ou rendimento é máximo e o cansaço mínimo. Quando, porém, uma dessas vidas é perturbada ou não fornece sua contribuição completa, o fruto é menor e o cansaço maior.

Aquele que tem um conflito familiar ou social ou um grave problema econômico ou de consciência sentirá grande dificuldade de concentrar-se no estudo ou em qualquer outro problema que não seja sua situação interior: a vida afetiva que perdeu seu equilíbrio o atrapalhará.

O apático ou inconstante, o que se recusa a fazer qualquer esforço, não utiliza sua vida volitiva.

Dizem que o famoso naturalista Darwin mal podia trabalhar mentalmente duas horas por dia. Quanto teria realizado com uma vida orgânica mais sadia?

Será, portanto, de muita utilidade descobrir como poderemos ordenar cada uma dessas vidas ou atividades e tirar delas o maior proveito possível. Também será muito conveniente ver como seu descontrole nos cansa e prejudica.


Para tanto, iremos desenvolvendo o seguinte esquema:


I. ATENÇÃO

Reúne ideias

I. VIDA INTELECTIVA

REFLEXÃO: Relaciona-as


RETENTIVA: Conserva-as e as reproduz

II. VIDA AFETIVA

SENTIMENTOS: Despertam interesse


EMOÇÕES: Despertam entusiasmo

III. VIDA VOLITIVA

MOTIVAÇÃO: Dá força


DECISÃO: Dá constância

IV. VIDA ORGÂNICA

MÚSCULOS: Oferecem apoio


SANGUE: Dá alimento


RESPIRAÇÃO: Dá apoio e alimento



Texto do Reverendo Narciso Irala
1969









Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: "Modéstia", "Graça & Beleza".







Vivemos numa era de realizações e progressos portentosos da ciência, da indústria, da medicina: rádio, televisão, energia nuclear, viagens espaciais, foguetes teleguiados, cérebro eletrônico, controle dos microrganismos, automação, transplantes etc.

A nova geração sente a urgência de avançar ainda mais. Procura maior eficiência. Professores, estudantes, profissionais da indústria e do comércio (trabalhadores mentais), do mesmo modo que os trabalhadores espirituais (religiosos, ascetas, pessoas dedicadas à oração e à vida interior) e, com eles, também muitos trabalhadores manuais, aspiram a melhores resultados, com menor desgaste em seu trabalho mental, espiritual ou manual.

Não obstante, nosso século é também uma era de esgotamento, de excessivo cansaço e profunda frustração entre a elite intelectual. Após uma hora de trabalho sedentário, muitos sentem calor na fronte e nas órbitas e como se um círculo de aço lhes apertasse o cérebro: ficam nervosos e tensos; outros sentem dor de cabeça, de nuca ou nas costas; têm dificuldade para descansar e para conciliar o sono. Dezenove milhões de pessoas sofrem de insônia nos Estados Unidos. Conhecemos professores de fama internacional prostrados pelo esgotamento. Inúmeros são os que sentem decréscimo de rendimento devido a distrações frequentes; a memória atraiçoa-os; preocupações ou ideias obsessivas atormentam-nos. Esgota-os uma semiconsciência simultânea de incapacidade, de esforço, de mau funcionamento do corpo e do espírito, de problemas, de falta de tempo, de futuros fracassos etc.; e não são poucos os que se sentem entediados e frustrados ou creem ser impossível alcançar o próprio ideal e ter prazer na própria ocupação e trabalho.

Desejariam conhecer mais a fundo o funcionamento de suas faculdades para conseguir maior rendimento, com menor cansaço. Procuram meios práticos para melhorar a atenção receptora, a inteligência elaboradora de novas conclusões e sínteses, a prontidão e fidelidade da memória, o interesse e entusiasmo e, através de tudo isso, o êxito nos empreendimentos.

Os que se esforçam por santificar-se e unir-se mais com Deus também desejariam aperfeiçoar o funcionamento das faculdades naturais na atividade sobrenatural, sobretudo na oração. E hoje em dia, quando os progressos da fisiologia revelam detalhes interessantes da mútua dependência do corpo e da alma, a todos interessa uma explicação mais completa sobre como o uso da vista, a tensão muscular, a respiração, podem ajudar ou prejudicar nossa eficiência quando pensamos, lemos ou escrevemos.

