Gilmore Girls e o Patrimônio Cultural
A tessitura discursiva de Gilmore Girls relaciona-se com o chamado ethos cômico presente em uma das personagens, Lorelai. É um recurso narrativo, por vezes cansativo, com ironia, ridículo e hipérbole. Esse recurso narrativo se tornou a marca da série e da forma de comunicação dos anos 90: com frases rápidas, ágeis, em fluxo de pensamento, tanto quando escritas como quando faladas.
O humor na série tem função catártica por transmutar as diversas tensões familiares e sociais em comicidade. É um mecanismo também muito frequente para esconder ou fugir, o que torna a série um prato cheio para análises psicológicas das características de cada geração. Lorelai aproxima-se da figura clássica do eirón, o ironista que, ao censurar e desmascarar os excessos, torna-se um espelho crítico da sociedade ou de si mesma. Ironia e hipérbole são os recursos da geração dos anos 90, em geral.
Os diálogos acelerados, a ponto de causar dor de cabeça, são saturados de pressuposições e alusões intertextuais. Lorelai, que rejeita o conservadorismo dos pais, vê Rory buscar reinserção nesse universo por meio da educação, num movimento de retorno que reflete o ciclo de ruptura e retorno característico das dinâmicas geracionais. A geração mais nova sempre está pronta a fazer o oposto da geração dos pais, porque cresce vendo os pontos positivos e negativos. Como o negativo sempre tem maior força, infelizmente ou felizmente, a geração mais nova busca fazer o contrário.
As referências culturais da época ajudam a entender, de forma mais ampla, o cenário dos anos 90 retratado na série. No campo musical, Sonic Youth aponta para o desencanto urbano e a fragmentação da experiência moderna, enquanto The Bangles parecem querer resgatar o espírito lúdico e efervescente dos anos 80 e 90. Também existe a presença do rock alternativo, com sua recusa ao mainstream, e do folk, que sempre está ligado à busca de si e à contestação. Um cenário musical muito característico da época.
Já no âmbito cinematográfico, alusões a Pulp Fiction mostram a percepção fragmentada e pós-moderna dos anos 90, enquanto The Godfather funciona quase como uma metáfora das tensões de poder e tradição. The Breakfast Club traz a ideia da juventude em crise e a contestação das normas sociais.
Essas alusões não são acidentais, são parte constitutiva do roteiro e, se vistas com atenção, dizem muito sobre a qualidade do trabalho de roteiro da série, já que é uma chuva de menções culturais em meio ao caos que vai se instalando na história dos personagens. Assim, é justo que, ao revisitar a série, jovens contemporâneos encontrem uma narrativa sobre relações familiares, mas também um retrato de uma geração que viveu a cultura pop como uma linguagem comum, um meio com uma riqueza tão grande de referências combinadas que só hoje podemos olhar e ficar assombrados.
O que me leva ao ponto que chama muito a atenção na série: o patrimônio cultural.
A primeira lição é que o patrimônio cultural de uma pessoa não impede que ela faça burrada. Nas primeiras temporadas de Gilmore Girls, os livros citados surgem como elementos estruturantes da identidade de Rory e como recurso para a formação intelectual. Obras clássicas e contemporâneas aparecem em suas mãos ou são mencionadas nos diálogos, instaurando uma atmosfera em que a leitura é valorizada como prática cotidiana, o que tornou a série interessante, já que os livros criavam um roteiro paralelo ao roteiro principal. Esse recurso narrativo funcionava como estímulo cultural, encorajando jovens espectadores a reconhecer na literatura um espaço de pertencimento e de construção crítica. Esse elemento é o que torna Rory interessante.
Com o avançar das temporadas, entretanto, esse repertório literário vai rareando ou tomando um papel coadjuvante. À medida que os enredos se concentram nos caminhos românticos das personagens, os livros cedem espaço, diminuindo a densidade que conferiam à narrativa. Essa mudança é uma perda significativa para o espectador, pois reduziu o potencial de incentivo à leitura que a série havia instaurado em seus primeiros anos. Interessantemente, isso acontece quando a própria Rory fica desinteressante, um tanto perdida, e o brilho da personagem vai sumindo de uma forma estranha de assistir.
A sensação, infelizmente, é de alguém que poderia ser tudo e não foi. Já que o ter, ela tinha. Essa percepção de decadência é uma repetição, que deveria ser ainda mais brutal se o roteiro permanecesse com a roteirista original, da suposta decadência da mãe de Rory. Essa decadência está ligada às expectativas da própria pessoa e dos pais.
Voltando aos livros. Esse apagamento de sua presença coincide com a crescente presença dos dispositivos digitais. Celulares, computadores e outros aparatos tornam-se mais visíveis, mostrando de forma muito interessante (e certamente sem ser o objetivo principal) a transição cultural dos anos 2000, em que a leitura tradicional perde protagonismo diante da mediação tecnológica. É realmente interessante ver o uso de diferentes dispositivos à medida que são lançados pela série, desde Walkman até MP3 e YouTube. A série virou uma espécie de acervo, um curioso acervo.
Rory, como vimos, é apresentada como uma leitora voraz, alguém que encontra na literatura tanto refúgio quanto legitimidade social, e que constrói sua personalidade a partir desse gosto genuíno pela leitura.
