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Salus in Caritate

 

Índice 2019

Educação e Filosofia

  • Gotas de Tomismo (1-15)
  • Doutrina Cristã (1-10)



"A virtude de uma pessoa mede-se não por ações excepcionais, mas pelos hábitos cotidianos." - Blaise Pascal



Todos os meses, no dia 11, dedicamo-nos à prática de sete atitudes mensais para nos tornarmos Salutares. O termo "salutar" deriva do latim salutaris, significando uma condição mental, física e espiritual restaurador. Ser um Salutar é cultivar a habilidade de transformar ambientes em espaços propícios e sadios. Contudo, muitas vezes, não sabemos como iniciar esse processo de autoeducação. Por isso, delineei os tópicos mensais para que você possa aplicar essa habilidade e integrar-se ao grupo dos Salutares. Serão seis atitudes, distribuídas em duas por semana.



Cultivando

  • Releia um artigo ou livro que tenha proporcionado benefícios significativos a algum aspecto da sua vida.
  • Reassista a um filme que tenha mudado sua visão de mundo ou que evoque boas recordações.
  • Revisite, através de livros, obras de arte ou cinema, a vida de algum santo ou santa de devoção.



Semeando

  • Escolha um conteúdo do Salus e envie-o a uma única pessoa com um bilhete de sugestão, escrito com atenção e cortesia.
  • Escolha alguém (do seu convívio pessoal, público ou virtual) para interceder.
  • Atente-se às boas influências reais presentes em sua vida.




William Dyce, A Madona e o Menino, 1845




“É principalmente por dois instrumentos que alguém adquire o conhecimento: a leitura e a meditação.” (HUGO DE SÃO VÍTOR, Didascalicon).


Dentre leigos e clérigos, ainda existe, assustadoramente, a ideia preconcebida de que as filhas do Altíssimo não devem estudar ou falar em público. Como se a sequela da ignorância, vinda do pecado original, nelas não devesse ser combatida pelo estudo e a boa direção do intelecto. Sem recorrer a argumentos de que tais pensamentos se baseiam em uma teologia fraca, resolvi usar a vida das santas como resposta, já que esta é a resposta do próprio Deus aos declínios, limitações, deturpações e enganações de cada tempo ou pessoa individualmente.

Normalmente, essa linha de pensamento vem da aversão ao feminismo, como se tudo fosse reduzido a fazer o oposto das feministas e então estaríamos salvos. Elas não depilam, nós depilamos; elas estudam, nós cozinhamos; elas falam em público, nós não; elas são líderes, nós somos mandadas e, pronto, tudo está resolvido. Seria até bonitinho tanta ilusão, se não fosse satânica. Outro motivo é a linha de leitura da crise da Igreja por alguns clérigos; segundo eles, tudo se deve à ação dos leigos, e, quando os leigos aumentam a sua ação, eles diminuem em autoridade. Ou seja, é uma reação para não perder um suposto poder de influência... ora, isso já está perdido há tempos e quem plantou isso foram os próprios padres; os leigos só estão tentando sobreviver ao que eles plantaram. No fim, o clero deve resolver os seus problemas, responsabilizando-se a si mesmos.

Dito isso, cabe elencar vidas santas que são mais seguras que achismos temporais e limitações humanas fantasiadas de "tradição", sem nenhum pingo de autenticidade, que é Santa e Verdadeira nos Santos:

Segundo a Santa Tradição, a Santíssima Senhora vivia no Templo e a rotina dentro do Templo incluía seis horas de estudo.

Flávio Josefo, em sua obra "Antiguidades Judaicas", menciona que “as mulheres no templo eram responsáveis por ensinar a Torá e outras disciplinas religiosas às crianças e a outras mulheres da comunidade”. De acordo com a Enciclopédia Judaica, “as virgens do templo passavam cerca de quatro a seis horas diárias estudando e ensinando a Torá e outras escrituras sagradas”. Também é descrito que a rotina de estudo das virgens do templo era bem estruturada. Elas dedicavam cerca de quatro a seis horas diárias ao estudo da Torá e outras escrituras sagradas. Esse tempo era dividido entre sessões de leitura, discussão e meditação sobre os textos. Pela manhã, após as orações iniciais, elas passavam duas a três horas estudando. No período da tarde, após suas tarefas no templo, dedicavam mais duas a três horas ao estudo e reflexão. Já a "História dos Hebreus" destaca a importância do papel educativo das virgens do templo. Segundo o texto, “as virgens eram vistas como guardiãs do conhecimento religioso, e seu ensino era altamente valorizado pela comunidade”.


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Muitas grandes santas eram versadas no estudo. Não citarei Santa Hildegarda, que é sempre a mais mencionada. Mencionarei outras santas, começando pelos primeiros séculos, para evitar alegações de feminismo:

  • Santa Marcelina: educou com muito estudo o grande Santo Ambrósio, seu irmão, que escreveu sobre a educação das mulheres inspirado nela.
  • Santa Bárbara: no início das lições, não gostava de estudar com os tutores, mas, posteriormente, foi o estudo que a fez interessar-se pelas ciências e cogitar a existência de um Criador (sua família e tutores eram pagãos).
  • Santa Catarina de Alexandria: padroeira dos filósofos (isso já seria um motivo para emudecer alguns... que tempos, meus caros, que tempos), estudou e teve uma ótima formação católica (Alexandria era a sede da maior Escola Catequética dos primeiros séculos). Era considerada uma das mais belas e sábias de Alexandria, confundindo 50 filósofos com a filosofia e teologia católica.

Os livros de São Basílio e São Jerônimo falam sobre a educação intelectual das mulheres, com um capítulo todo dedicado a isso. São Jerônimo dizia que se sentia feliz e orgulhoso em educar a "pequena Paulinha" como Aristóteles em educar Alexandre, que viria a ser O Grande; pois ela era uma filha do Criador. Paulinha era a menor de uma linha de filhas espirituais do Santo, já que sua mãe e avó também eram orientadas e encorajadas nos estudos por São Jerônimo. Um trabalho sacerdotal realmente notável.






Borgognone. A Madonna, 1500-1523



Outros nomes ilustres em sabedoria e inteligência incluem:

Santa Ângela Mérici, que fundou as Ursulinas, uma congregação de professoras.
Santa Maria Mazarello, que fundou o ramo feminino do Dom Bosco; Santa Paula Frassinetti, também professora, que fundou a Congregação de Santa Doroteia, dedicada ao ensino.
Santa Teresinha do Menino Jesus era assídua nos estudos, dava aulas no convento e explicava de forma profunda a teologia de São João da Cruz, impressionando as irmãs pela agudeza e dedicação, fato registrado nos autos de seu processo de canonização.
Santa Teresa de Ávila dispensa apresentações, já que a padroeira dos professores legou ensinos teológicos que são estudados até hoje.
Santa Gertrudes de Helfta, chamada a Grande, também deixou tratados teológicos que são motivo de estudo até os dias atuais.

E ainda temos:

Beata Guadalupe Ortiz, professora de química e pesquisadora acadêmica; 
Beata Natalia Tułasiewicz, professora polonesa martirizada em um campo de concentração; 
Santa Benedita da Cruz (Edith Stein), judia convertida ao catolicismo, professora e filósofa, também martirizada em um campo de concentração; 
Santa Elena Guerra, professora e fundadora da Ordem de Lucca; 
Beata Madalena Caterina, professora que fundou 19 casas salesianas, 12 oratórios, 6 escolas, 5 jardins de infância, 4 internatos e 3 escolas religiosas; 
Serva de Deus Virginia Blanco Tardío, leiga consagrada e professora de religião no ensino médio, na Bolívia; 
Beata Karolina Gerhardinger, conhecida como Madre Maria Teresa, que trabalhou como professora na Baviera e fundou a Ordem das Irmãs Escolares de Notre Dame.

É lamentável que, depois de tantos anos, tantos marcos de santidade e doação até o sangue, ainda precisemos voltar a pautas tão óbvias devido à pura limitação na profundidade do catolicismo. Isso vem, inclusive, de padres que deveriam ser o sinal da paternidade Divina, como foram os encorajadores de suas filhas espirituais: São Basílio, Santo Anselmo, São Clemente, São Jerônimo, Santo Agostinho e São Francisco de Sales.

As filhas de Deus são belas, inteligentes e sábias, dotadas de virtude e graça. Sigam em frente, com coragem, pois a corte dos santos nos protege e guia, suprindo as faltas terrenas de encorajamento e boa direção. Estudar e ensinar é um ato virtuoso que edifica e faz edificar.


"O princípio da sabedoria é: adquire a sabedoria; sim, com tudo o que possuis, adquire o conhecimento." - Provérbios 4, 7.

"Ela abre a boca com sabedoria, e a lei da beneficência está na sua língua." - Provérbios 31, 26.




















































Obra: Anunciação por Jean Bourdichon e seu ateliê, França, século XV



Transcrição da aula: A vida intelectual e a mulher ministrada pela professora Ana Paula Barros em 21 de maio de 2023. Aula disponível na íntegra aqui. Sugerimos fortemente que assista a aula na íntegra e em seguida a leitura complementar do estudo Sedes Sapientiae: A Virgem Maria e a Dedicação ao Estudo e à Educação .


Muito bem, espero que todos estejam me ouvindo bem. O itinerário que separei para vocês está dividido em seis partes. À medida que eu for falando, mencionarei os autores em que me baseei e, ao final, também deixarei as referências bibliográficas. Os seis pontos são:

  1. O Intelectual Cristão

  2. Dons e Virtudes

  3. Pensar Bem

  4. A História da Instrução Feminina

  5. Educação Feminina

  6. Percepção Correta e Reações Equivocadas


O primeiro tópico que gostaria de abordar é sobre o intelectual cristão. Obviamente, baseei-me no livro do Padre Sertillanges.

Existem alguns pontos que serão tratados de forma geral, aplicáveis tanto para homens quanto para mulheres. A partir do ponto quatro, falarei mais especificamente sobre a educação feminina e a vida de estudos para mulheres. Acredito que isso seja de importância não só para as mulheres, mas também para os rapazes que, eventualmente, terão filhas e precisarão educá-las, entendendo a distinção entre o homem e a mulher e a dedicação de cada um aos estudos.

A primeira parte do meu discurso baseia-se em um versículo que gosto muito: "Renovai o vosso espírito e a vossa mentalidade". Estamos saindo de um período que se assemelha muito ao que o Padre Sertillanges descreveu na terceira edição de "A Vida Intelectual". Ele escreveu: "Quando o universo está em chamas, a sensação que se tem é de esmagadora impotência. O presente só traz tormento e desconcerto".

Ao escrever esse trecho, ele descrevia a necessidade de formar um verdadeiro exército de intelectuais católicos que possam responder a essa atmosfera de tormento. Esse chamado é reflexivo, para que possamos entender não apenas as origens físicas das crises, mas também suas raízes espirituais e intelectuais — o que chamamos de estudar as origens das ideias. Parte do trabalho dos intelectuais é trazer essas origens à tona.

No entanto, focar apenas na base da decadência não é suficiente. Pode gerar o que chamo de "especialistas do erro". Sabemos absolutamente tudo sobre os erros, mas não conseguimos encontrar um caminho para trazer soluções. O objetivo deste tópico é justamente abordar isso: não adianta apenas conhecer os detalhes dos erros; é necessário agir de forma conjunta para encontrar um caminho que possa iluminar o momento em que vivemos.

Quando o Padre Sertillanges diz "concentrar forças não apenas nas causas da decadência", ele também afirma que o próprio intelectual, a pessoa que está na vida de estudo, precisa ter competência e virtudes morais. Aqui entramos em um ponto crucial: o tipo de intelectual que temos hoje e que reconhecemos como intelectuais no Brasil. Precisamos entender se eles correspondem ao critério estabelecido pelo Padre Sertillanges.

Não basta apenas identificar os erros e falar sobre eles; é necessário ter um conjunto de virtudes morais e competência. A vida de estudo é uma vocação em que você não consegue falar sem ser; é preciso ser, e só então o ato de produzir qualquer obra intelectual funcionará. Este primeiro critério das virtudes morais é inegociável; não há como abrir brechas a esse respeito.