As quatro edições em espanhol do presente manual, devidamente esgotadas, tentaram satisfazer a este desejo, manifestado por várias Universidades, Colégios, Comunidades Religiosas e até Bancos, onde foi exposto o tema. Este manual não tem a pretensão de trazer novas contribuições à Psicologia ou Pedagogia, mas apenas reunir, em forma clara, breve e simples, algumas normas práticas que aquelas ciências e a fisiologia nos oferecem para produzirmos mais, com maior satisfação e menor cansaço, quando estudamos, lemos, escrevemos, rezamos, ensinamos ou planejamos.

Queira Deus que estas breves páginas aumentem em muitos a satisfação intelectual e espiritual, ajudem-nos a triunfar e a ser mais úteis aos outros e produzam finalmente, como um antegozo da felicidade perfeita da inteligência, que nos espera no céu.



Bilbao [Espanha], agosto de 1967

Reverendo Narciso Irala, S. J.



Para aprofundamento: Educa-te: Paideia Cristã 
Para aprofundamento: Livro A Mulher Católica: Graça & Beleza (Ana Paula Barros) 



Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia, Graça & Beleza.










"Esquivou-se de todas as atividades do mundo e viveu com pureza e santidade; foi amigo dos pobres, convicto de que sua alma haveria de pertencer ao céu. Manteve o corpo continuamente ocupado no exercício da pintura e nunca quis executar obras que não representassem santos", escreve Giorgio Vasari, biógrafo de Fra Angelico. Essa dedicação exemplifica como a cultura católica pode se manifestar através da arte. Também sinaliza a sua importância no processo educativo católico.

Por estarmos tão imbuídos por outras preocupações e por acharmos que a arte é um território muito distante, é comum encontrarmos alunos que não se interessam por arte porque não têm acesso a ela. O resultado é que, mesmo produzindo materiais de arte acessível, o tema ainda parece "não pertencer". Existe um grande muro de "não pertencimento" que distancia as pessoas da arte, assim como existe um grande muro que distancia o católico da cultura católica. Tanto em sua arte quanto em sua língua, o latim, muitos católicos sentem que "aquilo não é para eles". Uma marginalização silenciosa tomou conta do mundo católico, incentivada por discursos que distanciam ainda mais as pessoas de sua herança. Dessa forma, a arte católica, a música sacra e a língua só podem ser acessadas mediante pagamento, em locais fora da igreja. Nessa negligência está boa parte dos nossos problemas.

Cultura é um conceito que abrange os modos de vida, costumes, crenças, valores, normas, tradições, conhecimentos e manifestações artísticas de um grupo de pessoas. Ela é transmitida de geração em geração e evolui ao longo do tempo, influenciando e sendo influenciada pelo contexto histórico, social, econômico e geográfico. Os valores e crenças incluem ideias sobre o que é certo ou errado, importante ou insignificante, desejável ou indesejável. As normas e regras são diretrizes e expectativas sobre como as pessoas devem se comportar em diferentes situações, podendo ser formais, como leis, ou informais, como costumes e etiqueta social. A língua falada e escrita é um elemento-chave da cultura, permitindo a comunicação e a transmissão de conhecimentos e tradições. Tradições e rituais, como celebrações, festividades e cerimônias, compõem a linguagem simbólica da comunidade. A arte e a literatura refletem a criatividade, talentos e a identidade cultural de um grupo por meio de música, dança, pintura, escultura, teatro e literatura. Conhecimentos e tecnologia envolvem o acúmulo de saberes e técnicas desenvolvidas pela sociedade, sejam científicos, técnicos ou empíricos. Costumes e hábitos são os modos de vida e práticas cotidianas que distinguem um grupo de outro, como vestimentas, culinária e formas de socialização. As instituições sociais, como a família, a escola, a igreja e o governo, desempenham funções importantes na sociedade.