Na primeira temporada, essa identidade é delineada por títulos como Na Estrada (On the Road) de Jack Kerouac, A Redoma de Vidro (The Bell Jar) de Sylvia Plath, Madame Bovary de Gustave Flaubert, O Sol é para Todos (To Kill a Mockingbird) de Harper Lee e Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice) de Jane Austen. A curadoria inicial mostra uma leitora de clássicos da literatura universal e obras que tematizam identidade, liberdade e dilemas existenciais. Esse repertório inicial estabelece Rory como personagem que busca algo de si em narrativas literárias.
A segunda temporada mostra Rory ainda na literatura clássica, como As Aventuras de Huckleberry Finn (Huckleberry Finn) de Mark Twain e poemas de Yeats, e obras contemporâneas, como A Sujeira (The Dirt) e Segredos da Carne (Secrets of the Flesh). Essa oscilação coincide com a própria Rory, que começa a oscilar entre tradição e modernidade.
Na terceira temporada, há uma mistura entre cânone literário — Faulkner, Fitzgerald, Yeats — e literatura juvenil, como Deenie de Judy Blume. Essa combinação reforça Rory como leitora de amplitude cultural, mas também espelha sua própria fase de transição entre adolescência e vida adulta, ou ainda sua involução, já que a Rory mais nova passa a ser mais madura que a Rory mais velha, a partir dessa temporada.
A quarta temporada marca uma virada: Rory já está na universidade e as referências literárias se tornam mais densas e acadêmicas. Predominam clássicos do século XIX, como Tolstói, Flaubert e Hawthorne, e autores modernistas como Plath, Eliot e Cheever. Essa seleção consolida a imagem de uma leitora sofisticada, porém instável. Aqui começam os primeiros sinais do intelectual instável que tem em si mesmo o seu maior inimigo.
Na quinta temporada, o repertório filosófico e político se intensifica, com obras de Orwell, Tolstói, Dostoiévski e Woolf. Há uma clara ênfase em textos que discutem poder, sociedade e identidade, refletindo a fase universitária de Rory e sua inserção em debates mais densos e existenciais. Ou seja, sua progressiva instabilidade. É nessa temporada que começamos a não encontrar mais a Rory que fez a série. Claro que isso também tem relação com as questões administrativas do roteirista e diretor, o casal Paladino. Mas, em resumo, nessa temporada temos uma Rory perdida, um pouco estúpida, que perdeu, como diria o Chapeleiro Maluco, “sua muiteza”.
A sexta temporada marca a entrada de obras contemporâneas e pós-modernas, como McEwan, Lahiri, Hosseini e Sebold, refletindo o contexto cultural dos anos 2000. Rory é a personagem que condensa essa mudança, sinalizando também uma transição da série para um repertório mais próximo das inquietações contemporâneas. Ou seja, instável, aloprada, meio perdida tentando dar certo, tudo isso com boas notas e uma cabeça de gênio sabotado por si e pelo meio.
Por fim, a sétima temporada (já com outro roteirista) retoma o cânone clássico e filosófico, com obras de Dostoiévski, Camus, Kafka, Steinbeck e Dante. Numa tentativa de salvar Rory dela mesma. Essa seleção final reforça o caráter erudito, mesmo em meio ao declínio das menções literárias, também numa tentativa tardia de reconectar a narrativa ao repertório intelectual que a consagrou.
Esse percurso literário abre espaço para uma questão crítica e para a segunda lição: é difícil determinar se Rory foi moldada pelos livros que leu e, por isso, caminhou para sua derrocada; ou se ela leu porque estava extremamente confusa e buscava na literatura respostas para suas inquietações; ou ainda se a série é, ao que parece, um retrato final das atitudes das pessoas da idade dela nos anos 90, incluindo sua personalidade e seus erros.
Talvez sejam todas as alternativas anteriores. Mas a terceira nos interessa, já que quem tem meados de 40 anos sabe que foi justamente assim: mentes brilhantes em derrocada e salve-se quem puder. Rory condensa essa sensação de sucesso e derrocada dessa geração. Formada em Yale, jornalista em um jornal americano e em um jornal inglês, ela é bem-sucedida, mas por algum motivo não é suficiente ou não é isso. Ela então se torna repórter da cidade em que nasceu. Essa questão não é um problema, não está aí a derrocada. A questão é que, no roteiro original dos Paladino, apesar de ter feito um caminho completamente diferente da mãe, ter cumprido todo o protocolo, Rory termina por replicar a mãe. É curioso notar como a autossabotagem é quase um personagem com vida própria na série e esta aqui o que nomeio como "derrocada".
¹Ana Paula Barros
Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).
Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.
Totus Tuus, Maria (2015)

1 comments
A paz de Jesus Cristo, Ana Paula! Excelentes livros! Li a maioria que estão no vídeo. Estudar, aprender e ensinar é acima de ser uma obrigação, uma benção, uma alegria, grande prazer no sentido puro e cristão da palavra. Glória ao Pai! Paz e Bem :)
ResponderExcluirOlá, Paz e Bem! Que bom tê-lo por aqui! Agradeço por deixar sua partilha.