Partindo desse princípio, a vocação é um chamado para nos tirar desse momento de tormenta ou tentar encontrar uma resposta para isso. A pessoa deve ter virtudes morais, competência, e é um chamado à generosidade, para que outros também possam engajar-se nessa meta.

Claro que não é simples, pois temos uma ideia muito arraigada do "homem da torre", separado, que não se mistura com as outras pessoas. Isso tem diminuído, mas ainda existe um pouco dessa visão que limita, especialmente as mulheres, a se engajarem nos estudos, pois parece algo fora da realidade delas.

Visto que é um chamado à generosidade, é importante notar que, além das virtudes morais e competência, também é necessária uma harmonia entre fé e razão. Cito um trecho do Padre Sertillanges que ajuda a solucionar um desafio da vida intelectual. Muitas vezes, achamos que a vida de estudo é isolada, ou que quem estuda não reza e quem reza não estuda. Pode ser que isso seja apenas uma ideia pré - concebida.

Padre Sertillanges diz: "Querem compor uma obra intelectual? Comecem por criar em seu interior uma zona de silêncio, um hábito de recolhimento, uma vontade de desapego, despojamento, que os deixem disponíveis para a obra. Sem essa disposição das faculdades mentais, nenhuma obra intelectual será frutífera."

Nada farão ou nada que valha. Perceba que este chamado à vida de estudo ordenada nada tem a ver com essa onda enorme de opinismo, onde muitas vezes não sabemos nem para onde vão nem de onde vieram e que não têm objetivos específicos.

Esta vivência ordenada precisa vir de um comprometimento com a vida contemplativa. A separação entre a vida de estudo e a vida de oração não deve existir. Na verdade, foi uma separação que mantemos com muita frequência, e há dificuldades diárias em relação a isso que não deveriam existir, pois a vida de estudo só existe se houver uma vida contemplativa por trás.

É claro que Platão e Aristóteles já afirmavam que a vida contemplativa é uma forma de vida superior. Isso não é uma informação nova. Mas por que é tão difícil para nós fazer essa escolha? Porque achamos que a vida contemplativa é algo apartado da realidade cotidiana. Veja que parece que estou indo por uma questão muito espiritual, mas é justamente aí que estão as nossas maiores dificuldades. As ideias estão ficando cada vez mais desconectadas, as coisas estão ficando cada vez mais sem sentido quando as pessoas propagam os seus interesses. Isso vem justamente desse agir intelectual que não sai de um lugar de silêncio e contemplação. Não é ordenado e, portanto, pouco tem a ver com a forma de vida intelectual fomentada e gestada no seio da Igreja.

A vida intelectual, fomentada e gestada no seio da Igreja, parte dessa premissa da contemplação. E o que a contemplação gera? Ela nos faz articular os dons do Espírito Santo com as virtudes. A bagagem intelectual, o que lemos e aprendemos, é um agregado a esse esforço de articulação entre o que recebemos do Espírito Santo e as virtudes que nos esforçamos para viver.  "O sábio é o virtuoso".

Quando partimos deste ponto, toda a nossa percepção da vida de estudo muda. Ela se torna um caminho de santificação absolutamente possível e extremamente abnegado, pois, obviamente, algumas coisas precisam ser deixadas de lado para que aquele processo de estudo aconteça. É um momento que costumo chamar de cultivo. Temos pouca prática em ver o momento de oração e o momento de estudo como um momento de cultivo interior que gera uma ordenação. E, como estamos todos inseridos no Corpo Místico, é importante também avaliar que, se eu estou ordenada, você está ordenado, e o outro está ordenado, a chance de caminharmos para um lugar mais salutar e edificante é maior.

Prosseguindo nessa articulação dos dons do Espírito Santo com as virtudes, vale lembrar que, por mais que usemos o termo vocação intelectual, este é um chamado. Mas, para nós, católicos, ele já está inserido no cumprimento do primeiro mandamento da Lei de Deus, pois todos precisamos saber minimamente sobre a nossa fé e ter alguma prática de estudo. Precisamos ter o mínimo, mas esse chamado, que é lapidador, pode ser feito com uma dose de esforço, foco e disciplina para exercitar mais a virtude de estudo.

Então, é importante entender a vocação intelectual não só como algo que vem como uma luz do céu, onde você é chamado a ser um intelectual. Isso tira muito da nossa própria missão e do nosso próprio comprometimento de participar de algo que, mesmo que não seja a nível grandioso, pode ser viveciado com a própria família, com os ciclos de formação, com as pessoas que estão inseridas em nossas relações. Há como vivenciar essa generosidade que provém da virtude.

É importante lembrar que aqueles que são pais têm este dever radical de educar seus filhos e que isso lhes será cobrado depois. Lembrando desta questão, São Josemaria Escrivá diz: "O cristão deve ter fome de saber, desde o cultivo dos saberes mais abstratos até as habilidades do artesão. Trabalhar assim é oração, estudar assim é oração, investigar assim é oração." A última parte é a mais importante: "deste modo, a alma se enrijece numa unidade de vida simples e forte."

Existe um outro livro do Padre Sertillanges que não é tão famoso, chamado "Deveres", no qual ele aborda a integridade em praticamente dois capítulos. É a parte mais importante do livro que ele escreveu. Estamos vivendo uma desintegração do catolicismo e da nossa própria existência. A maior parte das pessoas é uma pessoa no trabalho, outra na igreja, outra no grupo de amigos; são pessoas fragmentadas. Esse tipo de fragmentação impede qualquer tipo de estudo e torna impossível existir de forma integrada.

Quando ele fala da integridade numa vida simples e forte, isso me faz lembrar de outro trecho: "A integridade consiste precisamente em unificar-se a si próprio em toda a sua plenitude e em revestir, por assim dizer, a sua forma sagrada." Esta parte da integridade é tão profunda porque, sem ela, não conseguimos sequer trilhar o tão almejado caminho de santificação, que se tornou um discurso muito cotidiano para nós, mas tão distante de se tornar real justamente porque estamos todos desintegrados. A desintegração é o sinal externo do caos interior.

Estou abordando este ponto para dizer que, como o próprio Padre Sertillanges fala, o insucesso dos nossos esforços depende fundamentalmente da nossa dispersão espiritual, do esquecimento dos valores primários e das nossas capacidades. A dispersão espiritual é que leva ao fracasso de qualquer tentativa de estudo que não avança ou não se desenvolve, e isso é falta de integridade. Por isso, não basta comprar uma série de livros e estabelecer uma série de metas. Se, ao estudar, a pessoa estiver completamente desintegrada, não adianta nada; não vai funcionar. A pessoa entrou numa vida falsa. Isso é seríssimo porque ela pode acreditar que está evoluindo, pela quantidade de livros que leu, quando não está.

Veja bem, não estou dizendo que não é para ler, pelo amor de Deus, mas a quantidade de livros deve aumentar a nossa unidade, integridade e a sensação de que, quanto mais se lê, mais firme e nobre se torna. Esse é o resultado da bagagem de estudo. Para isso, existem algumas exigências: uma vida de estudo constante — talvez a palavra "constante" seja a mais difícil de realizar —, ascética e oração. Esta tríade está interligada. Para quem se dedica à vida de estudo, se a ascética não estiver funcionando, a vida de estudo também não funcionará, nem a oração.

Isso nos leva a falar sobre a fuga que devemos fazer da perspectiva moderna do estudo, que é uma perspectiva da praxis. Já falei um pouco sobre essa sede produtiva e numérica. Na verdade, a vida de estudo tem mais relação com o período de cultivo. Falaremos um pouco mais adiante sobre a importância do número e das metas, mas também sobre a realidade de que ainda estamos com um problema sério: as leituras mudaram, mas a forma de pensamento continua revolucionária. Enquanto não mudarmos a mentalidade, corremos o risco de criar híbridos de ideias com mais de uma cabeça, piores que os anteriores.

"Renovai o vosso espírito e a vossa mentalidade." As reações muitas vezes são revolucionárias diante das ideias e das coisas. Temos que nos esforçar para que a vida de estudo nos faça reagir como São Tomás, com clareza e cortesia, com verdade, mas de forma extremamente ponderada. Uma diferença que se faz notar entre um estudioso católico e um não católico. Perdemos absolutamente este espaço, e isso pode gerar um problema muito pior no futuro. A maior tentação do estudioso é criar híbridos, unir ideias. Hoje, estamos sofrendo as consequências de uniões de ideias feitas no passado, que hoje não sustentam o ser católico. Tentamos solucionar isso, mas quem estuda hoje pode criar um híbrido amanhã. Este temor deve nos acompanhar: o pensamento deve ser claro e reto para evitar essa chance. 


"Sem mim nada podeis fazer."

Por isso, coloquei o segundo ponto deste itinerário: dons e virtudes. O Padre Sertillanges fala sobre várias virtudes. A virtude que escolhi falar é a virtude da perseverança, por motivos óbvios. Provavelmente é a que temos mais tendência a patinar por diversos motivos. Nossa sociedade é muito imediatista; temos a ideia de que a vida de estudo será como um download, mas não é assim que acontece. Pode demorar anos para se terminar um estudo, se é que se termina, e saber disso desde o começo é fundamental.

A virtude da perseverança tem uma importância enorme. Por exemplo, se falarmos das moradas do "Castelo Interior", só se passa da terceira para a quarta morada com a perseverança. Mas vamos focar na vida de estudo. O Padre Sertillanges diz: "Evitem a agitação do homem com pressa. Apressem-se lentamente. No âmbito do Espírito, a calma vale mais que a afobação. Trabalhem com Espírito de eternidade." A proposta é que o estudioso católico viva num ritmo diferente do que todos os outros estão vivendo, pois todos estão afobados, correndo atrás de coisas terrenas e passageiras, e se destruindo com isso. Ter certa lentidão no ritmo é importante até para conseguir pensar melhor e esclarecer as ideias.

É preocupante essa tendência que temos de formar rapidamente ideias sobre tudo sem parar para pensar. Não estou falando de coisas de fé, pois para isso já existe a Doutrina, mas há assuntos em que é prudente parar e refletir um pouco, e esse pensar pode demorar dias. Isso é normal.

Falo isso com seriedade porque, por mais que saibamos que isso é uma exigência, a maior parte de nós não o faz isso calmamente e constantemente. A virtude da perseverança nos ensina a nos instalar em Deus, em Seu tempo e ordem, e não renunciar a isso prematuramente. O estudo já tem suas dificuldades; a maior parte de nós, em algum momento, fica decepcionada com a pilha de livros a serem lidos, com os estudos a serem feitos, e com os que gostaríamos de fazer, mas provavelmente não conseguiremos. Isso é normal. É preciso ter uma relação saudável com esse volume de conhecimento. Está tudo bem não estudar tudo, desde que o que for estudado seja feito de forma adequada, equilibrada e profunda.

Eu não sei se vocês imaginavam que eu ia falar sobre os dons do Espírito Santo, mas acho fundamental relembrá-los, pois, pela raiz própria da questão da vocação, o estudo muitas vezes parece distante do agir espiritual, mas na verdade está muito próximo.

Primeiro, é importante lembrar que os dons do Espírito Santo são recebidos no batismo. Nós já os temos; não é algo que vem efusivamente do céu. Os dons relacionados à inteligência são entendimento, sabedoria e ciência. Eles aperfeiçoam a inteligência e robustecem a fé. Isso quer dizer que a pessoa só cresce na fé se consegue harmonizar e despertar a inteligência.

Um dos motivos de a maior parte das catequeses ser extremamente infrutífera é esse: são pessoas com a inteligência embotada que não terão fé forte nunca. E se sabemos que é assim que acontece, mais ainda é para o estudioso católico, que precisará da ação do Espírito Santo para mostrar aquilo que não consegue ver humanamente. São muitas coisas, um conjunto enorme de coisas.

Como é que os dons do Espírito Santo trabalham, não só na questão espiritual, mas na própria atividade do estudo? O entendimento clareia a inteligência, faz compreender o sentido das coisas, não a razão das coisas, mas o sentido das coisas, e faz discernir se algo que está escrito é neste sentido ou noutro. Uma coisa que falta muito e que nos foi encorajado pela forma de educação que recebemos no Brasil é a mania de tentar ler as coisas sob uma ótica pessoal. Não estou lendo o que está escrito, o que o autor disse; estou lendo o que na minha realidade, no meu coração, na minha atmosfera, o meu eu interior está dizendo. Isso é uma dificuldade enorme no processo de estudo, porque quando se estuda, é preciso estudar o que o autor está dizendo, não o que você está sentindo a respeito do que o autor     está dizendo.