Nós temos uma forma de arte própria, temos uma língua (o latim), temos uma literatura, temos leis, instituições oficiais, costumes, festas, ritos, um calendário. Ou seja, nós temos as mesmas características do povo hebreu que, sem uma terra determinada, mantém sua tradição em outras terras. Ser católico é, também, mas não só, conhecer e viver essa cultura. A cultura católica, com toda essa estrutura física e espiritual, nos fornece a capacidade de viver no mundo sem ser do mundo. Nós fomos instruídos a acreditar que isso é um empecilho, mas isso é uma bênção. O Senhor nos deu no catolicismo uma grande pré-figuração do reinado do Senhor e da cultura do Reino.

Giorgio Vasari aponta que "Fra Angelico era humaníssimo e sóbrio e, vivendo castamente, desvencilhou-se dos laços do mundo; costumava dizer com frequência que quem pratica essa arte precisa viver em sossego e despreocupação, dedicado à alma, pois quem faz coisas de Cristo com Cristo deve estar sempre". Esse pensamento reflete a interconexão entre a vida católica fértil e a produção artística na cultura católica. O transcendente é o que movimenta o processo criativo do artista. Esse traço se perdeu quando não mais vislumbramos o transcendente, mas somente a imanência. A arte religiosa passou a expor somente o terreno, mas o terreno sem a luz do alto gera o vislumbre da solidão, da tristeza, de certa falta de ânimo e destino. Não são os sinais dessa anemia eclesial que vivemos?

A Igreja Católica desempenhou um papel vital na formação da arte, música, literatura e arquitetura. Grandes obras de arte foram encomendadas pela Igreja, resultando em um legado imenso que inclui as pinturas de Michelangelo na Capela Sistina, a arquitetura da Basílica de São Pedro e a música sacra de compositores como Palestrina, Bach, Mozart e José Maurício Nunes Garcia. Essa influência não se limitava apenas às encomendas, mas também à forma como a arte era concebida e utilizada para edificar:

"Dizem alguns que Frei Giovanni nunca pegava os pincéis sem antes orar. Nunca fez crucifixo sem que suas faces se banhassem de lágrimas. E isso se vê claramente nas atitudes de suas figuras, na bondade de sua grande disposição para a religião cristã", relata Vasari. Essa prática de Frei Giovanni mostra como a devoção pessoal permeava e enriquecia a produção artística, criando obras carregadas de significado espiritual.

Giulio Carlo Argan relata que "o frade remonta às grandes premissas ontológicas: no desenvolvimento histórico de sua pintura é possível enxergar um aprofundamento progressivo de sua doutrina. E, todavia, não é um doutrinário puro, um teólogo: da mesma maneira com que participa da discussão sobre a arte, também toma posição, quer demonstrar que uma pintura moderna não é necessariamente leiga e que uma pintura não é religiosa apenas porque ilustra piamente temas extraídos da vida de Cristo e dos santos. Sua pesquisa é dirigida, em suma, a conferir à pintura religiosa um valor intelectual, um fundamento teórico". Essa perspectiva clareia o assunto sobre o gosto artístico e a grande diferença que a disposição e adesão católica do artista faz na classificação de uma obra como católica. Fra Angelico, em si mesmo, pode nos fornecer uma grande amostra da conduta católica no meio das artes, produções culturais e processos criativos diversos. Em suma: a obra sempre leva em si partes do autor. Como também mostra a obra "O Retrato de Dorian Gray". A certa adoração do pintor ficou impregnada no retrato do rapaz, isso, somado ao desespero do rapaz diante de si mesmo congelado no tempo, perfeito e belo, gerou uma ação mágica e macabra na história. Mas passemos a reflexões mais felizes.

As celebrações e festividades católicas, como o Natal, a Páscoa e o Corpus Christi, são eventos que não apenas reforçam a fé, mas também promovem um senso de pertencimento e continuidade histórica. Reforçam laços familiares e sociais espirituais. Celebrar é descansar. O descrendenciamento da arte, tanto em qualidade quanto em valor reconhecido pelo povo, restringe uma das portas da contemplação e interfere na vivência da celebração, na fruição, que passa a ser uma busca incessante por uma sensação de arrebatamento que, sem arte e verdadeira e pacífica alegria, nunca virá.


