Ética na área da saúde
Ética na área da saúde
Professora Ana Paula Barros¹
A ética pode ser entendida como o campo filosófico que busca refletir sobre os fundamentos da ação humana, distinguindo o que é considerado correto ou incorreto em diferentes contextos. Diferente da moral, que se refere a normas e costumes específicos de uma sociedade, a ética se ocupa de pensar criticamente sobre tais normas. Assim, enquanto a moral trata dos costumes, a ética se apresenta como exercício reflexivo de auto investigação, capaz de orientar práticas em qualquer área, inclusive na saúde. Ela possibilita uma postura de reflexão constante dos profissionais sobre sua própria área.
Entretanto, há uma crise evidente na qualidade e na formação de profissionais, marcada por pressões mercadológicas e pela crescente dependência de exames complementares no que se refere à medicina. Clínicas de exames cada vez mais lotadas talvez sinalizem uma fragilidade na prática de avaliação clínica e uma perda da capacidade de escuta e observação, que sempre foram pilares da medicina. Seria este um resultado visível dos anos em que os profissionais deixaram de olhar nos olhos dos pacientes enquanto atendem? Uma visão mercadológica da saúde vê o paciente como um consumidor de serviço, mas nesse caso sem os cuidados e atenções que se recebem numa loja.
Esse cenário pode ser conectado a reflexões mais amplas sobre sociedade e história. Países como Áustria e Espanha têm demonstrado preocupação em reduzir o acesso às redes sociais por adolescentes e até mesmo adultos, reconhecendo os impactos nocivos da hiperconexão. No Brasil, por outro lado, observa-se um silêncio dos profissionais, mais dedicados a explorar economicamente essas redes do que a refletir sobre seus efeitos sociais e psicológicos nos próprios pacientes. Essa busca incessante por riqueza e lucro nos remete a um traço histórico: quando Dom João VI retornou a Portugal deixando os cofres do Brasil vazios, Dom Pedro I, em cartas, expressava grandes desejos de realização, mas lamentava não ter recursos para concretizá-los. Esse episódio ilustra como a sede por riqueza foi incorporada desde os primeiros passos do país nos ditames de vida criados pelo mundo europeu. Talvez por isso o Brasil viva até hoje a tensão do "herdeiro sem renda", reproduzindo a mesma frustração vivida por Dom Pedro I.
Retomando a área da saúde, é possível perceber que, assim como outras esferas sociais e grupos profissionais, ela precisa pensar sobre si mesma e sobre os impactos do mercado na prática profissional. A modernidade transformou médicos e cientistas em uma espécie de sacerdotes, como retratado em obras literárias como Frankenstein, O Médico e o Monstro e Drácula. Nesses imaginários, o médico aparece como aquele que detém respostas físicas e espirituais, o sacerdote moderno da ciência. Contudo, assim como o sacerdócio religioso, esse papel imposto pelos homens também enfrenta uma crise de autopercepção.
Em conclusão, a ética na área da saúde é um convite permanente à reflexão crítica. Ela exige que profissionais e sociedade questionem suas práticas, reconheçam seus dilemas e busquem caminhos que permitam que o olhar atento seja direcionado às pessoas, enquanto os próprios profissionais crescem e encontram a si mesmos pelo que fazem, tornando o próprio caminho um processo de enriquecimento. Muitos profissionais entraram no automático de suas profissões; muitos não têm gosto, por exemplo, não sabem dizer que filmes apreciam, que músicas preferem, não possuem um gosto artístico para formar a tão mencionada marca. E quando falo em gosto artístico, refiro-me simplesmente a saber se gostam de alguma coisa nas artes, se abrem tempo para isso.
Recordo-me claramente de uma professora numa turma da área da saúde que dizia: “Vocês precisam ir ao cinema, ao teatro, assistir a um filme, ter gostos”. Isso já faz 15 anos, e ela realmente tinha razão. Alguns profissionais estão vazios de interesses genuínos e talvez seja aí a origem do que vemos hoje. O vazio de interesses gera um estado de desinteresse pelo mundo e pelas pessoas, uma vida em modo automático técnico, que pode parecer aceitável, mas traz consequências.
¹Ana Paula Barros
Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).
Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.
Totus Tuus, Maria (2015)
6 comments
Ana, ainda não li tudo o que tu escreveu! Mas esse texto com certeza foi o melhor até agora! Deus te abençoe! :* Karla
ResponderExcluirQue alegria!
ExcluirGosto muito do seu canal. Sua maneira de falar é simples e consegue explicar muito bem assuntos importantes da vida espiritual de um catolico. Parabens! Deus lhe abençoe sempre!
ResponderExcluirObrigada! Louvado seja Deus!
ExcluirOlá Ana! Conheci recentemente seu Blog por uma amiga e estou gostando bastante dos Posts. Já comecei a seguir-te tbm pelas outras redes sociais. Queria lhe pedir que revisse os links citados, pois muitos deles lhe mandam para sua página no Facebook somente. Pode ser que eu esteja fazendo algo errado, mas não consegui visualizar as páginas (como a dos temperamentos). Fique com Deus e parabéns pelo ótimo trabalho!
ResponderExcluirOlá, é o grupo no facebook :) lá, na parte de arquivos existem alguns materiais para baixar.
ExcluirOlá, Paz e Bem! Que bom tê-lo por aqui! Agradeço por deixar sua partilha.