O dom do entendimento nos livra um pouco disso e nos dá discernimento para que não caiamos nesse esquema que nos foi imposto. O entendimento gera harmonia entre as ideias, o que é importante, pois estamos num tempo em que as ideias são soltas, principalmente por conta de diversos aplicativos. Você não tem as ideias fazendo um circuito, o que já é um problema.

São Tomás de Aquino diz: "O Dom do entendimento dirige-se primeiramente à fé para logo se estender a tudo quanto se relaciona com a fé. Isto é, as ações e a vida prática, enquanto recebem direção das eternas verdades em cujo conhecimento a inteligência é aperfeiçoada." A inteligência se aperfeiçoa com o dom do entendimento.

O último ponto em relação ao dom do entendimento é a questão das ideias vagas. Existe uma dificuldade muito grande quando temos essa inexatidão de ideias tanto dentro quanto fora da Igreja. As palavras já não são ditas com o significado que têm. Um exemplo é o estado de graça. Se você está fora do estado de graça, você está em desgraça. Usar as palavras e o conjunto das ideias como elas realmente são é fundamental, porque a inexatidão das ideias gera uma vontade fraca.

Isso nos leva ao próximo dom: o dom da ciência. A explicação dele é um pouco menor porque basicamente é a percepção da verdade. É a ajuda, pela realidade concreta, a aderir a uma verdade. Nos faz ver a harmonia da criação em relação ao Criador. Além disso, é como uma intuição político-religiosa que nos faz apreciar, segundo alta filosofia, nos acontecimentos da história e os da história da Igreja, o que chamamos de Providência. É uma visão entre o que os homens fazem e o que Deus faz. O dom da ciência pode ser exemplificado pelo venerável Fulton Sheen, que tinha uma clareza muito peculiar para a época. Ele conseguia ver algumas coisas que outras pessoas não estavam vendo; ele tinha uma ciência político-religiosa e antecipava eventos simplesmente lendo a realidade.

Entre os dons que devemos pedir, este é um dos mais necessários, pois até santos leram a realidade de forma equivocada. São Vicente Ferrer fez isso, e outros santos também. A leitura da realidade faz parte da matéria de estudo do estudioso católico: ler o que está acontecendo, decodificar o que está acontecendo ou tentar decodificar. Esses dois dons precisam de uma premissa: a pureza de coração. Manter a pureza de coração é difícil no momento atual porque tantas coisas erradas acontecem que nosso estado interior fica perturbado. É importantíssimo manter vigilância sobre o estado interior para que o coração se mantenha puro, mesmo que ao nosso redor exista uma tormenta com diversos tipos de ideias. Se o coração não se mantiver puro, o julgamento já começa corrompido.

O último dom, que normalmente é o mais requisitado, é o dom da sabedoria. Muitas vezes pensamos no dom da sabedoria como se fosse uma percepção extremamente elevada da realidade. Mas não é bem assim. A prática do dom da sabedoria ilumina a inteligência e nos faz acreditar que aquela ideia e aquela linha de pensamento são as melhores por razão divina, não mais porque a realidade aponta aquilo pelo dom da ciência. Pela forma do pensamento divino, parece que essa ideia é a melhor. Estou escolhendo essa ideia por razão divina. Por isso, normalmente o sábio não é muito bem entendido, porque muitas vezes a realidade diz exatamente o oposto do que ele está dizendo que é o correto. Ter esse tipo de coragem só é possível debaixo do dom do Espírito Santo, e é extremamente necessário, pois haverá momentos em que isso será a única forma de manter alguma sanidade.

Terminei os dons e virtudes. "Sem mim, nada podeis fazer."

O terceiro tópico é sobre pensar bem. Existem alguns pré-requisitos que coloquei aqui, daquele livro "Critério" do Padre Balmes, que considero importantes na prática. Falamos a respeito da vida interior do estudioso católico, falamos a respeito dos dons do Espírito Santo e das virtudes. Agora vem o ato mesmo: o que se faz depois de estudar? O que se faz com essa bagagem?

Papa Pio XI diz o seguinte: "A educação cristã abraça toda a extensão da vida humana: sensível, espiritual, intelectual e moral; individual, doméstico e social; para elevar, regular e aperfeiçoar segundo a doutrina de Cristo." Portanto, o local de ação do estudioso é bem amplo, e da educação cristã também.

Por que coloquei esse tema aqui? Porque existem três pontos necessários para prestar atenção na hora de executar o ato que podemos chamar de ato do estudioso, ato do filósofo, ato do intelectual. O primeiro é averiguar a verdade da realidade das coisas. A realidade é a realidade das coisas. Quando temos essa visão, entendemos algumas questões interessantes. Um estudioso que vê nitidamente é como um espelho: ele vê e transmite aquilo que viu de forma exata e nítida, como um espelho. Quando ele não está alicerçado no que falei anteriormente, está um pouco bambo; é como um caleidoscópio: é uma parte da realidade, mas ela é lúdica, não é exatamente a realidade e, portanto, não é a verdade.

Quando não está nada alicerçado, é um espelho distorcido. Estamos vivendo em meio a espelhos distorcidos, como aquelas salas de circo, só que o mundo todo virou aquela sala de espelhos e todos os espelhos estão distorcidos. Portanto, exige de nós um comprometimento maior de conseguir ser um espelho límpido que consiga passar as ideias de forma clara.

O segundo ponto é que a vontade de estudar pode até existir, mas normalmente as pessoas tendem a achar que o que falta é capacidade. Ah, eu não sou capaz...

Na verdade, na maior parte das vezes, falta dedicação, não capacidade. Ter a percepção de que a dedicação só é possível quando a atenção está no objeto certo é fundamental. Um espírito atento é forte; um espírito que não está atento amontoa ideias desconexas. Por exemplo, assistir a uma live aqui, outra ali, e assim por diante, é um conjunto de ideias que podem até ser positivas, mas é um amontoado de coisas sem objetivo nenhum, sem ordem nenhuma. É um conhecimento que serve para quê? Para nada, pois está completamente desordenado e dá a sensação de incapacidade. Mas não é incapacidade; é falta de dedicação e de ordem.

O terceiro ponto são os traços necessários para a execução do agir intelectual ou do estudioso: clareza, juízo com verdade, discorrer com rigor e firmeza. Aqui, o que mais costuma gerar inquietação é o juízo com verdade. O estudioso julga, sim, é seu dever julgar. Julgar, no sentido de avaliar se a ideia é prudente ou não, é sensato ou não, está compatível com o que a doutrina ensina ou não, está compatível com as bases filosóficas saudáveis ou não. Faz parte da ação do estudioso julgar. Julgar faz parte da vida humana; na verdade, você julga se tomar suco é melhor do que tomar refrigerante — você fez um julgamento.

Mas esse julgamento tem três premissas: partir de uma boa definição, que são raras. Portanto, o ideal é escolher a melhor definição ou a menos ruim e partir dela, sempre de uma definição, nunca partir de ideias soltas ou termos sem definição. Segundo, não usar expressões imprecisas; sempre usar as palavras com o significado que elas realmente têm. E, por último, fugir de ideias pré - concebidas. Fazendo um link com o que falamos anteriormente: ler o que realmente está escrito, escutar o que realmente está sendo dito e não a sua impressão pessoal. Só assim o julgamento consegue ser feito de forma correta, equilibrada e prudente. Se algum desses itens falha, a percepção fica equivocada; portanto, a conclusão daquele estudioso também fica equivocada.

O último ponto neste tópico é a questão do número de ideias. O Padre Balmes fala bastante a respeito da nossa união com Deus, à medida que a vida de estudo se torna quase como uma unidade com a vida espiritual. O número de ideias se torna menor e é mais fácil chegar com precisão a esta ou aquela conclusão sem se desviar por muitos assuntos. Fica também mais fácil detectar onde exatamente está o erro. Quanto mais nos aproximamos de Deus, mais apurada fica a nossa visão a respeito de determinadas realidades e ideias, tanto para encontrar os erros quanto para encontrar as ideias que formam a estrutura de determinado pensamento.

Fecho este tópico, que foi muito rápido, apenas para fazer este apontamento a respeito de pensar bem. Uma vez que estamos passando por um redescobrimento do que seria o estudo, do que um estudioso católico deve ser, vale lembrar que existem critérios e certos passos para trilhar esse caminho e para apresentar um pensamento minimamente razoável. Isso serve não só para conceber ideias, mas também para assimilar ideias. Se não passou por esses critérios, pode-se desconfiar do que está sendo apresentado.

Agora entramos no quarto ponto, mais específico, sobre a instrução feminina. Régine Pernoud fala sobre a instrução feminina de uma forma muito abrangente, abordando como se estabeleceu a ideia de que, na verdade, só recentemente as mulheres ganharam alguma dose de inteligência, como se todas as mulheres anteriores fossem emburrecidas.

Para mostrar que não foi assim que aconteceu, farei uma breve revisão histórica sobre a instrução feminina. Os primeiros mosteiros, que foram erigidos, tinham uma distinção muito significativa. Os mosteiros femininos eram destinados à educação e à oração, enquanto os mosteiros masculinos eram destinados à penitência. Isso significa que a percepção que temos hoje de mosteiro é completamente diferente dos primeiros mosteiros, que eram uma espécie de escola. Os primeiros mosteiros recebiam crianças que ficavam lá, a depender da regra do mosteiro, entre 5 e 13 anos. Elas eram educadas nesses mosteiros e, depois, os meninos passavam para o mosteiro masculino para completar sua educação.

Essa ideia que temos dos mosteiros atuais surgiu depois de um decreto chamado "Periculoso", em 1298, pelo Papa Bonifácio VIII. Ele fez esse decreto pedindo para que as irmãs não mais saíssem do mosteiro. Houve uma comoção no mundo monástico por conta disso, pois ele queria preservar as irmãs, mas isso acabou dificultando a ação dos mosteiros como escola. O Papa Bonifácio teve várias questões em relação à temporalidade; ele agia muito na Igreja temporal, não só espiritual. Inclusive, ele está no ciclo do inferno de Dante, porque Dante não gostou dele; brigaram, e Dante colocou-o entre os simoníacos que vendem cargos.

Além disso, antes dos mosteiros, algumas moças se uniam em grupos. São Jerônimo tinha uma filha espiritual chamada Paula, que ele elogiava muitíssimo porque era versada em hebraico e várias outras línguas. Ela incentivou muito São Jerônimo a fazer a maioria de seus comentários, pois ela fazia perguntas e ele escrevia. Ela estudava muitíssimo.

Nos mosteiros, a irmã salmista educava as crianças com os salmos. Elas aprendiam a ler e a escrever com os salmos, o que hoje chamamos de educação clássica católica, que é a educação pelas Sagradas Escrituras. A irmã salmista era extremamente responsável pela evolução dessas crianças.

Até o momento, só falei de pessoas consagradas, mas a própria Régine Pernoud nos dá o presente de saber que, no século IX, existia uma mãe leiga chamada Duoda. Ela escreveu o primeiro tratado de pedagogia, cujo nome significa algo como "Manual para o Meu Filho". Duoda era uma nobre que viveu na época do reinado de Carlos, o Calvo, e Luís, o Germânico, que brigaram entre si pela França, Alemanha e Itália. Duoda precisou deixar seu filho mais velho, Guilherme, com o rei Carlos, o Calvo, para comprovar sua fidelidade. Ela ficou preocupada com esse menino adolescente na corte, então escreveu um tratado.

Nesse tratado, havia poemas, enigmas e problemas matemáticos, todos baseados na Bíblia, grego e hebraico, relembrando lições que ela tinha dado ao filho enquanto estavam juntos. Ela pedia encarecidamente que ele nunca deixasse de ler e fazer os exercícios. Esse tratado nos dá uma noção de que existiam mulheres muito cultas, casadas, que educavam os próprios filhos dentro da doutrina católica e de toda a riqueza que possuímos.