Para aprofundamento: Revista Digital Salutaris: Educação Estética, Arte & Patrimônio 
Para aprofundamento: Educa-te: Paideia Cristã 



Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia, Graça & Beleza.







São Luís Grignion de Montfort, enquanto estava no seminário de São Sulpício, foi bibliotecário. Aproveitou o ofício para ler um grande volume de livros com a intenção de encontrar um método eficaz de ensino religioso. Ele era um seminarista muito pobre e expandiu o seu mundo conhecido através dos livros, o que facilitou seu profundo anseio missionário, exercido após sua ordenação em sua própria região.

Ao visitar inúmeros livros, constatou que, sempre que a devoção mariana era propagada junto ao evangelho, a ação educacional religiosa era bem-sucedida.







A Teologia Prática é a aplicação concreta dos princípios teológicos na vida cotidiana, preocupando-se com a maneira como a fé é vivida, expressa e transmitida. Ela engloba desde a pregação e educação até a devoção pessoal e a vida comunitária.

Dentro da Teologia Prática, encontramos a Teologia Moral, que foca nas questões de comportamento, ética e valores cristãos. A Teologia Moral abrange diversos temas, como vocação e moralidade, fornecendo uma base sólida para decisões e ações alinhadas com a fé católica.

A Teologia Educacional é outro ramo crucial da Teologia Prática. Esta área dedica-se à formação espiritual e intelectual através de métodos e práticas educacionais que integram a fé à vida cotidiana. A Teologia Educacional inclui a catequese, a educação formal e programas de formação contínua para todas as idades.







Em todos os lugares por onde passou, São Luís criou grupos de piedade com o objetivo de manter a devoção. Estes grupos também eram orientados a manter a vigilância, como visto no livro "Os Amigos da Cruz".

Esses processos são os primeiros degraus da educação católica e nos mostram, assim como Dom Bosco muitos anos depois de São Luís, que a devoção mariana é uma escola por si só. Ela abarca todas as áreas e possibilita uma maturação da Teologia Educacional em prol de uma Teologia Prática verdadeira e, acima de tudo, eficaz, que realmente é um facilitador na aplicação do evangelho. Além disso, influencia a Teologia Moral, que é um braço muito importante nessa dinâmica educativa.

A ação educativa da devoção mariana verdadeira está profundamente ligada à jornada do aprendiz, na aquisição daquele estado interior de quem escuta, compreende no coração e cresce no silêncio. No entanto, para que seja realmente mariana, é preciso desprender-se de imagens muito fora de quem é a Santíssima Virgem e abraçar todas as nuances da palavra "mãe". Amor e correção, proteção e direção, falas brandas e puxões de orelha, todas essas ações estão condensadas na ação de mãe. Por isso, é bom ter diante dos olhos essas ações executadas pela Santa Virgem em nosso processo educacional. E o mais formidável, acolher.

Também é muito oportuno apresentar o próprio processo durante a oração, como o filho que volta para casa contando o que fez na escola. Colocar não só as dificuldades, mas também o que deu certo, e pedir ajuda. Com o tempo, durante a pacatez mais convencional, a resposta daquele ponto se dá, quase como se sempre estivesse lá.

Por fim, o mais importante da devoção mariana em relação à teologia educacional é manter o estado de aprendiz e abraçar o ambiente próprio da devoção mariana ao estudar, ensinar e aprender. Refúgio, paz e leveza, todas contribuindo para a aquisição de uma participação na firmeza vinda dessa Torre de Marfim [de pureza e fortaleza] que é a Santíssima Virgem.




Leia também: A importância da construção do castelo literário na vida intelectual e espiritual
Leia também: A Total Consagração à Santíssima Virgem Maria e a Estudiosidade 



Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: "Modéstia", "Graça & Beleza".










A Total Consagração à Santíssima Virgem Maria é um compromisso profundo e abrangente, que visa não apenas a devoção espiritual, mas também o crescimento intelectual. Estudar é um dos primeiros efeitos dessa consagração, pois a busca pelo conhecimento é incentivada e guiada pela intercessão de Nossa Senhora.

Para muitos, a relação entre a total consagração e o movimento cultural católico pode não ser evidente. No entanto, é importante lembrar que os maiores propagadores de estudos dentro da ala tradicional da igreja eram consagrados a Nossa Senhora, utilizando o método de São Luís.

