Dizer sim a Deus e não à mediocridade (Pe. Leo J. Trese): a radicalidade da vida cristã
Publicado originalmente em 1966 sob o título You Are Called to Greatness (Você é chamado para a grandeza, em tradução livre), o livro tem uma proposta bastante simples: recordar ao leitor que a vida cristã não foi feita para a mediocridade.
O autor, sacerdote norte-americano, dedicou boa parte de sua vida à formação religiosa e intelectual dos leigos. Depois de anos atuando pastoralmente e de enfrentar problemas de saúde, passou a dedicar-se especialmente à pesquisa e à escrita, produzindo mais de vinte obras voltadas tanto para sacerdotes quanto para o público em geral.
O contexto em que o livro foi escrito também é curioso. Era 1966: ano do lançamento do revolucionário álbum Revolver, dos Beatles, e do falecimento de Walt Disney. Ainda estavam vivos nomes como Che Guevara, Guimarães Rosa, Martin Luther King, São Padre Pio, São João Paulo II, Venerável Fulton Sheen, Gustavo Corção, Venerável Carla Ronci e São Josemaria Escrivá.
Talvez isso ajude a compreender o tom da obra. O livro foi escrito em um período de grandes mudanças culturais, mas suas preocupações são essencialmente permanentes: fidelidade, santidade, zelo e perseverança.
Trata-se de uma leitura curta e bastante acessível. É o tipo de livro que pode ser entregue a um crismando, a um recém-convertido ou mesmo a alguém que se considera cristão, mas acumula uma longa lista de exceções, concessões e justificativas para não levar a fé tão a sério.
Confesso que esperava algo mais aprofundado. No entanto, também compreendi rapidamente que essa não era a intenção do autor. Trese não deseja construir um tratado teológico. Seu objetivo é muito mais simples: arrancar a alma da inércia.
Há algo de direto e quase urgente em suas páginas. Ele procura apresentar aquilo que poderíamos chamar de mínimo necessário da radicalidade evangélica.
Durante a leitura, dois temas chamaram particularmente minha atenção: o martírio e o zelo. Ambos costumam aparecer pouco em livros introdutórios, e justamente por isso se destacam.
O autor escreve:
"Há uma pequena parcela de martírio na vida de cada pessoa que se compromete a seguir a Cristo; que procura, dia após dia, viver com fidelidade... muitas vezes, é mais fácil morrer por Cristo do que viver por Ele."
"O verdadeiro zelo, porém, não se limita às orações. São as nossas ações que evidenciam, com mais clareza, o nosso zelo. Há muita coisa que podemos fazer por Deus, se prezamos verdadeiramente os Seus interesses."
Talvez a passagem mais provocativa do livro seja a que trata da perda da fé:
"As tentações contra a Fé mais frequentemente fatais são as originadas por conflitos morais, mais do que por obstáculos de doutrina."
E continua:
"Um homem não perde primeiro a Fé devido a dificuldades intelectuais e depois se casa com uma divorciada. Uma mulher não perde primeiro a Fé e depois começa a usar anticoncepcionais. Na maior parte das vezes, a sequência é precisamente o contrário".
Trese sugere que, muitas vezes, certos problemas intelectuais escondem conflitos morais mais profundos.
Ao final da leitura, ficou-me a impressão de que o autor está tentando responder a uma questão bastante atual: como permanecer fiel em uma época que normaliza a mediocridade?
Hoje frequentemente confundimos equilíbrio com acomodação. O caminho do meio se transforma facilmente no caminho do mais ou menos. E a radicalidade cristã acaba sendo reduzida a uma opção para poucos.
O mérito do livro está justamente em recordar que a santidade não é uma vocação extraordinária reservada a alguns. É a vocação normal dos cristãos. E a santidade sempre carrega notas de radicalidade.
Por isso, considero a obra uma boa indicação para iniciantes na vida espiritual, para crismandos e para qualquer pessoa que precise ser lembrada de que o Evangelho não foi feito para ser negociado, mas vivido.
¹Ana Paula Barros
Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).
Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.
Totus Tuus, Maria (2015)

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