Além de Duoda e das religiosas, também temos leigas e religiosas copistas. Alguns historiadores afirmam que, na verdade, a maior parte dos copistas eram mulheres. Na Idade Média, as cópias eram frequentemente assinadas apenas com a primeira letra do nome, se fossem assinadas. A maior parte era deixada anônima.

Como descobriram isso? As pessoas que pediam essas cópias mandavam cartas para o mosteiro e, na carta, solicitavam que a abadessa fizesse a cópia de determinado salmo com a letra inicial específica para o dia da Anunciação. As religiosas faziam muitas cópias e eram em número significativo.

Régine Pernoud faz uma afirmação que contraria tudo o que aprendemos: que as mulheres na Idade Média liam mais do que os homens. Faz sentido, pois elas tinham o Livro dos Salmos, e a maior parte dos homens trabalhava fora. A chance de a mulher ficar em casa e ler os salmos era bem maior. As que eram letradas, dentro da realidade da Idade Média, tinham essa possibilidade. Existe uma chance significativa de que quase tudo o que aprendemos sobre a educação das mulheres é baseado em uma fatia só da sociedade. Não estou dizendo que todas eram letradas, mas que não é exatamente como nos ensinaram.

Além disso, existem registros do século XII que apontam escolas diocesanas dirigidas por professoras, com comprovações notórias. Existiam fiscais diocesanos nessas escolas e cartas dirigidas às "Senhoras das Artes da Gramática", que eram as professoras que ensinavam gramática. Cada uma recebia uma orientação específica do fiscal diocesano. As escolas eram praticamente uma casa com vários quartos e funcionavam quase como um internato, onde as crianças ficavam e eram educadas por essas professoras e outros professores, assim permanecendo por muito tempo.

Outro aspecto importante a ser lembrado é que a ideia de educação separada — escola para meninos e escola para meninas — só começou em 1338. As escolas diocesanas eram mistas. Isso [escolas separadas] começou no Renascimento. A crítica sobre se as meninas deveriam estudar ou não, não veio do catolicismo nem da Idade Média; veio da ideia renascentista, racional e afastada de Deus, de que elas deveriam se dedicar apenas às artes domésticas, pintura e outras atividades, e não necessariamente ao estudo, exceto se fossem nobres.

Quem iniciou essa linha de pensamento foi o Renascimento. Abraçamos essa ideia como se fosse uma realidade católica, mas não é verdade. Não há distinção de instrução [entre meninos e meninas] na história da Igreja. Isso só acontece a partir do Renascimento, quando o racionalismo começa a invadir as mentes e o afastamento de Deus se torna notório.

A partir daí, podemos então entrar no tópico da educação feminina, considerando que o que temos é um resquício dessa ação do Renascimento.


Afinal, a educação feminina se pauta em quê, já que tudo o que sabemos é baseado em uma falsa ideia? Para isso, utilizo Edith Stein, com as devidas reservas pertinentes a alguns assuntos ali expostos, focando apenas na parte da educação feminina.

Ela diz o seguinte: "Na alma feminina, é muito forte o anseio natural por valores que sirvam de alimento à alma." Quando ela fala isso, há uma ligação com outra autora de quem gosto muito, chamada Gertrud von Le Fort. Ela afirma que a mulher transmite quem ela é, enquanto o homem consegue transmitir um pensamento um pouco separado de quem ele é. A mulher, não; se ela não se preenche de algo, aquilo não se torna parte dela. Ela não consegue necessariamente ensinar aquilo.

Esta é uma distinção muito importante, porque, dependendo do papel que você tenha como mãe, por exemplo, você só ensinará aquilo que assimilou e que se tornou parte de você. Partindo desse ponto, é importante lembrar outro aspecto: a receptividade ao belo.

Quando Edith Stein fala sobre isso, ela diz: "É uma receptividade entusiasmada com a grandeza moral, com os valores terrestres elevados." Ela cita as artes que poderiam ser estudadas: literatura, arte propriamente dita e história. São as três áreas que ela acredita serem mais nutritivas para o feminino. Isso não significa que sejam restritivas, mas são áreas boas para a formação feminina, a serem alicerçadas e aprofundadas.


De nada vale ler e ter acesso às artes e à história se não houver uma boa assimilação. Tem que se tornar como uma mão, um braço, um dedo. É assim que se sabe se a leitura e o estudo deram certo: se eles fazem parte de quem você é. Se não houve assimilação, é preciso um pouco mais de esforço nisso.

Outro cuidado específico que Edith Stein menciona é sobre a receptividade ao belo. Lembram-se do livro "O Retrato de Dorian Gray"? É um livro sobre um rapaz muito belo que é retratado por um artista. Uma coisa espiritual muito estranha acontece, e a alma de Dorian fica no retrato enquanto ele permanece jovem para sempre. Moralmente, ele se torna decadente, e o retrato mostra todos os seus pecados e o envelhecimento.

Dorian gostava de coisas belas, colecionava coisas belas, ia a lugares belos, escutava coisas belas, mas era horrendo por dentro. A receptividade ao belo e o apreço pelo belo podem se deturpar, assim como qualquer outra coisa no mundo. Portanto, é importante saber que é uma janela, um portal, mas precisa ser mantida sob vigilância séria, pois pode se tornar pura e simplesmente afetação, um apreço pelo belo vazio que não gera nenhum tipo de alta educação ou edificação.

Depois de abordar a boa assimilação e o cuidado com o belo, Edith Stein diz: "O intelecto é a chave do reino espiritual." Ela menciona isso em uma pequena contenda nas suas conferências, porque antes dela, uma senhora chamada Alma Schneider afirmou que a mulher basta amar e não precisa questionar o quê e para quê. Edith Stein, ao ouvir isso, diz: "Nesta atitude, esconde-se um grande risco de desvio e desorientação." Se a mulher ama coisas erradas, pode acontecer tudo; pode se desvirtuar, e ela precisa ser orientada.

Edith questiona essa tendência de achar que a vida de estudo para uma mulher não é importante. Segundo ela, o intelecto é a chave para o reino espiritual. O intelecto existe e deve ser obrigado a funcionar; quanto mais vivo, melhor.

Estamos vivendo uma confusão em relação aos papéis do homem e da mulher, por isso essas percepções ainda existem entre nós. Já falaremos sobre por que isso aconteceu, mas na prática do estudo, um homem consegue estudar um volume grande de material. Eles normalmente têm um nível de resistência considerável. Não todos, a depender da internet, vícios e outras coisas, mas, de uma forma geral, eles têm uma resistência maior. Para a mulher, não é assim. A mulher precisa de descanso, ações curtas, tempos de leitura com pausas necessariamente. Não dá para ser igual. Os temas não serão iguais, a forma de estudo não será igual. Isso é infinitamente importante para os pais quando educam os filhos, mas também para não ficarem se cobrando algo que não faz parte da nossa natureza.

A alma feminina precisa de refrigério. Se não houver refrigério, o estudo parece um mar de páginas intermináveis. Precisa haver essa pausa e uma noção clara de que, para nós, este tempo não é um tempo de folga necessariamente só para ficar pensando em nada. É para colocar em prática aquilo que foi estudado. É necessário colocar em prática. Se não colocar em prática, o estudo não funcionará.

Então, estudo, tempo de assimilação, prática; volta ao estudo, tempo de assimilação, prática. Aí você perceberá que aprenderá de fato o que está lendo. Além disso, é necessária uma purificação das escolhas feitas durante o dia, das decisões e valores. Falar de coisas elevadas é muito bonito, mas só se vê se a pessoa realmente escolheu essas coisas elevadas no ato concreto, quando chega a circunstância, a situação.

A tendência da mulher à superficialidade existe. Mesmo que não gostemos de falar sobre isso, não deixará de existir. A superficialidade é uma tendência absurda; precisa ser combatida com força. Superficialidade não é para ser acalentada: unhas, cabelo, maquiagem pela manhã, paleta de cores — isso é um objeto terreno e baixo. Não viverá uma vida de estudo nunca, porque o objeto está baixo e terreno. Isso gera fragmentação. Existe o desejo do estudo, mas o ato concreto é o oposto do que a pessoa diz querer. Não funcionará nunca.

Por isso, estudo, assimilação e prática tiram da superficialidade.


Se for educar uma menina, já saiba que precisa afastá-la da superficialidade, pois isso é uma tendência constante, seja no apreço pelo belo ou por qualquer outra coisa. Há uma tendência a gerar uma ação extremamente caricata e falsa.

Um dos últimos apontamentos que tenho é a questão do inteligir masculino e feminino. Existe uma diferença significativa. O inteligir masculino é combativo; enquanto eu falo, a maior parte dos homens já está pensando em algo que rebate o que estou dizendo ou em algo que já leram que tem relação com o que estou falando. É uma mente combativa, que já está julgando automaticamente.

A mente feminina, por outro lado, funciona diferente. A maioria das mulheres consegue estabelecer um link de "já escutei isso em algum lugar" ou "já vi isso em algum lugar", mas precisa de um tempo para receber o conteúdo e inteirar-se dele. Depois, ela faz uma escolha, que chamo de "catar feijão". Ela começa a escolher as ideias que mais apetece, mas isso pode ser simplesmente afetivo e não ter nada a ver com a verdade. Muitas vezes, a verdade não apetece, mas precisa ser acolhida.

O inteligir feminino tem esse ponto de atenção. O masculino, por outro lado, tem dificuldade no inteirar-se. Normalmente, os rapazes, ao receberem uma informação, já julgaram e fecharam a ideia, sendo mais difícil para eles se abrir a uma outra percepção. A moça, não; ela vai se inteirar de absolutamente tudo. Por isso o reino dos Stories é o reino feminino. É o reino da pura interação; não aprofunda em nada, mas você se inteira sobre todos os assuntos. Já os homens se aprofundam, mas depende de certo esforço para se inteirarem de outra janela que possa ser aberta.

Quais são os cuidados então? Ser um pouco mais criteriosa. Se não for criteriosa, você só vai ficar inteirada em vários assuntos e não vai aprofundar em nada. Veja que não estou falando sobre especializar-se, mas simplesmente sobre não se contentar em ver as coisas superficialmente, sem pegar nada, nem três livros para ler sobre o assunto para ver se o que foi dito condiz com a realidade.

Outro ponto é focar no fim último. A superficialidade vem justamente porque não se foca no fim último. O fim último não é conseguir um marido, não é conseguir a família do Instagram. Estou falando isso porque a maior parte das moças coloca como fim último arranjar um marido. É bom arranjar um marido, acredito que sim, mas "Buscai as coisas do alto e tudo mais vos será acrescentado". Provavelmente, o marido também deve estar junto aí, na Providência. Se a intenção está corrompida, tudo mais será corrompido. Focar no fim último e fazer com que isso seja refletido nas práticas cotidianas é crucial.

Estamos lidando com venenos diários que merecem remédios diários. Não adianta ter uma ideia elevada e não colocá-la em prática no dia a dia. Não vai adiantar nada. As matérias a serem estudadas, como falei antes, incluem literatura, história, arte, e lapidar um talento. Isso é importante.

Descubra o talento e lapide-o. Mas, acima de tudo, use o exemplo que dei anteriormente de Duoda e das Escrituras Sagradas. Aprofundar-se nas Escrituras Sagradas é bom no nosso processo de autoeducação e é fundamental ao educar. Eu não coloquei versículos bíblicos aqui à toa, começando e terminando com versículos, coloquei porque essa é a educação católica. Você parte da Verdade Revelada e, a partir dali, faz os desdobramentos de ideias e aprofundamentos. Por isso, isso é necessário para todos, mas principalmente para a mulher, especialmente aquela que é mãe ou qualquer um que exerça qualquer atividade de educação formal.

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Existe uma necessidade de complementariedade. Talvez este seja o maior motivo de todo este caminho que fiz com vocês. Depois da revolução sexual, tudo ficou muito confuso, tanto os lugares como as ações do homem e da mulher na sociedade, na igreja e em todos os outros aspectos. Isso criou também um ruído sobre qual seria a contribuição feminina nos assuntos, fazendo-nos cair na percepção renascentista de que existem assuntos de mulheres e assuntos de homens que não se misturam.