Quando um país enfrenta uma predominância de ideologias anticatólicas, a propagação da total consagração torna-se uma estratégia para que, através da intercessão de Nossa Senhora, ocorra uma transformação. Não se deve subestimar o impacto das consagrações em massa, que ao entregar seus méritos, aumentam a graça atual sobre os brasileiros, influenciando positivamente todos, independentemente de onde estejam.

Ainda que alguns mestres atuais destacados não sejam consagrados, é inegável que eles só existem devido ao aporte de graça concedido pela Santíssima Virgem. O desejo de estudo que Ela faz crescer nos corações daqueles que se entregam a Ela é a fonte dessa demanda intelectual.

A total consagração foi a resposta divina para equilibrar os ataques à família e à igreja. A família, muitas vezes vista como a resposta, na verdade, é o campo de batalha. A verdadeira resposta é a total consagração.

O processo educativo mariano segue três etapas: contrição, despertar da inteligência e fortalecimento da vontade. Esse caminho pode ser aceito de maneira total ou parcial. São os degraus da consagração apontados por São Luís em seu livro. Nem todos querem chegar ao último degrau. A vitalidade da graça proporcionada pela consagração varia entre os consagrados, mas isso não descredibiliza a ação da Santíssima Virgem, e sim, reflete nossas limitações humanas.

Nossa Senhora nos oferece caminhos e percursos educativos, livrando-nos das falsidades propagadas pela indústria e pela mídia, que nos afastam do Senhor Jesus.
Para isso, é preciso fortalecer a mente, não somente na aquisição de bagagem intelectual, mas também na purificação do mecanismo de mentalidade. É necessário se purificar da mentalidade revolucionária e buscar estabelecer um mecanismo de pensamento longe das falsidades dos discursos da mídia e da indústria, até mesmo da católica.


Digo isso porque, em geral, esses mecanismos são instrumentos de orientação das massas. Por exemplo, basta surgir uma personalidade influente e todos começam a falar, se comportar, vestir-se como ela e a se interessar pelos mesmos assuntos por ela abordados.


Na vida intelectual, é radical evitar seguir modismos e personalidades de destaque sem discernimento. A total consagração visa guiar o estudo e o desenvolvimento intelectual através da oração mental e do estudo.


Há quem tenha o desejo de trilhar os caminhos de educação e realinhamento de conduta sem ajuda, como se pudéssemos vencer todas as ilusões de forma humana. Não podemos. Precisamos de ajuda especial, de luz e santidade para trilhar sadiamente o caminho intelectual sem buscar autopromoção desmedida, a repetição de discursos ou status entre os pares.


Nos exercícios espirituais da total consagração, é possível encontrar um trecho sobre a avareza intelectual, uma postura que impede a generosidade. Por outro lado, há uma onda mais comum de desrespeito pelo tempo de estudo do outro, numa crescente desvalorização do professor, em paradoxo com a disputa de visibilidade imposta pelas redes sociais. O resultado é que o próprio processo de aprendizado se tornou uma mercadoria, trilhada de forma irregular e inconstante, conforme o mentor mais visualizado no momento.


Isso, naturalmente, interfere na visão que cada um tem sobre o seu processo educativo. Todos os processos educativos, inclusive o da total consagração, tornam-se transitórios e aceitos apenas enquanto favorecem o apreço e o prestígio. Depois disso, são desvalorizados e novas condutas se tornam mais adequadas.


Isso é o que vemos, mas esse não é o objetivo da total consagração. Seu processo educacional dura a vida toda e abarca todas as áreas da vida. A Santíssima Virgem sempre começa pelas áreas mais necessárias, mas não esquece as outras.


A estudiosidade que surge desse aporte de graça busca, com a intercessão da Santíssima Virgem, crescer em estatura [de virtude] e graça, seguindo um ritmo mariano, lento e tranquilo, mas sólido e, acima de tudo, franco.


Leia também: A importância da construção do castelo literário na vida intelectual e espiritual 






Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: "Modéstia", "Graça & Beleza".




