Trivium (Irmã Miriam Joseph): formar homens livres
Alguns livros parecem escolher o momento certo para chegar às nossas mãos. Recebi meu novo exemplar de Trivium, gentilmente enviado pela Editora Edipro, por meio do preciso trabalho da LC Comunicações, no dia 15 de outubro, Dia dos Professores. Difícil imaginar uma coincidência mais adequada. Afinal, estamos diante de um dos grandes clássicos da educação liberal, uma obra dedicada justamente à formação da inteligência por meio da gramática, da lógica e da retórica.
A educação liberal é um prisma educacional que busca formar indivíduos de maneira ampla e integral, desenvolvendo conhecimentos técnicos, competências intelectuais, éticas e sociais. Fundamentada no estudo das humanidades, das ciências e das artes, ela incentiva o pensamento crítico, a capacidade de argumentação, a criatividade e a autonomia na tomada de decisões. O método prepara os estudantes para compreender a complexidade do mundo, atuar de forma responsável na sociedade e adaptar-se aos diferentes desafios pessoais e profissionais ao longo da vida.
A nova edição brasileira em capa dura apresenta ao público uma das obras mais importantes já escritas sobre o tema. Escrita pela genial Irmã Miriam Joseph, chega em tradução de Daniel Moreira Miranda, com edição de Jair Lot Vieira e Maíra Lot Vieira, coordenação editorial de Karine Moreto de Almeida e o prefácio da edição original assinado por Marguerite McGlinn.
O que mais me chama a atenção no Trivium é que ele não trata a linguagem como uma ferramenta secundária. Pelo contrário. A linguagem aparece como o próprio instrumento pelo qual conhecemos a realidade.
A própria edição destaca que a autora reconstrói o método medieval por meio do qual se ensinava o homem a compreender, organizar e comunicar ideias com precisão e beleza. Talvez seja justamente por isso que a obra tenha envelhecido tão bem, embora esquecida por muitos anos em terras sul-americanas. O Trivium nos devolve a convicção de que pensar é uma arte e é sempre um refrigério lê-lo.
A própria autora resume admiravelmente essa arquitetura intelectual:
"A gramática prescreve como combinar palavras de modo a formar corretamente as frases. A lógica prescreve como combinar conceitos em juízos e raciocínios de modo a obter a verdade. A retórica prescreve como combinar frases em composições completas com unidade, coerência e clareza."
Não por acaso, a autora utiliza exemplos retirados de Shakespeare, Milton, Platão e de outros grandes autores da tradição ocidental para mostrar como a estrutura da linguagem molda o próprio raciocínio.
Durante a leitura é citado o lema do colégio em que a Irmã ministrava aulas: Facio liberos ex liberis libris libraque.
Uma tradução possível seria:
"Transformo crianças em homens livres por meio dos livros e da balança."
Ou, de forma ainda mais livre:
"Formo homens livres pelos livros e pelo aprendizado do discernimento."
É difícil não se divertir com a sonoridade da frase. E neste caso a diversão não dispersa; é, na verdade, um lema muito ousado: o objetivo da educação é fazer homens livres. E ainda:
"O trivium é o órgão, ou instrumento, de toda educação."
Hoje fala-se muito em conteúdos, especializações, competências e certificações. A Irmã Miriam fala em instrumentos intelectuais. Antes de ensinar qualquer coisa, é preciso ensinar alguém a aprender. Digo sempre aos meus alunos que o problema deles é que querem sair da postura de aprendiz muito rápido; digo o mesmo aos membros do clero que foram ou são meus alunos. Assim, vale transcrever os seguintes trechos:
"A linguagem é um sistema de símbolos para a expressão de nossos pensamentos, volições e emoções."
"A comunicação tem lugar somente quando duas mentes realmente se encontram."
"Na verdadeira educação liberal, a atividade essencial do estudante é relacionar os fatos aprendidos num todo unificado e orgânico."
O cultivo das artes liberais é, em suma, um trabalho sobre si mesmo. Um trabalho exigente, paciente e silencioso. Não visa produzir imediatamente riqueza, fama ou prestígio.
E poucas tarefas são mais necessárias e sérias hoje do que essa.
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Referência
Professora Ana Paula Barros
Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).
Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.
Totus Tuus, Maria (2015)

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