Não é assim. A forma complementar que a Igreja nos ensina — como vemos no Carmelo de Santa Teresa e São João da Cruz, em São Francisco e Santa Clara — é uma complementariedade inerente. Por que defendemos a família tradicional? Porque Deus quis e quer assim. Não é só por isso. Quando uma criança está sendo educada, seja pela família, pai e mãe, ou num orfanato onde ela tem as irmãs e o padre, ela precisa ter a percepção de mundo tanto feminina quanto masculina. Ela precisa saber que isso existe e precisa receber a realidade do mundo por esses dois prismas.

Diante do mesmo assunto, com as mesmas virtudes, o mesmo valor e a mesma fé, o papai vê de um jeito que é igual, mas ao mesmo tempo diferente da mamãe. A mamãe fala de outro jeito, se situa de outro jeito, e isso faz com que a criança tenha uma noção mais clara da realidade que a cerca. Isso também é real nas ordens religiosas, no processo de educação e autoeducação, e na ação da Igreja, social ou na sua própria dinâmica eclesiástica.

Os temas devem ser abordados pelo prisma masculino e feminino. Estamos a anos-luz disso acontecer? Talvez. Acho que sim. Mas cabe a nós falar o que é correto e para onde deveríamos estar caminhando.

O último ponto é o seguinte: essa participação tem que ser sem intimidação nem acanhamento, uma participação como mulher, com fala de mulher, com exemplo de mulher, com gesto de mulher, com voz de mulher, com argumento de mulher. Ainda carregamos uma mania vinda das feministas de nos apropriarmos de um tom masculino, gesto masculino, porte masculino, porque isso nos dá segurança para nos apresentar. Mas não é isso que as pessoas precisam, não é isso que a Igreja precisa, não é isso que o mundo precisa. Precisam de argumento feminino, mente feminina, gesto feminino, o que somos de verdade: uma participação como mulher e não como uma mulher tentando argumentar ou pensar como um homem.

E nem estou falando das feministas propriamente dita. Às vezes, com bagagem de boas leituras, ainda podemos adotar essa forma de comportamento, achando que essa é a maneira de sermos escutadas. Está longe da verdade. Eles falam alto e forte; nós falamos mais baixo, mais calmo, mais ponderado, com outros assuntos e exemplos. Isso é normal e tem que ser assim.


Último Ponto: Percepções e Reações Equivocadas

Eu sei, já disse que era o último ponto várias vezes, mas agora é para valer! Quero falar sobre as feministas e as percepções e reações equivocadas.

As feministas não estavam equivocadas em sua percepção; a reação é que foi equivocada. Explico: elas perceberam que existe um mundo masculino e um mundo feminino. Isso é verdade. Mas, ao contrário de Duoda, das irmãs, das leigas e das religiosas que conseguiam tirar o melhor do feminino e do masculino, as feministas viram que estavam trancadas no mundo feminino e quiseram ser aceitas no mundo masculino.

Então, elas iniciaram um processo — que é bem anterior à década de 60 — para conseguir ser aceitas. O que é um objetivo muito medíocre, se me permite dizer. Sair do seu mundo apenas para ser aceito, em vez de conquistar e ampliar territórios, é limitado. A percepção estava correta: existem esses dois mundos, e eles são separados. Porque, via de regra, nós entramos no mundo dos homens, mas eles não entram no nosso.

O que aconteceu foi que todo mundo notou que o feminismo estava errado. Estudamos o feminismo, nos tornamos especialistas no erro, e dissemos: "Vamos voltar. Voltar para onde?" Ninguém sabia. A maior parte ficou mais perdida que cego em tiroteio. O que aconteceu foi o retorno a uma coisa aburguesada — e digo burguesia no sentido de alpinismo social, de uma personalidade burguesa.

Fizemos isso porque a única bagagem que ficou como referência de uma articulação entre feminino e masculino foi uma moça afetada e um rapaz forte e firme. Isso é o correto? Obviamente que não. E, se não mudarmos o caminho, veremos problemas com essa afetação, porque não é saudável. Alimenta muito as próprias falas feministas, porque não há como manter tanta afetação. Uma pessoa em sã consciência não consegue manter tanta afetação, tantas necessidades.

A tendência é repetir erros do passado ou criar híbridos piores do que os anteriores. Se não houver um puxão conjunto, principalmente das moças, para não acontecer algo pior do que já aconteceu historicamente, teremos problemas.

Eu ainda guardo a esperança de termos um mundo complementar, cristão e católico, rico e fértil, assim como foram as ordens religiosas. Mas entendo que falar com sinceridade sobre a realidade em que estamos é mais efetivo para chegarmos a algum lugar. Talvez não cheguemos lá, mas com alguma clareza sobre para onde estamos indo e com mais inspiração para trilhar esse caminho com sensatez, podemos contribuir mais com a Igreja.

Era isso que eu tinha a dizer. Espero ter contribuído e que Nossa Senhora nos ajude.



Referências

1) SERTILLANGES, A.D. A vida intelectual. É Realizações, 2020. 440 p. 2) SALES, V. O Mínimo sobre Filosofia. O Mínimo Editora, 2023. 124 p. 3) SERTILLANGES, A.D. Deveres – Dez minutos de Cultura Espiritual. Cultor de Livros, 2020. 218 p. 4) BALMES, J. O Critério – Filosofia Prática. Cultor de Livros. 302 p. 5) MESCHLER, M. O Dom de Pentecostes. Cultor de Livros, 2016. 466 p. (1850-1912) 6) WILDE, O. Diário de Dorian Gray. Penguin. 245 p 7) PERNOUD, R. A Mulher no Tempo das Catedrais. Quadrante. 380 p. 8) STEIN, E. A Mulher. Ecclesiae. 244p. 9) SÃO VÍTOR, H. A Instrução dos Principiantes. Kírion. 90 p.


Outras indicações 








Transcrição em partes da aula: Letras, mercado e política ministrada pela professora Ana Paula Barros em 23 de nov. de 2024 .Aula disponível na íntegra aqui com link para o mapa mental na descrição da aula (sugerimos fortemente a escuta da aula na íntegra).



Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.


Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.


Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.


Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.


Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.


Guardar - Antônio Cícero




Gostaria de conversar sobre alguns assuntos que, à primeira vista, podem parecer aleatórios, mas que, na verdade, estão interligados e são de grande relevância. Minha intenção é gerar reflexões e, quem sabe, promover uma mudança de conduta.


Para começar, quero destacar que boa parte deste cenário se desenrola no campo da produção cultural. Esse campo abrange livros, filmes, séries, documentários e, inevitavelmente, a questão editorial e cinematográfica. Quem sabe, no futuro, também incluamos produções culturais em museus e algo relacionado à arte e ao patrimônio, mas ainda não chegamos a esse ponto.

É importante observar o cenário editorial no Brasil. Este tema está em alta por causa da lei que estabelece um preço fixo para os livros durante um ano, sem que nenhuma plataforma possa alterá-lo.

Nos anos 2000, vivemos a era das Meg Stores. Trabalhei em uma Meg Store de grande porte, cuja sede de referência estava na minha cidade. Era uma rede de franquias onde as lojas deveriam ser mais ou menos iguais, mas esta, em particular, era grandiosa. Para vocês terem uma ideia, havia um Gollum em tamanho real e uma árvore feita por um artista plástico. Tudo ali era mágico, bonito e empolgante.

Cresci dentro dessa livraria, começando a trabalhar lá aos 15 anos e saindo apenas ao final da minha primeira faculdade. Isso me deu uma noção do que é o livro no contexto do antigo livreiro, que via o livro como algo nobre. A dona da loja sempre dizia: "livro é nobre". Esse respeito pelo livro permeava tudo, inclusive a dinâmica que os leitores seguiam para consegui-los. Pertenci ao setor de encomendas de livros, onde buscávamos volumes tanto para quem sabia todos os detalhes quanto para quem dizia: "É um livro de capa azul, de mais ou menos tal autor".

O que me interessava profundamente era a dinâmica dos pesquisadores. Eles não eram apenas leitores, mas pessoas que faziam mestrado e doutorado e precisavam de livros específicos para suas pesquisas, às vezes sem saber se seriam úteis, mas aos quais precisavam ter acesso. Lembro-me de encomendar livros para capuchinhos e para pessoas que desenvolviam projetos de pesquisa, tanto em editoras nacionais quanto internacionais.

Minha primeira formação ocorreu em um contexto de extremo respeito ao leitor, ao livro e, principalmente, ao autor. O livro não existe sem o autor. E nesse cenário de Meg Store, havia um comprometimento genuíno dos proprietários em transformar aquele espaço em um lugar de formação e enriquecimento, tanto para os frequentadores quanto para os funcionários. Sei que nem todos tiveram experiências positivas em Meg Stores, mas essa foi a minha realidade.

Para mim, era um ambiente desafiador devido ao grande fluxo de pessoas. A Meg Store, integrada ao shopping, permitia que pessoas de diferentes condições financeiras tivessem contato com livros e materiais de forma acessível. Isso, para mim, representa um benefício social significativo.




Sei que há toda uma discussão sobre o dinheiro envolvido. Era muito dinheiro. Muitos daqueles livros eram consignados. Aqui, acho que posso entrar na questão administrativa da Meg Store para que você, que talvez seja mais jovem, compreenda melhor...

Entenda como funcionava: o livro chegava consignado. A editora emprestava o livro para a livraria, que o vendia e depois repassava o valor para a editora referente ao que tinha sido vendido, devolvendo os livros que sobravam. Dentro dessa dinâmica de uma Meg Store que recebia muitas pessoas, muitas delas com o péssimo hábito de roubar, podia-se perder exemplares. Muitas vezes, algumas dessas Meg Stores não repassavam o valor dos livros perdidos e, às vezes, sequer repassavam o valor dos livros vendidos.

Assim, muitas editoras ficavam reféns da Meg Store. Você perceberá adiante na minha reflexão que essa dinâmica mudou um pouco, mas ainda permanece em parte. A editora era refém da Meg Store, e o autor era refém da editora. Hoje, a editora não é refém de nenhuma Meg Store, graças às plataformas online e à possibilidade de construir uma imagem própria, mas o autor continua sendo refém da editora. Quando digo refém, refiro-me a um refém financeiro, não criativo, onde este agente pode tanto retribuir quanto ludibriar ou enganar no sistema.

Então, veja bem: a Meg Store era, para quem nunca conheceu, uma estrutura grandiosa que combinava livraria, games e papelaria. A livraria se dividia em várias áreas, incluindo um setor dedicado ao público infantil, que normalmente tinha um ar mais mágico do que o restante da Meg Store. Não era toda Meg Store que tinha esse aspecto mágico, mas a que eu trabalhei tinha, por causa do interesse de um dos donos pelo mundo fantástico. Essa árvore que saía do chão e entrava pelas paredes lembrava um pouco a árvore do Castelo Rá-Tim-Bum, algumas árvores de histórias como "O Senhor dos Anéis" ou a árvore onde Alice se reclinou para dormir antes de cair no buraco. Eram lugares e elementos que remetiam a portais que sempre apareciam em algum nível dentro do mundo fantástico. A área infantil também era assim. Depois, essa área foi transformada em um lugar com vários setores coloridos, onde cada cor representava uma faixa etária, e os materiais, livros e brinquedos eram separados nesses nichos enormes e coloridos que ocupavam um setor inteiro. O consumidor podia chegar e solicitar um material por idade, e teria um setor inteiro dedicado a essa faixa etária.

Os brinquedos desse setor... Posso compartilhar o quanto esse empresário estava à frente de seu tempo. No começo dos anos 2000, ele trouxe brinquedos que tinham a característica dos brinquedos europeus: feitos de madeira, educativos, com cores suaves e um forte caráter artesanal. Ele trouxe várias dessas empresas, muitas delas estrangeiras, e também conseguiu contato com várias empresas de artesãos de brinquedos brasileiros para fazer uma curadoria importante e abrangente de brinquedos dessa categoria para todas as idades. Não eram apenas brinquedos das grandes empresas já estabelecidas, como os americanos, que muitas vezes ainda hoje são caros e ultrapassados. Ele conseguiu quebrar isso, trazendo tanto novos lançamentos americanos quanto brinquedos com características europeias ou brinquedos brasileiros artesanais de alta qualidade. Era uma administração muito além do que uma Meg Store comum oferecia.