“Sempre tenha o livro sagrado em suas mãos, para que ele possa alimentar sua alma pela leitura devota.” - São Jerônimo 


"S. Bento, entre outros, ordenou que cada um dos seus monges fizesse todos os dias a sua leitura, e que houvesse dois encarregados de ir visitar as celas, para verem se todos observavam esta regra; e quando se achava algum nisto negligente, queria que fosse penitenciado. Mas, antes de todos, o Apóstolo a impôs a seu discípulo Timóteo, dizendo-lhe: Aplica-te à leitura." -  Santo Afonso Maria de Ligório



Começar a ver o estudo como uma constante, e não como um período, pode ser um desafio. Nós somos treinados a abandonar o lugar de aprendiz o quanto antes e incentivados a tomar posições de destaque prematuramente. Gastar tempo em estudo e mais estudo, ler para acumular uma bagagem sólida e trilhar um caminho sem imitar os outros não é um percurso que chame muita atenção. No entanto, há algo muito formativo em trilhar o próprio caminho de estudo e se dedicar a ele. Construir suas próprias listas de leitura e permitir que o ano seja repleto dessas pequenas conquistas é uma experiência enriquecedora.


É interessante observar o efeito que a construção de um castelo literário gera, especialmente quando é feito sem influências externas. Lembro-me de que fiz uma lista de leitura sobre neurociência sem conhecer ninguém que tivesse interesse nessa área. Mas eu, Ana Paula, gosto de neuroeducação. Ninguém se interessa, mas eu me interesso. E isso é o que considero uma lista de leitura bem feita: aquela que nasce de um verdadeiro interesse por um assunto ou área.


É claro que este caminho é mais trabalhoso. É muito mais fácil ler o que todos leem, imitar os caminhos dos outros. Mas a leitura é uma forma de traçar seu próprio caminho, sua identidade. Tudo pode parecer caótico no início, mas com o tempo, você descobrirá os temas que realmente te interessam e não buscará mais ler apenas o que todos leem e indicam. Mesmo no nicho católico, há uma tendência ao mimetismo, o que pode acabar impedindo você de ler um livro excelente porque o autor não é amplamente compartilhado. Ser capaz de trilhar seu caminho literário de forma independente pode abrir portas para conhecer talentos, contemplar habilidades e lapidar sua própria habilidade.


Quanto ao número de leituras anuais, é importante ter uma meta. No entanto, mais importante é ler e assimilar de forma adequada. A qualidade vem antes do número, mas é necessário ter uma meta numérica para não se perder. Você precisa, ao menos, ter o projeto do castelo literário que deseja construir neste ano. Que assunto deseja focar e, de preferência, que seja após avaliar seus próprios interesses, sem imitar outra pessoa.

Embora a imitação seja uma parte do processo educacional em qualquer idade, imitar por muito tempo torna o caminho cansativo e triste. O gosto por estudar e aprender que devemos manter até o fim da vida só é possível com um interesse verdadeiro.

Uma vez, escutei a história de um idoso que, já no hospital, mantinha o hábito de fazer todos os dias um simulado da prova de conclusão do ensino médio. Todos os dias, ele comemorava quando conseguia acertar uma questão a mais. Antes de morrer, ele fez a sua última prova e ficou feliz porque acertou mais do que no dia anterior. Ele aprendeu até o último momento de sua vida.

Este espírito é o espírito da vida intelectual. E nós o mantemos construindo um castelo literário anual, mas este castelo só é firme se for bem estruturado no interesse verdadeiro por algo.


Algumas coisas que podem ajudar são:

  • Fazer uma lista simples, digital ou no papel.
  • Utilizar leitores digitais e audiolivros.
  • Intercalar gêneros literários.
  • Dar a mesma importância para ensaios e ficção.
  • Não se esquecer de manter a postura de aprendiz, principalmente diante de um autor que você não conhece.
  • Ler todos os livros do mesmo autor auxilia a entender o pensamento do autor, pois um livro é apenas um fragmento do pensamento do autor.
  • Buscar ler ao menos um novo autor este ano. 


Para aprofundamento: Educa-te: Paideia Cristã 





Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: "Modéstia", "Graça & Beleza".



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Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)



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