Agora, vale fazer uma pequena viagem pelo mercado editorial e pela precificação dos livros. Eu disse que comecei a trabalhar nessa livraria aos 15 anos e, até hoje, trabalhei em todas as áreas imagináveis do cenário editorial. Já trabalhei na edição, como chefe de editora, na revisão, tradução, como autora, enfim, tanto no físico quanto no digital. Então, acredito ter uma bagagem sólida. Tenho 37 anos e posso oferecer algumas orientações e informações a respeito desse setor.


O preço do livro é estabelecido da seguinte forma, e isso não mudou; o que mudou foram os agentes que participam da precificação. A editora pode ter uma gráfica própria ou contratar uma gráfica. Se a editora possui uma gráfica, essa dinâmica se torna mais barata, já que não precisa terceirizar o serviço. De modo geral, até 2017, algumas edições de capa mole com orelhas, imagens coloridas dentro do livro, de tamanho convencional (nem pocket, nem grande), poderiam sair de uma gráfica com 150 a 200 páginas, por cerca de R$ 9 a R$ 12. Se o livro fosse de capa dura, com muitas imagens, o custo seria maior. Esse preço é o preço de custo. A editora, então, acrescenta 100% em cima. Se o livro saísse a R$ 9, a editora vendia por R$ 18.

É importante considerar que, se o valor do livro aumenta na gráfica, por exemplo, se a editora precisar pagar mais pelo papel, esse valor pode aumentar ainda mais. Isso ocorre porque a editora continua aplicando a margem de 100% em cima do novo custo. Portanto, o valor do livro aumentou não só porque o preço do papel aumentou, mas também porque todos na cadeia de produção e venda mantêm a dinâmica de acrescentar 100% ou mais em cima.

Por exemplo, suponha que o custo de R$ 9 aumente para R$ 10. A editora pode vender o livro por R$ 20 para compensar o aumento do custo do papel. Quando a editora passa o livro para a livraria ou distribuidor (que pode ser um gestor de sites ou um site específico), esse site ou livraria acrescenta mais 100% em cima. A livraria pode adicionar até mais que 100%, como 120%. Alguns sites aplicam 120% ou 130% de margem em cima do custo original, para cobrir o valor de custo mais a margem de lucro desejada.

Então, com o preço que está sendo vendido hoje, um livro simples de 150 a 200 páginas, que sai da gráfica entre R$ 9 a R$ 12, pode ser vendido ao consumidor final por R$ 40 ou mais. O que vale a pena considerar é que, em nenhum momento, mencionamos a pessoa que fez esse material: o autor. Isso significa que a cadeia está ganhando, mas o valor pago ao autor não mudou significativamente desde os anos 2000. O autor continua recebendo uma margem muito pequena do preço que você paga por um livro físico.

Para esclarecer, vou fazer um comparativo entre o digital e o físico. Se um autor vende seu material pela Hotmart, por exemplo, ou qualquer site similar (existem vários), a Hotmart fica com uma porcentagem. Vamos supor que um livro digital seja vendido por R$ 27; a Hotmart fica com R$ 9 e o autor com R$ 18. O mesmo valor aplicado na Amazon: um livro digital vendido a R$ 27, a Amazon fica com R$ 18 ou R$ 17,80 e o autor com R$ 9 ou R$ 8,20.

Agora, considere a diferença entre um setor e outro. Um livro físico, vendido pelo preço que você vê nos sites, dá ao autor uma margem muito menor. Hoje, quando um livro é vendido por R$ 58 a R$ 60, o autor ganha entre R$ 4 a R$ 6 por livro, ou às vezes menos, como R$ 2. Além disso, o autor é frequentemente induzido a fazer uma "caixinha de doação" para a editora, que já está lucrando bastante. Por quê? Porque, já que o autor recebe tão pouco, ele é induzido a deixar essa margem para a editora em prol da alta cultura, da vida intelectual, da propagação da educação e do livro. O autor tem que amar seu trabalho e trabalhar por amor, enquanto o restante da cadeia trabalha por dinheiro.

Estou contando isso para que você possa ter algumas informações e reflexões sobre o ato de comprar o livro de um autor, achando que está beneficiando o autor, mas na verdade está enriquecendo alguém no meio do caminho que não valoriza o autor. E aqui chegamos ao meu ponto.

O cenário, tanto católico como não católico, tende a nos apontar que devemos valorizar a alta cultura e a elite produtora dessa alta cultura. Devemos ter uma vida intelectual e incentivar outros a também terem uma vida intelectual. Mas quem realmente faz a alta cultura? Se voltarmos a Platão, veremos que os verdadeiros políticos da pólis são os autores, filósofos, escritores, artistas e poetas. Isso significa que os verdadeiros políticos são aqueles que produzem a alta cultura. Veja bem, não é o setor administrativo, muito menos o setor de negociação, que faz a alta cultura. É aquele que cria o material.

Dentro dessa dinâmica, tanto no meio secular quanto no cristão, o autor, o artista, o poeta e o escritor são desvalorizados. Muitas vezes, não paramos para pensar o quanto é grave quando existe um nicho que diz ter metas cristãs, mas na verdade replica as injustiças do meio secular. Essa réplica tem várias camadas. Uma delas é a questão não só da desvalorização, mas da superexploração do autor e não só do autor, mas também do revisor, do tradutor, enfim.

A maioria das editoras fatura em cima de autores mortos. Cecília Meireles falou sobre essa dinâmica das editoras de superfaturar em cima de autores mortos. Não é difícil lembrar de alguém que faleceu e, de repente, surgem biografias, relatos, livros de frases, memórias e cartas. O mercado editorial usufrui e suga o autor enquanto ele está vivo, pagando mal ou não pagando, e depois usufrui dele morto. Nesse momento, você consegue perceber com clareza o quanto o mercado é desleal, cretino e injusto.

Isso me leva ao tópico de que talvez seja importante saber que boa parte do que você vê nas redes sociais e dessa sensação de que o meio está cristianizado, e que os valores estão sendo propagados, é um engodo. Na verdade, muitas dessas dinâmicas são baseadas e replicadas do secular. Não aconteceu o aspecto importante, que é o sinalizador da verdadeira cristianização, da verdadeira catolicidade, que é cristianizar todos os processos.





Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?


Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.


Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.


Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.


Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.


Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com êle me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.


Sua côr não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


A flor e a náusea - Drummond







Nossa, esse processo tem toda a aparência de ser uma canalice. É uma boa maneira de começar essa reflexão. Gostaria de pontuar que são raríssimos os lugares que fazem esse tipo de reflexão. Se você tem uma percepção baseada nesse verniz de catolicidade, acreditando que as dinâmicas mudaram de verdade e profundamente, talvez seja importante refletir sobre isso com base em outras informações que possam te conduzir a um lugar um pouco mais seguro dentro dessa realidade.

Digo isso como alguém que sempre foi católica. Percebo que, muitas vezes, a dinâmica dos recém-convertidos tem aspectos que precisam ser corrigidos, e talvez vocês não consigam alcançar ou ter acesso a alguém que faça essa correção, que normalmente seria o diretor espiritual. Muitas vezes, esse verniz de catolicidade é criado pelo número de pessoas envolvidas nas redes sociais, e muitas delas também são recém-convertidas. Então, muitos de vocês, recém-convertidos, se espelham em outros recém-convertidos. Isso pode parecer lógico em um primeiro momento, mas, ao refletir um pouco mais, perceberão que não tem lógica alguma e não é prudente.

É importante escutar e seguir a Sagrada Escritura e a Santa Tradição da Igreja. Já disse isso anteriormente, mas se eu apontasse as pessoas que estavam em alta em 2012, quando a internet ainda estava em crescimento, muitos de vocês desconheceriam completamente. Isso porque essas pessoas ou saíram dessa forma de servir a Deus, ou se dedicaram exclusivamente a algum tipo de vocação específica, ou seguiram outro caminho que nada tinha a ver com aquilo que estavam propagando. É importante que haja uma maturação dentro dessa visão, e talvez isso possa ser fortalecido com acesso a algumas ações.

Essa nova leva católica traz consigo traços do brasileiro - populismo, polemismo e famosismo - traços que já existiam no cenário de TV, rádio, etc., e foram aplicados ao nicho que cresceu com a rede social. Não sou contra a rede social, mas preciso apontar como ela mudou as dinâmicas de comportamento. Dada a área da minha atuação, preciso pontuar as realidades.

O nicho católico passou a existir. Era um nicho que não existia, e claro que o fato de existir é melhor do que não existir. Ter materiais, produtos e coisas feitas com essa intenção é positivo. Porém, corremos o risco de nos tornarmos uma réplica digital das barracas em frente ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida. Criar um nicho saudável é uma coisa; tornar-se um vendilhão no templo é outra. Aos meus olhos, já estamos à beira de estabelecer esse perigo como uma realidade. É por isso que vale a pena falar sobre números na pesquisa anual Salus, que é um dos objetivos desta aula.




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A questão é até que ponto vocês conhecem a dinâmica digital. Concluí que muitos de vocês ou desconhecem a dinâmica ou têm uma visão ingênua dos processos. A primeira pergunta foi em relação ao tamanho do site Salus in Caritate. A maioria conhece algumas coisas que falo no site, que é um site de nicho de médio alcance. O que isso significa? Foi a matéria da segunda pergunta: quantas pessoas atingiria mensalmente um site de médio alcance. Percebi que vocês não têm ideia numérica das coisas, talvez por desconhecimento ou preconceito. Algo do tipo "eu conheci agora, logo passou a existir agora". Portanto, só pode ser desse tamanho.


O site tem um alcance de mais de 60.000 visitas mensais. Um site de nicho de pequeno alcance teria 30.000 ou 10.000 visitas mensais. Usando isso como gancho quero fazer uma reflexão sobre a rede social mais visualizada, que no caso atual (2024) é o Instagram. Pode ser que você, vindo do futuro, tenha outra rede em mãos. Agora, em 2024, é o Instagram. No Instagram, suponha que alguém tenha 900.000 seguidores. O layout da rede é feito para que o número seja maior que a pessoa. Se você olhar o número de seguidores e postagens, ele é maior que o nome da pessoa dona da conta. Os números são maiores que a identidade e a personalidade, o que coloca em cheque muitas das falas propagadas na mesma rede de que a identidade importa. O que é a identidade imposta por essa rede?

O Instagram fez com que nossa identidade fosse atrelada a esse número, maior que nosso próprio nome na plataforma. Antigamente, apresentávamos um currículo com projetos, realizações e conhecimentos. Hoje, aquele número define quem você é, aqui no Brasil. Na França e em Portugal, não é assim, mas aqui é assim. Você é definido pelo número. Muitas vezes, pessoas que não têm capacidade são lidas como capazes porque têm números elevados. Isso é uma dinâmica estabelecida pela própria ferramenta para que isso seja determinante.

Dada essa dinâmica, vale observar...

Será que isso é real? Não vou entrar no ponto de que existem pessoas que compram seguidores. Vamos supor que alguém tenha realmente 900 mil a 1 milhão de seguidores. Quanto será que essa pessoa realmente alcança em um Story ou uma postagem? Isso depende do estado do Instagram da pessoa, ou seja, da conta dela. Se a pessoa é cancelada, se não é, se fala sobre polêmicas ou não, se tem visibilidade em outros nichos ou não. A aparência física dessa pessoa também será levada em consideração, pois é uma rede baseada na imagem e que enfatiza muito essa dependência visual.

Aqui não estou fazendo uma crítica, nós também somos essa imagem. Estou dizendo que o Instagram supervaloriza essa questão, assim como o Twitter supervaloriza a opinião. Quanto mais curta, direta e "lacradora" ela for, melhor. Então, cada rede valoriza um aspecto.

Essa pessoa com 900 mil seguidores pode atingir, em um Story, 90 mil pessoas. Por que digo "pode atingir"? Porque pode ser um pouco mais, se ela tiver super alcance, estiver em um momento polêmico importante, etc. Ou pode diminuir bastante esse alcance para 20 mil, 30 mil, se estiver com alguma questão na conta ou se o Instagram limitar temporariamente a visibilidade das suas postagens.

Não estou dizendo que é o algoritmo que dita tudo, mas ele dita uma parte. A ferramenta trabalha com imagens em vários estratos: não só a imagem da pessoa, que é incentivada a se expor o tempo todo, mas também a imagem dos números em detrimento da própria pessoa. O número que aparece na página inicial não é necessariamente o número que aquela pessoa alcança.

Mesmo que o número seja 90 mil, ela tem acesso, a que conteúdo em um Story de 15 segundos, 60 segundos? Elas têm acesso a um fragmento ou a um fragmento do fragmento. Aqui acho interessante pontuar, por exemplo, que um livro é um fragmento do pensamento do autor sobre um determinado assunto. Então, um livro é uma parte de um todo. Citações, trabalhos, artigos que referenciam aquele livro são fragmentos que contêm fragmentos. Um texto no site é baseado, talvez, no fragmento do pensamento do autor e em fragmentos de fragmentos, que são artigos e outras publicações.

O que seria um Story? Se esses são fragmentos, os Stories seriam, dentro de uma produção cultural de conteúdo, migalhas.

Podemos discutir um aspecto de valor e ética a respeito do conteúdo presente em redes sociais. Esse material é uma migalha que pode ser útil ou não, atingindo um grande número de pessoas, mas não necessariamente correspondendo ao número de seguidores exibido na página inicial do usuário.

No caso de um site de médio alcance como o Salus, nem vou mencionar os grandes sites, pois não estão na mesma categoria, já que o Salus é um site de estudo. Isso significa que os visitantes estão acessando materiais, cronogramas de estudo, metodologias, processos de estudo ou edificação espiritual, especialmente no primeiro pilar da Piedade da Educação Clássica Católica. É importante destacar que não cobro para produzir esse material, mas ele é fundamental para que outros pilares possam ser desenvolvidos.

A diferença entre o que a pessoa acessa e o que ela se alimenta é clara. Eu não trocaria esse engajamento por um número maior de visualizações em Stories. Estudar, dentro do nicho do Salus, é mais importante do que apenas engajar. O verdadeiro engajamento está no estudo. Se a pessoa consegue sair dos vórtices de conteúdos e polêmicas e focar no estudo, ela realmente engajou. Isso está relacionado com a cristianização dos ciclos e nos faz refletir sobre até que ponto podemos nos curvar ao que é estabelecido no meio secular como correto.

Outro ponto importante é como os aplicativos disputam a nossa atenção. É justamente a nossa atenção que é vendida por esses aplicativos. Quando você baixa um aplicativo no seu celular, você aumenta o valor de mercado dele, pois o número de usuários influencia diretamente nesse valor.

Essas plataformas sobrevivem com patrocínios. O comercial de TV foi substituído pelos anúncios patrocinados nas redes sociais. Esses anúncios não vendem apenas o espaço, mas também a nossa atenção. Quanto mais um aplicativo consegue reter a nossa atenção, mais patrocínios ele atrai e mais caro pode cobrar por visibilidade. A nossa capacidade cognitiva de atenção se tornou mercadoria.

A pergunta é: você está ciente disso? Você concorda com isso? Não temos um protocolo de responsabilidade social, psicológica e ética desses aplicativos. O Instagram teve uma pequena crise de consciência quando alguns psicólogos americanos e europeus começaram a falar sobre os efeitos das redes sociais. Isso resultou na ocultação de vários números, mas logo foi revertido.




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Existe um site chamado "Factor Culture" que analisa o comportamento dos povos em comparação. Você pode comparar Brasil com Estados Unidos, China, Venezuela, Cuba, entre outros. Esse site mostra como o Brasil sempre se destaca na questão do status. A dinâmica de parcelar várias vezes uma bolsa de marca é um exemplo disso; o importante é ter aquela marca para ser associado a ela. Essas ferramentas de status são usadas para construir a identidade pessoal.
As marcas e aplicativos, que também são empresas e estruturas de marca, sabem disso. E não é à toa que as redes sociais são muito mais usadas aqui no Brasil. Se você fizer uma pesquisa simples, verá que os países ao redor, como Venezuela, Peru, Colômbia e Argentina, não utilizam as redes sociais tanto quanto o Brasil. Todas essas vertentes estão relacionadas a isso. Isso significa que talvez você e eu também sejamos impactados por esse fenômeno. Nós não somos separados do povo. Então, mesmo estando em um nicho no qual você acredita estar tendo uma abordagem reflexiva e atenta, talvez você esteja replicando esse comportamento.


Por exemplo, é nítido o número de pessoas que têm estudado filosofia na universidade, mas não têm capacidade de avaliar as questões sociais com clareza e se deixam levar e enganar por essa mentalidade populista, polemista e famosista. Inclusive, pautando suas análises de avaliação do professor ou de algum trabalho por essas ferramentas, mesmo estudando filosofia.

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Nós, dentro dessa ala, você pode pegar sua plaquinha que considera sua, seja católico, de direita, esquerda, conservador, de cima ou de baixo, ainda não entendemos o valor do professor. Existem lugares em que o professor é extremamente desrespeitado. Situações em que três professores estão ali, os que não são tão conhecidos em redes sociais, que às vezes nem têm rede social, chegam a ser maltratados e deixados de lado em detrimento daquele que tem muitos seguidores, mas é incompetente e tem conhecimento inferior àquele que não tem rede social ou que não é tão conhecido. Isso feito por essas mesmas pessoas que dizem estudar filosofia, que dizem ser de direita, esquerda, de cima, de baixo, enfim, a situação está beirando o caricato.




Isso é o que gostaria de pontuar a respeito dessa interação do meio e da intersecção com redes sociais e a formação de imagens. É uma caricatura, e pode ser que você esteja acreditando na caricatura. Não estou dizendo que todos são caricatos. Vamos exemplificar porque a parte acachapante é difícil de lidar. Não estou dizendo que todo mundo é caricato. Estou dizendo que existe a linha da caricatura, e essa linha da caricatura, entenda, não é de um ente ou de outro ente, não é de fulano ou beltrano. É uma linha que as pessoas podem entrar e sair dela à medida que têm consciência de que ela existe. É uma linha estabelecida por essas intersecções que acabei de explicar, e a pessoa entra nela e pode ficar ali, vivendo ali, achando que aquilo é real. Ela pode sair dela quando tem a real convicção disso. A questão é: você tem consciência de tudo isso que estou falando? Qual é o seu posicionamento e ações a respeito disso?




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Principalmente dentro dessa cadeia, você e eu, embora eu também seja produtora, mas também sou consumidora, podemos ter uma ação de norteadores do mercado. Porque isso aconteceu: o catolicismo se tornou um nicho de mercado, e muitas dessas empresas não estão realmente se importando com marketing. Marketing é filosofia de empresa. A propaganda, o banner, o reels são ferramentas de promoção e divulgação. O marketing é a filosofia. Se eu disser que a maioria desses lugares não tem filosofia de empresa porque não se importam com isso que acabei de falar, ou têm uma filosofia de empresa que não posso nem chamar de secular, porque há muitas empresas seculares que são muito sérias nesse quesito. Então, posso dizer que é uma conduta imoral da qual não voltam atrás.

Você, como consumidor, tem notado isso? Consegue observar o seu papel dentro dessa estrutura? Consumir determinados conteúdos digitais é uma forma de endossar determinadas atitudes. Você tem noção de que existe uma diferença no fim da linha de produção cultural? Se realmente estiver disponível e disposto a encorajar quem não está sendo valorizado, qual é a sua visão a respeito do autor? Qual é a sua visão a respeito do professor? Já parou para pensar na sua própria atitude pessoal a respeito disso?




Essa é a minha intenção, porque não acredito que o macro será mudado com facilidade. Acredito que as pessoas, tendo consciência dessas realidades, refletindo e tendo maiores informações para constituir balizadores reflexivos realmente concretos, possam fazer uma mudança efetiva.

Os autores e os professores têm trilhado um caminho independente e solitário por conta de diversas mudanças no cenário. Então, o professor não pode mais contar com uma estrutura educacional que o apoie 100%, pois essas estruturas já não existem mais. Ele é visto como uma ferramenta, um produtor que gerará um produto educacional, e esse produto será mercantilizado. Ele é apenas o fazedor de um produto. O mesmo acontece com o autor; ele é visto como um produtor de um produto que será vendido e gerará lucro para alguém, menos para ele.

Os produtores culturais têm se deslocado desse cenário para trilhar um caminho independente, ainda que solitário, já que, junto a essas estruturas, eles continuam solitários. O autor, por exemplo, não tem mais ajuda do editor. O editor, antigamente, era um suporte para o autor, inclusive para defendê-lo. Assim como o curador de arte é um defensor do artista. O editor não está lá para ser o editor de negócios. Mas isso tem se transformado: ou o editor visa o dinheiro e quer ganhar dinheiro, ou é um editor crítico que está ali apenas para criticar a obra, acreditando que essa é sua função.

O papel do editor não é nem um, nem outro; é simplesmente apoiar o autor nos momentos em que ele precisa. Já cheguei a sentar à mesa com um autor que não conseguia escrever. Tudo estava na mente dele, mas ele não conseguia colocar no papel, então ele ditava e eu escrevia. O editor ajuda a conceber a obra e a valorizar o autor. Esse sistema ruiu. Não existe mais esse tipo de editor.

O mesmo acontece com colégios e institutos que realmente valorizam o professor. E digo isso de verdade, afastado da questão do populismo, do polemismo e do famosismo. Então o escritor, o professor, o artista, desloca-se dessas estruturas, abandonando-as por caminho mais justo.




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Como já pontuei a respeito das questões do mercado de valoração e remuneração desses profissionais, isso talvez aponte para a necessidade de deslocamento da cultura da produção cultural de entidades e até de partidos, para que ela possa sobreviver independentemente do que esteja acontecendo nos ciclos partidários, políticos, ideológicos, etc. Para que consiga ter uma vida fértil. Alguns países já possuem essa característica, onde a produção cultural continua acontecendo independentemente do que está em pauta na política, na ideologia, ou até mesmo na ascensão e declínio de grupos. Isso é favorecido por alguns incentivos, inclusive do próprio governo.

Muita gente tem problemas com as questões de incentivo, mas deixo aqui mais um balizador reflexivo: como a cultura conseguirá se restabelecer se não tiver incentivo? Nós temos um país com muitas dificuldades em vários setores, mas não podemos continuar com essa percepção de que a cultura é inferior no benefício que traz ao povo. Primeiramente, no que se refere à educação, a cultura é parte integrante do processo educacional. O processo educacional no Brasil está em declínio por conta da falta de acesso ao acervo cultural. Um dos pontos é esse, pois a metodologia não faz com que o aluno acesse esse acervo.

Investir em cultura para que as crianças possam ter a possibilidade de acessar lugares (e estou falando das pessoas nas periferias) que não teriam em outros momentos. Acessar bibliotecas e teatros com facilidade é enriquecer o processo educacional e facilitar o papel do professor, principalmente o professor da periferia. Ele precisa de um ambiente que seja um pouco mais salutar do que aquele em que a criança vive dia e noite. Isso só é possível com uma cultura estabelecida, com portais em que essa criança, esse jovem, esse adolescente possa entrar.


Porque, da mesma forma que uma boca de fumo na periferia é um portal para o inferno, a porta de um teatro, de um museu, ou de uma igreja são portas para o céu. Isso é estabelecido pela cultura. Por isso, reafirmo: enquanto esses ditos produtores culturais não mudarem sua conduta, isso nunca será cristianizado e esses portais nunca se abrirão; será somente um discurso para enaltecer egos nas redes sociais.


Eu me pergunto muitas vezes: Qual é, de fato, a direção que esses projetos, principalmente os editoriais, estão tomando? Livros com preços exorbitantes, feitos mais para serem exibidos do que lidos, livros cuja produção visa apenas a aparência, e não o acesso ao conteúdo para pessoas que talvez não possam pagar por eles.


Será que esses lugares estão com os pés no chão da realidade brasileira, onde a maioria das famílias gasta R$ 200 ou menos para alimentar cinco pessoas? Será que têm ética cristã em sua conduta? Será que existe mesmo o desejo de ganhar um pouco menos para conseguir levar um pouco mais?


Não vou entrar no cenário do cinema, pois acredito que talvez esteja um pouco melhor, mas o cenário editorial precisa de uma revisão urgente, de uma salvação através de um golpe de ética providencial.




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O livro é a obra de arte mais acessível, e é por isso que talvez eu tenha gastado tanto tempo falando sobre isso. Estou nesse ambiente desde os 15 anos de idade. Minhas graduações e pós-graduações, até mesmo quando estava na área da saúde, sempre tiveram muita relação com a literatura e os livros. O livro é a obra de arte mais acessível.


Você consegue fazer com que uma criança, um jovem, um adolescente, um adulto e até um idoso entrem em contato com uma obra de arte. Entrar em um museu requer um deslocamento, mas o livro não; o livro traz a obra de arte às mãos de quem o lê. É o acesso mais genuíno, direto e fácil. Isso me leva ao tema da pesquisa. Percebo que, talvez por falta de direção, as pessoas estão interessadas em educação e filosofia, mas esquecem que a arte e a literatura são ferramentas essenciais.


Só que essa ferramenta precisa ser acessível. Livro não é artigo de luxo; livro é algo necessário para a sanidade de um povo. Precisa ser de fácil acesso, de custo acessível e precisa chegar às pessoas. Recentemente, tive contato com um grupo de catequese em que três famílias não tinham Bíblia. As Bíblias que possuíam eram protestantes; não tinham acesso à Bíblia católica, não tinham acesso de verdade, porque a Bíblia está custando quase R$ 100. Para essas famílias, gastar R$ 100 em uma Bíblia pode parecer pouco para alguns, mas é quase o valor da compra do mês para essas famílias.




Eu não sei realmente o que passa na cabeça desse setor. Sinceramente, não sei se eles vivem no mesmo Brasil que eu. Não sei se essa bolha excessiva, esses ciclos que eu já chamava de bolha, que agora todo mundo repete como papagaios da internet... Talvez porque vivam em um estrato social mais favorecido. Mas é importante que aqueles que têm um estrato social mais favorecido tenham visão dessa realidade e, ao contrário dos revolucionários que têm dó e pena de si mesmos por pertencerem a uma classe social maior, possam utilizar dessa posição para facilitar o acesso de outras pessoas, inclusive deixando algumas coisas para trás.






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A lei de incentivo à cultura não é algo supérfluo. É um erro acreditar nisso. E foi justamente esse erro que fez com que muitos dos cenários brasileiros fossem subjugados ao revolucionário. Quando os militares deixaram as universidades, eles deixaram uma das facetas da produção cultural. Hoje, algumas pessoas, mesmo dentro de um cenário conservador ou católico, seja qual for a plaquinha que queiram colocar, dizem que estão fazendo produção cultural, mas não mudaram a forma de gestão. Se não mudarem a forma de gestão, é uma réplica exata, ainda é um abandono de cultura. É apenas um afago de ego, uma construção de status, uma construção falsa e enganosa na rede social.


O incentivo cultural precisa, sim, vir do Estado, embora possa ser também apreciado por vias privadas. Mas precisa existir, porque a educação precisa dessas ferramentas e a saúde também precisa dessa ferramenta. Você realmente acha que as pessoas não precisam de cultura estando em ambientes hospitalares e em outros lugares? Elas precisam disso também porque a arte, a cultura, é um curativo da alma. É um veículo que pode ser utilizado por Deus para purificar, para fazer um processo de catarse na alma das pessoas. Então, também não é um artigo que deve ser deixado de lado na área da saúde, inclusive na formação desses profissionais.


No último projeto de pesquisa que fizemos, coloquei exatamente o grande benefício que médicos, nutricionistas e psicólogos conseguem com um maior aporte formativo da área da filosofia estética, educação estética, arte, patrimônio e literatura para exercer suas funções e para acessar e ter o devido respeito às pessoas. Talvez, dentro desse cenário de propagação de alta cultura, falte educação estética, que é uma propulsora do respeito genuíno, da valorização genuína, de uma sensibilidade verdadeira e não caricata ou falsa.




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Dentro dessa questão do incentivo, existem algumas iniciativas feitas por outros países. Por exemplo, a França tem a Lei da Cópia Privada. Você que mora na Europa pode me mandar depois um veredito a respeito disso, se isso funciona realmente na prática no solo do país em que você vive, pois existem várias coisas que são bonitas, mas às vezes, para quem vive nesse solo, não são tão reais assim, não são tão verdadeiras.


As pessoas, ao comprarem seus equipamentos, pagam um pouco a mais já embutido no preço do equipamento, para que possam acessar conteúdos gratuitos pela internet de diversas formas digitais, autorizadas pelos próprios autores, artistas e produtores. Esse valor é revertido para projetos que serão disponibilizados gratuitamente. É um ciclo de gratuidade dentro do cenário cultural, em que os produtores, autores e artistas são valorizados, pois são entendidos como pessoas que precisam receber sua remuneração. Também é entendido que esse produto cultural, essa produção cultural, precisa chegar gratuitamente às pessoas. Então, alguém precisa fazer algo para equilibrar essa conta de recursos versus gratuidade.




A Lei da Cópia Privada foi uma forma que eles estabeleceram para conseguir fazer esse circuito funcionar. Claro que deve existir alguma questão em relação aos projetos aceitos, mas pelo que consegui ver de alguns colegas e das questões da área de projetos, existem produções de diversos tipos e alcances, muitas vezes feitas de forma simples. Documentários mais acessíveis, produções feitas com uma, duas ou três pessoas, foram aprovados. Esse valor é colocado em algumas instituições que fazem a curadoria dos projetos e a avaliação dos mesmos. É claro que o número de projetos é grande, muitas vezes recebendo 1.200 projetos, dos quais 180 são aprovados.


Existem algumas questões para gerenciar esse aspecto da gratuidade da produção cultural que precisam ser levadas em consideração. Talvez não seja importante para algumas pessoas quando pensado de uma forma simplista, mas dentro de um cenário tão complexo como o Brasil, seria o mesmo que abrir portais para oportunidades, para melhoria de vida, para beleza e até mesmo para o paraíso para muitas dessas pessoas, dependendo do lugar em que vivem. Muitos dos professores e profissionais vão entender exatamente do que estou falando e do quanto esses portais fazem falta na didática. O professor pode ser um portal, mas se ele contasse com outros portais que cercassem esse aluno, ele provavelmente teria mais chances de encontrar um caminho mais salutar, mais edificante e até mesmo para quem não está em uma situação ou ambiente tão ruim e desvantajoso para a formação.


Existem opções, existem formas. Talvez tenhamos a oportunidade de deslocar a cultura desses enredos políticos e ideológicos, tanto de direita, de esquerda, conservador, progressista, e fazer com que a cultura consiga subsistir com autonomia, com respeito aos diversos tipos de produção cultural, independente do tipo de governo e do tipo de coisa que venha a se estabelecer no aspecto da politicagem. Porque, como eu disse, quem faz política mesmo é o professor, o escritor, o artista. Talvez esse movimento dos autores, tradutores e professores, de uma independência ainda que solitária, mas que valoriza o trabalho, possa ser um primeiro passo para que consigamos esse aspecto um pouco maior, que é deslocar a cultura da dependência dos enredos políticos.




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O Brasil já teve vários projetos culturais de identidade nacional. Durante o regime militar, houve um projeto que tinha esse ideal da alta cultura popularizada gratuitamente. As pessoas tinham acesso a concertos gratuitos feitos pelas orquestras sinfônicas. Isso ainda existe nas orquestras sinfônicas, mas era algo grandioso, propagado e transmitido na TV. Inclusive, você encontrará a Orquestra Sinfônica do Brasil fazendo um concerto público que foi transmitido pela Globo. Era um projeto estabelecido que não foi para frente.


Antes disso, tivemos um projeto de um Brasil modernista, um Brasil que tinha novas ideias, que não assimilava mais as coisas europeias, mas que concebia suas próprias coisas, gerando uma reflexão muito presente no livro "Macunaíma". O próprio Macunaíma passa a ser uma representação do brasileiro que não tem muita ideia de quem é, mas o livro passa essa ideia de que o brasileiro, na verdade, é o índio que se tornou europeu.






Mais recentemente, tivemos muitas iniciativas em relação à questão do moderno e do artesanato, de valorizar coisas locais. Todos esses movimentos intuem que o brasileiro não tem personalidade. Nós não temos, como outros países, uma veste típica, uma forma típica de ser, etc. Somos o resultado da junção de vários povos, de várias línguas, e isso talvez seja a nossa grande força cultural. Por isso, esse deslocamento é tão importante, porque precisa ser um território que realmente valorize tudo isso que está dentro do brasileiro. Nós não somos apenas o índio, somos também o índio, o negro, o europeu, o asiático, o árabe. Temos todas essas vertentes na nossa constituição de povo, e a cultura não pode ficar restrita a ponto de querer silenciar qualquer uma dessas vozes.






Na nossa ação cristã, é importante cristianizar tudo isso. Todas essas culturas podem passar por um processo de cristianização, que não significa torná-las europeias.


Isso exige muito mais de nós, que realmente somos os fazedores dos livros, das artes, dos monumentos, dos patrimônios. Aqueles que realmente fazem política. Quem precisa fazer essa primeira valorização somos nós mesmos e, num segundo momento, você que consome essas obras. O começo é o artista, o autor, o poeta, o professor, e o fim é o aluno, o consumidor, o leitor.


Essas são as duas pontas que realmente importam e são os nossos anseios, as nossas boas ambições que determinam muito dentro do cenário. Acho que esse é o fim dessa reflexão um pouco aleatória, mas nem tanto assim, que possa te fornecer algumas informações para fazer uma reflexão baseada numa silenciosa sensatez.




Eu sei que pode ser que isso não mude nada na conduta, porque nem sempre saber significa mudar, mas espero que pelo menos alguém tenha um refinamento a respeito do que está acontecendo. Não se deixe ludibriar por vernizes, mas consiga fazer na sua conduta pessoal algumas mudanças a respeito desse cenário. E aí sim, realmente estaremos defendendo e promovendo a alta cultura.








Resumo em tópicos:


Funcionamento das Editoras e Livrarias

Livros chegavam consignados às livrarias, que vendiam e repassavam o valor à editora, devolvendo os livros restantes.
Muitas editoras dependiam das Meg Stores, mas hoje dependem das plataformas online.
A dinâmica do mercado editorial mudou, mas os autores ainda são financeiramente prejudicados.



História e Transformação das Meg Stores

Meg Stores combinavam livraria, games e papelaria, com setores dedicados ao público infantil.
A administração dessas lojas muitas vezes era avançada, trazendo brinquedos educativos e artesanais.
A área infantil se transformou em setores coloridos, com nichos específicos por faixa etária.


Precificação dos Livros

Livros têm seus preços calculados com base no custo da gráfica, com a editora adicionando 100% em cima.
Livrarias e distribuidores também adicionam suas margens, elevando o preço final ao consumidor.
Autores recebem uma porcentagem pequena do valor final de venda do livro.




Impacto da Precificação na Acessibilidade

Livros caros dificultam o acesso da população, especialmente em áreas periféricas.
O mercado editorial muitas vezes lucra com autores mortos, enquanto os vivos recebem pouco.
A necessidade de incentivos culturais para facilitar o acesso à cultura e educação.



Influência das Redes Sociais

Redes sociais, como Instagram e Twitter, valorizam aspectos diferentes, como imagem e opinião.
O número de seguidores nem sempre reflete o alcance real das postagens.
A identidade nas redes sociais é frequentemente baseada em números de seguidores.




Produção Cultural e Gestão

A produção cultural deve se desvincular dos enredos políticos e ideológicos.
A Lei da Cópia Privada na França como exemplo de incentivo cultural.
A necessidade de uma gestão cultural que valorize e remunere adequadamente autores e artista




Importância da Cultura na Educação

A cultura é fundamental para o processo educacional e deve ser acessível.
Investir em cultura enriquece o processo educacional e facilita o trabalho dos professores.
Acesso à cultura pode transformar vidas, oferecendo novas oportunidades e experiências.




Reflexão Final

A necessidade de uma reflexão silenciosa e sensata sobre o papel da cultura e educação.
Mudanças na conduta pessoal podem promover a alta cultura de forma genuína.
A valorização do autor, do professor e do artista é essencial para uma cultura cristianizada e autêntica.






































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"Pois o preceito é lâmpada, e a instrução é luz, e é caminho de vida a exortação que disciplina" - Provérbios 6, 23

Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

Totus Tuus, Maria (2015)




"Quem ama a disciplina, ama o conhecimento" - Provérbios 12, 1

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